Há 50 anos, Flamengo batia campeão mundial e faturava taça no Marrocos

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O mesmo time que derrotou o Racing no Marrocos posa no Maracanã. Em pé: Murilo, Claudinei, Onça, Rodrigues Neto, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: Cardosinho, Liminha, Luís Cláudio, Silva e Diogo.

Uma das mais belas e impressionantes taças conquistadas pelo Flamengo em sua história, o Troféu Mohamed V foi levantado há exatos 50 anos em Casablanca, no Marrocos, com uma vitória de grande peso: para ficar com ele, os rubro-negros precisaram derrotar na decisão, num jogo intensamente disputado, os argentinos do Racing, que na época ostentavam nada menos que o título de campeões mundiais interclubes.

O troféu vencido pelo Fla foi disputado anualmente (com poucas interrupções) entre 1962 e 1980, retornando sob o nome de Torneio de Casablanca para mais três derradeiras edições em 1986, 1988 e 1989. Era batizado em homenagem ao monarca marroquino que negociara com os franceses a independência do país em 1956 e que falecera um ano antes da criação da competição. Dentre os famosos torneios de verão realizados continuamente no hemisfério norte, tinha o diferencial de ser o único no continente africano.

Ao longo de sua história, contou com a participação de gigantes do futebol mundial, como Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Bayern de Munique, Inter de Milão, Boca Juniors e Peñarol, o que evidencia seu prestígio. Quatro clubes brasileiros fazem parte deste seleto grupo: Flamengo, São Paulo, Internacional e Grêmio. Porém, só os rubro-negros tiveram a honra de levantar a enorme e imponente taça oferecida.

O torneio concluiria a rota da excursão internacional iniciada pelo Flamengo em meados de agosto de 1968. A primeira parada havia sido na Espanha, onde o clube disputou o Troféu Joan Gamper, promovido pelo Barcelona no estádio Camp Nou. Depois de derrotar o Athletic Bilbao na semifinal por 1 a 0 com um gol de bicicleta do atacante Silva “Batuta”, os rubro-negros acabaram derrotados pelos donos da casa por 5 a 4 num jogo maluco.

Em seguida, a delegação seguiu para La Coruña, onde participou da primeira edição do Torneio Conde de Fenosa, disputando apenas uma partida, uma derrota de 2 a 0 para o Racing argentino. De lá, os rubro-negros cruzaram a fronteira portuguesa e foram para Lisboa, onde tiveram como adversário o tradicional Belenenses, no estádio do Restelo, em jogo válido pelo troféu de mesmo nome. A taça foi arrematada para a Gávea com uma vitória por 3 a 2.

O ÚLTIMO TORNEIO DA EXCURSÃO

Comandado pelo baiano Válter Miraglia, ex-meio-campo do time nos anos 40 e 50 e ex-técnico da base, o Flamengo chegou ao Marrocos para a disputa do último troféu com dois desfalques: o zagueiro uruguaio Manicera tinha um estiramento muscular no adutor esquerdo, enquanto o ponta-de-lança Fio estava vetado por uma fissura no dedo mínimo do pé esquerdo. Assim, o esforçado Guilherme, ex-Campo Grande, entrava na zaga e o meio-campo paraguaio Reyes era improvisado numa posição mais avançada, encostando nos atacantes.

De resto, o time escalado para a partida de estreia contra o time marroquino do FAR Rabat incluía o goleiro Marco Aurélio, os históricos laterais Murilo e Paulo Henrique, o quarto-zagueiro baiano Onça, o clássico volante Carlinhos “Violino” e o dínamo Liminha no meio, o ponta-direita Néviton, também baiano, o camisa 10 Silva “Batuta” e o jovem curinga Rodrigues Neto, então na ponta-esquerda, ajudando a compor o meio-campo.

Além de ter a torcida local a seu favor no Estádio Marcel Cerdan, o time do FAR (sigla para Real Força Aérea) contava com vários jogadores que integrariam a seleção marroquina a qual disputaria a Copa do Mundo do México dali a menos de dois anos: o goleiro Allal Ben Kassou, os defensores Lamrani, Fadili e Benkhrif, os meias Maaroufi e Bamous e o atacante El Khiati. E atuaria diante do rei do Marrocos, Hassan II, filho de Mohammed V.

O Flamengo, no entanto, é que abriria o placar com Liminha aos 15 minutos. O FAR reagiria, mostrando um futebol veloz e aguerrido, empatando aos 34 minutos com Maaroufi e criando chances para virar o placar. O Fla conseguiu se segurar e voltou mais objetivo para a etapa final. Pressionou durante quase todo o segundo tempo a defesa local, mas só conseguiu marcar o gol da classificação aos 40 minutos, com Silva.

Antes disso, no entanto, a influência de Hassan II já havia interferido no andamento da partida, num lance curioso. Com o placar em 1 a 1, a bola saiu pela lateral num ataque do Flamengo, sendo devolvida por um jogador do banco de reservas rubro-negro a Paulo Henrique antes da chegada do gandula. Silva recebeu a cobrança rápida, driblou seu marcador e chutou da quina da área, vencendo o goleiro.

Mas o rei não concordou e obrigou o árbitro (também marroquino) a anular o lance, no que surpreendentemente foi atendido. Quando a nova saída estava para ser dada, o juiz foi avisado do desagrado do monarca e invalidou o lance, voltando atrás e apontando tiro de meta para o FAR. Mas não adiantou: no fim, a vitória acabou mesmo com o Fla. E o adversário na decisão seria o Racing, que bateu o Saint Étienne por 1 a 0, gol de Salomone, na outra semifinal.

A DECISÃO

O time argentino era a grande estrela do torneio. E não era para menos: tratava-se do campeão da Taça Libertadores da América do ano anterior e, na ocasião, ainda detentor do título mundial interclubes, quando derrotou numa decisão em três jogos a lendária equipe do Celtic, da Escócia, campeã europeia. A equipe dirigida por Juan José Pizzutti também chegava aclamada pelos resultados obtidos e pelo futebol de primeira linha apresentado em sua excursão.

No elenco racinguista, nomes históricos do futebol argentino, como o goleiro Agustín Cejas, os meias Juan Carlos Rulli e Enrique “Quique” Wolff e o atacante Humberto Maschio, além de outros que marcaram época no clube, como os atacantes Jaime Martinolli, Juan Carlos Cárdenas e Roberto Salomone. Um time experiente e bastante técnico, um legítimo campeão do mundo.

Em relação ao time que venceu o FAR, o Flamengo apresentou algumas mudanças, justificadas em parte pelo cansaço da maratona da excursão. Claudinei entrou no gol no posto de Marco Aurélio. No meio, Cardosinho – armador trazido do interior paulista junto com Liminha – ganhava uma chance ao lado de seu antigo colega, na vaga de Carlinhos. Na frente, o habilidoso ponta-de-lança Luís Cláudio, ex-Santos, e o atacante Diogo, ex-Prudentina, substituíam Néviton e Reyes.

Mesmo com alguns jogadores mais descansados, o Fla logo viu o Racing tomar conta do jogo e abrir o placar aos cinco minutos, com Marcos Cominelli arrematando um centro de Cárdenas. Ao longo da primeira etapa, aos poucos os rubro-negros conseguiram se recolocar na partida e foram premiados com o empate um minuto antes do intervalo: Cejas saiu em falso em um cruzamento, e Luís Cláudio chutou para o gol vazio, igualando o marcador.

O jogo recomeçou equilibrado na etapa final, mas aos 23 minutos o Fla passou à frente num chute de Liminha que surpreendeu Cejas. Com o Racing tonto, Silva ampliou aos 30 em grande jogada individual, passando por dois defensores antes de finalizar. O time argentino só conseguiu se reorganizar já perto do fim do jogo e descontou aos 40 com o ponteiro Salomone. Mas os rubro-negros seguraram a vantagem e confirmaram o triunfo sobre os campeões mundiais, que valeu também como o troco da derrota em La Coruña.

Ao fim do jogo, o rei Hassan II desceu das tribunas para entregar a taça ao capitão Paulo Henrique, que recebeu o troféu sob aplausos entusiasmados do público marroquino e enquanto uma banda marcial entrava em campo tocando um tema comemorativo da conquista. A delegação rubro-negra retornou ao Rio dois dias depois, recepcionada pela torcida no aeroporto do Galeão e exibindo a enorme taça, trabalhada em ouro e prata. Uma taça digna do feito de derrotar um campeão do mundo.

Silva, camisa 10 rubro-negro, exibe a taça no desembarque no Galeão.

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Contra tudo e todos: Há 40 anos, Fla sem Zico derrotava o Real Madrid e o juiz

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Fosse outro clube, talvez tivesse sucumbido, amarelado, até tirado seu time de campo. Eram oito contra 11, ou contra 12, se contarmos Vossa Senhoria, mais um do lado adversário. Oito que conseguiram segurar, com garra fora do comum, uma vitória épica construída com brilhantismo na primeira etapa, o que até a imprensa local reconheceu e saudou. Uma vitória daquelas que merecem ser contadas e recontadas, geração após geração.

Há 40 anos, em 19 de agosto de 1978, mesmo desfalcado de Zico, o Flamengo vencia um dos jogos mais memoráveis de sua história, ao bater o poderoso Real Madrid por 2 a 1 na Espanha – num jogo em que teve três jogadores, o técnico Cláudio Coutinho e todo o banco de reservas expulsos por uma arbitragem absurdamente caseira – e levantar o Troféu Ciutat de Palma, em Mallorca.

TEMPO DE REDEFINIÇÕES

Em meados de 1978, o Flamengo vivia um impasse. Embora contasse com o mais novo superastro do futebol brasileiro, Zico, não levantava um troféu de grande relevância desde dezembro de 1974, quando conquistara o Campeonato Carioca. A Frente Ampla pelo Flamengo (FAF), grupo político que ganhara as eleições no fim de 1976 alçando Márcio Braga à presidência, prometia revolucionar o clube, mas ainda não havia convertido seu modelo de administração em títulos.

As duas últimas ocasiões em que o time andou perto de levantar um troféu haviam sido perdidas em jogos extras decididos de maneira dramática nos pênaltis diante do Vasco: a Taça Guanabara de 1976 e o segundo turno do Campeonato Carioca de 1977 – que teria colocado os rubro-negros na decisão da competição diante dos cruzmaltinos. No Brasileiro de 1977, depois de fazer boa campanha nas duas primeiras fases, o desempenho caiu vertiginosamente na terceira. Mas na edição seguinte da competição, logo na sequência, os resultados seriam ainda piores.

Sem poder contar com Zico nem com o lateral-direito Toninho, cedidos para a Seleção Brasileira que se preparava para disputar a Copa do Mundo da Argentina, e também sem o técnico “titular” Cláudio Coutinho (de licença, pelo mesmo motivo), o Flamengo fez um Brasileiro de 1978 decepcionante, bem abaixo da expectativa, ficando apenas em 16º lugar entre os 74 participantes do mastodôntico campeonato. E uma das evidências apresentadas por aquela campanha irregular era a de que o elenco precisava ser fortalecido.

Uma escalação do Flamengo no Brasileiro de 1978. Em pé: Cantarele, Rondinelli, Ramírez, Dequinha, Júnior e Merica. Agachados: Júnior Brasília, Carpegiani, Tita, Adílio e Luís Paulo.

Não em quantidade: o treinador Joubert, ex-defensor rubro-negro nos anos 50 e 60, utilizara nada menos que 28 jogadores, quase três times inteiros, ao longo do torneio. A questão era a qualidade: além de inchado, o elenco era sensivelmente desnivelado, onde se misturavam jogadores de verdadeiro talento (feitos em casa ou trazidos de fora, como Carpegiani e Cláudio Adão) com outros que simplesmente não estavam à altura de defender o Flamengo.

APARANDO ARESTAS

Encerrada a Copa do Mundo e a participação do Flamengo no Brasileiro, Coutinho retornou ao comando da equipe rubro-negra com uma reputação a reconstruir. Uma faxina no elenco levou mais de uma dezena de jogadores a serem negociados, emprestados ou devolvidos à base. E reforços pontuais foram trazidos. Um deles, o veterano goleiro cruzeirense Raul, surpreendido com o anúncio da própria contratação, mas convencido diante da perspectiva imediata de embarcar para uma excursão europeia, na qual o clube disputaria alguns torneios de verão.

Dias depois de derrotar o Atlético-MG por 2 a 0 em amistoso no Mineirão, o time rubro-negro viajou para a Espanha levando quase todo o seu elenco para o segundo semestre, incluindo os novos contratados. Do próprio Galo vieram o meia Cléber e o atacante Marcinho. Do Cruzeiro, além de Raul, também aportaram os atacantes Tião e Eli Carlos (com o ponteiro Júnior Brasília seguindo para a Raposa). Do Bahia, chegou o meia Alberto Leguelé, trocado pelo volante Merica. Para a zaga, vieram Manguito, revelação do Olaria no Carioca do ano anterior, e o experiente Moisés, o “Xerife”, que retornava para sua segunda passagem pela Gávea, dez anos depois.

Ainda se recuperando de um estiramento sofrido durante a Copa, Zico ficou no Rio. Não participaria dos três torneios que o Fla disputaria na Europa – e em dois dos quais, curiosamente, enfrentaria rivais cariocas. Pelo Troféu Teresa Herrera, em La Coruña, venceria o Fluminense nos pênaltis após empate sem gols, no jogo que marcaria a estreia de Raul pelo clube. E pelo Torneio de Milão, o último da excursão, derrotaria o Botafogo por 2 a 0 no estádio San Siro. Entre os dois, haveria o Troféu Ciutat de Palma, realizado na cidade de Palma de Mallorca, nas Ilhas Baleares, costa leste espanhola, em 18 e 19 de agosto.

Quatro equipes participavam daquela décima edição do torneio: o Rayo Vallecano – pequeno clube de Madri promovido pela primeira vez à elite espanhola no ano anterior – e o RDWM (sigla para Racing White Daring Molenbeek) belga eram tidos como figurantes. O confronto que se aguardava para a decisão seria entre o Flamengo e o Real Madrid, detentor do título espanhol daquele ano com uma campanha espetacular: seis pontos à frente do vice Barcelona, o qual havia derrotado nos dois confrontos da liga (4 a 0 no Santiago Bernabéu e 3 a 2 no Camp Nou).

Nas semifinais, deu a lógica: em duas vitórias de virada, Fla e Real Madrid bateram Rayo Vallecano e o Molenbeek por 2 a 1 e 3 a 2, respectivamente, avançando para a final a ser jogada no dia seguinte, no estádio Lluís Sitjar. O time rubro-negro apresentou algumas alterações: Nélson entrou na zaga no lugar do improvisado Ramírez, Cléber ganhou a vaga do volante Jorge Luís no meio e Tita retornou à ponta-direita no lugar de Tião. Os demais titulares foram os mesmos da semifinal: Raul no gol, Toninho e Júnior nas laterais, Manguito na zaga, Carpegiani e Adílio no meio e Eli Carlos e Cláudio Adão na frente.

Além de seus três astros estrangeiros (o volante argentino Enrique “Quique” Wolff, o armador alemão Ulrich “Uli” Stielike e o ponta dinamarquês Henning Jensen), o Real Madrid dirigido por Luís Molowny contava com vários espanhóis tarimbados e de seleção, como o goleiro Miguel Ángel, os defensores Sol, San José e o veterano Pirri, o meia Vicente Del Bosque e o atacante Juanito. Mas o principal adversário rubro-negro não seria nenhum jogador merengue, e sim o árbitro Jesús Ausocúa Sanz, 43 anos, natural de Valladolid e que apitou na elite espanhola entre 1976 e 1982.

A VITÓRIA INESQUECÍVEL

A péssima atuação do juiz começou a ser notada logo aos sete minutos de jogo, quando Cléber recebeu lançamento em boa posição para marcar, mas Ausocúa Sanz apitou impedimento inexistente. Dois minutos depois, no entanto, ele não teve como anular a jogada do primeiro gol rubro-negro: Toninho recebeu de Tita e fez a jogada de ultrapassagem até a linha de fundo. De lá mesmo, cruzou forte para Cláudio Adão, que chutou para a defesa parcial de Miguel Ángel e pegou o rebote para estufar as redes.

Aos poucos, o Fla foi consolidando seu amplo domínio na partida e criou duas ótimas chances para ampliar o marcador aos 17, com Adílio e Tita. O Real, confuso, só chegou pela primeira vez com perigo aos 20 minutos graças à intervenção do árbitro: Jensen engatilhou uma bicicleta dentro da área rubro-negra e quase atingiu a cabeça de Manguito. Inexplicavelmente, Ausocúa Sanz assinalou tiro livre indireto contra o Fla, cobrado por Pirri por cima do gol.

Aos 37, pouco depois de Eli Carlos perder mais uma ótima oportunidade, Cléber ampliou para o Flamengo, apanhando rebote da defesa e chutando sem chances para Miguel Ángel. E só aos 40 o Real voltou a ameaçar, com Jensen exigindo grande defesa de Raul. A sensação, no entanto, era a de que o placar estava até barato para os merengues quando a partida foi para o intervalo, tal era a superioridade rubro-negra em todas as ações e todos os setores do campo.

Na crônica da partida escrita por José Damian González para o jornal madrilenho El País (que pode ser lida na íntegra aqui), a fantástica atuação rubro-negra na primeira etapa é destacada com palavras fortes: “O Flamengo, no primeiro tempo, havia oferecido uma bela lição de futebol (…). O virtuosismo dos jogadores do Flamengo provocou o mais claro ridículo dos brancos [madridistas]. A equipe de Coutinho mal deixou a de Molowny tocar na bola”, disse o texto, antes de passar a comentar a atuação do árbitro.

No intervalo, satisfeito com a exibição até ali, o treinador rubro-negro preparava a estratégia para a etapa final: “Estou com três jogadores descansados no banco. Prontinhos para entrar. Não mudarei o esquema. Vamos continuar marcando sob pressão e aumentar a cautela na defesa. Nossas jogadas de ataque estão surtindo efeito, mas é preciso não esquecer que o time do Real Madrid é perigoso. Toca a bola com maestria e, quando vai à frente, cria problemas”, observou Coutinho.

O técnico não contava, no entanto, com uma mudança radical no panorama da partida levada a cabo pelo senhor Ausocúa Sanz no segundo tempo. Com o Real Madrid partindo para uma pressão desordenada na etapa final, Aguilar foi lançado na área aos 12 minutos e Raul saiu para fazer a defesa aos seus pés. Mas o atacante merengue caiu, e o árbitro aproveitou a deixa para apitar um pênalti para lá de discutível. Eli Carlos reclamou da marcação e foi expulso. Aguillar cobrou a penalidade e descontou para os madridistas.

O Flamengo recuou para segurar o resultado, e o árbitro continuou a inverter faltas e distribuir cartões amarelos para os jogadores rubro-negros: Manguito, Júnior, Tita e Cláudio Adão foram punidos quase em sequência. Aos 18, Toninho bateu falta perto da área do Real, a bola desviou na barreira e saiu para escanteio. Ausocúa Sanz marcou tiro de meta. O lateral rubro-negro reclamou e também foi expulso de campo.

Para recompor a defesa, Tita foi substituído pelo lateral uruguaio Ramírez, mas esta foi a única alteração que Coutinho pôde fazer das três que programara. Aos 27 minutos, Cléber sofreu falta não marcada no campo de ataque, protestou e também recebeu o cartão vermelho. Revoltados, o treinador e todo o banco do Flamengo ameaçaram entrar em campo. Todos foram expulsos. O papelão do árbitro foi tão vergonhoso que a própria torcida local, que de início torcia para o Real Madrid, passou a apoiar furiosamente pelo Flamengo.

Com a má intenção do árbitro já escancarada inclusive para o público, o time rubro-negro passou a dar chutões para todos os lados e evitar choques e contatos com os adversários. Àquela altura, apenas Raul, Ramírez, Manguito, Nélson, Júnior, Carpegiani, Adílio e Cláudio Adão estavam em campo pelo Fla. Mesmo assim, o inoperante Real Madrid pressionava sem levar perigo. O árbitro então lançou mão de sua última cartada: sob o pretexto de descontar o tempo de paralisação pelos protestos do Fla, estendeu o jogo até os 50 minutos, algo incomum para a época.

Depois de jogar 23 minutos com três homens a menos e sem poder fazer substituições, o Flamengo assegurou a vitória – e o título – na última volta do ponteiro: Juanito apareceu sozinho no meio da defesa e, com um leve toque, encobriu Raul. O estádio Lluis Sitjar prendeu a respiração. Até Cláudio Adão aparecer de maneira providencial para afastar a bola com uma cabeçada em cima da linha. Depois disso, só restava a Ausocúa Sanz apitar o fim do jogo – ou jogar a toalha, se preferisse. Nada nem ninguém tiraria a vitória do Flamengo naquele dia em Palma de Mallorca.

Aplaudido de pé pelos cerca de 20 mil torcedores, o Fla recebeu o troféu e partiu para a volta olímpica, enquanto o árbitro saía à francesa e sob vaias. Aquela vitória diante de um time daquele porte e naquelas condições criou a certeza de que coisas boas viriam para o Flamengo a partir daquele segundo semestre de 1978. Ou alguém ainda duvidaria?

Há 30 anos, “misto quente” do Fla trazia outro caneco do Japão: a Copa Kirin

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O Fla que derrotou o Bayer Leverkusen na decisão em Tóquio e levantou a Copa Kirin de 1988. Em pé: Leandro, Delacir, Valmir, Gonçalves, Paulo César e Cantarele. Agachados: Márcio, Gerson, Paloma, Zico e Gilmar Popoca.

Palco do maior momento da história do Flamengo, a conquista do Mundial Interclubes diante do Liverpool em 1981, o Estádio Nacional de Tóquio assistiu há 30 anos a um outro título rubro-negro assegurado com vitória sobre um clube campeão de troféu europeu. No dia 7 de junho de 1988, o Fla derrotava o Bayer Leverkusen (então detentor da Copa da Uefa) por 1 a 0, gol de Zico, e levantava a Copa Kirin, competição disputada anualmente na capital japonesa. Foi um título especial por ter sido vencido com um time que misturava garotos da base e reservas (muitos deles desconhecidos dos próprios torcedores rubro-negros), reforçado pelo Galinho – que aumentou seu prestígio em solo japonês – e alguns outros nomes experientes.

