Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 2: Uma doce revanche

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Toninho, um portento físico, não dá chance a Baroninho na goleada histórica do Flamengo sobre o Palmeiras no Maracanã pela segunda fase.

No primeiro capítulo da saga rubro-negra rumo ao primeiro título brasileiro, relembramos o histórico do Flamengo em competições nacionais até ali, falamos do interesse crescente de torcedores e dirigentes pelo Brasileirão, relatamos as reformas sofridas pelo torneio dentro do contexto do próprio futebol no país, abordamos as chegadas e partidas no elenco e, por fim, contamos com detalhes a trajetória na primeira fase da Taça de Ouro.

Agora, na segunda parte, a campanha avança pelas duas etapas seguintes, as quais o Flamengo atravessou invicto e colhendo excelentes resultados. Um deles, contra o Palmeiras no Maracanã, valeu como uma inesquecível revanche da derrota no ano anterior. Mais adiante, uma grande vitória sobre o Santos, também num Maracanã com casa cheia, significou a passagem às semifinais. Aquele era, portanto, o momento de afirmação da equipe.

OS ADVERSÁRIOS NA SEGUNDA FASE

Classificado como o segundo colocado do Grupo C, o Flamengo teria agora pela frente três novos adversários na segunda etapa da competição – a única fase de grupos jogada em turno e returno naquela edição. A chave J tinha dois favoritos destacados, mas também duas outras equipes bastante perigosas e dispostas a surpreender, prontas para fazerem os papões tropeçarem. E quem seriam esses rivais rubro-negros na disputa?

Em ordem alfabética, o primeiro era o Bangu, rival já conhecido do Estadual, mas que apresentava uma novidade para aquele ano de 1980: o retorno de Castor de Andrade a Moça Bonita, após dez anos de ausência, mas desta vez não mais como diretor de futebol do clube e sim como seu “patrono”, custeando com o dinheiro do jogo do bicho uma equipe repleta de nomes experientes, com longa rodagem no futebol carioca e brasileiro.

No gol, havia Tobias (ex-Corinthians). Na zaga, o “xerife” Moisés, que recentemente passara pelo próprio Flamengo. No meio-campo, os ex-botafoguenses Carlos Roberto e Ademir Vicente, além do sempre matreiro Dé “Aranha”. E na frente, outro ex-rubro-negro, Caio “Cambalhota”, tinha a companha do trombador Luisão, principal goleador da equipe dirigida pelo ex-zagueiro Ananias, campeão carioca pelo Flamengo como jogador em 1963.

O time da Zona Oeste vinha de grande campanha na Taça de Prata, vencendo o grupo que incluía Campo Grande, Volta Redonda, Serrano e quatro paulistas: Ferroviária de Araraquara, Botafogo de Ribeirão Preto, Inter de Limeira e Noroeste de Bauru. Com cinco vitórias, um empate e apenas uma derrota (para a Ferroviária na estreia), o Bangu liderou sua chave e superou o Uberlândia na decisão do acesso com uma goleada de 4 a 0 em Moça Bonita.

O Bangu com Castor de Andrade à frente: um dos adversários do Fla.

Outro adversário, com quem o Flamengo faria os confrontos mais aguardados, era o Palmeiras. O Alviverde mantinha praticamente o mesmo time que eliminara o Fla no Brasileiro anterior antes de cair nas semifinais para o Internacional. A única baixa era o ponta-de-lança Jorge Mendonça, que saíra para o Vasco. Mas sem dramas: o talentoso Jorginho, ponta-direita em 1979, assumia a camisa 10, enquanto o arisco Lúcio (ex-Ponte Preta) agora vestia a 7.

Houve, porém, a mudança no comando do time, forçada pela saída de Telê Santana para assumir o comando da Seleção. Em seu lugar, entrara Sérgio Clérici, ex-jogador revelado pela Portuguesa Santista e que fizera extensa carreira no futebol italiano, dos 19 aos 37 anos, passando por nada menos que sete clubes diferentes. Mas a campanha apenas regular na primeira fase daquele Brasileiro de 1980 já fazia com que o treinador balançasse no cargo.

Por fim, o Santa Cruz era um time com histórico respeitável no Brasileirão. Chegara às semifinais deixando o próprio Flamengo de fora em 1975 e estivera bem próximo de voltar a figurar entre os quatro primeiros em outras duas ocasiões: em 1977, quando perdeu a vaga no saldo de gols para o igualmente surpreendente Operário-MS, e em 1978, quando chegou às quartas de final, mas caiu diante do Internacional, terminando numa ótima quinta colocação.

Na edição de 1980, porém, havia cumprido uma campanha um tanto oscilante na primeira fase. Foi capaz tanto de empatar em casa com dois dos piores times de sua chave – Gama e Maranhão – quanto de vencer o líder Coritiba e arrancar um empate diante do Grêmio, segundo colocado, dentro do Estádio Olímpico, em Porto Alegre. Em suma: um time que complicava contra os fortes, mas ia mal contra os mais fracos. Valia ligar o sinal de alerta.

O elenco trazia alguns nomes experientes, como o goleiro Wendell (ex-Botafogo, Fluminense e Seleção), o vigoroso zagueiro Tecão (ex-São Paulo) e o malicioso centroavante Tadeu Macrini (ex-Operário-MS), somados ao bom armador Betinho e ao goleador ponta-de-lança Baiano. Mas o time logo enfrentaria uma troca no comando na virada da primeira fase para a segunda, com o gaúcho Cláudio Duarte dando lugar a Paulo Emílio, o mesmo de 1975.

E seria exatamente o Santa Cruz o primeiro adversário do Flamengo naquela segunda etapa, no Estádio do Arruda, no Recife, no dia 6 de abril. Uma partida com predomínio das defesas sobre os ataques, até com uma certa rispidez por parte dos pernambucanos (o zagueiro Gaúcho chegou a rasgar a camisa de Tita), e que teve os rubro-negros melhores no primeiro tempo e os tricolores, que chegaram a colocar uma bola na trave, no segundo.

O Fla, no entanto, poderia ter vencido se o árbitro paulista Dulcídio Vanderlei Boschilia não tivesse invalidado uma jogada de Nunes, que recebeu de Zico, encobriu o goleiro Wendell e, após rebote da defesa pernambucana, mandou para as redes. O juiz, no entanto, ignorou a lei da vantagem e preferiu marcar uma falta do arqueiro pernambucano, que havia tocado a bola com a mão fora da área. Apesar dos protestos, o jogo ficou mesmo no 0 a 0.

A GRANDE REVANCHE

Tita “se despede” dos torcedores palmeirenses após marcar seu gol.

A segunda rodada marcava o reencontro de Flamengo e Palmeiras no Maracanã, pouco mais de quatro meses após a goleada alviverde no mesmo local pelo Brasileiro do ano anterior. Agora, em 13 de abril de 1980, o time paulista chegava para o confronto em meio a uma troca de comando: Sérgio Clérici não resistira a uma surpreendente derrota por 3 a 2 para o Bangu dentro do Parque Antártica na estreia da segunda fase e seria demitido.

Para o seu lugar, a diretoria palmeirense apostou em uma lenda do clube. O veterano Oswaldo Brandão, comandante da Academia bicampeã brasileira em 1972 e 1973, voltava para aquela que seria sua última passagem pelo Parque Antártica. Nome com extenso e vencedor currículo no futebol paulista, havia recentemente dirigido a Seleção Brasileira, entre 1975 e 1977, quando foi substituído exatamente por Cláudio Coutinho – de quem era amigo particular.

“O líder, o pai, o técnico: Brandão voltou”: assim a Folha de São Paulo mancheteava o retorno do treinador, que – amizade com o comandante rubro-negro à parte – não evitou lançar uma bravata para motivar o ambiente palmeirense: “Se o Coutinho bobear, arrebento com ele lá dentro do Maracanã”. Para isso, contaria com dez dos 11 titulares do time de 1979. A única baixa, como dito, era a de Jorge Mendonça, compensada com a chegada de Lúcio.

No Flamengo, após quatro empates consecutivos (três deles fora de casa), Coutinho começava a viver um período de incertezas, com a imprensa começando a aventar um suposto desgaste entre ele e o elenco. E a vitória enfática dos reservas sobre os titulares num coletivo na semana do jogo fez com que o treinador resolvesse alterar o time, trocando Adílio por Andrade para fortalecer a combatividade no meio-campo. Toninho também voltava após lesão.

Em São Paulo, onde se costumava até mesmo ridicularizar o treinador rubro-negro pelo hábito de ler livros e mais livros sobre táticas, o jogo era tratado como o confronto entre a “experiência” (Brandão) e a “teoria” (Coutinho). Quando a bola rolou, de fato o primeiro tempo foi bastante estudado de parte a parte, com poucas chances de gol. O Flamengo, porém, aproveitou melhor as que teve e foi para o intervalo em vantagem.

Primeiro, aos 13 minutos, Andrade ganhou uma bola estourada com Rosemiro, e ela sobrou para Júlio César na ponta. O camisa 11 parou, olhou para a área e centrou. Gilmar saltou para a defesa, mas não segurou, e Tita rebateu de cabeça para as redes, abrindo a contagem. Depois, aos 33, Júnior fez jogada pela esquerda e sofreu falta do mesmo Rosemiro perto do bico da grande área. A cobrança de Zico foi perfeita, na gaveta de Gilmar: 2 a 0.

O Fla ainda esteve muito perto de fazer o terceiro ainda na etapa inicial, numa bomba de Toninho em cobrança de falta que Gilmar deu rebote, mas nem Zico nem Nunes conseguiram concluir. Mas, se não veio no primeiro tempo, acabou vindo no segundo, em que o time rubro-negro foi verdadeiramente avassalador. Logo aos sete minutos, Zico tabelou com Tita, entrou na área e foi derrubado por Pires. O próprio camisa 10 bateu e converteu.

Com a já confortável vantagem no placar, Zico alegou dores musculares e deixou o jogo aos 12 minutos, substituído pelo ponta-direita Reinaldo (Tita seria deslocado para a ponta-de-lança). Mas nem mesmo isso impediu o Flamengo de buscar – e, no fim das contas, infligir – uma goleada memorável sobre o time paulista, agora cada vez mais refém do bom toque de bola rubro-negro e desmantelado pelos deslocamentos constantes da ofensiva do Fla.

O quarto gol rubro-negro chegou a lembrar o de Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970. Júlio César bateu escanteio rolando a bola para Júnior, que carregou pela intermediária e abriu na diagonal, Nunes fez o corta-luz e então abriu-se um clarão pelo lado esquerdo da defesa palmeirense. Nele apareceu Toninho, chegando como uma locomotiva e enchendo o pé para fuzilar Gilmar. A vingança já estava completa. Mas cabia mais.

Depois disso, o Fla relaxou e o Palmeiras foi para cima tentando diminuir a goleada. Antes que pudesse fazê-lo, porém, Tita combinou bem com Carpegiani pelo lado direito do ataque e chutou de virada para marcar o quinto gol. Na comemoração, era hora de extravasar: o camisa 7 correu o campo todo e se dirigiu ao setor das arquibancadas onde estavam os cerca de três mil palmeirenses. Com um “tchauzinho” maroto, acenava despedindo-se deles.

O Palmeiras ensaiou uma breve reação. Primeiro quando Marinho calçou César na área e o árbitro marcou pênalti, convertido por Baroninho com um chute forte. E em seguida quando um centro de Lúcio da direita encontrou Mococa nas costas da zaga rubro-negra para finalizar marcando o segundo. Mas não terminaria assim: o Flamengo não daria ao adversário o direito de colocar o ponto final no placar da partida em plena revanche.

E veio então o cruzamento de Reinaldo também da direita, procurando Nunes na segunda trave. O zagueiro Beto Fuscão não alcançou, e o camisa 9 rubro-negro, na pequena área, teve todo o tempo de ajeitar, deixar cair e bater seco, por entre as pernas de Gilmar. Só mesmo um gol assim poderia concluir a deliciosa vingança do Flamengo, um time que ali provava sua verdadeira força. E que permitia ao seu treinador calar a boca da imprensa paulista.

Depois da grande forra, o Flamengo tratou de garantir a classificação antecipada para a próxima etapa, já que faria no Maracanã seus dois jogos seguintes, contra Bangu e Santa Cruz – e venceria ambos por 2 a 1. Contra o primeiro, o personagem do jogo foi o árbitro Wilson Carlos dos Santos, que apitou um pênalti inexistente para cada lado: Zico e o lateral Ademir converteram. O outro gol foi de Nunes, escorando cruzamento de Júlio César.

Já contra o Santa Cruz, em 21 de abril, Andrade comemorou seu aniversário de 23 anos anotando um lindo gol para abrir o placar, num chute da intermediária que entrou no ângulo. No segundo, na etapa final, Júlio César conseguiu impedir a bola de sair pela linha de fundo e cruzou. O goleiro Carlinhos se atrapalhou e jogou para dentro. No fim, os visitantes diminuíram com Tadeu Macrini, num lance em que a defesa rubro-negra parou.

A confirmação da classificação permitiu a Coutinho poupar Zico, então à beira de um desgaste físico mais sério. O camisa 10 ficaria de fora dos dois últimos jogos daquela etapa, com Tita ocupando sua posição. No domingo, dia 27, o time faria a partida de volta contra o Palmeiras no Morumbi, agora naturalmente com os paulistas ávidos por vingança depois da verdadeira surra sofrida no Maracanã. Mas ficariam apenas na vontade.

Depois de aguentar a pressão do time da casa por cerca de meia hora no primeiro tempo, o Fla saiu na frente com um golaço: Júlio César armou um salseiro na defesa palmeirense e passou de calcanhar para Júnior, que disparava em direção à linha de fundo. O centro do lateral encontrou Tita chegando como um raio na pequena área adversária. E numa cabeçada fulminante, o camisa 10 daquela tarde venceu o goleiro Gilmar e abriu a contagem.

O Palmeiras empatou três minutos depois com Jorginho, recebendo lançamento no meio da defesa. E virou logo no começo do segundo tempo com o futuro rubro-negro Baroninho, soltando uma bomba quase sem ângulo após rebote da defesa. Mas o Fla frustraria a torcida palmeirense a nove minutos do fim: Nunes carregou a defesa, Reinaldo cruzou da direita, Rondinelli escorou de cabeça e Carlos Henrique chutou de virada para empatar.

O ponto conquistado no Morumbi garantiu também a primeira colocação no grupo ainda com uma rodada pela frente. Mas antes de encerrar sua participação naquela etapa, o Fla foi a Belo Horizonte na quarta-feira, 1º de maio, enfrentar e vencer o Atlético no Mineirão por 1 a 0, gol de Tita, num confronto de times mistos, em amistoso comemorativo ao Dia do Trabalhador. Na volta, enfrentaria o Bangu no Maracanã, no dia 4, poupando vários titulares.

Coutinho deu descanso a Andrade, Carpegiani, Zico e Júlio César – os dois últimos se recuperando de problemas físicos – e ainda substituiu Rondinelli no intervalo. Mesmo assim, Tita garantiu a tarde, marcando os três gols (todos no segundo tempo) na vitória de 3 a 0. Primeiro, apanhando o rebote de um chute de Nunes. Depois, com um toque só, após o goleiro Arerê não segurar o cruzamento de Toninho. E por fim, numa cobrança de falta a la Zico.

A TERCEIRA FASE

Os 16 clubes classificados para a terceira fase seriam novamente divididos em grupos de quatro equipes, mas desta vez se enfrentando em turno único. Era tiro curto: apenas três partidas para cada clube. Ao Flamengo coube reencontrar dois adversários da primeira fase, Santos e Ponte Preta, além da Desportiva, principal surpresa entre os que avançaram, e que fazia a melhor campanha de um clube capixaba na elite nacional em todos os tempos.

Na primeira rodada, em 10 de maio, o Fla recebeu a Desportiva no Maracanã e venceu por 3 a 0 numa tarde em que Zico e Nunes inverteram os papeis. Foram três assistências do centroavante para três gols do camisa 10. Primeiro, num cruzamento da esquerda para a cabeçada do Galinho. Depois, Nunes driblou o goleiro e centrou para Zico dominar no peito e chutar. E o terceiro, no último minuto do jogo, Nunes cruzou e Zico cabeceou meio sem querer.

O Santos bateu a Ponte Preta pelo mesmo placar no outro jogo do grupo, o que deixou o time campineiro dependendo de uma vitória sobre o Flamengo em seu estádio Moisés Lucarelli, na noite de quarta-feira, 14 de maio, para seguir com chances. O Fla, por sua vez, queria pelo menos um empate para enfrentar o Peixe na rodada decisiva ainda em boas condições. E conseguiria o ponto precioso, mas não sem enfrentar um adversário duríssimo.

Empurrada pela torcida, a Ponte foi para cima e abriu a contagem aos 19 minutos da etapa final. Após confusão na área, o volante Humberto apanhou o rebote e chutou forte da marca do pênalti para abrir o placar. Mas o Fla não se deu por vencido e empatou aos 34: Zico arriscou de fora da área, Carlos não segurou e Nunes, oportunista, empurrou para as redes. No fim do jogo, Zico ainda foi atingido na barriga por uma pedra atirada por torcedores.

O empate tirou definitivamente a equipe campineira da briga. Mas, para o Fla, melhor ainda foi o resultado do dia seguinte, quando a Desportiva segurou o 0 a 0 com o Santos dentro de uma Vila Belmiro lotada, permitindo que os rubro-negros jogassem por uma nova igualdade diante do time paulista no domingo, 18 de maio, no Maracanã, por terem mais gols marcados, um dos critérios de desempate. Mas o Flamengo não se conformaria com a vantagem.

Curiosamente, o cenário lembrava muito o da fatídica partida contra o Palmeiras no ano anterior: o Flamengo a um jogo das semifinais do Brasileiro enfrentando um grande clube paulista que contava com uma equipe jovem, talentosa e de vocação ofensiva, diante de um público superior a 100 mil pessoas – desta vez, exatos 110.079 pagantes, que estabeleceram o recorde nacional de renda. Agora, porém, o desfecho seria completamente diferente.

Zico cabeceia para vencer Marolla e abrir o placar contra o Santos.

O jogo contra o Santos fechou com chave de ouro a campanha rubro-negra naquela terceira fase. Os paulistas bem que tentaram assustar nos minutos iniciais, mas o Flamengo logo tomou conta das ações. Fechando os espaços, tinha sob controle os dois meias de criação do adversário (Pita e Rubens Feijão), impedindo que a bola chegasse aos perigosos ponteiros Nílton Batata e João Paulo. E confundia a defesa santista com sua movimentação incessante.

Mesmo em meio à excelente atuação coletiva, foram muitos os destaques individuais. Toninho, um colosso na defesa e no apoio. Júlio César, com seus dribles, um tormento constante para o lado direito da retaguarda santista. Júnior, além de tomar conta de Nílton Batata, juntava-se aos meias como mais um armador. Andrade, protegendo e apoiando com muita classe. E Zico, é claro, o grande construtor da vitória e da classificação.

O placar foi aberto logo aos 13 minutos, depois que o Fla já havia construído uma sucessão de jogadas ofensivas. Carpegiani, outro que esteve soberbo nos 45 minutos em que atuou, recebeu a bola no meio-campo e, de primeira, lançou Nunes, que caía pela ponta-esquerda exatamente como fizera contra a Desportiva. Zico, pelo meio, correu para acompanhar. O cruzamento veio na medida: o camisa 10 cabeceou para baixo, vencendo o goleiro Marolla.

O arqueiro santista, aliás, revelaria-se a melhor figura de seu time. Depois de já ter espalmado um chute perigoso de Júnior, reapareceu de maneira brilhante aos 19 minutos, defendendo uma cabeçada de Nunes que tinha endereço certo. Pouco depois, Marolla também pegaria outra boa cabeçada, agora de Zico, e assistiria a outros chutes de Andrade e Tita passarem perto de suas traves. Tudo isso ainda no primeiro tempo.

Na volta para a etapa final, Carpegiani deixou o jogo por um desconforto físico e Adílio entrou em seu lugar. O substituto iniciaria a jogada do segundo gol, aos 13 minutos, puxando um contra-ataque e entregando a bola a Zico na intermediária. O Galinho arrancou fazendo fila na defesa santista até ser deslocado pelo zagueiro Neto na área. Pênalti que o próprio Zico bateu no canto, sem chances para Marolla, selando a classificação rubro-negra.

“Nossos jogadores esqueceram a vantagem do empate e chegaram a uma grande vitória. Na minha opinião, foi um show de autoridade técnica em todos os momentos”, declarava satisfeito Cláudio Coutinho nos vestiários. Uma afirmação que encontrava eco até no resignado treinador santista Pepe: “Atuamos contra o melhor time do Brasil no momento. E se o Flamengo continuar jogando dessa maneira, chegará facilmente ao título”.

Sobre Zico, que já chegava a 18 gols no Brasileiro e negociava uma renovação de contrato que elevaria seu salário a um milhão de cruzeiros, o maior do futebol brasileiro na época, Pepe também não economizou elogios: “Naquele lance em que ele pegou a bola no meio de campo e levou até a nossa área, cavando o pênalti e cobrando, ficou comprovado que Zico vale muito mesmo. Tudo que ele pedir tem que se dar, pois está muito bem”.

Assim, o Flamengo confirmou os prognósticos para o Grupo O e ficou em primeiro. Nas chaves M e N, também os clubes apontados como favoritos – Atlético-MG e Internacional – avançaram. Apenas o Grupo P surpreendeu, com a classificação do Coritiba à frente do favorito Corinthians e também de Grêmio e Botafogo. Os paranaenses seriam os próximos adversários do Fla. Mas esse confronto e também a decisão do título serão contados no próximo capítulo.

Até lá! SRN!

Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 1: Tempo de mudanças

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Carpegiani e Zico na estreia vitoriosa diante do Santos no Morumbi.

Primeiro grande título nacional do Flamengo, o Campeonato Brasileiro de 1980 – conquistado em final épica diante do Atlético-MG no Maracanã e que serviu de pontapé inicial para as conquistas da América e do mundo no ano seguinte – completa 40 anos em 2020 e terá sua história contada aqui detalhadamente e em três partes, nesta e nas próximas duas segundas-feiras, dias 25 de maio e 1º de junho – esta, coincidindo com a data da conquista.

Neste primeiro capítulo, traçaremos um panorama histórico do Flamengo nos torneios nacionais anteriores a 1980, contextualizando com o momento vivido pelo clube em cada época e expondo motivos pelos quais ele ainda não havia sentido o gostinho de uma conquista nacional. E também rememoraremos as mudanças vividas pelo Fla e pelo próprio futebol brasileiro naquela virada dos anos 1970 para os 1980, além da campanha na primeira fase.

O FLAMENGO E OS TORNEIOS NACIONAIS

Os anos 1960 não foram um período particularmente feliz para o Flamengo. À medida em que os esquadrões memoráveis como os dos dois primeiros tricampeonatos cariocas faziam cada vez mais parte do passado, o clube mergulhava em dificuldades financeiras e, salvo alguns poucos jogadores que marcariam época mesmo naquele período de vacas magras, era forçado a levar a campo times muito mais aguerridos e aplicados do que técnicos.

Foi nessa mesma época que o futebol brasileiro viu nascer os primeiros torneios nacionais, como a Taça Brasil (disputada entre 1959 e 1968), competição entre campeões estaduais, e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, criado em 1967 como uma ampliação do antigo Torneio Rio-São Paulo (o qual o Flamengo havia conquistado em 1961) e realizado até 1970. Diante disso, pelos motivos já citados, o clube teve poucos momentos de brilho nos dois campeonatos.

Do primeiro só participou uma vez, em 1964, na condição de campeão carioca do ano anterior. Entrou já nas semifinais, em que venceu os dois jogos contra o Ceará, antes de ser superado pelo hegemônico Santos de Pelé com uma derrota por 4 a 1 em noite chuvosa no Pacaembu e um empate sem gols no Maracanã, diante de 52 mil torcedores, pouco mais de um terço do público do Fla-Flu do returno do Carioca daquele ano jogado dois meses antes.

Teria disputado outra vez a Taça Brasil em 1966, pelo mesmo critério da participação anterior. Mas no começo daquele ano de 1965, a Federação Carioca de Futebol decidiu passar a apontar como seu representante na competição o vencedor da Taça Guanabara, um torneio à parte do campeonato principal a ser instituído naquela temporada, em meio às comemorações do quarto centenário de fundação da cidade do Rio de Janeiro.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, por sua vez, pegou o Flamengo vivenciando o pior momento daquele período já ruim, bem no meio do jejum de sete anos sem títulos cariocas – o segundo maior da história do clube – entre 1965 e 1972. Com três campanhas fracas nas primeiras edições, a exceção seria 1970, quando o time surpreendeu ao brigar até o fim pela vaga no quadrangular final, perdida no saldo de gols. Acabaria em quinto lugar.

A partir de 1971, ao longo daquela década, o clube começaria a oscilar boas e más campanhas, algumas vezes batendo na trave para figurar entre os finalistas. Em 1974, por exemplo, havia feito a segunda melhor campanha geral na primeira fase entre os 40 participantes, ficando só atrás do Grêmio. Mas na etapa seguinte, com o time mutilado por lesões, entre elas a da revelação Zico, ficaria de novo pelo caminho antes de chegar ao quadrangular decisivo.

Em 1975, a campanha foi mais irregular nas primeiras etapas, mas o time parecia ter crescido na hora certa, às vésperas das semifinais. Vinha de um excelente empate diante do futuro campeão Internacional dentro do Beira-Rio quando pegaria, na última rodada, um surpreendente Santa Cruz, também brigando pela vaga. No Maracanã, o Flamengo jogava pelo empate, mas o Tricolor de Luís Fumanchu, Givanildo e Ramon se superou e venceu por 3 a 1.

No ano seguinte, outra vez a excelente campanha acabou se perdendo em meio ao regulamento da competição e a derrotas fora de hora. O time foi o segundo que mais somou pontos ao longo do certame, atrás apenas de um irretocável Internacional (que levantaria o bicampeonato) e à frente dos outros três semifinalistas (Corinthians, Fluminense e Atlético-MG). Mas acabou mais uma vez em quinto, eliminado na terceira etapa pelo saldo de gols.

Zico marca contra o Grêmio pelo Brasileiro de 1976: mesmo com a goleada de 5 a 1 sobre os gaúchos, o Flamengo ficou de fora das semifinais.

Entretanto, aquelas eliminações não chegaram exatamente a tirar o sono dos rubro-negros. Na época, entre os torcedores do Rio de Janeiro, o Campeonato Carioca ainda era aquele visto com mais carinho, não só entre os flamenguistas – e mesmo tendo em vista as conquistas nacionais de Botafogo (Taça Brasil de 1968), Fluminense (Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970) e Vasco (Brasileirão de 1974). Alguns números demonstravam isso.

Tanto em 1974 quanto em 1976, mesmo com as boas campanhas do Flamengo, o Campeonato Brasileiro registrou médias de público inferiores às do certame carioca. No primeiro ano, foram 11.601 torcedores em média os que assistiram aos jogos do torneio nacional, enquanto 15.012 viram, também em média, as partidas do estadual. Já em 1976, mesmo com a presença de público subindo para a média de 17.010 no Brasileiro, a do Carioca saltou até 19.070.

Mesmo os clássicos disputados pelo Brasileirão na maioria das vezes não alcançavam os mesmos fantásticos números registrados pelas bilheterias do Maracanã no Carioca. Naquele mesmo ano de 1976 em que Flamengo e Vasco estabeleceram o público recorde da história do clássico num jogo rotineiro de Taça Guanabara (mais de 174 mil pagantes), os dois levaram pouco mais de 52 mil num jogo pela reta final do Brasileiro, com ambos podendo ir às semifinais.

Por vezes, o que prejudicava a campanha do Flamengo e diminuía o interesse do torcedor pela competição nacional era o desequilíbrio das tabelas. Não foram poucas as vezes em que, desde os tempos do Robertão, o clube teve de fazer um número absurdamente maior de partidas como visitante, atuando em bem menos ocasiões no Rio (leia-se Maracanã). Era como se, para o clube, o campeonato nacional fosse uma espécie de excursão valendo pontos.

Na fase de classificação do Brasileirão de 1972, o Flamengo fez 21 partidas contra equipes de outros estados. Destas, em apenas cinco foi o mandante. No ano seguinte, a distorção voltou a acontecer: dos 17 jogos contra clubes de fora do Rio na primeira fase da competição, o time fez apenas quatro no Maracanã. Pulava de Goiânia para Recife, de Aracaju para Belo Horizonte, de Vitória para Belém. Tudo em intervalos muito curtos.

