Há 30 anos, Carlinhos “acertava” o Fla, que vencia o Vasco e reagia na Copa União

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No automobilismo, há pilotos que se notabilizam pela perfeita percepção dos pontos fortes e fracos de suas máquinas na pista e que utilizam de sua larga experiência para colaborar no desenvolvimento delas, a fim de melhorar o rendimento. São os chamados “acertadores” de carros. No futebol, tal termo poderia ser aplicado de modo bem apropriado a Luiz Carlos Nunes da Silva, o Carlinhos, técnico que iniciava seu primeiro período longevo como técnico do Flamengo há exatos 30 anos.

Sob seu comando, de voz mansa e jeito aparentemente tímido, que fizeram com que em muitas vezes seu conhecimento, capacidade e habilidade como treinador fossem subestimados, o time rubro-negro, que vivia um princípio de crise, venceu o Vasco por 2 a 1 numa grande atuação no Maracanã em 20 de setembro de 1987, em jogo válido pela segunda rodada do primeiro turno da Copa União, o Campeonato Brasileiro daquele ano.

UM TIME EM MAU MOMENTO

O Flamengo chegava à disputa da Copa União – torneio do qual fora um dos criadores – num período turbulento. Dirigido por Antônio Lopes, o time perdera o bicampeonato carioca ao ser derrotado pelo Vasco com um gol do ex-rubro-negro Tita na decisão disputada no início de agosto. Enfrentara o rival quatro vezes naquela competição e não marcara um gol sequer (três empates em 0 a 0 antecederam a derrota na final). Em seguida partira para uma excursão pelo México, voltando com um desempenho repleto de altos e baixos.

O elenco também havia passado por algumas modificações: se por um lado, Lopes não fizera objeções à saída de Adílio (que deixava a Gávea após quase uma vida inteira no Flamengo, transferindo-se para o Coritiba), outro veterano ídolo, Nunes, retornava após dois anos e meio rodando por Náutico, Santos, Atlético-MG e o Boavista português. Na defesa, para o lugar de Mozer, negociado durante o Carioca com o Benfica, o Fla repatriava outro veterano, o ex-tricolor Edinho, vindo da Udinese. O zagueiro, no entanto, acabaria barrado por Lopes logo ao chegar, numa tentativa de indicar que, com ele no comando, ninguém jogaria pelo nome.

Ainda havia outro problema físico, este de caráter mais definitivo: o jovem lateral-esquerdo Adalberto, que havia ficado quase um ano de fora do time por uma séria lesão provocada por uma entrada desleal num jogo pelo Brasileiro de 1986, retornara na reta final do Carioca. Mas num amistoso contra o Bahia na Fonte Nova, a seis dias da estreia na Copa União, voltara a se contundir com gravidade, desta vez sozinho, sem previsão de retorno. Para a partida contra o São Paulo, no domingo, 13 de setembro, o treinador preferiu improvisar, deslocando o zagueiro Aldair para o setor.

ESTREIA DESASTROSA NO BRASILEIRO

Foi uma escalação bastante estranha, a que Lopes levou a campo contra o perigoso São Paulo, que vinha de conquistar o Paulistão semanas antes. Na zaga, em vez dos experientes Leandro e Edinho, estavam os jovens, mas inconstantes, Guto e Zé Carlos II. Na esquerda, o técnico e sóbrio, mas improvisado, Aldair. No meio-campo, o jovem Flávio, recém-contratado após se destacar no Carioca pelo Olaria, ocupava a cabeça-de-área, enquanto Andrade jogava mais à frente, como um armador. E à frente, um quarteto ofensivo formado por Zico, Renato Gaúcho, Nunes e Bebeto sugeria talvez ofensividade demais para uma equipe de resto desbalanceada.

E, em campo, acontece o que a escalação indicava: o Flamengo ataca constantemente, mas é engolido no meio-campo pelo São Paulo, que resolve o jogo em menos de 20 minutos graças a duas jogadas de Müller pela ponta, no setor do improvisado Aldair, e ainda conta com uma generosa cota de milagres de seu goleiro Gilmar (que mais tarde jogará na Gávea) durante toda a partida. Quando Lopes tenta consertar o estrago, colocando os garotos Leonardo na lateral e Zinho no meio-campo (no lugar de Flávio), já é tarde demais para reagir. Apesar do péssimo resultado, no entanto, os dirigentes evitam fazer críticas ao trabalho do técnico, e mesmo os pedidos pela sua saída entre a torcida ainda são um tanto tímidos.

Na manhã seguinte, no entanto, para a surpresa geral, Lopes pede demissão. Alega se sentir sem respaldo dentro do clube, e também sabe que a diretoria está dividida quanto à sua permanência, assim como ele próprio está ciente de que não conta mais com o apoio irrestrito da torcida. Além dele, o preparador físico Carlos Alberto Lancetta também deixa a Gávea. Imediatamente, como sói acontecer, as especulações a respeito de seu substituto começam a pipocar. Os eternos Zagallo e Nelsinho Rosa eram os principais cotados, com Edu Coimbra, irmão de Zico, e Carpegiani correndo por fora, com menos força.

Para piorar, a contratação do meia-armador Osvaldo – ex-Grêmio e Ponte Preta, e que estava no Santos – acaba cancelada na terça-feira, quando era dada como certa, depois de o jogador já ter sido apresentado à torcida e realizado exames médicos. Há controvérsia sobre o motivo da desistência: segundo o presidente Márcio Braga, o clube paulista teria exigido a redução do prazo de pagamento pelo passe do jogador. Mas houve quem afirmasse que a verdadeira razão seria um problema crônico no joelho.

SEMANA DE SURPRESAS

Aquela não seria a única reviravolta da terça na Gávea. Contrariando os rumores, o Flamengo anuncia um nome que sequer havia sido especulado para o cargo de treinador. E ele já está lá mesmo na Gávea. É o ex-volante Carlinhos, ídolo do clube nos anos 60, e que assume o time pela terceira vez, e pela primeira como técnico efetivo, após duas passagens como interino – a última delas naquele mesmo ano de 1987, justamente entre a demissão de Sebastião Lazaroni (agora no Vasco) e a contratação de Antônio Lopes.

“Nas vezes anteriores ainda me sentia inseguro. Mas agora assumo a responsabilidade sem qualquer temor. Acho mesmo que chegou o momento de me firmar como técnico de um time profissional e nada melhor que o Flamengo”, afirma o novo comandante com sua voz mansa, mas discurso decidido, de currículo vitorioso na base rubro-negra e que acaba sendo escolhido depois que Nelsinho é descartado por problemas médicos e Zagallo por não ser unanimidade entre os cartolas.

Durante o treino da quarta-feira, seu primeiro no comando do clube, Carlinhos começa a ensaiar mudanças. Depois de colocar os titulares com a mesma formação que havia perdido para o São Paulo, e ver os reservas saírem na frente com um gol de Kita, interrompe a atividade e mexe as peças: Leandro e Edinho entram na zaga; o garoto Leonardo assume a lateral-esquerda no lugar do improvisado Aldair. E Zinho substitui Nunes para compor o meio-campo, deslocando Bebeto para o comando do ataque. Mais encorpado, o time principal cresce de produção.

Outra mudança ambicionada – a entrada de Aílton no meio-campo no lugar do volante Flávio para que Andrade volte a atuar mais recuado, à frente da zaga – ficaria para a atividade do dia seguinte. Mas na entrevista após seu primeiro treino, o novo treinador já evidencia o jeito simples e objetivo com o qual encara a organização da equipe: “O Aldair tem que atuar de zagueiro. É ali que ele se sente à vontade e tem alegria para jogar. Só vou escalá-lo em sua posição. Posso experimentá-lo com Leandro ou mesmo com Edinho”, disse sobre o defensor, que chegou a ser cogitado por Lopes para atuar no meio-campo.

CLÁSSICO À VISTA

A mudança no ambiente – até então carregado desde a demissão do supervisor Isaías Tinoco, antes mesmo da saída de Antônio Lopes – é nítida com a chegada de Carlinhos, e ele próprio se sente mais confiante e desinibido, a ponto de brincar nas entrevistas. O elenco também sente que a maré poderá virar a seu favor. “Todo clássico é difícil e não se pode garantir a vitória, mas o Flamengo a partir de agora será outro”, afirma Andrade.

Do outro lado, pelas bandas de São Januário, a semana começa ainda ecoando o excelente resultado cruzmaltino da primeira rodada: no domingo, o clube vencera de maneira categórica um bom time do Bahia em plena Fonte Nova por 3 a 0, três gols do jovem artilheiro Romário. Mas o astral começa a mudar ao longo daqueles sete dias que antecedem o clássico. Ao saber que Carlinhos é o novo técnico rubro-negro, Lazaroni franze a testa e pressente o perigo: “Eles vão jogar como nunca. Vamos ter de jogar com muito cuidado porque o Flamengo vai querer resolver seus problemas contra nós”.

Na quarta-feira, três jogadores vascaínos aparecem gripados. E na quinta, Romário é internado por conta de uma misteriosa gastroenterite. Mas numa última cartada para tentar abalar o Flamengo, o vice-presidente de futebol do Vasco, Eurico Miranda, anuncia na véspera do jogo a contratação de Osvaldo, o meia rejeitado na Gávea, embora não possa ir a campo no clássico por não estar regularizado.

No domingo, os dois times entram em campo. O novo Flamengo de Carlinhos alinha pela primeira vez juntos Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, o garoto Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho. Volta a experiência à zaga, combinada com a vitalidade e a força no apoio dos laterais. Andrade retorna à sua posição preferida, à frente da defesa. Zinho reveza as jogadas de linha de fundo com o auxílio no meio-campo. Uma escalação aparentemente mais equilibrada.

O Vasco também leva um time forte ao jogo: Acácio no gol, Paulo Roberto e Mazinho nas laterais, Fernando e Donato no miolo de zaga, Henrique na cabeça da área, Geovani e Luís Carlos Martins de armadores, Roberto Dinamite retornando do comando do ataque para exercer uma função semelhante à de Zico no Flamengo, lançando para Vivinho e Romário, que jogam abertos, entrando em velocidade pela diagonal. Henrique e Luís Carlos Martins são os substitutos de Dunga e Tita, negociados com o futebol europeu, enquanto Vivinho joga no lugar de Mauricinho na ponta.

E A BOLA ROLA

O jogo começa movimentado, e o Flamengo tem a primeira chance logo nos minutos iniciais quando Jorginho recebe de Andrade, vai à linha de fundo e cruza de pé esquerdo, mas Fernando corta antes de a bola chegar a Acácio. O Vasco aparece pela primeira vez num lance irregular: após cruzamento de Paulo Roberto, Zé Carlos sobe com Romário e soca para fora da área. Roberto disputa a bola com Andrade e empurra escancaradamente o volante rubro-negro. O árbitro manda o jogo seguir, e o camisa 10 cruzmaltino tenta o cruzamento rasteiro, mas Leandro afasta.

Os goleiros trabalham bem logo depois: Renato recebe de Andrade e avança pela esquerda até a linha de fundo, passa por Fernando e cruza alto, mas Acácio aparece antes de Bebeto para segurar. Do outro lado, Geovani recebe de Henrique, limpa a jogada e bate para Zé Carlos espalmar por sobre o travessão. O Vasco volta a assustar em dois escanteios seguidos. Paulo Roberto cobra pela ponta direita com veneno, dois vascaínos raspam de cabeça, mas Leandro aparece para afastar pela linha de fundo. No lance seguinte, pelo outro lado, Geovani levanta, Mazinho desvia e Zé Carlos salva quase sobre a linha.

Ponta-direita de origem, Renato brilha por todos os lados do ataque, fazendo ótimas jogadas também pelo lado esquerdo. Numa delas, Zinho desce por aquele lado e rola para trás. O gaúcho solta a bomba que passa muito perto do gol de Acácio. E logo em seguida, por ali mesmo, sai a jogada do primeiro gol rubro-negro: aos 31 minutos, mesmo combatido por Geovani, que tenta até segurá-lo pelo braço, Renato dribla e avança até a linha de fundo. O cruzamento, alto, encobre Fernando e encontra a testa de Bebeto, que agora sim se antecipa a Acácio e desvia para o fundo das redes. Flamengo 1 a 0. É o fim da invencibilidade de dez jogos do goleirão cruzmaltino.

Geovani, bom de bola e ruim de cabeça, estará no centro das atenções dali a alguns minutos. Faz uma grande jogada partindo do círculo central e descendo pela meia direita, enfileirando rubro-negros, cai, levanta e continua a jogada até que Edinho chega e toma a frente, protegendo a jogada. O meia vascaíno então agarra o zagueiro do Fla, e os dois caem. No chão, o camisa 8 da Colina acerta o primeiro soco da noite no rosto do defensor. O clima esquenta de vez, num festival de empurrões e dedos na cara. Restaurado o futebol, o Vasco ainda assusta em boa jogada de Vivinho, que chuta forte. A bola acerta o travessão e sobe. Fim do primeiro tempo.

O GOL FANTASMA

Logo aos três minutos da etapa final, Vivinho também participará do lance mais polêmico do jogo. O ponta recebe de Luís Carlos pelo lado direito, corre até a linha de fundo e cruza para Roberto Dinamite desviar. A bola bate na trave, no corpo de Zé Carlos e corre por sobre a linha, até que o goleiro rubro-negro a recolha. A torcida do Vasco grita gol, o bandeirinha Rubens de Souza Carvalho corre para o centro do campo, Roberto aponta para ele. E o árbitro Aloísio Felisberto da Silva, que inicialmente havia deixado o lance seguir, cede às pressões e inacreditavelmente dá um gol em que a bola claramente não entrou. Os vascaínos ganham o gol no grito.

A revolta rubro-negra é geral. Furioso com a marcação, Zé Carlos atira a bola ao chão, certo de que ela não havia entrado. Renato e Jorginho vão para cima do bandeira e são contidos por Edinho, que conversa com o auxiliar. Depois de mais de nove minutos de paralisação, o gol fantasma é validado. Vida que segue. Logo no primeiro lance após a bola voltar a rolar, o Fla desperdiça a chance de reação imediata num lance cruel: Jorginho dá a Renato na ponta direita, e o camisa 7 cruza. Acácio sai para abafar, mas a bola sobra nos pés de Bebeto, de costas para o gol. Sem ter como finalizar, o atacante passa a Zico. A bola, porém, pega uma rosca e o Galinho, quase debaixo da trave, apenas resvala, e ela sai pela linha de fundo, raspando. O camisa 10 cai dentro do gol, atônito, não acreditando no que tinha acabado de acontecer.

O jogo esfria. Lance de perigo só mesmo aos 27 minutos, quando o azar vai dar as caras do lado de lá: é a vez de Romário perder um gol inacreditável, na pequena área, finalizando fraco e mascado após cruzamento de Fernando. O Fla tem Renato querendo jogo, infernal pelas duas pontas. Já o Vasco tenta puxar contra-ataques com Luís Carlos pelo meio. E num deles, aos 37, Geovani volta a ficar na berlinda: enquanto Luís Carlos é travado em falta de Zico perto da área rubro-negra, o camisa 8 vascaíno corre em direção a Edinho e lhe acerta, pelas costas, o segundo soco da noite. Delatado pelo mesmo bandeirinha que validara o gol do Vasco, o meia cruzmaltino enfim é expulso.

O Flamengo parte para sua primeira alteração, mas é atrapalhado pela confusão do quarto árbitro: Carlinhos pretendia tirar Zinho para a entrada de Nunes. Mas a placa erguida na lateral do campo é a do número 9 – o de Bebeto, que sai de campo contra a vontade do treinador. Acabariam escrevendo certo por linhas tortas. Logo depois, Edinho deixa definitivamente o campo – com um enorme hematoma no olho direito e o osso malar daquele lado fraturado – substituído por Aldair (no dia seguinte, Bebeto também apareceria no clube de olho inchado após uma cabeçada de Geovani recebida durante o jogo). O Vasco também mexe: o experiente ponta Zé Sérgio entra no lugar de Vivinho, enquanto o volante Josenilton substitui Luís Carlos.

NO FIM, A VITÓRIA

Quando a bola é reposta em jogo, num chutão de Acácio rebatido do outro lado por Leonardo, vem o lance que decide a partida. A bola sobra para Donato na lateral direita do campo de defesa do Vasco. Acossado por Nunes, o zagueiro recua e gira, mas o controle lhe escapa. Zinho chega como um foguete e toma a frente, partindo em direção à linha de fundo. Até ser parado num carrinho duro e imprudente de Paulo Roberto no limite da área. Enquanto os cruzmaltinos ensaiam uma reclamação, os jogadores do Flamengo correm para abraçar o ponteiro, que dá uma sobrevida ao time no último fôlego. É pênalti.

Zico, que tivera atuação discreta até ali, chama a responsabilidade e se apresenta para a cobrança. Acácio aparece para tentar catimbar, mas a conversa entre os dois é mais cordial. “Sou profissional. Farei de tudo para defender este pênalti. Mas, no fundo do coração, torço por você”, confessou o arqueiro. O chute sai forte, seco, bate na trave e entra. Zico abraça Acácio. E a massa rubro-negra comemora a vitória no fim. Não há mais tempo para quase nada. Pouco mais de um minuto depois, o árbitro encerra o jogo, e o Flamengo respira. Carlinhos começa seu trabalho com o pé direito.

Apesar de a vitória que valeu como revanche sobre o arquirrival levantar de novo o ânimo do elenco, o Flamengo ainda oscilará ao longo do primeiro turno, em grande parte pelos desfalques acumulados. No jogo seguinte, contra o Santos no Pacaembu, por exemplo, já não terá Leandro, Edinho (afastado até o fim daquela etapa) e Bebeto, e ainda perderá por uma partida o zagueiro reserva Aldair, expulso no segundo tempo. Zico também ficará vários jogos de fora na virada dos turnos.

Mas bastará Carlinhos escalar de novo aquele onze mágico – Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato, Bebeto, Zinho, as peças certas nos lugares certos, como gostava o treinador – na partida contra o Palmeiras no Maracanã, no dia 7 de novembro, para o Fla voltar a brilhar, vencer categoricamente por 2 a 0 e iniciar ali sua arrancada rumo ao título da Copa União. Dali em diante, ninguém segurou mais.

FLAMENGO 2 x 1 VASCO

Maracanã (Rio de Janeiro), domingo, 20 de setembro de 1987
Campeonato Brasileiro (Copa União), primeira fase, primeiro turno
Público: 28.682 – Renda: Cz$ 2.740.710
Árbitro: Aloísio Felisberto da Silva
Cartões amarelos: Leandro, Bebeto, Aílton, Jorginho (FLA); Roberto (VAS)
Expulsão: Geovani (VAS), 37 do 2º tempo.

Gols: Bebeto aos 31 (1-0) do primeiro tempo. Roberto aos 4 (1-1) e Zico, de pênalti, aos 44 (2-1) do segundo tempo.

Flamengo: 1. Zé Carlos; 2. Jorginho, 3. Leandro, 5. Edinho (13. Aldair), 4. Leonardo; 6. Andrade, 8. Aílton, 10. Zico; 7. Renato Gaúcho, 9. Bebeto (15. Nunes), 11. Zinho. Técnico: Carlinhos.

Vasco: 1. Acácio; 2. Paulo Roberto, 3. Fernando, 4. Donato, 6. Mazinho; 5. Henrique, 8. Geovani, 9. Luís Carlos (15. Josenílton); 7. Vivinho (16. Zé Sérgio), 10. Roberto Dinamite, 11. Romário. Técnico: Sebastião Lazaroni.

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O épico título carioca de 1927 e o surgimento da mística da camisa rubro-negra

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Entre titulares e reservas, uma formação rubro-negra da reta final do campeonato de 1927, desfalcada do craque Moderato. Da esquerda para a direita: Amado, Hélcio, Nonô, Chrystolino, Frederico, Hermínio, Rubens, Fragoso, Agenor, Seabra, Vadinho e Benevenuto.

Pai fundador da crônica esportiva brasileira moderna e grande contador de histórias do Flamengo, Mario Filho gostava de explicar o nascimento do mito da camisa rubro-negra, a que joga sozinha, utilizando-se da trajetória do time rumo ao título carioca de 1927, levantado há exatos 90 anos. Na magistral pena do jornalista, aquela conquista ganhava ares de fábula, de épico. Há de se dizer, porém, que ao contrário do que possa parecer, ou seja, que o feito teria sido supostamente engrandecido pela prosa do cronista, não há na verdade exagero nenhum: a história foi exatamente daquele jeito – um épico, uma fábula.

A equipe que sequer disputaria a competição naquele ano por ver imposta contra si uma suspensão injusta. Que viu seu elenco se dispersar, tomar outros rumos, afastar-se da bola, e depois retornar aos poucos, em busca da forma perdida. Que, quando enfim foi a ela permitido competir, andou desacreditada desde o início, inferiorizada, sofrendo goleada que quase arrasou seu terreno. Que perdeu seus principais nomes em momentos cruciais da campanha, mas nem assim esmoreceu – apenas para vê-los retornar na hora mais crucial de todas. Essa equipe, por fim, foi campeã na raça, no coração, chegando junto, com os jogadores se multiplicando em campo. Um título de lutadores.

No começo, porém, os sinais eram bem diferentes. Nos principais prognósticos acerca do torneio daquele ano, o Vasco despontava como o maior favorito ao título. No ano anterior, quando mandou muitos de seus jogos no campo rubro-negro da Rua Paissandu, a taça lhe escapara por pouco. Agora, com o aporte financeiro da rica burguesia lusitana que integrava sua torcida, construíra e inaugurara um portentoso estádio, o de São Januário, o maior do Brasil. Outro favorito era o America, que também abrira os cofres, mas para montar um time com reforços escolhidos a dedo. “Um verdadeiro ‘scratch’ (seleção)”, comentava a imprensa da época.

Campeão de 1926, o São Cristóvão tinha a missão de provar que seu título inédito não havia sido obra do acaso. Ainda estavam lá os mesmos jogadores e o treinador Luiz Vinhaes, com seus rigorosos métodos de treinamento e preparação física. O Fluminense de Preguinho e Fortes, e o Botafogo de Nilo corriam por fora na briga, mas com talento suficiente para não serem ignorados como candidatos. Mas, e o Flamengo? “O Flamengo não tem time”, diziam.

O CASO PAULISTANO

O estádio rubro-negro da Rua Paissandu em dia de jogo contra o Vasco: no centro da briga que quase tirou o Fla do campeonato.

De fato, o Flamengo esteve perto de não ter mesmo time, no sentido literal. Até poucas semanas antes de a bola rolar, sua participação no certame esteve ameaçada. O motivo remete ainda ao fim do ano anterior e a uma briga nascida no futebol paulista. O Paulistano, uma das forças bandeirantes, havia sido expulso da Associação Paulista de Sports Athleticos por denunciar o chamado “amadorismo marrom”, prática que acobertava o pagamento de prêmios e salários a atletas, o que era rigorosamente proibido no regime amador puro, e que cada vez mais avançava tanto em São Paulo quanto no Rio.

Ocorre que Flamengo e Paulistano mantinham muito boas relações vindas de longa data. Em 1925, quando realizara sua célebre excursão à Europa, que chamou a atenção internacional para o futebol brasileiro, o time de Arthur Friedenreich contou com três ex-jogadores rubro-negros – o goleiro Julio Kuntz, o médio Seabra e o atacante Junqueira. Agora, fins de 1926, o clube paulista se via numa situação complicada: havia acertado amistosos contra equipes argentinas, mas, com a punição, não tinha onde enfrenta-los em sua cidade. E pediu ao Flamengo que lhe cedesse o campo da Rua Paissandu.

A Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (Amea), entidade que regia o futebol carioca, proibiu a cessão e ameaçou punir o Flamengo, referendando a medida de sua equivalente paulista, caso os jogos se realizassem. Mas, em nome da amizade com o Paulistano, o Rubro-Negro manteve sua palavra e não voltou atrás. O caso chegou à Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que decidiu, na véspera do Natal de 1926, pela suspensão do Flamengo por um ano.

A decisão foi fortemente criticada na imprensa e tachada de exagerada, de ter motivações pessoais, além de expressar uma profunda incoerência das entidades, agora rigorosas com as leis, mas que haviam burlado, cada qual em seu caso, suas próprias legislações. A Amea havia escalado o goleiro Batalha, não regularizado, para um jogo da seleção carioca contra a mineira. Já a CBD havia convocado jogadores do próprio Paulistano para o Campeonato Sul-Americano mesmo depois de o clube ter sido expulso pela Associação paulista. Cheirava a hipocrisia, moralismo de fachada.

A DEBANDADA

A perspectiva de um ano inteiro sem campeonato para disputar significava o desmantelamento do elenco rubro-negro. Muitos jogadores simplesmente deixaram a bola de lado e, amadores que eram, voltaram a se dedicar a seus empregos como funcionários do comércio, bancários, professores, médicos, advogados ou mesmo estudantes. Numa conversa informal com amigos mencionada pelo jornal O Imparcial, o centroavante Nonô, ídolo e artilheiro dos campeonatos de 1923 e 1925, declarava em fevereiro daquele ano que em hipótese alguma voltaria a jogar futebol.

Houve também quem preferisse seguir a carreira de jogador em outro clube, como o atacante Aché, que após ser convidado para defender o Botafogo em alguns amistosos, decidiu se transferir definitivamente para o Alvinegro em março. Ou o zagueiro Pennaforte, o “menino de ouro”, titular indiscutível da defesa, que saiu por motivo controverso, simbolizando bem as transformações pelas quais o regime amador passava na época. De casamento marcado, o jogador pediu ao clube que o ajudasse comprando a mobília de quarto para sua casa nova. Sem dinheiro, o Flamengo recusou. E o zagueiro acabou aceitando uma transferência para o America, que prometera atender seu pedido.

Houve ainda inúmeros casos de jogadores rubro-negros que, na inatividade, foram sondados por outros clubes. O goleiro Amado, que ano após ano vinha se colocando como um dos melhores – senão o melhor – da posição no futebol carioca, foi especulado no Vasco em janeiro e no America no mês seguinte. E o zagueiro Hélcio, outro destaque da equipe, esteve perto de se juntar a Pennaforte na defesa rubra. Felizmente, nenhum deles engrossou a lista de baixas da Rua Paissandu.

O goleiro Amado Benigno, um dos grandes nomes da posição na história rubro-negra e também do futebol carioca e brasileiro em seu tempo.

No entanto, mesmo com a punição já decretada e aplicada, havia no íntimo de todos os demais dirigentes, jornalistas e torcedores cariocas a convicção de que a suspensão poderia ser revertida. Quando nada porque a ausência do Flamengo era um baque para o campeonato, em vários sentidos. Inclusive no financeiro – mesmo num regime em tese amador. Em nota publicada já no dia 5 de janeiro de 1927, o jornal O Imparcial fazia as contas “a bico de pena” e comentava que, ao deixar de jogar o torneio, o clube perdia cerca de 100 contos de réis. Mais: os demais clubes também tinham prejuízo, calculado em torno de 500 contos de réis, ambos os valores representando verdadeiras fortunas para a época.

Assim, um clima de apreensão tomou conta do meio futebolístico da cidade naqueles primeiros meses de 1927. Por volta de meados de março, como quem não queria nada, o Flamengo chamou seu elenco – ou o que havia sobrado dele – para treinamentos semanais. Aos poucos, os jogadores foram se apresentando: Amado, Benevenuto, Flávio, Fragoso, Moderato. E foram trazendo outros, como o jovem médio Alemão, vindo de Niterói como possível reforço para o segundo quadro (espécie de time reserva ou de juniores). Quando, no fim daquele mês, a movimentação para tentar fazer com que a CBD suspendesse a punição se intensificou, dois ex-jogadores do Bangu chegaram para reposição de elenco: o ponta-direita Chrystolino e o curinga Américo Pastor, que já havia jogado até de goleiro, mas no Fla se fixaria na meia-esquerda.