A Copa Kirin é um torneio amistoso organizado e patrocinado pela cervejaria japonesa Kirin Brewery Company desde 1978. Até a edição de 1991, misturava clubes e seleções (a do Japão era participante fixa) se enfrentando num sistema de pontos corridos antes de uma decisão entre os dois primeiros colocados. Dentro deste período, vários clubes brasileiros além do Flamengo (Palmeiras, Internacional, Santos, Fluminense, Vasco) disputaram a competição. A partir de 1992, ela foi transformada num torneio exclusivamente de seleções.

Além de representar um desvio da tradicional rota de torneios de verão europeus, a Copa Kirin tinha na estrutura e na premiação uma de suas atrações. A participação do Flamengo na edição de 1988 foi acertada em 2 de maio daquele ano. O clube receberia 35 mil dólares por partida com bônus de 10 mil, caso fosse campeão. Parece pouco, mas para a realidade econômica brasileira da época significava quase 30 milhões de cruzados. Além disso, o contrato praticamente exigia a participação de Zico – sem o qual, a cota por jogo cairia para 17 mil dólares.

Zico, o astro requisitado pelos organizadores japoneses.

Naquela altura, o Fla seguia disputando o Campeonato Estadual, então na reta final da Taça Rio e com um terceiro turno a caminho. Mesmo com o título da Copa União conquistado no fim do ano anterior e o da Taça Guanabara já no início daquela temporada, o time não conseguia levar bons públicos aos jogos do Carioca. A competição, de um modo geral, teve média bastante decepcionante. As principais causas apontadas foram a violência dentro e fora dos gramados, a crise econômica e ainda as transmissões ao vivo pela televisão, que voltaram naquele ano, pela Rede Manchete.

De modo que, para arcar com um elenco de folha salarial bastante alta como aquele, era preciso arrecadar das mais variadas formas. E o convite, financeiramente irrecusável, veio num momento providencial. Porém, sem poder interromper sua participação no Estadual, o Flamengo teve de armar um time misto bem curioso para viajar ao Japão. O elenco que embarcou tinha, além de Zico, um trio de nomes experientes: o goleiro Cantarele (então na reserva de Zé Carlos) e os zagueiros Leandro e Edinho. Junto a eles, um punhado de garotos da base, como o lateral Valmir, o zagueiro Gonçalves, os meias Jecimar e Zé Ricardo e os atacantes Gérson e Paloma.

Para completar o grupo, o Fla bateu na porta de outros clubes em busca de reforços temporários. No America, conseguiu o empréstimo do lateral-esquerdo Paulo César e do volante Delacir, além de receber de volta o ponta Márcio, que pertencia ao próprio Flamengo – o meia Renato, destaque cobiçado daquele time rubro, também viajaria em princípio, mas na última hora seu clube vetou. E do Porto Alegre, de Itaperuna, veio no mesmo esquema o ponta-esquerda Cosme, uma das revelações do time do Noroeste Fluminense naquele Estadual.

Por fim, o meia Gilmar Popoca – eterna promessa rubro-negra de meados dos anos 80 que acabou não se firmando – ganhou nova chance na Gávea, emprestado pela Ponte Preta, com quem o Fla o havia negociado no começo do ano anterior. Com esses jogadores, o time misto comandado pelo auxiliar João Carlos Costa – Carlinhos seguiria com a equipe principal – realizou alguns treinos na Gávea para ganhar algum entrosamento e embarcou para Tóquio, com uma escala em Los Angeles, na noite de 24 de maio.

Zico bate falta no primeiro jogo contra o Bayer Leverkusen.

Além de enfrentar as seleções do Japão, anfitriã do torneio, e da China, o principal adversário do Flamengo no torneio seria o Bayer Leverkusen, time ascendente no futebol da então Alemanha Ocidental, e que havia acabado de conquistar a Copa da Uefa (atual Liga Europa), deixando pelo caminho clubes como o Barcelona e o Werder Bremen, antes de derrotar o Espanyol na decisão. O camisa 10 do time era um velho conhecido dos rubro-negros: Tita, que havia se transferido do Vasco em setembro de 1987. Além dele, outros astros eram o polonês Andrzej Buncol, o sul-coreano Cha Bum-Kun e os alemães de seleção Ralf Falkenmayer e Herbert Waas.

Um dia depois de a equipe principal golear o Goytacaz por 6 a 0 com quatro gols de Bebeto na Gávea pela última rodada da Taça Rio, em Tóquio a equipe mista estreou enfrentando a seleção japonesa, que curiosamente por essa época usava camisas vermelhas, em vez das atuais azuis. O time entrou com Cantarele no gol, Valmir e Paulo César nas laterais, Leandro e Edinho no centro da defesa, Delacir de volante com Gilmar e Zico na armação, tendo no ataque Márcio, Paloma e Gerson (este, mais recuado ajudando o meio-campo).

De camisas brancas (e sem o patrocínio da Lubrax), o time da estreia.

A vitória veio sem dificuldade: logo aos nove minutos, o lateral Paulo César recebeu lançamento de Gilmar Popoca e foi deslocado na área por um defensor, num pênalti que Zico bateu para abrir o placar. O segundo gol saiu já na etapa final, aos sete minutos. Bola de pé em pé: Zico para Gilmar, Gilmar para Márcio, e de Márcio sai o passe vertical que encontra Paulo César entrando na área. O lateral só tem o trabalho de tirar do goleiro, ampliando para 2 a 0.

Aos 20 vem o terceiro: Zico lança Valmir, que entra na área, limpa a marcação e deixa a bola para o volante Delacir, que manda um foguete para as redes. Os japoneses – que estiveram perto de disputar a Copa do Mundo no México dois anos antes, perdendo a decisão de uma das vagas para a Coreia do Sul – descontam com um belo gol de Yoshida, que ganha de Edinho na velocidade, limpa Paulo César e bate vencendo Cantarele.

De trem bala, a delegação rubro-negra viajou até Kioto para enfrentar os alemães do Bayer Leverkusen, que haviam vencido a China por 2 a 0. A partida foi disputada numa noite de quarta-feira, 1º de junho, no estádio Nishikyogoku. E o Flamengo saiu atrás no marcador, curiosamente com gol de um oriental: o sul-coreano Cha Bum-Kun, que concluiu um contra-ataque conduzido por Tita aos 21 minutos do primeiro tempo.

Mas ainda naquela etapa, aos 36, veio o empate por meio de Edinho (que cumpria excelente atuação) num chute que desviou na defesa. Outro que esteve muito bem foi Cantarele, garantindo o resultado com defesas sensacionais, entre elas uma cabeçada à queima-roupa que tinha a direção do ângulo e um chute venenoso de Tita. Na saída do estádio, os jogadores do Fla experimentaram a idolatria dos nipônicos, tendo de sair escoltados por policiais para escapar do assédio de centenas de crianças.

Destaque e autor do gol contra o Bayer Leverkusen, Edinho teria de voltar ao Rio para se juntar a time principal na disputa do terceiro turno do Estadual, com estreia marcada para o dia 4, num Fla-Flu. Em seu lugar, entraria mais um garoto da base, um certo Gonçalves. O jovem, que havia entrado durante a partida contra o Japão, formaria a zaga com Leandro para a partida contra a China, na qual um empate garantia os rubro-negros na decisão do torneio.

O jogo disputado no dia 5 de junho em Kagoshima não teve grandes emoções. O Fla abriu o placar com Gerson, que aproveitou ótimo passe de Zico no meio da defesa aos 17 minutos. Mas os chineses, que estranhamente atuaram retrancados mesmo precisando vencer, ainda chegaram ao empate no segundo tempo, numa cabeçada de Ma Lin. Com o resultado, os rubro-negros terminaram na segunda colocação e avançaram para a final contra o Bayer Leverkusen, que bateu o Japão por 1 a 0 mesmo sem contar com Tita, convalescendo de uma intoxicação alimentar.

O ex-rubro-negro também não estaria em campo contra o Flamengo na decisão do torneio, em 7 de junho, apenas dois dias depois da rodada anterior. O palco da final era o mesmo da estreia no torneio e também o mesmo em que o Flamengo derrotou o Liverpool da final do Mundial Interclubes em 1981: o Estádio Nacional de Tóquio. E de novo o Fla levantou a taça, graças a um gol de Zico, aos dez minutos de etapa final.

O lance nasceu de um passe de Zico para Márcio, que chutou na trave. A bola correu por toda a extensão da pequena área até sobrar para Paloma, que cruzou da linha de fundo. A zaga tentou afastar de cabeça, mas o Galinho rebateu também em cabeceio, encobrindo o goleiro Vollborn. Jogador mais determinado do time na partida, o camisa 10 vibrou muito na comemoração. Porém, nos minutos finais, ao tentar um pique para alcançar uma bola longa de bola de Cantarele, o capitão rubro-negro sentiu a coxa e teve de deixar o campo.

O Flamengo ditou o ritmo da partida e fez o público japonês vibrar com suas jogadas de efeito contra os atarantados alemães. Tão perdido estava o Bayer que, em certa altura, após levar um drible desmoralizante de Leandro, o atacante Klaus Täuber acertou um soco no queixo do zagueiro rubro-negro, provocando um pequeno corte no local. Mesmo assim, o Fla não se intimidou, vencendo na bola e na garra: “Os alemães tentaram se impor pela força, mas não conseguiram. O Flamengo foi um time valente durante os 90 minutos”, exaltou o técnico João Carlos Costa.

Se reforçou o prestígio do Flamengo e de Zico no Japão e foi um dos últimos títulos das carreiras de Leandro e Cantarele, além do derradeiro de Edinho pelo Flamengo, a Copa Kirin também marcou o ponto alto da passagem dos demais jogadores daquele time misto pelo Fla. Foi uma ocasião inesquecível para os garotos que se juntaram ao quarteto experiente, mas também uma alegria efêmera vestindo rubro-negro, já que, dentro de pouco tempo, eles não estariam mais nos planos do clube, segundo suas carreiras em outras equipes.

Leandro encara o Japão: um de seus últimos títulos.

Os reforços que pertenciam ao America acabaram sendo contratados, mas não chegaram a se firmar: Delacir foi titular do time no Campeonato Brasileiro de 1988 no lugar de Andrade (vendido à Roma), mas logo no início do ano seguinte seguiria para o São José, defendendo também o Bahia, mais tarde. Paulo César, por sua vez, ficaria um pouco mais, saindo apenas em meados de 1989, após o Estadual, negociado com o Cruzeiro. Já o meia-atacante Márcio seguiria integrado ao elenco rubro-negro pelo restante daquele ano, mas teria raras chances na equipe, sendo emprestado ao Ceará no ano seguinte e defendendo ainda o Fluminense, em 1991.

Os garotos “prata da casa” campeões no Japão também rodariam bastante depois de deixarem o Fla – o que não demorou muito para acontecer. Ainda naquele ano, Valmir, Paloma e Gerson seguiriam para o America, participando da última campanha do time rubro na elite do Brasileiro. Posteriormente, o lateral defenderia times como Bragantino, Portuguesa, Grêmio e Atlético-MG (chegando a ser vice brasileiro em 1996 pela Lusa e 1999 pelo Galo), enquanto o atacante mais tarde se tornaria ídolo em outro América, o de Natal, e o meia passaria pelo futebol goiano.

Leandro (3) e Zico (10) dividem as comemorações de mais um título na capital japonesa com a garotada rubro-negra.

O zagueiro Gonçalves ganharia mais espaço no time em 1989, mas cairia em desgraça ao marcar um gol contra a favor do Botafogo num jogo em que o Fla vencia por 3 a 1 e terminou empatado em 3 a 3 pela Taça Rio daquele ano. Por coincidência, seria negociado com o próprio Alvinegro logo depois do Estadual, tornando-se um ídolo da torcida do rival. Sem mais chances na Gávea, Gilmar Popoca também defenderia o Botafogo, mas já em 1988, no Brasileiro. E pelas temporadas seguintes, continuaria rodando, passando por clubes como Santos, São Paulo e Vitória.

Curiosamente, na volta do Japão o Flamengo acabaria contratando em definitivo o meia Renato, de quem o America havia negado o empréstimo anteriormente. Chegando à Gávea no mesmo momento em que seu xará gaúcho também trocava o Fla pela Roma, Renato receberia o complemento “Carioca” para ser diferenciado do ponteiro e, como ele, formaria uma boa dupla com Bebeto, na virada de 1988 para 1989. Ainda seria o responsável por outra vitória memorável do Flamengo derrotando um grande clube europeu em um torneio internacional. Mas essa é uma outra história, a ser resgatada em breve.

Há 35 anos, Fla se reinventava para levar tri brasileiro com vitória épica e casa cheia

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O time do primeiro jogo da decisão contra o Santos, que valeu o tri brasileiro. Em pé: Bigu, Raul, Mozer, Marinho, Leandro e Junior. Agachados: Élder, Adílio, Baltazar, Zico e Julio César. Na segunda partida, Bigu deu lugar a Vitor e Mozer foi substituído por Figueiredo.

O terceiro título do Campeonato Brasileiro levantado pelo Flamengo em sua história talvez seja o menos relembrado e comentado entre os seis. O primeiro, em 1980, é citado como pontapé inicial para a conquista do mundo. O segundo, de 1982, é a consagração definitiva do Fla “campeão de tudo”. O quarto, em 1987, à parte das polêmicas judiciais sempre levantadas (pelos outros), tem a marca de um timaço que uniu gerações de ídolos rubro-negros. O penta, em 1992, é do Vovô Garoto e dos Gaúcho’s Boys. E o hexa, em 2009, evoca as jornadas memoráveis de Adriano e Petkovic. E o de 1983? Como entra nesse álbum de memórias?

A vitória categórica sobre o Santos por 3 a 0 naquele 29 de maio de 1983 num Maracanã atulhado de gente – que deu ali ao Brasileiro seu maior público de todos os tempos – consagrou um Fla já um tanto diferente daquele que todo mundo decorou. Do meio para a frente, só Adílio e Zico mantiveram-se como titulares. Mas foi o primeiro título nacional vencido na base do “deixou chegar”, que se tornaria tão característico. Talvez pouca gente saiba, mas o Flamengo, apesar de todo o elenco e cartel recentes, entrou com o moral baixo naquele torneio, subestimado pela imprensa e desacreditado pela torcida.

Foi também o que marcou a despedida de Zico, cuja saída para o futebol italiano foi preservada como segredo de estado na reta final da competição até o triste anúncio, dias depois da conquista. Foi também o último Brasileiro com Raul, nosso senhor goleiro, sob as traves. A taça veio com um treinador que talvez tenha sido o menos “feito em casa” dentro da tradição rubro-negra de conquistas, mas que acabou sendo fundamental naquele curto espaço de tempo em que ficou, ao injetar gás novo na equipe. Ah, sim! Houve ainda a deliciosa eliminação de um arquirrival no mata-mata. São muitas histórias. Vamos a elas?

PRÓLOGO: O ANO QUE TERMINOU EM SETEMBRO

Até o fim de setembro, o Flamengo viveu um ano de 1982 irretocável. Numa campanha repleta de viradas memoráveis e vitórias marcantes sobre vários dos grandes clubes brasileiros, o clube levantou o Campeonato Brasileiro derrubando na final o campeão anterior, Grêmio, dentro do estádio Olímpico. A conquista representava ainda a unificação de todas as taças possíveis: naquele fim de abril, os rubro-negros se tornavam os atuais detentores dos títulos estadual, nacional, continental e mundial. E ainda sobrava, de lambuja, a Taça Guanabara.

E mesmo em meio à tristeza que envolveu o futebol brasileiro com a derrota de uma Seleção encantadora no Mundial da Espanha, em julho, a torcida do Fla ainda encontrava motivos para sorrir: o time começara a campanha no Carioca da mesma maneira que vinha antes da pausa para a Copa. Depois de surrar pequenos (a Portuguesa levou de quatro e o Madureira, de oito) e grandes (Botafogo e Fluminense perderam de 3 a 0, fora os respectivos bailes), o time faturou o penta da Taça Guanabara vencendo o Vasco em jogo extra, 1 a 0, gol de Adílio no último minuto.

Naqueles três últimos meses do ano, havia pela frente a Taça Rio, a Taça Libertadores da América (na qual o Flamengo, como atual campeão, já entrava diretamente no triangular semifinal) e, mais adiante, a fase final do Carioca, para qual o time já estava classificado por vencer o primeiro turno. A prudência aconselhava girar o elenco – que havia sido até reforçado naquele semestre, com nomes como os ponteiros Wilsinho e Zezé – no torneio estadual para evitar que o desgaste físico e uma certa autossuficiência em vista das conquistas anteriores atrapalhassem a caminhada para manter a hegemonia.

Adílio na batalha contra o River Plate pela Libertadores de 1982: fim do sonho do bi continental e mundial.

Não foi, no entanto, o que se viu. O time titular foi mantido no Carioca e, em 17 de outubro, perdeu para o perigoso Campo Grande no alçapão de Ítalo del Cima por 1 a 0. Dois dias depois, já estava em Montevidéu, estreando na Libertadores contra o Peñarol. A nova derrota pelo placar mínimo não foi um bom sinal. Até porque, dali em diante, o elenco iniciaria uma verdadeira maratona, jogando de três em três dias, indo de estádios acanhados a aeroportos.

Se venceu duas vezes o River Plate (3 a 0 dentro do Monumental de Nuñez e 4 a 2 no Maracanã), perdeu de vez o rumo no Estadual com derrotas para a Portuguesa na Ilha do Governador e para o Fluminense no Maracanã. Após o triunfo sobre os portenhos no Rio, muito mais complicado do que o placar indica, João Saldanha chegou a intimar em sua coluna no Jornal do Brasil: “Parem os onze!”. Segundo ele, o desgaste físico e psicológico era gritante no time do Flamengo, vinha atrapalhando a fluência de seu jogo e poderia levar a consequências desastrosas.

Não deu outra: definitivamente afastado da conquista da Taça Rio após perder para o America quatro dias depois de vencer o River Plate, o Fla viveria um dos jogos mais traumáticos de sua história em 16 de novembro: precisando vencer o Peñarol no Maracanã por qualquer placar para voltar à final da Libertadores, o time desperdiçou um caminhão de gols, viu uma cobrança de falta do brasileiro Jair vencer Cantarele e perdeu por 1 a 0 diante de um estádio incrédulo. Três semanas depois, perderia também o título carioca para o Vasco. Era o pior desfecho possível.

UM CLUBE DILACERADO

Se dentro de campo, as coisas já haviam ficado inacreditavelmente amargas, fora dele ficariam ainda piores. Dois dias depois da derrota para o Vasco, o supervisor Domingo Bosco foi internado com problemas cardíacos. No dia 20, morreria vitimado por uma trombose cerebral, aos 51 anos. Era fundamental na estrutura rubro-negra: verdadeiro paizão para os atletas, servia de anteparo na relação entre eles e a diretoria, cuidava de todos os detalhes na concentração, e ainda atuava como “relações públicas”, promovendo os jogos. Era insubstituível.

Outra baixa foi a demissão do preparador físico José Roberto Francalacci, no clube desde o fim dos anos 60 e responsável por todo o tratamento ao qual Zico e outros pratas da casa haviam se submetido na adolescência para ganhar massa muscular. Uma discordância com o técnico Paulo César Carpegiani sobre a divisão de atribuições e o método de trabalho levaria à saída do preparador. Já o treinador teria seu contrato renovado por mais um ano. Mas não resistiria até lá, como veremos.

Sem Bosco, os pequenos atritos que haviam entre jogadores e comissão técnica se intensificaram e se tornaram quase incontroláveis. No começo de janeiro de 1983, o New York Cosmos sondou a contratação de Nunes. Indagado se gostaria de deixar o Flamengo, o atacante deixou escapar que “não se dava com uma pessoa” de dentro do clube. Pressionado por jornalistas, acabou deixando no ar que seu desafeto era o treinador. Afastado do elenco (até porque o clube já tentava o gremista Baltazar), foi colocado em disponibilidade. Depois de Palmeiras, Millonarios de Bogotá e Ponte Preta manifestarem interesse, ele é emprestado ao Botafogo no fim de fevereiro, com o Brasileiro já rolando.

Ainda em janeiro, no dia 17, o clube acerta a chegada de Baltazar, em troca por empréstimo por Tita, que sai insatisfeito e triste por deixar o clube. Chega também um certo lateral-direito chamado Cocada, vindo do Operário-MS. Para a ponta-direita, no dia 20 é anunciado Robertinho, do Fluminense, também em troca por Wilsinho (ex-ponteiro do Vasco, trazido para o Carioca de 1982). Por outro lado, há ainda a pendência dos contratos de Figueiredo, Mozer e Lico, que vencem em breve.

UM INÍCIO IRREGULAR

Enquanto isso, o time largava no Brasileiro com atuações oscilantes ao extremo. Na estreia, uma atuação muito segura na vitória sobre o Santos por 2 a 0, gols de Baltazar e Zico. Seis dias depois, uma péssima apresentação num vexatório empate em 1 a 1 com o fraco Moto Clube em pleno Maracanã. Em seguida, a equipe vai ao Norte e faz dois jogos nervosos contra o Rio Negro no acanhado Estádio da Colina, em Manaus (1 a 1), e contra o Paysandu no Mangueirão (vitória por 3 a 2), deslanchando apenas no terceiro, indo à forra com o Moto Clube com uma goleada de 5 a 1 no Castelão de São Luís.

Passado o Carnaval, o time volta embalado, arrasando o Rio Negro no Maracanã por 7 a 1, num jogo em que Cocada marca duas vezes. Três dias depois, nova vitória por 3 a 2 sobre o Paysandu, agora em casa, com três de Baltazar. Mas na última partida, o time perde para o Santos por 3 a 2, deixando cair um tabu de oito anos sem derrotas no Morumbi e outros dez sem perder para o Peixe – que também arrebata a primeira colocação do grupo ao fim da primeira fase.

A primeira etapa tem Baltazar como personagem: embora artilheiro da equipe com oito gols, o atacante recém-chegado do Grêmio é muito criticado pela afobação nas conclusões e o individualismo nas jogadas. Em algumas partidas, até mesmo Zico demonstra muita irritação quando o centroavante prefere tentar uma jogada infrutífera a passar para um companheiro melhor colocado. Por outro lado, Marinho vem se agigantando na zaga, apontado como o melhor jogador da linha de defesa no momento. Enquanto Raul, aos 38 anos e vivendo a última temporada de sua carreira, mantém a segurança sob as traves.