Tendo de cumprir essa estafante rotina de viagens, estabelecida pela antiga CBD no intuito de aumentar a arrecadação do torneio – ou seja, fazer cortesia com o chapéu rubro-negro, o que só reforçava a imagem do Fla (e sua torcida nacional) como trem pagador do futebol brasileiro –, o time não poderia mesmo chegar muito longe. Era natural que, sem o devido preparo para a maratona, perdesse peças (e pontos) importantes pelo caminho.

Além de tudo, o Campeonato Carioca (e os estaduais em geral) ocupava a maior parte, cerca de dois terços (às vezes mais), do calendário do futebol. Eram as suas disputas que priorizavam a atenção dos torcedores do Rio. E foi pela perda da chance de decidir um título carioca – o de 1977, contra o Vasco – que o Flamengo enfim decidiu mudar tudo, no episódio que entrou para a história rubro-negra como o Pacto do Barril.

ACORDANDO PARA O BRASILEIRO

O grande incômodo, a sensação de que realmente pegava mal um clube do tamanho, do peso e da representatividade do Flamengo não ter um título nacional, só começou a bater pelos lados da Gávea no fim dos anos 1970. E, por mais contraditório que possa parecer, reconquista da hegemonia estadual, com o tricampeonato levantado em 1979, acabou servindo também para abrir a cabeça do clube no âmbito nacional.

Foi como subir um degrau de cada vez. Se o gol histórico de Rondinelli de cabeça contra o Vasco em 1978 encerrava traumas regionais recentes e, sobretudo, simbolizava enfim a afirmação da talentosa geração liderada por Zico, e se os outros dois campeonatos estaduais vencidos na longuíssima e confusa temporada de 1979 colocavam o clube como o dono do pedaço no Rio, a ordem agora era enfim ser campeão do Brasil.

Haveria, porém, um obstáculo. No mastodôntico Brasileirão de 1979, que contou com 94 clubes, o Flamengo (assim como algumas outras equipes do Rio e de São Paulo) entrou na segunda fase, ficando em primeiro no seu grupo que incluía Grêmio, Bahia, Santa Cruz, Náutico, Londrina, XV de Piracicaba e Gama. Na etapa seguinte, teria pela frente o Palmeiras (que só estreara naquela fase), o São Bento de Sorocaba e o Comercial de Ribeirão Preto.

Nas duas primeiras rodadas, deu a lógica: os dois favoritos do grupo venceram os adversários interioranos. Mas só o Flamengo atuou fora de casa, enfrentando clima de guerra em Ribeirão Preto para vencer o Comercial por 2 a 0. Para o confronto decisivo da última rodada, o Palmeiras dirigido por Telê Santana tinha a vantagem do empate pelo saldo de gols. No Flamengo, haveria o desfalque de Rondinelli, mas todos confiavam na classificação.

Significativamente, era a primeira vez que o Fla levava mais de 100 mil pessoas ao Maracanã em um jogo de Campeonato Brasileiro contra uma equipe de fora do Rio. Só que o Palmeiras abriu o placar aos 11 minutos, com Jorge Mendonça livre na pequena área para escorar um cruzamento de César. O Flamengo foi para o intervalo perdendo, mas conseguiu um pênalti no início da etapa final e Zico bateu com categoria para empatar. Era a senha para a virada.

Só que ela não aconteceu. O time se mandou todo para o ataque, já que só a vitória o levaria às semifinais, e deixou enormes espaços às costas da defesa aproveitados pelo time do Palmeiras. Baroninho bateu falta e Carlos Alberto Seixas cabeceou para colocar os paulistas outra vez na frente. Pedrinho marcou o terceiro em nova jogada de Baroninho. E, no último minuto, em outra jogada de Baroninho, o volante Zé Mário fechou a goleada.

A derrota em casa se tornou ainda mais vexatória graças ao papelão protagonizado por Beijoca, centroavante contratado do Bahia para o Brasileiro e que entrara naquele jogo no lugar de Adílio, mas só seria notado ao agredir o volante Mococa e o ponta Baroninho, sendo merecidamente expulso de campo. O esquentado atacante baiano vestiria ali a camisa rubro-negra pela última vez, prenunciando outras mudanças no elenco para 1980.

NOVOS VENTOS

Naquela virada de ano, aliás, muitas coisas mudariam no futebol brasileiro. Até a própria entidade que tinha o papel de organizá-lo. Em 23 de novembro de 1979 foi criada a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sucessora da CBD, extinta em setembro. Imediatamente após seu surgimento, a CBF teve seu primeiro presidente eleito, o industrial carioca Giulite Coutinho, ex-presidente do America, e que prometia reformular o torneio nacional.

A primeira medida empreendida seria a transferência do torneio para o primeiro semestre do ano, começando no fim de fevereiro e se estendendo até o início de junho. Outra novidade, mais importante, foi a cisão da competição em Taça de Ouro e Taça de Prata, equivalentes ao que se chamaria de primeira e segunda divisão, respectivamente. E o número de participantes passou a ser mais controlado, quase fixo, bem diferente dos anos anteriores.

Depois da competição inchada em 1979 (e que, além disso, também não contou com muitos dos clubes paulistas, que abriram mão de disputa-la), agora apenas 40 – nomeadas obedecendo a critérios técnicos, limando a politicagem que marcou os torneios dos anos 1970 – iniciariam a disputa da Taça de Ouro, com quatro equipes vindas da Taça de Prata (que teria 64 participantes) subindo para disputar o torneio de elite a partir da segunda fase.

Nos exatos 76 dias compreendidos entre 9 de dezembro de 1979, quando da eliminação diante do Palmeiras, e 24 de fevereiro de 1980, data de sua estreia no Campeonato Brasileiro seguinte, o Flamengo também sofreu pequenas revoluções. Não foram muitas as peças que deixaram o elenco: além do já citado Beijoca, que retornou ao Bahia, o zagueiro Boca, que fez alguns jogos pelo Brasileiro, foi devolvido à Francana-SP, seu clube de origem.

Para reforçar a zaga, ponto mais criticado na derrota para o Palmeiras, o Flamengo contratou do Londrina um jogador que havia impressionado ao atuar contra o time no jogo pelo Brasileiro disputado no Estádio do Café. Marinho, perto de completar 25 anos, com passagem rápida pelo São Paulo em 1977, boa estatura e impulsão, destacava-se também pela velocidade na cobertura e recuperação. Chegava para ser o titular do setor, ao lado de Rondinelli.

Outro que chegava era o lateral-direito Carlos Alberto, do Joinville, marcador seguro e apoiador eficiente. Vinha para suprir uma possível lacuna no setor depois de o Internacional quase tirar Toninho Baiano e, mais tarde, o jovem Leandro da Gávea. Outras apostas de custo reduzido eram o meia Aderson, do Remo, e o centroavante Gérson Lopes, do Operário-MT, 20 anos, franzino, mas promissor. E que seria o pivô de um conflito que agitaria a Gávea.

Num amistoso em Cuiabá, o Fla venceu o Mixto por 7 a 1, e o garoto jogou de início, marcando três gols. Cláudio Adão, o titular, ficou no banco e entrou no fim do jogo. Como também ficaria no amistoso seguinte, contra o Atlético-MG no Mineirão, antes de um problema muscular cortá-lo da delegação. Insatisfeito por pensar que de novo seria preterido no time, como chegara a ser em 1979 por Luizinho das Arábias, Adão botou a boca no mundo.

O centroavante exigia um lugar no time, sob a alegação de que era o segundo artilheiro da equipe (atrás apenas, naturalmente, de Zico). Ou então que o vendessem. No fim das contas, sua atitude se revelaria um exagero. Primeiro porque Gérson Lopes, ainda muito imaturo, acabaria sequer participando da campanha no Brasileiro (assim como Aderson). Sua carreira com a camisa rubro-negra se resumiria a aqueles amistosos de pré-temporada de 1980.

Segundo porque Cláudio Coutinho havia sido justamente o técnico que pedira sua contratação ao Flamengo em 1977, quando quase ninguém acreditava que Adão voltaria a jogar futebol após uma gravíssima fratura na perna, sofrida ainda quando defendia o Santos e que o afastara dos gramados por mais de um ano. A pouco mais de uma semana da estreia no Brasileiro, o treinador tinha agora um novo problema, o da camisa 9, para solucionar.

O próprio Coutinho, aliás, não deixava de representar uma novidade. No início de fevereiro, ele deixara o comando da Seleção, trocado por Telê Santana, precisamente o técnico do Palmeiras que eliminara o Flamengo no Brasileiro. O que significava estar livre para enfim se dedicar em tempo integral ao clube e, sobretudo, não ter mais de conviver com as críticas – vindas em especial da imprensa paulista – à sua maneira de comandar o escrete.

Tita (o camisa 9 do “losango móvel”) e Júnior combatem contra o Santos.

Para suprir a ausência de Adão – que, após ser afastado, acabaria negociado com o Botafogo já com o Brasileiro em andamento – o treinador teve de improvisar um novo sistema, com Tita a princípio escalado no centro do ataque, mas formando o vértice mais avançado de um certo “losango móvel” também composto por Andrade, Carpegiani e Zico, que girava o tempo todo, tendo ainda Adílio aberto pelo lado esquerdo como falso ponta.

Enquanto isso, lá atrás sob as traves, Raul – que esteve quase certo de ser vendido ao Grêmio – ganhava uma nova chance entre os titulares depois de ter atuado em apenas sete das 82 partidas disputadas pela equipe ao longo de 1979. Uma lesão de Cantarele fez com que o veterano goleiro fosse novamente escalado nos amistosos, saindo-se muito bem, em especial num empate em 0 a 0 diante do São Paulo no Morumbi, no qual fechou o gol.

A TAÇA DE OURO

Além de Raul vestindo a camisa 1, o Flamengo iniciaria sua campanha nacional com Carlos Alberto na lateral-direita (Toninho retornaria na quarta rodada), Rondinelli e Marinho no miolo de zaga e Júnior na lateral-esquerda. No meio, Andrade, Carpegiani e Zico, tendo Reinaldo (ex-America) pela ponta-direita e Adílio (depois Carlos Henrique, ponteiro veloz trazido da Desportiva em 1979) na esquerda. Por fim, Tita de centroavante, dentro do “losango móvel”.

A etapa inicial da Taça de Ouro trazia os 40 participantes divididos em quatro grupos de dez, enfrentando-se dentro das chaves em turno único. O Flamengo ficou no Grupo C e teria pela frente logo de cara nada menos que o Internacional de Falcão, Batista, Mário Sérgio e um novato chamado Mauro Galvão. Era o atual detentor do título nacional, conquistado de maneira invicta derrotando duas vezes o Vasco na decisão em dezembro de 1979.

O outro grande do grupo era o Santos, que mantinha a base dos “Meninos da Vila” originais, com o goleiro Marola (da Seleção Brasileira de Novos), um meio-campo talentoso com Gilberto Costa, Rubens Feijão e Pita, além dos velozes ponteiros Nílton Batata e João Paulo. A quarta força era a perigosa Ponte Preta, vinda de seu segundo vice-campeonato paulista em três anos e recheada de nomes de alto nível, como o goleiro Carlos, da Seleção principal.

Completavam o grupo a boa equipe do Náutico, o truculento São Paulo de Rio Grande (RS), o Botafogo da Paraíba (indicado como vencedor do estadual de 1978, uma vez que o de 1979 ainda não tinha se encerrado – e só terminaria em junho de 1980, após o Brasileiro) mais outros três campeões estaduais: o Ferroviário do Ceará, o Itabaiana (que conquistara o bi sergipano mais tarde estendido ao penta) e o Mixto (iniciando um tetra mato-grossense).

Logo de saída, o Flamengo teria de enfrentar os dois principais adversários, a começar pelo Santos no Morumbi. Na época, Zico era com frequência menosprezado pela imprensa paulista, tratado como “jogador de Maracanã”, incapaz de decidir jogos atuando longe do Rio, e hostilizado pelo público quando vinha jogar em São Paulo, até mesmo pela Seleção. Mas o camisa 10 rubro-negro trataria de silenciar os críticos e a torcida adversária.

Naquela tarde de 24 de fevereiro, mesmo enfrentando dura marcação do lateral santista Nelson (o futuro técnico Nelsinho Baptista, que passaria sem brilho pelo Fla em 2003), ele anotaria o gol da vitória aos 25 minutos da etapa inicial, após grande jogada do ponteiro-direito Reinaldo, que ganhou disputa de bola com João Paulo na lateral, avançou em velocidade, driblou o zagueiro Neto e fez o ótimo passe para Zico tirar do alcance de Marola.

O Galinho voltaria a decidir o confronto seguinte, diante de um Internacional que surpreendeu negativamente por exibir um antijogo pouco afeito à grande qualidade de talento que reunia. Aos 11 minutos da etapa final, Andrade recebeu de Reinaldo e fez assistência maravilhosa para Zico, a bola passando quase como pelo buraco de uma agulha. E o camisa 10 da Gávea chutou alto, vencendo o goleiro Gasperin e selando a segunda vitória rubro-negra.

Após derrubar os principais adversários, parecia que o Flamengo caminharia tranquilo rumo a uma campanha perfeita que lhe daria o primeiro lugar da chave, certo? Errado. Aquele era um grupo traiçoeiro, e o próprio Inter já havia sido vítima de uma zebraça logo na estreia, batido pelo Itabaiana em pleno Beira Rio por 2 a 1. O time sergipano perderia logo em seguida para o Botafogo-PB, que também venceria o Náutico em Recife.

O Belo seria o próximo adversário do Fla no Maracanã e assumiria o status de grande “fantasma” do grupo: saiu na frente com gol de Soares no começo do segundo tempo, sofreu o empate dos rubro-negros – em atuação confusa e desastrosa – com gol de Tita, mas logo voltaria a balançar as redes com Zé Eduardo. Uma cabeçada de Rondinelli ainda acertou a trave, mas os visitantes foram sempre melhores e mereceram a vitória por 2 a 1.

O resultado derrubou milhares de apostadores da Loteria Esportiva e levou os rubro-negros a repensarem seu esquema ofensivo, considerado pouco efetivo. Tita não rendia como “falso 9”. Com Cláudio Adão descartado, era preciso trazer outro centroavante de ofício, um goleador nato. O clube já tinha um nome bombástico em mente: Roberto Dinamite, que em janeiro trocara o Vasco pelo Barcelona, mas não vinha agradando na Catalunha.

Percebendo a oportunidade, mesmo com o caixa baixo, o presidente rubro-negro Márcio Braga embarcou para a Espanha para tentar negociar – até porque os catalães também não estavam nadando em dinheiro, ainda deviam parte do pagamento ao Vasco e, diante disso, não fariam jogo duro para liberar o atacante, que aceitou vir para a Gávea. Quando a notícia chegou ao Rio, a perspectiva da dupla Zico-Dinamite no Flamengo acendeu a torcida.

Enquanto isso, o time se reabilitava no campeonato. Venceu o Mixto em Cuiabá (2 a 0, gols de Carlos Henrique e Zico) e o Ferroviário no Maracanã (2 a 1, dois de Zico). Em Recife, diante do Náutico, dominou a etapa inicial e marcou com Toninho. Zico saiu no intervalo, Tita ampliou a contagem no segundo tempo, mas os pernambucanos cresceram no jogo e empataram a quatro minutos do fim. Só mesmo a atuação magistral de Raul impediu a virada.

No dia 20 de março, o time recebeu o Itabaiana e não teve problemas para disparar uma goleada de 5 a 0. Só no primeiro tempo, Zico já havia marcado três. Tita ampliou com um chute da entrada da área no começo da etapa final. E o Galinho ainda teve tempo de anotar seu quarto, que o levava à artilharia temporária da competição, com nove gols em sete jogos. E o Flamengo, já classificado para a segunda fase, alcançava a liderança da chave.

A partida seguinte, o empate sem gols contra o São Paulo de Rio Grande no Estádio Aldo Dapuzzo, foi uma verdadeira caçada dos defensores da equipe local aos jogadores rubro-negros, em especial a Zico, que apanhou demais, a ponto de declarar ao fim do jogo: “Vai chegar o dia em que eu não vou aguentar mais. Aí terei que quebrar a perna de alguém para acabar com essa violência. É assim, tem gente que só entende a lei da selva”.

O time gaúcho até demonstrou ímpeto ofensivo no início da partida, mas aos poucos a defesa rubro-negra, muito segura, foi se assenhorando do jogo. Raul, sempre muito calmo. Júnior, ótimo na defesa e no apoio. Andrade, perfeito na proteção à zaga. Zico, uma preocupação constante para os adversários. E Tita, movimentando-se muito e criando ótimas opções de jogada. O gol da vitória não saiu, mas a atuação do Flamengo foi consistente.

UM NOVO GOLEADOR

O que acabou não dando certo foi a negociação para trazer Roberto Dinamite. Desesperados com a possibilidade de ver seu maior ídolo de então seguir para o arquirrival, os dirigentes vascaínos trataram de atravessar a negociação: com o pretexto da dívida que o Barcelona ainda tinha com o clube, acertaram a devolução de Roberto e a rescisão do contrato, com os catalães indenizando o Vasco pelo valor desembolsado até ali.

O Flamengo, porém, não deixou de se reforçar. Se o atacante contratado pode ser chamado de “plano B”, então foi um dos melhores do tipo que se tem notícia. Surgido na base rubro-negra como Joãozinho, ponta-direita, mudou de nome e posição ao ser levado ao Confiança. De lá, foi para o Santa Cruz, onde explodiu e chegou à Seleção com o próprio Coutinho. Vendido caro ao Fluminense, seguiu então para o México antes de voltar à Gávea. Era Nunes.

“Vim para ficar. Comecei aqui, e minha meta sempre foi voltar para o Flamengo. Se tiver que retornar ao México, abandono o futebol. Mas tenho certeza de que isso não acontecerá. Confio no meu futebol”, declarou o atacante na véspera da estreia, contra a Ponte Preta no Maracanã, pela última rodada da primeira fase. Trazido do Monterrey por empréstimo, Nunes desejava retribuir as expectativas da torcida com muitos gols. E não decepcionaria.

Mesmo já classificados, Flamengo e Ponte Preta fizeram bom jogo naquela noite de 30 de março, com quatro gols e algumas belas jogadas, como a finalização de Zico na trave, num rebote de Carlos, e as boas intervenções dos dois goleiros. O Fla saiu na frente aos 18 minutos, quando Zico lançou Tita, que desceu pela direita na diagonal e fez um passe espetacular para Nunes, nas costas da defesa. O novo dono da 9 chutou forte e correu para o abraço.

A Ponte empatou pouco depois em cabeçada de Serginho. Mas no segundo tempo, sob chuva, Nunes voltaria a se destacar: em ótima jogada individual, passou por vários defensores antes de entregar na medida para o chute de Zico. Carlos nem se mexeu: Fla 2 a 1. O zagueiro Juninho ainda salvaria cabeçada do Galinho em cima da linha e, aos 38, Odirlei tornaria a empatar. Porém, diante de mais de 75 mil torcedores, a estreia de Nunes foi animadora.

O empate fez com que o Flamengo terminasse na segunda colocação do grupo, atrás do Santos. Mas a campanha, a quarta melhor entre todos os 40 clubes da primeira fase, era consistente: cinco vitórias, três empates e apenas uma derrota, 16 gols marcados e sete sofridos. Também se classificaram naquela chave, pela ordem, o surpreendente Botafogo-PB (em terceiro lugar), Internacional, Ponte Preta, Ferroviário do Ceará e Náutico.

E o time se ajeitava: Raul seguia em grande forma no gol; a nova zaga se entrosava; Júnior fazia partidas cada vez mais exuberantes; Zico já despontava como o artilheiro, com 10 gols, ao lado do gremista Baltazar; Tita era deslocado para a direita do ataque, deixando o ponta autêntico Reinaldo no banco; Nunes estreara de maneira empolgante; e Júlio César, o “Uri Geller”, recuperava seu melhor futebol entrando no time no lugar de Carlos Henrique.

Na segunda fase, os 28 clubes classificados da etapa anterior da Taça de Ouro se juntavam aos quatro promovidos da Taça de Prata (América de São José do Rio Preto-SP, Americano, Bangu e Sport) e eram novamente distribuídos em grupos, agora em oito chaves com quatro equipes cada enfrentando-se em turno e returno. Ao fim das seis rodadas, os dois melhores colocados de cada uma delas avançariam para a terceira fase de grupos.

A chave do Flamengo na segunda etapa teria, portanto, o já citado Bangu, vindo da Taça de Prata; o Santa Cruz, quinto colocado no Grupo D; e o Palmeiras, terceiro colocado no Grupo B, criando imediatamente a expectativa para o reencontro entre rubro-negros e alviverdes, apenas quatro meses após o triunfo dos paulistas no Maracanã no fim do ano anterior. Mas essa história será contada na segunda parte do especial, na próxima segunda-feira.

Até lá! SRN!

O adeus a Índio, o valente goleador do segundo tricampeonato carioca

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Décimo maior artilheiro da história do Flamengo, com 144 gols em 218 jogos, e um dos símbolos do time tricampeão carioca dirigido por Fleitas Solich nos anos 1950, o atacante Índio faleceu neste domingo, por ironia quando se comemorou o Dia do Índio, aos 89 anos. O centroavante ágil, valente e ótimo cabeceador também disputou a Copa de 1954 com o Brasil e teve papel importante para a classificação da Seleção nas Eliminatórias para o Mundial seguinte.

Paraibano de Cabedelo, Aluísio Francisco da Luz nasceu em 1º de março de 1931 e veio para o Rio de Janeiro com apenas cinco anos, pouco depois de perder o pai, para morar em Madureira com o irmão mais velho, oficial da Marinha. O interesse pelo futebol foi despertado por volta dos dez anos, nos bate-bolas da escola, e logo transportados para as peladas nos subúrbios da então capital do país. A carreira de jogador, porém, surgiu por iniciativa própria.

Depois de passar por clubes amadores das Zonas Norte e Oeste da cidade, um dia o garoto botou as chuteiras debaixo do braço e seguiu para uma peneira no Aliados, equipe de Bangu que revelava garotos para as categorias de base do clube de mesmo nome do bairro. Ganhou a chance de treinar por meia hora como ponta-esquerda e agradou. No dia seguinte já estava inscrito para disputar o campeonato de juvenis pelo Bangu, onde ficaria até o fim de 1948.

A chegada à Gávea

Enquanto atuava pelas equipes de base do Bangu, Índio mudou-se para a ilha do Governador, onde seguiu jogando peladas pelos fortes times amadores do bairro. Em uma dessas ocasiões, num domingo, o jogo seria assistido por Togo Renan Soares, o Kanela, maior treinador da história do basquete brasileiro e que também tinha tido passagem pelo comando do futebol do Flamengo. Na segunda-feira, Índio era levado para seu primeiro treino na Gávea.

O atacante disputaria as temporadas de 1949 e 1950 pelos juvenis rubro-negros, fazendo uma única partida pela equipe principal. Sua estreia viria em 20 de novembro de 1949, num amistoso contra o Tamoio, de São Gonçalo, no campo do adversário, que terminou empatado em 3 a 3. Índio deixou o dele. Naquele dia, porém, não teve a chance de atuar ao lado de seu grande ídolo, aquele a quem assistia com admiração nos treinos: Zizinho.

“A gente [os juvenis] não chegava perto dele, não. Ficava de longe só olhando. Eu ia para o campo nos treinamentos e ficava observando muito o Zizinho, não é? Como ele jogava… Passei até a imitar ele depois”, relembrou o atacante em depoimento de 2011 ao projeto “Futebol, Memória e Patrimônio”, parceria da Fundação Getúlio Vargas com o Museu do Futebol. Porém, logo o Velho Mestre deixaria a Gávea rumo ao Bangu, numa controvertida transferência.

O Flamengo vivia uma longa e tortuosa fase de transição naquele fim dos anos 1940. A temporada 1950, a da saída de Zizinho, foi traumática: o time terminou o Campeonato Carioca apenas em sétimo lugar, fazendo uma das piores campanhas de sua história. Mas no início do ano seguinte, novos e melhores ventos começaram a soprar pelos lados da Gávea com a eleição do médico Gilberto Cardoso à presidência e a volta do técnico Flávio Costa.

Flávio, que deixara o clube em 1946 para comandar o Vasco, teve como uma das primeiras medidas no retorno ao Flamengo promover Índio dos juvenis. Sua estreia para valer no time de cima viria no Torneio Rio-São Paulo, em 18 de março de 1951, entrando no lugar do atacante Durval durante a vitória rubro-negra sobre o São Paulo por 4 a 2. O primeiro gol sairia três jogos depois, numa goleada de 6 a 3 sobre o Internacional em amistoso no Maracanã.

Com o emérito rubro-negro Ary Barroso.

E a afirmação do jovem atacante viria na primeira excursão do Flamengo à Europa, em maio e junho daquele ano, na qual o Rubro-Negro disputou dez partidas na Suécia, Dinamarca, França e Portugal, vencendo todas. Índio foi titular em todos os jogos e marcou seis gols, voltando ao Brasil já estabelecido como peça importante no elenco, que ganharia reforços como o do meia Rubens, cuja técnica refinada logo o transformaria em ídolo da massa.

O “Doutor Rúbis”, como a torcida o apelidaria, seria o aguardado substituto de Zizinho e estrearia no clássico diante do Vasco pelo primeiro turno do campeonato de 1951. O Flamengo tinha uma escrita a ser quebrada: há seis anos não derrotava os cruzmaltinos, que haviam vencido quase todos os confrontos naquele período. Mas naquele 16 de setembro a história começaria a mudar, graças, em parte, ao novo reforço, mas também a Índio.

Quando Maneca abriu a contagem para o Vasco, logo aos dez minutos, parecia que o tabu permaneceria. Só que, aos 20, Esquerdinha desceu pela ponta e cruzou, Barbosa saiu em falso e o centroavante gaúcho Adãozinho empatou para os rubro-negros. Na etapa final, enfim, a virada se concretizaria: Rubens lançou Índio, que arrancou sozinho no meio da defesa vascaína e tocou na saída do arqueiro para colocar um ponto final no longo jejum.

O Flamengo terminaria aquele campeonato (vencido pelo Fluminense) na quarta colocação. Índio atuaria em 13 dos 20 jogos da equipe, anotando sete gols. Mas em 1952, ele veria ser reduzido seu espaço no time com a contratação do ponta-de-lança paraguaio Jorge Benítez, do Boca Juniors, para formar o centro do quinteto ofensivo rubro-negro com Rubens e Adãozinho. Porém, ao fim daquele ano, o comando do time sofreria mudanças.

Mesmo conquistando o título com seis pontos de vantagem sobre os vice-campeões Fluminense e Flamengo, o Vasco dispensou o técnico Gentil Cardoso e negociou o retorno de Flávio Costa, que tinha contrato com o clube da Gávea até o último dia de 1952. Como o campeonato daquele ano se estendeu até o fim de janeiro de 1953, os rubro-negros precisaram recrutar o ex-jogador Jayme de Almeida, velho ídolo e capitão, para dirigir o time interinamente.

A ascensão no início do tri carioca

Jayme comandaria o Flamengo nas quatro últimas partidas e traria Índio de volta ao time titular. O atacante retribuiu a aposta com gols. Anotou o tento rubro-negro na derrota por 2 a 1 para o America. Depois, fez três na goleada de 6 a 3 sobre o Botafogo. Outra tripleta viria nos 5 a 2 sobre o Bonsucesso. E na derradeira partida, ele marcaria o gol que iniciaria a virada do Flamengo por 3 a 1 sobre o Fluminense, iniciando muito bem um ano que marcaria sua carreira.

O time de 1953: equipe que iniciaria o novo tri.

Índio seguiria balançando as redes em amistosos e torneios no Rio, em outros estados e até no exterior. No fim de março, ainda sob o comando de Jayme de Almeida, o Flamengo levantaria o Torneio Quadrangular de Buenos Aires após empatar com o San Lorenzo (2 a 2) e com o Boca Juniors na Bombonera (1 a 1, gol de Índio), antes de derrotar o Botafogo por 3 a 0 no último jogo. Enquanto isso, o clube acertava com seu novo treinador.