No dia 31 de março, os demais clubes da primeira divisão da Amea e a Associação dos Cronistas Desportivos remeteram juntos um apelo à entidade para que a pena imposta ao Flamengo fosse cancelada. No dia 5 de abril, o pedido era encaminhado ao conselho deliberativo da entidade. E no dia 22, após reunião muito concorrida, os dirigentes da CBD decidiam por unanimidade pelo cancelamento da punição, aproveitando ainda para elogiar a serenidade e a disciplina com as quais o clube enfrentara todo o desenrolar do processo.

O COMEÇO ACIDENTADO

O time que bateu o São Cristóvão por 2 a 1 na Rua Paissandu pela terceira rodada do campeonato, em foto da revista “O Malho”.

Veio então a disputa do Torneio Início, realizado nas Laranjeiras em 24 de abril, no qual o Flamengo, depois de ter derrotado o Villa Isabel, seria eliminado em seu segundo jogo, perdendo no número de escanteios para o São Cristóvão após empate sem gols no tempo normal. E em 1º de maio começaria enfim o campeonato. Na análise prévia do torneio, o jornal O Imparcial destacava os pontos fortes e fracos de todos quase os concorrentes, colocava o Vasco como o postulante mais forte ao título e fazia ressalvas em relação ao Flamengo: “O rubro-negro carece de linha média e os próprios forwards [atacantes], com excepção de dois elementos, não inspiram grande confiança”.

Villa Isabel e Andarahy, os dois primeiros adversários, não representavam grandes desafios, mas a falta de coesão da remendada equipe rubro-negra fez as coisas se complicarem um pouco. Na primeira partida, o time abriu 2 a 0 diante do Villa Isabel, sofreu o empate e só a partir da metade do segundo tempo engrenou até conquistar uma tranquila vitória por 5 a 2 (enquanto isso, o Vasco demonstrava sua força surrando o pobre Sport Club Brasil por 11 a 0). Na segunda rodada, contra o Andarahy no estádio do adversário, o Fla contou com uma tarde inspirada do centroavante Fragoso, autor dos três gols na vitória por 3 a 2 – mas no intervalo, o placar marcava empate em 1 a 1.

Contra o São Cristóvão, equipe mais qualificada e detentora do título, o Flamengo sofreu mais. Mesmo jogando em casa, foi pressionado pelos cadetes em quase todo o primeiro tempo. Hélcio, enfim estreando no campeonato após longa inatividade, comandava a defesa. Na volta do intervalo, logo aos três minutos, Chrystolino bateu forte, Balthazar defendeu e, após confusão na área, Fragoso apanhou o rebote e chutou para abrir o placar. Mais tarde, em bola alçada para a área rubro-negra, Arthur empatou de cabeça. Mas logo no minuto seguinte, quando o time alvo pressionava pela virada, a defesa do Fla espanou uma bola que parou no meio-campo. Agenor recolheu e partiu em contra-ataque fulminante até a área, batendo cruzado para vencer o arqueiro adversário e garantir a terceira vitória.

Para uma equipe de tão poucos destaques individuais como aquela do Flamengo, perder um deles para um jogo importante como um clássico era um grande baque. Perder um goleiro como Amado, pela posição e pelo jogador que era – considerado o melhor arqueiro do futebol carioca – só aumentava a preocupação. Havia ainda outro agravante no caso do Botafogo, adversário da quarta rodada na Rua Paissandu: os alvinegros estavam com o Flamengo atravessado na garganta desde agosto do ano anterior, quando os rubro-negros haviam aplicado uma humilhante goleada de 8 a 1, a maior já registrada no clássico até então.

Foi uma tarde particularmente desastrosa para o garoto Egberto, goleiro do segundo quadro do Flamengo que substituía Amado. O Botafogo abriu a contagem com Ariza, aos oito minutos, e disparou a marcar. Quando Moderato descontou para o Fla pela primeira vez, aos 28, o Botafogo já vencia por 6 a 0. Ao fim, venceriam por 9 a 2, igualando a diferença de gols da goleada rubro-negra do ano anterior. O placar foi recebido com assombro. E ao Flamengo, restou juntar os cacos mais uma vez.

Uma semana depois, haveria a longa e cansativa viagem de trem para enfrentar o Bangu, adversário sempre difícil na Rua Ferrer. O ex-banguense Chrystolino aproveitou centro de Moderato e abriu o placar para os rubro-negros logo aos três minutos, mas Ladislau da Guia empatou de pênalti aos 11 e virou aos 15, levando os donos da casa em vantagem para o intervalo. Na etapa final, o Flamengo foi outro: Chagas tornou a empatar, Fragoso marcou duas vezes e Chrystolino voltou a balançar redes para fechar a contagem em 5 a 2. Foi a injeção de ânimo que o time precisava para as duas próximas batalhas contra o Fluminense nas Laranjeiras e o Vasco na Rua Paissandu.

Amado prepara-se para defesa na partida contra o São Cristóvão.

O Fluminense era o líder isolado do certame ao receber o Flamengo naquele 12 de junho nas Laranjeiras. Acabara de vencer a quinta partida em cinco rodadas ao bater o mesmo Botafogo que havia goleado os rubro-negros. E tinha no gol o arqueiro Batalha, que no ano passado havia deixado o Flamengo brigado em plena disputa do campeonato para atravessar a Rua Guanabara (atual Pinheiro Machado) e se juntar aos tricolores ao final do torneio. Já pelo lado do Fla, mais um jogador retornava à equipe: o médio Seabra, jogador experiente, de Seleção Brasileira, ainda que um pouco fora de forma devido à inatividade.

Mas seria outro jogador experiente, de Seleção, o grande artífice do triunfo rubro-negro: o ponta-esquerda gaúcho Moderato, estudante de Engenharia, craque e “garçom” daquele time. Num contragolpe, aos 27 minutos do primeiro tempo, ele passa pelo médio tricolor Nascimento, arranca, espera Chagas, o centroavante, entrar na área e cruza com perfeição geométrica para o atacante marcar o único gol do jogo. O outro destaque foi a defesa: Amado, elegante, valente e preciso nas intervenções. Hélcio, uma barreira intransponível na zaga. Hermínio, perfeito no jogo aéreo, afirmando-se a cada partida.

CONTRA O VASCO, UMA ATUAÇÃO HISTÓRICA

A vitória colocou o Flamengo de novo na briga: Fla, Flu, Vasco e Botafogo estavam agora empatados na liderança do torneio, e a partida contra os cruzmaltinos dali a uma semana na Rua Paissandu ganharia ainda mais importância. Mas, para variar, haveria um desfalque. Chagas, o autor do gol da vitória contra os tricolores, lesionara-se e estaria de fora do outro clássico. Restava ao Flamengo apostar suas fichas em seu substituto, um meia-direita do segundo quadro chamado Vadinho.

O jogo contra o Vasco foi uma das atuações históricas do Flamengo nos tempos do amadorismo. Mesmo sendo a partida disputada no estádio rubro-negro da Rua Paissandu, os cruzmaltinos eram apontados como francos favoritos: “Analyzando-se jogador por jogador, conjunto por conjunto, o quadro do Vasco da Gama, com excepção de dois elementos (Amado e Moderato, que aliás foram a differença do team), era todo superior à equipe rubro-negra”, escreveu O Paiz. Mas teriam pela frente uma “estupenda, magistral e assombrosa actuação” do arqueiro do Flamengo.

Desde o início o Vasco pressionou a retaguarda rubro-negra, mas saiu atrás no marcador aos 22 minutos, quando Moderato desceu pela ponta esquerda, passou pelo médio Nesi e cruzou. A defesa rebateu, mas Vadinho, o substituto de Chagas, testou para abrir a contagem. E tome pressão vascaína, afastada por Amado, Hermínio, Hélcio e quem mais aparecesse. Mas aos 37, a bola outra vez cai aos pés de Moderato, que repete a jogada do primeiro gol: passa por Nesi, vai à linha de fundo e centra. Vadinho, outra vez, aparece para cabecear longe do alcance do goleiro Nelson, ampliando a contagem em favor do Fla.

Mesmo em desvantagem, o Vasco procurava não se desesperar, tentando encontrar a melhor maneira de furar a barreira rubro-negra. Mas deixava sua defesa exposta. Aos seis minutos, foi salvo pela arbitragem, que anulou inexplicavelmente o que seria o terceiro gol do Flamengo quando, mais uma vez, Moderato foi à linha de fundo e cruzou para Fragoso, que vinha de trás, tocar para as redes. O juiz Homero Mesquita, do Andarahy, invalidou o lance sem motivo aparente.

O meia-direita Vadinho, grande carrasco dos cruzmaltinos.

E seria em novo contra-ataque, após intenso bombardeio da linha cruzmaltina, que o Flamengo mataria de vez a partida. Moderato, do meio-campo, encontra Vadinho com um lançamento primoroso. O atacante avança e bate na saída de Nelson, que ainda toca na bola, mas não consegue evitar o gol. O terceiro do substituto. O terceiro na vitória de um Flamengo brioso e letal, que deixava o rival para trás e se firmava na ponta da tabela, ao lado do Botafogo.

A partida com o Vasco foi de tamanha simbologia que foi a ela que Mário Filho se referiu para contar a saga do título de 1927 em seu livro Histórias do Flamengo. “Tinha havido um jogo com o Vasco, o Vasco sem sair da porta do gol do Flamengo, o Amado pegando tudo. O Flamengo deu quatro ataques, três a zero porque o gol mais bonito foi anulado. O Vasco não se conformou: time era o do Vasco, o Flamengo não tinha time. E o Flamengo, então, concordou que não tinha time, embora tivesse Amado no gol, Hélcio de beque e Fragoso e Vadinho lá na frente para fazer os gols. O Flamengo, era o que dizia grave e enfaticamente o pessoal do [Café] Rio Branco [tradicional reduto rubro-negro no centro da cidade], não precisava de time para conquistar o campeonato. Bastava-lhe a camisa. Onze paus de vassoura com camisa do Flamengo seriam irresistíveis”, escreveu o cronista.

“Vale lembrar que o Vasco tinha uma equipe poderosa, muito melhor do que a nossa”, confirmou o ponteiro rubro-negro Moderato, muitos anos mais tarde, em entrevista de 1982 ao jornal O Globo. “Naquele dia, o Vasco nos bombardeava. E Amado Benigno defendia tudo. Nosso time conseguia se superar. Hermínio, Hélcio, Benevenuto e Flávio Costa caíam em campo de tanto esforço. Eu mesmo, naquele dia, estava com a saúde comprometida. Mas era preciso ganhar”.

Moderato jogara toda a partida sentindo fortes dores na barriga. Ao fim do jogo, foi levado a um pronto socorro, onde seria operado em caráter de emergência de uma apendicite supurada, que poderia tê-lo levado à morte. A notícia correu a cidade, e o feito virou mais um exemplo da valentia daqueles jogadores. O ponta, no entanto, ficaria fora de ação por três meses. Era mais um sério obstáculo a ser enfrentado pelo time rubro-negro.

O ELENCO: UM COBERTOR CADA VEZ MAIS CURTO

Em princípio, o Flamengo superou bem a ausência de seu principal atacante diante do fraco adversário da rodada seguinte, o Sport Club Brasil. Nem mesmo quando o clube da Praia Vermelha empatou o jogo na metade do primeiro tempo imaginava-se que os rubro-negros deixariam de vencer. E o triunfo veio com goleada de 6 a 1, quatro gols de Fragoso e outros dois de Chagas, de volta à equipe. O resultado, aliado ao empate entre Vasco e Botafogo, levou o Flamengo pela primeira vez à liderança isolada do campeonato, algo absolutamente impensável ao início da temporada.

Na partida seguinte, no entanto, faltou ímpeto ao ataque rubro-negro diante do America em Campos Salles quando, depois de sair perdendo por 1 a 0 na etapa inicial e conseguir empatar no começo do segundo tempo, não aproveitou o momento favorável, sofrendo ainda mais dois gols rubros, perdendo por 3 a 1. Menos mal que a derrota do Botafogo para o São Cristóvão e o empate entre Fluminense e Vasco ajudaram a manter o Flamengo na liderança ao fim do primeiro turno.

Na abertura do returno, no dia 10 de julho, o Fla voltaria a ter dificuldades na visita ao Villa Isabel: embora dominado, saiu na frente do placar por duas vezes, mas cedeu o empate. Somente nos três minutos finais é que marcaria mais dois gols, vencendo por 4 a 2. Mas a atuação incisiva, mesmo com os desfalques, na vitória por 3 a 1 diante do Andarahy na Rua Paissandu uma semana depois representou um alento quanto à forma da equipe: “O vanguardeiro não está disposto a ceder a ponta”, escreveu O Imparcial.

Após uma suada vitória por 1 a 0 diante do modesto Sport Club Brasil, na Praia Vermelha, no entanto, a liderança rubro-negra seria ameaçada na visita ao São Cristóvão em Figueira de Melo. Além de enfrentar a pressão do time da casa num estádio de atmosfera comumente hostil e o vento forte que soprava contra seu campo de defesa em todo o primeiro tempo, o Flamengo ainda seria prejudicado com a anulação de um gol legal de Fragoso, após cruzamento da direita de Chrystolino. O árbitro Lippe Peixoto marcou toque de mão inexistente do ponteiro, antes de ele cruzar para a cabeçada do centroavante.

Aos 30 minutos, Teófilo abriu o placar para o São Cristóvão. Prejudicado também pela má forma física de alguns veteranos que retornavam após longa inatividade, como os médios Seabra e Japonês (este, improvisado na ponta-esquerda), o Flamengo sairia para o intervalo em desvantagem. Na volta, porém, empataria com Chrystolino, que recebeu de Vadinho e fuzilou o goleiro Baltazar. O empate manteve os rubro-negros na liderança graças ao tropeço do Fluminense, que também ficou no 1 a 1 contra o Bangu nas Laranjeiras. Mas o gol mal anulado de Fragoso na primeira etapa impediu que a vantagem do Flamengo na ponta aumentasse.

Intervenção decisiva de Amado no empate em 1 a 1 contra o São Cristóvão no alçapão de Figueira de Melo. Foto da revista “O Malho”.

Ainda que alguns veteranos retornassem aos poucos, o elenco rubro-negro era exigido ao máximo e sofria seguidas baixas. Na zaga, Roseira já vinha ocupando o lugar ora de Hermínio, ora de Hélcio nos últimos jogos. Contra o Botafogo em General Severiano, na rodada seguinte, ele é que teria de deixar o campo, substituído por um improvisado Ludovico, médio de origem. Além dele, Flávio Costa precisou entrar no segundo tempo no lugar do lesionado Rubens, que vinha fazendo boa partida na linha média.

O Flamengo abriu o marcador com Newton logo no início, sofreu a virada alvinegra para 3 a 1, mas foi buscar a igualdade na metade do segundo tempo, com dois gols de Vadinho. Porém, as falhas defensivas originadas das improvisações acabariam custando o ponto: três minutos depois do empate, Ariza aproveitou bobeada de Ludovico, Amado defendeu o chute, mas Nilo aproveitou o rebote para marcar o quarto. E já nos minutos finais, em contra-ataque, o mesmo Nilo marcaria o quinto, fechando o placar. Com a vitória do Fluminense por 4 a 3 diante do Brasil na Urca, o Fla acabaria ultrapassado pelos tricolores na ponta da tabela.

NA RETA FINAL, DOIS RETORNOS DECISIVOS

No dia 14 de agosto, o Flamengo bate o Bangu por 2 a 0 na Rua Paissandu, com gols de Fragoso e Newton ainda no primeiro tempo e retorna à ponta, junto com o Fluminense, após o empate deste com o Botafogo por 1 a 1 em General Severiano. E assim, igualados, eles chegariam ao confronto direto, o Fla-Flu do returno, em 21 de agosto no campo rubro-negro.

E do embate igualados também sairiam: empate em 1 a 1, com o Fla abrindo o placar com Agenor e o Flu empatando um minuto depois com Lagarto. A novidade é que teriam agora também a companhia do Vasco na ponta, após a vitória cruzmaltina sobre o Bangu por 4 a 0. Um ponto atrás vinha o America, também entrando de vez na briga, a duas rodadas do fim.

É quando entra em cena um reforço inesperado e decisivo para o Rubro-Negro, anunciado na edição de 2 de setembro do jornal O Imparcial: o centroavante Nonô, velho artilheiro e ídolo rubro-negro que no início do ano havia decidido parar com o futebol, estava de novo treinando com seus companheiros e seria escalado para a partida contra o Vasco. Não estava de todo fora de forma porque havia cumprido sua promessa apenas pela metade: continuava batendo sua bolinha no torneio da liga bancária e comercial, disputado por funcionários desses setores.

O jogo contra os cruzmaltinos também seria histórico por outro motivo: era o primeiro confronto oficial de competição entre os dois rivais a ser disputado no novíssimo estádio de São Januário. Belo pretexto para uma grande exibição dos rubro-negros. E ela veio, materializada na vitória por 2 a 1, em que o time esbanjou garra, superou suas limitações e controlou inteiramente o adversário, como conta O Imparcial: “No team vencedor houve bravura individual de todos os jogadores, sem excepção, de modo que a actuação de conjuncto resultou enthusiasta, impectuosa, digna da velha, tradicional coragem flamenga”.

Nonô, se não teve atuação tecnicamente brilhante, foi um líder empurrando o ataque rubro-negro. Acabou premiado com o primeiro gol da partida, numa bomba de longe, rasteira, vencendo o goleiro Amaral. O Vasco até ameaçou reagir, quando Bolão recebeu de Russinho e bateu para empatar. Mas ainda antes do intervalo o Flamengo estaria novamente na frente: Vadinho, que havia marcado os três gols do confronto do primeiro turno, percebeu uma brecha na defesa cruzmaltina e chutou forte, voltando a estufar as redes do rival no jogo.

Na etapa final, com o médio Benevenuto excepcional na destruição dos ataques cruzmaltinos, o Vasco não conseguia entrar na defesa rubro-negra (o goleiro Amado foi pouco acionado durante a partida). Os donos da casa tiveram então de recorrer às bolas alçadas para a área pelo médio Nesi, para que, na confusão, alguém empurrasse para o gol. Mas o Flamengo não teve grande dificuldade em conter a pressão estéril do time adversário e conquistar uma vitória maiúscula no imponente estádio do clube da comunidade lusitana e que – melhor ainda – afastava de vez o rival da briga pelo título carioca.

Na última rodada, disputada em 18 de setembro, três times ainda sonhavam com a conquista do campeonato: Flamengo e America, que se enfrentariam na Rua Paissandu, mais o Fluminense, que corria por fora e enfrentava o Vasco ali do lado, nas Laranjeiras, mas de olhos e ouvidos no que acontecia no vizinho estádio rubro-negro.

O Fla só dependia de si para levantar a taça. O America seria campeão direto se vencesse os rubro-negros e o Flu não conseguisse derrotar o Vasco. Já os tricolores não tinham chance de conquista imediata: precisando, antes de tudo, bater os cruzmaltinos, teriam ainda que torcer para o Flamengo não vencer. Dessa forma, em caso de empate na Rua Paissandu, Fla e Flu terminariam igualados na ponta. Já em caso de triunfo americano, os tricolores se igualariam a estes. Nos dois casos, seria disputada uma partida extra.

Logo no início do jogo, o Fla poderia ter saído em vantagem quando Nonô disputou uma bola com Pennaforte e chutou vencendo Joel num gol legal, aparentemente, mas que acabou anulado pelo árbitro Otto Bandusch, do Andarahy. Não teve importância. Poucos minutos depois, o gigantesco Nonô saltaria mais que a defesa rubra para completar de cabeça um centro da esquerda, abrindo o placar como fizera em São Januário duas semanas antes.

O autor do cruzamento seria mais um jogador que retornava ao time naquela reta final de campeonato. Era Moderato, ainda convalescendo da cirurgia de apendicite, com uma cinta sob o uniforme para segurar os pontos da cicatrização, em mais uma marca da raça daquela equipe. Sua atuação seria ainda coroada pela participação no segundo gol rubro-negro, marcado na etapa final: de seu pé esquerdo partiria um tiro cruzado, mistura de chute e centro, venenoso. Caprichosamente, a bola bateria em Pennaforte – o zagueiro que no início do ano trocara o Flamengo pelo America de maneira controversa – indo morrer lentamente nas redes de Joel. A torcida rubro-negra, que não perdoara a deserção do “menino de ouro”, sentiu-se vingada. Seria o gol do título.

No fim, ainda houve drama: Nonô se lesionou e teve que deixar a partida, substituído por Frederico. Era o esforço cobrando seu preço. O America se aproveitou e rapidamente descontou com Celso, passando a pressionar em busca do empate. Mas a defesa rubro-negra, o grande destaque da equipe naquele campeonato, voltaria a se destacar. Amado era intransponível. Hélcio e Hermínio, majestosos pelo alto ou por baixo. Benevenuto, um verdadeiro cão de guarda na linha média. Era o momento em que a raça transbordava ainda mais.

Ao apito final, os vencedores não se contiveram. De desacreditados, eram agora campeões. O Flamengo dera uma lição ao futebol carioca com sua “bravura moral, tenacidade, alegria de querer e de lutar” que eram “patrimônio e tradição” do clube, como citou O Imparcial. Com tudo contra, bastou erguer a camisa rubro-negra como uma bandeira de batalha. Puída, esfarrapada que fosse, foi ela quem prevaleceu no fim da história fabulosa e épica.

Julio Kuntz, colosso do gol rubro-negro

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Há uma controvérsia quanto à forma correta de se escrever seu nome: embora os historiadores do futebol brasileiro tenham eternizado a grafia “Kuntz”, com t, nas publicações de época também é encontrada de maneira igualmente recorrente a forma “Kunz”, dando a entender que a que se tornou padrão seria na verdade uma concessão gráfica à pronúncia alemã do “z” final. O que não se contesta de modo algum na trajetória do gaúcho Julio Kuntz (ou Kunz) Filho, nascido há exatos 120 anos, é sua excelência como goleiro, um dos maiores do futebol brasileiro em seu tempo e o primeiro fenômeno do gol do Flamengo – com o devido respeito ao pioneiro Baena, arqueiro rubro-negro na estreia futebolística do clube e dono da posição em seus dois primeiros títulos cariocas.

Dotado de agilidade e elasticidade impressionantes, Kuntz viveu o auge de sua carreira nas três temporadas completas em que defendeu o Flamengo, conquistando por duas vezes o Campeonato Carioca e outras duas o então prestigioso Torneio Início, além de vencer o Campeonato Sul-Americano de 1922 defendendo o gol da Seleção Brasileira. Mesmo que posteriormente tenha participado de outro feito histórico do futebol brasileiro – a lendária e triunfante excursão europeia do hoje extinto clube Paulistano, de Arthur Friedenreich – foi como jogador rubro-negro que o arqueiro tornou-se conhecido nacional e até internacionalmente, recebendo da imprensa argentina o apelido de “El Colosso”.

DO INTERIOR GAÚCHO À CAPITAL FEDERAL

Descendente de imigrantes alemães, Kuntz nasceu no interior gaúcho na área onde hoje fica o bairro de Hamburgo Velho, o qual daria origem mais tarde à atual cidade de Novo Hamburgo. Após iniciar a carreira no futebol local, foi para Porto Alegre em 1917 para defender o Grêmio, estreando no time principal do Tricolor em maio daquele ano. Em fins de 1919 viria para o Rio de Janeiro, então capital da República. Ao chegar, teve rápida passagem pelo gol do Silva Manoel Football Club, clube de vida curta sediado no Centro da cidade e que disputou só naquele ano o torneio da Associação Carioca de Sports Athleticos (entidade paralela à oficial Liga Metropolitana), antes de ser extinto e mais tarde refundado.

Paralelamente ao futebol e à profissão de empregado do comércio, competia pelo Flamengo em provas de atletismo pela Liga Metropolitana. Havia sido levado ao clube por um amigo que atuava pelo segundo quadro (espécie de time reserva) rubro-negro. Sua impressionante habilidade sob as traves, no entanto, só seria demostrada ao grande público no início da temporada de 1920, mais exatamente em 4 de abril, quando estreou em grande estilo pelo time de futebol do Flamengo.

Naquele dia foi disputado o Torneio Início, tradicional competição que marcava a abertura da temporada, com partidas eliminatórias de curta duração, cujo desempate era feito pelo número de escanteios. No estádio das Laranjeiras, o Flamengo fez seu primeiro jogo contra o Bangu, vencendo por 3 “córners” a 1, após empate em 0 a 0 no tempo normal. Na semifinal, o adversário foi o Mangueira, batido com tranquilidade por 3 a 0, em gols marcados ainda na etapa inicial. A decisão foi contra o São Cristóvão, derrotado por um gol de Carregal no segundo tempo.

O SURGIMENTO DO MITO

Considerado “o heróe da tarde” pelo jornal Gazeta de Notícias, o arqueiro gaúcho mereceu comentários bastante elogiosos da publicação, especialmente pela atuação na final: “A pugna foi ‘cavada’ de princípio a fim, assumindo o S. Christóvão domínio franco sobre o adversário no segundo tempo, quando Kuntz teve ensejo de se empregar com raro brilhantismo para livrar a sua cidadella de cerrados ataques, produzindo ahi difficíllimas defesas, que lhe valeram calorosos applausos da multidão. Ao keeper, que tão auspiciosa estréa fez hontem, deve o Flamengo não ter sido derrotado, aliás por um significativo score, tal foi o número de pegadas por elle praticadas e cada qual mais diffícil e mais linda”.

Assim, Kuntz era colocado como uma das armas do Flamengo para desbancar a hegemonia do Fluminense, tricampeão da cidade e que era apontado como candidato a um fabuloso tetracampeonato, enquanto os reforçados rubro-negros, juntamente com o America, eram tidos como seus maiores adversários naquela temporada. Depois de vencer bem seus dois primeiros jogos, contra o Villa Isabel e o Mangueira, o Flamengo teria pela frente dois confrontos cruciais justamente contra os tricolores, no dia 23 de maio, e os rubros, uma semana depois, ambos em seu estádio da Rua Paissandu. E o arqueiro gaúcho brilharia, sendo apontado como o melhor em campo no Fla-Flu (vencido pelo Flamengo por 2 a 1), e depois garantindo o empate em 0 a 0 com o America ao defender um pênalti cobrado por Perez.

A grande forma do início de temporada valeu a convocação para as partidas do “scratch” carioca contra os mineiros (valendo a Taça Delfim Moreira) e os paulistas (pela Taça Rodrigues Alves). No empate em 2 a 2 diante dos bandeirantes no campo da Floresta, em São Paulo, Kuntz foi o grande destaque, aplaudido entusiasticamente mesmo pelos torcedores locais. Na época, chegou-se a anunciar que as partidas também serviriam como base de observação para a formação de uma equipe que representaria o Brasil nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, no fim de agosto. Mas a Confederação Brasileira de Desportos acabou desistindo de enviar um time de futebol.

No entanto, havia outra competição importante para o “scratch” nacional em vista: o Campeonato Sul-Americano (atualmente denominado Copa América), a ser disputado em setembro no Chile, praticamente interrompendo a disputa do Campeonato Carioca por mais de um mês. No certame continental, o Brasil não fez grande campanha. Venceu apenas os donos da casa, por 1 a 0 na estreia, mas foi superado sem dificuldade nos dois jogos seguintes pelos uruguaios e argentinos, na época bem adiantados em relação aos brasileiros tanto no quesito técnico quanto em preparação. Mesmo assim, o arqueiro gaúcho deixou muito boa impressão, que seria confirmada no ano seguinte.