O AUGE DE UMA CRISE DEVORADORA

Pausa no Brasileiro: o Fla vira a chave para a outra competição do semestre, a Libertadores. Em 4 de março, o time vai ao Olímpico, mesmo palco da final do Brasileiro do ano anterior, e estreia com um ótimo empate em 1 a 1 diante do Grêmio. Baltazar balança as redes do ex-clube com um belo gol logo aos 16 minutos, mas o uruguaio Hugo De León deixa tudo igual a dez minutos do fim do jogo. De volta à competição nacional, os rubro-negros têm um grupo fácil na segunda fase, no qual o Tiradentes do Piauí e o velho conhecido Americano de Campos são os azarões, enquanto o badalado Palmeiras disputa o favoritismo.

Contra o Tiradentes em Teresina. Em pé: Marinho, Leandro, Raul, Ademar, Andrade e Junior. Agachados: Robertinho, Adílio, Baltazar, Zico e Lico.

Na primeira rodada, o time vai a Teresina e bate o Tiradentes por 3 a 1, com dois gols de Zico e um de Andrade. Porém, um problema no joelho faz o volante ser desfalque para o jogo seguinte, dali a quatro dias, contra o Palmeiras no Morumbi. O Fla sai na frente e chega a controlar o jogo em parte do primeiro tempo, mas o Alviverde empata antes do intervalo e volta arrasador na etapa final, vencendo por 3 a 1. E a crise volta. Mesmo vencendo o Americano no Maracanã por 3 a 0, o time cumpre péssima atuação e sai vaiado. O que se repete dois dias depois nos 2 a 0 sobre o Tiradentes.

Xingado de “burro” pelos torcedores por tirar o ponta-esquerda Édson, um dos melhores da equipe contra o Tiradentes, e não os decepcionantes Robertinho e Baltazar, para a entrada do garoto Bebeto, Carpegiani procurou o vice-presidente de futebol Paulo Dantas ao fim do jogo e comunicou seu desejo de deixar o clube. De um dia para o outro o pedido de demissão foi oficializado, e o Fla já apontava o ex-meia Carlinhos, então técnico dos juvenis, para comandar o time pelos próximos jogos. Sondado por dirigentes árabes, Carpegiani dali a poucos dias assinaria contrato com o Al-Nassr.

A primeira passagem de Carlinhos como técnico do Flamengo não tem, no entanto, o sucesso que teriam as posteriores. Dura apenas cinco jogos, dado que confere um caráter de interino, ainda que segundo os jornais da época os dirigentes se referissem ao ex-meia como treinador efetivo. De cara, ele já precisa enfrentar problemas justamente em sua antiga posição, com o permanente afastamento de Andrade, ainda lesionado. Lico fará seu último jogo contra o Palmeiras antes de operar o joelho. Zico também tem problemas físicos, mas segue jogando e vai enfrentar o Alviverde.

Depois de jogar para 12 mil contra o Americano e seis mil contra o Tiradentes, o Flamengo arrasta 80 mil torcedores ao Maracanã para a estreia de Carlinhos. O time faz uma de suas melhores atuações do ano até então, encurralando os paulistas. Abre o placar numa cabeçada de Baltazar aos 27 minutos e perde várias chances claras. Mas, a 12 minutos do fim, numa jogada que nasce de impedimento não marcado de Cléo, Jorginho empata para o Palmeiras. Porém, três dias depois é o Fla que fica duas vezes atrás no placar contra o Americano em Campos e tem que buscar o empate em 2 a 2, novamente com Baltazar.

Chega a hora de novamente virar a chave para a Libertadores, viajando para enfrentar os bolivianos Blooming e Bolivar. E é aí que a equipe volta a mergulhar na crise. Mesmo sem o problema da altitude influindo em Santa Cruz de la Sierra, o time apenas empata com o primeiro, numa noite de péssima pontaria. Contra o segundo, em La Paz, veio o desastre. Sem organização, mas principalmente sem fôlego, o Fla chega a sofrer 3 a 0, descontando no fim do segundo tempo com um gol do ponteiro Édson, e fica praticamente eliminado, até porque o Grêmio vencera ambos os jogos no país andino.

O QUE HÁ COM O FLAMENGO?

A imprensa abre manchetes: o que há com o Flamengo? É o fim do grande esquadrão? No Rio, comenta-se sobre as mudanças pelas quais passou não só o time como a comissão técnica – sem Andrade, Tita, Nunes, Lico, Bosco, Carpegiani – que interferiram até no estilo de jogo tradicional da equipe. Também há a acusação de que alguns jogadores que não vêm rendendo o esperado nem honrando a camisa. Adílio é um dos mais visados, tachado de enfeitar demais, não ter garra, não saber cabecear nem chutar no gol.

Em São Paulo, por sua vez, há um indisfarçável regozijo com o fim da hegemonia rubro-negra. Até porque agora é possível dispensar o pudor de alçar os quatro grandes do estado à condição de maiores favoritos ao título do Brasileiro, que já adentra a terceira fase de grupos. Correm por fora o Grêmio e o Atlético-MG, pelos grandes jogadores que tinham e pelo bom desempenho recente. Já entre os cariocas, o mais cotado é – surpresa – o America, que vem de ótimo papel nas etapas anteriores.

Quanto ao Fla, alguns palpiteiros mais venenosos acreditam que o time nem chegará às quartas, caindo num grupo com dois paulistas: o (aparentemente) consolidado Corinthians de Sócrates e Casagrande e o ascendente Guarani. Antes da estreia, contra o Goiás no Maracanã, já é anunciada a saída de Carlinhos, que comandará o time pela última vez. Há também protestos da torcida, que leva muitas faixas à geral (“Queremos raça”, “Adílio pipoqueiro”, “Junior bailarino”, “Jogadores ganham muito e jogam pouco”). Mas o time deu de ombros, jogou bem e largou com vitória por 2 a 0, gols de Zico e Robertinho.

Paradoxalmente, em meio ao mau momento geral recente, crescia a olhos vistos o futebol do volante Vitor. Alvo de polêmica em anos anteriores por ser convocado com frequência por Telê Santana para a Seleção mesmo seguindo na reserva de Andrade no clube, foi visto com desconfiança quando assumiu a posição pela lesão do titular, de quem diferia no estilo. Menos técnico e classudo, era, porém, mais dinâmico, correndo o campo todo, fechando a frente da área, cobrindo as laterais e aparecendo bem na frente. Foi o único a se salvar nos catastróficos jogos na Bolívia. E daqui em diante seria fundamental.

Carlinhos voltou para a base, o preparador Cléber Camerino dirigiu interinamente o time no empate sem gols com o Guarani em Campinas, e o Fla, que sondou o velho ídolo Evaristo de Macedo (então no Catar), acabou acertando com Carlos Alberto Torres para o comando do time. O “Capita” teve rápida passagem como jogador pelo Fla em 1977, e havia pendurado as chuteiras em setembro de 1982 atuando pelo Cosmos justamente num amistoso com o Flamengo. Aos 38 anos, vivia sua primeira experiência como treinador e falava em resgatar o futebol alegre e a motivação dos jogadores rubro-negros.

Sua primeira medida, no entanto, foi mais prudente. Aproveitou a suspensão de Robertinho (expulso no último minuto do jogo com o Guarani) para armar um time sem pontas, mas mais combativo e aplicado no meio-campo. A ideia era aproveitar o vigor e a aplicação dos jovens Élder e Júlio César Barbosa (ambos promovidos da base naquela temporada), juntamente com Vitor no bloqueio, liberando Adílio e Zico para se concentrarem na criação, com Baltazar à frente.

O BAILE DO RENASCIMENTO

Deu muito certo. Empurrado por mais de 90 mil torcedores (seu maior público no Maracanã no ano até ali), o Fla arrasou o Corinthians de Leão, Zenon e Sócrates por 5 a 1, tendo ainda nada menos que três gols estranhamente anulados pelo árbitro, num jogo histórico, lembrado aqui. O time ganha outro ânimo. Após o empate em 1 a 1 com o Goiás no Serra Dourada e a vitória por 2 a 0 sobre o Guarani em casa, a vaga nas quartas de final vem por antecipação – ironicamente, os goianos serão os outros classificados, deixando pelo caminho os “favoritos” Corinthians e Guarani, este sem vencer nenhum jogo.

Na Libertadores, o Fla ainda arrasa o Blooming por 7 a 1 – mesmo depois de sofrer um gol com esdrúxulos 29 segundos de partida – em seu primeiro jogo em casa no torneio, mas entre aquela partida e as próximas, o Grêmio (eliminado de modo surpreendente no Brasileiro ao perder no Olímpico para a Ferroviária de Araraquara) também vencerá a dupla boliviana em Porto Alegre, selando a classificação. Para os rubro-negros, não faz mal. Há outras batalhas a serem vencidas no torneio nacional. E uma caseira o aguarda: o Vasco – que eliminara outro favorito paulista, o Palmeiras – é o adversário das quartas.

O primeiro jogo, numa noite de quinta-feira, foi bastante truncado e faltoso. Mas o Fla dominou as ações, especialmente no segundo tempo. Antes, na etapa inicial, o time abriu o placar numa triangulação iniciada por Zico e Junior, que encontrou Adílio no meio da zaga do Vasco, tendo apenas que tirar de Mazarópi para abrir o placar. Os cruzmaltinos, no entanto, empataram numa infelicidade de Mozer, que, numa disputa pelo alto com Roberto Dinamite, cabeceou contra as próprias redes uma rebatida de Raul.

Aos 23 do segundo tempo, o Fla marcaria o gol da vitória com Júlio César, aproveitando uma grande jogada e o cruzamento de Marinho pela direita, além da saída em falso do goleiro vascaíno. O resultado deixava o Fla com a possibilidade de até perder por um gol de diferença na partida de volta. No domingo, o Vasco até saiu na frente, num lance de sorte: Roberto rolou uma cobrança de falta para Elói, que chutou e viu a bola resvalar na defesa rubro-negra, enganando Raul.

Só que os cruzmaltinos ficaram nisso. E aos poucos o Flamengo retomou o controle do jogo: mesmo em desvantagem (embora garantido com aquele resultado), era o melhor time em campo e criava muitas chances para o empate. Somente nos 15 minutos finais, o Vasco acordou e foi tentar o segundo gol. Mas foi a vez de o Fla ser traiçoeiro, gastando a bola e o tempo. Quando o relógio se aproximava dos 45 minutos, Élder recebeu lançamento de Leandro na ponta direita e tocou de calcanhar para Adílio. O meia avançou até a área em meio à aberta defesa vascaína e só rolou para o lado, para Zico chegar e empatar.

Irritados com a eliminação decretada, os vascaínos voltaram sua ira contra a arbitragem, numa reclamação absurda de impedimento (Zico estava bem atrás da linha da bola). Visivelmente descontrolado, Roberto tentou agredir o juiz Valquir Pimentel, acabou expulso e teve de ser escoltado para fora do gramado. O técnico cruzmaltino Antônio Lopes ainda tentou acusar o Fla de “jogar como time pequeno”, quando havia sido exatamente o Vasco que inexplicavelmente passara a maior parte do jogo se defendendo, quando deveria ter saído para buscar o resultado.

DEIXARAM CHEGAR…

O que importava ao Flamengo era estar nas semifinais, e diante de um adversário surpreendente: o Atlético Paranaense, que derrubara mais um favorito paulista – agora o São Paulo – vencendo as duas partidas. Era o que dava ao time curitibano a vantagem de decidir o confronto em casa (no caso, no Couto Pereira, então o principal estádio da capital do estado). Antes, porém, teriam que encarar outra prova de fogo: um Maracanã com mais de 100 mil flamenguistas.

O jogo do Maracanã foi um verdadeiro massacre do Flamengo. Mesmo a ausência de Raul, lesionado, não foi sentida, já que Cantarele foi praticamente um espectador da partida. Do outro lado, Roberto Costa gastava toda a sua cota de milagres no gol do time paranaense. Mas não pôde deter a cabeçada de Zico, após bola escorada também de cabeça por Júlio César, aos 39 minutos do primeiro tempo. Nem quando o Galinho passou a Vitor, e o volante fuzilou com um chute cruzado aos oito da etapa final. Nem a cobrança de pênalti de Zico (após Robertinho ser bloqueado com o braço por um defensor), aos 16.

Baltazar tenta a cabeçada contra o Atlético-PR, observado por Adílio (8), Mozer (4), Zico e Julio César (11).

Na volta, porém, o Fla teve problemas. Diante de mais de 65 mil torcedores (recorde de público do estádio até hoje), o time começou melhor e perdeu pelo menos duas chances claras com Baltazar. E pagou caro levando dois gols de Washington em jogadas idênticas, com um intervalo de apenas três minutos entre ambos. Continuou criando e perdendo várias chances a longo da partida (Roberto Costa estava novamente inspirado), mas também foi salvo por uma defesa crucial de Raul em chute de Capitão.

Com a vaga na Libertadores de 1984 garantida pela passagem à final, a decisão é um reencontro: o Santos, rival na primeira fase, cruza novamente o caminho do Fla. Vitor, com um problema na coxa, seria uma baixa. Em seu lugar entraria o garoto Bigu, promovido por Carlos Alberto durante o campeonato (“Meu time é Bigu mais dez”, chegou a dizer o treinador para motivar o jovem volante). Já no Santos havia um jogador disposto a mostrar seu valor: o também volante Lino, emprestado pelo próprio Flamengo depois de integrar o elenco por cinco anos sem chegar a se firmar em sucessivos empréstimos.

Com o Morumbi lotado, o Fla perde chance clara com Élder logo no início e, como em Curitiba, acaba castigado com a abertura do placar pelos santistas, num chute forte, de fora da área, de Pita em rebote de escanteio. Para dar mais ofensividade, Carlos Alberto mexe no intervalo: tira Júlio César e coloca o garoto Bebeto. Mas no segundo tempo, aos 18, uma bobeada da defesa rubro-negra, que parou para reclamar da marcação de uma falta, resulta no segundo gol do time paulista, com Serginho aproveitando rebote de Raul. Na comemoração, o atacante é atingido por um rojão arremessado pela própria torcida.

Enquanto Serginho é atendido fora do campo, há um escanteio para o Flamengo. Junior levanta na área, Mozer cabeceia para trás na segunda trave, Marinho também testa e Baltazar, meio de costas para o gol, desvia de cabeça para as redes. Um gol que mantém o Fla vivo no campeonato. O problema é perder Mozer, um dos melhores em campo, que sofre afundamento do malar após uma cabeçada sem intenção de Paulo Isidoro no último minuto. Mas Vitor retorna para a batalha final.

A FINAL PERFEITA

Julio César, Baltazar (9) e Junior (5) encaram a defesa do Santos.

Com a derrota por 2 a 1 na ida, o Flamengo precisava vencer por dois gols para levar o título nos 90 minutos. Em caso de vitória por um gol de diferença, independentemente do placar, a decisão iria para prorrogação, e então pênaltis. Empate era do Santos. Para empurrar os rubro-negros em busca do terceiro título brasileiro, que tal um recorde de público? Pois nada menos que 155.253 torcedores vão ao Maracanã e, logo aos quarenta segundos, são premiados com o primeiro gol, marcado por Zico.

Quarenta segundos. Pouca coisa aconteceu entre a bola começar a rolar e ela ser lançada por Vitor para Julio Cesar, o loirinho garoto goiano que faz um carnaval pela ponta-esquerda onde há não muito tempo outro Julio César costumava brilhar. Dá dois cortes em Toninho Oliveira e cruza rasteiro. Baltazar é bloqueado, Junior pega a sobra e enche o pé. Marolla espalma, e Zico, no lugar certo e na hora certa, toca para o gol vazio mesmo caído. O Maracanã ferve, pulsa, treme. A decisão já está igual de novo.

Baltazar perde uma ótima chance de ampliar logo aos cinco, tocando por cima na pequena área. Em seguida, é a arbitragem que fica na berlinda: primeiro Toninho Silva corta com o braço um cruzamento de Zico dentro da área, mas o jogo segue. Instantes depois, Pita arranca e é travado por Marinho fora da área, quase sobre a linha. Os santistas pedem pênalti. Arnaldo César Coelho marca tiro livre indireto dentro da área. E a cobrança não dá em nada.

O Santos cresce e assusta em alguns lances. O Fla responde com uma cabeçada de Baltazar que tinha endereço certo, mas Marolla vai buscar. Aos 40, há uma falta lateral para o Flamengo perto da linha de fundo. Zico levanta na primeira trave e Leandro cabeceia no canto, inapelável. Antes do fim do primeiro tempo, o lateral-direito quase marca o terceiro, depois de desarmar o ponteiro João Paulo, cortar pelo meio e, de pé esquerdo, desferir um petardo que explode no travessão e quica sobre a linha. Agora, o Flamengo vai para o intervalo como o senhor da partida.

Na etapa final, o Santos começa querendo descontar e até entra duro em alguns lances, mas o Flamengo aos poucos retoma o domínio. Vitor e Adílio são onipresentes. O volante é o motor do meio-campo rubro-negro, correndo, cobrindo, passando, lançando. Já o dono da camisa 8, contestado durante todo o campeonato, tem uma das maiores atuações da carreira. O time chega perto do terceiro gol, mas tanto Julio Cesar e, mais tarde, Adílio, param em Marolla.

Adílio marca o terceiro de cabeça e confirma o tri.

Até que aos 44, Vitor desarma um jogador do Santos que tentava iniciar um contra-ataque e Robertinho, que entrara no lugar de Baltazar, ganha a disputa com Gilberto, dá dois cortes lindos no lateral santista e cruza alto. Adílio, aquele que “não sabe cabecear”, testa para vencer Marolla pela terceira e última vez no jogo. O título já é uma realidade. Os jogadores do Santos, de cabeça quente, tentam estragar a festa. Paulo Isidoro empurra um fotógrafo – a essa altura, o gramado do Maracanã já está repleto também de repórteres e cinegrafistas – e o papelão degringola para uma confusão à beira do campo.

A gigantesca torcida do Flamengo não quer nem saber. Seu time é tricampeão brasileiro, contrariando os prognósticos – como passaria a ser a regra nas conquistas nacionais posteriores. É que o Flamengo em crise, destroçado, rachado internamente, supostamente uma caricatura da grande equipe que foi nos anos anteriores, reconstruiu-se, recuperou a alegria e deu a volta por cima com mais uma taça nas mãos. Em fim de ciclo? Pode até ser, até porque o astro maior, Zico, partiria para a Udinese dali a alguns dias. Mas, como todo bom time vencedor, o Flamengo o encerra brilhantemente com mais um título brasileiro.

Nos 60 anos de Tita, momentos em que ele honrou o Manto Rubro-Negro

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Falar de Milton Queirós da Paixão, o Tita, entre rubro-negros é um tema um tanto espinhoso. Embora tenha formado parte da geração mais vitoriosa e festejada do Flamengo em todos os tempos, o meia-atacante – que completa 60 anos neste domingo – costuma ser visto com certa reserva por muitos torcedores. Não é difícil entender os motivos dessa rejeição, como veremos. Mas também não é justo que se esqueça o papel importante que desempenhou na Era de Ouro do clube, assim como seus momentos de protagonismo dentro de campo, fosse com base na técnica ou na garra que sempre demonstrou vestindo vermelho e preto.

Desde o início da carreira, Tita sempre teve como meta vestir a camisa 10 do time profissional do Flamengo, a mesma que vestia nos juvenis. E isso mesmo com Zico sendo o dono inquestionável do trono de Rei rubro-negro. Reclamava com frequência por atuar fora de sua posição (perambulou pelas duas pontas, pelo miolo do ataque e jogou até como segundo homem do meio-campo, até se fixar com a camisa 7), o que, junto com sua obsessão com o posto do Galinho causou um certo mal-estar na Gávea durante muito tempo.

Mas o que seria decisivo em queimar para sempre o filme do jogador com muitos torcedores do Fla foi sua ida para o Vasco no início de 1987, após passagem de um ano e meio pelo Internacional. E pior: em agosto daquele ano, marcaria o gol do título carioca dos cruzmaltinos contra o clube que o revelou. Estava então irremediavelmente tachado de “traidor” e de “vascaíno” (quando sempre afirmou ser Flamengo desde a infância) por muitos rubro-negros. O fato de ter voltado ao Vasco para uma segunda passagem como jogador (entre 1989 e 1990) e de, mais tarde, assumir cargos na comissão técnica – inclusive treinador – do rival deixaria para a sempre a certeza de que havia “se bandeado” para os lados de lá.

Entretanto, é preciso fazer justiça ao jogador que era este carioca da Tijuca, e ao que fez de grande em sua carreira no Flamengo. Tita era um meia-atacante de ótima qualidade técnica, bom nos passes curtos e longos. Como Zico, era ótimo cobrador de faltas. E ainda contava com uma característica raramente citada quando se fala de seu futebol: era ótimo no jogo aéreo. Sua cabeçada era precisa como uma tacada de sinuca dos grandes mestres, ao mesmo tempo forte e colocada, como comprovam seus inúmeros gols (golaços, inclusive) utilizando-se do fundamento.

Se não tinha a mesma visão de jogo e o mesmo talento acima da média para resolver as jogadas num lampejo como o Galinho (o que seria especialmente notado em sua segunda passagem pela Gávea), compensava sendo um batalhador incansável em campo, sempre raçudo, combativo, aguerrido (às vezes até um pouco demais, como não se cansavam de afirmar seus detratores). Corria por todo o campo fechando espaços, recuperando bolas. Sair de campo com a camisa limpa, sem suor, era impensável.

No Flamengo campeão de tudo (Carioca, Libertadores, Mundial e Brasileiro) na virada de 1981 para 1982, tinha enorme importância tática. Embora vestisse a camisa 7, mas não como ponta autêntico – desses que jogam abertos, isolados, correndo com a bola até a linha de fundo antes de cruzar para a área. Pelo contrário: fechava pelo meio, abrindo o corredor por onde passava Leandro – de modo que foi fundamental para que este pudesse fazer seu jogo ofensivo aparecer. E ao centralizar, Tita atuava mais perto de Zico e de Nunes, aproximando-se de sua posição de origem.