Campeão sul-americano com a seleção de seu país no início daquele ano, o paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich revolucionaria o futebol do Flamengo – e, por tabela, o brasileiro. E Índio também se beneficiaria de sua chegada. Ao dispensar Adãozinho (centroavante manhoso, seis anos mais velho que o garoto paraibano e que havia sido reserva de Ademir de Menezes na Copa de 1950), Solich indicava ter planos para o novo dono da posição.

Índio era um atacante versátil. Podia atuar como centroavante “à húngara” – saindo da área para tabelar ou abrindo espaço na defesa adversária para a entrada de outros homens de frente – ou então como ponta-de-lança de estilo rompedor. Era também muito raçudo, lutava até o último minuto, o que o fez cair nas graças da torcida. Também era bastante rápido e ainda um exímio cabeceador. E além de tudo, era um jogador muito inteligente.

Em suma, era um atacante de perfil ideal para o estilo de futebol veloz, solidário, valente e de muita movimentação pregado pelo treinador, que logo tratou de criar uma jogada mortal no ataque rubro-negro: a inversão de papeis entre Índio e o ponta-direita Joel. O centroavante caía por aquele flanco do campo, puxando a marcação e permitindo o avanço do extrema na diagonal. Bom chutador, Joel marcou muitos gols graças a essa combinação.

No Campeonato Carioca de 1953, Índio entraria no time na quarta rodada, na vitória de 4 a 0 sobre o Bonsucesso, jogo em que Benítez anotou os quatro tentos, alguns deles aproveitando os buracos abertos pelo centroavante na defesa adversária. Daí em diante, o paraibano atuaria em todos os outros jogos, nos três turnos da campanha que levaria os rubro-negros a reconquistarem o título que não venciam desde 1944. Seria o começo do segundo tri.

Formando a linha de frente com Joel, Rubens, Benítez e Esquerdinha, Índio terminaria o certame como o vice-artilheiro da equipe, com 18 gols – atrás apenas do paraguaio, que seria o goleador do campeonato. Muitos desses 18 foram anotados em clássicos e alguns marcantes pela beleza (como o sutil toque de cobertura sobre o goleiro Osni nos 3 a 1 sobre o America, no primeiro turno) ou mais ainda pela grande importância que tiveram na campanha.

Saiu de seus pés o gol que iniciou a reação no duríssimo jogo contra o Olaria na Rua Bariri, vencido por 3 a 1 em virada épica nos minutos finais. Saiu de sua cabeça, numa disputa com Bellini, o tento de empate nos 3 a 3 contra o Vasco pelo returno, após os rubro-negros estarem em desvantagem de dois gols. E saiu de uma testada mortal sua o gol que iniciou a virada diante do Fluminense, valendo a primeira colocação na etapa inicial do certame.

Índio também deixaria o seu no jogo que confirmaria a conquista rubro-negra, uma goleada de 4 a 1 sobre o Vasco no dia 10 de janeiro de 1954. Esquerdinha abriu o escore para o Flamengo e o garoto paraibano fez o segundo, recebendo passe de Benítez e aproveitando falha do zagueiro Haroldo para concluir na pequena área. O time vencia ali o terceiro turno com uma rodada de antecipação e levantava o campeonato sem necessidade de finais.

Do Fla para a Seleção

As qualidades de Índio chamariam a atenção do técnico Zezé Moreira, que o observara de perto como treinador do Fluminense naquele Carioca e que agora assumiria o mesmo cargo na Seleção Brasileira para as Eliminatórias da Copa do Mundo da Suíça. O atacante rubro-negro não chegaria a participar dos jogos classificatórios contra Chile e Paraguai (o dono da posição era o corinthiano Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”), mas entraria em campo nos amistosos.

Após garantir a vaga, a Seleção enfrentou duas vezes o forte time colombiano do Millonarios, que contava com os lendários argentinos Néstor Rossi e Adolfo Pedernera, e venceu ambos os jogos. O primeiro, no Pacaembu, terminou em goleada por 4 a 1. E Índio, que entrara durante a partida no lugar de Baltazar, marcou duas vezes vestindo a nova camisa “canarinho”, a qual o Brasil havia estreado no início daquele ano, e confirmou ali sua presença no Mundial.

Na Seleção em 1954: Índio é o primeiro em pé.

Na Suíça, o Brasil estrearia goleando o México por 5 a 0 e, em seguida, empataria com a Iugoslávia em 1 a 1. Não brilhava, no entanto: era acusada de jogar um futebol “engessado”, rígido demais. Para piorar, cruzaria nas quartas de final em Berna com a melhor equipe do torneio, a Hungria. Foi quando, pretendendo dar mais mobilidade ao ataque brasileiro, Zezé Moreira sacou Baltazar (tido como muito “estático”) do time titular e escalou Índio.

Não foi o bastante para evitar a vitória magiar por 4 a 2, mas o centroavante do Flamengo foi um dos poucos a se salvarem no escrete canarinho: com os europeus já em vantagem de dois gols logo no início do jogo, ele sofreria o pênalti de Buzansky que Djalma Santos converteria para recolocar o Brasil no jogo e perturbaria a defesa húngara com sua movimentação intensa. Mas o time de Zezé Moreira não pôde com a força do adversário.

Após a Copa, Índio voltaria ao Flamengo para mais uma excelente temporada. Na campanha do bicampeonato carioca, ele ficaria de fora de apenas uma das 27 partidas dos rubro-negros e se sagraria o artilheiro da equipe, com 17 gols. A mira andou bem calibrada em especial no início do torneio, quando balançou as redes oito vezes nas primeiras sete partidas – uma delas, a tarde de estreia do garoto Dida, uma vitória por 2 a 1 sobre o Vasco.

E um outro 2 a 1 diante dos cruzmaltinos que confirmaria a conquista, mais uma vez sem necessidade de finais, mais uma vez ao vencer o terceiro turno por antecipação e mais uma vez após a virada do ano, em 12 de fevereiro de 1955, uma semana antes do Carnaval, o que só faria emendar a festa rubro-negra. E mais uma vez, Índio deixaria o dele no jogo decisivo – o gol de empate que precedeu a virada, após Ademir ter colocado o Vasco em vantagem.

A formação que goleou o Fluminense por 6 a 1 em 1955.

No intervalo entre as campanhas do bi e do tricampeonato carioca, Índio se destacou ao lado de Evaristo em duas grandes vitórias de virada do Flamengo, ambas por 3 a 2 e obtidas nos minutos finais. A primeira viria em amistoso no Estádio Centenário de Montevidéu contra o forte Peñarol, que abriu 2 a 0 com gols de Miguez, antes da reação comandada pela dupla de frente rubro-negra. E a segunda, diante do São Paulo no Pacaembu pelo Torneio Rio-São Paulo.

Os últimos momentos em vermelho e preto

Na campanha do tri, o atacante teria participação reduzida em relação às anteriores devido a uma lesão de ligamentos em um dos joelhos, ficando de fora por mais de dois meses. O problema também o tiraria mais tarde da melhor-de-três decisiva contra o America. Ainda assim, atuando em apenas 18 dos 30 jogos do time, anotaria expressivos 11 gols, num momento em que o ataque rubro-negro assistia à afirmação de novos nomes como Paulinho e Dida.

Por vários motivos, o Flamengo não chegaria ao tetra em 1956. Perdeu alguns jogos fáceis por excesso de confiança. Em outros, foi prejudicado pela arbitragem. Mas sobretudo o elenco sentiu o desgaste provocado pela exaustiva campanha do tri: foram inúmeras as perdas por lesão de jogadores fundamentais para a equipe, como o zagueiro Jadir e o médio Dequinha. E mesmo Índio andou afastado por muitos jogos no primeiro turno da competição.

Pouco depois de retornar, porém, o atacante viveu fase espetacular. A começar pelos quatro gols marcados na absurda vitória de 12 a 2 sobre o São Cristóvão, em 27 de outubro, a maior goleada da história do Maracanã. No jogo seguinte, contra o Vasco, anotou um golaço que deu ao Fla uma dramática vitória por 1 a 0 aos 43 minutos da etapa final, chutando de virada, quase um voleio, reacendendo as esperanças da torcida naquela metade de returno.

Nos vestiários, após o jogo, Índio falava à Manchete Esportiva: “Sabem? Joguei mal. Mas prometi que ia botar uma naquele cantinho. Achava que era a coisa mais justa do mundo a gente ganhar e com um gol só, que chegava um. Por isso não há como duvidar do marcador. E tem mais uma: ela entrou direitinho na gaveta da esquerda. Valeu dois pontinhos e é o que interessa”, disse o atacante, autor de um “gol mágico” nas palavras de Nelson Rodrigues.

Encarando os vascaínos Paulinho e Bellini.

Dali até o fim do certame, ele ainda anotaria três contra a Portuguesa, dois contra o Bangu de seu ídolo Zizinho, outros dois contra o Olaria, marcaria o único gol na vitória no Fla-Flu do returno e deixaria outro nas redes do Canto do Rio, passando em branco apenas contra o America e o Botafogo. Seriam 14 gols em nove jogos – desempenho insuficiente, porém, para impedir o fim do sonho do tetra. E o título premiaria a regularidade do Vasco de Martim Francisco.

No entanto, o bom desempenho de Índio naquele Carioca o levaria de volta à Seleção no começo do ano seguinte, quando o novo técnico Oswaldo Brandão levou o atacante ao Campeonato Sul-Americano de 1957, disputado no Peru entre março e abril. Reserva de um ataque que contava com os também rubro-negros Joel e Evaristo, mais Didi, Zizinho e Pepe, o paraibano entrou em quatro dos seis jogos do Brasil, marcando um gol nos 7 a 1 sobre o Equador.

As Eliminatórias de 1957

O título ficaria com os argentinos, mas Brandão seguiria à frente do escrete para as Eliminatórias da Copa do Mundo da Suécia. Com a desistência da Venezuela, o Brasil teria somente o Peru como adversário no Grupo 1, em jogos marcados para Lima no dia 13 de abril e para o Maracanã, na volta, no dia 21. Com a despedida de Zizinho da Seleção, Índio herdaria seu lugar no time titular, voltando a formar dupla de área com Evaristo, seu colega de Flamengo.

Os dois grandes destaques daquela seleção inca fariam carreira no futebol europeu. Um era o ponteiro Juan Seminario, que mais tarde defenderia Sporting de Lisboa, Zaragoza, Fiorentina e Barcelona. Outro era Victor Benítez, zagueiro e volante vigoroso que logo seguiria para o Boca Juniors e, de lá, para a Itália, onde passaria por Milan, Inter, Roma e outros clubes menores. Naqueles duelos de 1957, seria ele o encarregado de marcar Índio.

Com o Estádio Nacional de Lima abarrotado de torcedores empurrando a seleção peruana, o Brasil sofreu com a pressão inicial dos donos da casa, que abriram a contagem em gol de Alberto Terry e foram em vantagem para o intervalo. Na volta, logo aos dois minutos, viria o empate: Bellini cobrou falta no meio-campo com um chutão para a frente. A defesa peruana falhou na rebatida e Índio esticou a perna para encobrir o goleiro Asca.

“Agitado, mas trabalhador. Não deu trégua aos adversários. O ‘goal’ foi um justo prêmio à sua determinação”, avaliou o Jornal dos Sports, dando nota 8 à atuação do centroavante rubro-negro. Seu tento deixou o Brasil dependendo apenas de uma vitória simples no Maracanã para carimbar o passaporte para a Suécia. E ela viria pelo placar mínimo, na histórica falta cobrada por Didi logo aos dez minutos de jogo – e que teve origem numa jogada de Índio.

Na Seleção que derrotou o Peru no Maracanã em 1957.

“Eles [os peruanos] chegaram no Maracanã e jogaram a mesma coisa que jogaram no campo deles. Encurralando a gente lá dentro, não é possível. Aí eu peguei uma bola: ‘Tem que ser agora!’. Parti para cima do Benítez e dei um jogo de corpo nele, não é? Dei um drible nele, mas ele me deu um pontapé, me derrubou, aí foi falta ali, na entrada da área. Eu até peguei a bola para bater, mas o Didi falou assim: ‘Deixa comigo, Pantera’”, relembrou Índio em 2011.

Após seu segundo e derradeiro ciclo na Seleção, Índio voltaria ao Flamengo, pelo qual disputaria cinco partidas válidas pelo Torneio Rio-São Paulo de 1957, balançando as redes duas vezes: uma na goleada de 4 a 1 sobre o Botafogo e outra na vitória de 3 a 2 sobre o Palmeiras. Seriam seus únicos jogos e gols pelo clube naquela temporada. E a partida contra o Alviverde seria também a última de suas 218 em vermelho e preto, com 144 gols marcados.

A carreira pós-Flamengo

Brandão deixou o comando da Seleção após as Eliminatórias, mas não ficou sem o futebol de Índio: retornando ao Corinthians, fez com que o clube pagasse Cr$ 1,5 milhão ao Flamengo pelo atacante no início de julho de 1957, para a irritação de Fleitas Solich. No lugar do paraibano, o “Feiticeiro” efetivaria o jovem centroavante Henrique Frade, outro que entraria para a história rubro-negra como um dos maiores goleadores do clube em todos os tempos.

O agora ex-rubro-negro ficaria por dois anos no Parque São Jorge, deixando o clube paulista em meados de 1959 ao ser negociado com o Espanyol, de Barcelona. Índio se tornaria o primeiro negro a defender a equipe catalã e conquistaria a torcida com seus gols e estilo aguerrido. Após cinco temporadas nos Pericos, ele teria passagens curtas pelo pequeno Sanjoanense, da segunda divisão portuguesa, e pelo America, pendurando as chuteiras em 1965.

Mesmo após deixar os gramados, Índio não se distanciaria do esporte: trabalharia como professor de Educação Física em escolas da Zona Norte e da Baixada Fluminense, em escolinhas de futebol e também em projetos sociais, até se aposentar. Um de seus filhos, Frank, também chegou a ter rápida passagem pelo time profissional do Flamengo durante o Campeonato Brasileiro de 1986, atuando como lateral-direito e usando o mesmo apelido do pai.

Em 2013, num evento na Gávea, Índio reencontraria velhos companheiros do tri, como Paulinho, Evaristo e Zagallo e ainda protagonizaria momento emocionante ao rever o amigo Esquerdinha, um dos veteranos daquele esquadrão, e que faleceria pouco tempo depois. Neste domingo, foi a vez de se despedir do maior goleador daquele tricampeonato histórico, o velho Índio arisco e raçudo, que faleceu de causas ainda desconhecidas.

Índio foi homenageado pelo clube em 2013.

Jadir, 90 anos: O vigoroso “tanque” da defesa rubro-negra no segundo Tri carioca

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Símbolo de vigor e valentia na defesa do Flamengo ao longo dos anos 1950, Jadir completaria 90 anos nesta quinta-feira. O jogador chegou à Gávea como médio defensivo e transformou-se no quarto-zagueiro que seria um dos pilares da retaguarda do lendário time tricampeão carioca em 1953-54-55 sob o comando do paraguaio Fleitas Solich. Sua tenacidade o fez superar duas graves lesões para marcar seu nome entre os dez jogadores que mais vestiram o Manto Sagrado na história, com 498 partidas em exatamente uma década de clube.

O COMEÇO EM SÃO PAULO

Paulistano nascido e criado no bairro do Jaçanã, Jadir Egídio de Souza teve a bola – de meia que fosse – como companheira desde criança. Mesmo quando começou a trabalhar na adolescência, exercendo os mais variados ofícios (foi tecelão, gráfico, feirante, mecânico, pintor e marceneiro), arrumava um jeito de atuar pelos times de empresas das quais foi funcionário, como os Diários Associados. Até que surgiu a chance da carreira de jogador profissional.

Como “medo de dar vexame”, como ele mesmo se lembrou em entrevista, Jadir recusou proposta para um teste no antigo São Paulo Railway, o SPR (atual Nacional, da capital paulista), mas seguiu se destacando na várzea, chegando a ser convocado para a seleção paulista de amadores. Logo chegaram convites para testes no Juventus e no São Paulo. Por essa época, ele já trocara a ponta-esquerda dos tempos de garoto pela posição de centromédio, atual volante.

Até que uma nova proposta – esta, sim, irrecusável – deu o pontapé inicial definitivo na carreira de jogador profissional. Os dirigentes do Atlético Brasil Clube, um pequeno clube da cidade de Paraguaçu Paulista, queriam contratá-lo oferecendo, além do salário de Cr$ 4 mil, um emprego na Prefeitura da cidade e uma casa para morar. Numa coincidência do destino, o Atlético Brasil tinha como uniforme camisas rubro-negras idênticas à do Flamengo.

Preparando-se para mais um jogo no vestiário do Maracanã.

Mesmo paulistano, Jadir era admirador confesso do Flamengo e em especial de um velho ídolo e capitão rubro-negro, o médio-esquerdo Jayme de Almeida. Já em Paraguaçu, ele conheceria em seu primeiro clube profissional um certo Antônio Mendes, cujo irmão tinha ligações na Gávea. Até que um dia, ele receberia um telegrama de Mendes: o clube carioca procurava um médio para o lugar do veterano Bria, cuja aposentadoria já se aproximava.

UMA NOVA HISTÓRIA EM VERMELHO E PRETO

Era fim do ano de 1951 quando Jadir tomou uma condução para a então capital do país e bateu à porta do Flamengo. Levado à concentração rubro-negra, foi apresentado ao técnico Flávio Costa e aguardou sua chance. Depois de impressionar num treino com os juvenis, acabou contratado e escalado num time misto rubro-negro que disputaria o Torneio Municipal, competição de certo prestígio na década anterior, mas agora prestes a ser descartada.

Nesta equipe que mesclava reservas com juvenis, ele chegou a jogar com alguns futuros colegas do time de cima rubro-negro, como Índio e Zagallo. O Fla chegaria à decisão daquela que seria a última edição do torneio, mas cairia para o America por 1 a 0, com o gol saindo já numa segunda prorrogação, após 133 minutos de bola rolando. Em seguida, seria disputado o Torneio Início, outra competição tradicional do futebol brasileiro até os anos 60.

Disputado todo em um dia, o torneio reunia os clubes do Campeonato Carioca jogando partidas de 30 minutos, com o desempate vindo em séries de pênaltis. Naquela altura, muitos clubes já utilizavam equipes mistas para o certame, como fez o Fla, que aproveitou quase todo o time do Torneio Municipal, incluindo alguns outros nomes, entre os quais o do lateral-esquerdo Jordan, que se tornaria grande parceiro de Jadir na equipe principal.

No Maracanã, Flamengo bateu o Oriente (clube que disputava o campeonato do Departamento Autônomo, espécie de segundona do Carioca na época) e o Botafogo por 2 a 0, decidindo o título com o Vasco naquela tarde de 10 de agosto de 1952. E os rubro-negros venceriam por 1 a 0, gol de Jadir, levantando o bicampeonato do torneio, o qual conquistavam pela quinta vez na história. Para o novato paulistano, as portas do time principal se abriam.

Recém-chegado ao Flamengo, em foto da revista O Cruzeiro.

Naquele tempo, o esquema tático predominante no futebol carioca ainda era o WM, criado pelos ingleses no fim dos anos 20 e aqui adaptado por Flávio Costa na chamada “diagonal”. Era, em números, uma espécie de 3-2-2-3, com três zagueiros (dois laterais e um central), dois médios (de função semelhante aos volantes atuais), dois meias armadores e três atacantes (dois pontas e um centroavante). Os dois médios do Flamengo eram Bria e Dequinha.

O potiguar Dequinha era jovem (23 anos), chegara à Gávea há pouco mais de dois anos, e era tido como um nome para os próximos anos na equipe. O paraguaio Bria, por outro lado, já tinha seus 30 anos, idade em que então um jogador de futebol entrava no ocaso da carreira. O veterano atuara nos três primeiros jogos do Flamengo no Carioca, mas estava nitidamente fora de forma. Foi quando Flávio Costa decidiu sacá-lo do time para a entrada de Jadir.

O novato estrearia no clássico diante do Botafogo, em 13 de setembro, e seria um dos destaques na vitória por 3 a 2 ao tornar o time rubro-negro mais robusto na marcação. Jadir então seguiria entre os titulares até o fim do campeonato, no qual o Flamengo terminaria empatado na segunda colocação com o Fluminense. E seria apontado como uma grata revelação da temporada, num Flamengo que se reformulava sob o comando de Flávio Costa.

O PRIMEIRO GRANDE TÍTULO, A PRIMEIRA SÉRIA LESÃO

O treinador, porém, deixaria a Gávea na virada do ano, seguindo para o Vasco, repetindo o que havia feito em 1947. Após uma passagem de Jayme de Almeida, ídolo de garoto de Jadir, pelo comando do time interinamente, o presidente Gilberto Cardoso viajou até Buenos Aires, para acertar com o paraguaio Manuel Fleitas Solich, que vinha de levar a seleção de seu país a um inédito título do Campeonato Sul-Americano, atual Copa América.

Jadir seria mantido na equipe com Solich, que começaria a implementar novidades táticas no time. Uma delas envolvia o posicionamento do paulistano, que passou de vez a fazer a função de zagueiro – um quarto­-zagueiro – ao lado do central Pavão, no 4-2-4 introduzido pelo técnico paraguaio na Gávea. Porém, essa novidade só seria notada quando Jadir teve de deixar o time, após fraturar a perna numa dividida com o reserva Cido, num treino em setembro.

Jadir e a perna fraturada que o tirou do campeonato de 1953.

A grave lesão tiraria Jadir do resto da temporada. Para o seu lugar, Solich mandou buscar Servílio, zagueiro do XV de Jaú, evidenciando que o Flamengo havia deixado de lado o WM. Antes de ficar de fora, porém, Jadir já deixara sua grande contribuição na campanha do título carioca de 1953, marcando com um chute de longe, aos 40 minutos da etapa final, o único gol da suada vitória sobre uma retrancada Portuguesa dirigida por Zoulo Rabelo no Maracanã.

Recuperado da fratura, o quarto-zagueiro voltaria ao time em fevereiro de 1954, em tempo de viajar para sua primeira excursão internacional pelo clube. O Flamengo que rodou pela Europa entre abril e maio não teve três de seus craques – Dequinha, Rubens e Índio –, convocados para a Seleção para a Copa do Mundo da Suíça. Jadir teve então a chance de voltar a jogar de centromédio e ostentar a braçadeira de capitão por algumas partidas.

UM TANQUE NA DEFESA RUBRO-NEGRA

Uma delas foi o empate em 2 a 2 com o combinado Milan-Internazionale no San Siro. Naquela excursão, o time ainda goleou o Kinizsi (nome de então do Ferencvaros) por 5 a 0 em Budapeste e o Werder Bremen por 4 a 1 na Alemanha Ocidental. Ao retornar, com Jadir de novo dono da quarta-zaga, o clube começou a caminhada para o bi estadual, garantido com uma rodada de antecedência ao bater o Vasco por 2 a 1, já em 12 de fevereiro de 1955.

Embora não tenha participado do jogo do título, Jadir foi titular indiscutível durante a campanha, atuando em 22 das 27 partidas. Seu estilo de jogo sério, implacável na marcação, mas leal e com ótimo senso de cobertura, tornavam-no um duro obstáculo para os atacantes. E, apesar de medir apenas 1,75 metro (sete centímetros mais baixo que Servílio, com quem disputava posição), era forte no jogo aéreo graças à ótima impulsão e preservava a boa mobilidade.

Aquele foi o campeonato que consagrou a chamada “linha média” formada por Jadir, Dequinha e Jordan, que na verdade já atuava junta desde 1952 e, na prática, não constituía exatamente uma linha – Jadir era zagueiro, Dequinha era volante e Jordan, o lateral-esquerdo. Mas naquele tempo os jornais ainda publicavam as escalações dos times armados no velho esquema 2-3-5, sem acompanhar nas fichas técnicas a evolução tática do jogo por aqui.

A lendária “linha média”, com Dequinha e Jordan.

De qualquer forma, o termo já era difundido, fazendo com que as “linhas médias” mais famosas do país fossem recitadas pelos torcedores e eternizadas na história do futebol brasileiro. No caso do trio rubro-negro, ele serviu até mesmo para apelidar o Monumento aos Pracinhas, construído no Aterro da Glória na década de 1950. O soldado, o marinheiro e o aviador esculpidos em pedra eram chamados popularmente de “Jadir, Dequinha e Jordan”.

Jadir também foi nome certo na defesa rubro-negra no tri, atuando em 28 das 30 partidas. Das duas que ficou de fora, uma delas, no entanto, seria a terceira da melhor de três decisiva contra o America, por uma opção surpreendente de Fleitas Solich. O Flamengo havia vencido o primeiro jogo por 1 a 0 com gol de Evaristo no último minuto e perdido a segunda por espantosos 5 a 1. O treinador paraguaio resolveu mexer no time para o jogo de 4 de abril de 1956.

O TRI E A MÁGOA

Para deter o ataque aéreo americano com o grandalhão Leônidas “da Selva”, Solich preferiu escalar Servílio no lugar do quarto-zagueiro titular. Além disso, o treinador também mexeu no ataque, tirando Paulinho, o artilheiro do campeonato, para escalar o garoto Dida, que acabaria fazendo os quatro gols na vitória rubro-negra por 4 a 1. Conta-se que Jadir teria chorado ao saber que havia sido sacado da equipe na concentração rubro-negra.

O certo é que a mágoa perdurou, como revelou o jogador à Manchete Esportiva pouco mais de um ano após a partida: “Fiquei desapontado quando ‘seu’ Solich bateu-me à porta do quarto, horas antes de enfrentarmos o America, e disse-me frontalmente: ‘Jadir, hoje você não vai jogar. Escalei Servílio. Não que eu esteja desconfiado de qualquer coisa, são planos táticos que o afastam da peleja decisiva’. Aquilo para mim foi um jato de água fria”, revelou.

Uma das formações do time do tri, em 1955.

No jogo de entrega das faixas do tri – um amistoso com o Internacional no Maracanã vencido pelos rubro-negros também por 4 a 1 – Jadir já estava de volta ao time. E seguiria nele para o certame de 1956. Neste, porém, ele sofreria sua segunda lesão grave na perna direita, rompendo os ligamentos do joelho no empate em 1 a 1 com o Vasco no primeiro turno. O Fla, que já jogava com Dequinha fazendo número em campo, acabou o jogo com nove.

Jadir faria apenas seis partidas naquele torneio. Seria, assim como Dequinha em várias ocasiões, uma das baixas importantes que se uniram ao conjunto de fatores pelos quais o Fla não levantou o tetra. O zagueiro voltaria aos gramados no fim de março de 1957. E aquela temporada, se não voltaria a trazer o título carioca ao clube, seria recompensadora para o jogador por demonstrar enfim o reconhecimento nacional às suas qualidades.

NA VOLTA POR CIMA, A VEZ NA SELEÇÃO

Um dos destaques do Flamengo na boa campanha rubro-negra no Torneio Rio-São Paulo daquele ano, Jadir enfrentaria pela primeira vez um jogador que mais tarde o apontaria como seu melhor marcador: Pelé, que fez sua estreia no Maracanã justamente contra o Flamengo, numa goleada do time carioca por 4 a 0, em 5 de maio. Embora o menino santista de apenas 16 anos tenha sido elogiado pela imprensa, o beque do Fla esteve soberano em campo.

Escalado ao lado do inexperiente e improvisado Milton Copolilo, Jadir jogou por ele e pelo colega. “Havia sempre Jadir para pôr em ordem a retaguarda, oferecendo cobertura aos companheiros, principalmente ao próprio Milton Copolilo quando abandonava a área”, escreveu Aparício Pires ao avaliar os jogadores para a coluna “Os generais da batalha”, na Última Hora. Sua atuação mereceu do jornal a nota 8, a maior do jogo. Na Manchete Esportiva, levou 9.

A plena recuperação física e técnica exibida por ele durante o Rio-São Paulo valeria a lembrança da Seleção Brasileira. Em junho, quando Sylvio Pirillo foi apontado como técnico do escrete no lugar de Osvaldo Brandão, Jadir estava entre os nomes convocados para o par de amistosos que o Brasil faria contra Portugal (um no Maracanã e outro no Pacaembu) e, no mês seguinte, voltaria a ser chamado para os confrontos contra a Argentina válidos pela Copa Roca.

Com a Seleção no Pacaembu em 1957, o sexto a partir da esquerda.