De volta ao Flamengo, Kuntz continuaria a colecionar grandes atuações, colaborando decisivamente na conquista invicta do Campeonato Carioca de 1920, o segundo troféu levantado pelo arqueiro no clube em sua temporada de estreia no futebol do Rio de Janeiro. O gaúcho foi vazado apenas 17 vezes nas 16 partidas em que atuou, número baixíssimo para uma época de jogo essencialmente ofensivo e de muitos gols.

O time que empatou com o Fluminense nas Laranjeiras por 2 a 2, garantindo o título invicto de 1920. Kuntz é o goleiro agachado. Os demais, da esquerda para a direita: Waldemar, Santiago, Rodrigo, Sydney Pullen, Sisson, Candiota, Junqueira, Dino, Telefone e João de Deus.

1921: BICAMPEONATO CARIOCA E CONSAGRAÇÃO INTERNACIONAL

Apesar da grande forma de seu goleiro continuar em 1921, o Flamengo teve problemas no início de sua campanha de defesa do título carioca: ao empatar em 1 a 1 com o São Cristóvão na Rua Paissandu e depois perder por 4 a 2 para o Bangu no alçapão da Rua Ferrer, o clube rubro-negro se colocou em desvantagem em relação aos principais adversários na briga pelo título. Mas aos poucos recuperaria o terreno perdido: já na terceira partida, uma goleada de 4 a 0 sobre o America recolocou a equipe nos trilhos.

Kuntz entra em ação de maneira brilhante novamente na importante vitória de 4 a 3 sobre o Fluminense nas Laranjeiras, em 29 de maio, com uma série espetacular de defesas que garantiram a vitória. Mas o Fla volta a se complicar com uma série de tropeços – entre 5 de junho e 7 de agosto, os rubro-negros empatam quatro de seus seis jogos, com uma vitória e uma derrota nas demais partidas. Num certame incrivelmente equilibrado (antes da penúltima rodada, entre os sete clubes participantes, apenas o Fluminense não tinha mais chances de título), o Flamengo precisou reagir e vencer suas duas últimas partidas (3 a 1 de virada sobre o Botafogo e 2 a 0 diante do Bangu) para terminar empatado em pontos com o America na liderança. Foi marcado então um jogo extra contra os rubros para o dia 4 de setembro, nas Laranjeiras.

O America abriu o placar num lance em que Kuntz, surpreendido por um chute do centroavante americano Chico, ainda tentou salvar, mas a bola já havia ultrapassado a linha. No entanto, o arqueiro se redimiria com algumas defesas espetaculares, incluindo uma em dois tempos após um petardo violento do mesmo Chico. O Flamengo empataria com um gol de Nonô, e venceria na prorrogação com um tento de Candiota. No fim, Kuntz lançaria mão de outro milagre para garantir o resultado, sendo aplaudido efusivamente e saudado pela imprensa como “um jogador extraordinário, de mil recursos (…), a alma do quadro rubro-negro”, como escreveu a Gazeta de Notícias. De nome firmado como o melhor goleiro do futebol carioca, Kuntz seguia incontestável no posto de titular da Seleção Brasileira que embarcaria para a Argentina disputar mais um Campeonato Sul-Americano.

O time que bateu o Bangu e se credenciou a disputar o título de 1921 com o America. Em pé: Nonô, Sydney Pullen, Dino, Candiota, Junqueira, Telefone (encoberto), Rodrigo e Orlando. Agachados: Santiago, Galvão Bueno e Kuntz.

Na estreia, contra os donos da casa, o Brasil viu-se em dificuldade desde o início: logo aos dez minutos o atacante Nonô, também do Flamengo, lesionou-se e teve que se resumir a fazer número em campo. Jogando diante de sua torcida, os platinos massacraram a defesa brasileira, mas Kuntz repelia os ataques um por um. Só não pôde evitar o gol de Libonatti, no primeiro tempo, mas registrou uma série de defesas magníficas (como um chute violento de Echeverría, aos 27 minutos), que o fizeram ser homenageado após o jogo. Conta O Paiz: “Ao terminar a partida, Kuntz foi carregado aos hombros por um conscripto e por um marinheiro, levando em suas mãos uma bandeira brasileira com que Tesorieri [arqueiro argentino] o obsequiara ao entrar em campo”.

A segunda partida seria contra os paraguaios. O Brasil venceria por 3 a 0, mas Kuntz teria trabalho, sendo acionado diversas vezes, inclusive ao defender uma finalização do médio (e futuro técnico rubro-negro) Solich quando já parecia batido, demonstrando agilidade e poder de recuperação. Novamente deixaria o campo aplaudido pela multidão. O terceiro e último jogo, entretanto, traria as piores recordações, especialmente em virtude da violência dos uruguaios e da arbitragem falha. A Celeste abriu o placar com Romano e mais tarde ampliaria num lance em que o goleiro brasileiro foi escandalosamente agarrado por Pendibene, deixando Romano novamente livre para finalizar. O Brasil ainda descontaria com Zezé, mas o resultado ficaria mesmo nos 2 a 1.

A Seleção terminaria o Sul-Americano como vice-campeã, superando uruguaios e paraguaios nos critérios de desempate, e atrás dos argentinos, que venceram as três partidas. Mas coube a Kuntz o reconhecimento maior. A imprensa platina o apelidou “El Coloso”, por suas exibições magistrais no gol brasileiro. O epíteto seria ainda utilizado para batizar um tango, composto pelo maestro Francisco Canaro em sua homenagem. Após o Sul-Americano, Kuntz embarcaria para seu Rio Grande do Sul natal, onde passaria férias. De volta ao Rio, receberia do clube uma medalha de ouro especial com o “CRF” gravado.

ENFIM, CAMPEÃO TAMBÉM COM O “SCRATCH”

A temporada de 1922 começaria para o Flamengo e para Kuntz com mais um título do Torneio Início, disputado em 26 de março. A campanha teve destaque especial pelos adversários enfrentados ao longo da campanha. Logo de saída haveria um Fla-Flu, e os rubro-negros sairiam na frente no primeiro tempo com Candiota. Na etapa final, o arqueiro gaúcho fez defesa magistral após rebater um forte chute de Welfare e, mesmo caído, chegar antes do atacante tricolor para espalmar para escanteio, impedindo o empate. No jogo seguinte, mais uma pedreira: o America, derrotado por 1 a 0, gol de Nonô.

A semifinal registraria um confronto histórico: pela primeira vez Flamengo e Vasco, os velhos rivais do remo, mediriam forças nos gramados. A partida foi muito disputada, chegando a ser violenta, em parte pela leniência do árbitro Eduardo Gibson – que, num lance, chegou a inverter um toque de mão de um jogador cruzmaltino apitando falta contra os rubro-negros. Mas o Fla marcou com Segreto, despachou o adversário, e avançou para a decisão contra o Andarahy, vencida sem dificuldade por 2 a 0. Era o quarto título oficial conquistado por Kuntz em seus três anos de clube.

O Flamengo campeão do Torneio Início de 1922. Kuntz, no chão, é o goleiro.

No Campeonato Carioca, que veio a seguir, o Flamengo brigou palmo a palmo pelo tricampeonato, mas teve o azar de perder Kuntz durante a partida contra o Fluminense disputada em 25 de junho no campo botafoguense de General Severiano e válida pelo returno. Lesionado após um choque com um jogador adversário, o goleiro teve que deixar o campo no intervalo, sendo substituído no posto pelo médio Dino. A lesão tirou o arqueiro gaúcho da partida crucial contra o America na Rua Paissandu, uma semana depois. Sem seu titular da meta, o Fla perdeu por 1 a 0. O resultado acabaria decidindo o campeonato em favor dos rubros, campeões superando o Flamengo por um ponto.

No dia 23 de julho, pela última rodada do Carioca, o Flamengo foi à Rua Ferrer e derrotou o Bangu por 3 a 2, com nova grande exibição de Kuntz. Na época não se sabia, mas aquela seria a última partida do arqueiro vestindo a camisa rubro-negra pelos próximos seis anos. Naquelas três temporadas em que o gaúcho fez parte de seu elenco, o Flamengo teve o arqueiro como titular no certame da cidade em 38 ocasiões, sofrendo apenas três derrotas. E não perdeu nenhuma vez para o Botafogo nem para o America em jogos válidos por aquele torneio.

Em setembro, como parte dos festejos do Centenário da Independência, o Brasil sediaria o Campeonato Sul-Americano daquele ano. Kuntz novamente marcaria presença, mas nas duas primeiras partidas da Seleção, contra Chile e Paraguai, o titular do gol foi o veterano Marcos Carneiro de Mendonça, do Fluminense. O time brasileiro parou em dois empates em 1 a 1. Adoecido, Marcos seria desfalque para os dois jogos finais, justamente os mais difíceis, contra uruguaios e argentinos. Havia nos bastidores a ideia de se chamar Kuntz para substituí-lo, mas, segundo o próprio arqueiro, a ele não chegou convite nenhum.

Foi mesmo por conta própria que o goleiro rubro-negro se apresentou para as duas partidas cruciais. E nelas, brilharia. Contra os uruguaios, entraria em ação várias vezes. “Vão os uruguayos ao ataque e Romano, ao receber optimo passe de Somma, emenda poderosamente. Parecia que a bola ia penetrar na rede, mas Kunz [sic] salva milagrosamente tão crítica situação com extraordinária pegada, sendo por isso alvo de acalorados applausos”, escreveu O Imparcial. Ao todo, foram impressionantes 37 defesas, entre elas uma cara a cara com o atacante Casanello, espalmada para escanteio.

Graças ao arqueiro, pela primeira vez a defesa brasileira passaria sem ser vazada. Apesar de empatar pela terceira vez em três jogos, o resultado manteria as chances da Seleção, que precisaria bater os argentinos no último jogo e aguardar os demais resultados. O Brasil venceria por 2 a 0 em jogo que dominaria as ações. Kuntz teve pouco trabalho, mas fez quatro defesas extraordinárias. Três dias depois, a derrota dos paraguaios para os argentinos provocou um tríplice empate entre Brasil, Paraguai e Uruguai. Com a desistência da Celeste, que reclamara bastante da arbitragem em seu jogo contra os guaranis, as outras duas equipes decidiriam o título em jogo extra.

Na finalíssima, Kuntz teve pouco trabalho. Ficou quase toda a partida encostado na trave, como um espectador privilegiado da vitória brasileira por 3 a 0, como descreve O Imparcial. Mas mostrou a segurança de sempre nas poucas vezes em que foi exigido. De qualquer forma, o título lhe fez justiça. Poucos jogadores da Seleção mereceram tanto aquela conquista quanto ele que, em torneios anteriores, brilhara tanto em equipes que estiveram sempre longe da taça e muitas vezes salvando o Brasil de derrotas ou goleadas mais contundentes. Agora era campeão e sem sofrer nenhum gol em suas três partidas.

Embora viesse de temporadas brilhantes, Kuntz passaria o ano de 1923 praticamente inativo. Primeiro Iberê e depois Amado, dois arqueiros jovens, ocuparam o posto de titular na equipe rubro-negra ao longo da temporada, na qual o clube terminou com o vice-campeonato carioca. Rumores de uma transferência para o Paulistano, equipe que vinha se colocando como praticamente imbatível no futebol de São Paulo, circulavam com frequência na imprensa e eram veementemente negados pelo goleiro. Curiosamente, mesmo sem atuar, ele seria convocado para a seleção carioca para a disputa do Brasileiro de seleções.

A SAÍDA DO FLA, O RETORNO E O FIM DA CARREIRA

No ano seguinte, voltaram as especulações de sua saída do Flamengo rumo ao futebol bandeirante, afinal confirmadas em março, quando se anunciou que Kuntz havia sido inscrito pelo Paulistano. Naquele mesmo ano, na capital paulista, o goleiro se casaria e passaria a tocar uma indústria de artefatos de alumínio, estabelecendo-se completamente por lá. Pelo clube, hoje extinto, Kuntz participou de uma excursão histórica do futebol brasileiro, em 1925, na qual o Paulistano viajou à Europa para enfrentar clubes e combinados franceses, suíços e portugueses, colhendo grandes resultados que repercutiram internacionalmente. Mais tarde, ainda defenderia o Ypiranga, também da capital paulista, e retornaria ao Rio em 1927, chegando a disputar amistosos pelo Vasco e a treinar no pequeno Andarahy.

Kuntz ainda voltaria ao Flamengo, já veterano para os padrões da época, disputando suas duas últimas partidas pelo clube – um amistoso contra o Vasco em 1929 e uma partida pelo Campeonato Carioca de 1931 contra o São Cristóvão – meio de improviso, quebrando galho. Mesmo assim, ainda impressionava: “A nota sensacional da tarde foi o reapparecimento de Kuntz no ‘goal’ do Flamengo. O grande arqueiro, embora destreinado, demonstrou ainda possuir grandes qualidades para a difícil posição. É um verdadeiro ‘gato’ na agilidade, sendo, pois, difícil vencê-lo”, escreveu o jornal Crítica, quando da partida contra os cruzmaltinos.

No ano seguinte ao último jogo já havia definitivamente pendurado as chuteiras, mas continuou no clube por um curto período na função de auxiliar técnico. Anos mais tarde, em 1938, ensaiaria uma volta ao esporte de modo curioso: candidatando-se ao quadro de árbitros da Liga de Football do Rio de Janeiro. Aprovado nos exames, não chegaria a se estabelecer na nova carreira. Adoecido, faleceria no fim de agosto daquele ano, dias antes de completar 41 anos de idade.

Os 70 anos de Dionísio, o “Bode Atômico”, artilheiro de testadas fortes e precisas

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Há versões conflitantes sobre quem teria apelidado o atacante Dionísio – que completaria 70 anos neste domingo, se estivesse vivo – de Bode Atômico. Alguns apontam o lendário locutor esportivo Waldir Amaral. Outros afirmam ter sido o cartunista e rubro-negro inflamado Henfil. Há ainda quem diga que o epíteto surgiu numa crônica de Luis Reis para o jornal O Dia. Mas o fato, o certo, o concreto é que o garoto do Flamengo causou sensação em seus primeiros anos no futebol carioca, no fim dos anos 60, pela força de suas cabeçadas. Leve, subia mais que os zagueiros e pairava no ar, antes de testar com raiva.

Nascido em Corumbá, no estado do Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul), Carlos Dionísio de Brito começou no futebol aos 14 anos, e pelo outro lado do campo, como goleiro no time juvenil do Noroeste de sua cidade. Num dia, devido à falta de atacantes, acabou improvisado e não saiu mais da posição. Do Noroeste, seguiu para o Motorista, outro clube amador corumbaense, onde seria observado pelo então técnico rubro-negro Armando Renganeschi durante uma excursão do Flamengo à cidade. Era 1966. Dois meses depois já estava na Gávea, levado por um amigo da família.

Na base do Fla, começou a se destacar pelas cabeçadas fortes e precisas, aliadas a uma impulsão fora do comum, que compensava a estatura mediana (1,77 metro). No colégio, ainda no Mato Grosso, vencia competições de salto sem ter o menor preparo para a modalidade. Na Gávea, seria campeão carioca de juvenis em 1967, seu primeiro ano completo no clube, numa linha de ataque que incluía o ponta-direita Zequinha (mais tarde, do Botafogo), o ponta-de-lança Luís Carlos (depois, do Vasco) e o ponta-esquerda Arílson. Dionísio sagraria-se também o artilheiro da competição com 23 gols – 15 deles de cabeça.

Embora seu futebol não se limitasse a isso (também sabia servir os companheiros de ataque com bons passes pelo alto ou pelo chão), foi essa característica que o levou à seleção carioca que disputou o Campeonato Brasileiro de Juvenis, merecendo elogios de Zagallo, técnico da equipe: “Joga simples e seu estilo se adapta a qualquer esquema. Tem também uma garra e uma disposição de jogo impressionantes, fazendo dele um dos pontas-de-lança mais valentes do Rio. Usa a cabeça para pensar e para fazer gols, sendo um dos melhores cabeceadores que vi jogar”, disse o Velho Lobo do garoto ainda por completar 20 anos, e que estrearia no time de cima do Flamengo no Torneio Início do Campeonato Carioca daquele ano, contra o São Cristóvão.

Nos juvenis do Fla em 1967: faixa de campeão, troféu de artilheiro e cabelo cortado ao estilo “reco” de quem prestava o serviço militar.

ARTILHEIRO EM CLÁSSICOS

A primeira partida de 90 minutos viria contra o Vasco na noite de sábado, 22 de julho, pela Taça Guanabara (na época, um torneio à parte do Campeonato Carioca). E Dionísio já se destacaria de saída, apesar da derrota rubro-negra por 4 a 3. Depois de o centroavante Ademar Pantera abrir o placar para o Fla com um golaço de bicicleta, Dionísio marcaria o segundo, aos 43 minutos da etapa inicial. Após cruzamento de Zequinha, o camisa 9 matou no peito, driblou Brito e tocou na saída do goleiro Franz.

Naquele momento, porém, o Fla havia acabado de perder o zagueiro Itamar, lesionado, ficando com dez jogadores em campo, já que naquele tempo as substituições de jogadores de linha não eram permitidas em jogos oficiais de competição. Além disso, levara a campo uma equipe inexperiente, repleta de juvenis promovidos (foi também a partida de estreia do meia e futuro lateral Rodrigues Neto). O Vasco se aproveitou de ambas as coisas e empatou com dois gols relâmpago, aos 43 e 45 do primeiro tempo, virando o placar no começo da etapa final.

Dionísio, porém, ainda daria uma sobrevida ao Fla marcando pela segunda vez, outra vez recebendo passe de Zequinha pelo alto e dominando no peito antes de fuzilar para as redes. Mas aos 33 minutos, Brito cobraria pênalti de Amorim em Nei para dar números finais ao jogo. Mas o garoto de Corumbá, novo candidato a dono da camisa 9 rubro-negra, deixou ótima impressão, aplaudido pela torcida ao fim do jogo.

Duas semanas depois, Dionísio voltaria a balançar as redes pelo time profissional do Fla, mais uma vez em um clássico. O Fla não tinha mais chances de conquistar a Taça Guanabara, mas bateu o Fluminense por 2 a 1 de virada, com grande atuação de sua garotada. O Flu foi para o intervalo vencendo com gol de pênalti de Rinaldo, mas na etapa final, numa jogada que lembrou a campanha do título de juvenis, Luís Carlos passou por vários adversários e entregou a Dionísio, que chutou forte para empatar. Minutos depois, a virada chegaria num incrível gol olímpico de Rodrigues Neto.

Assim como o início do ano, o segundo semestre de 1967 também foi muito ruim para o Flamengo, que cumpriu uma de suas piores campanhas no Campeonato Carioca. Mas Dionísio teve ótimo desempenho individual, mesmo entrando e saindo de um time bagunçado, que ainda trocaria mais uma vez de treinador, com o experiente Aimoré Moreira assumindo o posto de Modesto Bria.

Até o fim daquela temporada, o centroavante entraria em campo 16 vezes pelo Fla, marcando oito gols. E mais significativo ainda: seis deles em clássicos, incluindo em seus três primeiros Fla-Flus (além da já citada vitória por 2 a 1 pela Taça Guanabara, o Fla ainda venceria por 3 a 1 e 4 a 1 no Carioca, sempre com gols do garoto de Corumbá).

A LUTA POR UM LUGAR NO ATAQUE

A ascensão de Dionísio, entretanto, seria freada no início de 1968. A má temporada no ano anterior provocou diversas mudanças no elenco, entre elas o retorno do ídolo Silva, recomprado ao Barcelona, após empréstimo dos catalães ao Santos no segundo semestre. Houve também a volta de César, após o fim da troca por empréstimo por Ademar com o Palmeiras. Diante da excelente temporada de 1967 da antiga promessa rubro-negra com a camisa do Alviverde, a expectativa era a de que ele e o Batuta formassem a nova dupla de frente da equipe, indicando que Dionísio precisaria novamente brigar por seu espaço.

Em março, houve também a convocação para a Seleção Brasileira que disputaria o torneio pré-olímpico na Colômbia, no qual o atacante começou como titular da equipe, abrindo o caminho para a vitória por 3 a 0 sobre a Venezuela na estreia, balançando as redes após enfileirar vários adversários. Porém, uma lesão no jogo contra o Uruguai na primeira fase tiraria o garoto das partidas seguintes.

Assim, Dionísio só vestiria a camisa do Fla pela primeira vez naquele ano em 20 de abril, curiosamente contra o mesmo Fluminense que enfrentara em seu jogo anterior, em 16 de dezembro. E, para variar, balançou as redes pela quarta vez em quatro Fla-Flus disputados, mesmo entrando apenas no fim do jogo, substituindo César. O tento saiu aos 43 minutos do segundo tempo, na cobrança de um pênalti cometido por Valtinho em Rodrigues Neto, e decretou o placar final de 4 a 2 para os rubro-negros.

Era a sétima partida invicta dos rubro-negros no Fla-Flu, com cinco vitórias e dois empates, numa sequência que vinha desde outubro de 1966. Era também o quarto triunfo seguido do Flamengo no clássico, todos eles com gols de Dionísio. A série chegaria a nove jogos invictos e seis vitórias consecutivas até agosto de 1968, e só seria encerrada em outubro, quando o gol de mão de Wilton – que entraria para a história como um dos maiores erros de arbitragem da história do clássico – daria a vitória aos tricolores por 1 a 0 no duelo válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

CONTRA O VASCO, DE LETRA

Além dos Fla-Flus, Dionísio também marcou uma quantidade expressiva de gols diante de outro rival rubro-negro: o Vasco. E o mais marcante deles viria algumas duas semanas depois de seu retorno, em clássico disputado no feriado de 1º de maio, pela última rodada do turno do Campeonato Carioca, cuja história já foi contada aqui neste post. Os cruzmaltinos vinham embalados, líderes absolutos do certame naquela altura com 10 vitórias em 10 jogos, enquanto o Fla cumpria trajetória de altos e baixos naquela primeira parte da competição. A expectativa pelo clássico provocou a quebra do recorde de renda do ano até ali.

Em campo, o Vasco saiu na frente logo no início com gol de Bianchini em bola que o goleiro rubro-negro Marco Aurélio soltou. Empurrado pela torcida, o Fla reagiu e empatou numa cobrança de falta do meio da rua do zagueiro Onça ainda na etapa inicial. Mas o melhor, o gol da virada, ficou para o segundo tempo: recebendo cruzamento rasteiro da direita, Dionísio (que entrara no time titular na vaga do lesionado César) completou de letra para o fundo das redes. Uma pintura para encerrar a série vitoriosa dos rivais.

O retorno de César, no entanto, empurrou Dionísio de volta para a reserva. Mas não por muito tempo: ao fim do Estadual, o atacante niteroiense voltaria para o Palmeiras, agora contratado em definitivo, e por lá se tornaria ídolo, campeão e artilheiro, ganhando ainda o apelido “Maluco”. Enquanto isso, o garoto de Corumbá conquistava a posição a partir do início do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em setembro. Também teria início ali a melhor fase de sua carreira – embora nem sempre o time rubro-negro correspondesse.

GOLEADOR RUBRO-NEGRO NO ROBERTÃO

O time que bateu o Corinthians por 1 a 0 pelo Robertão de 1968 num Morumbi ainda em obras. Em pé: o massagista Luiz Luz, João Carlos, Onça, Guilherme, Carlinhos, Marco Aurélio e Paulo Henrique. Agachados: Valdir, Liminha, Dionísio, Silva e Rodrigues Neto.

O Fla fez campanha muito fraca em três das quatro edições do Robertão – a exceção foi a última, em 1970, quando terminou empatado na quinta colocação com o Internacional e brigou até o último jogo por uma vaga no quadrangular final. Em 1968, o clube venceu apenas duas de suas 16 partidas, marcando apenas 10 gols.

Os dois triunfos – contra o Cruzeiro de Tostão no Maracanã e o Corinthians de Rivelino no Morumbi – vieram em vitórias por 1 a 0, gol de Dionísio. No primeiro, em que os rubro-negros encerraram invencibilidade de mais de 30 jogos dos mineiros (a última derrota havia sido para o próprio Flamengo por 5 a 1 em amistoso em março), o centroavante escorou cruzamento da esquerda de Rodrigues Neto.

O centroavante marcou ainda nos empates com o Bangu (1 a 1) e a Portuguesa (3 a 3) no Maracanã e com o Atlético-PR (1 a 1) em Curitiba. Acrescentando o gol de honra na derrota por 2 a 1 para o Bahia em Salvador, chegamos à soma final de seis tentos: ou seja, 60% dos gols rubro-negros na competição saíram de seus pés – ou de sua cabeça.

1969, O MELHOR ANO DA CARREIRA

O bom desempenho individual no Robertão seria um prenúncio de sua melhor temporada vestindo a camisa rubro-negra, no ano seguinte. O Flamengo passava por mais algumas reformulações: Válter Miraglia cedia o posto de treinador a Tim, velha raposa do futebol, que retornava ao Brasil após dirigir o San Lorenzo.

O novo técnico empreendia ainda um trabalho de rejuvenescimento da equipe: Garrincha, que chegara ao clube já em fim de carreira em novembro do ano anterior, ficaria na Gávea apenas até abril, disputando apenas 20 partidas, em sua maioria amistosos. Outro jogador rodado que deixava o clube era o ídolo Silva, o Batuta, que faria o caminho inverso de Tim, aportando no Racing argentino. Enquanto isso, no meio-campo, Carlinhos preparava silenciosamente sua retirada dos gramados.

Se na defesa a experiência preponderava (o argentino Rogelio Domínguez no gol, os eternos Murilo e Paulo Henrique nas laterais e Onça e Guilherme – ou o uruguaio Manicera – no miolo de zaga), do meio para a frente a juventude dava o tom: o novo Flamengo teria o motorzinho Liminha na cabeça da área, atuando ao lado do curinga Rodrigues Neto, falso ponta-esquerda na temporada anterior.

Na frente, o ataque começava por uma promessa de ídolo, importada pelo novo técnico de seu ex-clube: o ponta-direita Doval, raçudo e técnico. Fio, ponta-direita no ano anterior, era remanejado para a ponta-de-lança, fazendo dupla com Dionísio no comando do ataque. E outro garoto campeão nos juvenis em 1966, o ponta-esquerda Arílson, era efetivado entre os titulares.

O Flamengo oscilou muito no começo do Campeonato Carioca, perdendo pontos que fariam falta mais adiante, mas engatou uma excelente sequência a partir do fim do primeiro turno que o colocou de vez no páreo pelo título. Dionísio não balançou as redes nas duas maiores exibições do time naquele certame: os categóricos 3 a 0 diante do Vasco na última rodada do turno (marcaram Rodrigues Neto, Liminha e Doval) e o histórico 2 a 1 no Botafogo no qual o voo de um urubu trazido por torcedores antes de a bola rolar anunciou o fim de um jejum de quatro anos sem vencer os alvinegros pela competição, fazendo com que o bicho fosse definitivamente adotado como mascote do clube (Arílson e Doval fizeram os gols naquela tarde).

O bom time do Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: o massagista Luiz Luz, Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

Porém era nos jogos renhidos, contra os retrancados times pequenos, que o centroavante garantia pontos preciosos para o Fla. Foi o Bode Atômico, por exemplo, quem garantiu a vitória de 1 a 0 sobre o Campo Grande na Gávea e o empate em 1 a 1 contra o Bonsucesso (chamado da época de “fantasma” dos grandes, dada a resiliência de seu esquema com cinco zagueiros) no turno. Foi ele também quem abriu o placar nos 2 a 0 diante de um Bangu traiçoeiro e arrematou, marcando o segundo gol, as vitórias pelo mesmo placar contra o São Cristóvão no turno e novamente o Bonsucesso e a Portuguesa no returno. Foi ele também quem, a 12 minutos do fim, manteve as esperanças do Fla na reta final cabeceando com raiva o gol do empate em 1 a 1 no clássico com o Vasco.