HERÓI DO TRI

Tita flutua no ar para marcar de cabeça contra o Vasco o gol que daria o tri estadual ao Flamengo em 1979.

E o primeiro grande momento de Tita no time rubro-negro foi jogando em sua posição de origem, em 1979. Campeão carioca de 1978 e vencedor invicto do chamado Campeonato Especial, disputado entre fevereiro e abril de 1979, o Fla buscava chegar ao tri vencendo também o inchado Estadual daquele ano, que reuniu 18 clubes em três turnos entre maio e novembro. Faturou a Taça Guanabara com dois jogos de antecipação, mas no segundo turno sofreu um abalo aparentemente irreparável.

Na antepenúltima rodada do returno, o Flamengo em situação desfavorável na tabela disputava um jogo duríssimo contra o Goytacaz em Campos. No segundo tempo, numa disputa de bola com o zagueiro Orlando Fumaça, Zico sofreu estiramento na coxa direita e teve de sair quase imediatamente em campo. Feitos os exames, veio a confirmação: O Galinho – que até ali somava absurdos 34 gols marcados em 24 jogos naquele Estadual – estava fora dos próximos jogos do turno, talvez até do campeonato. Mas o Fla obteve vitória importante por 1 a 0. Gol de Tita.

O aspirante a 10 da Gávea foi prontamente apontado pelo técnico Cláudio Coutinho como o substituto de Zico pelo tempo que durasse a recuperação do ídolo rubro-negro. Era a chance que Tita aguardava para provar seu valor. No jogo seguinte, contra o Botafogo, o Fla foi melhor em todo o jogo, mas, como no jogo do primeiro turno, viu-se atrás no marcador com gol de Renato Sá.

Felizmente, porém, o desfecho seria diferente desta vez: aos 28 minutos do segundo tempo, Tita sofreu falta e, da cobrança, nasceu o gol de empate, de Cláudio Adão. E aos 46, o novo dono da 10 aproveitou-se de uma indecisão da defesa alvinegra para tomar a bola de Manfrini e chutar para defesa parcial de Ubirajara. No rebote, Adão marcou de novo, decretando a virada emblemática.

Sobre o meia, o Jornal do Brasil avaliou: “Faltou apenas um gol para premiar sua atuação. Esteve sempre livre de marcação e cumpriu com perfeição a difícil missão de substituir Zico”. Era seu cartão de visitas para o jogo da última rodada, contra o Fluminense. A reação rubro-negra naquele turno coincidiu com tropeços dos rivais, de modo que a equipe de Cláudio Coutinho chegava ao Fla-Flu decisivo, em 23 de setembro, precisando apenas do empate. Mas os tricolores, que contavam com o futuro ídolo rubro-negro Nunes no comando do ataque, partiram para cima e levaram perigo em alguns momentos.

O jogo, porém, foi decidido no fim, aos 42 minutos. E a favor do Fla. Num contra-ataque, Adílio desceu pela direita e rolou para Tita, que chutou prensado, mas mesmo assim conseguiu vencer o goleiro Paulo Goulart. A vitória confirmou o título do segundo turno (o sexto consecutivo vencido pelos rubro-negros nos três últimos campeonatos cariocas) e também a conquista do segundo ponto extra para a disputa do terceiro e decisivo turno, que começaria logo em seguida, ainda com o desfalque de Zico.

Tita também abriu o caminho para a conquista do terceiro turno (todo jogado no Maracanã) ao anotar o primeiro gol na vitória por 3 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha do Governador, na primeira rodada. Na partida seguinte, goleada de 5 a 1 sobre o Goytacaz, balançou as redes mais duas vezes. E no terceiro jogo ainda salvou o Fla – que patinava numa péssima atuação contra o Bangu – ao aproveitar cruzamento de Toninho da ponta direita para marcar de cabeça o único gol do jogo.

Não foi, no entanto, um turno de vitórias do início ao fim. Com recuperação apressada pelos médicos rubro-negros, Zico foi relacionado para o banco na partida seguinte, um Fla-Flu. No primeiro tempo, o Flamengo dominou as ações, mas, em dois descuidos, sofreu dois gols. No intervalo, o Galinho entrou no lugar de Andrade. Ainda sem condições físicas ideais, desperdiçou um pênalti. No fim do jogo, num contragolpe, o Flu marcou o terceiro. E lá se foram os dois pontos de bonificação.

Apesar da clara demonstração de ainda não estar recuperado, Zico foi novamente relacionado e agora escalado de saída no jogo contra o Americano. Mas saiu no intervalo, por precaução, dando lugar ao ponteiro Reinaldo. Tita, vestindo a 7, foi passado novamente para a ponta de lança. Autor do único gol do primeiro tempo, em tabela com o Galinho, ele completou a tranquila vitória marcando mais duas vezes na etapa final, primeiro de cabeça e depois matando no peito antes de fuzilar o goleiro Paulo Sérgio. Para o Jornal do Brasil, ele foi “o destaque do jogo, não só pelos gols, como também pelo desembaraço”.

“Desembaraço”, aliás, é uma ótima palavra para descrever a principal qualidade de Tita dentro daquela equipe. Em meio a jogadores de excelente qualidade técnica, mas sempre propensos a um toque ou drible a mais, ele era o senso prático, a objetividade. E ela seria de grande valia na partida seguinte, a penúltima, contra o Vasco na tarde de 28 de outubro. Era o jogo que poderia encaminhar o título do turno (e, por conseguinte, o tricampeonato carioca) para a Gávea. Em caso de vitória, eram boas as chances de os rubro-negros já entrarem de faixa no último jogo, contra o Botafogo.

Tita, na raça, faz o segundo contra o Vasco no jogo decisivo do tri de 79.

O Flamengo saiu matando e abriu o placar logo aos 11 minutos. Júlio César, o Uri Geller, foi lançado em profundidade na ponta esquerda, avançou e cruzou para a área. Afobado, o zagueiro Ivã se antecipou a Claudio Adão e, de carrinho, mandou a bola para as próprias redes. Logo depois, na jogada que terminaria no segundo gol, um exemplo da diferença de estilo de Tita. Júlio César e Cláudio Adão entraram tabelando na área, mas ambos se complicaram justo na hora de concluir, perdendo chance incrível. A zaga vascaína afastou e a bola sobrou para o ponteiro Reinaldo, que mandou um chute venenoso defendido apenas parcialmente por Leão. Tita não quis nem saber: na raça, meteu o pé na bola para dentro das redes.

O Vasco reagiu ainda no primeiro tempo em duas cochiladas rubro-negras. A tensão tomou conta do Maracanã, e a definição do campeonato ficou em suspenso durante boa parte do segundo tempo. Até que, após uma cobrança de escanteio pelo Fla que saiu da esquerda e rodou até à meia direita, a bola parou nos pés do lateral Toninho. O baiano avançou alguns passos e, quase de lá mesmo, alçou a bola sobre a área. E o que se seguiu foi um dos gols de cabeça mais plasticamente impressionantes e marcantes da história do Maracanã. Tita, quase da risca da grande área, subiu e pairou no ar. Sua testada encobriu Leão e morreu no canto oposto, no fundo das redes vascaínas. E o Flamengo começou a vestir as faixas.

O título acabou confirmado na véspera da partida com o Botafogo, após uma vitória cruzmaltina sobre o Fluminense. Lesionado, Tita não enfrentou o Alvinegro. Mas sua enorme contribuição já estava eternizada. Foram 11 gols nos nove jogos anteriores. Quase todos que deram vitórias. E o garoto de 21 anos se sentiu realizado ao perceber que, com ele, por aqueles momentos, a torcida nem sentiu falta de Zico.

REVANCHE E ‘BYE-BYE’

No Campeonato Brasileiro de 1980, em meio à campanha que levaria o clube ao seu primeiro título nacional, o Fla reencontrou na segunda fase o Palmeiras, algoz do ano anterior na mesma competição ao golear de maneira até surpreendente os rubro-negros dentro do Maracanã por 4 a 1. Torcida, jogadores, comissão técnica, dirigentes, todos ansiavam por uma revanche categórica. E ela veio, em grande estilo, numa antológica, memorável, deliciosa goleada por 6 a 2 no dia 13 de abril.

Tita abriu o caminho para o massacre, aproveitando a falha do goleiro Gilmar com um leve toque de cabeça. Zico marcou de falta e de pênalti e ampliou. Toninho apareceu lá da lateral direita para fuzilar o arqueiro e marcar o quarto. Aos 26, Tita recebeu na área pela direita, matou a bola na coxa e girou marcando o quinto em um bonito chute. Melhor mesmo, só a comemoração, o símbolo da revanche conquistada: o camisa 7 atravessou quase toda a extensão do campo para acenar em despedida, com um sorriso de satisfação nos lábios, à torcida palmeirense. Uma imagem marcante daquela conquista.

No ano seguinte, depois de ser um dos destaques da Seleção Brasileira nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982, Tita surpreendeu até mesmo os próprios companheiros ao anunciar que abria mão de futuras convocações caso fosse mantido como ponta-direita. Vivia também momento difícil dentro do clube, tratado como jogador problemático. Para vestir a sete, o Fla contratara o ponta autêntico Chiquinho, do Olaria, e este vinha tendo sequência como titular. Cogitava-se o empréstimo de Tita para a Portuguesa paulista (já então uma provável canoa furada a se embarcar).

Até chegar a partida contra o Atlético-MG no Maracanã, pela primeira fase da Taça Libertadores, no dia 7 de agosto. Após um primeiro tempo sem gols, o time mineiro abriu o placar num contra-ataque em que Palhinha deslocou Rondinelli e ficou livre para driblar Raul e tocar para as redes. O Fla empatou com Nunes, aproveitando rebote de João Leite. E dois minutos depois Tita apertou a saída de bola do Galo, desarmou Heleno, dominou e, de fora da área, soltou uma bomba de pé esquerdo para virar o jogo. Na comemoração, mostrou a camisa para a torcida em tom de desabafo. O adversário ainda empataria com Reinaldo, mas Tita mostrou que entrava no time para não sair mais, como de fato aconteceu.

Às voltas com uma arrastada renovação de contrato, Tita ficou de fora de algumas partidas do começo do Brasileiro de 1982. Quando enfim retornou, balançou as redes logo de cara contra o Treze em Campina Grande, o Ferroviário em Fortaleza e, mais tarde, contra o São Paulo no Morumbi. Mas o jogo no qual sua participação seria mais decisiva viria bem adiante, na partida de ida das quartas de final, contra o Santos no Maracanã.

Por força de um casuísmo do regulamento, o time paulista teria as vantagens de jogar por dois resultados iguais e de decidir em casa, apesar de ter feito campanha inferior à do Fla ao longo da competição. E para complicar mais ainda, os santistas saíram na frente no primeiro jogo, com um gol do lateral-esquerdo Gilberto aos 19 minutos do primeiro tempo. Havia então uma certa montanha para o Fla escalar. O time passou todo o restante do jogo em cima do adversário, mas o gol não saía.

Até que aos 28 minutos do segundo tempo, Junior ganhou uma bola na ponta esquerda e alçou de pé direito sobre a área. Tita apareceu no meio da defesa e desviou do goleiro Marolla (até ali, um monstro na partida) com um leve toque de cabeça, igualando o marcador e inflamando a torcida. Pegou a bola no fundo da rede e correu com ela até a marca central para a nova saída. Aos 44, o Fla chegaria a virada com um gol do zagueiro Marinho. Na partida de volta, o empate em 1 a 1 (gol de Zico) levou o time às semifinais.

DE RENEGADO A NECESSÁRIO

No fim daquele ano, no entanto, o clima no Flamengo já era outro. Bem diferente do time que jogava por música, e que emendou os títulos carioca, sul-americano e mundial da temporada anterior com mais um Brasileiro, além do penta da Taça Guanabara. Sofrendo com um esgotamento físico e mental, com as pressões por mais conquistas, além das críticas mais frequentes e contundentes (típicas a quem levanta a barra da qualidade muito no alto), o Fla vivia uma aguda crise interna.

Naquela virada de ano, Tita se desentendeu seriamente com o técnico Carpegiani, e foi emprestado para o Grêmio (Nunes, pelo mesmo motivo, passou o ano exilado em General Severiano). Não esteve presente, portanto, no elenco que conquistou o tri brasileiro diante do Santos, no fim de maio. Mas foi instrumental para levar os gaúchos a sua primeira Libertadores (além de levantar seu bi particular da competição).

No início de junho, Zico foi para a Udinese, deixando a torcida órfã e o Fla quase acéfalo, irreconhecível. Numa espiral de humilhações, vários jogadores foram testados (e se queimaram) com a camisa 10. Após uma Taça Guanabara em que o time terminou na sexta colocação (atrás do Goytacaz), com mais derrotas do que vitórias e saldo de gols negativo (graças em grande parte a uma vexatória goleada de 6 a 2 para o Bangu), o Flamengo passou por mudanças até na presidência. Entre especulações e deliberações, uma coisa foi definida como imperiosa, urgente, necessária: trazer Tita de volta.

Após um complicado acerto com o Grêmio, que envolveu a devolução do centroavante Baltazar e o repasse de uma boa quantia em dinheiro, o meia finalmente reestreou em 24 de setembro, contra o Goytacaz no Maracanã. Não apenas vestindo a 10 como também ostentando a braçadeira de capitão. Abriu o placar logo aos 15 minutos, ao mergulhar de cabeça para concluir cruzamento de Junior, antes de Edmar anotar o segundo, fechando a vitória em 2 a 0.

Tita (ao centro) corre em direção à velha geral para comemorar com Edmar e Cléo o gol de empate no Fla-Flu da Taça Rio de 1983.

O Jornal do Brasil não poupou elogios: “Voltou muito bem ao time do Flamengo. Mostrou a garra costumeira, disputando os lances com entusiasmo. Realizou grandes jogadas, principalmente quando ocupava a meia esquerda. Naturalmente, o Flamengo continuará se ressentindo da saída de Zico, mas Tita mostrou que a partir de agora a equipe terá um jogador que saberá usar a camisa 10 com dignidade”.

Mas o grande teste viria mesmo no segundo jogo, diante do Fluminense que havia acabado de conquistar a Taça Guanabara e se colocava como a equipe mais sólida do futebol carioca. Diante de mais de 110 mil torcedores no Maracanã, os tricolores saíram na frente aos 19 minutos, quando Assis aproveitou um passe errado da defesa rubro-negra, avançou e tocou na saída de Raul. Mas o Fla não demorou a reagir.

Cinco minutos depois, numa cobrança de falta no lado esquerdo do ataque, Tita recebeu passe de Cléo e mostrou oportunismo para empatar o jogo. No segundo tempo, chegaria a virada: Mozer desceu pela ponta esquerda, tabelou com Adílio, foi à linha de fundo e cruzou. O novo camisa 10 subiu e cabeceou colocado, com estilo, sem chances para Paulo Vitor. E o Flamengo começou a voltar aos trilhos.

Liderado por Tita, que marcaria 10 gols nos 11 jogos do turno (sem contar a decisão extra com o Bangu), o Flamengo sacudiu a poeira da má fase a qual havia enfrentado meses antes e conquistou a Taça Rio. Não venceu, porém, o Estadual, eliminado em seu primeiro jogo no triangular final numa derrota no detalhe para o Fluminense, num gol de Assis já nos descontos, iniciado da marcação equivocada de impedimento de Adílio. Mas em seu último jogo no torneio, o time venceu o Bangu por 2 a 0, com dois gols nascidos dos pés de Tita. No primeiro, seu chute bateu na trave, e Adílio conferiu no rebote. No segundo, uma cobrança de falta perfeita, irretocável, digna de Zico.

Tita também foi o autor do primeiro gol do Flamengo no ano seguinte: da vitória de 1 a 0 sobre o Palmeiras, num sábado à noite, na partida de abertura do Campeonato Brasileiro daquele ano. Outra cabeçada primorosa estufou as redes de Leão. Entre altos e baixos, conseguiu terminar como artilheiro da Taça Libertadores (nove gols) num Fla que esteve bem perto de sua segunda final no torneio. O time também era um dos grandes favoritos ao título brasileiro, mas sucumbiu nas quartas de final, diante do Corinthians no Morumbi, num jogo em que o meia foi desfalque sentido, especialmente pela garra e experiência.

Campeões da Taça GB de 1984. Em pé: Leandro, Mozer, Jorginho, Andrade, Adalberto e Fillol; Agachados: Bebeto, Élder, Nunes, Tita (capitão) e Adílio.

Naquele ano, o Flamengo levantaria apenas a Taça Guanabara, depois de chegar a ser dado pela imprensa como eliminado, ao acumular tropeços nas primeiras rodadas. Depois de uma sequência de vitórias, o time chegou à decisão contra o Fluminense e venceu por 1 a 0. Tita cobrou falta da ponta esquerda na cabeça de Adílio, que venceu Paulo Vitor e deu início à festa.

O desfecho do Campeonato Estadual, porém, não foi feliz. Na Taça Rio, o Vasco deslanchou desde o início e levou o título. Para o Flamengo, já classificado para a fase final, a ideia era se consolidar também como o time de melhor campanha na soma dos dois turnos e transformar o triangular final numa decisão em dois jogos com os cruzmaltinos, tendo direito a um ponto extra. Esse status poderia ser garantido por antecipação, no jogo da penúltima rodada, contra o Campo Grande no Maracanã.

O Fla abriu o placar com o garoto Gilmar Popoca e logo depois teve um pênalti a seu favor. Tita se apresentou para a cobrança, mas chutou na trave. Pouco antes do intervalo, foi a vez de o Campusca ter penalidade ao seu favor e empatar o jogo. O 1 a 1 persistiu. Na última rodada, no sábado, aconteceu o Fla-Flu do returno. Tita sentiu lesão no vestiário e não jogou. E os tricolores venceram por 2 a 1 e empataram com o Flamengo na soma de pontos, conquistando vaga no triangular final.

O Fluminense levantaria mais uma vez o título carioca, e o pênalti perdido contra o Campo Grande serviria para azedar de vez a relação da torcida com Tita, que não conseguira trazer as conquistas as quais os rubro-negros acreditavam que Zico certamente obteria. Desgastado, o meia pediu para sair do clube, apesar de ter recentemente renovado contrato. Um problema nos joelhos também o tirou de ação até o fim de abril do ano seguinte, num momento em que os rumores da volta do Galinho ganhavam força.

Quando o Flamengo enfim acertou o retorno de Zico, o passe de Tita foi dado como garantia à Udinese. O retorno do meia à ponta-direita indicava que ele havia perdido definitivamente o prestígio. Muito magoado com o tratamento por parte de dirigentes e torcida, deu entrevista anunciando sua saída: “Flamengo nunca mais”. Mas ainda seguiu no clube por mais alguns meses, fazendo até partidas muito boas.

Em setembro, no mesmo momento em que o Fla anunciava repatriar também Sócrates, Tita deixava o clube pela porta dos fundos, negociado com o Internacional – embora tenha manifestado não querer se transferir para outra equipe brasileira. Saía de vez do clube pelo qual torcia e que o revelara depois de atuar em 389 jogos e marcar 135 gols. Só voltaria a vestir rubro-negro em jogos festivos, como as despedidas de Zico e Nunes, mas recebendo mais hostilidades do que aplausos.

Sua história de vitórias, conquistas, raça e bom futebol no Flamengo é inegável e indelével. E não deve ser eclipsada pelo que tenha feito depois. Foi parte importante de uma inesquecível geração. Está lá na história por cada bola dividida, cada cabeçada certeira, cada cobrança de falta precisa. Cada gota de suor deixada no Manto Rubro-Negro.

Vevé, a malícia do drible no timaço do primeiro tricampeonato carioca

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O ponteiro rápido e driblador, aquele cujo futebol é tão habilidoso e abusado que suas fintas beiram a galhofa, é um perene favorito de torcedores em todos os cantos do planeta. No Flamengo, com longa folha corrida de prestígio ao futebol ofensivo e técnico, não seria diferente – o garoto Vinícius Junior é a bola da vez. Por isso, é preciso reverenciar aqueles que encantaram uma geração inteira de rubro-negros, como foi o caso de Vevé. Considerado um dos maiores pontas-esquerdas do clube em todos os tempos, faria aniversário nesta quarta-feira, 14 de março. E sua história merece ser lembrada.

Há uma certa divergência quanto ao ano de nascimento correto de Vevé. A maioria das fontes apontam para a data de 14 de março de 1918 (e, portanto, o ponteiro estaria completando seu centenário neste ano), mas o obituário do craque escrito por Geraldo Romualdo da Silva para o Jornal dos Sports cita uma suposta entrevista do jogador na qual ele afirmava ter nascido em 1917.

O que se sabe ao certo, além do dia e mês de seu aniversário, é que Everaldo Paes de Lima (seu nome de batismo) nasceu em Belém, começou a jogar bola nos campinhos da travessa Quintino Bocaiúva, na capital paraense, e logo foi levado para o Remo, onde chegou ao time principal com apenas 18 anos, sagrando-se campeão do estado já em 1936.

Em 1939, jogando pela seleção do Pará, teve boa atuação contra o escrete baiano, sendo prontamente contratado pelo Galícia, uma das forças do futebol soteropolitano da época. O time da colônia espanhola de Salvador – que em breve levantaria um então inédito tricampeonato estadual – era forte a ponto de derrotar o Vasco num amistoso disputado na Boa Terra em março de 1941. O resultado foi destaque na imprensa carioca e fez crescer os olhos dos clubes da cidade sobre o excelente ponteiro baixinho e de bigode fino. Vevé esteve perto de ir para o próprio Cruzmaltino, mas as negociações não andaram. Foi levado então ao Botafogo, mas seu tamanho não lhe deu muito crédito.

Vevé e o tricolor Pinhegas, ponteiro paraense como ele.

A CHEGADA À GÁVEA

Quem lucrou com o mau julgamento dos alvinegros foi o Flamengo. Vevé pegou um “ita” (famosa linha de transporte marítimo que partia do Norte e Nordeste com destino à capital federal) em Salvador, desembarcando outra vez no Rio em 20 de maio de 1941. Seguiu direto para a Gávea, treinou e foi aprovado. Mas demorou quase um mês para entrar de vez no time: o Galícia pediu uma quantia significativa por seu passe, e o Fla teve trabalho para negociar, até poder enfim escalar o ponteiro na partida contra o Canto do Rio, pela sétima rodada do Campeonato Carioca, no dia 15 de junho nas Laranjeiras.