Jadir foi titular nas quatro partidas, sempre ao lado de Bellini, e teve bom desempenho. O Brasil venceu os lusos por 2 a 1 no Maracanã e 3 a 0 no Pacaembu. Contra os argentinos, a derrota por 2 a 1 no Rio (na estreia de Pelé com a camisa canarinho, entrando durante o jogo) foi compensada com a vitória por 2 a 0 em São Paulo na volta. Com os triunfos alternados, a partida seguiu para a prorrogação, e o 0 a 0 manteve a posse da taça com o Brasil.

Com cartaz de jogador de Seleção, ele seguiria intocável na zaga rubro-negra no Carioca de 1957. E voltaria a balançar as redes numa difícil vitória sobre o Olaria por 2 a 1 na Gávea, na tarde de 13 de outubro. Lesionado durante o jogo, Jadir fazia número, mancando, na ponta-esquerda. Até que a nove minutos do fim, com o placar em 1 a 1, Dida chutou forte e o goleiro Válter espalmou. No rebote, o zagueiro apareceu para empurrar na raça a bola para o fundo do gol.

O Flamengo chegou a liderar o Carioca por várias rodadas. Mas o acúmulo de empates na reta final o deixou, no fim das contas, atrás de Botafogo (campeão) e Fluminense (vice). Mesmo assim, e apesar das constantes trocas de comando na Seleção e até mesmo na CBD (João Havelange assumiria a presidência da entidade em janeiro de 1958 no lugar de Sylvio Pacheco), Jadir seguia como candidato sério a figurar entre os convocados para o Mundial da Suécia.

Prova disso foi sua inclusão na primeira lista de Vicente Feola – o novo selecionador, alçado ao cargo em março daquele ano – para as partidas contra o Paraguai pela Taça Oswaldo Cruz e os amistosos contra a Bulgária no Maracanã e Pacaembu. Eram cinco os nomes de miolo de defesa na convocação: Bellini e Mauro eram os chamados “beques centrais”, enquanto Zózimo, Jadir e o novato Orlando eram os escolhidos para a posição de quarto-zagueiro.

O zagueiro rubro-negro atuaria na última partida daquelas quatro, a vitória por 3 a 1 sobre a Bulgária no Pacaembu, no dia 18 de maio, e fez ótima partida, sendo um dos destaques do time brasileiro. Preciso na cobertura e na destruição de jogadas e iniciando bem as jogadas ofensivas a partir da defesa, fez inclusive a recuperação de bola e o passe que deu origem à jogada do gol da virada do Brasil, marcado por Pelé aos 15 minutos do segundo tempo.

Pelo Flamengo, enfrentando o Brasil de Pelé.

Uma semana antes, curiosamente, Jadir havia sido liberado para defender o Flamengo na etapa inicial de um jogo-treino contra a própria Seleção no Maracanã. Mesmo muito desfalcados, os rubro-negros venceram por 1 a 0, gol do atacante Manoelzinho. A liberação, no entanto, era um prenúncio de que ele seria um dos cortados na relação divulgada no dia seguinte à vitória sobre a Bulgária da qual participara. Zózimo e Orlando viajariam em seu lugar.

Comenta-se que sua dispensa não teria sido motivada por eventuais más atuações, que não chegaram a ocorrer. Mas sim por motivos táticos, que envolviam posicionamento. Orlando, que fazia dupla de zaga com Bellini no Vasco, tinha mais facilidade de atuar pelo lado esquerdo, ao passo que o rubro-negro atuava mais do lado direito, com Pavão, seu companheiro de miolo de defesa, um pouco mais recuado. Foi o que o tirou do Mundial.

O próprio Jadir, no entanto, não se queixara do corte, atribuindo-o a motivos físicos: uma lesão no joelho direito, sofrida na partida contra o Corinthians, a derradeira do Flamengo pelo Torneio Rio-São Paulo daquele ano, havia prejudicado sua forma e, portanto, em sua opinião, a escolha por Zózimo e Orlando era justa. E logo ele retornaria ao clube, juntando-se à delegação rubro-negra que excursionava pela Europa naquele momento.

AS CONQUISTAS DERRADEIRAS

Afastando o ataque dos peruanos do Universitario em Lima, 1959.

Em suas últimas temporadas no clube, ele também levantaria títulos importantes. Já em fevereiro de 1959, ele seria um esteio da defesa rubro-negra que levantou a Gran Serie Suramericana Inter Clubs, torneio também conhecido como Hexagonal de Lima e que contou ainda com River Plate, Peñarol, Colo Colo e os peruanos Alianza e Universitario. A conquista aconteceu em plena sexta-feira de Carnaval e garantiu aos torcedores um motivo a mais para festejar.

No início de 1961, ele também participaria das duas primeiras partidas da campanha do título do Torneio Octogonal de Verão, no qual o Flamengo enfrentou Corinthians, São Paulo, Vasco, River Plate, Boca Juniors e os uruguaios Nacional e Cerro. E ainda ostentaria a braçadeira de capitão herdada de Dequinha ao longo de outra campanha vitoriosa, a do Torneio Rio-São Paulo, naquela que seria sua última conquista vestindo as cores rubro-negras.

Logo depois de vencer o torneio interestadual, ele seria chamado pela última vez para a Seleção Brasileira, num amistoso contra o Paraguai no Maracanã em 29 de junho de 1961. Num time formado basicamente por jogadores de Flamengo e Palmeiras, ele teria como companheiros os rubro-negros Joel, Henrique, Dida e Babá e jogaria o primeiro tempo, sendo substituído no intervalo pelo beque palmeirense Aldemar. O Brasil venceria por 3 a 2.

Com o jovem Carlinhos, sucessor de Dequinha, e o velho amigo Jordan.

Pelo Flamengo, suas últimas partidas viriam na excursão europeia empreendida pelo clube em meados de 1962 e encerrada precocemente para o zagueiro, que retornou ao Brasil antes do esperado para tratar de uma lesão no joelho. Insatisfeito com o ambiente no clube, que desde janeiro daquele ano tinha Flávio Costa no cargo de técnico do time no lugar de Solich, Jadir pediu para ser negociado, encerrando sua trajetória de dez anos na Gávea.

Durante os meses de julho e agosto, vários possíveis destinos foram levantados, tanto de grandes clubes, quando de equipes do interior – algo que agradava a Jadir, já com 32 anos e desejando uma aposentadoria tranquila. Até que no início de setembro, sua transferência para o Cruzeiro acabou acertada. Com a voz embargada, Jadir se despediu dos antigos companheiros e da imprensa e embarcou num voo para Belo Horizonte.

Sua passagem pelo clube mineiro, porém, foi relâmpago: durou sete dias e um jogo. Assim que ele viajou a Belo Horizonte para se apresentar, começaram a ser ventilados rumores de que a transferência seria apenas um trampolim para sua contratação pelo Botafogo, o que afinal se concretizaria dali a uma semana. No Alvinegro, ele disputaria os três últimos jogos da campanha do título carioca daquele ano, deixando o clube na temporada seguinte.

Jadir ainda passaria por Fluminense-BA e Bragantino, antes de pendurar as chuteiras. Em seguida, tentaria sem sucesso a carreira de técnico e participaria de jogos de veteranos em São Paulo, onde voltara a morar. Até que um derrame cerebral sofrido na tarde de 23 de novembro de 1977 tirou-lhe a vida aos 47 anos de idade. Dos tempos de jogador, a única recordação que exibia em casa era uma foto vestido com o uniforme de seu querido Flamengo.

Os 20 anos da Copa Mercosul, título em que o Fla superou limitações e enterrou traumas

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Como nas antigas sagas épicas da literatura, o Flamengo teve de enfrentar inúmeras provações e vencer seus próprios fantasmas ao longo de toda a trajetória até a conquista da Copa Mercosul de 1999, sacramentada há exatos 20 anos. Classificações improváveis, batalhas campais, crises internas, rivais que evocavam lembranças dolorosas, a perda não menos traumática de seu grande craque. Houve de tudo naquela campanha.

Um gol arrepiante do atacante Lê diante do Palmeiras em pleno Parque Antártica, que comoveu uma geração inteira de rubro-negros, encerrou todo o sofrimento. Matou o enésimo dragão que cruzou o time de Carlinhos. Trouxe mais um importante troféu internacional para a galeria do Flamengo. Fez a gente rubro-negra, que andava tão sofrida naquele fim de 1999, ter um Natal muito melhor do que o que se desenhava semanas antes.

O TORNEIO

Em 1997, a Conmebol encerrou a história da Supercopa dos Campeões da Libertadores, torneio criado em 1988 reunindo todos os campeões da principal competição do continente, e no lugar desta decidiu instituir dois novos campeonatos: as Copas Mercosul (envolvendo os países do bloco econômico de mesmo nome) e Merconorte (incluindo equipes de países mais ao norte da América do Sul, além de eventualmente das Américas do Norte e Central).

Se no torneio extinto a premissa para se estabelecer os participantes era bem simples (bastava ter vencido a principal competição do continente), para a Copa Mercosul os critérios eram mais subjetivos, levando em conta tradição, conquistas e torcida. No fundo, o objetivo era mesmo criar uma Superliga do Cone Sul. E para isso havia ainda o generoso aporte financeiro da televisão, angariado por meio da empresa de marketing esportivo Traffic.

Ao todo, 20 clubes de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai foram convidados para disputar a competição. Os brasileiros eram sete: Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio (que chegou a ser substituído pelo Atlético-MG na edição de 2000) Palmeiras, São Paulo e Vasco. Na primeira fase, as equipes eram divididas em cinco grupos de quatro equipes, com os campeões de cada chave mais os três melhores segundos colocados avançando às quartas de final.

O Flamengo havia feito campanha discreta na primeira edição, embora tenha chegado à última rodada com chances de classificação. Uma derrota por 3 a 0 para o Boca Juniors na Bombonera, no entanto, eliminou a equipe então dirigida por Evaristo de Macedo. Diferentemente do ano tumultuado de 1998, o time rubro-negro chegava para a edição seguinte embalado pelo título carioca que iniciaria um tri, sempre em cima do favorito Vasco.

Romário era o astro da companhia no elenco dirigido pelo velho Carlinhos “Violino”, que mesclava pratas da casa – que então tinham como nomes mais badalados o zagueiro Luís Alberto e o lateral esquerdo Athirson – com nomes mais rodados – o goleiro Clemer, o lateral Pimentel, o zagueiro Célio Silva, o volante Leandro Ávila, o meia Beto e os atacantes Leandro Machado e Caio. Não chegava a ser um timaço, mas demonstrava organização e sobretudo raça.

Sorteado em um grupo razoavelmente mais acessível que o da edição anterior (em vez de Boca Juniors, Vélez Sarsfield e Cerro Porteño, os adversários agora seriam Olimpia e a dupla chilena Colo Colo e Universidad de Chile), o Flamengo apostava em chegar longe no torneio, de olho na gorda premiação que poderia chegar aos US$ 5 milhões em caso de título. E o pontapé inicial da campanha viria diante do Olimpia no Maracanã no dia 27 de julho.

NO BOM INÍCIO, UMA GOLEADA NO CHILE

A conquista do Estadual foi seguida por uma pausa no calendário nacional para a disputa da Copa América no Paraguai. Na volta, depois de um mês sem jogar, o Fla entrara em campo duas vezes: derrotara o Grêmio por 1 a 0 no jogo das faixas de campeão carioca e a Ponte Preta pela mesma contagem na estreia no Campeonato Brasileiro. A atuação diante do time campineiro não havia sido boa, mas, na base da conversa, Carlinhos afiou o time.

No primeiro tempo contra os paraguaios, o Fla abriu 2 a 0 com dois gols de Romário. No primeiro, aproveitando ótimo lançamento de Rodrigo Mendes e tocando por cima do goleiro Tavarelli. E no segundo, escorando de cabeça o cruzamento do lateral Marco Antônio. Na etapa final, o Olimpia descontou num pênalti de Fabão em Fretes que Avalos converteu, mas sem conseguir atrapalhar a estreia rubro-negra com o pé direito na competição.

Uma semana depois, o time voltaria a campo pelo torneio em sua primeira partida fora de casa, diante do Colo Colo no Estádio Monumental de Santiago, e conquistaria uma vitória categórica. No primeiro tempo, Rodrigo Mendes estufou as redes duas vezes em dois chutaços de fora da área aos 11 e aos 41 minutos. Entre um e outro, aos 21, Romário recebeu do volante Jorginho e limpou a marcação antes de tocar no canto do goleiro Arbiza.

Na etapa final, aos 36 minutos, mais um golaço encerraria a contagem. A jogada começou com Leandro Ávila, que passou a Fábio Baiano. O meia tabelou com o zagueiro Fabão e soltou um sem-pulo espetacular sem chances para Arbiza, decretando a goleada de 4 a 0 que confirmava o ótimo início da equipe no torneio, disparando na liderança com seis pontos, contra três de Colo Colo e Olimpia, que se enfrentariam na rodada seguinte.

A partida de Santiago marcou também a estreia de Leandro Ávila naquela edição. Contratado por empréstimo de um ano ao Fluminense em meados de 1998, o volante chegara a ficar nove meses sem jogar após chegar à Gávea por problemas físicos. Voltou na semana da decisão do Estadual e teve atuação monstruosa nos dois jogos contra o Vasco. Mas havia ficado de fora contra o Olimpia devido a uma divergência com o Flu sobre sua aquisição definitiva.

Entre a partida contra o Colo Colo e a seguinte pela Mercosul, também em Santiago diante da Universidade de Chile, o Fla engrenara no Brasileiro: vencera o Inter no Beira Rio, o Coritiba no Maracanã e o Sport na Ilha do Retiro, chegando às primeiras posições no torneio nacional e se candidatando a uma das oito vagas na etapa seguinte. Na competição sul-americana, a passagem às quartas também estaria bem próxima em caso de nova vitória no Chile.

O time fez um bom primeiro tempo diante da Universidad: Romário perdeu chance clara de abrir o placar finalizando para fora, da marca do pênalti, no último minuto. Na etapa final, dois erros bisonhos da defesa castigaram os rubro-negros. Uma espanada de Célio Silva levou ao cruzamento de Valencia para a cabeçada de Guzmán. E uma rebatida malfeita de Luís Alberto na entrada da área proporcionou a finalização de Rey no canto de Clemer.

O time ainda perderia Romário, expulso por reclamação aos 35 minutos do segundo tempo. Era o terceiro cartão vermelho recebido por um jogador do Fla no torneio, depois de Leonardo Inácio contra o Olimpia e Fabão contra o Colo Colo terem deixado o campo mais cedo. O desfalque abriria um lugar para Caio ao lado de Leandro Machado no ataque rubro-negro. Enquanto Beto, às voltas com lesões, dava lugar a Leonardo Inácio no meio.

A PRIMEIRA CRISE BATE À PORTA

O time oscilou um pouco no Brasileiro antes da viagem a Assunção para enfrentar o Olimpia: perdeu de virada para o Grêmio no Maracanã (4 a 3), mas compensou com uma vitória histórica sobre o Corinthians – então 100% no campeonato – dentro do Pacaembu por 2 a 1 e uma goleada sobre o Botafogo de Ribeirão Preto por 4 a 1 no interior paulista. O voo para a capital paraguaia também foi turbulento: o avião balançou na chegada com os fortes ventos.

Em campo, o Fla chegou a nutrir esperanças de um bom resultado para encaminhar a classificação quando Leonardo Inácio pegou a sobra de uma bola mal afastada defesa e tocou para as redes aos 14 minutos. Mas o Olimpia viraria ainda no primeiro tempo com Esteche (após um chutão do goleiro e uma finta seca em Fabão) e Franco (numa cabeçada fraca e no meio do gol que Clemer aceitou numa falha clamorosa). E as coisas piorariam na etapa final.

Logo aos dois minutos, Luís Alberto parou uma ofensiva de Avalos com o braço, o adversário simulou uma cotovelada e provocou a expulsão do zagueiro rubro-negro. E aos 15, seria a vez de Athirson levar o vermelho após uma entrada forte. O time ainda teve chance de empatar numa penetração de Leandro Machado, mas o árbitro marcou impedimento inexistente. No fim, Yegros driblou Rodrigo Mendes perto da linha de fundo e marcou o terceiro.

A derrota complicou a vida do Flamengo na chave, em especial após Colo Colo e Olimpia pontuarem nos jogos seguintes, relegando os rubro-negros à terceira posição. Entre a derrota em Assunção e o jogo contra o Cacique no Maracanã, o atacante Caio protagonizou as manchetes, primeiro ao ter que jogar de goleiro após a expulsão de Clemer no empate com o Gama (1 a 1) em Brasília e depois ao anotar o gol da vitória sobre o São Paulo, seu ex-clube.

Com isso, ele ganharia um voto de confiança de Carlinhos, seguindo no ataque titular mesmo com a volta de Romário após suspensão – Leandro Machado foi para o banco – para pegar o Colo Colo. E não decepcionaria, abrindo o placar aproveitando a bola solta pelo goleiro Arbiza num lance que começou com passe de letra de Romário. No fim do primeiro tempo, o lateral Marco Antônio tabelou com Rodrigo Mendes e chutou de fora da área para ampliar.

Na etapa final, o Fla perdeu inúmeras chances de matar o jogo: Caio parou primeiro em Arbiza e depois viu sua cabeçada passar raspando no travessão, enquanto Romário desperdiçou duas chances cara a cara com o goleiro ao tentar tocar por cobertura. E o time acabaria castigado por um Colo Colo que voltou mais ofensivo e aproveitou falhas na defesa rubro-negra, chegando ao empate com gols de Muñoz e Vergara aos 34 e 38 minutos.

“Quem viu o jogo custou a acreditar que o Flamengo não tivesse vencido o seu jogo mais fácil dos últimos tempos”, encerrava a crônica da partida feita pelo Jornal do Brasil. O fato é que os dois pontos jogados fora diante dos chilenos no Maracanã colocaram os rubro-negros – terceiros colocados no Grupo E com sete pontos – dependendo de um verdadeiro milagre para tentar a classificação às quartas de final da Copa Mercosul.

UM MASSACRE INESQUECÍVEL

O Flamengo não podia sequer cogitar um empate. Na verdade, para não depender de nenhum resultado nas outras partidas da rodada, o time precisava de uma goleada por pelo menos quatro tentos de diferença diante da eliminada Universidad de Chile no Maracanã. Uma vitória mais modesta obrigaria a torcer pelo empate entre Olimpia e Colo Colo ou por um tropeço do Boca Juniors, um dos concorrentes às vagas de segundo colocado.

Para tentar o milagre, Carlinhos lançou um time bastante alterado em relação ao que empatara com o Colo Colo duas semanas antes. Robson substituía Clemer no gol, Maurinho ganhava uma chance na lateral-direita, o jovem Juan tomava o lugar de Fabão na zaga, e o volante Marcelo Rosa era sacado para uma formação mais ofensiva: apenas Leandro Ávila na contenção com Fábio Baiano e Beto armando para o trio de frente: Caio, Romário e Leandro Machado.

Mais solto, o time deslanchou e desandou a marcar. Os necessários quatro gols de diferença vieram ainda no primeiro tempo: Caio abriu o placar aproveitando rebote do goleiro, Romário ampliou depois de driblar toda a defesa chilena e o terceiro saiu num lance curioso, em que Fábio Baiano aproveitou a saída desastrada do goleiro Vargas e cruzou para o chute de Caio. A bola bateu na barriga de Romário, que ajeitou e fuzilou na pequena área.

O quarto gol, o emblemático da classificação, saiu chorado. Leandro Ávila recuperou a bola no meio-campo e entregou a Beto, que lançou. A defesa chilena afastou mal e Leandro Machado passou de cabeça a Fábio Baiano. O meia chutou forte e cruzado, Vargas defendeu, mas deu rebote. Leandro Machado correu, chegou antes da defesa e deu um leve toque. A bola, porém, parecia sair pela linha de fundo. Até Romário surgir para cutucar e guardar.

No segundo tempo, o Fla seguiria avassalador. Logo aos dois minutos, Marco Antônio ganharia a disputa por um rebote na intermediária e chutaria de fora da área para marcar o quinto, contando com desvio na defesa chilena. Aos 10, Romário marcaria o sexto com um chute seco após ótimo passe de Caio. Seria seu tento de número 200 pelo clube. E já no fim, aos 41, Maurinho cruzou da direita e Rodrigo Mendes chutou forte para fechar o massacre.

Ironicamente, enquanto embalava no torneio continental, o Fla via sua campanha no Brasileiro se esvair numa sequência desastrosa. Após golear o Vitória no Maracanã (5 a 2) na partida seguinte ao empate com o Colo Colo, o time somou apenas um ponto nos próximos seis jogos e despencou na tabela. Só voltaria a vencer um mês depois do triunfo sobre os baianos, batendo a Portuguesa por 3 a 2 no Canindé, às vésperas das quartas da Mercosul.

DESTRONANDO O ‘REY DE COPAS’

O adversário seria o Independiente, algoz rubro-negro na decisão da Supercopa de 1995. Embora o Flamengo tivesse dado o troco eliminando o Rey de Copas na mesma competição logo no ano seguinte, a lembrança da perda daquele título – que poderia ter oferecido um alento ao trágico ano do centenário rubro-negro – ainda doía e foi inevitavelmente evocada às portas do novo confronto. Mas desta vez, o desfecho seria bem diferente do de quatro anos antes.

Os dois jogos seriam disputados numa mesma semana. Na partida de ida, numa noite de terça-feira em Avellaneda, o Fla arrancaria um resultado heroico. O time perdeu Beto e Reinaldo expulsos, um em cada tempo, mas conseguiu abrir o placar aos 15 da etapa final com Fábio Baiano aproveitando passe de Romário. O time da casa ainda empatou numa cabeçada de Calderón aos 32, mas Clemer – com ótima atuação durante todo o jogo – evitou a virada.

Romário conclamou a torcida para a partida de volta, disputada numa sexta-feira, e o clube fez promoção de ingressos de olho naquele jogo e no confronto contra o Santos pelo Brasileiro no domingo. Assim, naquela noite chuvosa de 5 de novembro, um público de 36.257 pagantes – o segundo maior do Flamengo no Maracanã naquele semestre até ali – testemunhou uma grande goleada sobre o Rey de Copas e a classificação às semifinais da Mercosul.

E ela foi encaminhada num período de oito minutos da primeira etapa. Aos 16, Athirson cruzou da esquerda para a cabeçada inapelável de Leandro Machado. Aos 20, Fábio Baiano soltou uma bomba da intermediária que surpreendeu o goleiro Pontiroli. E aos 24, Leandro Machado escorou um lançamento longo e serviu Romário, que ganhou na corrida do zagueiro Pena e, da entrada da área, fuzilou o arqueiro argentino para ampliar a vantagem.

Na etapa final, o quarto gol viria aos 11 minutos, quando Romário recuperou uma cobrança de escanteio e entregou de calcanhar para Marcelo Rosa na ponta direita. O volante cruzou para a cabeçada de Leandro Machado, que aproveitou a furada da zaga argentina para marcar seu segundo tento na partida. O centroavante que ainda não havia balançado as redes na competição acabaria se tornando o artilheiro da partida.

UMA CERTA NOITE NA SERRA GAÚCHA

O gol de Romário contra o Independiente seria seu penúltimo pelo Flamengo. O derradeiro viria dali a cinco dias, em Caxias do Sul, na derrota por 3 a 1 para o Juventude pela última rodada da primeira fase do Brasileiro. Após o revés, que decretou a eliminação no torneio nacional, o elenco ficaria alguns dias na cidade da serra gaúcha para fugir da revolta da torcida e se preparar para pegar o Internacional no Beira Rio em jogo pela seletiva da Libertadores.

Mas na noite de quinta-feira, um dia após a derrota, Romário e outros quatro jogadores sumiram da concentração e foram flagrados numa noitada por jornais locais. A repercussão, dentro e fora do clube, foi péssima. Maurinho e Marcelo Rosa receberam punições leves. Leandro Machado e Fábio Baiano, por serem reincidentes, foram afastados, mas logo acabariam reintegrados. A maior parte da conta ficou para o Baixinho, que teve contrato rescindido.

“Estou revoltado pela traição. Enquanto 35 milhões de flamenguistas choravam, eles foram comemorar a desclassificação numa boate. E foi o Romário quem convidou. Pensou que podia me peitar, mas não sou refém de ninguém”, vociferou o presidente rubro-negro Edmundo Santos Silva. Nos dias que se seguiram, o time caía para o Internacional na seletiva com duas exibições pálidas: derrota por 1 a 0 em Porto Alegre e empate em 1 a 1 no Maracanã.

E foi nesse baixo astral completo que o Flamengo chegou para a semifinal da Copa Mercosul. Do outro lado, para piorar, havia um adversário que evocava outros traumas mais antigos: o Peñarol, algoz rubro-negro na semifinal da Libertadores de 1982, quando impediu o bicampeonato do torneio vencendo o esquadrão de Zico por 1 a 0 em pleno Maracanã. Era a primeira vez que os dois clubes se reencontravam numa competição sul-americana desde então.

Naquele fim dos anos 90, o futebol uruguaio já não vivia um grande momento, mas o Peñarol fez valer sua tradição e alcançou as semifinais da competição após deixar para trás o rival Nacional, o Vasco e o Cerro Porteño na fase de grupos e o Olimpia nas quartas de final. Era, porém, um time cuja referência técnica se resumia ao veterano meia Pablo Bengoechea. De resto, era uma equipe apenas lutadora e não raro até mesmo violenta.

NA BOLA, DESPACHANDO O PEÑAROL

Diante disso, não seria surpresa que o volante De Souza cometesse duas entradas duras quase em sequência aos 22 minutos de jogo e recebesse o cartão amarelo pela primeira delas e o vermelho pela segunda. Com um a mais, o Fla deslanchou. Quatro minutos depois, o time abriria o placar num pênalti sofrido e convertido por Leandro Machado. E antes do intervalo a vantagem seria ampliada graças a um dos jogadores mais criticados da equipe.

Aos 44, uma cobrança curta de escanteio chegou a Athirson, que alçou para a área. Leandro Machado desviou de cabeça e Maurinho – que discutira com um torcedor num treino na Granja Comary durante a semana e era alvo de cartazes ofensivos e vaias naquela noite no Maracanã – encheu o pé num chute cruzado que venceu pela segunda vez o goleiro Flores. O time, porém, voltou acomodado para a etapa final, e Carlinhos tratou de mexer no ataque.

Caio entrou no lugar de Iranildo e obrigou Flores a trabalhar: primeiro o goleiro deteve em cima da linha uma finalização à queima-roupa do atacante. Depois, evitou um toque de cobertura com uma defesa em dois tempos. Mais tarde, Reinaldo substituiu Leandro Machado. E outro garoto da base, Lê, foi a campo no posto de Rodrigo Mendes. Seria ele o autor do terceiro gol, aos 36 minutos, com um chute forte na saída de Flores, após passe de Caio.

O time ainda criou chances para golear, como a cabeçada de Caio que acertou o pé da trave e o chute de Reinaldo salvo pela zaga quase em cima da linha. Mas a vitória categórica serviu para reconquistar a torcida e acender a esperança de um fim de ano menos doloroso. Porém, algumas batalhas ainda esperavam para serem enfrentadas. A primeira delas, o jogo da volta diante dos carboneros no estádio Centenário, em Montevidéu.

O Fla entrou em campo para defender a vantagem e conseguiu manter o empate sem gols por quase todo o primeiro tempo, o que irritou os uruguaios. Porém, nos acréscimos, Bengoechea cobrou falta com perfeição e abriu a contagem para o Peñarol. Na volta do intervalo, o Fla reagiu: Leandro Machado viu seu chute forte parar em Flores, e Leonardo Inácio assistiu à sua cobrança de falta acertar o travessão (e Marcelo Rosa perder a chance no rebote).

Mas o Fla chegaria ao empate aos 25 minutos: Reinaldo foi lançado em velocidade pela esquerda, entrou na área e foi derrubado por Cafu. Pênalti que Athirson converteu sem chances para Flores. Reinaldo seria também o artífice da virada rubro-negra. Em outro contra-ataque em velocidade, ele arrancou e disparou um petardo da intermediária que surpreendeu um adiantado Flores. Era o primeiro tento do atacante como profissional.