No jogo seguinte a este empate contra o Vasco Dionísio também marcou. Era a partida da penúltima rodada do returno diante do Fluminense. Para os tricolores, a vitória valeria o título antecipado. O Fla precisava vencer para levar a decisão para a rodada derradeira. O time das Laranjeiras abriu 1 a 0 com Wilton, e o Fla igualou com um golaço de Liminha, recebendo passe de cabeça de Dionísio. Três minutos depois, viria o lance decisivo para o desenrolar do jogo: Cláudio, em posição duvidosa, recolocaria o Flu na frente, e então o goleiro rubro-negro Domínguez sairia de seu gol e correria até o meio-campo para reclamar com o árbitro Armando Marques, que o expulsaria numa decisão até hoje envolta em controvérsia.

Com o ponteiro Arílson sacrificado para a entrada do goleiro reserva Sídnei, o Fla precisava reunir forças para reagir pelos mais de 50 minutos de jogo que restavam. E Dionísio ofereceu um alento, marcando o segundo gol rubro-negro com uma cabeçada no ângulo de Félix aos 16 minutos da etapa final. Mas a pouco mais de 10 para o fim da partida, num momento em que a pressão rubro-negra, mesmo com um jogador a menos, era quase esmagadora, o Flu encaixou um contragolpe e marcou o gol da vitória com Flávio.

Mesmo sem o título, Dionísio pôde comemorar sua afirmação como goleador, com 10 tentos anotados (cinco deles de cabeça) em 18 jogos no Carioca.  O bom momento seguiria pela Taça Guanabara, disputada após o Estadual. No mês de julho, o centroavante marcou em todas as cinco partidas disputadas pelo Fla. Balançou as redes de Campo Grande (dois gols de cabeça na vitória por 3 a 2), Botafogo (1 a 1, de cabeça), Bonsucesso (1 a 1, de cabeça), Bangu (um gol na derrota por 3 a 2) e Fluminense (o gol da vitória de virada por 2 a 1), sagrando-se o artilheiro da competição.

Para o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Flamengo se reforçou com dois jogadores de centro de ataque vindos do Vasco: o matreiro ponta-de-lança Bianchini e o rápido Nei, este trazido já com o campeonato em andamento. Em tese, a concorrência para Dionísio aumentaria, mas ele acabaria mantido como titular em 10 dos 16 jogos.

Os rubro-negros novamente fizeram campanha fraca no torneio, e o matogrossense marcaria com menos frequência que no ano anterior: apenas três gols. Dois deles, no entanto, foram significativos por darem duas das três vitórias do time no certame e principalmente pela força dos adversários derrotados. Primeiro o Palmeiras no Maracanã, numa partida em que o Flamengo dominava, mas o empate em 1 a 1 persistia, até o centroavante escorar de cabeça uma cobrança de escanteio de Luís Cláudio para decretar o triunfo rubro-negro.

O segundo jogo decidido com gol do Bode Atômico foi a primeira partida disputada pelo Flamengo em sua história no recém-inaugurado estádio do Beira-Rio, em Porto Alegre, no dia 26 de outubro daquele ano. O Internacional era na ocasião o ponteiro do Grupo A e tinha um time difícil de ser derrotado na capital gaúcha. Abriu o placar logo aos seis minutos de jogo com o meia uruguaio Lamas, e o Fla se assustou, mas conseguiu evitar uma contagem maior até o intervalo. Na etapa final, porém, veio a virada relâmpago rubro-negra, com gols de Bianchini aos nove e Dionísio aos 10. Seria o último gol do centroavante naquele ano, no qual se sagraria o artilheiro do clube, balançando as redes 29 vezes em 58 partidas, média de um tento a cada dois jogos.

A GRANDE TEMPORADA QUE PODERIA TER SIDO (E NÃO FOI)

Considerado permissivo demais para com o elenco, Tim seria substituído no comando no início de 1970 pelo linha-dura Yustrich, o Homão, ex-goleiro do clube nos anos 30 e 40. Ao retornar à Gávea, o novo treinador elogiou Dionísio, a quem elegeu o homem ideal para finalizar sua tradicional jogada de ataque esquematizada, conhecida como “cavadinha”. E de fato o novo Flamengo – ou Mengão 70, como foi apelidado na época – começou a temporada com a pontaria afiada.

Uma das formações do Mengão-70 de Yustrich, antes do jogo contra o Vasco pelo Torneio de Verão. Em pé: Murilo, Sídnei, Washington, Tinho, Zanata e Tinteiro. Agachados: Doval, Liminha, Dionísio, Fio e Arílson.

Em fevereiro, três atuações assombrosas pelo Torneio Internacional de Verão. A primeira, um 4 a 1 contra a seleção da Romênia que enfrentaria o Brasil dali a alguns meses na Copa do México. Sob os olhares de Pelé, Jairzinho e o então técnico da Seleção João Saldanha, presentes nas tribunas do Maracanã, Dionísio marcou o terceiro gol do Fla numa verdadeira pedrada.

No jogo seguinte, massacre sobre o Independiente argentino: 6 a 1 com dois de Dionísio, mais uma assistência para Doval. Por fim, os 2 a 0 contra o velho rival Vasco garantem a taça do quadrangular e a aclamação geral. Após a conquista, escreveu o Jornal dos Sports sobre o centroavante rubro-negro: “Veste com muita propriedade a camisa do Flamengo. Além de ser um atacante perigoso nos chutes e nas cabeçadas, demonstrou uma garra elogiável. O primeiro gol, saído dos seus pés para Liminha, mostrou bem esse fato”.

Cobiçado pelo Corinthians – o técnico Dino Sani considerava-o essencial para montar o esquema ofensivo alvinegro – o Bode Atômico seguia marcando gols: dois no São Cristóvão pela Taça Guanabara, um no Grêmio na vitória rubro-negra por 2 a 1 em amistoso no Olímpico. Até chegar a partida contra a Portuguesa, também pela Taça Guanabara, no Maracanã, no dia 22 de março. O Fla venceu por 2 a 1, gols de Liminha, mas saiu preocupado com uma contusão sofrida por seu centroavante, atingido por um pontapé quando rebatia uma bola na defesa e substituído no segundo tempo. No dia seguinte viria a péssima notícia: o caso era grave, e o jogador ficaria pelo menos um mês de fora.

O diagnóstico inicial, que constatava uma lesão no tornozelo, seria logo corrigido: o problema era no joelho direito. Enquanto o departamento médico do clube batia cabeça, o atacante ficava de molho, com a perna gessada, aguardando o sinal para resolver o dilema opera-não-opera que congelava sua carreira no auge. Ficaria quatro meses inativo, retornaria contra a mesma Portuguesa, agora pelo Campeonato Carioca, marcando dois gols de cabeça, mas voltaria a sentir o joelho no jogo seguinte, um Fla-Flu. Enfim operado para a extração dos meniscos, ficaria outra vez de molho até março de 1971. E nunca mais seria o mesmo.

COM AS SEGUIDAS LESÕES, O DECLÍNIO NO FLA

Naquela temporada de 1971, ruim para todo o time rubro-negro, o centroavante disputaria 14 partidas, marcando apenas dois gols (ambos no Bonsucesso), antes de ser emprestado ao Bahia para o Campeonato Brasileiro. Na Boa Terra, pouco jogaria, não marcaria nenhum gol e seria devolvido antes do fim do contrato devido às constantes lesões.

No começo do ano seguinte, Zagallo assumiria o comando do Flamengo, que teria o elenco profundamente modificado após o fiasco da temporada anterior. Doval retornaria de um empréstimo ao Huracán, e o time apresentaria um ataque reformulado, com o argentino agora pelo meio do setor, jogando ao lado de Caio, centroavante revelado no próprio clube. Nas pontas, Rogério e Paulo César Lima, o Caju. Para Dionísio, era como estar de volta a 1968, tendo que batalhar tudo de novo em busca de um espaço na linha de frente, só que agora com o cenário agravado pela ameaça constante das lesões.

Na Gávea, com a faixa de campeão carioca de 1972, Dionísio é o segundo da fileira da frente, entre Arílson e Rodrigues Neto. Na mesma fileira seguem Doval, Zé Mário, Zico, Fio e o lateral Aloísio.

Dionísio retornaria aos poucos, entrando em algumas partidas do Torneio do Povo e depois no segundo e terceiro turnos do Carioca, no qual o Fla finalmente encerraria seu jejum de sete anos. No Brasileiro, atuaria em apenas 10 jogos (quatro como titular), mas balançaria as redes pelas últimas vezes com a camisa rubro-negra. Primeiro no clássico diante do Vasco, em 8 de outubro, recebendo lançamento de Zanata para correr e fuzilar Andrada empatando a partida, que logo o Fla viraria com gol de Arílson. E por fim, 10 dias depois, na derrota para o Coritiba por 2 a 1 na capital paranaense – de cabeça, como tinha de ser, após receber cruzamento de Rogério da ponta direita.

LONGE DA GÁVEA, RODANDO O PAÍS

Com chances ainda mais restritas após a chegada de Dario, no começo de 1973, acabaria emprestado ao Fluminense até o fim do ano. E de herói, passaria a vilão: manteria seu hábito de marcar em Fla-Flus, só que agora do outro lado. Anotaria o gol da vitória tricolor por 1 a 0 na abertura do terceiro turno do Carioca e depois, na decisão do campeonato, fecharia o placar em 4 a 2 dando a taça ao time das Laranjeiras. Em sinal de respeito à antiga casa, não comemorou nenhum dos gols. Voltaria à Gávea ao fim do empréstimo, antes de iniciar um período de cigano da bola, jogando no Sampaio Correia, Grêmio, Coritiba e Americano de Campos, onde pendurou as chuteiras no fim de 1976 ainda um tanto jovem, aos 29 anos.

Em 1983, retornaria ao Flamengo como olheiro e treinador das categorias de base (na época repletas de antigos ídolos do clube, como Carlinhos, Silva e Dida, entre outros). Exerceria a função por 30 anos, descobrindo para o clube talentos como Djalminha, Marcelinho, Paulo Nunes e Júnior Baiano. Dispensado em março de 2013, numa decisão que o magoaria profundamente, deixaria antes de sair mais um talento a ser lapidado na Gávea: um garoto chamado Vinícius Junior. Com a missão cumprida, o Bode Atômico descansaria em setembro do ano seguinte, aos 67 anos, vitimado por um infarto agudo do miocárdio enquanto dormia.

Benítez, goleador paraguaio de raça e valentia no ataque do segundo tri carioca

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Os paraguaios têm uma longa história de sucesso no Flamengo. Além do técnico Manuel Fleitas Solich, o “Feiticeiro” mestre da tática e revelador de talentos por trás do tricampeonato carioca de 1953-54-55, alguns de seus compatriotas marcaram época em vermelho e preto, cada qual ao seu estilo. Modesto Bria, volante do tri anterior, nos anos 1940, tinha a disciplina tática como principal trunfo. Francisco Reyes, volante convertido em zagueiro dos anos 60 e 70, conciliava a garra com uma técnica fenomenal para a posição. Sinforiano García, por sua vez, era um goleiro arrojado, espetacular.

E houve ainda Jorge Benítez, ponta-de-lança que atuou pelo Fla entre 1952 e 1956 – brilhando especialmente nos três primeiros anos de sua passagem – e que se destacava pela raça, pelo ímpeto, pela valentia com que enfrentava os zagueiros e pelo faro de gols. Eternizado como o artilheiro do Campeonato Carioca de 1953, o que deu início ao histórico segundo tri, o atacante completaria 90 anos neste domingo.

O INÍCIO

Nascido na cidade de Yaguarón, localizada a 48 km de Assunção, em 23 de abril de 1947, Jorge Duílio Benítez Candía começou a bater bola dos sete para os oito anos de idade. Na infância e começo da adolescência, dividia com a bola o tempo para os estudos e também para as viagens à capital guarani com o pai, comerciante. Até decidir se dedicar exclusivamente ao futebol, iniciando a carreira no Deportivo de sua cidade natal, passando logo em seguida ao Nacional de Assunção. Aos 19 anos, logo depois de se profissionalizar, já integrava o elenco que conquistou o título paraguaio de 1946 – o sexto da história do clube e o último até 2009.

Em 1949, o Brasil sediaria o Campeonato Sul-Americano de seleções, antecessor da atual Copa América, pela primeira vez desde 1922 – ano em que também havia conquistado a competição pela última vez. Havia o interesse de utilizar a organização como um laboratório para a Copa do Mundo que seria realizada no país no ano seguinte. Diante da negativa da Argentina em participar do Sul-Americano e do envio pelos uruguaios de uma equipe experimental, havia também a expectativa de uma conquista brasileira de maneira fácil, sem sobressaltos.

BRILHANDO NA SELEÇÃO PARAGUAIA

Quando a bola começou a rolar, no entanto, uma equipe começou a chamar a atenção: o Paraguai dirigido por um nome que futuramente seria muito familiar aos ouvidos rubro-negros: um certo Manuel Fleitas Solich (aliás, também revelado pelo Nacional de Assunção). E além de Benítez, que tinha então sua primeira oportunidade como titular da meia-esquerda na ofensiva guarani, o time contava com outro nome que brilharia envergando o “CRF” no peito: o goleiro Sinforiano García.

Na estreia o Paraguai bateu a Colômbia por 3 a 0 no Pacaembu, com Benítez marcando o segundo gol. Quatro dias depois, passaria pelo Equador pelo placar mínimo em São Januário. No mesmo estádio, três dias depois, faria 3 a 1 nos peruanos. No dia 20 viria o primeiro revés: derrota por 2 a 1 para os uruguaios num jogo em que Benítez teve de ser substituído no intervalo. Mas ele voltaria a entrar em campo e marcar no jogo seguinte, um convincente 4 a 2 contra o Chile, outra equipe que se candidatava ao posto de surpresa do certame, uma semana depois no Pacaembu.

No sexto jogo da competição disputada em pontos corridos, Benítez faria história: em 30 de abril, jogando novamente em São Januário, os paraguaios goleariam os bolivianos por 7 a 0, e o atacante balançaria as redes quatro vezes, marcando o primeiro, o terceiro, o quarto e o sétimo gols e estabelecendo o recorde que perdura até hoje de jogador a marcar mais vezes pela Albiroja em um único jogo.

A tabela da última rodada marcava o confronto contra os brasileiros, donos da casa, outra vez em São Januário. Ao time de Flávio Costa bastava o empate para a conquista do título. E, a se julgar pelas exibições anteriores daquele escrete de Zizinho, Jair Rosa Pinto, Ademir de Menezes, Tesourinha e outros craques, havia a possibilidade até de vitória tranquila por goleada.

A confiança se confirmava aos 33 minutos quando Tesourinha finalmente conseguiu vencer García, cumprindo exibição magistral no gol paraguaio. O Brasil dominava as ações, mas esbarrava nos milagres do arqueiro guarani. Mas, para o espanto geral, Ávalos empatou aos 30 da etapa final. E a seis minutos do fim do jogo, Benítez recebeu de Arce, avançou com a bola, percebeu a saída de Barbosa e tocou por cobertura sobre o goleiro brasileiro, decretando a surpreendente virada paraguaia, silenciando São Januário.

A vitória dos guaranis por 2 a 1 obrigou a realização de um jogo extra contra o Brasil, que desta vez não perdoou e goleou por 7 a 0, confirmando o favoritismo e levantando a taça. Mas o desempenho dos paraguaios ao longo da competição encheu os olhos da crônica e dos grandes clubes sul-americanos. O Flamengo não demorou para trazer García. E embora o clube rubro-negro tenha se encantado também com Benítez, o ponta-de-lança era fortemente assediado pelo Boca Juniors.

NA ARGENTINA, ALTOS E BAIXOS NUM BOCA EM CRISE

No Boca Juniors de 1951, Benítez é o penúltimo agachado.

Para o jogador, a transferência para Buenos Aires representava um risco por dois motivos: primeiro porque, na época, transferir-se para uma equipe do exterior praticamente significava abrir mão de defender a seleção de seu país, mesmo que o clube em questão fosse de país vizinho. Além do mais, havia a chance iminente de disputar no ano seguinte a Copa do Mundo no Brasil.

O segundo motivo era a profunda crise técnica atravessada pelo Boca naquela temporada. O clube xeneíse vivia o pior momento de sua história e esteve seriamente ameaçado de rebaixamento, salvando-se por um ponto ao fim do campeonato. Por fim, Benítez acabaria aceitando a proposta, mesmo com uma cláusula no contrato pela qual se responsabilizava por jogar mesmo com os problemas cardíacos diagnosticados em seu exame médico. Estreou durante o torneio, no dia 3 de julho, disputou ao todo 11 partidas, marcando apenas um gol, curiosamente na vitória por 2 a 0 no clássico diante do River Plate.

No ano seguinte, embora o atacante ainda tivesse dificuldades para se firmar entre os titulares, para o clube as coisas melhoraram, terminando a liga na segunda colocação após três partidas desempate contra o Independiente (nas quais Benítez marcaria em duas). Mas o melhor desempenho do paraguaio viria na terceira temporada, a de 1951, quando terminou como o artilheiro boquense no Campeonato Argentino, anotando 12 gols em 22 partidas.

Naquele mesmo ano, Benítez voltaria ao Brasil para defender o Boca num amistoso contra o Flamengo no Maracanã, em 15 de novembro, como parte das comemorações do aniversário rubro-negro. Causaria boa impressão e marcaria um dos gols do time argentino no empate em 2 a 2. No começo de 1952, após disputar alguns amistosos pelo Boca na Bolívia, Chile e Paraguai, ganhou férias. Foi quando dirigentes do Flamengo, que já vinham observando o atacante, viajaram à Argentina para tentar contratá-lo.

 A CHEGADA AO FLAMENGO

Em princípio, o Boca relutava em liberá-lo. Considerava-o “intransferível”. Mas o cartola rubro-negro Chico Abreu conseguiu dobrar os dirigentes boquenses, acenando com 500 mil pesos em dinheiro (grande quantia para a época), mais a realização de um amistoso entre os dois clubes no Maracanã. Acordo fechado, Benítez desembarcaria no Rio em 27 de março de 1952, assinando contrato no dia seguinte na Gávea.

Benítez recebe o abraço do presidente Gilberto Cardoso nos vestiários.

E no dia 29 já estrearia pelo Rubro-Negro, na última partida do clube pelo Torneio Rio-São Paulo de 1952, contra o Palmeiras no Maracanã. O Fla não tinha mais nenhuma pretensão no campeonato e havia feito campanha fraca, em que pesaram os muitos desfalques por lesão e o time ainda em formação. E Benítez se apresentava fora de forma, devido a uma inatividade de cerca de 30 dias. Mesmo assim, conseguiu atrair grande público ao estádio e teve atuação destacada, marcando o gol da vitória por 2 a 1.

Depois de encerrada a participação no torneio, Benítez disputou pelo Flamengo alguns jogos no Nordeste e em seguida voltou a excursionar pela América do Sul, numa série de 11 partidas feitas pelo Fla no Peru, Colômbia e Equador, entre maio e julho. Nestes jogos, o novo reforço rubro-negro marcou expressivos nove gols, ajudando a consolidar a fama de artilheiro. Em agosto teria início o Campeonato Carioca. Se o Fla não era o favorito ao título, pelo menos já podia se credenciar a campanhas melhores do que as que havia feito no fim da década de 40.

Na estreia, marcou o gol da vitória de virada por 2 a 1 diante do Bonsucesso. Anotaria ainda nos triunfos contra o Botafogo, o Fluminense e o Bangu, além de balançar as redes quatro vezes na goleada de 9 a 0 sobre o São Cristóvão. Mas na derrota para o Vasco por 1 a 0 no returno, sofreu estiramento após levar uma entrada dura do truculento zagueiro cruzmaltino Eli do Amparo e foi afastado do restante do campeonato. Encerrou sua participação naquele Carioca de 1952 com a boa soma de 12 gols em 14 jogos, quatro a menos que o artilheiro do time, o centroavante Adãozinho.

A lesão deixou Benítez – goleador do Fla naquela temporada corrida, com 27 gols em 32 jogos – fora de ação por vários meses. Sem ele, o Fla ainda conseguiu bons resultados e terminou o Carioca na segunda colocação, empatado com o Fluminense, mas distante do campeão Vasco. Apesar de já contar com boa parte da equipe que se tornaria hegemônica no futebol carioca pelo triênio seguinte, ainda faltava algo.

Na virada do ano, antes mesmo do fim do Carioca, o técnico Flávio Costa deixou o clube, recebendo proposta para voltar ao Vasco. Enquanto o ex-capitão rubro-negro Jayme de Almeida tomava conta do time interinamente, o presidente Gilberto Cardoso ia a Lima, capital peruana, contratar um velho conhecido de Benítez: o treinador Manuel Fleitas Solich, que havia acabado de levar a seleção paraguaia ao tão esperado – e ainda assim surpreendente – título sul-americano derrotando duas vezes o Brasil. Para o mandatário rubro-negro, Don Fleitas era o nome ideal para pôr em prática a revolução na equipe do Flamengo.

ARTILHEIRO DO CARIOCA

Benítez era nome de confiança para o treinador para seu ataque ideal no Flamengo. Voltou aos poucos, conforme recuperava-se da lesão, durante o Torneio Rio-São Paulo. E no Carioca, iniciado a 12 de julho, já estava de novo pronto para retornar ao time titular. No começo, mesmo marcando nas vitórias sobre o Madureira e o Olaria, recebeu críticas da imprensa. Diziam os jornais que ele não parecia adaptado ao estilo de jogo rubro-negro e destoava na linha de frente.

Somente na quarta rodada, quando o paraguaio anotou todos os gols na vitória por 4 a 0 diante do Bonsucesso, é que as críticas começaram a silenciar e todos começaram a entender como suas qualidades podiam se encaixar naquele ataque. Benítez era um jogador valente, raçudo, sem medo de beques violentos e muito oportunista. E tinha uma jogada mortal: a infiltração rápida na defesa adversária no espaço criado pelo recuo do centroavante (Índio ou às vezes Evaristo). Em outras palavras, era o típico ponta-de-lança.

Benítez, o 10 rubro-negro, em disputa aérea contra a zaga do São Cristóvão em Figueira de Melo

Somando tais características aos dribles de Joel, ao futebol filigranado de Rubens, à inteligência de Índio e à experiência e regularidade de Esquerdinha, os rubro-negros tinham uma linha formada por jogadores complementares, levando a máquina de Solich a funcionar a todo vapor.

Após um período de baixa na metade final do primeiro turno (quando marcou apenas uma vez em sete jogos), Benítez voltou à sua rotina de goleador, marcando em praticamente todos os jogos dali até o fim da campanha. Terminou a fase inicial do campeonato – a de pontos corridos em turno e returno – com 17 gols, vários deles cruciais para a conquista desta etapa pelo Flamengo, como o da vitória apertada sobre o Canto do Rio por 2 a 1. Os rubro-negros já estavam garantidos numa eventual decisão do campeonato, enfrentando o vencedor do turno extra, disputado entre os seis melhores times da fase anterior.

Havia, porém, um rival de peso na briga pela artilharia do campeonato: o ponta-direita Garrincha, revelação botafoguense, que já havia marcado 20 na soma dos turnos. O time alvinegro terminara a primeira fase na segunda colocação, um ponto atrás do Fla, e contava com seu camisa 7 para desequilibrar na disputa pelo título. Mas quem desequilibrou foi Benítez.

No primeiro jogo do Fla no terceiro turno, o paraguaio teve exibição memorável de raça, inteligência e dedicação pelos 90 minutos, e abriu o caminho para a vitória por 2 a 1 sobre o Fluminense, marcando logo aos 14 minutos: Joel centrou a bola sobre a área, Índio saltou com Castilho e Pinheiro, e a bola sobrou para Benítez bater de virada.

Cabeceando sob os olhares do zagueiro Joel, do America.

No jogo seguinte, contra o America, outra vez Benitez foi crucial para a vitória, participando do primeiro gol e marcando o segundo: no que abriu a contagem, vindo quando o Fla começava a reverter o domínio americano a etapa inicial, o atacante escorou de cabeça um cruzamento de Índio, e a bola resvalou no meia americano João Carlos antes de vencer o goleiro Osni. No segundo, já na etapa final, Rubens fez grande jogada individual e serviu na corrida para o paraguaio tocar na saída do arqueiro rubro, definindo o placar.

Veio o terceiro jogo do hexagonal, contra o Bangu, e lá estava Benítez sendo decisivo, abrindo o marcador logo aos oito minutos, numa jogada rápida e incisiva, bem a seu feitio – e ao do Flamengo de Solich: Rubens passou a Joel e este lançou o paraguaio na corrida. A vitória por 2 a 0 deixou o Flamengo com a mão na taça por antecipação, na condição de vencedor de todas as etapas do campeonato. Para isso, bastava vencer o Vasco no jogo do dia 10 de janeiro, no Maracanã.

E Benítez, assim como toda a equipe rubro-negra, mais uma vez brilhou. O avante paraguaio participou de todos os gols do Fla na inapelável goleada de 4 a 1. Aos 12 minutos, fez jogada de triangulação com Índio e Esquerdinha, antes de o ponteiro abrir o placar com um chute forte. Aos 32, ganhou na raça a jogada do zagueiro vascaíno Haroldo e fez a assistência para Índio marcar o segundo. No último minuto da etapa inicial, cravou o terceiro gol, num chute da intermediária que surpreendeu Osvaldo Baliza. Na etapa final, depois de Ademir descontar, o próprio Benítez jogava a pá de cal sobre as pretensões cruzmaltinas, recebendo desmarcado um passe de Índio e chutando forte para fechar a goleada, aos 44 minutos, e selar a conquista do título carioca que encerrava um jejum de nove anos.

A arrancada goleadora no turno final, além de decisiva para o título rubro-negro, fez Benítez ultrapassar Garrincha na corrida pela artilharia – sem os gols do ponteiro, o Botafogo não venceu uma partida sequer na fase – terminando a competição com 22 tentos. Havia sido também um dos três únicos jogadores rubro-negros (ao lado de Dequinha e Jordan) a participar integralmente da campanha vitoriosa. Seria ainda o primeiro jogador estrangeiro não britânico a se sagrar o artilheiro do Carioca na história (feito mais tarde igualado pelo argentino Doval).

O time campeão de 1953. Em pé: Garcia, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha.

OS ÚLTIMOS MOMENTOS COMO TITULAR

Em abril, o Flamengo partiria em excursão europeia, jogando na Itália, Alemanha Ocidental, Hungria e Áustria. Benítez participaria de apenas metade dela, por ter se lesionado no oitavo jogo, contra um combinado da região de Ludwigshafen. Mas se destacaria em vários dos jogos em que esteve em campo. A começar pela estreia, no estádio San Siro de Milão, contra um combinado formado por jogadores de Milan e Internazionale que incluía os astros estrangeiros dessas equipes, como os suecos Nordhal e Skoglund e o húngaro Istvan Nyers. No empate em 2 a 2, Benítez marcou ambos os gols rubro-negros.

Outras grandes atuações viriam na goleada sobre o húngaro Kiniszi (mais tarde renomeado Ferencváros) por 5 a 0 em Budapeste, no empate em 2 a 2 com o fortíssimo Rapid Viena (superando a violência dos austríacos e a arbitragem caseira) e a outra igualdade pelo mesmo placar diante do Stuttgart alemão. Em cada um destes três jogos, o ponta-de-lança paraguaio também balançou as redes duas vezes.