Substituindo o lendário Jarbas, o “Flecha Negra”, dono da ponta-esquerda do Fla desde sua chegada ao clube em 1933 e então lesionado, Vevé exibiu seu cartão de visitas logo aos cinco minutos de jogo. Um drible espetacular no zagueiro Degas e um chute forte e alto, fuzilando o experiente goleiro Walter Goulart (ex-Flamengo e seleção brasileira da Copa de 1938) e estufando as redes do time niteroiense. Acabou mantido na equipe pelo resto do campeonato, que infelizmente não terminou bem para os rubro-negros. Depois de liderar a maior parte da competição, o time perdeu o gás na reta final e viu o Fluminense levantar a taça no famoso “Fla-Flu das bolas na Lagoa”. Mas pôde levantar a cabeça em vista do punhado generoso de jovens talentos que possuía.

Naquela temporada de 1941, o Flamengo começara aos poucos a renovar seu elenco. Juntamente com Vevé, chegaram outros nomes que se consagrariam no tricampeonato carioca que viria nos anos seguintes e que se eternizariam como gigantes na história do clube. Do Paraná, veio o lateral-direito Biguá. De Minas Gerais, o médio-esquerdo Jayme de Almeida. Do futebol uruguaio, veio o centroavante gaúcho Pirillo. Além deles, também vieram jogadores que participaram da campanha do tri, mas não chegaram a se firmar como titulares, caso do zagueiro gaúcho Barradas e do meia-esquerda baiano Nandinho. Sem falar em pratas da casa, como Zizinho, que disputara sua primeira campanha no time de cima no ano anterior.

O Flamengo para 1942. Em pé: Jaime de Almeida, Volante, Biguá, Domingos da Guia, Jurandir e Newton Canegal. Agachados: Valido, Zizinho, Pirillo, Perácio e Vevé.

Assim como naquele tempo cada jogador tinha uma posição bem marcada, naquele time cada um tinha um conjunto de talentos que delineavam não só um estilo de jogo como também uma personalidade. Domingos da Guia tinha a frieza e a elegância. Biguá era todo raça e pulmão. Jaime era o símbolo do dinamismo e da lealdade. Ziizinho era a técnica e a clarividência. Pirillo, a valentia e o faro de gol. Vevé, naturalmente, também tinha sua tradução: era o homem do cruzamento preciso, milimétrico, mas sobretudo do drible malicioso, da finta seca que desnorteava os adversários, escondendo deles a bola como um adulto brinca de iludir uma criança.

Certa feita, o Vasco trouxe do futebol pernambucano um defensor chamado Luís Zago, conhecido como duro e intimidador, com o objetivo de parar Vevé. Até que veio o primeiro confronto. No começo do segundo tempo, o ponteiro rubro-negro recebeu lançamento de Perácio no bico da área e esperou a chegada do beque. Zago se apresentou e levou o primeiro drible. Quando olhou, já tenha levado o segundo. E o terceiro. Tentou esboçar alguma reação e levou o quarto. Depois o quinto. Quando enfim levou o sexto, só lhe restou cair estatelado no chão. Assim, Vevé só precisou dar alguns passos com a bola dominada e encher o pé para estufar as redes. E Zago foi prontamente descartado pelo Vasco.

Outra característica de Vevé eram seus espetaculares chutes de sem-pulo, muitos deles parando do lado de dentro das redes. A habilidade de escorar de primeira, com força e precisão, uma bola alta, vinda da direita (especialmente em escanteios cobrados por Valido) ficou registrada na memória até mesmo do jornalista Armando Nogueira, cronista pouco simpático ao Fla, ainda que também nortista. Quando do falecimento do jogador, Armando relembrou em sua coluna no Jornal do Brasil que a jogada foi tornada tão marcante pelo ponta que, tempos depois de já ter parado de jogar, um gol de sem-pulo feito por qualquer atleta passou a ser chamado de “gol de Vevé”.

O COMEÇO DO PRIMEIRO TRI

A habilidade fora do comum com a bola – fosse para chutar com força ou driblar com sutileza, para iniciar ou concluir uma jogada – foi exemplarmente demonstrada em vermelho e preto ao longo da temporada de 1942. O ponteiro terminou a competição como o vice-artilheiro rubro-negro, autor de 18 gols (número inferior apenas aos 22 de Pirillo). Alguns decisivos, como os dois na vitória por 2 a 0 diante do São Cristóvão (quarto colocado naquele ano, é bom lembrar) em Figueira de Melo e aquele que deu a vitória dramática de virada, no último minuto, ao Fla diante do America em Campos Sales por 4 a 3. Mas não apenas balançando as redes: Vevé brilhou também nas assistências.

O tento marcado por Pirillo na vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense na Gávea, pela última rodada do segundo turno, que colocou de vez o Fla na briga pelo título, teve sua jogada iniciada em Vevé, rabiscando por duas vezes o zagueiro Norival e limpando a jogada para o meia Nandinho cruzar para a cabeçada do centroavante gaúcho. Em outro jogo crucial, novamente contra o São Cristóvão, agora pela penúltima rodada do terceiro turno, em São Januário, o Fla passava por apuros: o time cadete jogava melhor e em vários momentos poderia abrir o placar. Mas quem o fez foram os rubro-negros, em cobrança de falta lateral que Vevé coloca na cabeça de Valido, abrindo o caminho para a vitória por 4 a 0.

Aclamado como o melhor ponta-esquerda do campeonato, Vevé foi chamado para a seleção carioca, que disputaria no fim do ano o Campeonato Brasileiro. O título ficou com São Paulo, após decisão em quatro partidas épicas. Mas os paulistas já haviam tido a oportunidade de se impressionar com o talento do jogador rubro-negro ao vê-lo em ação no Pacaembu em duas ocasiões naquele ano. A primeira no troféu Quinela de Ouro, em março, quando ele marcou os dois gols na vitória por 2 a 1 diante do São Paulo. E a segunda em outubro, logo após a conquista do título carioca, quando o Fla excursionou por lá, vencendo o Palmeiras campeão estadual por 2 a 1 (novamente dois gols de Vevé) e o Corinthians por 4 a 2 (com mais um tento do ponteiro), além de empatar com o São Paulo em 3 a 3.

Na virada daquele ano, além de ver, também era possível ouvir Vevé. O ponteiro, juntamente com Pirillo e o meia-esquerda Nandinho, foi um dos três cantores do samba “Coisas do Destino”, composto pelo mestre Wilson Baptista, rubro-negro honorário, e lançado no Carnaval de 1943. O refrão dizia: “Ai, ai, são coisas do destino / Sou rubro-negro, meu patrão é vascaíno / Ai, ai, este emprego eu vou perder / Mas deixar de ser Flamengo, não, não pode ser”.

Na vez de Vevé cantar como solista, o “mestre de cerimônias” da canção conclamava: “Centra, Vevé!”. E o ponteiro entoava: “Lá no meu quarto / Tem escudo e tem retrato / De vários campeonatos / Sou Flamengo pra chuchu”. E continuava: “Ainda me lembro / Gazeteava a escola / Só pra ver o bate-bola / Na Rua do Paissandu”. A canção fez muito sucesso, tendo grande execução nas rádios da época.

No título de 1943, Vevé ficou de fora de apenas três partidas, mas foi menos assíduo como goleador: anotou nove tentos, metade da marca do campeonato anterior (que teve um turno a mais). No entanto, foram gols marcantes. O pequeno paraense balançou as redes nos dois clássicos contra o Botafogo, fazendo o terceiro nos 4 a 1 do primeiro turno em General Severiano e uma sensacional tripleta nos 4 a 2 do returno na Gávea – dentre os grandes, os Alvinegros foram os rivais que mais sofreram gols do ponteiro em sua carreira. E também abriu o placar e o caminho para a saborosa goleada histórica de 6 a 2 sobre o Vasco, que deixou encaminhada a conquista, sacramentada uma semana depois, diante do Bangu.

No fim do ano, Vevé ainda brilharia na revanche contra os paulistas em mais uma decisão do Campeonato Brasileiro de seleções. Numa melhor de cinco partidas, a equipe bandeirante venceu as duas primeiras no Pacaembu (3 a 1 e 3 a 2), mas o antigo Distrito Federal (que compreendia a cidade do Rio de Janeiro) daria o troco em São Januário com dois placares elásticos: 3 a 0 e um acachapante 6 a 1, com o ponteiro marcando o segundo gol. No quinto e último jogo, em 30 de dezembro, Vevé abriria o placar e o caminho para o título na vitória por 2 a 1.

Time que derrotou o Vasco por 6 a 2 na reta final do certame de 1943: Jurandir, Domingos da Guia, Perácio, Newton Canegal, Jaime de Almeida, Bria, Pirillo, Zizinho, Biguá, Vevé e Jacy.

1944: O ÚLTIMO BRILHO ANTES DO OCASO

Arisco em campo, Vevé também personificava a malandragem fora das quatro linhas. Desde sua chegada ao Flamengo, já fazia parte da chamada “turma do bagaço”, grupo de boêmios jogadores do clube (como Biguá e o goleiro Jurandir) que eram frequentadores eméritos dos cabarés da antiga Lapa. Por volta de 1944, ano do lance que ajudaria a imortalizá-lo na galeria de heróis rubro-negros, seus problemas com a bebida já começavam a preocupar. Conta Mario Filho que o técnico Flávio Costa – duro e disciplinador, mas que não dispensava o talento – revolvia diversas vezes a cama do ponteiro na concentração à procura de eventuais garrafas que o jogador escondia sob o colchão.

Além do problema com o alcoolismo, as persistentes dores nos joelhos (é de se indagar se o primeiro caso colaborou para o segundo) prejudicaram sua presença em campo na temporada do tricampeonato e, mais tarde, provocariam seu corte da seleção carioca no Campeonato Brasileiro. Embora ainda dono da posição, Vevé atuaria apenas em metade dos 18 jogos da equipe no Carioca, levando a um surpreendente ressurgimento do veterano Jarbas, que entrou em campo nas outras nove partidas, marcando os mesmos quatro gols que o paraense. Mas Vevé ainda retornaria na reta final, justo na hora em que um Flamengo desacreditado arrancava para mais um título.

Na foto do time perfilado antes da partida decisiva contra o Vasco, Vevé aparece com o joelho esquerdo enfaixado. Sentia ainda as dores que o tiraram de boa parte do campeonato. Era um dos problemas do Flamengo naquele dia. Valido suava com uma febre de 40 graus. Bria estava às voltas com um lumbago (dor lombar). E Pirillo sofria com uma orquite (inflamação nos testículos). Sem falar em Perácio, ausente por ter sido convocado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) para servir na Itália em tempos de Segunda Guerra Mundial.

O Fla precisava superar um time cruzmaltino mais inteiro e mais cotado, mesmo jogando na Gávea. O empate levaria a decisão do título a uma melhor de três, para a qual os rubro-negros talvez não tivessem mais pernas, ainda que viessem em ascensão dentro do campeonato. Mas nada disso foi necessário.

O time do tri. Da esquerda para a direita: Jurandir, Quirino, Newton Canegal, Valido, Jaime de Almeida, Bria, Pirillo, Zizinho, Tião, Biguá e Vevé (com o joelho enfaixado).

O gol do título, marcado por Valido aos 41 minutos do segundo tempo entrou para a história do clube e do futebol carioca. Simbolizou mais uma conquista heroica, de superação e calando todas as críticas feitas ao longo da competição. E teve participação decisiva de Vevé. Foi o ponteiro quem sofreu a falta do vascaíno Djalma pelo lado direito da defesa adversária, perto da área. Foi ele quem alçou a primeira bola à área, rebatida pela defesa. E foi ele quem, quase do mesmo lugar, fez outro levantamento, na medida para o cabeceio do autor do gol do tricampeonato rubro-negro.

Curiosamente, só depois disso, quando já começava a experimentar o ocaso físico e técnico, é que teria sua primeira – e única – chance na seleção brasileira, convocado por Flávio Costa para o Campeonato Sul-Americano de 1945, em janeiro daquele ano, no Chile. Atuaria apenas na estreia, contra a Colômbia, entrando durante a partida no lugar do ponteiro-esquerdo Jorginho, do America – que havia conquistado a titularidade na seleção carioca no Brasileiro do ano anterior, justamente após o corte de Vevé.

Em 11 de julho daquele ano, deitou-se na mesa de cirurgia para uma operação de extração dos meniscos. Não voltaria, no entanto, a ser o mesmo jogador. A velocidade nos piques e a agilidade no drible ficariam bastante prejudicadas. Ainda conseguiria se manter como titular do Flamengo pelas temporadas de 1946 (com maior constância, mas em atuações irregulares que aborreceram a torcida) e 1947 (já participando bem menos), mas no ano seguinte faria apenas oito das 20 partidas do time no Carioca.

Naquela competição, Vevé entraria em campo pelo time rubro-negro pela última vez em 21 de novembro, vencendo o Fla-Flu do returno por 2 a 1. Curiosamente, seu sucessor na posição seria um conterrâneo, Esquerdinha. Também nascido em Belém, mas vindo do Madureira para a Gávea, ele chegaria ao posto de capitão do time durante a conquista do primeiro título do segundo tri carioca rubro-negro, em 1953, mas já no ano seguinte começaria a dar lugar ao alagoano Zagallo.

Logo após se retirar do futebol profissional, Vevé ainda participou com frequência de jogos de veteranos. Mas, bebendo cada vez mais, logo se desencantaria da bola. Trabalhou por um tempo com corretagem de imóveis, mas não teve muito sucesso. Orgulhoso, recusava-se a receber qualquer tipo de ajuda. Definhando lentamente, faleceu de cirrose hepática aos 46 anos, em 26 de julho de 1964. O clube cobriu todas as despesas com o funeral de um de seus ídolos.

Os rubro-negros mais antigos, que viram Vevé jogar, também sempre lhe fizeram justiça: em 1982, a revista Placar promoveu uma votação entre jornalistas, torcedores anônimos e famosos e ex-dirigentes e jogadores para eleger o time ideal do Flamengo de todos os tempos – até ali, obviamente. Vevé foi o mais escolhido na ponta-esquerda com certa folga. E ainda hoje permanece entre os magos rubro-negros do drible.

 

Há 60 anos, Fla dava olé com chocolate no Boca Juniors em plena Bombonera

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Um time rubro-negro do início de 1958, praticamente idêntico ao que venceu o Boca Juniors na Bombonera. Em pé: Joubert, Fernando, Pavão, Jadir, Milton Copolilo (na Argentina jogou Dequinha, cortado no canto da foto) e Jordan. Agachados: Joel, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

Inaugurado em 1940, o Estádio Alberto José Armando, popularmente conhecido como “La Bombonera”, é um dos grandes palcos do futebol mundial e entrou definitivamente para o imaginário do torcedor brasileiro pelo fim dos anos 90, época em que o Boca Juniors (seu dono) empilhou títulos continentais, como símbolo de alçapão, um campo onde a pressão aos visitantes é insustentável e o triunfo caseiro é quase certo. E foi neste mítico gramado que o Flamengo conquistou, há exatos 60 anos, uma vitória memorável, em partida que integrou uma excursão sul-americana da equipe rubro-negra: exibindo um futebol extremamente dinâmico e técnico, aplicou categóricos 4 a 2 aos boquenses.

A EXPECTATIVA PARA O CONFRONTO

Os argentinos tinham ainda viva na memória a última visita do Flamengo ao país, no começo de 1953, quando os rubro-negros trouxeram de volta o troféu do Torneio Quadrangular de Buenos Aires, depois de empatar com o Boca na mesma Bombonera e com o San Lorenzo, além de derrotar o Botafogo por 3 a 0, no clássico carioca jogado na capital portenha. Na ocasião, o técnico rubro-negro era o mesmo Jayme de Almeida, nome histórico do clube como jogador, que dirigia novamente a equipe de modo provisório durante a excursão sul-americana realizada naquele início de temporada 1958.

Jayme era o comandante provisório devido às prolongadas especulações em torno da permanência do paraguaio Fleitas Solich, técnico rubro-negro nas cinco temporadas anteriores, cujo contrato venceria em março. A imprensa noticiava uma certa insatisfação do treinador com alguns dirigentes, o que poderia leva-lo a deixar a Gávea rumo ao Vasco ou ao Palmeiras ou ao futebol da Argentina, país onde ainda viviam seus familiares. Além disso, Solich era o nome preferido do presidente da CBD, João Havelange, para dirigir o Brasil na Copa do Mundo da Suécia, naquele ano. Porém, nada disso se concretizaria: Fleitas Solich renovou contrato exatamente naquele fim de janeiro.

Outra boa impressão – esta, mais recente – causada no público e na imprensa argentina havia sido a deixada pelo Vasco em seus dois jogos contra o mesmo Boca Juniors, e que terminaram em empates, apesar do amplo domínio dos cariocas. O bom futebol demonstrado pelos cruzmaltinos virou parâmetro pelo qual se mediria o desempenho dos rubro-negros em sua visita à Bombonera. Apesar de estar bem no meio do segundo maior jejum de sua história (entre 1954 e 1962), o Boca Juniors vinha de um aceitável quarto lugar no Campeonato Argentino do ano anterior, encerrado em dezembro, e terminaria o torneio seguinte como vice-campeão, atrás apenas do Racing.

No time boquense que entrou em campo para receber o Flamengo naquele 31 de janeiro de 1958, chamavam a atenção três nomes que eram velhos conhecidos dos rubro-negros: o ponta-esquerda paraguaio Silvio Parodi (ex-Vasco), que jogou apenas amistosos pelos xeneíses; o centroavante uruguaio Javier Ambrois (ex-Fluminense), que havia disputado a Copa do Mundo de 1954 e fora contratado poucas semanas antes; e o treinador Bernardo Gandulla, ex-jogador cruzmaltino no início dos anos 40.

Mas os destaques daquela equipe, os nomes que a história boquense consagrou, eram outros: o experiente Federico Edwards – zagueiro duro, homem de seleção argentina e que atravessou quase toda a década de 50 como dono da posição no clube – e um novato (20 anos) chamado Antonio Rattín – volante de boa técnica, muita garra e um fenomenal senso de liderança, que se tornaria um dos maiores jogadores xeneíses de todos os tempos, além de capitão do clube e da seleção por quase toda a década seguinte.

UM FLA QUE SE RENOVAVA

O Flamengo, que vinha em excursão desde o dia 9 de janeiro, colocaria seu time titular em campo. Era a equipe que chegara a brigar palmo a palmo com Botafogo e Fluminense pelo título carioca de 1957 até a metade do returno, no início de novembro. Mas uma sequência de quatro empates e apenas uma vitória nos seis últimos jogos acabou afastando-a da briga. De qualquer modo, era um time renovado, com vários jovens se firmando nos lugares de uma leva de antigos ídolos negociados na metade do ano – casos de Evaristo (vendido ao Barcelona), Paulinho (ao Palmeiras) e Índio (Corinthians).

O goleiro era Fernando, trazido do Bangu. O lateral-direito era Joubert, outro nome que se afirmava, enquanto o experiente Jordan atuava pelo outro lado. No miolo de zaga jogava o sólido Pavão. Jadir, recentemente convocado para a Seleção, completava o setor como quarto-zagueiro. Na frente da área jogava Dequinha, o capitão e o esteio do time. O quinteto ofensivo tinha Joel e Zagallo nas pontas, o talentoso Moacir como meia-armador, Dida era o ponta-de-lança e Henrique, o centroavante. Seria este o time que entraria em campo sob aplausos da torcida local na Bombonera e atuaria pelos 90 minutos.

ROLA A BOLA

O primeiro chute, logo no primeiro minuto, é do Flamengo: Henrique atira de longe para testar o goleiro Giambartolomei. O Boca responde em dois lances quase idênticos, duas cobranças de falta roladas de Ambrois para Parodi, com chutes violentos do ponteiro paraguaio. Fernando defende a primeira em dois tempos, enquanto a segunda passa perto da trave e assusta. Quando o Fla volta a ameaçar, aos nove minutos, é letal: Dida recebe de Dequinha, avança em velocidade até a intermediária boquense e lança para a infiltração de Henrique. O centroavante dispara um petardo, que Giambartolomei defende com dificuldade, mas dá rebote. Moacir, livre, aparece para tocar para as redes.

O arqueiro argentino, garantidor do empate boquense diante do Vasco com grandes defesas, impediria o Fla de ampliar a vantagem minutos depois, ao salvar de modo magistral um chute à queima-roupa de Moacir, na marca do pênalti. Do outro lado, o Boca tem um gol de Parodi anulado por impedimento claro. Mas acaba empatando de qualquer modo aos 28: após uma blitz rubro-negra, o zagueiro Rico espana e a bola cai no pé de Ambrois, que liga o contragolpe com Rodríguez. Este passa a Parodi, que cruza para a conclusão de Rattín. Fernando salva na primeira, mas não detém a cabeçada de Ambrois.

Não houve tempo nem mesmo para a pressão pela virada xeneíse. Na saída de bola, Henrique toca para Moacir, que avança e abre a Zagallo na esquerda. O ponteiro corta para dentro, entra na área e dispara um petardo que entra no canto direito de Giambartolomei. Inapelável. Um minuto depois de ceder o empate, o Fla já está de novo em vantagem, já é outra vez o senhor do jogo. Tão senhor que o Boca se assusta e começa a recorrer a outros expedientes.

Depois de o árbitro ignorar um pênalti em Henrique, a bola volta ao meio-campo e, em lance casual, um jogador argentino se lesiona e precisa ser atendido. Imediatamente o técnico xeneíse entra em campo para tirar satisfações com o árbitro, e uma confusão se forma com a entrada também da comissão técnica rubro-negra. Naquele tempo, nem sempre um amistoso era sinônimo de cordialidade, cavalheirismo ou mesmo desinteresse. Com a bola rolando, o Flamengo dá mais mostras de superioridade, em duas grandes chances com Henrique – na segunda, novamente parado na área com falta não marcada.

O Boca reequilibra as ações, ancorado numa boa exibição de Rattín, mas logo depois leva nova estocada: Jadir deixa a quarta-zaga rubro-negra e avança, lançando Zagallo pelo meio. O ponta passa a Henrique, e este abre no espaço criado para Dida. O camisa 10 invade e atira com fúria, estufando pela terceira vez as redes de Giambartolomei aos 38 minutos do primeiro tempo. Depois de um chute venenoso de Joel que o arqueiro boquense salva arrancando aplausos, o Fla toca a bola até o apito final da etapa.