Com uma vantagem de quatro gols no agregado, a vaga na final se aproximava do Flamengo. Mas antes, o Peñarol ainda tentaria uma reação: aos 33 minutos, García recebeu na entrada da área, girou e bateu para empatar. E já nos acréscimos, o árbitro inventaria um pênalti de Maurinho em Darío Rodríguez que Bengoechea converteria para dar a vitória aos carboneros, mas sem impedir a classificação rubro-negra. E um papelão dos uruguaios ao apito final.

Eliminados na bola de maneira inapelável, os jogadores do Peñarol quiseram “redimir sua honra“ no braço e partiram para cima dos rubro-negros com socos e pontapés, numa batalha campal apenas assistida de longe pela polícia local e que seguiu até o túnel de entrada dos times. Enquanto a delegação do Fla era obrigada a se refugiar nos vestiários, torcedores do clube eram agredidos por uruguaios nas arquibancadas.

A selvageria não ficou barata ao Peñarol: dez jogadores foram suspensos pela Confederação Sul-Americana em ganchos que variavam de três a dez partidas. A entidade também multou o clube em US$ 10 mil, mas apenas advertiu a Associação Uruguaia de Futebol sobre o comportamento de seus jogadores. Mais tarde, veio à tona que Bengoechea fora flagrado com níveis excessivos de cafeína no exame antidoping feito após o jogo e analisado em Montevidéu.

O ÚLTIMO OBSTÁCULO

Não bastasse ter escalado uma montanha de quatro gols de diferença para avançar na fase de grupos, chutado para longe as tristes lembranças da Supercopa de 1995 e da Libertadores de 1982 e superado a ausência do grande astro do time, afastado em contexto constrangedor, o Flamengo ainda tinha outros fantasmas pela frente na decisão. A começar pelo rival, o Palmeiras, responsável por uma ferida muito mais recente que as outras e ainda aberta.

Este trauma vinha do primeiro semestre, quando as duas equipes se enfrentaram pelas quartas de final da Copa do Brasil. O Fla havia vencido por 2 a 1 no Maracanã e, de virada, repetia o placar no Parque Antártica, mesmo após a lesão de Romário, substituído no segundo tempo. Porém, o Palmeiras empatou num chute de longe de Júnior e passou à frente aos 42 minutos num gol de Euller após escanteio. Foi quando tudo passou a valer na área rubro-negra.

Logo no minuto seguinte, o time da casa conseguiu outro escanteio. Após a cobrança, Euller deslocou Clemer, impedindo a saída do goleiro. Evair pegou o rebote e chutou. A bola bateu na canela do zagueiro palmeirense Agnaldo, quicou e subiu. Oséas, em posição irregular (só tinha um adversário sobre a linha, já que Clemer estava fora do gol), disputou a bola de cabeça e ela sobrou para o próprio Euller, que anotou o gol da classificação alviverde.

O árbitro goiano Antônio Pereira da Silva poderia escolher qual infração marcar, se a falta ou o impedimento. Mas, pressionado pela torcida da casa, validou o gol. A revolta guardada era tanta entre os rubro-negros que até mesmo o sempre discreto e comedido técnico Carlinhos fez questão de lembrar daquela noite fatídica às vésperas do novo confronto decisivo: “Teremos a chance de dar o troco, desde, é claro, que seja escalado um bom juiz”.

Somado a esse trauma, havia ainda o fato de que o time (e o elenco) palmeirense era muito mais forte que o do Flamengo. O clube paulistano ainda desfrutava do farto aporte financeiro da multinacional de laticínios Parmalat e contava com um esquadrão luxuoso, que incluía nomes de Seleção em todos os setores – como os ex-rubro-negros Júnior Baiano, Zinho e Paulo Nunes – e que vencera naquele mesmo ano a Taça Libertadores da América.

No comando daquele timaço estava Luiz Felipe Scolari, nome que despertava reações entre os rubro-negros desde quando treinava o Grêmio e mandava seu carniceiro volante Dinho distribuir pontapés em Sávio. E se os palmeirenses ainda lamentavam a perda do Mundial Interclubes para o Manchester United no fim de novembro, viam agora na chance do bi da Copa Mercosul (a qual levantaram em 1998) a oportunidade de fechar o ano numa nota alta.

O Flamengo, por outro lado, era qualquer coisa menos um esquadrão, sobretudo agora sem Romário. Mesclava garotos recém-puxados da base, jogadores trazidos a baixo custo de clubes pequenos, alguns refugos e veteranos, além de promessas que não vingaram. Tinha alguns bons valores do ponto de vista técnico. Mas a organização e o espírito de luta ainda eram suas maiores características. No cara a cara, era nitidamente inferior ao Palmeiras.

Essa boa organização da equipe era fruto do eternamente subestimado trabalho de Carlinhos. Subestimado até dentro do clube na época: mesmo com o time prestes a decidir um título continental que poderia encerrar um jejum de 18 anos, os dirigentes não faziam nenhuma questão de esconder que negociavam o retorno de Paulo César Carpegiani (então no São Paulo) à Gávea para assumir o posto do “Violino” na próxima temporada.

No dia 16 de dezembro, as duas equipes entravam em campo no Maracanã para o primeiro jogo de uma decisão que poderia ter duas ou três partidas. Com o Maracanã parcialmente interditado, as notícias da véspera do confronto davam conta de que os 50 mil ingressos colocados à venda haviam se esgotado rapidamente. Porém, o público pagante divulgado durante o jogo foi bem abaixo dessa marca: apenas 13. 414 torcedores.

Disposto a sair na frente do duelo e jogar pelo empate na partida de volta, marcada para dali a quatro dias em São Paulo, o Flamengo alinhou Clemer no gol, Célio Silva e Juan na zaga, Maurinho e Athirson nas laterais, Leandro Ávila, Marcelo Rosa, Iranildo e Leonardo Inácio no meio-campo e Reinaldo e Leandro Machado na frente. Rodrigo Mendes e Caio iniciaram como opções de banco e entraram durante o jogo. E o segundo seria fundamental na vitória.

O Palmeiras, por sua vez, escalou Marcos no gol, Arce, Júnior Baiano, Galeano e Júnior na defesa, César Sampaio, Rogério, Alex e Zinho no meio e Paulo Nunes e Oséas na frente. Euller, o algoz da Copa do Brasil, era arma para o segundo tempo. Mas quem comemorou primeiro foi a torcida rubro-negra: logo aos cinco minutos, Iranildo bateu escanteio da direita, Maurinho escorou para a área e o garoto Juan apareceu na corrida e cabeceou para as redes.

No último minuto da etapa inicial, porém, o Palmeiras empatou quando Arce bateu falta para a área, Clemer saiu em falso e Júnior Baiano, do bico da pequena área, ajeitou e chutou de perna esquerda. E aos 23 minutos do segundo tempo, o time paulista ficou em vantagem no marcador: após escanteio, a bola foi escorada para frente, e o colombiano Asprilla se antecipou a Clemer e cabeceou. A bola ainda tocou no travessão e quicou dentro do gol.

De repente, vários gols começaram a ser marcados quase em sequência. Aos 25, Caio testou firme um cruzamento de Leandro Machado e empatou. Aos 27, Paulo Nunes recebeu de Asprilla por trás da defesa rubro-negra e fez 3 a 2 Palmeiras. Na saída de bola, Caio recebeu na entrada da área e bateu rasteiro, no canto de Marcos, tornando a igualar. O jogo só seria definido aos 38, quando Reinaldo escorou de cabeça cruzamento de Athirson e deu a vitória ao Fla.

Na noite de segunda-feira, 20 de dezembro, um Parque Antártica lotado aguardava de novo o Flamengo, que tinha Caio no lugar de Iranildo. Precisando vencer para forçar o terceiro jogo, ali mesmo em seu estádio três dias depois, o Palmeiras também vinha mais ofensivo, com Euller e Asprilla nos lugares de Rogério e Oséas. Animado pela torcida, o Alviverde saiu em vantagem aos 19 minutos: Leandro Machado fez pênalti em Júnior e Arce converteu.

Ainda no primeiro tempo, Asprilla acertou uma cotovelada em Athirson, ignorada pelo árbitro Luciano Almeida e por seu auxiliar, que estava bem perto do lance. Mesmo assim, aos poucos o time rubro-negro foi se recobrando e esteve perto de empatar pouco antes do intervalo. Na volta para a etapa final, a igualdade enfim viria: Rodrigo Mendes foi lançado nas costas da defesa, mas Marcos chegou antes. No rebote, Caio tocou para as redes.

Mais disposto, o Fla ainda chegou à virada aos 11. Rodrigo Mendes puxou contra-ataque e cruzou. Júnior Baiano cortou, mas a bola voltou para o próprio Rodrigo, que encheu o pé de fora da área, vencendo Marcos. A tranquilidade não durou um minuto. Na saída, houve uma falta para o time da casa perto do bico da grande área. Arce bateu e Clemer tentou segurar, mas acabou caindo com a bola dentro do gol. O momento já virava de novo em favor do Palmeiras.

Quando, aos 21 minutos, Zinho levantou a bola na área, a defesa do Flamengo parou e Paulo Nunes não teve dificuldade para cabecear e colocar o Palmeiras de novo na frente, parecia que a história se repetiria. O Fla havia lutado bravamente no campo do adversário, chegado a estar na frente no marcador, mas de novo sucumbiria à pressão. À enorme frustração rubro-negra provavelmente se seguiria uma vitória fácil do time paulista no terceiro jogo.

Mas – felizmente, nesse caso – o futebol é caprichoso. Quando não se esperava mais qualquer reação concreta do Flamengo, embora o time tivesse chegado a criar algumas chances, Iranildo recebeu uma bola no meio-campo, livrou-se do marcador, e Lê deu sequência à jogada esticando um passe para Reinaldo. O centroavante devolveu de calcanhar. De repente, o garoto de 20 anos da base rubro-negra estava frente a frente com Marcos.

Eram 38 minutos do segundo tempo. Lê fazia ali seu quinto jogo pela Mercosul, sendo que em todos saíra do banco – naquela noite, entrara no lugar de Marcelo Rosa. Outrora artilheiro do time de juniores, havia queimado algumas chances no time de cima por deslumbramento, mas fora resgatado pelo velho Carlinhos. Agora, tinha a bola do jogo e do título. Naquele clarão que se abriu na defesa palmeirense, ele tocou rasteiro, no canto, para as redes.

Na comemoração, o garoto levou as mãos ao rosto e chorou. Junto com Lê, naquela noite, choraram muitos milhões de rubro-negros. Um choro incrédulo, pelo herói improvável, mas sobretudo catártico, de alívio. Um choro de quem superava provações. Um choro de quem se via liberto de traumas. Um choro de um Flamengo que estava muito vivo, sim, senhor. E que era de novo campeão continental. Ainda hoje, 20 anos depois, é impossível não se arrepiar.

Os 80 anos do título carioca de 1939: a primeira conquista de um novo Flamengo

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Os campeões perfilados. Da esquerda para a direita: o técnico Flávio Costa, Yustrich, Valido, Newton Canegal, Domingos da Guia, Volante, Artigas, Médio, González, Leônidas da Silva, Jarbas e Sá.

Teve goleada sobre rival, fim de jejum e volta olímpica ostentando as faixas de campeão antes da bola rolar. No dia 3 de dezembro de 1939, o Flamengo comemorava em grande estilo a conquista de seu sétimo Campeonato Carioca com um 4 a 0 sobre o Vasco no estádio de Laranjeiras. Foi um dia festivo: o título mesmo já havia sido assegurado por antecipação uma semana antes e sem entrar em campo. Mas aquela taça teria uma simbologia muito maior, em meio a uma era crucial de transição na história rubro-negra.

UM PERÍODO DE GRANDES MUDANÇAS

O Flamengo não vencia o Campeonato Carioca há 12 anos quando começou a disputar o torneio de 1939. Era então – e continuaria a ser até hoje – maior jejum da história rubro-negra. Era, por outro lado, depois de todo aquele longo período, um outro clube. O time campeão de 1927 ainda era amador, jogava no campo da Rua Paissandu e teve o atacante Nonô como nome decisivo na reta final daquela conquista marcante, já relembrada aqui.

Bem no meio desse período entre 1927 e 1939, houve um ponto de virada que mudaria de maneira profunda a história do clube: a chegada do empresário e publicitário José Bastos Padilha à presidência em 3 de fevereiro de 1933, data em que foi eleito e empossado. Quinze dias antes, uma reunião do Conselho Deliberativo do clube havia rechaçado a adesão rubro-negra ao regime profissional em vias de ser implantado no futebol carioca.

Mas as coisas tomariam outro rumo sob a influência do novo mandatário, certo de que o novo regime significava o futuro do esporte no país e de que o Flamengo corria o risco de ficar para trás caso não aderisse a ele. Numa nova reunião em 19 de maio, o clube mudou de ideia, deixando pouco depois a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), amadora, para se filiar à nova Liga Carioca de Football (LCF), profissional.

No começo daquele ano, o Flamengo também havia ficado temporariamente sem casa. O velho campo da Rua Paissandu, em terreno arrendado da família Guinle, e que também abrigava uma das sedes do clube, havia sido devolvido aos donos no dia 1º de janeiro, logo após a disputa do Campeonato Carioca de 1932, depois que o clube não conseguiu reunir a quantia pedida pelos proprietários para a compra do terreno.

Daquela data até 1938, o Flamengo perambularia por vários estádios da cidade emprestados por outros clubes para mandar seus jogos, principalmente os de Laranjeiras e Campos Sales. Mas havia um importante trunfo a ser viabilizado: em março de 1926, o então presidente rubro-negro Faustino Esposel havia assinado um contrato com a prefeitura do Rio de Janeiro para a cessão de um terreno às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.

O estádio da Gávea em foto de 1938: nova casa rubro-negra.

A cessão por aforamento perpétuo foi oficializada em decreto em novembro de 1931, mas desde então, o Flamengo não havia mexido em um grão daquele “areal de fim de mundo”, como o local era tratado com desdém por muitos dos sócios. Coube a Padilha, em dezembro de 1933, pagar uma taxa à administração municipal para movimentar o início das obras, que incluíam levantar um muro ao redor do terreno, obrigação que constava no decreto.

Em agosto de 1936, era lançada a pedra fundamental do estádio da Gávea, cuja história completa contamos neste post. E pouco mais de dois anos depois, em setembro de 1938, a nova casa rubro-negra era oficialmente inaugurada. Na ocasião, o presidente rubro-negro já era o português Raul Dias Gonçalves – Padilha renunciara no fim de 1937, durante seu terceiro mandato, para dar mais atenção à família e aos negócios, mas indicara o sucessor.

O Flamengo também não contava mais com nenhum dos campeões de 1927 em seu elenco. Mas o médio Flávio, popularmente conhecido como “Alicate”, era agora o treinador do time e ganhava o direito de ser chamado por nome e sobrenome: Flávio Costa. Nonô, o artilheiro que voltara ao time na reta final para ser herói na última conquista, já tinha então virado saudade, vitimado precocemente pela tuberculose em julho de 1931, aos 32 anos.

E dentro de campo, o Flamengo também havia passado por mudanças radicais no período entre 1927 e 1939. Pouco depois da chegada de Bastos Padilha à presidência, o clube fez suas primeiras partidas fora do país, no Estádio Centenário de Montevidéu, contra os poderosos Peñarol (o qual venceu por 3 a 2 na estreia) e Nacional. A mesma ocasião também valeu por enfim abrir as portas do time aos jogadores negros em caráter definitivo.

Ainda que Friedenreich já houvesse vestido o manto por um dia em 1917, que o já citado ídolo Nonô tivesse nítidos traços afrodescendentes e que negros como José Augusto Santos Silva e Waldemar Gonçalves já integrassem com destaque desde os anos 20 as equipes de atletismo e basquete, respectivamente, o time de futebol do Flamengo ainda era até então quase exclusivamente branco, o que não condizia com o espírito aberto às ruas do clube, com a realidade do futebol de então e até com a própria cidade.

Em abril de 1933, sob o pretexto de reforçar seu elenco com atletas cedidos por outros clubes para a excursão ao Prata (prática comum na época), o Flamengo foi buscar jogadores como os pontas Roberto (São Bento, de Niterói) e Jarbas (Carioca), o meia Ladislau da Guia (Bangu) e o atacante Gradim (Bonsucesso), todos negros. Os dois primeiros seriam contratados em definitivo logo após chegarem da viagem, e o terceiro voltaria de vez ao clube mais tarde.

Logo viriam outros, como os gaúchos Pedroso (Brasil de Pelotas) e Barbosa e o médio Otto (Carioca). Mas o ano crucial seria 1936, quando aportou no clube uma trinca de atletas negros de grande prestígio no futebol do Rio: o zagueiro Domingos da Guia, o médio Fausto dos Santos e o atacante Leônidas da Silva. Na mesma época, Ladislau da Guia, irmão de Domingos, voltou ao Flamengo, que também trouxe seu irmão mais novo Mamédio, o Médio.

Leônidas, Fausto e Domingos (da esquerda para a direita): a afirmação da presença negra no clube.

A vinda de Leônidas foi motor de outra revolução no clube. Era um jogador bastante popular desde que, como atleta do Bonsucesso, havia sido destaque da Seleção Brasileira na conquista histórica da Copa Rio Branco de 1932 em cima dos uruguaios campeões mundiais dentro de Montevidéu. Depois, além de defender brevemente o Peñarol, tivera passagens discretas pelo Vasco e pelo Botafogo, embora levantasse títulos.

No clube de General Severiano, Leônidas fora particularmente humilhado. Além de sofrer com o racismo de alguns dirigentes, foi afastado do time por seis meses quando pediu para ser vendido. Quando o Flamengo apareceu interessado, o Botafogo pediu um valor ridículo, irrisório por seu passe. E o fez esperar por várias horas debaixo de sol, do lado de fora da casa do presidente do clube, Paulo Azeredo, para obter sua rescisão de contrato.

Tanto para o Flamengo quanto para Leônidas, foi um ótimo negócio. Leônidas queria ser amado. E o Flamengo, disposto a amá-lo, contava agora com um ídolo popular, que o catapultaria de vez ao status de clube de massa. O Rubro-Negro – dos corsos, das festas na rua, no meio do povo, para comemorar suas vitórias e títulos – já era um clube muito querido. Mas não era o bastante. O desejo era se tornar incontestavelmente o Mais Querido.

Vale lembrar que na época ainda não havia como saber qual era a maior torcida do Rio (muito menos do Brasil) diante da completa ausência de pesquisas confiáveis para tal – o que havia então eram concursos de popularidade promovidos por jornais e em geral atrelados a algum produto comercial, caso da famosa Taça Salutaris, oferecida pela empresa distribuidora de água mineral de mesmo nome e conquistada pelo Flamengo em janeiro de 1928.

Porém, após sua brilhante participação com a Seleção na Copa do Mundo de 1938, na França, quando se sagrou o artilheiro da competição e assombrou os europeus, Leônidas era disparado o jogador mais popular do país. E, juntamente com as potentes ondas da Rádio Nacional, que naquela década começava a transmitir os jogos dos times cariocas para todo o Brasil, ajudou a amplificar consideravelmente a popularidade do Flamengo.

Outra transformação vinda na esteira da adoção do regime profissional era a contratação em massa de jogadores estrangeiros, especialmente argentinos, não só no Flamengo como nos demais clubes do Rio. No Rubro-Negro, eles começaram a chegar em 1937. Da leva inicial, apenas o meia argentino Agustín Valido, ex-Lanús, permanecia no elenco da temporada 1939, junto com outros quatro compatriotas, incluindo um nome de Copa do Mundo.

Ponta-esquerda rápido e preciso nos cruzamentos, Raimundo Orsi fez história no Independiente e na Juventus e defendeu as seleções da Argentina e da Itália. Nesta última foi campeão mundial em 1934, inclusive marcando gol na final diante da Tchecoslováquia. Em março de 1939, já com 37 anos, aportou no Flamengo após passagens rápidas por Boca Juniors e Platense. Não chegou, porém, a brilhar: atuou apenas duas vezes no campeonato.

Melhor desempenho tiveram o centromédio Carlos Volante e o meia-esquerda Alfredo González, ambos titulares indiscutíveis da equipe. Volante, que viraria referência da posição a ponto de ela mais tarde receber seu nome, havia atuado na Argentina, Itália e França antes de chegar à Gávea. González, ex-Boca Juniors, conseguiu suplantar Leônidas e se sagrar o artilheiro rubro-negro na campanha, com 13 gols. Já o centroavante Arturo Naón não deu certo.

A DISPUTA COMEÇA

O Campeonato Carioca de 1939 começaria em abril e seria disputado por nove clubes em três turnos corridos – as equipes jogavam uma vez em casa, uma vez fora e outra em campo neutro. Tricampeão, o Fluminense era apontado como o grande favorito ao lado do Flamengo, mas Vasco, Botafogo e America, os outros grandes da época, corriam por fora. Dos demais, São Cristóvão e Madureira, que vinham de boas campanhas, prometiam surpreender.

O Madureira, adversário da estreia em seu antigo alçapão da Rua Domingos Lopes, tinha uma equipe consideravelmente forte. Três anos antes, decidira o título do campeonato da antiga Federação Metropolitana de Desportos (FMD) com o Vasco, e daquele time ainda permaneciam nomes como os zagueiros Norival e Cachimbo e o ponta-direita Adílson, acompanhados agora por jovens talentos como os meias Lelé e Jair Rosa Pinto.

Para completar, na semana anterior o Tricolor Suburbano havia conquistado o Torneio Início, indicando que poderia atrapalhar a vida dos grandes. Porém, mesmo sem contar com Leônidas, o Flamengo não se intimidou e já foi para o intervalo vencendo por 2 a 1, gols de Valido e González (de pênalti). Na etapa final, ampliou a contagem com outro de Valido e dois de Caxambu, o substituto do Diamante Negro, chegando à goleada de 5 a 1.

Mesmo com o bom resultado da estreia, Flávio Costa alterou o time do Flamengo para o jogo contra o Botafogo, trazendo de volta o goleiro Walter no lugar de Yustrich, os médios Hermínio de Britto e Volante nos postos de Natal e Jocelyno, e com Leônidas fazendo seu primeiro jogo naquela campanha atuando na meia-direita, com Valido deixando o time. Além da rivalidade de sempre, o jogo registraria também uma visita ilustre.

Arquibancadas da Gávea lotadas para Flamengo 4×1 Botafogo. Entre os torcedores estava o presidente da Fifa, Jules Rimet.

O francês Jules Rimet, presidente da Fifa e criador da Copa do Mundo, estava de passagem pelo Brasil e foi ao estádio da Gávea para ver a partida, de olho especialmente em Leônidas, eleito o craque do Mundial disputado na França no ano anterior. O Botafogo, por sua vez, queria tirar a forra das duas derrotas impostas pelo Fla no Carioca de 1938: 5 a 0 dentro de General Severiano e 2 a 0 no novo estádio rubro-negro. Ficaram na vontade.

De início, os alvinegros tentaram bloquear o ataque do Flamengo com uma defesa “cerrada”. Mas o primeiro gol saiu logo aos oito minutos, quando Leônidas cobrou falta sofrida por ele próprio e estufou as redes de Aymoré. Cumprindo excelente atuação, o ponta-esquerda Jarbas anotou o segundo, aproveitando um recuo mal feito da zaga do Botafogo. Quando o time visitante perdeu de vez seu médio Martim por lesão, não pôde mais se segurar.

Na etapa final, o Fla chegou ao terceiro gol com González, antes de o Botafogo – que quase não ameaçou a meta de Walter durante a partida – descontar com Patesko. Mas ainda houve tempo para ser decretada a goleada rubro-negra: a três minutos do fim, Jarbas passou pelo zagueiro Bibi e cruzou rasteiro para o ponta-direita Sá emendar de canhota para as redes, arrematando mais uma grande vitória naquele início de campeonato.

O grande obstáculo ao título rubro-negro, e que já havia atrapalhado em anos anteriores, era, segundo a imprensa, a própria irregularidade das atuações da equipe, capaz de fazer partidas arrasadoras num dia e desastrosas em outro. E o primeiro turno seria um retrato disso: depois de chegar à terceira goleada aplicando 5 a 1 no São Cristóvão em Figueira de Melo, o Fla foi batido por 4 a 0 pelo Bangu na Gávea, num jogo que terminou em pancadaria.

Depois, no primeiro Fla-Flu do campeonato, com o estádio de Laranjeiras lotado, renda recorde e muitos torcedores tendo de receber atendimento médico por insolação devido ao forte calor, o time rubro-negro foi para o intervalo perdendo por 2 a 0 dos tricolores, mas reagiu depois que Valido entrou no lugar de Caxambu (com Leônidas passando ao comando do ataque) para anotar os dois gols que levaram o Flamengo ao empate.

Porém, o time ainda viveria de oscilações no campeonato. Na partida seguinte, mesmo sem Leônidas, o time aplicaria uma surra de 7 a 1 sobre o America, a maior da história do confronto. Vale lembrar que naquela década os rubros haviam levantado dois títulos cariocas. Mas naquele 28 de maio na Gávea, caíram sem apelação com três gols de Caxambu, dois de Valido, um de Sá e um de Jarbas, com Hortêncio descontando para o clube tijucano.

Jogadores do Fla saúdam a torcida após a vitória sobre o Botafogo.

Depois do massacre sobre o America, o time voltaria a decepcionar, perdendo para o Vasco por 2 a 0 na Gávea. O turno seria encerrado com uma vitória tranquila sobre o Bonsucesso em Teixeira de Castro por 5 a 1, com mais dois gols de Caxambu, dois de Sá e um de González. Assim, o Fla terminava o primeiro terço do campeonato como líder ao lado do Vasco, um ponto à frente de Botafogo e São Cristóvão e dois à frente do Fluminense.

Ausente por lesão nos três últimos jogos do turno, Leônidas ainda foi baixa nos quatro primeiros do returno, somando dois meses e meio de ausência. Com Caxambu ainda em seu lugar, o time voltou a fazer 5 a 1 no Madureira, agora na Gávea. Nos outros três jogos, entrou o argentino Naon, que não aprovou: o Fla levou o troco do Botafogo em General Severiano (5 a 1), empatou com o São Cristóvão (2 a 2) e venceu apertado o Bangu na Rua Ferrer (2 a 1).

Curiosamente, a volta do Diamante Negro se daria contra o mesmo adversário o qual ele havia enfrentado da última vez, o Fluminense. A partida disputada no campo neutro de São Januário foi um grande evento: pelo lado tricolor, também marcava o retorno do atacante Russo. E Gagliano Netto, a voz do rádio esportivo mais popular da época, também voltava à Rádio Mayrink Veiga comandando a transmissão. E o jogo bateu o recorde de renda do certame.

E o próprio Leônidas se encarregaria de abrir o placar, cobrando pênalti de Orozimbo em Valido aos 22 minutos de partida. Na etapa final, o Flamengo ampliou aos 17 minutos, quando Jarbas bateu escanteio e González subiu mais que a defesa tricolor para cabecear para as redes de Batatais. O Fluminense ainda descontaria perto do fim do jogo com um chute forte de Romeu, mas não foi o suficiente para impedir a vitória rubro-negra.

LEÔNIDAS E A BICICLETA

Duas semanas depois, o Flamengo voltaria a vencer o America, desta vez no estádio adversário de Campos Sales. Jarbas, o “Flecha Negra”, marcou os dois na vitória por 2 a 1. E no dia 3 de setembro, o time voltaria a São Januário para a revanche contra o Vasco. Logo no início do jogo, os cruzmaltinos perderam o zagueiro Jaú, atingido por uma bolada na barriga ao tentar deter um chute forte de Jarbas, e tiveram de recuar o médio Figliola para a defesa.

Mesmo assim, o Flamengo já era superior na partida e não demorou a abrir a contagem: Jarbas passou por Orlando e fez ótimo passe para Leônidas, que ajeitou e finalizou sem chances para o goleiro Nascimento. Na volta para o segundo tempo, o Vasco ainda resistiu por cerca de 25 minutos à pressão rubro-negra, evitando o aumento do placar. Mas não resistiu a Leônidas, que voltou a fazer das suas, acertando uma bicicleta espetacular.

Mas a pressão dos rubro-negros conseguiu naquella altura concretizar-se com o goal mais espetacular da tarde. Um centro de Jarbas lançou a confusão na área vascaína. De costas para o goal, Leônidas saltou com o corpo quasi horizontalmente ao sólo, e “puxou” a pelota para dentro das rêdes. Um goal notável, pelo malabarismo da sua conquista, e que abateu definitivamente o quadro da camisa negra”, escreveu a revista O Globo Sportivo.