Mas a lesão sofrida na Alemanha o tirou da equipe por cerca de dois meses, e mais uma vez o atacante só participou das últimas rodadas do Torneio Rio-São Paulo. No Campeonato Carioca, mesmo chegando para a disputa com o cartaz de goleador da edição anterior, teve que enfrentar uma nova realidade no Flamengo: alguns grandes jogadores vinham em ascensão e pediam passagem na equipe.

Um deles era Evaristo, jogador de grande técnica e inteligência e que podia atuar em praticamente todas as posições do ataque. Outro era um mirrado garoto alagoano que seria seu substituto no time titular quando o paraguaio se lesionou na semana do clássico diante do Vasco pelo primeiro turno, em 17 de outubro: um certo Dida. A lesão tirou Benítez de ação até a virada do ano, retornando apenas na oitava rodada do returno, num empate em 1 a 1 com o America. Para mostrar que estava vivo na briga por um lugar no time, o paraguaio marcou o gol rubro-negro no jogo.

O ponta-de-lança conseguiria se manter entre os titulares dali até o fim do torneio. Voltaria a marcar contra o America na vitória por 3 a 2 no terceiro turno e depois contra o Bangu, na goleada de 5 a 1 na última rodada, quando o Fla já recebia as faixas de bicampeão. Foi o jogador que atuou mais vezes em sua posição (15 jogos), mas no cômputo geral de partidas, ficou atrás de Evaristo, que teve suas 20 atuações distribuídas entre a meia-direita, o comando do ataque, a ponta-de-lança e até a ponta-esquerda. Mesmo não sendo mais titular absoluto, o paraguaio contribuiu com uma satisfatória e importante cota de gols, nove ao todo, sendo três na complicada partida de estreia, 4 a 3 sobre o Canto do Rio.

Benítez posa com o vascaíno Pinga antes do duelo decisivo de 1954 para a capa da revista Esporte Ilustrado.

Após o jogo contra o Bangu, em 27 de fevereiro de 1955, Benítez ficaria mais de um ano afastado da equipe, retornando apenas no jogo das faixas do tricampeonato carioca, contra o Internacional no Maracanã, em 15 de abril de 1956. Além de sofrer com as constantes lesões, vinha sendo preterido dentro do elenco pelo técnico Fleitas Solich, que passou a apostar mais em Evaristo e Dida para a posição. Assim, o atacante paraguaio não disputou uma partida sequer da campanha do terceiro título consecutivo. Jogaria apenas mais um punhado de amistosos e deixaria o clube em junho de 1956, negociado com o Náutico, encerrando sua passagem pela Gávea com a expressiva marca de 76 gols em 114 partidas.

Depois de duas boas temporadas em Pernambuco, retornaria à Argentina defendendo o Almagro e o Deportivo Morón, encerrando a carreira – aparentemente, segundo os registros – em 1960, aos 33 anos. Além das atuações marcantes pela raça e impetuosidade defendendo o Flamengo, Benítez deixou marcas importantes em sua passagem pelo clube, entre elas a de ser até meados dos anos 70 o maior goleador estrangeiro da história rubro-negra, sendo superado por Doval somente no último ano do ídolo argentino na Gávea. Ainda hoje o paraguaio se mantém firme na segunda colocação, à frente de outros gringos com muitos gols pelo Fla, como Valido e Petkovic (ambos, é bom lembrar, com bem mais partidas disputadas que ele).

A incrível história de Germano, talento rubro-negro de apogeu e queda precoces

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Quando se fala sobre Germano, ponta-esquerda revelado pelo Fla no começo dos anos 60 e que depois defenderia também o Milan e o Palmeiras, o que mais se lembra é o rumoroso relacionamento que teve com uma jovem condessa italiana e o fato de ser irmão mais velho do folclórico jogador rubro-negro Fio Maravilha (a quem levou para a Gávea, junto com outro irmão, o ponta-de-lança Michila). Poucas vezes a carreira do jogador, que completaria 75 anos neste sábado, é comentada ou analisada com profundidade, pelo que ele foi e também pelo que poderia ter sido.

Germano foi uma das principais revelações da base rubro-negra e, sem exagero, do futebol brasileiro no início dos anos 60. Muito veloz, habilidoso e de chute forte com as duas pernas, era tido como o futuro da ponta-esquerda do clube e da Seleção. Em sua ascensão meteórica, esteve perto de disputar a Copa do Mundo de 1962 e acabou vendido em negociação milionária para o Milan pouco depois de completar 20 anos de idade. Mas os caminhos da bola e da vida às vezes enganam, como a história do ponteiro conta.

DE CONSELHEIRO PENA À GÁVEA

Nascido na cidade mineira de Conselheiro Pena em 25 de março de 1942, filho de seu Waldemiro e de dona Maria, José Germano de Salles era louco por bola (e pelo Flamengo) desde criança. Na adolescência, jogava sempre suas peladas enquanto não estava ajudando o pai no ofício de bombeiro hidráulico. Um dia, em meados de 1958, um amigo da família que viria a morar no Rio levou Germano para tentar a sorte no Rubro-Negro. Aprovado por Modesto Bria na peneira do clube, o garoto passou a morar na Gávea e receber Cr$ 1.500 por mês como ajuda de custo.

Rapidamente saltou da categoria infanto-juvenil para a juvenil, chegando à de aspirantes em janeiro de 1960 e sendo logo depois integrado ao elenco principal, treinado na época pelo mesmo Modesto Bria que o admitira no clube. Na base, foi companheiro de um jogador que explodiria no Flamengo e faria história no futebol carioca e brasileiro: o meia Gerson, ao lado de quem formou em seleções cariocas de juvenis e também na equipe brasileira medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Chicago em 1959 e na pré-olímpica para os Jogos de Roma.

Linha de ataque da seleção carioca de juvenis, 1960: Germano é o último da esquerda para a direita, formando com os companheiros rubro-negros Gerson (o segundo) e Beirute (o terceiro). Foto: Revista do Esporte.

Sua estreia no time de cima aconteceu enquanto ele ainda era juvenil, a três dias do Natal de 1959, entrando aos 10 minutos do segundo tempo num amistoso contra o River Plate no Maracanã, vencido pelo Rubro-Negro por 2 a 1. No primeiro semestre de 1960, aos poucos ganharia mais oportunidades, entrando em três partidas do Torneio Rio-São Paulo, disputando amistosos pelo Brasil e participando da segunda metade da excursão europeia do Fla em meados daquele ano.

Profissionalizado em julho, aguardou pacientemente uma chance no time – que agora tinha o retorno de Fleitas Solich no comando, após passagem do paraguaio pelo Real Madrid – durante a principal competição da temporada, o Campeonato Carioca. E ela veio na última rodada do primeiro turno, na partida contra o Bonsucesso. Mesmo com o resultado ruim (empate em 2 a 2 no estádio rubro-anil de Teixeira de Castro), Germano se destacou, marcando o segundo gol do Flamengo num chute poderoso de pé direito.

O bom arremate com os dois pés era uma das características pelas quais o ponteiro chamou a atenção (“Desde que comecei a jogar futebol venho caprichando com as duas pernas”, disse em entrevista ao jornal Última Hora). Germano se mostrava também mais ofensivo que o pequenino Babá, então dono da posição. A boa exibição contra o Bonsucesso fez com que o garoto fosse mantido entre os titulares. Apenas uma vez, até o fim do campeonato, ele passaria à reserva, ficando como “regra três” (como eram chamados os suplentes) no Fla-Flu do returno.

Por ironia, seria exatamente neste Fla-Flu do dia 20 de novembro, no qual entraria no intervalo, que Germano faria uma de suas primeiras exibições mais marcantes com a camisa rubro-negra. Líder do campeonato naquele momento, o Tricolor abrira o placar logo aos dois minutos com Waldo e fora o senhor das ações na primeira etapa, apesar de o Fla ter chegado ao empate aos 42 minutos com Henrique.

Mas com Germano em campo, a história foi outra: o ponta (que entrou no lugar de Luís Carlos, vestindo a camisa 14) deu mais agressividade ao ataque rubro-negro, que partiu para a virada com gols de Moacir aos 18 e do próprio Germano, num chute da entrada da área que surpreendeu Castilho, quatro minutos depois. O Fla derrubava o último invicto do campeonato e dava ainda uma mãozinha ao America, que acabaria campeão.

NO RIO-SÃO PAULO, A PRIMEIRA CONQUISTA COMO TITULAR

O ano seguinte começaria com a disputa do prestigioso Torneio Octogonal de Verão, pelo qual o Fla enfrentaria Vasco, São Paulo, Corinthians, os argentinos River Plate e Boca Juniors e os uruguaios Nacional e Cerro – numa história já contada aqui. Mas Germano pouco participou daquela campanha, jogando apenas contra os cruzmaltinos, em virtude de ter sido convocado para prestar o serviço militar. De volta no começo de março, no entanto, compensaria a ausência com atuações brilhantes no Torneio Rio-São Paulo.

Nos primeiros seis jogos que disputou naquela competição, Germano foi titular em apenas dois – as vitórias sobre o Palmeiras no Pacaembu por 3 a 2 e sobre a Portuguesa no Maracanã por 2 a 0. Mas em 2 de abril, ao vencer por 2 a 1 o Vasco (time que Germano já confessara que adorava derrotar), o garoto conquistou de vez a posição.

Na ponta-esquerda do Fla de 1961. Em pé: Joubert, Ari, Bolero, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Joel, Gerson, Henrique, Dida e Germano.

No turno final, o Fla fez campanha memorável: estreou batendo o Palmeiras no Maracanã por 3 a 1, com o segundo gol marcado em chute de Germano que Dida desviou para as redes. Depois, foi ao Pacaembu e goleou o Santos por 5 a 1 – vingando-se de derrota humilhante aplicada pelo Peixe no jogo da fase de classificação no Rio. Por fim, bateu o Corinthians por 2 a 0 no Maracanã, no dia 23 de abril, levantando um título que surpreendeu até sua própria torcida.

Em julho, foi divulgado o interesse do Bologna e do Milan sobre Gerson e Germano, este considerado pelos italianos um “excelente jogador, rápido e de chute muito forte”. Nenhuma das negociações chegou a avançar. Primeiro, o meia recusou ambas as propostas. Depois, o presidente interino rubro-negro Fadel Fadel conseguiu demover os milanistas, maiores interessados no ponta, quanto ao desejo de contratá-lo pelo fato de ele ainda estar cumprindo obrigações relativas ao serviço militar e, portanto, não poderia deixar o país. Mesmo desfeitas as conversas, o clube rossonero continuou de olho no garoto de Conselheiro Pena.

O expediente no Exército que inviabilizou sua venda ao Milan também o tirou da equipe por boa parte do Campeonato Carioca, no segundo semestre. Além disso, Babá se recuperara de um estiramento na coxa e de novo era o titular da ponta-esquerda. Por isso, no torneio do Rio daquele ano Germano disputou apenas quatro partidas, marcando os dois gols do Flamengo em um empate com o Bangu no Maracanã, em 16 de dezembro.

Mas no começo de 1962 o Flamengo passou por mudanças. Mantido na presidência do clube, agora em caráter definitivo após ter vencido as eleições, Fadel Fadel demitiu o técnico Fleitas Solich no meio de uma excursão da equipe a Costa Rica e México e contratou o veterano Flávio Costa. Pouco depois da temporada mexicana, Babá recebeu proposta da UNAM e acabaria negociado. Germano também chegou a ser sondado, mas foi considerado “imprescindível” pelos dirigentes rubro-negros.

O ponta ficou para a campanha do Torneio Rio-São Paulo, no qual o Fla tentaria o bicampeonato. Na primeira fase da competição, cariocas e paulistas ficaram em grupos diferentes, com disputas apenas locais, classificando-se os dois primeiros para o quadrangular final. Nesta etapa, o Fla brilhou, derrotando o Fluminense (1 a 0), empatando com o Vasco (1 a 1) e com o America (0 a 0) em jogo interrompido pela chuva e reiniciado no dia seguinte e encerrando a campanha com uma bela vitória sobre o Botafogo por 3 a 2, com Germano marcando o terceiro gol após jogada de Dida.

Antes do quadrangular final, porém, o Flamengo sofreu sério desfalque com a lesão de Gerson, que torceu o joelho num treino e teve que passar por cirurgia para extrair os meniscos, ficando vários meses de fora da equipe e perdendo a chance de disputar a Copa do Mundo do Chile. Sem ele, o Fla perdeu para Palmeiras e Botafogo (embora tenha feito boas partidas) e, na última rodada, empatou com o São Paulo no Pacaembu em 2 a 2.

Nesta partida contra o Tricolor paulista, disputada em 17 de março, Germano fez mais um gol, o primeiro do Fla no jogo, numa de suas especialidades, acertando um belo chute de fora da área. O que não se sabia então é que aquela seria a última partida do ponta pelo Rubro-Negro. Germano estava a oito dias de completar 20 anos de idade.

NA SELEÇÃO, PERTO DO SONHO DA COPA

Dois dias depois do jogo com o São Paulo, Germano foi incluído, juntamente com Carlinhos, na lista dos 41 pré-convocados para a Seleção Brasileira na fase de preparação para a Copa do Mundo do Chile. Indicado pelo preparador físico Paulo Amaral, era uma das esperanças de renovação em relação ao grupo de jogadores que disputara o Mundial da Suécia e estava agora quatro anos envelhecido.

Ao lado de Carlinhos, outro rubro-negro pré-convocado pela Seleção para a Copa do Mundo do Chile. Foto: Revista do Esporte.

Ironicamente, Germano teve que lidar com o “fogo amigo” do presidente rubro-negro Fadel Fadel, que no mesmo dia da divulgação da lista chegou a pedir dispensa dos dois jogadores do clube, alegando que nenhum deles tinha chance de figurar na lista final de 22 e que precisaria de ambos na excursão europeia para a qual o clube embarcaria dali a alguns dias. No dia seguinte, no entanto, os próprios jogadores o convenceram de que queriam ficar na Seleção, e o pedido acabou esquecido.

A presença de Germano no escrete canarinho foi defendida pelo supervisor da Seleção, Carlos Nascimento, que acreditava não ser tão fácil encontrar jogadores para aquela posição no país, e que o jovem rubro-negro poderia ser muito útil ao Brasil “por sua mocidade e pela forma física e técnica que ostenta”. De fato, Germano teve participação muito boa durante a preparação em Nova Friburgo e Campos do Jordão. Chegou a marcar o gol da vitória dos reservas sobre os titulares num dos coletivos. E entrou em campo em dois amistosos contra Portugal.

Os dois jogos foram disputados na primeira quinzena de maio de 1962, o primeiro no Pacaembu e o segundo no Maracanã. Em ambos, Germano entrou no decorrer do jogo, substituindo Zagallo e Pepe, respectivamente. Agradou e recebeu elogios, dando velocidade e ofensividade ao ataque brasileiro em duas difíceis vitórias do time de Aimoré Moreira por 2 a 1 e 1 a 0.

No entanto, depois de superar duas listas de cortes, Germano acabou dispensado na terceira (a última antes do embarque para o Chile), divulgada em 17 de maio. Junto com ele, também estavam fora da Copa o goleiro Valdir (Palmeiras), os zagueiros Calvet (Santos) e Djalma Dias (America), além dos laterais Joel e Rildo e do atacante Quarentinha (Botafogo).

Ao comentar os cortes, a Revista do Esporte avaliou assim o desligamento de Germano da Seleção para a Copa: “Impressionou nos treinos e em alguns amistosos. Porém, à última hora, quando sua permanência no escrete era tida como certa, foi posto à margem. Alegação: inexperiência”. Para a posição, iriam ao Chile os mesmos convocados para o Mundial da Suécia, Zagallo e Pepe, então com 30 e 27 anos, respectivamente.

NO MILAN, QUEBRANDO BARREIRAS E ENFRENTANDO TABUS

Germano se conformou, apesar de não esperar o corte. Apenas disse que era muito novo e poderia esperar outras oportunidades. Mas não houve tempo nem de se lamentar. Em 18 de maio, dia seguinte à dispensa, Germano se reuniu com Fadel Fadel e representantes do Milan, acertando todos os detalhes da transferência e as bases do contrato com o clube italiano, onde já atuavam os brasileiros Dino Sani e Mazzola (Altafini para os torcedores de lá).

A venda de Germano ao Milan foi a maior negociação do futebol brasileiro de então. O clube italiano pagou US$ 180 mil, cerca de Cr$ 65 milhões (para efeito de comparação, Babá fora vendido ao futebol mexicano meses antes por seis milhões de cruzeiros), com luvas de Cr$ 14 milhões para o jovem ponta-esquerda, que ainda receberia um ótimo salário, gratificações, além de casa, carro e comida pagos pelo clube. A transferência também quebrou barreiras: Germano foi o primeiro jogador negro a defender um clube italiano.

Sua estreia pelo Milan veio na vitória sobre o Parma, fora de casa, pela Copa da Itália. Atuaria ainda em duas partidas pela Série A, marcando duas vezes no empate em 3 a 3 diante do Venezia no San Siro. E participaria também da campanha do primeiro título milanista na Copa dos Campeões da Europa, sendo titular da ponta-esquerda nas vitórias sobre o Union Sportive de Luxemburgo (8 a 0, com dois gols seus) e o Ipswich inglês (3 a 0).

Tudo isso entre setembro e novembro, quando acabaria emprestado ao Genoa para ganhar experiência. No clube rossoblu  – pelo qual jogaria 12 vezes, marcando dois gols – teria como companheiro de ataque outro brasileiro e futuro ídolo rubro-negro, o atacante Almir Pernambuquinho.

Em meados de 1963, sua vida e carreira tomariam outro rumo insuspeitado, quando o ponteiro conheceu a jovem condessa Giovanna Agusta, filha de um rico industrial dono de uma fábrica de helicópteros em Milão. O namoro entre o jogador de futebol brasileiro negro e a nobre italiana branca ganhou as manchetes em tom de escândalo, especialmente diante da recusa completa da família de Giovanna em aceitá-lo, por um indisfarçável preconceito racial.

Germano e a condessa Giovanna Agusta, em foto publicada pela revista “O Cruzeiro” em março de 1967.

Além disso, Germano lutava para se ambientar e encontrar seu espaço. Profissionalizado há pouco mais de três anos, o garoto do interior mineiro já vivia em um universo completamente diferente, numa das cidades mais industrializadas e cosmopolitas da Europa, de inverno rigoroso, em um clube extremamente rico, austero e exigente. Tudo isso, é bom lembrar, numa época bem diferente da de hoje, tanto em termos de globalização do jogo quanto da preparação de um jovem jogador para sair do Brasil e defender um clube estrangeiro. Isso tudo potencializado pelo fato de ser o único negro do elenco, e um dos raros no futebol da Bota naquela época.

TURBULÊNCIAS NA VIDA E NA CARREIRA

Afastado temporariamente da bola por uma combinação de lesões constantes, falta de oportunidades e o tumultuado romance, passou toda a temporada 1963/64 sem entrar em campo. Chegou a ser sondado pelo Santos e pelo Boca Juniors no início de 1964, fez mais uma partida pelo Milan em setembro, contra o Racing Strasbourg francês pela extinta Copa das Feiras (antecessora da atual Liga Europa), e acabaria enfim retornando ao Brasil em fevereiro de 1965, emprestado ao Palmeiras, em parte por pressão da família Agusta.

Chegou ao Brasil um tanto gordo, devido ao longo período de inatividade. No Alviverde ficou na maior parte do tempo na reserva de Rinaldo, mas fez um número razoável de partidas. Conquistou mais um Torneio Rio-São Paulo, foi vice-campeão paulista naquele mesmo ano e fez sua terceira e última partida pela Seleção Brasileira, contra o Uruguai na inauguração do Mineirão, em 7 de setembro, quando o Brasil foi representado inteiramente por jogadores do Palmeiras. Marcou inclusive o terceiro gol na vitória por 3 a 0.

Ficou no Parque Antártica até meados de 1966, quando o Milan (e os pais da condessa) arranjou um novo empréstimo, desta vez para o Standard Liège belga. Em Liège, Germano e Giovanna finalmente se casariam, e o ponta disputaria duas temporadas pelo clube (1966/67 e 1967/68), vencendo a Copa da Bélgica na primeira e participando da Recopa europeia em ambas.

Germano na ponta-esquerda do Standard Liège em 1967.

Sem se firmar como titular, Germano foi perdendo o gosto pelo jogo. Em 1970, dois anos depois de disputar sua última partida pelo Standard, voltava ao Brasil, desiludido com o casamento e com o futebol. Separado de Giovanna e com a carreira de jogador precocemente encerrada (tinha então apenas 28 anos), voltou a morar em Conselheiro Pena, onde ganhou uma fazenda em acordo com seu ex-sogro. Enquanto isso, naquele mesmo ano, seu irmão mais novo, Fio, vivia o auge no Flamengo como ídolo do povo.

Germano se casaria novamente, teria outros filhos (além da que teve com Giovanna) e viveria como fazendeiro em sua cidade natal até falecer vitimado por um infarto em 1º de outubro de 1997, aos 55 anos. Experimentara as diversas faces da carreira de jogador sempre de modo muito breve, muito rápido. Tão rápido quanto ele era em suas escapadas pela ponta-esquerda vestindo a 11 rubro-negra no Maracanã.

Libertadores 1984: Quando o Fla esteve a um passo do segundo título continental

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João Paulo e Adílio disputam a bola com os venezuelanos da Universidad Los Andes, adversária do Flamengo na Libertadores de 1984.

A uma semana da estreia do Flamengo na Copa Libertadores da América de 2017 a torcida rubro-negra começa a renovar a esperança e a expectativa de ver novamente o clube triunfando na principal competição sul-americana. A reconquista do torneio é uma obsessão do Fla e seus torcedores desde a vitória sobre o Cobreloa na decisão de 1981, que levou a taça pela primeira (e até hoje única) vez para a Gávea, especialmente por uma questão de reafirmação de sua força dentro do futebol do continente.

Sendo assim, entre torcedores, costuma-se lamentar muito a derrota para o Peñarol no Maracanã (1 a 0) na fase semifinal da Libertadores de 1982 como o fim do sonho do bicampeonato continental e a maior chance que o Flamengo teve de conquistar mais uma vez a competição. Mas foi na edição de dois anos depois, bem menos lembrada, que o clube esteve de fato mais perto, a um passo da decisão do torneio. E é essa a história que o Flamengo Alternativo relembra agora.

EM 1983, UM ANO DE MUDANÇAS

A história daquela participação começa no Brasileiro de 1983. Naquele tempo, o Brasil tinha dois representantes garantidos no torneio continental – o campeão e o vice nacionais. Sem contar, é claro, o caso de algum clube do país ser o atual campeão sul-americano, como foi o Grêmio naquele mesmo ano. O Fla carimbou o passaporte para sua quarta participação consecutiva no torneio ao passar pelo Atlético-PR nas semifinais da Taça de Ouro (nome do Brasileiro na época), antes de vencer o Santos na decisão.

Entre a conquista do Brasileiro, em maio de 1983, e a estreia na Libertadores, em fevereiro do ano seguinte, muita coisa mudou. O Fla viveu meses turbulentos. Zico foi vendido à Udinese italiana, o time entrou em assustador declínio técnico e fez péssima campanha na Taça Guanabara, Carlos Alberto Torres foi demitido do comando da equipe e o presidente Dunshee de Abranches renunciou ao cargo após uma derrota para o Botafogo, tudo isso antes do fim de setembro, quando uma verdadeira faxina começaria.

O ex-vice de Finanças Eduardo Mota assumiu interinamente a presidência, convocando eleições, vencidas por George Helal. Para o posto de treinador chegou Cláudio Garcia, que havia acabado de levar o Fluminense ao título do primeiro turno do Estadual. E o elenco sofreu grandes reformulações: com o dinheiro da venda de Zico em caixa, o Fla foi às compras e trouxe o centroavante Edmar (Cruzeiro), o ponta Lúcio (Guarani), o meia Cléo (Palmeiras), o centroavante Cláudio Adão (Benfica, em sua segunda passagem pelo clube), além dos jovens Heitor (lateral-direito da Ponte Preta) e Guto (zagueiro do XV de Jaú), ambos campeões mundiais com a Seleção sub-20 meses antes.

1983-ataque-iiMas a maior negociação foi desfazer a troca por empréstimo com o Grêmio que trouxe Baltazar para a Gávea e levou Tita para Porto Alegre. O ex-ponta-direita do Fla agora retornava para vestir a camisa 10 no lugar de Zico, o que sempre tinha sido seu sonho. Jogando com esse número, ele havia sido fundamental na conquista da Libertadores daquele ano pelo Tricolor gaúcho. Já o Artilheiro de Deus, que nunca chegara a convencer no Flamengo, acabaria vendido pelo Grêmio ao Palmeiras – com o Fla emprestando dinheiro ao clube paulista para concretizar a negociação.

A equipe então se recupera ao longo da Taça Rio, conquistada em jogo extra contra o Bangu – que havia goleado o Fla por 6 a 2 na Taça Guanabara. O título estadual não vem, mas a confiança já está de volta. Tanto que, para o ano seguinte, as contratações são apenas pontuais. As duas principais são o experiente goleiro argentino Ubaldo Fillol, vindo do Argentinos Juniors, e o ponta-esquerda João Paulo, ex-Santos.

O ELENCO

Fillol já era contratação concretizada desde setembro de 1983. Vinha para o lugar de Raul, que se aposentara em dezembro aos 39 anos. Havia ainda a expectativa que preenchesse a lacuna não só de um grande goleiro, mas também como o grande ídolo do clube, deixada com a saída de Zico. Goleiro de longa experiência internacional, com participação em três Copas do Mundo e o título na de 1978, além de titular do River Plate por vários anos, era seguro sob as traves, exímio defensor de pênaltis, mas também gostava de jogar com os pés, antecipando a tendência mundial atual.

João Paulo, por sua vez, era sonho antigo do clube – que apesar de ter obtido sucesso com um esquema de jogo em que meias-armadores jogavam pelas extremas, volta e meia sondava pontas autênticos. Carioca, o jogador deixara a cidade pouco depois de se profissionalizar no São Cristóvão para integrar o time santista dos “Meninos da Vila”, campeões paulistas de 1978. Passara pela Seleção e fora o melhor jogador de seu clube na derrota para o Fla na decisão do Brasileiro de 1983. Assim, custaria a bagatela de Cr$ 350 milhões, mais o passe do volante Lino (que já estava na Vila Belmiro emprestado).

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Fillol e João Paulo, os grandes (e caros) reforços de 1984.

Além deles, havia o retorno de Nunes, após empréstimo ao Botafogo, a recuperação de Lico após cirurgia no joelho, a promoção definitiva dos ex-juvenis Bebeto, Bigu Adalberto e Zé Carlos (que mais adiante na carreira acrescentaria o “II” ao nome) ao elenco principal, além de uma contratação de menor impacto, a do jovem ponta-direita Toninho Cajuru, do Botafogo-SP.

Por outro lado, Cléo e Cláudio Adão não haviam aprovado em suas passagens no ano anterior e não permaneceriam. Também deixaram a Gávea outros jogadores que integravam o elenco há alguns anos, mas nunca se firmaram, como o centroavante Ronaldo Marques (Botafogo-SP), o meia-atacante Peu (Santa Cruz) e o ponta-esquerda Édson (Colorado-PR), além do empréstimo do jovem meia Adílson Heleno ao Operário-MS. E o meia Julio César, lançado por Carlos Alberto Torres no Brasileiro anterior, era emprestado ao Grêmio.