Moacir, Henrique, Dida e Zagallo: artilheiros e artífices dos quatro gols rubro-negros em La Bombonera.

NO FIM, TEVE ATÉ OLÉ

Após o intervalo, o Boca volta furioso, querendo a reação a todo custo. O Fla rebate, e aos cinco minutos, num contragolpe, balança as redes com Zagallo, mas o árbitro anula, apontando impedimento de Henrique na jogada. Com Pavão e Dequinha firmes no setor defensivo, o Flamengo continua indo à frente com frequência. Henrique, com sua valentia costumeira, era o jogador que mais importunava a zaga argentina. Chegou a sofrer outro pênalti, após uma entrada dura de Héctor García, mas que o árbitro preferiu marcar falta fora da área.

O Boca tenta reagir na metade do segundo tempo, mas Fernando intervém com eficiência. Porém, pelo outro lado, Giambartolomei é mais exigido. Salva brilhantemente um tiro de Henrique após passe de Dequinha. Depois, outra vez bloqueia finalização do centroavante rubro-negro, que recebera bola de Joel. Aos 26 minutos, entretanto, nada pode fazer para evitar o golaço de Moacir: Dequinha entrega a Henrique, que abre na esquerda com Zagallo. O ponteiro passa a Moacir, e o Canivete dá um drible espetacular em no zagueiro Carlos Rico, avança e chuta colocado, tirando do alcance do arqueiro boquense.

Já virou goleada. Com os 4 a 1 no placar, o Flamengo deita e rola em plena Bombonera. Zagallo, em jogada sensacional, dribla quatro boquenses e dá a Henrique, que chuta para o arqueiro argentino espalmar com dificuldade para escanteio. Em seguida o Fla gira a bola, gasta o tempo. Moacir toca para Joel, que dá a Henrique, que passa a Dida, que recua a Jadir, que estica novamente até Joel, que devolve a Henrique, e este a Moacir. E assim segue o baile rubro-negro, deslumbrando o público argentino, que aplaude com vontade.

Nos minutos finais, ainda há tempo para Ambrois sofrer pênalti de Pavão e converter com um chute seco, descontando o placar. Mas não restam mais dúvidas da superioridade do conjunto rubro-negro. Firme na defesa, veloz e impetuoso nos contragolpes, com perfeito senso coletivo e esbanjando qualidade técnica, o Flamengo encantou o público portenho e escreveu seu nome na história do alçapão boquense.

BOCA JUNIORS 2 x 4 FLAMENGO

Estádio Alberto José Armando, “La Bombonera” (Buenos Aires, Argentina)
Sexta-feira, 31 de janeiro de 1958
Amistoso
Público e renda: não divulgados
Árbitro: Luís Ventre (Argentina)

Gols: Moacir (0-1) aos 9, Ambrois (1-1) aos 28, Zagallo (1-2) aos 29, Dida (1-3) aos 38 do primeiro tempo; Moacir (1-4) aos 26, Ambrois, de pênalti (2-4), aos 41 do segundo tempo.

Boca Juniors: Giambartolomei – Cardoso (Rico), Edwards e García – Rattín (Barberis) e Natiello – Scialino, Biaggio, Ambrois, Rodríguez (Bellomo) e Parodi. Técnico: Bernardo Gandulla.

Flamengo: Fernando – Joubert, Pavão, Jadir e Jordan – Dequinha e Moacir – Joel, Henrique, Dida e Zagallo. Técnico: Jayme de Almeida.

 

O centenário de Perácio: craque do Flamengo, personagem de anedotas e pracinha brasileiro

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Existiu Perácio, o craque, ídolo e artilheiro. Existiu Perácio, o personagem de anedotas. E existiu Perácio, pracinha brasileiro que serviu na Segunda Guerra Mundial. Todos eles, no entanto, foram um só, José Perácio, mineiro de Nova Lima, nascido há exatos 100 anos, em 2 de novembro de 1917. O atacante que aportou desacreditado no Flamengo e, homem simplório e ingênuo, fez-se ídolo do povo rubro-negro e tricampeão carioca na Gávea em 1942, 43 e 44 – com participação especialmente decisiva no segundo dos três – foi condecorado também como herói por outra nação, a brasileira, após ser convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira na Itália, em 1944. É um nome singular na história do Mais Querido.

Perácio, o craque, foi revelado pelo alvirrubro Villa Nova de sua cidade, clube que fazia frente aos grandes de Belo Horizonte. Era meia-esquerda, um dos cinco integrantes da linha ofensiva do velho esquema 2-3-5, ou “pirâmide”. Ou ainda ponta-de-lança, de acordo com a nomenclatura instituída após a adaptação do sistema WM inglês no Brasil por Flávio Costa, a chamada “diagonal”. Fosse qual fosse o nome da posição, Perácio era um portento no ataque, um verdadeiro tanque. Imparável nas arrancadas, arrastando marcadores, e culminando quase sempre com um chute fortíssimo ou uma cabeçada certeira.

Perácio, o personagem, era homem feito com ingenuidade de menino. O que trocava as palavras (“fui ao dentista para ele distrair meu dente”, em vez de “extrair”). O contador de histórias fantasiosas, o simplório, o brincalhão, o naïve. Eram tantos os casos que mais pareciam piadas envolvendo seu jeito de ver o mundo que Mário Filho, cronista imortal do nosso futebol, separou um capítulo inteiro de seu livro Histórias do Flamengo para registrar dezenas delas, intitulado “Perácio através das anedotas”.

O interlocutor costuma variar – às vezes Leônidas, às vezes Martim, às vezes Perrota – mas a história é a mesma, e popularíssima. Perácio dava carona a um deles em seu Packard quando parou num posto de gasolina para reabastecer. De pronto, acendeu um cigarro e jogou fora o fósforo, que caiu bem perto da mangueira de combustível. Ao ver o gesto, o outro passageiro se desesperou: “Mas como você faz uma coisa dessas, Perácio?!”. Ao que o atacante respondeu: “Ué, não sabia que você era supersticioso!”.

Perácio (ao centro, de gravata clara) e seu povo, em foto da Esporte Ilustrado, 1943.

Corria o primeiro semestre do ano de 1937 quando o Villa Nova andou pelo Rio de Janeiro, então capital federal, excursionando e exibindo seus craques pelos campos cariocas. Muitos deles ainda remanescentes do incrível tetracampeonato mineiro obtido pelo clube entre 1932 e 1935. Um deles era Perácio, sem nem 20 anos de idade completos e já titular desde os 17, chamando atenção o suficiente para merecer destaque na nota do Jornal dos Sports que registrou a iminência da vinda do Alvirrubro.

Perácio já era velho conhecido não só dos clubes cariocas como também dos paulistas, já que ambos jogavam regularmente contra o Villa Nova por essa época. O atacante esteve perto de se transferir para o Palestra Itália de São Paulo (atual Palmeiras), junto com o médio e amigo Zezé Procópio, numa movimentação conturbada que ganhou ares de escândalo por deserção. O Fluminense também sondou sua contratação. Mas naquele ano de 1937, ele acabaria seguindo para o Botafogo, para onde já tinha ido Zezé. O clube se impressionara com a atuação do jogador ao ser batido pelo Villa Nova por 3 a 2 num amistoso jogado no campo do São Cristóvão, em Figueira de Melo.

Pelo clube de General Severiano, Perácio atuaria entre 1937 e 1940. Chegou com o peso de craque mais caro do Brasil, comprado por 30 contos de réis. Formou com o ponta Patesko uma “ala esquerda” que chegaria junta à Seleção, na Copa do Mundo de 1938, na França. Naquele Mundial, o meia-esquerda atuaria em quatro dos cinco jogos do Brasil e marcaria três gols (dois contra a Polônia e um contra a Suécia), terminando como vice-artilheiro da Seleção, ao lado do tricolor Romeu Pelicciari, ainda que bem distantes dos sete tentos do rubro-negro Leônidas da Silva, goleador máximo da competição.

Na Copa de 1938, a delegação brasileira ficou hospedada num hotelzinho em Saint Germain, perto de Paris, achado pelo dirigente Irineu Chaves. Ao acordar, no dia seguinte à chegada, Perácio sentiu fome e apanhou o telefone. Do outro lado da linha, a recepção do hotel. Perácio então fez o pedido – em português, naturalmente: “Ô, rapaz, mande cá em cima uma média com pão e manteiga”. O recepcionista, atônito, apenas dizia “je ne comprend pas, je ne comprend pas…”. Perácio bateu o telefone, virou-se para Martim, seu companheiro de quarto, e, indignado, protestou: “Veja só pra que tipo de hotel nos levaram! A esta hora do dia e ainda não compraram pão!”.

Nos quatro anos em que jogou pelo Botafogo, no entanto, Perácio não conseguiu ser campeão. O mais perto que os alvinegros chegaram foi um vice em 1939, três pontos atrás do Flamengo. Tiveram o ataque mais positivo (com o meia-esquerda balançando as redes 13 vezes), mas não evitaram o título rubro-negro com uma rodada de antecipação. Ao fim da temporada seguinte, após mais um dos muitos desentendimentos que teve com o presidente botafoguense João Lyra Filho, Perácio foi afastado do elenco. O Flamengo se interessou, mas Lira Filho pediu alto, além de vetar o empréstimo temporário do jogador aos rubro-negros, que excursionariam pela Argentina.

O já rubro-negro Perácio na seleção carioca, ao lado dos companheiros de clube Jaime de Almeida e Biguá, em foto da revista Esporte Ilustrado, 1943.

No fim de maio de 1941, Perácio foi enfim negociado – ou melhor, exilado. Após longas negociações, teve acertada sua venda ao Canto do Rio. O clube niteroiense recebera naquele ano a licença especial da Liga de Football do Rio de Janeiro (logo transformada em Federação Metropolitana de Futebol) para disputar o Campeonato Carioca, inaugurava o estádio de Caio Martins e pretendia montar um time que justificasse sua presença no torneio. Perácio chegou com o certame em andamento e se machucou logo na estreia, contra o São Cristóvão. E não fez uma temporada tão brilhante quanto as que costumava fazer e que o levaram à Seleção.

Gordo, fora de forma após o longo período de inatividade entre o afastamento do Botafogo e a chegada ao Canto do Rio, desmotivado, sentindo-se chutado do clube no qual era o responsável por alegrar o ambiente, Perácio se entristeceu. Sentiu apenas uma ponta de revanche na última rodada do returno, em 31 de agosto, quando o Canto do Rio, já sem chances de se classificar para o terceiro e quarto turnos, recebeu o Botafogo de Heleno de Freitas e de seus velhos companheiros Zezé Procópio e Patesko em Caio Martins. O meia-esquerda abriu o placar na goleada cantorriense por 6 a 3.

Findado o campeonato, o Canto do Rio cedeu alguns de seus jogadores a outros clubes para disputarem amistosos. Perácio defendeu primeiro o America diante do Palestra Itália paulista. E em seguida, no dia 12 de dezembro de 1941, vestiria pela primeira vez a camisa do Flamengo, no estádio do time rubro, em Campos Salles, enfrentando o Sport, campeão pernambucano. Mesmo desfalcado de vários titulares, que defendiam naquele momento a seleção carioca no Campeonato Brasileiro, e contando com atletas emprestados em caráter experimental, o Fla não teve dificuldade para vencer por 3 a 1.

O Canto do Rio não cedeu Perácio para uma excursão a São Paulo que o Fla pretendia fazer. Mas seus dirigentes e os do Rubro-Negro acertariam a transferência do jogador para a Gávea para a próxima temporada. Só faziam questão de que o jogador só deixasse o clube após o dia 28 de dezembro, quando as duas equipes se enfrentariam pelo Torneio Extra, competição sem grandes atrativos, a qual o Fla disputava com time misto, sem vários de seus astros. Mas Perácio se despediria honrosamente do clube niteroiense ao mesmo tempo em que apresentava um belo cartão de visitas à torcida rubro-negra: o Canto do Rio venceu por 3 a 0, e ele marcou o gol que fechou a contagem.

Pirillo, Flávio Costa e Perácio. Os carros eram uma paixão do atacante.

A temporada de 1941 começara brilhante para o Flamengo, mas terminara amarga. Nos dois primeiros turnos, a equipe dirigida por Flávio Costa voou: venceu 15 de seus 18 jogos, somou 34 pontos em 38 possíveis e terminou na liderança, quatro pontos à frente do Fluminense, segundo colocado. Porém, ao fim do terceiro turno, disputado por apenas seis equipes, a vantagem na ponta já havia desaparecido. Na última rodada do quarto turno o Fluminense já chegava com vantagem de empate para o Fla-Flu da Gávea. Abriu 2 a 0, mas o Fla chegou à igualdade na raça. Porém, no jogo que ficaria conhecido como o das “bolas na Lagoa” (para fazer cera após a reação rubro-negra, os tricolores chutavam a bola para a Lagoa Rodrigo de Freitas, que então margeava o estádio do Fla), o título acabaria seguindo para as Laranjeiras.

A queda de rendimento do time rubro-negro na reta final do torneio era explicada em grande parte pelos problemas na meia-esquerda. O baiano Nandinho, dono da posição, não convencia. Flávio Costa chegou a deslocar o médio Jaime de Almeida e o ponta-esquerda Vevé para a função, mas nenhum dos dois se sentiu à vontade. Num último recurso, o clube trouxe da Argentina o meia Emilio Reuben, ex-Vélez Sarsfield, Independiente e Lanús. Mas ele não teve tempo de se adaptar ao estilo de jogo, e o jeito foi lamentar a perda de um título que pareceu iminente. Para tentar mais uma vez solucionar o problema é que os dirigentes apostaram suas fichas em Perácio.

Flávio Costa, ao ver o jogador chegar à Gávea com alguns quilos a mais, prontamente o colocou para perder peso. Perácio treinava todos os dias usando duas camisas de lã. Também havia deixado de lado definitivamente a vida boêmia pela qual se notabilizou ao lado dos colegas de Botafogo. Seu passatempo agora era pescar na Lagoa, ali na rampa do Flamengo, em frente ao estádio da Gávea. Almoçava numa pensão vizinha e frequentava apenas as redondezas, recolhendo-se cedo para ser o primeiro a aparecer nos treinos.

A elegância dos rubro-negros Jaime de Almeida, Biguá, Perácio e Artigas, num Rio ainda sem o Aterro, em foto de 1942 para a Esporte Ilustrado.

Foi incluído no time que iria a São Paulo disputar a Quinela de Ouro, torneio pentagonal que também contou com o Fluminense e os três grandes da capital paulista. O Fla voltou invicto, mas sem a taça – teve de se contentar com um segundo posto. E Perácio marcou um gol no empate em 2 a 2 com o Palmeiras. Voltaria a marcar na estreia pelo Campeonato Carioca, numa goleada sobre seu ex-clube, o Canto do Rio, por 6 a 0 nas Laranjeiras (disputava-se o chamado “turno neutro” do campeonato).

Mas embora o nível das atuações não tivesse piorado, os rubro-negros não seguiram bem naquela etapa, oscilando e perdendo muitos pontos. Terminaram o turno em terceiro, empatado com o Madureira, mas cinco pontos atrás do vice-líder Botafogo e sete atrás do líder Fluminense. Perácio saiu do time, retornou e depois foi para a reserva novamente, voltando Nandinho a ocupar a meia-esquerda. No returno as coisas voltaram a dar certo, e o Flamengo engrenou uma sequência de triunfos.

Às vésperas do Fla-Flu de 9 de agosto, pela última rodada do returno na Gávea, o centroavante Pirillo se lesionou. Precisando de um substituto de última hora, Flávio Costa trouxe de volta Perácio. Deslocado para uma posição que não era a dele, mas sem por isso deixar de se esforçar, o atacante acabou premiado: marcou o gol da vitória, completando numa cabeçada certeira um cruzamento de Vevé. Sete pontos atrás dos tricolores no turno, o Flamengo agora ultrapassava os rivais graças a aquela vitória, entrando no terceiro e último turno um ponto à frente.

O alvo a ser perseguido agora era o Botafogo, novo líder. E Perácio continuou contribuindo enormemente. Depois de ficar de fora da estreia no terceiro turno, contra o Canto do Rio, ele voltaria justamente no confronto direto entre os ponteiros, agora em sua verdadeira posição. E com uma atuação extraordinária, marcou dois gols ainda no primeiro tempo, com Pirillo e Jaime completando a goleada categórica por 4 a 0, placar tão desconcertante que irritou o ídolo alvinegro Heleno de Freitas, expulso perto do fim do jogo, com a contagem já definida. O Fla agora empatava na liderança. A briga estava em aberto.

A vitória sensacional sobre o Botafogo na Gávea naquela tarde de 23 de agosto deixou muitos torcedores eufóricos, inclusive alguns sócios rubro-negros. Homens endinheirados, eles fizeram questão de mostrar sua alegria com o resultado abrindo a carteira para homenagear Perácio, o artífice da goleada. Depois do jogo, o atacante mineiro entrou no vestiário com uma nota de 500 mil-réis pendurada uma orelha e outra de 200 mil-réis na outra, bem enroladinhas. E comentou, entre gargalhadas, com os companheiros de time: “Olhem os brincos que me deram!”.

Na partida seguinte, contra o Vasco em São Januário, o Flamengo perdia por 1 a 0 até há dez minutos do fim. Foi resgatado por Perácio, autor do gol de empate que incendiou o time: aos 42, o Fla viraria o placar com gol de Pirillo, seguindo na briga pelo título. O atacante mineiro ainda marcaria nos três jogos seguintes, três vitórias: um contra o Madureira (4 a 1), outro sobre o America (incríveis 8 a 5) e dois contra o Bonsucesso (7 a 0). Até que uma crise de apendicite o tirou do campeonato. Nandinho voltou ao onze titular nas rodadas finais, e os rubro-negros se sagraram campeões ao empatarem com o Fluminense nas Laranjeiras em 1 a 1 – uma espécie de troco da decisão do ano anterior.

O time campeão carioca de 1942. Em pé: Jaime de Almeida, Volante, Biguá, Domingos da Guia, o goleiro Jurandir e Newton Canegal. Agachados: Valido, Zizinho, Pirillo, Perácio e Vevé.

Perácio não voltaria a defender a Seleção Brasileira como jogador do Flamengo. Mas encontraria uma outra forma de servir ao Brasil. Entrou em cena Perácio, o pracinha. Convocado para se alistar na Força Expedicionária Brasileira que seguiria para a Itália lutar na Segunda Guerra Mundial, seguiu para o Recife no começo de 1943, onde recebeu treinamento militar e participou de exercícios que simulavam conflito.

Na volta ao Rio, Perácio conversava com a filha de um cartola rubro-negro durante um jantar. Contava suas experiências no Exército, onde vira pela primeira vez um submarino. “A senhorita já deve ter visto um no cinema. Eu achava que era coisa só de filme, mas lá eu vi um submarino de carne e osso”. A mocinha estranhou, mas manteve o papo: “De carne e osso? Que interessante!”. “Eu entrei no submarino, e ele mergulhou”, prosseguiu o jogador. “E o que aconteceu?”, retrucou a moça. “Ah, quase que eu não estou aqui pra contar a história. Pensei que morreria asquificiado!”.

A jovem enrubesceu, constrangida. Mas logo se acostumou ao jeito de Perácio. Ao fim da conversa, elogiou o atacante: “Eu fazia outra ideia dos jogadores de futebol. Espero que essa guerra acabe logo e você volte para o nosso Flamengo. Encantada!”. Perácio se curvou, sacudiu os braços e, entre o entusiasmado e o comovido, agradeceu ao seu estilo: “A senhorita é uma príncipa!”.

O atacante ficou no Recife lá até o início de julho, quando obteve transferência para o Rio. Ficou de fora de todos os jogos do Flamengo no primeiro semestre, jogando em seu lugar Nandinho, Tião, o ex-aspirante Vicente ou o argentino Ricardo Alarcón, que o Flamengo trouxera do Boca Juniors para substituí-lo. Nenhum esquentou lugar. A sorte é que Perácio voltou com fome de bola.

O Flamengo tinha em Pirillo seu goleador atestado e dado fé, o legítimo sucessor de Leônidas da Silva. Em 1941, ano de sua chegada, o gaúcho marcara impressionantes 39 vezes no Campeonato Carioca, recorde até hoje. No ano seguinte, o número de gols (e de jogos) diminuiu, mas com seus 22 tentos foi novamente o artilheiro do time na campanha do título. E não é que em 1943, mesmo estreando só na quinta rodada, Perácio fez ainda mais gols que Pirillo?

Perácio e o zagueiro tricolor Norival. O atacante brilhou em vários Fla-Flus ao longo da campanha do tricampeonato carioca.

A começar pela partida de reestreia, Fla-Flu nas Laranjeiras. Jogo muito disputado no primeiro tempo, como manda a tradição do clássico, mas sem gols. Até que Perácio abriu o placar aos três minutos da etapa final, aproveitando um cochilo da zaga tricolor e chutando fraco, mas sem chances para o goleiro Gijo. O Flamengo completaria o 2 a 0 mais tarde com Zizinho, recuperando-se da derrota para o America na Gávea (2 a 1) da rodada anterior. O próximo desafio era medir forças com o novo líder isolado do campeonato na abertura daquela sexta rodada. Sabem quem? O São Cristóvão.

Perácio não tomou conhecimento e marcou dois gols na impiedosa vitória rubro-negra por 4 a 0 na Gávea. Com seus já famosos “rushes”, foi um tormento para a defesa cadete. Seu retorno, comentava a imprensa, fazia inclusive crescer de novo o futebol de Pirillo, já que agora as retaguardas teriam dois goleadores para ficar de olho. E, com efeito, Perácio seguiu balançando as redes. Abriu a contagem nos 5 a 1 diante do Bonsucesso. Salvou um ponto no complicado empate com o Bangu na Rua Ferrer (2 a 2). Também inaugurou o marcador na revanche contra o America em Campos Sales (Fla 3 a 1).