Depois desta pintura, o Flamengo ainda teve tempo para anotar o terceiro, a quatro minutos do fim: o ponteiro Sá entregou a González, que, da meia-direita, acertou um chute cruzado indefensável, fechando o placar num inquestionável 3 a 0. Ao fim da partida, os jogadores das duas equipes – que recentemente haviam excursionado em conjunto a Buenos Aires – cumprimentaram-se e confraternizaram-se.

Leônidas balança as redes do Vasco, aqui no jogo do terceiro turno.

O returno terminou com uma vitória apertada sobre o Bonsucesso na Gávea por 2 a 1 – a quarta pelo mesmo placar nos últimos cinco jogos – e com os rubro-negros em segundo lugar na tabela. Com 25 pontos, um a mais que o Fla, o Botafogo era o novo líder, com campanha quase perfeita naquela etapa. Em terceiro vinha o São Cristóvão, já mais distante com 21 pontos. O Alvinegro tornava-se, portanto, o adversário a ser batido no terceiro e decisivo turno.

Esta terceira etapa do torneio era o chamado “turno neutro”, já que, como o termo indica, todas as partidas eram disputadas em estádios de outros clubes que não os envolvidos na partida. Assim, o Flamengo estrearia contra o Madureira nas Laranjeiras. E ao contrário dos dois turnos anteriores, em que goleou em ambos por 5 a 1, neste o time rubro-negro encontrou um oponente mais duro de ser enfrentado, e ficou no empate em 2 a 2.

Na segunda rodada, em que o Fla descansou, o Botafogo foi derrotado pelo São Cristóvão por 3 a 2 e deu aos rubro-negros a chance de ultrapassá-lo na liderança no confronto direto da semana seguinte. No jogo em São Januário, o time de Flávio Costa chegou a abrir 2 a 0. Mas se perdeu em firulas e jogadas de efeito desnecessárias e cedeu a virada ao time alvinegro. Foi um ponto de inflexão na campanha. Não era mais permitido vacilar daquela maneira.

NOVO GÁS NA RETA FINAL

O próximo adversário, de novo em São Januário, seria o São Cristóvão, que cumpria excelente campanha e vinha invicto há 15 partidas. No Fla, o grande desfalque era Domingos, substituído pelo gaúcho Marin. Jarbas, por sua vez, teria de entrar em campo mesmo em condições precárias. Com as defesas se sobrepondo aos ataques, o primeiro tempo terminou 0 a 0. Mas logo aos sete minutos da etapa final, Roberto abriu a contagem para os alvos.

Demonstrando todo o espírito de luta que faltou na partida contra o Botafogo, o Flamengo reagiu brilhantemente. Aos 22, Jocelyno cobrou falta para a área, Jarbas escorou e Leônidas tocou para as redes. E a virada chegaria aos 35, depois que González lançou Valido, e o ponta argentino, naquele momento deslocado para o comando do ataque, disparou um petardo inapelável contra o goleiro Waldyr. O Fla seguia mais vivo do que nunca na briga pelo título.

Nos três jogos seguintes, os rubro-negros obteriam três vitórias fundamentais: primeiro, deram o troco da goleada para o Bangu no primeiro turno devolvendo os 4 a 0 em partida disputada no estádio do America, em Campos Sales. Em seguida, voltariam a vencer o Fluminense por 2 a 1 em São Januário, desta vez com dois tentos do ponteiro Sá. E, no dia 11 de novembro, derrotariam o Bonsucesso por 4 a 2, de novo em Campos Sales.

Enquanto isso, o Botafogo venceria apenas uma de suas próximas três partidas (uma goleada de 4 a 0 sobre o Bonsucesso na Gávea). Nas outras duas, ficaria no empate em 2 a 2 com o Madureira em Figueira de Melo e perderia para o Fluminense por 3 a 2 em São Januário no dia seguinte à vitória do Fla sobre o time da Leopoldina. Assim, os rubro-negros não apenas recuperariam a liderança da tabela como abririam três pontos de frente para os alvinegros.

O time de General Severiano voltaria a perder pontos na rodada seguinte ao empatar com o Vasco em 2 a 2 nas Laranjeiras. Era a chance do Flamengo ampliar a vantagem na reta final. Mas o time também tropeçou, sem sair de um renhido 0 a 0 com um America já sem pretensões no certame. A frustração levou alguns cartolas do Fla a suspeitarem de que os rubros haviam recebido bicho extra da parte de outros clubes, em especial dos alvinegros.

Uma semana depois, no entanto, a situação se inverteria completamente: o America acabaria entregando o título de bandeja ao Flamengo após derrotar o Botafogo, de virada, por 5 a 4, mais uma vez em São Januário, numa rodada em que os rubro-negros folgaram. O resultado obtido pelos americanos manteve em três pontos a diferença entre o Fla e o time de General Severiano, faltando apenas a última rodada a ser disputada.

A FESTA DA CONQUISTA

No dia 3 de setembro, o Flamengo entrou em campo em Laranjeiras para enfrentar o Vasco alinhando seu time-base da campanha quase ideal: o goleiro era Yustrich, que ganhara a posição de Wálter, arqueiro da Seleção Brasileira na Copa do Mundo do ano anterior. Domingos da Guia e Newton Canegal formavam a dupla de zaga. Na linha média, Artigas ocupava o posto do titular Jocelyno, com o argentino Volante e Médio (irmão de Domingos) completando o setor.

O quinteto ofensivo, por sua vez, era o titular indiscutível: Sá na ponta direita, Valido na meia por aquele lado, Leônidas de centroavante, González de meia esquerda e Jarbas na ponta esquerda. Antes do jogo começar, o time rubro-negro desfilou ao redor do gramado exibindo suas faixas de campeão, posou para fotos e foi recepcionado com serpentinas atiradas pela torcida tricolor. Em seguida, tratou de ratificar a conquista com um grande triunfo sobre o Vasco.

A volta olímpica rubro-negra com faixas e serpentina.

Em sua crônica da partida, o Globo Sportivo comentava que o desempenho do time rubro-negro no campeonato havia se tornado mais consistente a cada turno, e que, sendo assim, o título já se justificava amplamente. Mas lembrava que os jogadores do Flamengo tinham o desejo de cumprir uma grande atuação contra os cruzmaltinos para demonstrar que sua conquista não se devia apenas “à debacle do Botafogo” na reta final. E eles conseguiriam.

Aos sete minutos, a contagem seria aberta. Valido chutou com força de fora da área e o goleiro vascaíno Nascimento espalmou para escanteio. Jarbas levantou a bola na área e novamente Valido – como faria cinco anos depois diante do mesmo rival – subiu mais que toda a retaguarda e testou para as redes. Porém, pelo resto da primeira etapa, o Fla veria seu ímpeto diminuir devido ao forte calor, embora continuasse dominando as ações.

Na etapa final, a toada seguiu a mesma. Com o Vasco praticamente limitando-se a se defender, o placar já era magro pelo que jogava o Flamengo. Mas a partir dos 30 minutos, viria a catarse rubro-negra. Primeiro, Agnelli botou a mão na bola e Jarbas bateu a falta lateral levantando na área para a cabeçada de González. Quatro minutos depois, o meia-esquerda argentino lançaria Leônidas, que arrancaria para bater forte e vencer Nascimento.

E a um minuto e meio do fim da partida, a contagem seria encerrada: González anotaria seu segundo gol no jogo, decretando os 4 a 0 para o Fla, campeão incontestável. Após o fim da partida, a torcida rubro-negra que deixava o estádio se juntou à multidão que aguardava do lado de fora e tomou a praia do Flamengo, que acabou interditada ao trânsito. A festa então se espalhou por toda a cidade. Mas, em se tratando do clube, isso já não era novidade.

O terceiro tri carioca chegava há 40 anos: relembre as histórias do título

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O tricampeonato carioca conquistado em 1979 e encaminhado há exatos 40 anos, com a vitória de 3 a 2 sobre o Vasco no Maracanã, teve grande importância para a afirmação do timaço do Flamengo da virada dos anos 70 para os 80. Agora, ele se igualava aos outros dois lendários esquadrões rubro-negros tricampeões do Rio: o de 1942/43/44 e o de 1953/54/55. E também deixava marcada sua hegemonia no futebol carioca, abrindo caminho para se aventurar em conquistas nacionais e internacionais.

O título de 1978, o do gol de Rondinelli, que deu o pontapé inicial não só ao tricampeonato como também à série de conquistas da geração mais vitoriosa da história do Flamengo foi lembrado neste post. O bi, invicto, no torneio que ficaria conhecido como “Campeonato Especial”, teve sua trajetória contada aqui. Assim, chega a hora então de rememorar o terceiro caneco, fechando a saga.

CAMPANHA QUASE PERFEITA NA INCHADA TAÇA GUANABARA

O campeonato que daria o tri ao Flamengo se estenderia do início de maio ao início de novembro, desdobrando-se em três turnos. E como se não bastasse, começaria com uma Taça Guanabara gigantesca. Com 18 clubes se enfrentando, foi o turno com maior número de participantes que o Estadual do Rio já viu. Só naquela primeira parte do torneio seriam 153 partidas, quase o dobro de todo o campeonato “especial” do início do ano.

Aquele Estadual inchado reunia os 12 clubes da capital que haviam disputado o Campeonato Carioca de 1978 (America, Bangu, Bonsucesso, Botafogo, Campo Grande, Flamengo, Fluminense, Madureira, Olaria, Portuguesa, São Cristóvão e Vasco), mais os seis do interior, vindos do Campeonato Fluminense de 1978 (Americano, Associação Desportiva Niterói, Fluminense de Nova Friburgo, Goytacaz, Serrano e Volta Redonda).

Mesmo assim, e enfrentando uma estafante maratona que incluía, paralelamente, amistosos pelo Brasil e excursões ao exterior (como a que levaria a uma grande vitória sobre o Barcelona e ao título do Troféu Ramón de Carranza contados aqui), o Flamengo levantou o primeiro turno com uma campanha arrasadora, beirando a perfeição. Foram 16 vitórias e uma única derrota em 17 partidas, totalizando 52 gols marcados e apenas 13 sofridos.

A confirmação da conquista veio com duas rodadas de antecedência, no dia 15 de julho, quando o time de Cláudio Coutinho foi à Ilha do Governador e derrotou a Portuguesa no Luso-Brasileiro (o popular “Estádio dos Ventos Uivantes”) por 2 a 0 com dois gols de Zico. A única derrota viera logo na quinta rodada: 1 a 0 para o Botafogo, gol de Renato Sá, numa partida que pôs fim à série invicta recordista de 52 jogos então sustentada pelo Flamengo.

Mas nem mesmo aquele revés apagou o brilho da campanha rubro-negra naquele turno, em que todos os outros adversários foram batidos – alguns, com goleadas acachapantes. Foi o caso, por exemplo, do Bonsucesso na rodada de abertura (5 a 0), do Americano em pleno Godofredo Cruz (5 a 2), e sobretudo da ADN, de Niterói, massacrada por 7 a 1 no Caio Martins num jogo em que Zico voltou a marcar seis gols, como havia feito contra o Goytacaz no Especial.

ZICO, UMA MÁQUINA DE GOLS

Um deles, o quinto de Zico e sexto do Flamengo naquela tarde em Niterói, evocava um momento histórico do futebol brasileiro: era quase idêntico ao que Pelé deixou de fazer contra o Uruguai na Copa do Mundo de 1970. Mas se o camisa 10 da Seleção do tri errou por pouco o alvo após driblar Mazurkiewicz, Zico não teve dificuldade para empurrar para as redes, mesmo combatido, após aplicar o mesmo drible da vaca no arqueiro Passarinho.

A fase goleadora de Zico, aliás, era soberba. Depois de já ter anotado 26 tentos em 17 partidas no torneio anterior, ele seguiria balançando as redes com voracidade. Só passou em branco no já citado jogo contra o Botafogo e na vitória de 1 a 0 sobre o Fluminense de Friburgo no Eduardo Guinle, decidida com um gol de Carpegiani. Ao todo, foram 29 gols naquelas 17 rodadas do turno inicial, alguns deles fundamentais.

Foi um gol do Galinho, por exemplo, que deu aos rubro-negros uma suada vitória de 1 a 0 diante do perigoso Serrano em Petrópolis. Ele também anotou os três nos 3 a 1 sobre o Bangu. Abriu o triunfo sobre o Fluminense e fechou a virada sobre o America, ambas por 2 a 1. Fez os quatro num maluco 4 a 3 sobre o Goytacaz. E além de fazer os dois contra a Portuguesa que valeram o título, também abriu o placar nos 4 a 2 diante do Vasco na última rodada.

A partida contra os cruzmaltinos também foi marcante naquela conquista, ainda que o Flamengo já estivesse com a Taça Guanabara nas mãos. Com provocações de parte a parte ao longo da semana que antecedeu o clássico e com os jogadores do Vasco encarregados de colocarem as faixas de campeões nos rubro-negros, o clima para uma partida quente, repleta de emoção e reviravoltas já estava pronto. E o jogo não decepcionou.

O Flamengo abriu logo 2 a 0 com apenas 16 minutos, gols de Zico e Júnior. Diante de um Vasco totalmente entregue, nas cordas, os rubro-negros se viram na iminência de disparar uma goleada. Até que Manguito foi expulso de forma infantil ao fazer falta violenta em Paulinho Pereira, deixando o Fla com dez. O rival logo descontou com Guina e ameaçou empatar no início do segundo tempo. Mas quem marcou, de novo, foi o Flamengo com Tita.

Pouco depois do terceiro gol, novas expulsões: Toninho e o vascaíno Gaúcho trocaram socos e receberam o cartão vermelho. E o Vasco tornou a descontar com Roberto Dinamite. Só que o Fla agora passaria a ficar também em vantagem numérica: após impedimento marcado com acerto num ataque cruzmaltino, Guina e Paulinho xingaram o juiz Wilson Carlos dos Santos e também foram expulsos. Aos 41, Júnior cravou o quarto gol rubro-negro e definiu a vitória.

UM NOVO TALENTO DESPONTANDO

O Flamengo havia feito apenas duas contratações para aquele Estadual: o veloz ponta-esquerda Carlos Henrique, da Desportiva, e o polêmico centroavante Beijoca, do Bahia. Mas o grande achado daquela campanha foi um prata-da-casa que havia retornado ao clube no início daquele ano, após duas temporadas emprestado, atuando no futebol venezuelano. Seu nome era Andrade, um meia ou volante que a cada dia conquistava mais espaço no time titular.

Jogando ora no lugar de Carpegiani, ora no lugar de Adílio, somou 18 jogos (dos 33 da campanha no Estadual) como titular do meio-campo rubro-negro, além de outros dois atuando improvisado na lateral-direita, mostrando segurança na proteção da defesa, tranquilidade na saída de jogo e sobretudo uma grande qualidade no passe e inteligência na distribuição de jogadas, como ficou atestado na goleada de 5 a 2 sobre o Americano em Campos.

“Não errou sequer um passe. Foi quem organizou o meio-campo de seu time, mostrando domínio de bola, sentido de organização e descortino nos lançamentos. Pelo menos no jogo de ontem, a torcida rubro-negra não sentiu falta de Carpegiani”, afirmou sobre ele o Jornal do Brasil após a partida pela nona rodada da Taça Guanabara. E as boas atuações continuaram pelo resto do campeonato, sempre que ele era acionado como meia ou volante.

A VOLTA POR CIMA DE UM GOLEADOR

Aquele Estadual também assistiu à redenção de Cláudio Adão, que no Campeonato Especial andou na mira da torcida e chegou a esquentar o banco para o folclórico Luisinho “das Arábias”. Se não marcou gols em quantidade assombrosa como Zico (fez 19 contra os 34 do Galinho), nem foi decisivo na reta final como Tita (sobre quem falaremos mais adiante), o camisa 9 contribuiu com muitas assistências e tentos importantíssimos, especialmente em clássicos.

Contra o Fluminense na Taça Guanabara, por exemplo, ele anotou o gol da vitória por 2 a 1, quando o jogo já se encaminhava para repetir o placar de 1 a 1 registrado nos dois Fla-Flus do Especial. E diante do Botafogo, no segundo turno, foi ele quem chutou para longe o fantasma de Renato Sá, conduzindo o Flamengo a uma virada épica por 2 a 1, construída na metade final do segundo tempo e sacramentada no último minuto de jogo.

Também foi Adão quem anotou o gol da complicada vitória por 2 a 1 sobre o Campo Grande no remodelado alçapão de Ítalo del Cima pela Taça Guanabara. E também foi ele quem abriu o caminho para o triunfo diante do America (2 a 0) pelo segundo turno no Maracanã, que permitiu aos rubro-negros viajarem tranquilos para a Europa e colocarem o Barcelona na roda, na conquista do Troféu Ramón de Carranza, em Cádiz (Espanha).

A LESÃO DE ZICO…

Quando Zico anotou o primeiro de seus três gols nos 5 a 1 sobre o Serrano no Maracanã pela terceira rodada do returno, ele já havia igualado os 31 que o vascaíno Ademir Menezes – o último artilheiro do Rio a alcançar as três dezenas – marcara no torneio de 1949. Quando o camisa 10 rubro-negro pisou o gramado do estádio Ari de Oliveira e Souza, em Campos, para enfrentar o Goytacaz numa noite de quarta-feira, já somava 34 tentos.

Estava, portanto, a cinco de igualar o recorde histórico de outro rubro-negro, Sylvio Pirillo, o maior artilheiro de uma edição do Carioca, autor de 39 gols no certame de 1941. Para alcançar ou quem sabe superar a marca, Zico teria pela frente pelo menos dez partidas. Teria. No segundo tempo do jogo em Campos, o meia deixaria o campo com um estiramento na coxa direita, quando o Fla já vencia por 1 a 0, gol de Tita. E preocuparia.

Zico havia disputado a bola com o zagueiro Orlando Fumaça, do Goytacaz, e após driblar o beque e partir para iniciar a jogada, sofreu falta e sentiu o músculo repuxar. No dia seguinte, já de volta ao Rio, sequer conseguiu ir à Gávea para se tratar, deixando apreensivo o médico do clube, Célio Cotecchia, que já descartava a participação do Galinho não só no clássico de domingo contra o Botafogo como também de grande parte do terceiro turno do Estadual.

…E A AFIRMAÇÃO DE TITA

A previsão de Cotecchia se mostraria cruelmente acertada, para a agonia da torcida rubro-negra. Mas a solução para preencher a enorme lacuna que o camisa 10 deixaria já estava ali mesmo, dentro do próprio elenco. Era Tita, que enfim ganharia chance – com um pouco mais de sequência – de exibir suas qualidades em sua posição de origem, aquela que sempre cobiçou. E que já tinha demonstrado seu potencial naquele mesmo jogo contra o Goytacaz.

No jogo seguinte, a já citada vitória por 2 a 1 de virada sobre o Botafogo com dois gols de Cláudio Adão, Tita entrou vestindo a 10 e, embora não tenha marcado, foi decisivo: sofreu a falta que resultou no empate e do rebote de um chute seu surgiu o tento da virada. “Faltou apenas um gol para premiar sua atuação. Esteve sempre livre de marcação e cumpriu com perfeição a difícil missão de substituir Zico”, escreveu o Jornal do Brasil.

Graças a esse triunfo, a equipe chegou à última rodada do segundo turno precisando apenas de um empate com o Fluminense para conquistar aquela etapa e, de brinde, levar mais um ponto extra para o terceiro. Tensa e muito disputada, a partida acabaria decidida com mais um gol de Tita, concluindo um contra-ataque puxado por Adílio aos 42 minutos do segundo tempo com um chute prensado que venceu o goleiro tricolor Paulo Goulart.

No terceiro turno, Tita seguiu desempenhando com louvor o papel de camisa 10 e marcando gols fundamentais. Sempre no Maracanã, abriu o caminho para a vitória de 3 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha na estreia, deixou outros dois nas redes do Goytacaz nos 5 a 1 da segunda rodada e, em seguida, marcou de cabeça o único gol na vitória rubro-negra em jogo complicado diante do Bangu. Mas nem tudo foi festa naquele terceiro turno.

Ainda sem condições ideais, Zico teve sua recuperação apressada para jogar o Fla-Flu do dia 13 de outubro, mas o esforço se revelou extremamente precipitado. O Fla perdeu por 3 a 0, jogou fora os dois pontos de bonificação que havia somado por vencer os turnos anteriores, e o Galinho, que entrara no intervalo, perdera um pênalti. Mesmo assim, ainda seria escalado de início no jogo contra o Americano. Mas seria substituído ao fim do primeiro tempo.

Para a sorte do Fla, Tita cumpriu grande atuação contra o Alvinegro campista, anotando todos os gols na vitória por 3 a 0. E recebendo os devidos elogios: “o destaque do jogo, não só pelos gols, como também pelo desembaraço”, avaliou o Jornal do Brasil. Em grande fase, o novo camisa 10 se prepararia agora para o decisivo clássico com o Vasco, que poderia encaminhar a conquista do turno e do tricampeonato aos rubro-negros.

O DESFECHO DO TRI

Quando entraram em campo naquele domingo, 28 de outubro, os dois arquirrivais somavam dez pontos, assim como Fluminense e Botafogo, que já haviam atuado no dia anterior. Quem levasse a melhor naquele clássico, portanto, chegaria com boa vantagem na última rodada. Fiel à ideia de seu treinador Cláudio Coutinho de partir desde os minutos iniciais para tentar nocautear o adversário, o Flamengo encurralou o Vasco e logo abriu o placar.

Aos 11 minutos, o ponta-esquerda Júlio César “Uri Geller” foi lançado em profundidade e cruzou. Tentando se antecipar à chegada de Cláudio Adão, o afobado zagueiro vascaíno Ivã mandou, de carrinho, a bola para as próprias redes. Minutos depois, o Fla fez o segundo quando o ponteiro Reinaldo pegou a sobra de um ataque anterior e mandou um chute venenoso, que Leão só pôde aparar. E Tita, na raça, meteu o pé na bola e mandou para as redes.

O Flamengo baixou a guarda e parecia com o jogo controlado. Mas antes do fim da etapa inicial bobeou duas vezes e permitiu um improvável empate vascaíno, com gols de Roberto Dinamite e Catinha. Em outra analogia com o boxe, Coutinho avaliou o cochilo rubro-negro: “Saímos grogues do primeiro assalto. O segundo vai nos exigir muito jogo de pernas”, sentenciou, lamentando a perda da vantagem e cobrando mais atenção dos jogadores.

O drama transcorreu por boa parte do segundo tempo, até por volta dos 20 minutos. Foi quando o lateral Toninho recebeu passe pelo lado direito, avançou e alçou para a área. A bola encontrou a cabeça de Tita, que testou colocado, encobrindo Leão e dando a vitória ao Fla, que praticamente vestia as faixas ali. Na última rodada, o Fla poderia já entrar em campo diante do Botafogo, caso o clássico entre Flu e Vasco, no sábado, tivesse um vencedor.

A conta era esta: o Flamengo somava agora 12 pontos, contra 10 dos três rivais. Caso perdessem para o Botafogo e Flu e Vasco empatassem, os rubro-negros seriam forçados a jogar uma decisão extra contra os alvinegros. Mas se o duelo entre tricolores e cruzmaltinos tivesse um vencedor (que também chegaria aos 12 pontos), o critério de desempate entre os três passaria a ser o número de vitórias ao longo do torneio, o que favoreceria o Fla.

Atentos ao rádio naquela tarde de 3 de outubro de 1979, os rubro-negros ouviram o Flu abrir 2 a 0 em pênaltis convertidos pelo ponta Zezé. E também a reação do Vasco, que diminuiu com Catinha e empatou, também de pênalti, com Roberto aos 33 do segundo tempo, estabelecendo o 2 a 2 que mantinha vivo o Botafogo. Até que, aos 38, Marco Antônio se aproveitou de uma indecisão da zaga tricolor, decretou a virada vascaína e deu o título ao Fla.

No dia seguinte, antes mesmo do pontapé inicial, o Flamengo já vestia as faixas de campeão. Sem Zico e desta vez também sem Tita, e com Adílio vestindo a 10 para compor o meio com Andrade e Carpegiani, o time ficou no 0 a 0 com o Botafogo, num jogo quase inteiramente festivo. Não havia dúvidas de que se tratava da mais forte equipe do futebol carioca. A missão agora era mostrar ao Brasil que o melhor futebol do país era jogado na Gávea, o que se concretizaria em meados do ano seguinte.

 

Há 40 anos, Flamengo batia o Barcelona em atuação maiúscula, para se aplaudir de pé

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O Jornal dos Sports estampa a vitória do Fla na Espanha.

Um categórico show de bola rubro-negro completa 40 anos neste domingo. A histórica vitória do Flamengo sobre o Barcelona por 2 a 1, no dia 25 de agosto de 1979, abriu caminho para a conquista do célebre Troféu Ramón de Carranza, realizado em Cádiz. Mas a história vai muito além disso: neste texto, detalharemos a maratona enfrentada pelo Fla até a Espanha e também resgataremos os pontos de vista escritos por dois grandes nomes do jornalismo internacional sobre aquela partida memorável diante dos catalães.

A CARAVANA RUBRO-NEGRA

A temporada de 1979 foi para o Flamengo absurdamente exaustiva, ainda que recompensadora. Nela, o clube teve de disputar dois Campeonatos Cariocas (os quais conquistou), o Brasileirão e mais de uma dezena de amistosos dentro e fora do país, atraído pelas arrecadações que ajudariam a sustentar o elenco de craques. Craques os quais, aliás, formavam a base da Seleção Brasileira que teve uma extensa Copa América pela frente naquele ano.

O time rubro-negro entrou em campo 82 vezes, entre jogos de competição e amistosos. Exibiu-se no Maracanã e em Ítalo del Cima. Em Brasília e em Itabuna. Em Paris e em Nova Friburgo. Some-se a esse número as viagens a La Paz ou Buenos Aires que jogadores como Zico, Júnior e Carpegiani tiveram que fazer defendendo a Seleção (treinada pelo mesmo Cláudio Coutinho que dirigia o Fla) e teremos a conclusão de que foi preciso muito fôlego.

O elenco rubro-negro de 1979.

Diante disso, só mesmo a enorme qualidade técnica e a fome de conquistas pode explicar o inebriante banho de bola exibido pelos rubro-negros no jogo de número 57 daquela temporada, bem longe do Brasil, do outro lado do Atlântico, mais exatamente em Cádiz, região da Andaluzia, sul da Espanha. Uma atuação memorável, daquelas de antologia, na tarde-noite de 25 de agosto de 1979, em plena disputa do prestigioso Troféu Ramón de Carranza.

E diante de um adversário que dispensa apresentações – embora não nos furtemos de apresenta-lo: o Barcelona, clube mitológico do futebol mundial hoje e também já naquela época. Na ocasião, o detentor da Recopa europeia e que, além de contar com o atacante austríaco Hans Krankl (um dos maiores nomes do futebol europeu de então), havia acabado de contratar do Borussia Mönchengladbach o meia dinamarquês Allan Simonsen, Bola de Ouro de 1977.

O Ramón de Carranza era então um dos mais famosos torneios de verão da Europa, tanto pela qualidade técnica dos times convidados quanto pela recompensa financeira. De modo que o Fla simplesmente não pôde recusar o convite para disputar sua 25ª edição, a do Jubileu de Prata. Arranjou brecha no apertadíssimo calendário e se mandou para o Velho Continente para medir forças com os bambas de lá. Não sem antes enfrentar uma maratona insana.

DE AEROPORTO EM AEROPORTO

Depois de conseguir postergar dois de seus compromissos do segundo turno do segundo Carioca da temporada (ufa!), o Fla pisou o gramado do Maracanã no domingo, 19 de agosto, para bater o perigoso time do America por 2 a 0, numa vitória fundamental para seguir na briga pelo título daquela etapa do torneio. Na tarde de terça, cinco atletas rubro-negros (Toninho, Júnior, Zico, Tita e Carpegiani) mais Cláudio Coutinho embarcavam para Buenos Aires.

O time que enfrentou o America. Em pé: Rondinelli, Cantarele, Antunes, Manguito, Carpegiani e Júnior. Agachados: Reinaldo, Andrade, Cláudio Adão, Zico e Júlio César. Contra o Barcelona, entrariam Nelson, Toninho e Tita nos lugares de Rondinelli, Antunes e Reinaldo, respectivamente.