Assim, os 25 jogadores inscritos pelo Flamengo para a primeira fase da Libertadores seriam os goleiros Fillol, Abelha (que chegara ao clube após se destacar pela Ferroviária-SP no Brasileiro anterior) e Hugo; os laterais Leandro, Junior, Heitor e Adalberto; os zagueiros Figueiredo, Mozer, Marinho, Guto e Zé Carlos; os meias Andrade, Adílio, Tita, Vitor, Bigu e Élder; e os atacantes Lúcio, Edmar, João Paulo, Bebeto, Toninho Cajuru, Nunes e Lico.

OS PRIMEIROS ADVERSÁRIOS

A primeira fase da competição sul-americana seria disputada em paralelo ao Campeonato Brasileiro, entre fevereiro e maio. Incluído no Grupo 3, o Flamengo teria como rivais o Santos e os colombianos América de Cali e Atlético Junior, de Barranquilla. O time paulista já era um velho conhecido e tinha como novidade o goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez. Além dele, o ponto alto da equipe era o quadrado do meio-campo, formado por Dema, Lino, Paulo Isidoro e Pita, que criavam as jogadas para os gols de Serginho Chulapa.

Já os colombianos tinham equipes competitivas. O América, por exemplo, reuniu um dos melhores elencos do futebol colombiano e sul-americano daquela década, sagrando-se pentacampeão nacional entre 1982 e 1986. Chegaria ainda a três decisões consecutivas da Libertadores (em 1985, 1986 e 1987), além das semifinais em 1980 e 1983.

A equipe contava com o ídolo nacional Willington Ortiz (maior jogador surgido no país até então) e a revelação local Anthony De Ávila ao lado de reforços estrangeiros como o goleiro argentino Julio Cesar Falcioni, os paraguaios Gerardo González Aquino e Juan Manuel Battaglia e os peruanos César Cueto e Guillermo La Rosa (que disputaram a Copa de 1982).

O Atlético Junior, vice-campeão colombiano de 1983, tinha como principal destaque o atacante Alex Didi Valderrama, primo mais velho do meia Carlos Alberto Valderrama que disputaria as Copas de 1990, 1994 e 1998. Entre os demais nomes, havia também dois argentinos: o meia Carlos Ischia e o zagueiro Edgardo Patón Bauza (ele mesmo, o atual técnico da seleção Albiceleste).

placar-como-um-campeao-mundialA campanha rubro-negra na primeira fase daquela Libertadores foi irretocável, a melhor da história do clube na competição, superando a de 2007 no saldo de gols. E teve início de maneira espetacular no dia 11 de fevereiro, diante do Santos no Maracanã. O Fla saiu na frente aos 33 minutos: João Paulo puxou contra-ataque rápido pelo meio e foi calçado por Lino perto da meia-lua. Tita cobrou a falta na barreira, Adílio apanhou a sobra de cabeça e centrou. Depois de resvalar na defesa santista, Mozer apareceu como elemento-surpresa e pegou de primeira, enchendo o pé. Fla 1 a 0.

No segundo tempo viria a goleada: aos 11, numa saída malfeita do time santista, Mozer se antecipou a Serginho na intermediária e desceu pela esquerda tal qual um ponta. No bico da área, fintou Toninho Oliveira e disparou um petardo indefensável. Golaço. Lino descontaria para o Santos aos 28, mas o Fla seguiria imparável.

Aos 34, Lico (que entrara no lugar de João Paulo) limpou três jogadores santistas com um só toque e bateu rasteiro da entrada da área no canto de Rodolfo Rodríguez. O quarto gol rubro-negro viria aos 38: Nunes, na meia-esquerda, abre para Adílio na ponta e o camisa 8 joga na linha de fundo para Lico, que cruza, encontrando Tita sozinho na área para desferir uma cabeçada inapelável. Fla 4 a 1, fora o baile.

No outro jogo de abertura da chave, o América de Cali derrotava em casa o Atlético Junior por 2 a 0. A Colômbia, aliás, seria a próxima parada para o Fla na Libertadores no fim de março, jogando no dia 27 (terça-feira) contra o América em Cali e dois dias depois em Barranquilla contra o Junior. Duas partidas difíceis.

BONS RESULTADOS NA COLÔMBIA

Contra o América, um jogo muito travado, “pegado”, no qual o adversário tentava ameaçar em jogadas de velocidade nas costas do setor defensivo rubro-negro. Precavido, o técnico Cláudio Garcia alterou o time em relação ao jogo com o Santos, tirando os pontas e escalando Bigu ao lado de Andrade como uma dupla de volantes, tendo à frente uma linha com Lico pela direita, Tita centralizado e Adílio pela esquerda, com Nunes sozinho mais à frente.

Aos 22, o Fla abriria o placar depois que Leandro tabelou com Tita e bateu rasteiro, da entrada da área, para vencer Falcioni. Mas três minutos depois, Penagos empataria de cabeça após escanteio. O Fla teria ainda pelo menos três chances claras de gol com Lico, Andrade e Nunes (este, acertando a trave). E ainda perderia Leandro, lesionado após levar um pontapé de González Aquino ainda no primeiro tempo, e Nunes, expulso após revidar uma entrada do mesmo jogador. Eram duas baixas para o jogo seguinte.

Contra o Atlético Junior, o Flamengo entrou em campo com Adalberto na lateral-esquerda e Junior na direita, no lugar de Leandro. Na frente, Edmar ganhou a vaga de Nunes, suspenso. Mas aos 30 minutos, antes de o placar ser movimentado, Cláudio Garcia já mudara completamente o esquema: Adalberto dera lugar ao ponta João Paulo, com Junior voltando para a esquerda e Bigu entrando na lateral-direita.

E o primeiro gol rubro-negro saiu três minutos depois: Adílio passou para Edmar, que entrava livre pelo meio da defesa. O atacante driblou o goleiro Pogany e tocou para o gol vazio. Aos 38, no entanto, Junior falhou e Fillol foi obrigado a cometer pênalti em Barrios. Galván bateu e empatou. No segundo tempo, o Fla passaria novamente à frente aos 33, quando Edmar driblou seu marcador e foi à linha de fundo cruzando para o gol de Tita. No último minuto, porém, a vitória esteve ameaçada: Figueiredo cometeu pênalti, dando aos colombianos a chance da nova igualdade. Mas Fillol – que fez partida excepcional – pulou no canto certo e defendeu a nova cobrança de Galván.

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Edmar, artilheiro do Fla na primeira fase, encara o Atlético Junior.

Os resultados obtidos na Colômbia deixaram o Fla em excelente situação na tabela. E ela ficaria melhor ainda depois do perde-e-ganha registrado nos outros jogos disputados no começo de abril: o Santos venceu o Atlético Junior por 3 a 0 em Barranquilla, mas perdeu para o América em Cali por 1 a 0. No novo duelo entre os colombianos, por sua vez, o Junior se recuperou goleando o América por 4 a 1, embolando a situação dos três adversários do Flamengo.

GOLEADAS CONFIRMAM VAGA

O Rubro-Negro estaria de volta a campo pela competição no dia 20 de abril contra o Santos no Morumbi. Numa Sexta-Feira Santa, o Fla deu mais um chocolate na equipe paulista: 5 a 0, com gols de Bebeto, Mozer, Edmar e dois de Tita (um deles convertendo pênalti sofrido por Andrade). Foi tamanho baile em campo que só restou aos desnorteados jogadores do Peixe apelar para a violência, com o volante Dema e o zagueiro Toninho Carlos expulsos por pontapés. A história completa daquele jogo já foi contada aqui neste post.

Uma semana depois, o América de Cali também derrotaria o Santos, mas na Vila Belmiro (1 a 0), antes de ir ao Rio enfrentar o Flamengo. Naquela altura, os dois clubes ponteavam a classificação, ambos com sete pontos, mas enquanto os colombianos fariam no Maracanã seu último jogo na primeira fase, o Fla ainda receberia o Atlético Junior. De modo que mesmo o empate deixaria os rubro-negros em situação bastante confortável.

Ainda no primeiro tempo, porém, a vitória já estava encaminhada. O primeiro gol veio em jogada bem tramada, iniciada por Élder pelo lado direito e passando por Junior, Edmar e Bebeto até chegar a Adílio, que bateu cruzado da entrada da área. Depois seria a vez de Bebeto ampliar escorando cruzamento de Adílio, após escapada do meia pela ponta direita. O terceiro gol veio aos 41 minutos. Élder recebeu na intermediária e carregou com muita categoria até a entrada da área, quando passou a Edmar na esquerda. O centroavante fintou o lateral e foi à linha de fundo, cruzando para o próprio Élder concluir para as redes.

Na etapa final, o America descontou aos 20, em chute forte do peruano Cueto da meia-lua. Mas o Fla voltou a ampliar quando Bebeto ganhou do lateral, desceu pela ponta direita e cruzou. Tita fez o corta-luz e Edmar tocou para o gol. No fim, Cueto deu números finais ao placar em outro chute de fora da área, mas desta vez tendo a ajuda do goleiro Abelha, substituto de Fillol.

A boa vitória por 4 a 2 diante do principal adversário garantia a classificação do Flamengo para a fase semifinal da Libertadores. Uma semana depois, na última partida da primeira fase, nova vitória tranquila no Maracanã, desta vez sobre o Atlético Junior, de Barranquilla, por 3 a 1. O destaque do jogo foi Edmar, autor dos três gols rubro-negros.

No primeiro, o centroavante recebeu passe de Élder por trás da defesa colombiana, driblou o goleiro e tocou para as redes. No segundo, depois do empate do adversário, apanhou uma sobra de bola na marca do pênalti e desferiu um belo chute que entrou no ângulo de Pogany. E no terceiro, escorou de cabeça um cruzamento de Adílio da direita. Com esse resultado, o Fla fechava a primeira etapa do torneio com cinco vitórias e um empate nas seis partidas disputadas. Marcara expressivos 19 gols (média de mais de três por jogo) e sofrera seis.

O CALDEIRÃO POLÍTICO FERVE

Apesar da brilhante campanha, o ambiente no clube naqueles dias não era nada bom. Entre um jogo e o outro contra os colombianos no Maracanã, o Flamengo foi eliminado de maneira até surpreendente nas quartas de final do Brasileiro, goleado pelo Corinthians por 4 a 1 no Morumbi, depois de ter vencido por 2 a 0 no Rio no jogo de ida. E a desclassificação, considerada precoce e desastrosa, recolocou em pauta velhas divergências internas entre dirigentes.

Logo após a queda diante do Corinthians, o técnico Cláudio Garcia e o supervisor Roberto Seabra colocaram os cargos à disposição. Seabra foi demitido pelo presidente George Helal, mas o ex-mandatário Márcio Braga interveio, e a decisão foi reconsiderada. Foi o bastante para que o diretor de futebol Paulo Orro e o procurador geral do clube Michel Assef renunciassem a seus postos. Assef também queria a saída do vice-presidente Gilberto Cardoso Filho, que, por sua vez, vinha pressionando desde dezembro (com a perda do Estadual) pela demissão de Seabra.

zagallo-e-bebeto-apresentacao-do-treinador-29-maio-84O fim das contas, o supervisor saiu mesmo, e mais tarde seria a vez de Cláudio Garcia, que entregou o cargo, e de Gilberto Cardoso Filho. Assef e Orro foram mantidos, apesar de os jogadores se manifestarem favoráveis à saída de ambos. Para o comando do time, a lista de candidatos incluía Mário Travaglini e Jorge Vieira, mas o posto acabou ficando mesmo com o favorito Zagallo, apresentado em 29 de maio.

TRANSFERÊNCIAS, PARTE DOIS

Outra movimentação que não parou durante todo esse período foi a de transferências. Em 19 de abril, ainda com o Brasileiro e a primeira fase da competição continental em pleno andamento, o Flamengo negociou Marinho e Vitor – ambos sem espaço no time de Cláudio Garcia – com o Atlético-MG. O zagueiro foi vendido, enquanto o volante foi trocado por empréstimo até o fim do ano pelo jovem atacante Marcus Vinícius, de 20 anos.

Mais tarde, outra negociação impactaria a equipe de maneira mais profunda. Em 15 de junho o lateral-esquerdo Junior encerrava seu primeiro ciclo no clube ao ser negociado com o Torino, da Itália, por fabulosos Cr$ 1,8 bilhão. Enquanto isso, no mesmo dia, chegava à Gávea o também lateral Jorginho, do America, trocado pelo ponta Lúcio mais Cr$ 200 milhões. O novo reforço, no entanto, não poderia ser escalado pela Libertadores (diferentemente de Marcus Vinícius), já que as inscrições estavam encerradas.

Além das transferências concretizadas, muita conversa e especulação rolou naquele período. Entre elas, a que rendeu conversas mais extensas envolveu o Internacional, que desde o início do ano expressava interesse em ter Nunes. A proposta discutida por mais tempo seria a da vinda do zagueiro Mauro Galvão e do ponta-esquerda Mário Sérgio (que voltaria à Gávea 14 anos depois de ter sido revelado pelo Fla) enquanto o centroavante rubro-negro iria para o Inter, juntamente com os mesmos Marinho e Vitor negociados depois com o Atlético-MG. Mas a que ficou mais perto de ser concluída foi a troca simples por empréstimo de Nunes por Galvão, que chegou a vir ao Rio e acertar salários com o Flamengo.

Havia ainda na mesa do presidente George Helal uma proposta por Nunes do pequeno Como, recém-promovido à Série A italiana, mas as negociações não foram adiante. E em julho, o clube tentaria trazer o centroavante Reinaldo, envolvendo-o numa troca por Adílio, sem sucesso.

AS SEMIFINAIS

A bola só voltou a rolar pela Libertadores no fim de junho. Nas semifinais, o Flamengo foi incluído no Grupo 2, ao lado do velho conhecido Grêmio – atual campeão sul-americano e que, por isso, já entrou diretamente naquela fase – e da surpresa venezuelana Universidad Los Andes (mais conhecida como ULA), da cidade de Mérida, que se classificou após vencer o peruano Sporting Cristal num jogo extra que decidiu o Grupo 5 da primeira etapa. No time da ULA, o destaque era um brasileiro, o desconhecido ponta-esquerda Itamar, ex-Madureira.

Para a primeira partida contra o Grêmio, na noite de terça-feira, 26 de junho, os problemas no setor defensivo eram muitos. A começar pela lateral direita, onde não só Leandro como também seu reserva imediato Heitor estavam lesionados. O jeito foi improvisar, deslocando o volante Bigu. Na esquerda, a venda de Junior forçaria a efetivação do jovem Adalberto. E para ambos os lados, havia a ausência do recém-contratado Jorginho, que não pôde mesmo ser inscrito na competição. No miolo da defesa, Figueiredo era outra baixa por lesão. Sem poder deslocar Leandro pelo mesmo motivo, outro jovem – Guto – acabou escalado ao lado de Mozer.

Mas a escalação da defesa seria apenas a primeira infelicidade da partida. Haveria ainda a inexplicável decisão de entrar com camisas de mangas curtas numa gélida noite de inverno em Porto Alegre, com temperatura na casa dos três graus. Haveria também a falta de sorte de Edmar, lesionado no joelho ainda na metade da primeira etapa e substituído por Marcus Vinícius – baixando ainda mais a média de idade da equipe num jogo em que experiência contava muito.

Com tudo isso pesando contra o Flamengo, o Grêmio não teve dificuldades para golear: Osvaldo abriu o placar logo aos cinco minutos, Tita chegou a dar esperanças aos rubro-negros empatando aos 11, mas Fillol falhou no gol de Caio, o segundo gremista aos 23, e daí em diante tudo rolou ladeira abaixo. O mesmo Osvaldo fez o terceiro pouco antes do fim do primeiro tempo, Renato Gaúcho ampliou na etapa final, e Tarciso – aproveitando um presente de Bigu – marcou o quinto, encobrindo o arqueiro argentino. A desastrosa estreia nesta fase só não trouxe maiores consequências porque, num primeiro momento, o saldo de gols não decidia a vaga.

Mesmo assim, a derrota deixava o Flamengo quase na obrigação de vencer seus três jogos que restavam (os dois contra a ULA e a partida contra o Grêmio no Maracanã), de preferência pela maior diferença de gols possível. A missão até que começou bem-sucedida: na sexta-feira, a vitória fácil por 3 a 0 diante da ULA em Caracas ajudou a aliviar o saldo negativo da estreia. Improvisado como centroavante, Tita abriu o placar cobrando pênalti de Sánchez em Élder. Na etapa final, Andrade foi à linha de fundo e cruzou para a cabeçada de João Paulo – um raro gol do ponteiro em sua passagem pela Gávea. Depois, Tita bateu outro pênalti (este de Álvarez em Adalberto) e fechou a contagem.

A semana seguinte também trouxe resultados que melhoraram o cenário para o Flamengo. Na terça, o Grêmio foi à Venezuela e venceu a ULA por um gol a menos que o Fla havia feito, 2 a 0. E na sexta, no Maracanã, o Fla conseguiu vitória fundamental sobre os gaúchos para seguir sonhando com a classificação. Nem mesmo a perda de Figueiredo com uma fratura no pulso logo aos dez minutos baixou o ânimo rubro-negro. Heitor entrou na lateral, Leandro passou para a zaga e o time passou a encurralar os gremistas, buscando devolver a goleada sofrida em Porto Alegre.

E esteve bem perto disso. Aos 24 minutos, Andrade recebeu de Tita na intermediária e soltou a bomba na gaveta de João Marcos, abrindo o placar. Perto do fim do primeiro tempo, Mozer cobrou falta de longe e o goleiro gremista deu rebote, que Élder foi buscar na linha de fundo. O meia cruzou para a cabeçada de Bebeto, livre no meio da zaga de grandalhões do Tricolor gaúcho, ampliando o marcador. Na volta para a etapa final, logo aos 10 minutos, o Fla abriu 3 a 0 quando Adílio lançou João Paulo em velocidade, e o ponta esperou a saída de João Marcos para servir a Bebeto no meio da área. Depois de desperdiçar outras chances em contra-ataques, o Fla acabou levando o gol de honra gremista, marcado por Guilherme, após escanteio.

O fiel da balança agora seria a ULA. Mas o Flamengo entraria em desvantagem: com apenas um gol de saldo, contra três do Grêmio, precisaria vencer os venezuelanos por três gols a mais que o Grêmio faria numa eventual vitória diante da ULA em Porto Alegre para ter a vantagem do empate no jogo extra contra os gaúchos que decidiria o grupo. Na terça seguinte, os tricolores aplicariam um sonoro 6 a 1 diante dos venezuelanos. Por mais fraca que fosse a equipe da Universidad Los Andes, a missão rubro-negra era muito complicada.

A partida contra a ULA no Maracanã chega a lembrar as várias histórias trágicas de jogos recentes do Flamengo em competições sul-americanas, tanto pela atuação da equipe quanto pelo desenrolar do jogo. Ciente de que precisava golear, o time entrou nervoso em campo. O drama aumentaria quando, inacreditavelmente, a ULA abriria o placar com o brasileiro Itamar, de cabeça após escanteio, logo aos 13 minutos. E o desespero tomou conta.

Com o time venezuelano fechado na defesa, o Flamengo errava o que podia e o que não podia. Todos os cruzamentos pousavam nas mãos de Baena (curiosamente homônimo do primeiro arqueiro da história rubro-negra, lá em 1912). Quando a equipe conseguia criar alguma chance, o goleiro venezuelano aparecia para operar alguns milagres. Para um time que precisava ganhar de oito, o Fla foi para o intervalo perdendo de 1 a 0 em casa.

Na volta, logo aos três minutos, Tita empatou também de cabeça. Agora, mais importante que golear era simplesmente vencer para evitar a eliminação num vexame inacreditável, mesmo que depois fosse preciso encarar o Grêmio em desvantagem. E a vitória só veio a seis minutos do fim do jogo, num gol redentor de Adílio, também de cabeça. ULA? Ufa!

A UM GOL DA FINAL

O jogo desempate veio dali a uma semana, numa noite de quinta-feira, no Estádio do Pacaembu. No domingo anterior, o Flamengo finalmente estreara no Campeonato Estadual derrotando o Botafogo por 1 a 0, gol de Nunes. E o centroavante, reintegrado ao elenco depois de ser descartado por Zagallo, agora era tido como a arma secreta do treinador para o jogo extra.

No Pacaembu com bom público (pouco mais de 53 mil torcedores), o Fla foi melhor durante todo o tempo normal, apesar de nem sempre jogar certo. Com o Grêmio atuando fechado, com a vantagem do empate em 120 minutos debaixo do braço, as melhores chances foram rubro-negras, com Bebeto no primeiro tempo e com Adílio, Nunes e Andrade no segundo. Mas de um modo geral, foi um jogo muito truncado, tenso, faltoso.

A prorrogação foi toda do Flamengo que, no entanto, atacava mais na base da bola alçada, o que facilitava o trabalho da defesa gremista, mais alta e mais forte fisicamente. Mesmo assim, ainda houve duas chances claras de gol com Tita, o melhor jogador em campo: uma parando no goleiro João Marcos (verdadeiro paredão no gol gaúcho naquele dia) e outra salva em cima da linha por De León. Mas o empate sem gols prevaleceu, e o Grêmio avançou para enfrentar o Independiente na decisão – a qual perderia, derrotado em pleno Olímpico por 1 a 0 no jogo de ida e parando num 0 a 0 em Avellaneda na partida de volta.

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Nunes briga pela bola com Baidek e De León no nervoso jogo desempate contra o Grêmio no Pacaembu.

BALANÇO FINAL

Mesmo enfrentando diversas turbulências nos bastidores, troca de treinador e o desmantelamento do elenco ao longo do torneio, a campanha de 1984 merece ser lembrada pelos números muito bons que teve: oito vitórias nos 11 jogos, contra apenas dois empates e uma derrota. Foram 28 gols marcados – dos quais oito por Tita, que se sagraria o artilheiro da competição – e 13 sofridos.

Naquela noite de 19 de julho de 1984 (que já era madrugada do dia 20 quando a partida terminou) no Pacaembu, o Flamengo ficou a um gol, a uma vitória de jogar sua segunda decisão da Libertadores. Nunca mais chegaria tão perto da final do torneio. No máximo, alcançaria as quartas de final nas duas participações seguintes, em 1991 e 1993, e posteriormente em 2010.

A esperança da torcida para 2017 é, claro, voltar a subir ao topo da América. Mas chegar longe no torneio, como fez em 1984 (e não vem fazendo nas últimas participações), já vai ter ajudado enormemente na recuperação da autoestima do Flamengo como força em termos continentais.

* * *

Time-base da primeira fase (fevereiro-maio de 1984): Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer e Junior; Andrade, Bigu e Tita; Lico (ou Lúcio ou Bebeto), Edmar e Adílio. Técnico: Cláudio Garcia. Artilheiro na fase: Edmar (6 gols).

Time-base da fase semifinal (junho-julho de 1984): Fillol; Leandro, Guto, Mozer e Adalberto; Andrade, Élder e Adílio; Bebeto, Tita e João Paulo. Técnico: Zagallo. Artilheiro na fase: Tita (4 gols).

Time-base na competição: Fillol, Leandro, Figueiredo, Mozer e Junior (ou Adalberto); Andrade, Adílio e Tita; Bebeto, Edmar (ou Bigu ou Élder) e João Paulo. Artilheiro na competição: Tita (8 gols)

Mágicos Rubro-Negros: Há 60 anos, Fla desbancava o lendário Honvéd de Puskás

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O rubro-negro Evaristo exibe a taça a ser disputada entre o Flamengo e o Honvéd de Puskás (à esquerda). Entre eles, atrás do húngaro, está o árbitro Mário Vianna.

O rubro-negro Evaristo exibe a taça a ser disputada entre o Fla e o Honvéd. Atrás de Puskás (à esquerda), entre eles, está o árbitro Mário Vianna.

Os cerca de 120 mil torcedores presentes ao Maracanã naquela noite de sábado, 19 de janeiro de 1957 – há exatos 60 anos – assistiram a uma das páginas mais memoráveis do futebol do Flamengo, bem como a um momento histórico da trajetória repleta de feitos grandiosos do futebol brasileiro. Naquela ocasião, em exibição primorosa, o time rubro-negro venceu o lendário esquadrão húngaro do Honvéd, o time mais famoso do mundo na época, no qual brilhava, entre outros astros, o meia-esquerda Ferenc Puskás, pelo elástico placar de 6 a 4 na primeira de uma série de partidas da equipe magiar no Brasil, a convite do próprio clube da Gávea.

A iniciativa de trazer o respeitado time do Honvéd já era uma vitória por si só quando concretizada na assinatura do contrato para os jogos. Mas ganhou ares de batalha diplomática internacional quando o Fla precisou sobrepujar a resistência de dirigentes húngaros em meio a um conturbado contexto político naquele país, e até a ameaça de punição por parte da Fifa. Felizmente para o público brasileiro, o Flamengo conseguiu seu objetivo, trouxe Puskás e cia para o Maracanã e conquistou um triunfo memorável para sua história e a do futebol brasileiro, um ano e meio antes da conquista de sua primeira Copa do Mundo na Suécia.

O CAMPEÃO ANDARILHO

Cinco vezes campeão húngaro entre 1949 e 1955, o Honvéd formava a base dos Mágicos Magiares, a fabulosa seleção da Hungria que encantou o mundo na Copa de 1954, embora não tivesse conquistado a taça. Em meados de 1956, depois de já ter enfrentado vários dos principais clubes europeus em amistosos lendários, o clube se via às vésperas de disputar pela primeira vez a recém-criada Copa dos Campeões europeia. A estreia, todavia, acabou cercada pelo caos, fruto da delicada situação política vivida na Hungria.

Em outubro daquele ano, estudantes húngaros saíram às ruas pedindo reformas dentro do regime socialista instaurado no país após a Segunda Guerra Mundial. Mas no dia 23, o barril de pólvora estourou. Cerca de 20 mil manifestantes se reuniram para o lançamento de um manifesto elaborado pela união local dos escritores, e a tentativa de invasão da Rádio Budapeste terminou em repressão pela polícia estatal e mortes. A revolta se espalhou entre a população e, no dia seguinte, tanques soviéticos entraram em Budapeste.

Durante os dias mais violentos, surgiu mesmo a notícia de que o craque maior do país, Ferenc Puskás havia morrido, o que não passava de um rumor. Em meio a um breve período de trégua, a equipe pôde deixar a Hungria a salvo. Em 1º de novembro, o primeiro-ministro Imre Nagy, o vice-ministro dos esportes Gustav Sebes e a federação magiar concederam permissão oficial para que a equipe excursionasse pelo exterior até o dia 31 de março do ano seguinte.

A fabulosa seleção húngara que marcou época na primeira metade dos anos 50.

O fabuloso esquadrão húngaro que marcou época na primeira metade dos anos 50 e encantou na Copa do Mundo da Suíça, em 1954.

O elenco então viajou para enfrentar o Athletic Bilbao, adversário das oitavas de final da Copa dos Campeões. Mas com a notícia da retomada dos conflitos – encerrados no dia 10 de novembro deixando milhares de mortos, além da prisão de Imre Nagy, deposto pelo novo governo de János Kádár, aliado dos soviéticos –, a equipe jogou desconcentrada e abatida, perdendo por 3 a 2.

Diante da permissão especial, mesmo com as transformações no poder, o Honvéd seguiu excursionando pela Europa, disputando amistosos na Espanha, na Itália e em Portugal. Bateu Milan e Barcelona, além de empatar por 5 a 5 com um combinado de Madri formado por jogadores de Real e Atlético. No entanto, acabariam eliminados da Copa dos Campeões, ao empatarem em 3 a 3 com o Athletic Bilbao no campo neutro de Bruxelas. A potência húngara tinha agora futuro incerto.