Veio o Fla-Flu do returno, na Gávea, em 12 de setembro, com o Flamengo um ponto à frente na liderança do campeonato. Mas os tricolores é que abriram o placar, com o argentino Pablo Invernizzi, logo aos sete minutos. Aos 12, Perácio empatou aproveitando centro do ponta-direita Jacy, e minutos depois ainda faria a trave balançar com um chute fortíssimo. Mas perto do fim do primeiro tempo, Carreiro voltou a colocar o Flu na frente. Na etapa final, desde o início os tricolores já faziam cera, recorrendo ao expediente de chutar a bola para o mais longe que desse – se possível na Lagoa Rodrigo de Freitas, como em 1941.

O tempo passava, e o Flamengo seguia pressionando intensamente, apoiado pela torcida, mas um tanto nervoso e sem sorte nas finalizações. Até que, aos 45, o lateral tricolor Afonsinho cortou para escanteio um perigoso ataque rubro-negro pela ponta esquerda. Vevé cobrou o corner fechado, com veneno, como era seu costume, e acertou o travessão. O goleiro Gijo deu um tapa e a bola caiu aos pés de Perácio, que entrou como um touro e fuzilou para empatar o jogo, salvando ainda a liderança do Fla.

Perácio é abraçado pelos companheiros (entre eles, Jaime de Almeida e Biguá) na comemoração do gol de empate dramático diante do Fluminense.

“É difícil descrever o delírio que se apossou da torcida do Flamengo. A bola mal chegou ao centro do campo, Pereira Peixoto apitou, o match acabara. A multidão continuava a gritar goal, a pular, tudo que era flamengo enlouquecera”, escreveu Mario Filho em sua crônica do jogo para o Jornal dos Sports. “Desde 1941 que o Flamengo esperava por um gol assim”, lembrou Ricardo Serran, outro destacado jornalista esportivo da época, em sua análise para o Globo Sportivo.

Dali a duas semanas, Perácio marcaria novamente em outra goleada de 5 a 1 sobre o Bonsucesso, agora nas Laranjeiras, mantendo os rubro-negros na liderança, de novo ao lado do Fluminense. A duas rodadas do fim do certame, os dois clubes tinham 24 pontos, dois a mais que o Vasco, que vinha numa ascendente, com cinco vitórias consecutivas. Com 21 pontos, o São Cristóvão ainda alimentava esperanças, mas dependia de resultados pouco prováveis. No dia 3 de outubro, os quatro primeiros se enfrentavam: Flamengo e Vasco em General Severiano, São Cristóvão e Fluminense em São Januário.

O Vasco crescia porque já contava com a forte base do time que dominaria o futebol carioca a partir da metade daquela década de 40, o chamado “Expresso da Vitória”. Sete jogadores que entraram em campo naquele 3 de outubro no estádio botafoguense estariam no elenco cruzmaltino campeão dali a dois anos, incluindo o ponta-de-lança Ademir Menezes. Mas o senhor daquele jogo foi o Flamengo de Perácio.

O time abriu o placar com Vevé aos 39 da primeira etapa. E na segunda, veio o baile: em dois petardos de longa distância, aos três e aos quatro minutos, o atacante mineiro batia o goleiro vascaíno Oncinha e ampliava para 3 a 0. Pirillo também anotaria dois, aos 20 e 22. Dois minutos depois, o ponta Chico descontou para o Vasco, mas logo em seguida Zizinho fez o sexto. Já a oito minutos do fim, Lelé tornou a diminuir para os cruzmaltinos, sem, no entanto, deixar de evitar a goleada implacável por 6 a 2. A maior da história do Flamengo sobre o rival em todos os tempos.

Time que derrotou o Vasco por 6 a 2 na reta final do certame de 1943: Jurandir, Domingos da Guia, Perácio, Newton Canegal, Jaime de Almeida, Bria, Pirillo, Zizinho, Biguá, Vevé e Jacy.

A vitória rubro-negra acabara com as chances de título do São Cristóvão, mas o clube cadete contribuiu enormemente para a conquista rubro-negra: venceu o Fluminense por 3 a 1 naquela mesma tarde, deixando os tricolores dois pontos atrás do Flamengo antes da última rodada. O Fla receberia o Bangu na Gávea em 10 de outubro. O Flu jogaria nas Laranjeiras contra o Bonsucesso precisando vencer e torcer por um pouco provável triunfo alvirrubro no estádio do rival.

E o triunfo do Bangu ficaria ainda menos provável quando Perácio abriu o placar com menos de dois minutos de jogo, ampliando ainda aos 23. Pirillo ampliou cobrando pênalti aos 37, fechando o placar do primeiro tempo em 3 a 0. Na volta, Perácio disparou mais um míssil que se aninhou nas redes do arqueiro banguense João Alberto, e outra vez Pirillo completou a contagem na última volta do ponteiro. Em campo, não houve espaço para zebras. Mas sim para outro mamífero quadrúpede. Ídolo do povo, em meio às comemorações, Perácio foi agraciado por um torcedor rubro-negro com um cabrito.

Foi rápido. Pereira Gomes apitou dando por findo o jogo. Uma multidão invadiu o campo. Os jogadores do Flamengo, exceto Perácio, conseguiram fugir dos abraços. Perácio ficou para receber o cabrito, para ser carregado em triunfo. O cabrito seguro, bem no alto, pelas duas mãos de Perácio, esperneou, botou a boca no mundo. Perácio nessa hora já não estava com os pés no chão, deitara-se nos ombros da torcida, que o arrastava para lá e para cá. A banda de música atacou o hino do Flamengo. Das arquibancadas de cimento desciam espirais de serpentina. O vento ajudava a espalhar confete por todos os cantos. A Gávea perdera a fisionomia de um campo de football, virara salão de festa. Carnaval em pleno mês de outubro”, escreveu Mario Filho no Jornal dos Sports.

Jayme de Carvalho, fundador da Charanga, Perácio e o cabrito.

Com os três gols marcados sobre o Bangu, Perácio chegou a 14 tentos em 13 partidas, sagrando-se o artilheiro da vitoriosa campanha do bicampeonato rubro-negro. No tri, em 1944, Perácio participaria de apenas cinco jogos (entre eles uma goleada de 4 a 1 sobre seu ex-clube, o Botafogo, nas Laranjeiras), marcando três vezes: um no empate em 2 a 2 com o São Cristóvão e dois numa goleada de 6 a 1 sobre o Bonsucesso. Depois da difícil vitória por 1 a 0 sobre o Madureira na Gávea, decidida com gol de Pirillo, o atacante mineiro teria de se juntar novamente à FEB, só que agora embarcando para a Itália.

Lá, não chegaria a figurar na frente de batalha. Cumpriu o período como motorista de um marechal, mas pôde acompanhar de perto a tomada de Monte Castelo, ponto histórico da participação brasileira no conflito, em fevereiro de 1945. E não ficou de todo longe da bola, pelo contrário: sendo um dos quase 20 futebolistas brasileiros convocados pela FEB, foi escalado num time dos Aliados que disputou uma taça entre equipes de soldados, e acabou campeão. Alinhou também numa seleção brasileira que bateu oficiais da força aérea britânica, perto do fim do conflito.

Mesmo assim, a guerra provocou nele muitos traumas psicológicos. Não queria embarcar, inventou problemas de saúde, tentou recorrer até ao ministro da Guerra, marechal Eurico Gaspar Dutra, para que fosse dispensado. Mas não conseguiu. Na Itália, viveu em tensão permanente. “Eu tinha pavor de pensar numa batalha a gente é obrigado a matar para não morrer. E, se fosse o caso, teria que fazer isso, porque numa guerra está em jogo a nação”, declarou anos depois em entrevista à revista Placar.

Retornaria ao time do Flamengo apenas em setembro daquele ano, sem conseguir impedir, no entanto, o título carioca do Vasco, pondo fim ao sonho do tetra rubro-negro. Mas continuou jogando um excelente futebol e anotando muitos gols. Seria o artilheiro da equipe na temporada de 1946, com 32 gols, e chegaria a marcar cinco vezes numa mesma partida em duas ocasiões, ambas válidas pelo Torneio Municipal: nos sonoros 12 a 1 no Bonsucesso, naquele ano, e em um maluco 8 a 5 sobre o Bangu em 1947.

O Flamengo, porém, já andava cada vez mais longe das glórias, com a geração do tri envelhecendo aos poucos, Zizinho fraturando a perna duas vezes, Pirillo indo embora para o Botafogo, o técnico Flávio Costa trocando a Gávea por São Januário. O ano de 1947 foi o último de Perácio no elenco rubro-negro. O clube chegou a trazer Jair Rosa Pinto do Vasco para seu lugar. Jair, craque que fosse (e era um mestre da bola, de fato), nunca conseguiu preencher no coração do torcedor a lacuna que Perácio deixara.

O atacante ainda ensaiaria um retorno, disputando um amistoso pelo Flamengo no Espírito Santo em setembro de 1951, mas logo se aposentaria em definitivo, aos 33 anos, após 122 jogos e 97 gols pelo rubro-negro. Após pendurar as chuteiras, viveu como pacato funcionário público até falecer em março de 1977, aos 59 anos. Herói de duas nações, foi sepultado com a bandeira rubro-negra.

Convidado pelo Barça, Fla goleava Burnley na inauguração do Camp Nou há 60 anos

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Uma equipe do Flamengo em 1957, bem semelhante à que enfrentou o Burnley. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo. Apenas Dequinha não enfrentou os ingleses, substituído por Milton Copolilo.

Repleto de história, o estádio do Barcelona já recebeu muitos dos maiores jogadores e times de todos os tempos. O Camp Nou, como ficou popularmente (e, mais tarde, oficialmente) conhecido, foi inaugurado há exatos 60 anos, no fim de setembro de 1957, em festejos que se estenderam por vários dias, e para os quais o Flamengo teve a honra de ser um dos convidados. E o time rubro-negro, que contava com nomes históricos do clube, como Dida, Henrique e Zagallo, não decepcionou os torcedores catalães: numa atuação primorosa sob todos os pontos de vista – técnico, tático, físico –, os comandados do paraguaio Fleitas Solich golearam os ingleses do Burnley por 4 a 0, arrancando entusiasmados aplausos do público local, como contaremos agora.

O BARCELONA E A AMBIÇÃO DA NOVA CASA

No início dos anos 50, o Barcelona tinha grandes ambições: além de brigar pelo título espanhol e por taças internacionais como a Copa Latina, pretendia também subir de patamar como clube. Em 1951, contratara o meia húngaro László Kubala, que chegou com status de estrela à Catalunha e imediatamente fez aumentar o número de torcedores que desejavam vê-lo em ação. Paralelamente, na capital espanhola, o Real Madrid (que despontava como seu principal rival nacional), ampliava seu estádio Chamartín (o atual Santiago Bernabéu) para receber até 120 mil espectadores, transformando-o no maior do país e um dos maiores da Europa e do mundo.

Os blaugranas não poderiam ficar para trás nessa briga. Porém, o projeto de crescimento do clube esbarrava em seu estádio de Les Corts, inaugurado em 1922 com capacidade para 20 mil torcedores, e que na época havia sido expandido para caber até 60 mil. Mas as possibilidades de ampliação já haviam chegado ao limite. A solução vislumbrada pelo presidente Francesc Miró-Sans era construir um estádio inteiramente novo, em outro local nas imediações.

Projetado pelo arquiteto Francesc Mitjans, o novo campo teve sua construção iniciada em março de 1954 e apesar de problemas com o terreno terem atrasado o desenrolar das obras e encarecido sua concretização, tudo ficou pronto cerca de três anos e meio depois, no começo de setembro de 1957. Para a inauguração, marcada para o dia 24 daquele mês – dia de La Mercè, a padroeira da cidade de Barcelona – o clube preparou uma grande festa, convidando equipes do mundo inteiro para se apresentarem em meio ao cerimonial. Um destes clubes convidados foi o Flamengo, que no fim de abril havia negociado com o clube catalão o atacante Evaristo de Macedo.

De agasalho do Flamengo, os jogadores rubro-negros (Duca, Jadir, Pavão, Ari e Jordan, da esquerda para a direita) reencontram o velho companheiro Evaristo (ao centro) na tarde de inauguração do Camp Nou.

Evaristo vinha em grande fase no primeiro semestre de 1957: comandara o setor ofensivo do Fla na série de amistosos contra o mítico Honvéd húngaro no Maracanã, Pacaembu e em Caracas, na Venezuela, saindo-se como o artilheiro dos cinco confrontos. Depois, fora convocado para a Seleção Brasileira, disputando o Campeonato Sul-Americano (no qual estabeleceria o recorde de gols em um mesmo jogo pelo Brasil, vigente até hoje, ao marcar cinco vezes nos 9 a 0 sobre a Colômbia) e as Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, sofrendo a falta que originaria o famoso gol de “folha seca” do meia Didi contra o Peru no Maracanã, que classificaria o escrete canarinho para o Mundial.

A FÁBRICA DE CRAQUES DO FLA

O Flamengo, por sua vez, vivia um processo de renovação naquele ano de 1957. Manuel Fleitas Solich, o paraguaio que levou o clube ao tricampeonato carioca entre 1953 e 1955 ainda estava no comando, mas o time começava a sofrer modificações. No gol, o também paraguaio García já não era mais o titular, cedendo o posto a Ari, ex-Bonsucesso. E além de Evaristo, os dois outros titulares do setor central do ataque tinham sido negociados na metade do ano, ambos para o futebol paulista: Paulinho seguia para o Palmeiras, enquanto Índio se transferia para o Corinthians.

Para o lugar deles, Solich lançava vários garotos, como era de seu estilo: Joubert era o novo dono da lateral-direita, no lugar de Tomires (que ainda entrava esporadicamente). Outro garoto, Milton Copolilo, era formado para substituir Pavão na zaga central, embora também fosse utilizado em quase todas as posições do setor defensivo. E no ataque, Moacir, Henrique e Dida substituíam o trio negociado Paulinho-Índio-Evaristo. Dida, que já era frequentemente utilizado no time titular desde 1954 (havia sido o grande destaque da decisão do Carioca do ano seguinte contra o America), tinha então uma grande chance de se firmar de vez na equipe, e não desperdiçaria.

Após os amistosos com o Honved e a saída de Evaristo, o novo Flamengo foi testado em dois torneios. Primeiro no Rio-São Paulo, no qual terminou como vice-campeão ao lado do Vasco (o Fluminense levou a taça). Mas o desempenho foi bom, e o time registrou vitórias convincentes, como as goleadas diante de Santos (4 a 0) e Botafogo (4 a 1) no Maracanã e do Corinthians (4 a 0) no Pacaembu. Em seguida, veio a disputa do Torneio Internacional do Morumbi, organizado pelo São Paulo visando arrecadar fundos para construir seu estádio.

Na primeira fase, jogando no Maracanã, o Fla superou o Dinamo Zagreb iugoslavo (4 a 1) e o Belenenses português (3 a 1), além de empatar em 1 a 1 com um combinado formado por jogadores de Vasco e Santos. No quadrangular final, os rubro-negros estrearam batendo o Corinthians outra vez no Pacaembu, agora por 3 a 1, e largaram na liderança isolada. Mas o São Paulo decidiu cancelar abruptamente a competição, alegando rendas fracas, e reteve a taça.

O convite para participar dos festejos de inauguração do novo estádio do Barcelona chegou ao Flamengo no dia 24 de agosto. Os catalães ofereciam oito mil dólares, livres de despesas, para a partida a ser realizada dali a pouco mais de um mês, no dia 25 de setembro. Os dirigentes rubro-negros se declararam dispostos a aceitar a oferta caso conseguissem uma brecha no calendário, já que o Campeonato Carioca já estava em plena disputa. O clube então conseguiu que seu jogo contra o Bangu no Maracanã, pela nona rodada do primeiro turno, marcado originalmente para a noite de sábado, 21 de setembro, fosse antecipado para a quinta-feira, dia 19.

CONTRA O BANGU, O AQUECIMENTO PARA A VIAGEM

Na quinta, o Flamengo enfrentou e venceu com autoridade um bom time alvirrubro, que contava com o velho ídolo rubro-negro Zizinho, além do zagueiro Zózimo, futuro campeão mundial, e seu irmão Calazans, bom ponta-direita. O Fla abriu o placar logo nos primeiros minutos com Joel e ampliou com Henrique, antes de Mário descontar para os banguenses. Na etapa final, Henrique marcou de novo e Dida completou a goleada por 4 a 1 que deixava o time a um ponto dos líderes Botafogo e Fluminense. O próximo passo era arrumar as malas para a viagem ao Velho Continente.

A delegação rubro-negra embarcou no aeroporto do Galeão às 17h30 de sábado, dia 21, em voo da Air France, com um desfalque: o ponta-direita Joel, acometido da chamada gripe “asiática”, que se espalhou pela cidade por aqueles dias. Seria substituído por Luís Carlos, atacante versátil promovido dos aspirantes e que já vinha entrando esporadicamente no time, fosse pela direita ou pelo centro do setor ofensivo. Já na Espanha, outra baixa foi o experiente volante Dequinha, capitão do time, que sofreu distensão em um dos músculos da coxa durante um treino. Em seu lugar jogaria outro garoto, Milton Copolilo.

No dia 24, data oficial da inauguração, a delegação rubro-negra desfilou pelo estádio carregando a bandeira brasileira, sendo ovacionada pela torcida catalã, antes da partida de abertura das comemorações, na qual o Barcelona, dono da (nova) casa, venceu por 4 a 2 um combinado de Varsóvia, reunindo os principais jogadores em atividade nos clubes da capital polonesa. O ex-rubro-negro Evaristo marcou o segundo gol dos azulgranas na partida.

O Flamengo jogaria no dia seguinte contra o Burnley. Um dos fundadores da liga inglesa em 1888 e campeão nacional em 1921 e da Copa da Inglaterra em 1914, o clube da região de Lancashire viveu período de baixa depois disso, mas começara nova fase ascendente após a Segunda Guerra Mundial. Terminou na terceira colocação na temporada de retorno à elite, em 1948, e posteriormente em sexto em 1953 e sétimo em 1954, 1956 e 1957. Era, portanto, um time de porte médio, mas que havia impressionado em sua última visita à Espanha, em maio daquele mesmo ano, quando goleou o Athletic Bilbao – campeão nacional de 1956 – por 5 a 1 em pleno estádio San Mamés.

A equipe inglesa tinha como destaques o médio Jimmy Adamson e, principalmente, o meia-atacante Jimmy McIlroy, artilheiro da equipe na temporada anterior e principal jogador de uma surpreendente seleção da Irlanda do Norte que eliminaria Itália e Portugal, classificando-se para Copa do Mundo do ano seguinte, na Suécia. Além deles, outros cinco titulares da equipe que atuou naquela tarde em Barcelona levariam o Burnley a um novo título inglês dali a três anos.

O jogo teria início às 15h no horário local (11h no Rio) e seria transmitido para o Brasil pelo rádio, por meio das emissoras Continental e Mayrink Veiga, em conjunto com a paulista Pan-Americana (antecessora da atual Jovem Pan), que irradiaria a partida para São Paulo. Os locutores Rui Porto (Mayrink Veiga) e Jorge de Souza (Continental) viajaram junto com a delegação rubro-negra para Barcelona especialmente para a cobertura da partida.

O JOGO

Na hora marcada, o Fla entrou em campo sob uma salva de aplausos dos torcedores catalães e com Ari no gol, Joubert e Jordan nas laterais, Pavão e Jadir na zaga central, Milton Copolilo de volante, Moacir como meia-armador, Luís Carlos e Zagallo nas pontas, Dida como ponta-de-lança e Henrique no comando do ataque. Logo depois entrou o Burnley, com sua camisa vinho com mangas azul-claras. Com arbitragem espanhola do sr. Gómez Contreras, a partida seria disputada sob um clima quente, resquício do verão europeu, ainda que um calor não tão intenso quanto o do verão carioca no qual o Flamengo estava acostumado a atuar.

Os primeiros 15 minutos foram de estudos de parte a parte. Mas o Flamengo não demorou em impor seu jogo, o que faria durante toda a primeira etapa. Depois de dois escanteios quase seguidos, viria o primeiro gol rubro-negro aos 23 minutos. Luís Carlos bateu escanteio curto, entregando a Zagallo na ponta-esquerda. O camisa 11 cruzou com perfeição para Dida cabecear vencendo o goleiro Blacklaw de maneira inapelável. E a torcida catalã vibrou e bateu palmas pela primeira vez durante a partida.

Jadir e Pavão cortam um ataque do Burnley. (Foto: Mundo Deportivo)

Encurralando os ingleses, que mal conseguiam passar do meio-campo, o Flamengo marca o segundo gol três minutos depois, quase numa linha de passe. Jadir avançou e cedeu a Luís Carlos pela direita. De seus pés, a bola chegou a Moacir, que driblou o marcador e entregou a Dida. O camisa 10, que era ovacionado pelo público a cada jogada, abriu então na esquerda para Zagallo chegar na corrida e chutar forte para as redes. O estádio delirou, encantado com o jogo rubro-negro que dominou inteiramente o confronto e foi para o intervalo com vantagem de dois gols, e que poderia ser muito maior pelo volume de jogo apresentado e as chances criadas.

Em sua crônica extensa da partida, o jornal Mundo Deportivo, destacaria a engenhosidade do esquema tático de Fleitas Solich, utilizando o sistema 4-2-4, uma novidade na época (mas já incorporado pelo Fla desde a chegada do treinador paraguaio) e principalmente a intensa troca de posições no ataque rubro-negro. “O time do Flamengo se move com facilidade pelo campo, e com um sentido tático que nos impressionou”, escreveu a publicação, que também fez grandes elogios a Jadir, jogador de “portentosas condições físicas” e que atuava como uma espécie de “curinga” da defesa, cobrindo todo o setor.

O Burnley voltou para a segunda etapa disposto a reagir e chegou a pressionar o setor defensivo do Flamengo, embora sem criar chances que preocupassem o goleiro Ari. Para piorar a situação dos ingleses, aos 15 minutos o zagueiro-esquerdo Winton fez um recuo de bola pelo alto para Blacklaw, mas não notou que o arqueiro já vinha saindo em busca da bola. O gol contra, que estabeleceu o placar de 3 a 0, era mais um abalo no ânimo dos britânicos. Apesar disso, eles continuavam em cima e ainda acertaram a trave num chute de longe de McIlroy. O Fla respondeu e marcou com Luís Carlos após passe de Moacir, mas o árbitro anulou marcando toque de mão do ponteiro rubro-negro.