O quinteto de ases da Gávea jogaria na quinta à noite pela Seleção Brasileira contra a Argentina no Monumental de Nuñez a decisão de uma vaga às semifinais da Copa América, então disputada sem sede fixa, em jogos de ida e volta que se arrastavam por vários meses. Como não podia deixar de ser (até por se tratar da primeira vez em que o Brasil voltava ao país vizinho após a polêmica eliminação na Copa do Mundo de 1978), o jogo foi tenso.

Mas o empate em 2 a 2 foi o suficiente para fazer a Seleção de Coutinho avançar no torneio. Na sexta à noite, os jogadores rubro-negros e o treinador embarcaram num voo de quase 20 horas, com escalas no Rio e em Madri, até a cidade espanhola de Cádiz, com chegada prevista para a tarde de sábado, quando se juntariam à delegação do Flamengo, apenas horas antes de entrar de novo em campo para enfrentar o Barcelona.

Diante desse ritmo alucinante de jogos e viagens, era até compreensível que o time rubro-negro entrasse em campo absolutamente pregado, dado o completo esgotamento físico e mental imposto pela maratona enfrentada. Mas, surpreendentemente, não foi o que se viu. E para não deixar dúvidas quanto ao altíssimo nível da atuação rubro-negra em Cádiz, recorremos a dois relatos bastante insuspeitos sobre aquele embate histórico.

Um deles é o de um brasileiro: o jornalista João Saldanha, notório botafoguense, e que assistiu ao jogo in loco e contou como foi em sua coluna no Jornal do Brasil. O outro relato também é de um jornalista, mas espanhol: Juan Antonio Calvo, cronista que cobriu o torneio para o diário catalão Mundo Deportivo. Reparem que não são, pois, palavras de rubro-negros apaixonados as que citaremos aqui para ilustrar o desenrolar a partida. Longe disso.

Mesmo com todos os percalços, na hora da partida o Flamengo alinhou seu time quase completo: Cantarele no gol; Toninho e Júnior nas laterais; Nélson e Manguito na zaga; Andrade, Carpegiani e Zico no meio-campo; Tita, Cláudio Adão e Júlio César Uri Geller no ataque. O desfalque era Rondinelli, com uma lesão que o havia tirado da Seleção e da excursão. No banco, entre as opções para o segundo tempo, estavam Adílio e o ponteiro Reinaldo.

O Barcelona, dirigido por Joaquín Rifé, levou a campo seus astros Krankl e Simonsen, além de seu punhado de jogadores experientes que defendiam a seleção espanhola, como o zagueiro Migueli, o curinga “Tente” Sánchez, o meia e capitão Asensi, e o ponteiro Rexach. Porém, os cerca de 20 mil espectadores presentes ao estádio que levava o nome do torneio mal haviam se aboletado em seus assentos quando saiu o primeiro gol do jogo.

INÍCIO FULMINANTE

Com apenas um minuto e meio de jogo, Carpegiani lançou Júlio César na esquerda, e o ponteiro passou por seu marcador e só parou com a bola dentro do gol. Era a primeira amostra do assombro que os dois rubro-negros causariam no time do Barça e na torcida de Cádiz, como testemunhou Saldanha:

O jogo era comandado por Carpegiani, e quando, logo no começo o Júlio César entortou a defesa deles, obrigando-os a deslocar outro jogador para auxiliar na marcação do ponteiro, o Barcelona se desarrumou, abrindo buracos pelo miolo da área. Porque era homem a homem, não tinha sobra, pois a sobra ficava em cima do Júlio César, que fez coisas de louco, louco mesmo, ao mesmo tempo coisas maravilhosas de a gente custar a acreditar que um jogador de futebol possa fazer

Desnorteado, o Barcelona apenas assistiu ao passeio do Flamengo no primeiro tempo. O time rubro-negro girava a bola de um lado para o outro, trocava passes, fazia jogadas de efeito, apavorava a defesa catalã e criava um caminhão de chances. Por sorte, o goleiro Amigó não precisou buscar mais algumas vezes a bola dentro de sua meta, como constatou Juan Antonio Calvo em sua crônica para o Mundo Deportivo:

A cobertura feita pelo Barcelona esteve nervosa e desconcentrada porque uma vigilância individual era estéril dada a grande técnica individual de todos os brasileiros, dos quais era praticamente impossível tomar a bola, ao passo que, quando a marcação voltava a ser por zona, eles [os rubro-negros] chegavam à área de Amigó com a bola dominada, o que era ainda mais perigoso

Até que aos 39 minutos veio o segundo gol. Toninho, em jogada individual, apareceu diante de Amigó e foi derrubado pelo goleiro na entrada da área. Porém, o árbitro Pes Pérez tentou ajudar a evitar o pior para os catalães e apitou a falta fora da área, quase em cima da risca. Mal sabiam que, dali, para Zico, não havia como errar. O tiro saiu na gaveta, diante de um Amigó estático, do mesmo jeito que outros goleiros se prostraram diante do Galinho.

Ao Barcelona só faltou agradecer de joelhos ao árbitro quando este encerrou o primeiro tempo, dado o completo domínio técnico, tático e territorial do Flamengo no jogo. Senhores absolutos em campo, os rubro-negros ditavam o ritmo da partida. Era um autêntico recital, como atestou Juan Antonio Calvo:

Nos primeiros 45 minutos, o time azulgrana esteve absolutamente desencaixado, desorientado e movendo-se sempre ao compasso de seus oponentes. Nisso, aliás, contou e muito o confronto entre Asensi e Zico porque o capitão azulgrana não pôde com a maior força do craque brasileiro, que, junto com Andrade e Carpegiani, dominaram como quiseram o meio-campo

Veio o segundo tempo, e o Flamengo seguiu se impondo em campo, perdendo uma chance atrás da outra. Zico levou Amigó ao desespero com seus chutes. O goleiro precisou se desdobrar para deter duas cobranças de falta espetaculares do camisa 10 da Gávea. Na outra, contentou-se em rezar. E a bola, piedosa, passou perto da trave antes de tomar o rumo da linha de fundo.

‘OLÉ’ E APLAUSOS

Com o time em vantagem de dois gols e tendo o controle absoluto da partida, chegando a colocar o Barcelona na roda em alguns momentos, Coutinho sacou Zico e Carpegiani para as entradas de Adílio e Reinaldo. E assim se encerrou a participação de dois monstros no jogo na opinião de Saldanha, que não economizou elogios à dupla do meio-campo rubro-negro:

E o Flamengo fazendo bola de pé em pé com o Carpegiani assombroso. Já vi grandes partidas dele, mas como hoje eu nunca vi. Então, se transformou no pivô de tudo e, às vezes, era até líbero. Ia lá, cobria, tocava, fazia a armação, o diabo. E o Zico, enquanto esteve em campo, enquanto teve gás, também comandava o negócio, pois o Flamengo fazia de pé em pé e, às vezes, partia para cima, com ele aparecendo em todos os lances de perigo

Quando o Flamengo enfim começou a administrar o resultado, o Barcelona ensaiou uma reação e diminuiu, aos 34 minutos, após jogada de Carrasco pela direita que Esteban concluiu sem chances para Cantarele. O torcedor de Cádiz saiu de sua hipnose provocada pelo toque de bola rubro-negro, animou-se e começou a empurrar os catalães. Mas logo o Flamengo retomou o controle do jogo e ainda desperdiçou mais algumas chances antes do apito final.

O fim da partida foi a senha para o reconhecimento massivo dos torcedores locais, que aplaudiram de pé o time rubro-negro. Na entrevista após o jogo, o técnico do Barça também admitiu: “Caímos diante de um adversário superior”, diz Joaquín Rifé. A diferença de concepção de jogo entre as duas equipes também ficou patente, de acordo com a análise de Juan Antonio Calvo:

Flamengo e Barcelona são duas concepções quase antagônicas de entender o futebol. Ao ar europeu com o qual Rifé quer dotar sua equipe se opôs à mais pura essência do jogo brasileiro que tem possivelmente o Flamengo de Coutinho como seu melhor e mais claro expoente

Saldanha, um homem que por várias décadas rodou o mundo assistindo futebol, também não se furtou em rasgar elogios à atuação do Flamengo. Extasiado com o que presenciara em campo, fez questão de reportar em sua coluna, já no fim do texto, o que testemunhou ao deixar o estádio:

Na saída, a torcida esperou o time do Flamengo na rua para bater palmas. Só não consigo explicar mesmo como esse jogo terminou só em 2 a 1. Para falar a verdade, nem pareceu um jogo, pareceu um treino, um divertimento. Enfim, um espetáculo que mereceu dois ingressos. Um torcedor sério tinha que ir lá fora, comprar outro ingresso e voltar para ver o resto com a consciência tranquila de quem estava pagando o preço justo pelo show apresentado

Juan Antonio Calvo tampouco se conteve em elogios ao futebol fluente, inteligente e sobretudo técnico, chegando ao ponto da pura arte, exibido pelos rubro-negros diante do Barcelona, como talvez os cerca de 15 mil torcedores de Cádiz que se amontoaram no acanhado estádio sob o calor daquele verão ibérico jamais tenham visto.

O estilo de jogo do Flamengo pertence a outra galáxia. Não tem nada a ver com os espetáculos que nos são oferecidos cotidianamente em nossa liga e respalda o prestígio e a qualidade do futebol brasileiro. O time de Coutinho passou à final com todo o merecimento e será, sem dúvida, o grande favorito para conquistar a edição [do torneio] deste ano

“Outra galáxia”. Os mesmos termos utilizados pelo jornal As, de Madri: “Um futebol de outra galáxia, não conhecido por aqui. Se tivesse mais sorte e precisão nas conclusões, o Flamengo teria imposto ao Barcelona uma goleada escandalosa e histórica”. Não menos impactante em sua analogia, o Diário de Cádiz comparou o time de Coutinho aos magos do basquete norte-americano: “O Flamengo faz com os pés o que os Globetrotters fazem com as mãos”.

A defesa do Flamengo (de camisas brancas) rechaça um raro ataque catalão. Telefoto do jogo publicada pelo jornal Mundo Deportivo.

NO DIA SEGUINTE, A FINAL

O privilegiado público de Cádiz ainda teria mais uma chance de se deleitar com o futebol rubro-negro no dia seguinte, na decisão do torneio diante do bom time do Újpest Dozsa, que havia derrotado o anfitrião Cádiz por 3 a 2 na outra semifinal. Bicampeão da Hungria, o time contava com cinco jogadores que haviam participado da Copa do Mundo da Argentina pela seleção magiar e também tinha reputação de equipe ofensiva.

Mas o Fla marcou, literalmente, logo de saída. Cláudio Adão deu o pontapé inicial e abriu na esquerda para Júnior. O lateral foi à linha de fundo e cruzou para Zico, no espaço por entre a zaga húngara, completar de cabeça e abrir a contagem com apenas 13 segundos de jogo, sem que nenhum jogador do Újpest tivesse tocado na bola. Temendo a goleada, o adversário se fechou, o que não evitou as muitas chances criadas pelos rubro-negros.

No segundo tempo, Zico chegou a acertar a trave esquerda do jovem goleiro Erdelyi em cobrança de falta. Em outros lances, faltou sorte aos atacantes rubro-negros, em chutes que passaram raspando. O próprio Erdelyi ainda realizou algumas intervenções cruciais para evitar mais gols. Mas o Flamengo acabaria marcando o segundo gol aos 23 minutos, novamente com Zico, pegando rebote após chutes de Júnior e Júlio César.

O time passou então a tocar a bola e arriscar jogadas de efeito diante dos húngaros, batidos e desgastados. O Flamengo esmerilhava, para o delírio da torcida de Cádiz. E vez por outra, ainda criava chances de golear: Adílio perdeu gol cara a cara após tabelar com Zico e passar por dois zagueiros. Toninho, numa escapada, viu seu chute ser salvo em cima da linha por Nagy, com o goleiro batido. Mas a vitória e a taça estavam asseguradas.

Mais uma vez sob o aplauso da torcida local, o Flamengo só não pôde levantar a taça devido ao tamanho do imponente troféu, de um metro e meio de altura e pesando 65 quilos. Cada jogador recebeu US$ 1,2 mil pela participação na conquista. E o clube, com o prestígio nas alturas, foi convidado a voltar para disputar o torneio no ano seguinte. E, de fato, os “extraterrestres” rubro-negros voltariam e bisariam o feito, levantando o bicampeonato em 1980.

O imponente Troféu Ramón de Carranza, vencido pelo Fla em 1979 e 1980.

Há 25 anos, garotos do Fla batiam o Bayern de Munique e levantavam torneio na Malásia

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Capa do programa (revista oficial) do Torneio SEE’94, realizado na Malásia e conquistado por um jovem time do Flamengo.

Conquistado num período difícil da história do Flamengo, numa temporada com poucos momentos de brilho, o Torneio SEE’94, conhecido simplesmente como “Torneio da Malásia”, é um troféu importante e pouco lembrado na galeria rubro-negra. Com um time quase todo feito de garotos da base – no qual despontava o atacante Sávio – e treinado pelo velho ídolo Carlinhos, o Fla superou equipes como os ingleses do Leeds e o poderoso Bayern de Munique, derrotado na final em 23 de julho de 1994, há exatos 25 anos. Um título que merece ser contado.

PRÓLOGO: O HIPERBÓLICO ANO DE 1993

Para entender a temporada rubro-negra de 1994 é preciso relembrar o hiperbólico ano de 1993, o primeiro do jornalista Luiz Augusto Veloso na presidência. Eleito em 10 de dezembro de 1992 o mais jovem mandatário (34 anos) da história do clube, Veloso herdou de seu antecessor (e apoiador) Márcio Braga um Flamengo detentor do título brasileiro, mas também de uma dívida da ordem de US$ 1 milhão, salários atrasados e muitos problemas estruturais.

Mesmo assim, não hesitou em cumprir uma promessa de campanha: trazer de volta à Gávea o atacante Renato Gaúcho, que estava no Cruzeiro e alugou seu passe ao clube por US$ 450 mil até o meio do ano. Era o principal reforço de um Flamengo que jogaria três competições simultâneas apenas no primeiro semestre: o Estadual, a Copa do Brasil e a Taça Libertadores da América, entrando em campo muitas vezes com intervalos de apenas 48 horas.

Mas dá tudo errado. O Fla não consegue vencer nenhum dos turnos do Carioca e fica de fora das finais, assistindo ao bicampeonato vascaíno. Na Copa do Brasil, é eliminado pelo Grêmio nas semifinais depois de ser muito prejudicado pela arbitragem no jogo de ida, em pleno Maracanã. Já na Libertadores, cai diante do São Paulo de Telê Santana, atual campeão do torneio, nas quartas de final. E o clube ainda se vê no meio da ciranda de treinadores.

Carlinhos, que ocupava o cargo desde agosto de 1991, cede o posto a Jair Pereira em março. Cerca de três meses depois, é a vez de Evaristo de Macedo assumir pela primeira vez o comando do time no qual se projetou na década de 1950 e ter como desafio inicial comandar o Flamengo no redivivo Torneio Rio-São Paulo, disputado em junho e julho. O elenco rubro-negro, no entanto, já foi sensivelmente alterado, na primeira debandada do ano.

A barca parte levando o zagueiro Wilson Gottardo para o Marítimo (Portugal), o volante Uidemar para o León (México) e o centroavante Gaúcho para o Lecce (Itália). Durante a disputa do Rio-São Paulo, o meia Djalminha deixa o clube com destino ao Guarani após se envolver em uma ríspida discussão em campo com Renato num Fla-Flu em Caio Martins. O zagueiro Andrei e o atacante Nilson, reforços do início da temporada, seguem para as Laranjeiras.

Gaúcho comemora gol na Libertadores de 1993, ao lado de Marcelinho, Djalminha e Marquinhos. Só este último estaria no elenco no ano seguinte.

Há ainda o caso de Júnior, que, perto de completar 39 anos, decide enfim pendurar as chuteiras e faz seu último jogo oficial de competição pelo clube na melancólica partida derradeira do Estadual, contra o São Cristóvão em Moça Bonita, diante de apenas 403 torcedores. Mas ainda seguirá para uma longa excursão à Europa logo após o Rio-São Paulo, entrando em campo pelo Fla pela última vez em 19 de agosto, num torneio amistoso em Milão.

Para o segundo semestre, além da excursão internacional de quase um mês, há o Campeonato Brasileiro, a Supercopa e a Copa Rio – esta, de longe a menos importante, disputada por um time misto. O novo Fla tem como principal reforço o atacante Casagrande, repatriado do Torino após quase sete anos atuando no futebol europeu. Também chega o ponteiro Edu Lima (vindo do Guarani na troca por Djalminha). Mas logo é Evaristo quem sai.

Com dois empates (Bahia na Fonte Nova e Bragantino em Caio Martins) nas duas primeiras rodadas do torneio nacional, o veterano treinador dá lugar a Júnior, que volta à Gávea apenas um mês após se retirar dos gramados. O novo comandante começa bem: vence em sequência Cruzeiro, São Paulo, Botafogo e Internacional. Leva o Fla à fase semifinal do Brasileiro e à decisão da Supercopa, após eliminar Olimpia, River Plate e Nacional do Uruguai.

O time, porém, novamente fracassa: após dois jogaços que terminam empatados em 2 a 2, perde nos pênaltis para o São Paulo o título do torneio sul-americano. E, desanimado, faz campanha fraquíssima no quadrangular semifinal do Brasileiro, diante de Corinthians, Santos e Vitória, onde não chega a vencer nenhuma partida. Até mesmo na insignificante Copa Rio o time rubro-negro, um misto de reservas e juniores, perde os dois jogos da final para o Vasco.

No balanço da temporada, foram seis grandes torneios disputados (sem contar a Copa Rio e, separadamente, os dois turnos do Estadual), quatro treinadores, vários reforços de peso, mais de 90 jogos com a equipe principal… e nenhuma taça. Com as dívidas crescendo num ritmo tão galopante quanto o da inflação do país na época, o jeito para o ano de 1994 é apertar os cintos, até pela menor perspectiva de receita, com menos torneios a jogar.

CONTENÇÃO DE DESPESAS

Carlos Alberto Dias e Charles Baiano: dois dos reforços para 1994.

A crise técnica e financeira também força uma nova barca, ainda maior que a do ano anterior, com espaço para medalhões e pratas da casa. Renato Gaúcho segue para o Atlético-MG. Edu Lima é devolvido ao Guarani. Casagrande volta ao Corinthians que o revelou. Marcelinho, que perdera o pênalti decisivo na Supercopa, também segue para o Parque São Jorge. Júnior Baiano vai para o São Paulo. Piá, para o Santos. E o atacante Luís Antônio, para o Fluminense.

Para compensar, o clube raspa os últimos tostões do cofre para trazer quatro nomes experientes e de certo impacto, todos por empréstimo: o meia Carlos Alberto Dias (ex-Vasco e Botafogo) e o atacante Charles Baiano (ex-Bahia e Cruzeiro) vêm do Grêmio. O meia Marco Antônio Boiadeiro, ex-Guarani, Vasco e Seleção, é trazido do Cruzeiro. E o rápido atacante Valdeir, ex-Botafogo, São Paulo e Seleção, vem do Bordeaux.

Juntam-se a eles, além dos remanescentes da temporada anterior – quase todos pratas-da-casa – um bando de garotos promovidos da base e que já haviam começado a aparecer pelas mãos de Júnior nos últimos jogos do Brasileiro, quando o time já não tinha mais chances de classificação à final. Jovens como o versátil defensor Fabiano (que atua na zaga, nas laterais e como volante), o meia Hugo e os atacantes Magno e Sávio. Anotem esses nomes.

Time de juniores de 1993. Na foto, entre outros, o goleiro Fábio Noronha, Rodrigo Mendes, Gélson, Fabiano, Índio, Fábio Baiano, Hugo e Magno.

Fora da Copa do Brasil (da qual só disputavam então o campeão e o vice do Estadual – no caso, Vasco e Fluminense) e também da Taça Libertadores da América, o Flamengo agora se vê na situação inversa: no primeiro semestre, só tem pela frente um enxuto Carioca – cujo regulamento suprimiu a Taça Rio, criando dois grupos na fase inicial (com um jogo extra para decidir a Taça Guanabara) que levariam direto a um quadrangular final em dois turnos.

Antes do começo do campeonato, o Flamengo convida o Grasshoppers da Suíça para o amistoso que marca mais uma reinauguração do estádio da Gávea e, ainda sem contar com os reforços, leva a campo um time de garotos e dá vexame em meio à festa, perdendo por 2 a 0. A participação na primeira fase do Estadual também é claudicante, iniciada com empates em 1 a 1 diante do Bangu em Moça Bonita e do Madureira na Gávea.

Além de não vencer nenhum dos clássicos nessa etapa – perde para o Vasco por 3 a 1, para o Fluminense por 4 a 2 e empata com o Botafogo em 1 a 1 – o time segue sofrendo para vencer os pequenos (1 a 0 chorado no Volta Redonda, 3 a 2 no America, 2 a 1 no Olaria). Folgadas mesmo, só as vitórias sobre Itaperuna e Campo Grande, os piores times do campeonato, ambas por 4 a 0. Mas, surpreendentemente, a maré melhora quando chega o quadrangular final.

O time estreia com uma grande vitória por 3 a 1 sobre o Fluminense, na qual chamam a atenção a vontade do time rubro-negro, sufocando os tricolores em seu próprio campo, e o futebol veloz e driblador do atacante Sávio, novo xodó da torcida. No jogo seguinte, outra vitória por 3 a 1, agora diante do Botafogo. Na terceira rodada, a terceira vitória: uma virada épica diante do Vasco por 2 a 1, com dois gols de Charles Baiano, que sai consagrado.

Naquele momento, o time enfim ganha uma escalação definitiva. Com Gilmar no gol; Charles Guerreiro e Marcos Adriano (trazido do São Paulo durante o Brasileiro de 1993) nas laterais; Gélson e o novo capitão Rogério na zaga; Fabinho, Boiadeiro, Marquinhos e Nélio formando um flexível quarteto de meio-campo; e o goleador Charles Baiano ao lado de Sávio na frente, a equipe rubro-negra ressurge e parece no caminho para o título.

Com os três triunfos, o Flamengo assume a liderança do quadrangular superando até mesmo o Vasco, que entrara na fase final com dois pontos de bônus, em virtude de ter vencido seu grupo na primeira etapa e também a Taça Guanabara em jogo extra. No jogo seguinte, o da volta contra o cruzmaltinos, o empate em 1 a 1 mantém os rubro-negros na ponta do quadrangular, um ponto à frente. Mas algo está para acontecer nos bastidores.

Na sexta à noite, antevéspera do Clássico dos Milhões, o Flu aplica um histórico 7 a 1 no Botafogo, põe fim às chances matemáticas de título do Alvinegro e volta à briga, a dois pontos do Fla e um do Vasco, com duas rodadas por jogar. Na semana seguinte, a tabela marcava duelo de vida ou morte entre tricolores e cruzmaltinos, enquanto os rubro-negros pegariam o humilhado Botafogo podendo até ser campeões antecipados pela combinação de resultados.

No Conselho Arbitral da Federação realizado na terça-feira após a rodada, por interferência do vice de futebol vascaíno Eurico Miranda, a ordem dos jogos antes estipulada para a quinta e sexta rodadas é invertida: agora, o Vasco pega o Botafogo vindo da goleada, enquanto o Fla enfrentará o Flu embalado. Revoltado, Luiz Augusto Veloso fala em golpe e afirma que nenhum dos representantes alegou argumento convincente para a troca.

Mas está feito, e o desfecho é previsível: o Vasco passa fácil pelo Botafogo e reassume a liderança depois que o Fla perde para o embalado Fluminense. Na última rodada, os cruzmaltinos batem os tricolores e levantam o tricampeonato. Aborrecido, Júnior deixa o comando do time, que especula diversos nomes para substituí-lo, mas acaba trazendo de volta Carlinhos (que havia feito bom trabalho no Guarani), pouco mais de um ano após demitido.

À SOMBRA DA COPA DO MUNDO

Com a Copa do Mundo dos Estados Unidos batendo à porta, o calendário nacional de clubes fica em segundo plano, e o Flamengo é forçado a rodar pelo país numa daquelas excursões ao estilo “bye-bye Brasil”, com amistosos um tanto melancólicos para arrecadar alguns trocados. Sem o goleiro Gilmar, convocado para o Mundial, o time faz 11 amistosos em nove estados brasileiros, de Santa Catarina a Rondônia, do Piauí ao Paraná.

Falando em reforços, o clube sonha alto: Veloso chega a prometer o volante Dunga, capitão da Seleção de Carlos Alberto Parreira, além dos zagueiros Mauro Galvão (então no futebol suíço) e Júlio César (da Juventus italiana). Também fala-se pela primeira vez em Romário. Mas com o tempo, vê-se que nem mesmo os modestos pedidos de Carlinhos – como o volante Donizete e o atacante Sílvio, ambos do Bragantino – poderiam ser atendidos.

Por outro lado, após a saída de Boiadeiro para o Corinthians, Valdeir e Carlos Alberto Dias rescindem seus contratos. Gilmar e Charles Guerreiro enfrentam renovações complicadas e bastante arrastadas. E Rogério, com propostas de clubes brasileiros e estrangeiros, é outro nome quase certo de deixar a Gávea. Marquinhos também tem proposta do São Paulo, mas o Fla faz jogo duro, até porque o meia está nos planos de Carlinhos.

Enquanto a movimentação no mercado segue, surgem alguns convites para jogos no exterior, entre eles o amistoso contra o Kashima Antlers em Tóquio que marca a despedida definitiva de Zico do futebol. E também um torneio a ser realizado na Malásia, reunindo clubes europeus, seleções e equipes locais. A proposta é considerada interessante, e o Flamengo aceita, emendando em seguida alguns amistosos pelo Velho Continente.

O Torneio SEE’94 celebra a inauguração do moderno estádio de Shah Alam, com capacidade superior a 80 mil espectadores e localizado na cidade de mesmo nome, situada no estado de Selangor, um dos mais ricos do país do Sudeste Asiático. A competição reúne seis equipes, divididas em dois triangulares, cujos vencedores avançariam à final. Após as desistências de última hora de Milan e Celtic, os participantes são definidos.

Um dos grupos tem o combinado de Selangor, anfitrião da competição, o Bayern de Munique (que acabara de se sagrar campeão alemão) e o Dundee United (detentor da Copa da Escócia). O outro triangular reúne o Flamengo, a seleção pré-olímpica da Austrália (que se prepara para os Jogos de Atlanta dali a dois anos) e o Leeds United (que dois anos antes conquistara o título inglês e terminara em quinto na temporada recém-encerrada).

A delegação rubro-negra viaja na noite de quinta-feira, 14 de julho, para Kuala Lumpur em voo com escala em Amsterdã. Além do recém-contratado zagueiro Paulo Paiva, emprestado pelo Bangu, ficam no Brasil o zagueiro Índio e o meia-atacante Nélio (ambos lesionados) e o lateral Charles Guerreiro, que acabara de renovar contrato. Já o zagueiro Rogério, mesmo com saída para o Cruzeiro encaminhada, embarca com o elenco.

O time rubro-negro que segue para a Malásia é formado basicamente pela prata-da-casa: sem Gilmar, ainda às voltas com a renovação contratual, Adriano e o jovem Fábio Noronha são os goleiros. E além dos já conhecidos Gélson, Rogério, Fabiano, Fabinho, Marquinhos e Sávio, o grupo incluiu novidades como o lateral-direito Fábio Baiano, os meias Hugo e Rodrigo Mendes (na época, chamado só pelo nome) e o atacante Magno.

O torneio é aberto com pompa e circunstância no dia 16 de julho – véspera da final da Copa do Mundo nos Estados Unidos entre Brasil e Itália – com o empate em 1 a 1 entre o Dundee United e o combinado de Selangor (que, curiosamente, tem no gol o veterano Bruce Grobbelaar, arqueiro do Liverpool derrotado pelo Flamengo em Tóquio na final do Mundial Interclubes de 1981). No dia seguinte, é a vez dos rubro-negros abrirem o outro grupo.