A NEGOCIAÇÃO DA VINDA

conheceremosA ideia do Flamengo de trazer o Honvéd ao Brasil começou a ser desenhada no fim de 1956, quando do planejamento da pré-temporada seguinte. O clube havia convidado o AIK da Suécia para um amistoso no Maracanã abrindo a temporada internacional do estádio. Para aumentar o potencial de renda, pensou em organizar um torneio com outros clubes do exterior, até que surgiu, por meio dos mesmos agentes que trariam os suecos, a possibilidade de receber o famoso time do Honvéd para partidas no Rio de Janeiro.

O primeiro contato foi feito em Bruxelas entre o agente Osvaldo Corckus e Emil Osterreicher, secretário-geral do clube húngaro. Emil trocou vários telegramas com o presidente do Flamengo, José Alves de Morais e, com tudo acertado, o contrato para a excursão brasileira do Honvéd foi assinado em Amsterdã no dia 29 de dezembro. O clube carioca havia declinado uma oferta de excursionar pela América do Sul para trazer os magiares ao Brasil e não poupou esforços financeiros na divulgação da temporada e no pagamento de passagens de ida e volta Rio-Milão-Rio.

O presidente rubro-negro José Alves de Morais

O presidente rubro-negro José Alves de Morais.

Até ali, havia apenas um impasse: a data do primeiro jogo. O Flamengo queria fazer a primeira partida no Maracanã no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da capital carioca – e na época, ainda a do país, sede do Distrito Federal. A Confederação Brasileira de Futebol (CBD), no entanto, já havia marcado para a mesma data e local a partida entre as seleções carioca e paraense, pelo Campeonato Brasileiro, e não abria mão da data. O calendário estipulou inicialmente que o Honvéd enfrentaria a seleção carioca no dia 16, e em seguida o Flamengo no dia 23 e o Vasco no dia 27.

ENQUANTO ISSO, NA HUNGRIA

O novo governo da Hungria só veio a interferir na vida do Honvéd dez dias depois da desclassificação na Copa dos Campeões. Afinal, não foi só o poder central que passou por mudanças naquelas semanas, com a posse de János Kádar como primeiro-ministro. A chefia da Federação também foi inteiramente destituída, passada ao comando de novos dirigentes interinos. Foram eles que, em 30 de dezembro de 1956, decidiram em reunião extraordinária proibir todos os jogos do Honvéd em outros países.

Os jogadores, que se encontravam em Casablanca (Marrocos), vindos de Paris, fecharam questão em não acatar a ordem do novo comando da Federação e prosseguir com sua excursão – ainda que alguns integrantes manifestassem a intenção de retornar ao país ao fim da viagem. Emil Osterreicher, por sua vez, afirmou que a Federação não tinha o direito de cancelar os jogos, já que os contratos haviam sido assinados e ratificados. E confirmou que a próxima parada seria na Itália, onde os jogadores descansariam, encontrariam suas famílias e jogariam mais algumas partidas, antes de cruzar o Atlântico rumo à América do Sul.

A Federação Húngara logo enviou telegrama à Fifa, lembrando sua nova orientação de proibir o Honvéd de disputar partidas no exterior. O motivo alegado foi o “cansaço” dos jogadores após os jogos que já haviam feito. Mas tratava-se de uma tentativa de impedir que se concretizasse a intenção de parte da delegação de não retornar mais ao país. A entidade maior do futebol não declarava posição. Apenas transmitia a suas filiadas a decisão da Federação Húngara. O Artigo 9º do Regulamento da Fifa previa a suspensão de três meses a um ano para o clube que disputasse partidas internacionais sem permissão das federações nacionais.

A REAÇÃO NO BRASIL

No Brasil, a CBD, presidida por Sílvio Pacheco, embora considerasse louváveis a intenção e o esforço do Flamengo, tinha dois temores: que uma eventual punição da Fifa aos clubes envolvidos respingasse em outros e até na Seleção Brasileira, podendo resultar na expulsão do Brasil das Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, e que a vinda dos húngaros ofuscasse o Brasileiro de Seleções, que começaria a ser realizado naquele mês. Mesmo assim, enviou à Fifa um pedido do Flamengo para que a Federação Húngara reconsiderasse a decisão, o que foi negado pela entidade magiar.

federacao-hungara-irredutivelVasco e Santos, que inicialmente manifestaram interesse em enfrentar os húngaros, acabaram demovidos de suas intenções pelas respectivas federações. Havia também, de ambas as partes, o temor de punições por parte da Fifa. Por outro lado, o clube cruzmaltino, entretanto, também divulgou nota expressando simpatia à causa defendida pelo Flamengo, que no dia 7 de janeiro enviou à delegação húngara as passagens para o Rio, confirmando o desejo de receber o Honvéd.

A Federação Paulista, que previa pena de suspensão de 100 a 365 dias aos seus filiados, caso descumprissem sua ordem, chegou a enviar circular, assinada por seu presidente Mendonça Falcão, na qual proibia qualquer exibição do Honvéd na capital ou no estado de São Paulo.

Na verdade, até a Fifa temia: bastante impopular no continente americano, evitava um envolvimento mais profundo e taxativo no caso com receio de que essa atitude motivasse uma insurreição liderada não só pelos brasileiros, como também por argentinos, uruguaios e colombianos – todos partidários do Flamengo e interessados na vinda do Honvéd – que poderia rachar a entidade. Assim, agia apenas como um garoto de recados, transmitindo de uma parte a outra as decisões tomadas.

bloco-sul-americanoA imprensa brasileira (em sua maior parte favorável à vinda do Honvéd, ao qual se referiu como “o time proibido”) seguiu atentamente o andamento do caso. Alguns cronistas chegaram a contestar a legitimidade da nova diretoria da Federação Húngara, colocada no poder após a destituição da anterior pelo regime de Kádar, para tomar a atitude de proibir a excursão dos craques magiares. Em sua coluna no Jornal do Brasil, o poeta Manuel Bandeira, pernambucano radicado no Rio e um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, escrevia cerrando fileiras com o Flamengo:

“Já fui muitas vezes interrogado por jornalistas ou amigos que queriam saber “qual era meu club”, isto é, porque club de foot-ball eu torcia. Respondi sempre que não tinha nenhuma preferência: torcia pelo conjunto que estivesse jogando melhor ou mais limpamente. Mas fui notando que esta minha disponibilidade escandalizava um pouco e acabei me definindo vagamente pelo Flamengo. ‘Por que?’, interrogou ainda um repórter mais minucioso. ‘Porque acho o nome bonito e é o club do Zé Lins (nota: o escritor paraibano e rubro-negro honorário José Lins do Rego)’. Bem, agora, meus amigos e meus inimigos, sou do Flamengo e rasgado, depois da atitude por êle assumida no caso da equipe húngara”.

ENFIM, O DESENLACE

A questão passou então ao Conselho Nacional do Desporto (CND), que se eximiu de analisa-la por não julgar ser de sua alçada. Entrou em cena a primeira-dama Sarah Kubitschek, que intercedeu junto ao Ministério das Relações Exteriores, o qual autorizou o consulado brasileiro em Milão a conceder o visto de entrada no Brasil à delegação do Honvéd. Os húngaros viriam mesmo.

Puskas atende à imprensa no aeroporto do Galeão.

Puskás atende à imprensa no aeroporto do Galeão.

Sem ter meios de fazer valer seu veto à excursão, restou à Federação Húngara uma medida um tanto extremada: decidiu pela eliminação de todos os integrantes da delegação e os proibiu de usar o nome “Honvéd” nas partidas que disputasse, ao que Emil Osterreicher rebateu: “Não reconhecemos a Federação Húngara de Futebol se esta, por sua vez, não nos reconhecer como o clube Honvéd. Rechaçamos totalmente a decisão parcial determinada por motivos políticos”.

A delegação húngara – os jogadores, o secretário Emil Osterreicher e os treinadores János Kalmár e Bela Guttmann (ex-treinador do clube, convidado para participar da viagem depois de se encontrar com os jogadores em Viena, cidade onde fez carreira como atleta e viva na época), além de um diretor – desembarcou no Galeão no dia 14 de janeiro e teve recepção digna de astros internacionais, diante da multidão que a aguardava.

De lá, partiram para o Hotel Glória, na época um dos mais luxuosos e de maior prestígio do Rio, onde ficariam hospedados. Durante a estadia no Rio, Puskás, Kocsis, Sandor e Budai ainda seriam entrevistados pelo jornalista Luiz Mendes (o lendário “comentarista da palavra fácil”) e o ex-craque Ademir de Menezes para um programa esportivo da TV Rio. E vários jogadores do elenco participariam de animadas peladas na praia de Copacabana.

Da seleção húngara de 1954, entre os que defendiam o Honvéd, vieram o goleiro Gyula Grosics (que na época já havia trocado o clube pelo Tatabanya), o centromédio József Bozsik, e o quarteto de atacantes formado por László Budai, Sándor Kocsis, Ferenc Puskás e Zoltán Czibor. Outros jogadores do Honved que viajaram foram os goleiros Faragó e Garamvolgyi, os zagueiros Rakoczi, Dudas, Banyai e Bagoly e o médio Antal Kotász.

O elenco foi ainda reforçado por jogadores de outros clubes, que resolveram se juntar aos dissidentes. Além de Grosics, também viajaram o zagueiro Mihály Lantos, o ponteiro Károly Sándor, o meia-esquerda Szolnok (todos do Vörös Lobogó, o nome do MTK na época), além de atletas mais jovens, surgidos após o Mundial suíço, como o médio Szabo (do Kinizsi, como era chamado o Ferncváros) e o médio-direito Toroczik. Por fim, também fez parte do grupo o veterano atacante Ferenc Szusza (do Ujpest Dozsa), maior jogador surgido no país antes da geração de ouro.

Os húngaros posam no Maracanã.

Os húngaros posam no Maracanã.

Durante os treinos no estádio da Gávea, novamente acompanhados por uma multidão, os húngaros impressionaram não só pela qualidade técnica como pela potência e precisão de seus chutes – apenas cerca de 25% não atingiam a direção do gol. O calor do verão carioca era forte, mas havia a expectativa de que a aclimatação fosse feita nos dias que antecediam o primeiro jogo, contra o Flamengo no dia 19.

A ESTREIA

Se a temperatura era um problema para os húngaros, o Flamengo, dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, também tinha os seus. Nada menos que quatro titulares desfalcariam a equipe por servirem à seleção carioca naquele mesmo instante: o centromédio Dequinha, os pontas Joel e Zagallo e o centroavante Índio estavam de fora do grande confronto com os húngaros. Além deles, por problemas físicos, o zagueiro Jadir (este afastado há vários meses) e o lateral-esquerdo Jordan também preocupavam. E o ponta-de-lança Dida era dúvida, mas tinha maiores chances de participar.

Solich foi buscar na base alguns dos substitutos: Milton Copolilo entraria na quarta-zaga ao lado de Pavão e Luiz Roberto seria o médio-volante. O ex-banguense Édson ocuparia a lateral-esquerda. No ataque, com o deslocamento de Paulinho da meia para a ponta-direita no lugar de Joel, outro garoto dos aspirantes, Moacir, vestiria a camisa 8. Evaristo seria o centroavante, curiosamente jogando à húngara, recuando até o meio-campo para buscar jogo e abrindo espaço no ataque para as infiltrações de outro jovem, o centroavante Henrique, escalado na ponta-de-lança. Na ponta canhota, no lugar de Zagallo, estava confirmado o miúdo Babá.

O time rubro-negro do primeiro confronto no Maracanã. Em pé: Pavão, Tomires, Ari, Milton Copoliilo, Luiz Roberto e Édson. Agachados: Paulinho, Moacir, Evaristo, Henrique e Babá.

O time rubro-negro do primeiro confronto no Maracanã. Em pé: Pavão, Tomires, Ari, Milton Copolilo, Luiz Roberto e Édson. Agachados: Paulinho, Moacir, Evaristo, Henrique e Babá.

A juventude do time rubro-negro, no entanto, acabou ajudando: se a equipe já praticava um futebol de velocidade e intensidade com seus titulares, a disposição e o fôlego dos garotos que entraram foram de grande valia no primeiro confronto. No dia 19 de janeiro, com o presidente Juscelino Kubitschek nas tribunas do Maracanã e quase 120 mil pagantes no estádio, Flamengo e Honvéd pisaram o gramado para abrir a temporada brasileira de Puskás e cia. O árbitro seria Mário Vianna. E o Ponto Frio, cadeia de lojas de eletrodomésticos, ofereceu uma taça ao vencedor da partida. Foi o acontecimento esportivo do ano.

O começo do time carioca foi arrasador: aos 24 minutos Paulinho bate falta na trave e Moacir apanha o rebote para abrir o placar. Quatro minutos depois, Evaristo recebe de Moacir e serve de primeira para Henrique, descendo pelo lado direito, bater cruzado e rasteiro. Mais quatro minutos e vem o terceiro gol: Kotasz bate lateral para Lantos, que tenta driblar Evaristo e perde a bola. O camisa 9 rubro-negro invade a área e enche o pé. No fim do primeiro tempo o Honvéd desconta com Kocsis, recebendo cobrança de falta rápida de Puskás, limpando a jogada e tirando do goleiro Ari.

O Flamengo voltou com Dida no lugar de Henrique, mas o ritmo intenso não caiu: logo aos nove minutos o garoto alagoano sofre pênalti do goleiro Faragó (substituto de Grosics no intervalo). Paulinho cobra e amplia. Aos 25, em nova falha de Lantos, Evaristo toma a bola e passa de calcanhar a Dida, que avança e bate para marcar o quinto. O Honvéd desconta logo na saída de bola, com Budai se aproveitando da indecisão entre Milton e Ari. Mas Evaristo volta a ampliar (6 a 2) dois minutos mais tarde em jogada individual, descendo pela ponta direita, invadindo a área e disparando um petardo que explode na trave de Faragó e entra.

O Honvéd ainda descontaria mais duas vezes. A primeira logo no minuto seguinte – o jogo era lá e cá – depois que Bozsik lança Kocsis, e este tabela com Puskás e vê o Major Galopante chutar forte. O último gol da tarde sai de pênalti, após falta de Pavão sobre a linha da área, que Puskás converte. Nos vestiários, os húngaros aceitaram o resultado e se recusaram a minimizar a derrota: “Não temos justificativas. Perdemos porque o adversário foi sempre melhor. Jogou com alma, com técnica e com objetividade. O Flamengo foi monstruoso e nós, sinceramente, só temos a admirar sua bela vitória. Um triunfo insofismável”, disse o chefe da delegação, Emil Osterreicher.

Moacir vai às redes, abrindo o placar para o Fla no primeiro jogo.

Moacir vai às redes, abrindo o placar para o Fla no primeiro jogo.

Na noite de quarta-feira, dia 23, veio a partida contra o Botafogo – aliado de última hora do Fla, já com os húngaros no Rio. Ao contrário dos rubro-negros, os botafoguenses fizeram questão de trazer seus jogadores da seleção carioca (Pampolini, Didi, Nilton Santos e Garrincha), o que inclusive gerou atrito com a Federação Metropolitana de Futebol (que comandava o futebol do Rio na época). Mesmo completo, porém, o time alvinegro não resistiu ao Honvéd. Encontrando no Botafogo um adversário ligeiramente mais técnico, mas praticante de um jogo mais lento, cadenciado e menos direto e objetivo que o do Flamengo, a equipe magiar não teve dificuldades para vencer por 4 a 2.

OS HÚNGAROS EM SÃO PAULO

O terceiro jogo seria a revanche do Honvéd contra o Flamengo, marcada para o sábado à noite no Pacaembu. Apesar da proibição da Federação Paulista de Futebol de que a equipe húngara atuasse na capital paulista, os dirigentes do Flamengo pensaram numa estratégia bastante engenhosa para levar o time de Puskás ao público de São Paulo: trataram do caso diretamente com o prefeito Wladimir de Toledo Piza e pediram a cessão do estádio municipal, concedida sem maiores problemas. Para não envolver a FPF, não haveria cobrança de ingressos: o jogo seria realizado com portões abertos.

Disposto a desfazer a má impressão da derrota no primeiro confronto, o Honvéd teve grande atuação. Puskás abriu o placar cobrando pênalti aos 13 minutos. Moacir empatou para o Fla no minuto seguinte e de novo Puskás em nova penalidade recolocou os húngaros na frente aos 40. Na etapa final, logo de início, o Honvéd marcou quatro vezes em dez minutos: Budai aos 3, Puskás aos 9 e 10 e Sandor aos 13. O Fla reagiu no final para diminuir o placar e evitar a goleada, marcando com Evaristo aos 24, Dida aos 36 e novamente Evaristo aos 44. Estavam devolvidos os 6 a 4 do Maracanã.

Ari tenta bloquear o chute forte de Puskás.

Ari tenta bloquear o chute forte de Puskás.

No quarto jogo da excursão – terceiro contra o Flamengo – os húngaros voltariam a vencer, num resultado que surpreendeu até o próprio Puskás, dado o amplo domínio das ações por parte dos rubro-negros. A maior precisão nas finalizações, no entanto, deu a vitória ao Honvéd por 3 a 2: Budai e Sandor abriram dois gols de vantagem no início do primeiro tempo, Henrique e Evaristo empataram antes do intervalo, mas Szusza, cobrando falta, marcaria o terceiro para os magiares na etapa final.

No dia seguinte ao confronto, um fato curioso chegou ao noticiário: os jogadores do Honvéd comemoraram a vitória até altas horas em uma festa no apartamento de um húngaro naturalizado brasileiro na rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, ao som do rock ‘n’ roll.

COMBINADO BOTA-FLA LAVA A ALMA

No dia 7 de fevereiro, o último jogo dos húngaros no Brasil, diante de um combinado Flamengo-Botafogo. Como os jogadores do Fla a serviço da seleção carioca ainda estavam de fora, a defesa do time foi formada em sua maioria por atletas alvinegros, com apenas o zagueiro central Pavão de rubro-negro, além do lateral Tomires, que entrou no decorrer do jogo.

No ataque, porém, a presença de jogadores do Flamengo era maior: Paulinho na ponta-direita, Evaristo como centroavante e Dida na ponta-de-lança, com Didi na meia-direita e Garrincha na ponta-esquerda completando o time inicial. Durante o jogo, Dida seria substituído por Moacir e Paulinho daria lugar ao botafoguense Cañete, com Garrincha retornando à direita.

Na despedida dos húngaros, a exibição dos brasileiros – assim como tinha sido a do Flamengo no primeiro jogo – foi de lavar a alma. O primeiro gol, aos 22 minutos, começou em jogada de Paulinho, passando a Evaristo, que cruzou. A bola chegou a Garrincha na esquerda, e o ponta, na linha de fundo, cortou para dentro e bateu entre o goleiro e dois zagueiros. O empate do Honvéd, aos 35, também veio em jogada fabulosa: Budai lançou Puskás e este passou rasteiro a Kocsis. O centroavante entrou na área, deu um drible desconcertante em Nilton Santos e chutou forte vencendo Amaury.

Três minutos depois, Dida recebeu lançamento de Paulinho e soltou um petardo da entrada da área para recolocar o Combinado em vantagem. Houve ainda na primeira etapa a chance de ampliar o marcador numa penalidade, desperdiçada por Didi. Mas o meia se reabilitaria logo no primeiro minuto da etapa final com um lançamento para Evaristo, que acabou encobrindo o goleiro Faragó, numa saída errada. O centroavante acompanhou a trajetória da bola até a linha de fundo, viu o goleiro voltar e driblou-o, caminhando com a bola até o gol vazio.

Aos 16, após escanteio cobrado com efeito, à meia altura, por Didi, dois zagueiros do Honvéd furam a cabeçada e a bola sobra para Dida escorar. É o quarto gol. O Honvéd desconta com Puskás cobrando pênalti de Amaury em Budai aos 30. Mas um novo pênalti, desta vez a favor do Combinado, vem após toque de mão de Kotasz em jogada individual de Dida. A cobrança de Didi é perfeita, 5 a 2. O sexto e último gol vem já nos descontos, numa linha de passe: Garrincha para Didi, Didi para Moacir, Moacir para Evaristo, que invade a área, passa por dois zagueiros e pelo goleiro Faragó e toca para as redes diante de um Maracanã em êxtase.

combinado-6x2-baileOs húngaros não pouparam elogios: “Foi excelente a exibição do combinado”, disse Puskás após o jogo. Emil Osterreicher, por sua vez, declarou-se surpreso com o alto nível técnico da partida: “Sempre soube, por informação e por ter visto na Europa, ser (o brasileiro) um grande futebol. Mas nunca pensei que fosse tão bom assim como mostrou hoje esse combinado Botafogo-Flamengo”, afirmou ao jornal carioca Última Hora, antes de definir o balanço da temporada no Brasil como “ótimo, melhor do que se previa”.

APÓS A VISITA

Na noite de 12 de fevereiro os húngaros embarcavam no Galeão, deixando o Rio rumo a Caracas, na Venezuela, onde fariam mais dois amistosos contra o Flamengo. No primeiro jogo, dia 16, vitória rubro-negra por 5 a 3: Moacir abriu o placar, Puskás empatou, o Fla marcou mais três vezes com Evaristo (dois) e Dida, antes de Budai descontar. Evaristo voltou a ampliar o placar e novamente Budai deu números finais ao jogo.

No segundo, dia 19, empate em 1 a 1, com nada menos que cinco bolas rubro-negras acertando a trave húngara. Marcaram Puskás para o Honvéd e Evaristo para o Flamengo. No balanço final dos cinco jogos entre o time carioca e os magiares, duas vitórias para cada lado e um empate. Puskás balançou as redes oito vezes. Evaristo, nove.

Evaristo, o artilheiro dos confrontos Fla x Honvéd.

Evaristo, o artilheiro dos confrontos Fla x Honvéd.

Depois desses jogos, O Honvéd partiria para Viena, onde se dissolveria. Alguns jogadores retornaram a Budapeste, mas vários dos principais astros da equipe aceitaram propostas de clubes da Europa Ocidental – mesmo que tivessem de cumprir uma suspensão de um ano, de acordo com a legislação da Fifa. Kocsis e Czibor logo acertaram com o Barcelona (onde reencontrariam o brasileiro Evaristo, negociado pelo Flamengo com o clube catalão). Puskás, depois de flertar com a Inter de Milão, teve como destino o Real Madrid.

Da comissão técnica húngara, Bela Guttmann logo aceitaria proposta do São Paulo, permanecendo no Brasil e trabalhando ao lado do futuro técnico da Seleção Brasileira Vicente Feola. O treinador János Kálmár seria sondado pelo America, mas preferiria migrar para a Áustria, onde dirigiria o Wacker de Viena – ainda naquele ano, entretanto, os rubros contratariam outro técnico húngaro, Gyula Mandi. Emil Osterreicher, por sua vez, seria convidado pelo presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu, para exercer no clube merengue o posto de secretário-geral, o qual aceitaria.

No começo de maio, para dar uma satisfação à Fifa, a CBD puniu Flamengo e Botafogo de maneira protocolar: suspendeu ambos por 45 dias no âmbito internacional, após o fim do Torneio Rio-São Paulo (ou seja, ficariam proibidos de excursionar ao exterior neste período). A punição não durou muito. No dia 8 daquele mês, a entidade nacional recebeu ofício da Federação Húngara endereçado ao presidente da Federação Metropolitana, no qual se lia:

“Os membros da equipe que fizeram uma excursão pela América do Sul retornaram à Hungria. Nossos jogadores foram punidos e não poderão jogar até uma determinada data. Da nossa parte, o assunto está encerrado. (…) Agradecemos vosso empenho e zelo, e temos a certeza que de vossa parte tudo foi feito para impedir a temporada. Rogamos esquecer esse caso e ficamos satisfeitos que nem o Botafogo e nem o Flamengo sejam punidos por essa razão”.

A CBD se decidiu então pelo indulto aos clubes. Apesar dos grandes resultados contra os húngaros, o Fla teria um ano de reestruturação: com a saída de Paulinho para o Palmeiras em abril e de Evaristo para o Barcelona e de Índio para o Corinthians após defenderem o Brasil nas Eliminatórias, um novo ataque precisava ser formado. Foi quando Solich efetivou de vez Moacir, Henrique e Dida para as posições centrais da linha ofensiva, em outra formação clássica.

fla-1957-cropMas esta já é outra história. O que ficou de lição daqueles intensos dias de janeiro e fevereiro no Maracanã (e no Pacaembu) era a de que o Flamengo havia mostrado que sim, o brasileiro podia jogar de igual para igual com as mais decantadas potências europeias. E vencer.

Há 50 anos, um europeu de ouro vestia rubro-negro: Flórián Albert

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Cercado por vascaínos, Albert pula para cabecear em seu primeiro jogo pelo Flamengo, na Gávea

A notícia correu pelas redações dos jornais chegando logo aos olhos e ouvidos dos torcedores naquele início de setembro de 1966: Flórián Albert, atacante da seleção da Hungria que menos de dois meses antes se destacara na Copa do Mundo da Inglaterra, viria jogar no Flamengo emprestado por seu clube, o Ferencváros, e pela federação húngara.

A expectativa de ver vestindo rubro-negro o jogador que destroçara a Seleção Brasileira de Vicente Feola nos gramados ingleses logo tomou conta da cidade. E seria enfim concretizada na tarde de 15 de janeiro do ano seguinte – há exatos 50 anos – em um amistoso contra o Vasco na Gávea.

Albert, que no fim daquele ano receberia o prêmio Bola de Ouro, da revista francesa France Football, como o melhor jogador da Europa (o mesmo concedido ao português Cristiano Ronaldo no fim do ano passado), seria o primeiro detentor do troféu a atuar, ainda que somente em partidas amistosas, por um clube brasileiro. Uma experiência da qual o húngaro nunca se esqueceu e que o Flamengo Alternativo conta agora.

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Flórián Albert e sua “Ballon D’Or”.

OS GRINGOS DE GORANSSON

A vinda de Albert vinha sendo negociada há alguns meses pelo diretor de futebol rubro-negro, o sueco Gunnar Goransson – um representante no Brasil da Facit (empresa de seu país que fabricava máquinas de escrever e outros utensílios de escritório) que se apaixonara pelo Flamengo e passara a integrar a diretoria do clube. Não era, no entanto, o primeiro astro europeu trazido por Goransson para visitar o clube e treinar nele: no ano anterior, o lendário goleiro soviético Lev Yashin – outro ganhador da Bola de Ouro, em 1963 – passara alguns dias na Gávea, treinando e trocando experiências.

No mesmo ano em que Yashin ganhou o prêmio da France Football, aportou na Gávea outro jogador trazido por Goransson, o veloz e driblador ponta-direita Roger Magnusson, seu compatriota, de apenas 18 anos, para um estágio no clube. Mais tarde, depois de passar também pelo Colônia alemão e pela Juventus italiana, o jovem faria história no Olympique de Marselha, onde ganharia o apelido de “Garrincha sueco”. E naquele mesmo segundo semestre de 1966 em que negociava a vinda de Albert, o dirigente traria também outros dois compatriotas seus: o defensor Kurt Axelsson (que mais tarde disputaria a Copa do Mundo de 1970) e o ponta-esquerda Roland “Rimbo” Lundblad.

Inicialmente, chegou-se a cogitar a liberação de Albert ao Flamengo por sete meses, a partir de meados de outubro de 1966. Mas, mais tarde, a federação húngara – que chegara a voltar atrás e vetar a viagem – decidiu limitá-la a apenas um mês, após a virada do ano. O jogador estaria liberado para treinar com o elenco rubro-negro e atuar em amistosos pelo clube, e o empréstimo seria gratuito já que, pelo regime socialista, Albert era futebolista amador.

Ao Flamengo, caberia apenas arcar com as despesas de hospedagem do jogador e de sua esposa, a atriz Irén Bársony. Em troca da permissão, Albert escreveria para a imprensa húngara suas impressões sobre o futebol e os métodos de treinamento brasileiros assim que retornasse – o que o atacante tiraria de letra: sua profissão de carteira era o jornalismo. Colaborava, inclusive, com a agência de notícias húngara MTI.

ALBERT: ESTRELA MAIOR DE UMA NOVA GERAÇÃO HÚNGARA

albert-selecaoPelo Ferencváros, Flórián Albert já tinha conquistado duas vezes a liga húngara e se consagrado o artilheiro do campeonato nacional por três vezes. Também seria fundamental para levantar o título da Copa das Feiras – competição antecessora da Copa da Uefa e da atual Liga Europa – em 1965, deixando pelo caminho potências como Roma, Athletic Bilbao e Manchester United, antes de derrotar a Juventus na decisão por 1 a 0, mesmo jogando apenas uma partida, e no estádio do adversário, em Turim. No ano seguinte, seria o artilheiro da Copa dos Campeões ao lado do português Eusébio com sete gols marcados, além de eleito o melhor jogador húngaro da temporada.

Já pela seleção da Hungria, Albert despontou no time medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960. Marcou cinco gols naquele torneio, incluindo dois na goleada de 7 a 0 sobre a França. Brilhou também em sua primeira Copa do Mundo, no Chile em 1962, quando marcou quatro gols e terminou entre os artilheiros da competição, além de ser eleito a revelação do Mundial com apenas 21 anos de idade.

Depois de disputar a Eurocopa de 1964 e ser incluído na seleção do torneio, voltaria a se destacar numa Copa do Mundo dois anos depois, na Inglaterra. Comandou em campo a vitória da Hungria sobre o Brasil por 3 a 1, na primeira derrota brasileira em um Mundial após o bicampeonato 1958/1962. Aparecendo às vezes na armação do meio-campo, às vezes na área para finalizar, seria um tormento constante para a atarantada defesa da Seleção, juntamente com seus companheiros como o velocíssimo ponta János Farkas e o goleador Ferenc Bene. Naturalmente, ganhou o respeito da imprensa e da torcida brasileiras.

E esse respeito era recíproco, de acordo com as declarações de Albert à imprensa de seu país antes de embarcar para o Brasil: “Se os brasileiros estão interessados em mim, estou ainda mais interessado em estudar seu futebol”, afirmou. Nascido em um país sem saída para o mar, Albert manifestou ainda outro interesse em relação à escola brasileira do esporte: “Também quero ver os meninos jogando futebol nas praias do Rio, centro do talento futebolístico do Brasil”.

A CHEGADA DE UM FÃ DO RUBRO-NEGRO

Albert desembarcou em voo da Air France no Galeão por volta das 22h do dia 7 de janeiro, acompanhado da esposa. No dia 9 foi apresentado ao clube, aos dirigentes e à dupla sueca Kurt Axelsson e “Rimbo” Lundblad. Após bater bola com os dois no gramado da Gávea por cerca de 15 minutos, atendeu à imprensa e revelou ser um sonho defender o Flamengo, o qual conhecera e do qual se tornara um grande admirador em 1954, quando o esquadrão de Evaristo, Joel, Jadir, Pavão e Zagallo, comandado por Fleitas Solich, esteve em Budapeste e goleou por 5 a 0 o Kinizsi, nome do Ferencváros naquele período, com o garoto Florian assistindo a tudo nas arquibancadas.

albert-no-flamengo-diario-do-paranaTambém posou com a camisa 9 do clube para os fotógrafos, e comentou a última Copa do Mundo, lamentando que o futebol técnico de brasileiros e húngaros tivesse sido sobrepujado pelo jogo de mais força física de ingleses e alemães, mas prevendo melhor sorte para o Brasil no Mundial do México, dali a três anos. Também lamentou não estar em sua melhor forma física, já que não atuava há quase três meses, desde o fim da temporada em seu país, e reclamou um pouco do forte calor do alto verão carioca. Curiosamente, porém, recusou um guaraná que lhe foi servido, surpreendendo ao dizer que preferia uma boa cerveja para se refrescar.

No dia seguinte, data da reapresentação do elenco no retorno das férias, teve contato com os demais jogadores – entre eles o lateral-esquerdo Paulo Henrique, adversário na Copa – e participou de atividades físicas. Durante o período em que esteve na Gávea, Albert se empenhou tanto em todas as sessões de treinamento das quais tomou parte que mal teve disposição para atender aos compromissos sociais aos quais fora convidado.

Albert e o lateral rubro-negro Paulo Henrique.

Albert e o lateral rubro-negro Paulo Henrique.

Na sexta-feira, após exercício puxado, compareceu só a uma homenagem que receberia na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), por meio de seu presidente João Havelange. Cansado, acabou “dando bolo” na Estação Primeira de Mangueira, que também preparara uma recepção ao húngaro em sua quadra. Albert acabou representado por sua esposa, que, também ex-bailarina, arriscou um tanto desajeitadamente alguns passos de samba.

Treinando duro para enfrentar o Vasco.

Treinando duro para enfrentar o Vasco.

EM CAMPO

Para mostrar Albert aos torcedores cariocas, o Flamengo acertou com o Vasco a realização de dois amistosos: o primeiro na Gávea no dia 15 e o segundo que acabou sendo realizado no estádio botafoguense de General Severiano no dia 19. Apesar de ser colocada em disputa uma taça – batizada Rivadávia Correia Meyer em homenagem a um dirigente do Botafogo, em retribuição à cessão do estádio do clube para a segunda partida –, o ambiente antes, durante e depois dos jogos fez jus inteiramente ao termo “amistoso”, transcorrendo em total clima de cordialidade entre os clubes, o que talvez pareça hoje difícil de acreditar.

No domingo, 15 de janeiro, às 16h30, as duas equipes entraram em campo sob a arbitragem de Arnaldo César Coelho. O time do Fla, dirigido pelo argentino Armando Renganeschi, ainda mantinha boa parte do setor defensivo das últimas duas temporadas: Murilo, Ditão, Jaime e Paulo Henrique continuavam formando o quarteto da retaguarda, com o capitão Carlinhos de primeiro volante. No gol, Marco Aurélio ganhava uma chance no lugar do antigo titular Valdomiro.

O Fla da estreia. Em pé: Murilo, Jaime, Ditão, Marco Aurélio, Carlinhos e Paulo Henrique. Agachados: Denis, Pedrinho, Albert, César e Osvaldo.

Do meio para a frente, as alterações eram muitas. O paranaense Pedrinho entrava como meia-armador, substituindo Nelsinho, sem condições físicas. Na frente, o ex-juvenil Denis (que voltava de empréstimo ao Danubio uruguaio) começava na ponta-direita, o campineiro Osvaldo Ponte Aérea entrava na esquerda e, pelo meio, substituindo a dupla Almir-Silva, que marcou época entre os torcedores do Fla (o Pernambuquinho cumpria suspensão após o tumulto da decisão do Campeonato Carioca do ano anterior contra o Bangu, enquanto o Batuta tinha sido negociado com o Barcelona), apareciam Albert e um jovem que surgia como promessa da base rubro-negra chamado César (o futuro Maluco do Palmeiras, irmão de Caio Cambalhota e Luisinho Lemos).

O Vasco, por sua vez, tinha como atração maior um antigo ídolo rubro-negro, Zizinho, que estreava como técnico da equipe. Reunia também alguns bons jogadores, como Oldair, Bianchini, Ananias, Nado, Adílson (irmão de Almir) e o uruguaio Danilo Meneses. Havia ainda a previsão de mais novidades, já que os dois clubes acordaram um número ilimitado de substituições.

albert-peixinho

Albert acerta a trave em “peixinho” espetacular.

Apesar do forte calor, Albert logo disse ao que viera, criando a jogada do gol de abertura do placar aos 31 minutos de jogo, após tabelar com Osvaldo e iludir a defesa vascaína, antes de servir com um passe espetacular o paranaense Pedrinho, que não desperdiçou. Na etapa final, César fez grande jogada driblando três marcadores e sofrendo pênalti, convertido por Osvaldo aos 12 minutos. A torcida presente em bom número à Gávea aplaudiu o bom futebol mostrado pela equipe, e em especial pelo craque húngaro, que chegara a acertar uma bola na trave em cabeçada.

No dia seguinte à primeira partida, Albert foi homenageado mais uma vez, em coquetel na embaixada da Hungria, ao qual compareceu juntamente com Gunnar Goransson, representando o Flamengo. Na véspera do segundo jogo, o atacante fez um treino leve junto com todo o elenco, após o qual expressou sua profunda gratidão ao Flamengo pela acolhida e pela experiência. Havia dúvidas sobre se participaria da partida inteira, já que esta seria realizada à noite, e ele já tinha voo marcado naquela madrugada seguinte. Nesse caso, um jovem atacante chamado Fio, recém-promovido dos juvenis, já estava de prontidão para substituí-lo.

No treino, com o zagueiro Luís Carlos Freitas logo à frente.

No treino, com o zagueiro Luís Carlos Freitas logo à frente.

Na quinta, 19 de janeiro, Flamengo e Vasco voltaram a campo, agora em General Severiano, em jogo iniciado às 21h. No time do Fla, a única alteração era a entrada do gaúcho Luís Carlos Freitas no lugar de Ditão na zaga. Em uma partida com nível técnico e inspiração inferiores aos do primeiro encontro, o Vasco abriu o placar aos 27 minutos: Bianchini lançou Adílson na área, e o atacante foi derrubado por Murilo. Pênalti que Oldair converteu. Na etapa final, o momento de maior emoção veio aos 30 minutos, quando Albert deixou o campo ovacionado pelo público presente, sendo substituído por Fio.

De lá, partiu direto para o Galeão, onde a esposa o esperava. Apenas no aeroporto soube que o Vasco havia marcado o segundo gol, aos 42 minutos, por meio do ponta-esquerda Morais em posição muito contestada pela defesa do Flamengo. Com a igualdade nos placares (uma vitória de 2 a 0 para cada lado), a taça foi – de comum acordo entre rubro-negros e cruzmaltinos – oferecida ao Botafogo. Era, afinal, o que menos importava. O húngaro agradeceu mais uma vez a oportunidade e declarou que suas quase duas semanas passadas na cidade foram “inesquecíveis”.

Do Rio, embarcou para Lisboa, onde participaria de um amistoso em benefício do zagueiro português Vicente – que, logo após participar da Copa da Inglaterra meses antes, sofrera um acidente e perdera a visão de um dos olhos. A partida também contou com a presença de Pelé. De lá, fez escala em Paris e Viena antes de retornar a Budapeste e ao seu Ferencváros. E, como prometido, publicou suas impressões dos dias de Rio e Flamengo na revista húngara Labdarúgás.

albert-capa-de-revista-hungaraNO RETORNO À EUROPA, A CONSAGRAÇÃO DA ‘BOLA DE OURO’

Ao retornar à Europa, Albert viveria uma grande temporada. Apesar de eliminado da Copa das Feiras ainda nas oitavas de final diante do Eintracht Frankfurt alemão, em partidas disputadas no fim de fevereiro, o atacante terminaria como o artilheiro da competição, com oito gols. Em junho, reencontraria o Flamengo, agora como adversário, defendendo um combinado Vasas-Ferencváros num amistoso em Budapeste. E em novembro, conquistou a liga de seu país e foi eleito o melhor jogador húngaro da temporada.

albert-deixa-o-campoMas um prêmio ainda maior o aguardava: no fim do ano, em 22 de dezembro, Albert seria eleito o melhor jogador europeu de 1967, recebendo a Bola de Ouro da revista francesa France Football. Na soma da votação, que contou com a participação de jornalistas esportivos de 24 países do Velho Continente, o húngaro recebeu 68 pontos, superando por larga margem os 40 do inglês Bobby Charlton, ganhador no ano anterior. Entre outros nomes superados por Albert estavam os alemães Franz Beckenbauer e Gerd Müller, o português Eusébio, o norte-irlandês George Best e o italiano Sandro Mazzola.

Albert encerraria a carreira em 1974, depois de ter conquistado mais um título húngaro (em 1968) e de ter participado da Eurocopa de 1972. Em 1994, seria condecorado com a ordem do mérito em seu país, mas a homenagem mais tocante viria do Ferencváros, que em 2007 rebatizou seu estádio em homenagem ao velho ídolo. Quatro anos depois, em outubro de 2011, viria a falecer em Budapeste após sofrer complicações em uma cirurgia cardíaca, aos 70 anos de idade.

Meses antes de falecer, o ex-jogador foi entrevistado em Budapeste pelo portal Globoesporte.com. Relembrou histórias e casos curiosos de sua passagem pela cidade e pela Gávea, manifestou seu carinho pelo clube (“Além da camisa do Ferencváros e da seleção da Hungria, a única outra que vesti foi a do Flamengo”) e fez questão de ressaltar sua sensação com o feito: “Sim, eu fui o primeiro Bola de Ouro a jogar no Brasil e isso me orgulha muito”.

Figueiredo: Quando a tragédia nos ares foi o luto em vermelho e preto

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A tragédia aérea da última terça-feira, que vitimou praticamente toda a delegação da Chapecoense (jogadores, comissão técnica e dirigentes), além de profissionais da imprensa, a caminho de Medellín, na Colômbia, chocou não só o futebol brasileiro como o do mundo inteiro e provocou gestos emocionados até mesmo de torcedores do Atlético Nacional, adversário do clube catarinense na então iminente decisão da Copa Sul-Americana.

O acidente também evocou traumas de outros clubes que sofreram perdas humanas irreparáveis em desastres semelhantes. O presidente do Torino, clube que perdeu todo o seu elenco multicampeão italiano na colisão da aeronave que transportava sua delegação contra a capela de Superga, em Turim, em 1949, prontificou-se até a acertar um jogo amistoso em compadecimento à dor da Chape. No Brasil, o Flamengo – um dos primeiros clubes a se pronunciar, lamentar o ocorrido e oferecer apoio ao time catarinense nas redes sociais – já viveu seu luto particular pelas mesmas causas: a morte do zagueiro Figueiredo, jovem promissor que fez parte do elenco mais vitorioso da história rubro-negra.

A dor

figueiredo-1980Na manhã de sábado, 22 de dezembro de 1984, o Rio de Janeiro acordou lendo na primeira página dos jornais – em meio a notícias sobre a sucessão presidencial após a última eleição indireta do regime militar e as novidades a caminho do primeiro Rock In Rio, a ser realizado no mês seguinte – uma nota sobre o desaparecimento do zagueiro Figueiredo, do Flamengo. O monomotor em que viajava do Rio para a Bahia, ao lado do piloto, de uma amiga e de Niltinho, irmão do atacante Bebeto, sumira dos radares. E uma testemunha, um lavrador de Cachoeiras de Macacu, então distrito de Nova Friburgo, vira uma pequena aeronave se chocar contra o Pico da Caledônia.

As buscas duraram dois dias, dificultadas pelas chuvas e a forte neblina no local. Mas logo os responsáveis do Parasar e do corpo de bombeiros já desenganaram a família, os amigos, os colegas de clube e os torcedores. O corpo do jogador foi trazido para o Rio na tarde do domingo, 23. E rapidamente o velório foi seguido do enterro no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Entre os presentes, Zico lembrava que o zagueiro “encarnava a fibra rubro-negra. Para ele, treino era jogo”. Já o técnico Zagallo, muito abalado, não se conformava com a decisão do jogador de realizar a longa viagem num avião tão pequeno. Mas foi Andrade quem se lembrou do mais triste: Figueiredo foi enterrado no dia de seu aniversário. Completaria 24 anos naquele domingo.

O início da carreira

Nascido na capital paulista, Cláudio Figueiredo Diz era filho do espanhol Antonio Lago Diz e de Suzana Figueiredo. Depois de passar pela base do Palmeiras e do Nacional paulistano, chegou ao Flamengo em 1978, para atuar nos juvenis, sendo contemporâneo do zagueiro Mozer, do volante Vítor, dos centroavantes Anselmo e Ronaldo Marques, do ponta Édson e de outros jogadores revelados pela sempre prolífica fábrica rubro-negra de talentos daquele tempo. Integrou seleções cariocas e brasileiras da categoria. Chegou a fazer uma precoce aparição no time de cima, em abril de 1979, numa goleada sobre o Fluminense de Friburgo pelo Campeonato Carioca Especial. Seria a primeira de suas 152 partidas vestindo o manto rubro-negro.

Em 1980, com Rondinelli, preparando-se para substituir o "Deus da Raça".

Em 1980, com Rondinelli, preparando-se para substituir o “Deus da Raça” na zaga central rubro-negra.

No fim de junho de 1980, ainda nos juniores, despertou a atenção de um visitante ilustre após atuar numa vitória rubro-negra sobre o Botafogo por 2 a 0 na Gávea pelo Estadual da categoria: o veterano técnico franco-argentino Helenio Herrera, que dirigia o Barcelona e vinha ao Brasil para observar jogadores (no Flamengo, depois de saber que Zico era inegociável, sondou Tita e Nunes). Herrera gostou muito do zagueiro, mas a negociação não passou do interesse, já que o Fla também não tinha a intenção de vender seu jovem talento.

As qualidades que impressionaram o velho Herrera começavam pela excelente impulsão – apesar da baixa estatura (1,77 metro) – conquistada à base de muito treinamento com colete de peso. Além disso, Figueiredo era um zagueiro inteligente, com boa leitura do jogo e do adversário, muito bom nas antecipações e com facilidade de se adaptar ao estilo do atacante que teria pela frente. Era também um marcador duro até nos treinos, mas nunca desleal. Era mais garra, ímpeto, vontade de vencer do que violência pura e simples.

Promovido em definitivo ao elenco principal em 1981, era a quinta opção para o setor: o elenco ainda contava com Luís Pereira (trazido a peso de ouro do Atlético de Madrid em meados do ano anterior), Rondinelli, Marinho e Mozer (este, já há alguns meses entre os profissionais).

No começo de junho, porém, o Flamengo vivia processo de renovação de sua zaga. Luís Pereira já tinha deixado a Gávea para retornar ao Palmeiras, onde fez seu nome. Rondinelli vivia seus últimos meses no clube antes de receber boa proposta do Corinthians e sair em agosto. Havia o retorno de Manguito, que havia embarcado rumo ao Al Nassr, da Arábia Saudita, após o Brasileiro de 1980, e agora estava de volta, mas sem contrato e acima do peso.

Foi quando o técnico Dino Sani resolveu relacionar mais o jovem Figueiredo, utilizando-o a princípio durante os jogos e depois como volante, num curto período em que Andrade e Vítor estiveram lesionados. No jogo contra o Olimpia, no Maracanã, pela Libertadores, enfim começou jogando em sua posição. E daí em diante virou figura frequente na escalação do time (agora dirigido por Paulo César Carpegiani). Chegou inclusive a disputar como titular nada menos que dez dos 14 jogos da campanha vitoriosa na Libertadores – número inferior apenas ao de Mozer entre os zagueiros –, além de outros dois vindo do banco. E participou também desde o início de jogos importantes do Fla no período, como a histórica goleada de 6 a 0 sobre o Botafogo pelo Campeonato Carioca.

Flamengo x Cobreloa em Santiago

Nas três grandes decisões daquele fim de ano, porém, ele quase não esteve em campo. Depois de enfrentar o Cobreloa no Maracanã e em Santiago, um estiramento no músculo adutor o tirou do terceiro jogo, em Montevidéu. No jogo do título carioca, a vitória de 2 a 1 sobre o Vasco, Figueiredo entrou em campo apenas no fim do jogo, no lugar de Junior. E em Tóquio, contra o Liverpool, acabou assistindo do banco a conquista do título mundial, devido ao mesmo problema no adutor. De marcante, além da comemoração com os companheiros, apenas a tatuagem no braço direito (um golfinho) que fez durante a escala em Los Angeles, junto com Leandro e Mozer.

A primeira grande decisão

No ano seguinte, Carpegiani decide manter de início a dupla de zaga das decisões. Nas primeiras fases do Brasileiro de 1982, Figueiredo faz apenas uma partida – e joga mal. Escalado de improviso na lateral-direita contra o Atlético-MG no Maracanã, é expulso ainda no primeiro tempo após uma falta em Reinaldo. Mesmo assim, o Fla (que perdia por 1 a 0) vira o jogo com um a menos e vence por 2 a 1. Mas quando Mozer se lesiona na partida de ida das quartas de final contra o Santos no Maracanã (outra vitória rubro-negra de virada por 2 a 1) e fica de fora do resto da competição, Figueiredo ganha sua grande chance.

A grande atuação na partida de volta – empate em 1 a 1 no Morumbi – credencia o jovem zagueiro de 21 anos a permanecer no time. O Jornal do Brasil avaliou assim seu jogo: “Teve uma atuação seguríssima e foi, logo depois de seu companheiro de zaga Marinho, o melhor do time”. Na semifinal, contra o Guarani, mais duas grandes atuações, anulando Careca completamente, tanto no Maracanã quanto no Brinco de Ouro. No jogo da volta, em Campinas, sofreu inclusive um pênalti claro não marcado pelo árbitro, numa raríssima projeção ao ataque.

Nos jogos finais contra o Grêmio voltou a ter grandes atuações, crescendo a cada jogo, até a partida irretocável no terceiro e último jogo, no Olímpico. E o mesmo JB o apontou como o melhor da zaga, superior até a Marinho: “Irrepreensível nas disputas altas ou rasteiras, não perdeu um lance”.

O time rubro-negro da decisão do Brasileiro de 1982. Figueiredo é o terceiro em pé, da esquerda para a direita, ao lado do goleiro Raul.

O time rubro-negro da decisão do Brasileiro de 1982. Figueiredo é o terceiro em pé, da esquerda para a direita, ao lado do goleiro Raul.

Em agosto, no entanto, uma torção no tornozelo o tirou do time por um mês, propiciando o retorno de Mozer, já recuperado de sua lesão. Mas os papeis se invertem no começo do mês seguinte, quando Mozer se lesiona em um amistoso em Fortaleza, e Figueiredo retorna à zaga a partir da vitória sobre o America por 3 a 2, pela Taça Guanabara, permanecendo até o fim do ano, atuando em 19 das 22 partidas da equipe no período.

Chega 1983, e Mozer e Marinho voltam a estar em alta. Tanto que ambos ganham uma chance na Seleção Brasileira do novo técnico Carlos Alberto Parreira. Mas novamente Figueiredo arranja um jeito de sair na foto de campeão. Entra em campo 21 vezes (17 como titular) nas 32 partidas oficiais do Flamengo naquele primeiro semestre, entre Campeonato Brasileiro e Taça Libertadores. E na final do Brasileiro, nos 3 a 0 impostos ao Santos no Maracanã, lá estava ele substituindo Mozer no time titular e cumprindo atuação cinco estrelas, pela avaliação do Jornal do Brasil. Anulou o centroavante Serginho Chulapa a ponto de o camisa 9 santista se irritar após o fim do jogo e agredir jornalistas à beira do campo.

O melhor momento

Entretanto, logo após o fim do Brasileiro, voltaria ao banco de reservas. O que o ajudaria, porém, a passar quase incólume pela crise técnica (e até administrativa) na qual o clube mergulharia após a saída de Zico. Sua sorte – e a do Flamengo – começaria a virar com a chegada do técnico Cláudio Garcia, na virada da Taça Guanabara para a Taça Rio. Durante a passagem do novo comandante, entre o fim de setembro de 1983 e o de maio de 1984, viraria titular absoluto. Disputaria, sempre desde o início, nada menos que 41 das 46 partidas do Flamengo sob a direção do treinador. A ponto de Marinho, outrora dono da posição, ser negociado com o Atlético-MG.

Nesse período, Figueiredo fez grande dupla com Mozer, mais ou menos delineando a velha ideia de “beque central” e “quarto zagueiro”. Enquanto seu companheiro de miolo de zaga vivia talvez seu melhor momento no Flamengo, física e tecnicamente exuberante, dando-se ao luxo de sair jogando como se fosse um meia, em espetaculares arrancadas para o ataque, e de ser um dos cobradores de falta daquela equipe, Figueiredo era seu contraponto: raramente se aventurava à frente (menos até do que Marinho), mas se mostrava impecável nas tarefas defensivas, perfeito pelo alto, firme e preciso nos desarmes e inteligente na antecipação. Era como se Mozer fosse o zagueiro “louco” e Figueiredo, o sério.

Figueiredo capa Placar 1983Fora dos gramados, o jogador teve uma experiência inusitada nessa mesma época. Em todo o país, vivia-se o tempo das manifestações populares pelo retorno das eleições diretas para a Presidência da República e o chamado movimento “Diretas Já”. Os torcedores rubro-negros (que já haviam criado a torcida Flanistia, em 1979) não poderiam ficar de fora: um grupo fundou, no início de 1984, a torcida Fla-Diretas e escolheu – pela ironia envolvendo os sobrenomes do jogador e do presidente militar João Baptista de Oliveira Figueiredo – o zagueiro como padrinho (ao lado do ex-mandatário rubro-negro Márcio Braga e da atriz Christiane Torloni). Convencido pelo ponta Lico, seu companheiro do Fla e interessado em política, o jovem central rubro-negro acabou topando.

Em meados de 1984, no entanto, uma combinação de fatores acabaria por encerrar sua grande fase. Primeiro veio a demissão de Cláudio Garcia – apesar da campanha irretocável na primeira fase da Libertadores – pouco depois da eliminação nas quartas de final do Brasileiro, após uma derrota desastrosa para o Corinthians no Morumbi. O veterano Zagallo entraria em seu lugar. Depois, uma sequência de lesões: teve afundamento do malar e fratura da mandíbula num choque sofrido em amistoso contra o Treze, em Campina Grande (PB), e logo após retornar, quebrou o punho na partida em que o Fla venceu o Grêmio por 3 a 1 no Maracanã pela fase semifinal da Libertadores.

Na despedida, um presente do acaso

figueiredo-84Quando finalmente se livrou das lesões, Figueiredo encontrou a defesa rubro-negra já inteiramente reconfigurada por Zagallo. Contratado do America para suprir a saída de Junior para o Torino, o jovem Jorginho se firmava, mas não na lateral-esquerda (onde o garoto Adalberto, da base rubro-negra, crescia a olhos vistos) e sim na direita. Enquanto isso, daquela posição, Leandro finalmente tinha atendido seu desejo de passar definitivamente para a zaga central – por conta dos velhos problemas nos joelhos, era impossível continuar apoiando o ataque com a mesma frequência e qualidade. E Mozer, ainda irretocável, era o dono da quarta-zaga.

Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto formariam, assim, a linha defensiva rubro-negra para aquele segundo semestre de 1984. Figueiredo teria poucas oportunidades de jogar. Entraria em campo apenas quatro vezes pelo Campeonato Carioca, sendo duas como titular. A última delas, no entanto, seria marcante – apesar da derrota para o Fluminense por 2 a 1, na última rodada da Taça Rio.

Naquele dia, Figueiredo ficaria mais uma vez no banco. Mas o destino teria outros planos: Tita sentiu lesão e não passou no teste físico no vestiário, minutos antes de o time entrar em campo. Zagallo então, decidiu deslocar Leandro como meia-armador. E Figueiredo entrou na zaga – com a camisa de Tita. E aí deu-se a incrível coincidência, como uma espécie de homenagem, antes que qualquer pessoa e que o próprio zagueiro soubesse do que aconteceria dali a algumas semanas. No último jogo de sua vida, Figueiredo entrou em campo no Maracanã vestindo a lendária camisa 10 rubro-negra.

(Relembre aqui a matéria do Globo Esporte sobre a última homenagem a Figueiredo em dezembro de 1984)