O goleiro Blacklaw se esforça para tentar salvar mais um gol rubro-negro, observado por Dida, ao centro. (Foto: Mundo Deportivo)

Até que, aos 30 minutos, o Fla fechou a contagem num sensacional lance individual de Henrique, que recebeu de Moacir perto da linha de fundo, protegeu de um zagueiro, girou, driblou mais dois, passou pelo goleiro e tocou para o fundo das redes. Ainda houve tempo para duas defesas magistrais de Blacklaw numa cabeçada de Henrique e num chute de Duca, substituto de Dida, após cobrança de escanteio. Mas o placar de 4 a 0 já estava definido e era incontestável. A grande exibição rubro-negra levou a imprensa espanhola a não poupar elogios ao estilo técnico, veloz e objetivo dos jogadores: “O Flamengo, através de seu jogo, confirmou a opinião que temos sobre o futebol brasileiro, ou seja, que talvez seja o melhor do mundo”.

Pelos anos seguintes, o Flamengo voltaria ao Camp Nou outras duas vezes. A primeira em 1962, quando enfim teve pela frente os donos da casa, o Barcelona, em amistoso disputado durante excursão europeia do time rubro-negro. A vitória por 2 a 0 veio com dois gols de Dida ainda no primeiro tempo. Mais tarde, em 1968, o Fla retornou ao grande estádio barcelonista para a disputa do prestigioso Troféu Joan Gamper, no qual derrotou o Athletic Bilbao por 1 a 0, num golaço de bicicleta de Silva Batuta, mas acabou derrotado na final pelos anfitriões numa partida movimentada, que terminou com o incrível placar de 5 a 4 para os azulgranas. Em todas essas ocasiões, o clube confirmou a excelente impressão deixada na Catalunha por aquela primeira visita, em que retribuiu o convite honroso com uma maravilhosa exibição de futebol.

FLAMENGO 4 x 0 BURNLEY

Estádio do FC Barcelona, “Camp Nou” (Barcelona, Espanha) – quarta-feira, 25 de setembro de 1957
Amistoso de inauguração do estádio
Público e renda: não divulgados
Árbitro: Gómez Contreras (Espanha)

Gols: Dida (1-0) aos 23, Zagallo (2-0) aos 26 minutos do primeiro tempo, Winton contra (3-0) aos 18, Henrique (4-0) aos 30 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Ari; Joubert, Pavão, Jadir e Jordan; Milton Copolilo e Moacir; Luís Carlos, Henrique, Dida (Duca) e Zagallo. Técnico: Fleitas Solich

Burnley: Blacklaw; Smith, Adamson e Winton; Sieth e Miller; Newlands, McIlroy, Shackleton (Robson), Cheesebrough (Connelly) e Pilkington. Técnico: Wiilliam “Billy” Dougall

Há 30 anos, Carlinhos “acertava” o Fla, que vencia o Vasco e reagia na Copa União

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No automobilismo, há pilotos que se notabilizam pela perfeita percepção dos pontos fortes e fracos de suas máquinas na pista e que utilizam de sua larga experiência para colaborar no desenvolvimento delas, a fim de melhorar o rendimento. São os chamados “acertadores” de carros. No futebol, tal termo poderia ser aplicado de modo bem apropriado a Luiz Carlos Nunes da Silva, o Carlinhos, técnico que iniciava seu primeiro período longevo como técnico do Flamengo há exatos 30 anos.

Sob seu comando, de voz mansa e jeito aparentemente tímido, que fizeram com que em muitas vezes seu conhecimento, capacidade e habilidade como treinador fossem subestimados, o time rubro-negro, que vivia um princípio de crise, venceu o Vasco por 2 a 1 numa grande atuação no Maracanã em 20 de setembro de 1987, em jogo válido pela segunda rodada do primeiro turno da Copa União, o Campeonato Brasileiro daquele ano.

UM TIME EM MAU MOMENTO

O Flamengo chegava à disputa da Copa União – torneio do qual fora um dos criadores – num período turbulento. Dirigido por Antônio Lopes, o time perdera o bicampeonato carioca ao ser derrotado pelo Vasco com um gol do ex-rubro-negro Tita na decisão disputada no início de agosto. Enfrentara o rival quatro vezes naquela competição e não marcara um gol sequer (três empates em 0 a 0 antecederam a derrota na final). Em seguida partira para uma excursão pelo México, voltando com um desempenho repleto de altos e baixos.

O elenco também havia passado por algumas modificações: se por um lado, Lopes não fizera objeções à saída de Adílio (que deixava a Gávea após quase uma vida inteira no Flamengo, transferindo-se para o Coritiba), outro veterano ídolo, Nunes, retornava após dois anos e meio rodando por Náutico, Santos, Atlético-MG e o Boavista português. Na defesa, para o lugar de Mozer, negociado durante o Carioca com o Benfica, o Fla repatriava outro veterano, o ex-tricolor Edinho, vindo da Udinese. O zagueiro, no entanto, acabaria barrado por Lopes logo ao chegar, numa tentativa de indicar que, com ele no comando, ninguém jogaria pelo nome.

Ainda havia outro problema físico, este de caráter mais definitivo: o jovem lateral-esquerdo Adalberto, que havia ficado quase um ano de fora do time por uma séria lesão provocada por uma entrada desleal num jogo pelo Brasileiro de 1986, retornara na reta final do Carioca. Mas num amistoso contra o Bahia na Fonte Nova, a seis dias da estreia na Copa União, voltara a se contundir com gravidade, desta vez sozinho, sem previsão de retorno. Para a partida contra o São Paulo, no domingo, 13 de setembro, o treinador preferiu improvisar, deslocando o zagueiro Aldair para o setor.

ESTREIA DESASTROSA NO BRASILEIRO

Foi uma escalação bastante estranha, a que Lopes levou a campo contra o perigoso São Paulo, que vinha de conquistar o Paulistão semanas antes. Na zaga, em vez dos experientes Leandro e Edinho, estavam os jovens, mas inconstantes, Guto e Zé Carlos II. Na esquerda, o técnico e sóbrio, mas improvisado, Aldair. No meio-campo, o jovem Flávio, recém-contratado após se destacar no Carioca pelo Olaria, ocupava a cabeça-de-área, enquanto Andrade jogava mais à frente, como um armador. E à frente, um quarteto ofensivo formado por Zico, Renato Gaúcho, Nunes e Bebeto sugeria talvez ofensividade demais para uma equipe de resto desbalanceada.

E, em campo, acontece o que a escalação indicava: o Flamengo ataca constantemente, mas é engolido no meio-campo pelo São Paulo, que resolve o jogo em menos de 20 minutos graças a duas jogadas de Müller pela ponta, no setor do improvisado Aldair, e ainda conta com uma generosa cota de milagres de seu goleiro Gilmar (que mais tarde jogará na Gávea) durante toda a partida. Quando Lopes tenta consertar o estrago, colocando os garotos Leonardo na lateral e Zinho no meio-campo (no lugar de Flávio), já é tarde demais para reagir. Apesar do péssimo resultado, no entanto, os dirigentes evitam fazer críticas ao trabalho do técnico, e mesmo os pedidos pela sua saída entre a torcida ainda são um tanto tímidos.

Na manhã seguinte, no entanto, para a surpresa geral, Lopes pede demissão. Alega se sentir sem respaldo dentro do clube, e também sabe que a diretoria está dividida quanto à sua permanência, assim como ele próprio está ciente de que não conta mais com o apoio irrestrito da torcida. Além dele, o preparador físico Carlos Alberto Lancetta também deixa a Gávea. Imediatamente, como sói acontecer, as especulações a respeito de seu substituto começam a pipocar. Os eternos Zagallo e Nelsinho Rosa eram os principais cotados, com Edu Coimbra, irmão de Zico, e Carpegiani correndo por fora, com menos força.

Para piorar, a contratação do meia-armador Osvaldo – ex-Grêmio e Ponte Preta, e que estava no Santos – acaba cancelada na terça-feira, quando era dada como certa, depois de o jogador já ter sido apresentado à torcida e realizado exames médicos. Há controvérsia sobre o motivo da desistência: segundo o presidente Márcio Braga, o clube paulista teria exigido a redução do prazo de pagamento pelo passe do jogador. Mas houve quem afirmasse que a verdadeira razão seria um problema crônico no joelho.

SEMANA DE SURPRESAS

Aquela não seria a única reviravolta da terça na Gávea. Contrariando os rumores, o Flamengo anuncia um nome que sequer havia sido especulado para o cargo de treinador. E ele já está lá mesmo na Gávea. É o ex-volante Carlinhos, ídolo do clube nos anos 60, e que assume o time pela terceira vez, e pela primeira como técnico efetivo, após duas passagens como interino – a última delas naquele mesmo ano de 1987, justamente entre a demissão de Sebastião Lazaroni (agora no Vasco) e a contratação de Antônio Lopes.

“Nas vezes anteriores ainda me sentia inseguro. Mas agora assumo a responsabilidade sem qualquer temor. Acho mesmo que chegou o momento de me firmar como técnico de um time profissional e nada melhor que o Flamengo”, afirma o novo comandante com sua voz mansa, mas discurso decidido, de currículo vitorioso na base rubro-negra e que acaba sendo escolhido depois que Nelsinho é descartado por problemas médicos e Zagallo por não ser unanimidade entre os cartolas.

Durante o treino da quarta-feira, seu primeiro no comando do clube, Carlinhos começa a ensaiar mudanças. Depois de colocar os titulares com a mesma formação que havia perdido para o São Paulo, e ver os reservas saírem na frente com um gol de Kita, interrompe a atividade e mexe as peças: Leandro e Edinho entram na zaga; o garoto Leonardo assume a lateral-esquerda no lugar do improvisado Aldair. E Zinho substitui Nunes para compor o meio-campo, deslocando Bebeto para o comando do ataque. Mais encorpado, o time principal cresce de produção.

Outra mudança ambicionada – a entrada de Aílton no meio-campo no lugar do volante Flávio para que Andrade volte a atuar mais recuado, à frente da zaga – ficaria para a atividade do dia seguinte. Mas na entrevista após seu primeiro treino, o novo treinador já evidencia o jeito simples e objetivo com o qual encara a organização da equipe: “O Aldair tem que atuar de zagueiro. É ali que ele se sente à vontade e tem alegria para jogar. Só vou escalá-lo em sua posição. Posso experimentá-lo com Leandro ou mesmo com Edinho”, disse sobre o defensor, que chegou a ser cogitado por Lopes para atuar no meio-campo.

CLÁSSICO À VISTA

A mudança no ambiente – até então carregado desde a demissão do supervisor Isaías Tinoco, antes mesmo da saída de Antônio Lopes – é nítida com a chegada de Carlinhos, e ele próprio se sente mais confiante e desinibido, a ponto de brincar nas entrevistas. O elenco também sente que a maré poderá virar a seu favor. “Todo clássico é difícil e não se pode garantir a vitória, mas o Flamengo a partir de agora será outro”, afirma Andrade.

Do outro lado, pelas bandas de São Januário, a semana começa ainda ecoando o excelente resultado cruzmaltino da primeira rodada: no domingo, o clube vencera de maneira categórica um bom time do Bahia em plena Fonte Nova por 3 a 0, três gols do jovem artilheiro Romário. Mas o astral começa a mudar ao longo daqueles sete dias que antecedem o clássico. Ao saber que Carlinhos é o novo técnico rubro-negro, Lazaroni franze a testa e pressente o perigo: “Eles vão jogar como nunca. Vamos ter de jogar com muito cuidado porque o Flamengo vai querer resolver seus problemas contra nós”.

Na quarta-feira, três jogadores vascaínos aparecem gripados. E na quinta, Romário é internado por conta de uma misteriosa gastroenterite. Mas numa última cartada para tentar abalar o Flamengo, o vice-presidente de futebol do Vasco, Eurico Miranda, anuncia na véspera do jogo a contratação de Osvaldo, o meia rejeitado na Gávea, embora não possa ir a campo no clássico por não estar regularizado.

No domingo, os dois times entram em campo. O novo Flamengo de Carlinhos alinha pela primeira vez juntos Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, o garoto Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho. Volta a experiência à zaga, combinada com a vitalidade e a força no apoio dos laterais. Andrade retorna à sua posição preferida, à frente da defesa. Zinho reveza as jogadas de linha de fundo com o auxílio no meio-campo. Uma escalação aparentemente mais equilibrada.

O Vasco também leva um time forte ao jogo: Acácio no gol, Paulo Roberto e Mazinho nas laterais, Fernando e Donato no miolo de zaga, Henrique na cabeça da área, Geovani e Luís Carlos Martins de armadores, Roberto Dinamite retornando do comando do ataque para exercer uma função semelhante à de Zico no Flamengo, lançando para Vivinho e Romário, que jogam abertos, entrando em velocidade pela diagonal. Henrique e Luís Carlos Martins são os substitutos de Dunga e Tita, negociados com o futebol europeu, enquanto Vivinho joga no lugar de Mauricinho na ponta.

E A BOLA ROLA

O jogo começa movimentado, e o Flamengo tem a primeira chance logo nos minutos iniciais quando Jorginho recebe de Andrade, vai à linha de fundo e cruza de pé esquerdo, mas Fernando corta antes de a bola chegar a Acácio. O Vasco aparece pela primeira vez num lance irregular: após cruzamento de Paulo Roberto, Zé Carlos sobe com Romário e soca para fora da área. Roberto disputa a bola com Andrade e empurra escancaradamente o volante rubro-negro. O árbitro manda o jogo seguir, e o camisa 10 cruzmaltino tenta o cruzamento rasteiro, mas Leandro afasta.

Os goleiros trabalham bem logo depois: Renato recebe de Andrade e avança pela esquerda até a linha de fundo, passa por Fernando e cruza alto, mas Acácio aparece antes de Bebeto para segurar. Do outro lado, Geovani recebe de Henrique, limpa a jogada e bate para Zé Carlos espalmar por sobre o travessão. O Vasco volta a assustar em dois escanteios seguidos. Paulo Roberto cobra pela ponta direita com veneno, dois vascaínos raspam de cabeça, mas Leandro aparece para afastar pela linha de fundo. No lance seguinte, pelo outro lado, Geovani levanta, Mazinho desvia e Zé Carlos salva quase sobre a linha.

Ponta-direita de origem, Renato brilha por todos os lados do ataque, fazendo ótimas jogadas também pelo lado esquerdo. Numa delas, Zinho desce por aquele lado e rola para trás. O gaúcho solta a bomba que passa muito perto do gol de Acácio. E logo em seguida, por ali mesmo, sai a jogada do primeiro gol rubro-negro: aos 31 minutos, mesmo combatido por Geovani, que tenta até segurá-lo pelo braço, Renato dribla e avança até a linha de fundo. O cruzamento, alto, encobre Fernando e encontra a testa de Bebeto, que agora sim se antecipa a Acácio e desvia para o fundo das redes. Flamengo 1 a 0. É o fim da invencibilidade de dez jogos do goleirão cruzmaltino.

Geovani, bom de bola e ruim de cabeça, estará no centro das atenções dali a alguns minutos. Faz uma grande jogada partindo do círculo central e descendo pela meia direita, enfileirando rubro-negros, cai, levanta e continua a jogada até que Edinho chega e toma a frente, protegendo a jogada. O meia vascaíno então agarra o zagueiro do Fla, e os dois caem. No chão, o camisa 8 da Colina acerta o primeiro soco da noite no rosto do defensor. O clima esquenta de vez, num festival de empurrões e dedos na cara. Restaurado o futebol, o Vasco ainda assusta em boa jogada de Vivinho, que chuta forte. A bola acerta o travessão e sobe. Fim do primeiro tempo.

O GOL FANTASMA

Logo aos três minutos da etapa final, Vivinho também participará do lance mais polêmico do jogo. O ponta recebe de Luís Carlos pelo lado direito, corre até a linha de fundo e cruza para Roberto Dinamite desviar. A bola bate na trave, no corpo de Zé Carlos e corre por sobre a linha, até que o goleiro rubro-negro a recolha. A torcida do Vasco grita gol, o bandeirinha Rubens de Souza Carvalho corre para o centro do campo, Roberto aponta para ele. E o árbitro Aloísio Felisberto da Silva, que inicialmente havia deixado o lance seguir, cede às pressões e inacreditavelmente dá um gol em que a bola claramente não entrou. Os vascaínos ganham o gol no grito.

A revolta rubro-negra é geral. Furioso com a marcação, Zé Carlos atira a bola ao chão, certo de que ela não havia entrado. Renato e Jorginho vão para cima do bandeira e são contidos por Edinho, que conversa com o auxiliar. Depois de mais de nove minutos de paralisação, o gol fantasma é validado. Vida que segue. Logo no primeiro lance após a bola voltar a rolar, o Fla desperdiça a chance de reação imediata num lance cruel: Jorginho dá a Renato na ponta direita, e o camisa 7 cruza. Acácio sai para abafar, mas a bola sobra nos pés de Bebeto, de costas para o gol. Sem ter como finalizar, o atacante passa a Zico. A bola, porém, pega uma rosca e o Galinho, quase debaixo da trave, apenas resvala, e ela sai pela linha de fundo, raspando. O camisa 10 cai dentro do gol, atônito, não acreditando no que tinha acabado de acontecer.

O jogo esfria. Lance de perigo só mesmo aos 27 minutos, quando o azar vai dar as caras do lado de lá: é a vez de Romário perder um gol inacreditável, na pequena área, finalizando fraco e mascado após cruzamento de Fernando. O Fla tem Renato querendo jogo, infernal pelas duas pontas. Já o Vasco tenta puxar contra-ataques com Luís Carlos pelo meio. E num deles, aos 37, Geovani volta a ficar na berlinda: enquanto Luís Carlos é travado em falta de Zico perto da área rubro-negra, o camisa 8 vascaíno corre em direção a Edinho e lhe acerta, pelas costas, o segundo soco da noite. Delatado pelo mesmo bandeirinha que validara o gol do Vasco, o meia cruzmaltino enfim é expulso.

O Flamengo parte para sua primeira alteração, mas é atrapalhado pela confusão do quarto árbitro: Carlinhos pretendia tirar Zinho para a entrada de Nunes. Mas a placa erguida na lateral do campo é a do número 9 – o de Bebeto, que sai de campo contra a vontade do treinador. Acabariam escrevendo certo por linhas tortas. Logo depois, Edinho deixa definitivamente o campo – com um enorme hematoma no olho direito e o osso malar daquele lado fraturado – substituído por Aldair (no dia seguinte, Bebeto também apareceria no clube de olho inchado após uma cabeçada de Geovani recebida durante o jogo). O Vasco também mexe: o experiente ponta Zé Sérgio entra no lugar de Vivinho, enquanto o volante Josenilton substitui Luís Carlos.

NO FIM, A VITÓRIA

Quando a bola é reposta em jogo, num chutão de Acácio rebatido do outro lado por Leonardo, vem o lance que decide a partida. A bola sobra para Donato na lateral direita do campo de defesa do Vasco. Acossado por Nunes, o zagueiro recua e gira, mas o controle lhe escapa. Zinho chega como um foguete e toma a frente, partindo em direção à linha de fundo. Até ser parado num carrinho duro e imprudente de Paulo Roberto no limite da área. Enquanto os cruzmaltinos ensaiam uma reclamação, os jogadores do Flamengo correm para abraçar o ponteiro, que dá uma sobrevida ao time no último fôlego. É pênalti.

Zico, que tivera atuação discreta até ali, chama a responsabilidade e se apresenta para a cobrança. Acácio aparece para tentar catimbar, mas a conversa entre os dois é mais cordial. “Sou profissional. Farei de tudo para defender este pênalti. Mas, no fundo do coração, torço por você”, confessou o arqueiro. O chute sai forte, seco, bate na trave e entra. Zico abraça Acácio. E a massa rubro-negra comemora a vitória no fim. Não há mais tempo para quase nada. Pouco mais de um minuto depois, o árbitro encerra o jogo, e o Flamengo respira. Carlinhos começa seu trabalho com o pé direito.

Apesar de a vitória que valeu como revanche sobre o arquirrival levantar de novo o ânimo do elenco, o Flamengo ainda oscilará ao longo do primeiro turno, em grande parte pelos desfalques acumulados. No jogo seguinte, contra o Santos no Pacaembu, por exemplo, já não terá Leandro, Edinho (afastado até o fim daquela etapa) e Bebeto, e ainda perderá por uma partida o zagueiro reserva Aldair, expulso no segundo tempo. Zico também ficará vários jogos de fora na virada dos turnos.

Mas bastará Carlinhos escalar de novo aquele onze mágico – Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato, Bebeto, Zinho, as peças certas nos lugares certos, como gostava o treinador – na partida contra o Palmeiras no Maracanã, no dia 7 de novembro, para o Fla voltar a brilhar, vencer categoricamente por 2 a 0 e iniciar ali sua arrancada rumo ao título da Copa União. Dali em diante, ninguém segurou mais.

FLAMENGO 2 x 1 VASCO

Maracanã (Rio de Janeiro), domingo, 20 de setembro de 1987
Campeonato Brasileiro (Copa União), primeira fase, primeiro turno
Público: 28.682 – Renda: Cz$ 2.740.710
Árbitro: Aloísio Felisberto da Silva
Cartões amarelos: Leandro, Bebeto, Aílton, Jorginho (FLA); Roberto (VAS)
Expulsão: Geovani (VAS), 37 do 2º tempo.

Gols: Bebeto aos 31 (1-0) do primeiro tempo. Roberto aos 4 (1-1) e Zico, de pênalti, aos 44 (2-1) do segundo tempo.

Flamengo: 1. Zé Carlos; 2. Jorginho, 3. Leandro, 5. Edinho (13. Aldair), 4. Leonardo; 6. Andrade, 8. Aílton, 10. Zico; 7. Renato Gaúcho, 9. Bebeto (15. Nunes), 11. Zinho. Técnico: Carlinhos.

Vasco: 1. Acácio; 2. Paulo Roberto, 3. Fernando, 4. Donato, 6. Mazinho; 5. Henrique, 8. Geovani, 9. Luís Carlos (15. Josenílton); 7. Vivinho (16. Zé Sérgio), 10. Roberto Dinamite, 11. Romário. Técnico: Sebastião Lazaroni.