Os adversários do Flamengo na estreia são os “Olyroos”, o time olímpico da Austrália, dirigido pelo escocês Eddie Thomson e que tem como destaque o zagueiro Kevin Muscat. Pelo lado rubro-negro, Carlinhos escala Adriano no gol; Henrique (depois Fábio Baiano) e Marcos Adriano nas laterais, Gélson e Rogério na zaga; Fabinho, Hugo, Marquinhos e Rodrigo Mendes (depois Fabiano) formam o quarteto do meio, com Charles Baiano e Sávio na frente.

Firme na defesa e impondo-se fisicamente, a equipe da Oceania não dá espaços aos rubro-negros – que ainda perdem Charles Baiano expulso – e o 0 a 0 permanece até o fim, deixando o grupo em aberto. Dois dias depois, o Leeds estreia batendo os australianos 2 a 1, resultado que elimina os Olyroos. A decisão da chave ficaria para o dia 21, uma quinta-feira, entre o Flamengo e o Leeds, que jogava pelo empate para passar à final.

Magno encara o experiente zagueiro David O’Leary, do Leeds.

Os ingleses contam com uma equipe que mescla experiência e juventude. Entre os nomes mais rodados, estão o zagueiro irlandês David O’Leary (ex-Arsenal), o lateral norte-irlandês Nigel Worthington, os meias escoceses Gordon Strachan (ex-Manchester United) e Gary McAllister – os quatro com presença em Copa do Mundo – mais o volante Carlton Palmer, da seleção inglesa, e o atacante sul-africano Phil Masinga.

Os rubro-negros, por sua vez, repetem a escalação do primeiro jogo, exceto pelo ataque, onde o novato Magno entra no lugar do suspenso Charles Baiano. Mesmo levando a campo uma equipe em que cinco atletas têm menos de 21 anos e o mais velho (o goleiro Adriano) tem apenas 25, o Fla joga mais solto, domina as ações e abre o placar aos 24 minutos, quando Rodrigo Mendes se infiltra na defesa inglesa num escanteio e cabeceia para as redes.

O Leeds tenta o empate em seguidas jogadas aéreas, bem afastadas pela defesa rubro-negra, mas acaba chegando à igualdade na metade da etapa final, num momento de indecisão da zaga do Fla, permitindo que Noel Whelan decrete o 1 a 1. O resultado não dura mais que um minuto: no lance seguinte, Sávio cabeceia na trave e Magno aproveita o rebote e a falha do goleiro para decidir a parada, dando a vitória e a vaga na final ao Flamengo.

Enquanto isso, no outro grupo, o Bayern havia encaminhado sua classificação de modo tranquilo, goleando o combinado de Selangor por 4 a 0 e superando o Dundee United, mesmo sem poder contar com seus quatro jogadores que haviam estado no Mundial dos Estados Unidos: o zagueiro Thomas Helmer, o meia Lothar Matthäus, o atacante colombiano Adolfo Valencia e o lateral-direito brasileiro (e ex-rubro-negro) Jorginho.

Mesmo assim, ainda era um time de respeito. Liderados pelo atacante francês Jean-Pierre Papin, que havia acabado de ser contratado ao Milan e era então um dos grandes nomes do futebol europeu, os bávaros traziam ainda um bom punhado de jovens prestes a despontar na seleção alemã, como o ala Christian Ziege (que quase foi à Copa), o zagueiro Markus Babbel, o volante Dietmar Hamann e o armador Mehmet Scholl.

A final é disputada no sábado, 23 de julho, às 20h em horário local (9h de Brasília) diante de um ótimo público de cerca de 60 mil espectadores presentes ao Shah Alam. O Flamengo mantém o esquema 4-4-2 simples, com Fabinho de único cabeça-de-área no meio, e tem Charles Baiano de volta ao ataque no lugar de Magno. Mas enfrenta problemas logo aos 17 minutos, quando Papin é lançado, entra na área, tenta driblar Adriano e é derrubado.

Imediatamente o árbitro malaio Nazri Abdullah marca pênalti e expulsa o goleiro rubro-negro. Carlinhos então tem de tirar o meia Rodrigo Mendes para a entrada do arqueiro reserva Fábio Noronha, que já em seu primeiro lance se vê diante de Papin na marca da cal. O francês bate e converte, abrindo o placar para o Bayern. E o drama só aumenta: pouco depois, Charles Baiano sofre entorse no joelho direito e tem de dar lugar a Magno.

A lesão deixará o goleador de fora dos gramados por todo o segundo semestre, e ele não voltará a vestir a camisa rubro-negra. Sem seu atacante mais experiente, com seu terceiro goleiro – um garoto de 18 anos, estreando no time de cima – sob as traves e com um jogador a menos devido à expulsão de Adriano, tudo isso antes da metade do primeiro tempo, parece improvável que o Flamengo consiga reagir diante do Bayern.

Mas aos 30 minutos, a chance do empate aparece numa falta marcada pelo lado esquerdo do ataque rubro-negro, perto do bico da área dos bávaros. A bola é rolada para Rogério, que enche o pé, mandando no ângulo do goleiro Uwe Gospodarek. Com o placar igualado, o Flamengo ganha moral e cresce no jogo, criando chances e atuando de igual para igual. Mas o 1 a 1 permanece na ida para o intervalo e por boa parte do segundo tempo.

Somente aos 30 minutos da etapa final, o marcador volta a ser movimentado. E pelo Flamengo: Marquinhos recebe na ponta direita, corta para dentro, entorta seu marcador e chuta para o gol. A bola desvia na defesa e mata Gospodarek. É a virada rubro-negra. Com o tempo se esgotando, o Bayern busca a reação. Aperta e tenta se valer da vantagem numérica, mas a defesa rubro-negra se segura com garra, fôlego e inteligência.

E o golpe de misericórdia vem no último minuto, quando o brilhante garoto Sávio é lançado na meia esquerda e desce a todo vapor pelo campo de ataque. Ninguém consegue detê-lo. O toque para as redes é sutil, na saída do goleiro. É o terceiro gol do jovem time rubro-negro, que destrona o campeão alemão, levanta a bonita e estilizada taça do torneio – mais uma para o currículo do técnico Carlinhos – e fatura ainda um bom prêmio de US$ 20 mil.

Prestes a se despedir do Fla, Rogério levanta a taça.

O Flamengo segue para a Europa, onde empata dois amistosos contra o Celtic (um na Irlanda e outro na Escócia) e, quando volta ao Brasil, Rogério já é jogador do Cruzeiro. Carlinhos cai em meio a uma campanha conturbada no Brasileirão, embora com alguns jogos memoráveis, nos quais Sávio se afirma como novo craque rubro-negro. O ex-zagueiro Edinho é o encarregado de tocar o barco até o fim de uma temporada um tanto decepcionante.

E aquela vitória na Malásia, com o time de garotos que superou Leeds e Bayern, será o único troféu levantado pelo time profissional na gestão Veloso, que se encerra em dezembro. Vem aí o ano do centenário rubro-negro, com uma nova diretoria e um novo ciclo de grandes ambições e expectativas.

Há 50 anos, Fla quebrava tabu contra o Botafogo e adotava Urubu como símbolo

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Há certos jogos aparentemente corriqueiros, de meio de campeonato, sobre os quais a história despenca aos ombros, como se deslocassem ligeiramente o eixo da terra, mudassem o rumo das coisas. A vitória do Flamengo por 2 a 1 sobre o Botafogo pelo returno do Campeonato Carioca de 1969, ocorrida há exatos 50 anos, em 1º de junho daquele ano, é um desses casos: tornou-se um épico instantâneo, de desdobramentos irreversíveis.

Em parte por livrar os rubro-negros de um carma: foi o fim de um jejum de vitórias que já durava quatro anos contra os alvinegros pela competição, durante os quais o time perdera quase todos os confrontos. Mas sobretudo por ter sido ao mesmo tempo prenunciado e abençoado pelo voo de um urubu – a ave, de verdade – sobre o velho Maracanã, fazendo com que o clube e sua torcida subvertessem o apelido racista a eles imbuído, tornando-o seu símbolo.

PRÓLOGO: HISTÓRIA SOCIAL RUBRO-NEGRA

Dizem alguns historiadores que a transformação do Flamengo em um clube de massa se deu apenas na década de 1930, quando da contratação de ídolos populares negros como Domingos da Guia, Fausto dos Santos e Leônidas da Silva, associada ao início das transmissões radiofônicas. Outros vão buscar a origem da popularidade do clube nos bate-bolas da Praia do Russel, em campo aberto, à vista de todos, assim que nele o futebol foi admitido, em 1911.

O certo é que, na metade do século XX, o Flamengo já detinha – no mínimo – a maior torcida da cidade do Rio de Janeiro, e com predominância nas classes média e baixa. Era o que apontava, por exemplo, a pesquisa levada a cabo pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e publicada pelo Jornal dos Sports no último dia do ano de 1954. O clube rubro-negro liderava com folga em praticamente todas as categorias estabelecidas.

A rigor, só perdia em duas: entre o nível socioeconômico denominado “classe A”, de pessoas ricas, e entre os que tinham ensino superior como grau máximo de instrução. Em ambos os casos para o Fluminense. De resto, era uma lavada: era o mais popular nas classes B e C em renda, entre homens e mulheres na divisão por sexo e ainda entre os que tinham até o ensino secundário, ou somente o primário ou nenhum curso completo. Era, pois, o time da massa.

Naturalmente, por ser uma força de caráter popular (precisamente nesse sentido de povo, de massa) e pela inveja que tal superioridade numérica despertava, a torcida do Flamengo era alvo de várias gozações preconceituosas em relação a classe social e cor da pele. Botafoguenses (esses em especial), tricolores, americanos e até os vascaínos – que sempre se gabaram de uma pretensa “inclusão” – se referiam ao rubro-negro por um apelido: “Urubu”.

O Flamengo tinha então o marinheiro Popeye, famoso personagem de desenhos animados, como mascote. Além de aludir às origens do clube no remo, também transmitia a ideia de resiliência: o Rubro-Negro era o clube que, quando todos imaginavam estar derrotado, na lona, fora do páreo, ressurgia tirando da mística de sua camisa e de sua torcida seu espinafre fortificante (tal qual o personagem) para dar a volta por cima. Era o embrião do “deixou chegar…”.

A ideia de adaptar o personagem criado na década de 1920 pelo cartunista norte-americano Elzie Crisler Segar ao Flamengo, na época costumeiramente referido na imprensa como o “clube da força de vontade”, partiu do chargista argentino Lorenzo Mollas, radicado no Rio e que desenhava para jornais cariocas. Foi Popeye, por exemplo, o símbolo do primeiro tricampeonato carioca do clube, em 1942/43/44, contado na primeira página do Jornal dos Sports.

Porém, depois de um certo tempo começou a parecer estranho um marinheiro norte-americano simbolizar um clube brasileiríssimo como o Flamengo, de espírito irreverente desde sua fundação e que havia inspirado de sambas a personagens de programas humorísticos do rádio. Quem começou a fazer diferente foi o cartunista mineiro Henfil, rubro-negro fanático, em suas tirinhas de futebol publicadas no Jornal dos Sports, no apagar das luzes dos anos 1960.

Incorporando um Mollas de seu tempo, Henfil criou um personagem para representar cada um dos cinco principais clubes do Rio de então (incluindo o America). E foi corajoso ao batizar seu torcedor rubro-negro das tirinhas com o apelido pejorativo dado pelos rivais. O Urubu de Henfil reunia muitas das características dos torcedores de carne e osso e se tornara um sucesso entre os leitores flamenguistas do principal jornal esportivo da cidade.

Mas, oficialmente, a mascote rubro-negra ainda era o velho marinheiro Popeye. Não por muito tempo. Aqui, no entanto, esta história é congelada para que seja desatada a outra ponta dos acontecimentos que se uniram a ela e desaguaram naquele inesquecível 1º de junho de 1969, data redentora para os rubro-negros por vários motivos. Abrimos um parêntese na história sociológica do Mais Querido para voltar a falar de campo e bola.

O FLAMENGO DE TIM

Treinava o Fla naquele ano o paulista Elba de Pádua Lima, o Tim. Ex-atacante do Fluminense e da Seleção Brasileira na virada da década de 1930 para a de 1940, ele se convertera a treinador ao fim da carreira, assumindo o Bangu, pelo qual teria várias passagens, quase sempre com ótimos resultados para as pretensões do clube de Moça Bonita. E em 1964, de volta ao Tricolor em que atuara, conquistou o título carioca batendo justamente os alvirrubros na final.

Chamado de “El Peón” pelos argentinos quando jogava, por sua capacidade de conduzir o time dentro de campo, o técnico Tim se tornou um dos maiores estrategistas do futebol brasileiro. Não raro virava noites bolando estratégias para anular jogadas dos adversários, as quais explicava a seus jogadores utilizando uma mesa de futebol de botão. Por sua astúcia em desvendar segredos dos rivais e bolar antídotos a eles, ganhou o apelido de “Raposa”.

O Flamengo havia vencido o Campeonato Carioca em 1965 (que entrou para a história como o do IV Centenário da cidade do Rio), perdido o de 1966 numa decisão controvertida com o Bangu e depois mergulhado numa temporada medonha em 1967 e outra um pouco menos pior em 1968, quando teve o ex-jogador Válter Miraglia no comando. Para 1969, a aposta era Tim, que vinha de levar o San Lorenzo ao título do Torneio Metropolitano argentino.

Tim não era um treinador que se intrometia em vendas de jogadores (“não dirijo clube, dirijo time”, costumava dizer). Portanto, não teve participação em duas negociações polêmicas feitas pelos dirigentes rubro-negros naquele início de temporada: a saída do atacante Silva, o “Batuta”, camisa 10 e ídolo da torcida, para o Racing argentino, e a venda do jovem e promissor atacante Luís Carlos para o Vasco, concretizada em sigilo durante o Carnaval daquele ano.

Restou a ele administrar outros problemas: os laterais Murilo e Paulo Henrique mantinham o gás, mas o mesmo não se podia dizer do volante Carlinhos. O elenco contava com três estrangeiros – o goleiro argentino Rogelio Domínguez, o zagueiro uruguaio Jorge Manicera e o meia paraguaio Francisco Reyes – mas apenas dois podiam ser escalados, segundo a lei nacional. E o que fazer com o velho Garrincha, 35 anos, vivendo cada vez mais da lenda que construíra?

Enquanto procurava soluções, o treinador via a equipe oscilar naquele início de Carioca. O time estreara empatando em 1 a 1 com o Bonsucesso, equipe que se notabilizou por tirar pontos dos grandes naquele certame. Depois, venceu São Cristóvão (2 a 0), Madureira (1 a 0), Bangu (2 a 0) e Campo Grande (1 a 0), antes de perder para o Botafogo (0 a 2), ser surpreendido pelo Olaria (0 a 1 na Gávea) e parar num 0 a 0 com o Fluminense.

O Flamengo de Tim: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique (em pé); Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson (agachados).

Perto do fim do primeiro turno, ao vencer bem a Portuguesa por 4 a 1 na Ilha do Governador, o técnico podia comemorar: encontrara a escalação ideal. Firme na defesa como já vinha sendo, dinâmico e incansável no meio e enfim impetuoso e inteligente no ataque, combinando grande dose de juventude com alguns nomes rodados, em especial no setor defensivo. E enfim fazendo despontar um reforço trazido da Argentina pelo treinador: o atacante Doval.

O TIME ENGRENA

Aquele time que “deu liga” tinha no gol o experiente Domínguez, ex-Racing e Real Madrid. Nas laterais, os eternos Murilo e Paulo Henrique. No miolo de zaga, o folclórico baiano Onça tinha ao seu lado o vigoroso Guilherme, trazido do Campo Grande. No meio, Liminha e Rodrigues Neto eram dois pulmões de aço, combatendo e levando o time à frente. E no ataque, Doval se juntava a três pratas-da-casa: o goleador Dionísio, o imprevisível Fio e o habilidoso Arílson.

Repentinamente azeitada, aquela máquina estraçalhou o Vasco no jogo seguinte, pela última rodada do turno: um memorável 3 a 0, com gols de Rodrigues Neto cobrando pênalti, Liminha (num chutaço do meio da rua) e Doval. E obteve duas vitórias significativas na virada do returno: 1 a 0 no bom time do America com gol de Doval e 2 a 0 no Bonsucesso – que até ali não havia perdido para nenhum dos grandes – com Onça e Dionísio marcando.

O próximo adversário, porém, representava um trauma. Líder do certame ao lado do Fluminense e um ponto à frente do Flamengo, o Botafogo não sabia o que era perder para os rubro-negros há dois anos no geral e há quatro pelo Carioca. Aquela era a década em que o Fla, em muitos momentos tendo de contar com times apenas esforçados, sofria nas mãos e nos pés dos craques de Seleção que vestiam a camisa do Alvinegro de General Severiano.

Era o que havia acontecido no primeiro turno, quando o Botafogo venceu por 2 a 0 com gols de Jairzinho e Roberto Miranda ainda no primeiro tempo. Vitória comemorada, é claro, com gritos de “Urubu” para cima dos rubro-negros. Além disso, também doía ver vários nomes que passaram ou fizeram história na Gávea agora do lado de lá: Zagallo era o técnico. Gerson, o cérebro do meio-campo. E Paulo Cézar, que trocara a base rubro-negra pela alvinegra.

Tim também não se conformava: no jogo do turno estava certo de que preparara uma arapuca para o Botafogo, mas não contava com Jairzinho caindo agora com frequência também pelo lado esquerdo do ataque. E, para o novo embate, não teria Fio à disposição, depois do atacante ter sido vetado pelo departamento médico. Enquanto o técnico rubro-negro coçava a cabeça para bolar seus esquemas, pelos lados de General Severiano reinava a calmaria.

No Jornal do Brasil, na coluna “Na Grande Área”, Sérgio Noronha substituía interinamente o dono do espaço, o botafoguense Armando Nogueira, e, depois de comentar as prováveis dores de cabeça que Tim andava tendo, escrevia que “Zagallo, ao contrário, está tranquilo. Tem um time definido, armado, esquematizado e confiante – talvez até um pouco demais”, antes de arrematar: “Poucas vezes as coisas foram tão azuis para um time alvinegro”.

Há, porém, fatos que passam despercebidos, mas que se revelam proféticos: no treino coletivo da quinta-feira, Zagallo postou os reservas botafoguenses na retranca, como imaginava que Tim armaria o Flamengo. E os titulares perderam por 1 a 0. O treinador, no entanto, desconversava: “Em jogo tudo muda e as situações serão inteiramente diferentes”. Enquanto isso, na Gávea, o técnico rubro-negro preparava com muita conversa o substituto de Fio.

Luís Cláudio era um meia-armador de 23 anos revelado nos juvenis do Santos e que também passara pelo Racing antes de ser contratado pelo Rubro-Negro em março de 1968, após receber passe livre do clube argentino. Jogador elegante, exímio lançador, às vezes se perdia por indisciplina: em Avellaneda, brigara com o técnico e estava em litígio com o clube. Acabou indicado por Tim ao Flamengo um ano antes de o treinador chegar à Gávea.

O restante da escalação seria rigorosamente o mesmo: Domínguez, Murilo, Onça, Guilherme, Paulo Henrique, Liminha, Rodrigues Neto, Doval, Dionísio e Arílson. A surpresa de Tim só se viu, porém, dentro das quatro linhas. Mas antes de falar delas, o texto faz uma elipse e volta a falar do outro momento inesquecível daquele clássico: o dia em que a torcida subverteu o preconceito ao qual era vítima e viveu o êxtase no Maracanã antes mesmo da bola rolar.

O URUBU

Luís Otávio Vaz Pires e Romílson Meirelles eram dois jovens de uma turma rubro-negra do Leme, bairro da Zona Sul do Rio. Nos dias que antecederam o clássico, eles tiveram uma ideia: arranjar um urubu para soltar em pleno Maracanã na hora do jogo. Na véspera, foram ao depósito de lixo do Caju (próximo à Zona Portuária) e, com a ajuda de um gari também rubro-negro, apanharam o bicho arisco, depois de uma certa dificuldade.

Em depoimento ao livro “Grandes jogos do Flamengo”, de Roberto Assaf e Roger Garcia, Luís Otávio relembrou como foi o transporte da ave: “O urubu veio num DKW, enrolado numa bandeira, bicando todo mundo. Ele dormiu na portaria do meu prédio. No domingo, fomos cedo para o Maracanã (…). Entramos com o bicho dentro do bandeirão gritando ‘Mengo! Mengo! Mengo!’, não houve problema”, contou o torcedor.

Com uma bandeira rubro-negra amarrada às patas, o urubu foi solto pelos torcedores minutos antes dos times entrarem em campo. Em princípio, a ave hesitou. Mas logo partiu para sobrevoar o estádio lotado, que recebeu quase 150 mil pagantes naquela tarde de domingo – e com a torcida do Flamengo em maior número, é claro. Depois de um rasante de tirar o fôlego, o bicho foi ovacionado. Em êxtase, a massa flamenga gritava: “É urubu! É urubu!”.

Foi um sensacional abre-alas para o que se assistiria em campo. Logo o Fla subiu ao gramado com a escalação já citada. Em seguida, foi a vez do Botafogo e seus craques: Ubirajara Mota, Moreira, Zé Carlos, Leônidas, Valtencir, Carlos Roberto, Gerson, Rogério, Roberto Miranda, Jairzinho e Paulo Cézar Lima, o Caju. A arbitragem era de Armando Marques, nome que rendeu preocupação na Gávea, diante de seu histórico de decisões polêmicas contra os rubro-negros.

O Flamengo, porém, logo se mostrou taticamente ajustado o suficiente para não se preocupar com o árbitro. Depois da surpresa dos torcedores, soltando o urubu em pleno Maracanã, haveria outra, a de Tim para os alvinegros: um time muito bem postado em campo, atento à marcação e à cobertura dos espaços, com uma determinação e um espírito de luta que lembravam os velhos tempos do Flamengo-Popeye, e sobretudo muita inteligência nas ações.

O JOGO

As orientações começavam com uma alteração inusitada: Luís Cláudio jogaria sim na vaga de Fio, mas não como ponta-de-lança e sim como uma espécie de lateral-direito. Sua missão era colar em Paulo Cézar e, quando tivesse a bola, postar-se na linha do meio-campo e quebrar a defesa alvinegra com seus passes longos. Sabendo que a principal arma dos alvinegros também eram os lançamentos de Gerson para Jairzinho e Roberto, Tim se precaveu.

O lateral-direito “oficial”, Murilo, foi deslocado para o miolo de zaga, sacrificando sua vocação ofensiva pela tarefa de conter Jairzinho. Enquanto isso, a missão de parar o raçudo Roberto Miranda ficava com Guilherme, zagueiro “de briga” assim como o atacante alvinegro. Atrás da dupla de zaga, o beque-central Onça era recuado para o posto de líbero, então uma novidade no futebol brasileiro, ficando como uma última barreira a ser transposta.

Pelo lado esquerdo da defesa, Paulo Henrique teria seu embate com Rogério e apoiaria sempre que a brecha aparecesse. Já no meio-campo, Liminha e Rodrigues Neto formariam uma barreira para tentar bloquear os lançamentos de Gerson. O primeiro era especialmente encarregado de colar no Canhota. Já o segundo acompanharia Carlos Roberto mais de longe, até para ter sua própria liberdade para se movimentar e apoiar o ataque.

No ataque, o tridente era formado por Doval pela direita (travando duelo com Valtencir no qual sairia como vencedor por larga vantagem), Dionísio pelo centro (sempre oportunista, mas sem se afobar) e Arílson pela esquerda, desdobrando-se entre ajudar o meio e cair por aquele flanco. E apesar de um susto logo no começo do jogo, com Jairzinho acertando a trave, o Fla se mostrou superior durante todo o jogo e não demorou a abrir o placar.

Logo aos nove minutos, Doval recebeu de Luís Cláudio, ganhou de Valtencir, foi ao fundo e cruzou. Dionísio recebeu, dominou, fez que chutaria com a direita, livrou-se de Leônidas e bateu de canhota. O goleiro Ubirajara deu rebote, e Arílson entrou para estufar as redes. O Botafogo tentou reagir, mas o Fla não deu refresco: Liminha colava em Gerson, Luís Cláudio em Paulo Cézar, Murilo em Jairzinho, Guilherme dava duro em Roberto, Paulo Henrique anulava Rogério.

E para desesperar ainda mais os alvinegros, o Fla ampliou aos 23 minutos: Rodrigues Neto – apontado o melhor em campo por unanimidade pela crônica – escapou pelo meio, desceu pela esquerda e cruzou. Após furada monumental de Valtencir, Doval não perdoou e fuzilou Ubirajara. Neste instante, em êxtase, a torcida rubro-negra começou a cantar sua versão para o samba-enredo do Salgueiro “Bahia de Todos os Deuses”, vencedor do Carnaval daquele ano.

Atordoado, vendo o Flamengo encurtar os espaços de seu time e levar perigo especialmente pelo lado esquerdo de sua defesa, Zagallo tentou um antídoto para o Botafogo na etapa final. Paulo Cézar foi deslocado para o meio, fugindo da marcação de Luís Cláudio e abrindo o corredor para o apoio de Valtencir, na tentativa de confundir a marcação cerrada rubro-negra. Mas a equipe de Tim não se abalou e manteve o mesmo posicionamento.

Luís Cláudio continuava como um lateral-direito, agora tomando conta de Valtencir. Nas costas do ala alvinegro, Doval tinha ainda mais espaço para fazer a festa nos contra-ataques. Enquanto isso Paulo Cézar era mais um a parar no intenso bloqueio formado pelo meio-campo rubro-negro. Numa única tentativa acertada, no entanto, surgiu o lance que acrescentou dramaticidade ao jogo: o Caju lançou Jairzinho, que foi derrubado por Domínguez na área.

O próprio Paulo Cézar bateu e converteu a cobrança. Eram sete minutos do segundo tempo. O Botafogo então se lançou ainda mais ao ataque, mas o Fla mostrava uma calma e uma resiliência surpreendentes. Domínguez acalmava a defesa, Luís Cláudio ditava o ritmo, Rodrigues Neto se desdobrava, Doval era ameaça constante. Os papeis estavam invertidos em relação ao histórico recente do confronto. Eram os alvinegros que davam murro em ponta de faca.

O relógio andava, e o Fla se segurava, encaixotando o Botafogo, e às vezes, levando até mais perigo. Como no lance já depois dos 40 minutos em que Ubirajara, depois de driblado por Dionísio, agarrou o atacante pelo calção dentro da área, num pênalti claro para os rubro-negros solenemente ignorado por Armando Marques. Nada, porém, tiraria a vitória épica do Flamengo naquele dia. O urubu pousara na sorte do Botafogo.

A comemoração foi uma verdadeira catarse: sob uma lua descomunal que pairava sobre o Maracanã, homens choravam e riam ao mesmo tempo. Um torcedor rubro-negro, sentindo-se ele próprio um pássaro, pulou de uma altura de seis metros da arquibancada. Fraturou a perna e quebrou alguns dentes, mas estava feliz. O estoque de cerveja acabou nos bares da cidade, desde as biroscas do Irajá até os restaurantes grã-finos de Ipanema.

Antes do jogo, ao chegar ao Maracanã, o folclórico chefe de torcida alvinegro Tarzã provocava: “Se o homem ainda não conseguiu chegar à Lua, como um urubu vai pisar na estrela?”. Dali a menos de dois meses, em 21 de julho, o astronauta norte-americano Neil Armstrong caminharia sobre o solo lunar. Mas antes, naquele 1º de junho, o urubu já havia feito mais que pisar na estrela. Havia conduzido o Flamengo, sob o olhar de seu povo, a uma vitória eterna.

FICHA TÉCNICA

FLAMENGO 2 x 1 BOTAFOGO

Estádio do Maracanã (Rio de Janeiro)
Domingo, 1º de junho de 1969
Campeonato Carioca – segundo turno, terceira rodada
Público: 149.191 pagantes
Árbitro: Armando Marques.

Gols: Arílson (1-0) aos nove e Doval (2-0) aos 23 minutos do primeiro tempo; Paulo Cézar, de pênalti (2-1) aos sete minutos do segundo tempo.

Flamengo: Domínguez – Murilo, Onça, Guilherme e Paulo Henrique – Liminha e Rodrigues Neto – Doval, Dionísio, Luís Cláudio e Arílson. Técnico: Elba de Pádua Lima, “Tim”.

Botafogo: Ubirajara Mota – Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir – Carlos Roberto e Gérson – Rogério, Roberto Miranda, Jairzinho e Paulo Cézar. Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo.