Ensaio de orquestra: Há 40 anos, Fla arrasava o Napoli na Itália e levava troféu

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A ascensão do Flamengo até o topo do mundo no fim de 1981 pode ter vários pontos de partida: a chegada de Cláudio Coutinho, o gol de Rondinelli contra o Vasco, o primeiro título nacional. Mas entre os jogos menos lembrados neste percurso histórico, há um de grande importância por si só: a exuberante goleada de 5 a 0 sobre o Napoli em pleno estádio San Paolo há exatos 40 anos, que deu aos rubro-negros o título do Torneio Quadrangular disputado na cidade italiana e ajudou a preparar o time ideal para as grandes conquistas que viriam a seguir.

ANTES DA CALMARIA

Pode parecer difícil de acreditar, dada a aura mágica que paira sobre o histórico ano de 1981, mas o Flamengo enfrentou algumas crises naquela temporada, em especial no primeiro semestre. O time chegava a aquele mês de junho com muitas arestas a aparar: havia perdido seu status de detentor do título de campeão brasileiro ao cair diante do rival Botafogo nas quartas de final da edição recém-encerrada do torneio. E também já deixara escapar a chance do tetra estadual no fim do ano anterior.

A campanha no Brasileiro – parte dela disputada sem Zico, Junior e Tita, na Seleção – havia sido bastante irregular. Num dia o time sofria pesadas derrotas como os 3 a 0 para o Paysandu em Belém ou os 4 a 0 para o Colorado em Curitiba e no outro aplicava goleadas como os 8 a 0 sobre o Fortaleza. Ou mesmo precisava tirar do fundo da alma uma virada de 4 a 2 sobre o Uberaba no Maracanã, depois de sair para o intervalo levando um vexatório 0 a 2. E tudo acabou no dia 19 de abril, com a queda nas quartas.

Ainda durante o Brasileiro, antes do duelo contra o Bahia nas oitavas de final, o Flamengo havia trocado de treinador: o paraguaio Modesto Bria, antigo craque rubro-negro e comandante das categorias de base, retornava ao seu posto original na comissão técnica. Agora a equipe principal seria dirigida por Dino Sani, ex-volante campeão mundial com o Brasil em 1958 e técnico de boas passagens por Internacional e Peñarol. Ao chegar à Gávea, anunciou sua inspiração de jogo, a Alemanha Ocidental: “Força e habilidade”.

Como o Estadual começaria para o Flamengo apenas em 24 de maio, havia pela frente pouco mais de um mês de treinos, amistosos pelo país e especulações. E sobretudo, a oportunidade de o time colocar a cabeça no lugar, já que, além do certame regional, avizinhava-se a disputa da Taça Libertadores da América. Enquanto o elenco aprimorava a preparação física (principal queixa de Dino Sani em seu início de trabalho, o que gerou mal-estar entre a comissão técnica), alguns nomes deixavam o clube e outros chegavam.

Sem ter se adaptado ao clube em momento nenhum desde sua contratação como grande astro junto ao Atlético de Madrid em meados de 1980, o zagueiro Luís Pereira acertou seu retorno ao Palmeiras, clube que o projetara no futebol nacional. Mas em troca, o Fla recebia Cr$ 3 milhões, mais o ponta-esquerda Baroninho, emprestado até o fim do ano. Jogador que podia atuar tanto aberto quanto compor o meio-campo, o novo reforço tinha ainda um poderoso chute de canhota e era ótimo cobrador de faltas.

Baroninho chegava para ser titular numa posição pela qual haviam passado recentemente Adílio, Carlos Henrique e o juvenil Édson, depois que Julio César “Uri Geller” acabou negociado com o argentino Talleres, de Córdoba, em meados de fevereiro daquele ano. Enquanto isso, na outra ponta, um dilema que se arrastava desde março também impunha ao clube a busca por um novo titular da posição: a recusa terminante de Tita em atuar por ali, o que o levou a desistir até mesmo da Seleção, caso seguisse a ser chamado como ponteiro.

Ao fim do Brasileiro, o Fla tentou envolver o jogador em trocas com o Santos pelo ponta-esquerda João Paulo (que passaria pela Gávea em 1984) ou com o Grêmio pelo centroavante Baltazar (algo que acabaria acontecendo no início de 1983). Mas as negociações não foram adiante. Por outro lado, depois de tentar a contratação de Geraldo, do XV de Jaú, e pensar no chileno Patricio Yáñez, o Flamengo acertou a vinda de Chiquinho, um dos destaques do Olaria que acabara de vencer a Taça de Bronze, a terceira divisão nacional.

Quem também chegou foi o centroavante potiguar Reinaldo, que logo se veria impedido de jogar em meio a uma disputa jurídica entre Santos e Náutico para saber quem era o dono de seu passe. Por fim, um nome contratado ainda no ano anterior retornava à Gávea após ter sido emprestado de volta ao Joinville, seu clube de origem, durante o Brasileiro: era o meia Lico, jogador talentoso, experiente, de estilo descomplicado e versátil, capaz de atuar como armador, ponta-de-lança ou no ataque, aberto nas duas pontas.

E houve também quem quase saiu do Flamengo naquele momento: Zico, fortemente assediado pelo Milan, que chegou a mandar por duas vezes seu vice-presidente, o ex-jogador Gianni Rivera, e seu principal acionista, o empresário Felice Colombo, ao Rio para tentar persuadir a diretoria rubro-negra. O suspense durou de março até o fim de maio, com o martelo batido pelo Fla: “Zico é inegociável”. No dia 30, o Galinho enfim renovava seu contrato com festa na Gávea, enquanto o clube buscava meios de custear seus salários.

UM CONVITE À EUROPA

Numa época em que os clubes ainda eram proibidos de exibirem patrocínios de camisa (apenas o do fornecedor de material esportivo), uma das fontes de receita, especialmente naquele meio de ano, era a participação em amistosos e torneios no exterior em troca de algumas dezenas de milhares de dólares (o que, por aqui, convertia-se em alguns milhões de cruzeiros). E ainda no fim de março uma boa oportunidade de faturar – além de referendar o prestígio do clube na Europa – havia batido à porta do Flamengo.

Os ingressos para aquela edição do Torneio Sport Sud.

O convite feito pelo agente Antonio Rosellini, conhecido por levar clubes e jogadores brasileiros ao futebol italiano, era para a disputa da terceira edição do Torneio Internacional Sport Sud, ou simplesmente “Torneio Quadrangular de Nápoles”. Na época, 30 de março, já estavam acertadas as participações do Napoli, dono do Estádio San Paolo onde se realizaria o torneio, e do Avellino, outra equipe do sul da Itália que disputava então a Serie A. Ambos haviam participado também das duas edições anteriores do torneio.

Na primeira, em 1979, os outros dois convidados haviam sido o Bayern de Munique, a quem o Napoli derrotara na decisão, e o Manchester City, que ficou em terceiro. Já na segunda, o título ficou com o AZ ’67, força ascendente do futebol holandês da época, que levou a melhor sobre os napolitanos nos pênaltis na decisão, enquanto os belgas do Club Brugge terminaram em terceiro lugar. O Flamengo seria, portanto, o primeiro clube de fora da Europa a ser chamado para a disputa, que levava o nome de um diário esportivo local.

O quarto participante demorou um pouco para ser confirmado. A lista inicial de clubes cogitados incluía Anderlecht, Borussia Mönchengladbach e Liverpool, mas o primeiro que se aproximou de ser anunciado foi o Honvéd, da Hungria. Porém, no fim das contas, viria outro bem mais modesto: o Linfield, maior clube da Irlanda do Norte. E a definição dos confrontos das semifinais do torneio (Napoli x Linfield e Flamengo x Avellino) indicava que a grande expectativa girava em torno de uma decisão entre cariocas e napolitanos.

As rodadas duplas ficaram definidas para os dias 12 e 14 de junho, uma sexta-feira e um domingo. E até lá, o Fla já havia iniciado sua longa caminhada num Campeonato Estadual com 12 equipes se enfrentando em três turnos, cujos campeões decidiriam o título só em dezembro. Para arranjar uma folga no calendário que lhe permitisse viajar à Itália, o clube negociou com a Ferj e conseguiu antecipar algumas partidas, como os confrontos contra Madureira e Americano, e adiar outras, como o duelo contra o Olaria.

Até a viagem, seriam cinco os jogos disputados pelo Estadual. Na estreia, o time venceu bem o Serrano por 2 a 0 em Petrópolis enterrando o trauma do jogo que o alijara da briga pelo título no ano anterior. Em seguida, viriam quatro jogos no Maracanã: uma boa vitória sobre o Madureira (4 a 2), um empate com o Bangu (1 a 1) naquela que seria a última partida oficial de competição de Carpegiani pelo Fla, uma goleada avassaladora diante do Americano (7 a 0) e uma vitória de 1 a 0 sobre o Vasco no primeiro clássico.

O time que enfrentou e venceu o Vasco por 1 a 0: base para a excursão.

Entretanto, o elenco que embarcou no aeroporto do Galeão para a Itália no fim da tarde de terça-feira, 9 de junho, tinha algumas baixas. Raul, com uma luxação na mão sofrida contra o Vasco, foi um dos que não viajaram, assim como Tita, com insistentes problemas musculares, sem contrato e vivendo uma espécie de litígio com o clube, uma vez que não consentia mais em ser escalado em outra posição a não ser a ponta-de-lança (onde Zico era o dono absoluto da camisa 10), preferindo até mesmo ficar na reserva.

Também de fora estavam o zagueiro Mozer e o volante Vítor, que naquele momento integravam a Seleção Brasileira de Novos que disputava o tradicional Torneio de Toulon, na França. Vítor, aliás, já havia sido convocado no mês anterior pela seleção principal, a de Telê Santana, para uma excursão europeia na qual o Brasil derrotaria Inglaterra, França e Alemanha Ocidental. Por fim, Carpegiani viajaria, mas não como jogador. Com a confirmação de que pendurava as chuteiras, fazia agora parte da comissão técnica.

Outra baixa, porém, viria de última hora, na véspera da estreia no quadrangular contra o Avellino: com inflamação nas amídalas, o lateral-direito Carlos Alberto foi vetado. Em seu lugar entraria um nome então ainda não consolidado no time titular, mas que aproveitaria muito bem a chance na Itália: Leandro. O restante da equipe era a base que vinha jogando no Estadual: Cantarele no gol, Rondinelli e Marinho na zaga, Junior na lateral-esquerda, Andrade, Adílio e Zico no meio e Chiquinho, Nunes e Baroninho na frente.

APRESENTANDO AS CREDENCIAIS

O primeiro adversário era uma equipe de pequeno porte no futebol italiano, mas que vinha se estabilizando na Serie A, para a qual fora promovido em 1978 e na qual permaneceria por uma década inteira. Na recém-encerrada temporada 1980/81, o clube só não terminou numa excelente sétima colocação por ter sido punido com a perda de cinco pontos em meio ao escândalo do Totonero, a loteria esportiva italiana. Seu técnico era um brasileiro, Luís Vinícius, ex-atacante do Botafogo que migrou para a Itália na década de 1950.

Com o bom goleiro Tacconi e o brasileiro Juary, o Avellino de 1980/81.

Também era brasileiro o principal nome do time, o atacante Juary, ex-Santos. Mas ele ficaria de fora depois de ter sofrido séria lesão em janeiro contra a Inter de Milão. Além dele, mais dois destaques eram o goleiro Stefano Tacconi e o meia Beniamino Vignola, que dali a alguns anos defenderiam a Juventus (e Tacconi chegaria a reserva da Azzurra na Copa do Mundo de 1990). E dois outros nomes jogariam com Zico na passagem do Galinho pela Udinese: o zagueiro Cesare Cattaneo e o meia-atacante Antonino Criscimanni.

O jogo abriu a primeira rodada dupla do torneio, com Napoli e Linfield fazendo a outra semifinal mais tarde. E começou com o Avellino escalado com apenas um atacante e posicionado tentando bloquear as iniciativas do Flamengo e contra-atacar. Mas rapidamente os rubro-negros assumiram o controle da partida. Chiquinho foi o primeiro a testar Tacconi, antes de Zico também obrigar o arqueiro a uma boa defesa após tabelar com Adílio. Aos 13, a primeira chance italiana veio no chute de longe de Mario Piga, que Cantarele espalmou.

O Fla não demorou muito para abrir o placar, novamente numa combinação entre Zico e Adílio, mas com papeis trocados: o Galinho fez o passe ao camisa 8, que tocou sem chances para Tacconi. O Avellino respondeu em bela jogada de Criscimanni, que fez fila na defesa rubro-negra, mas foi bloqueado por Cantarele. Mas daí em diante o Flamengo definitivamente se impôs e marcou mais duas vezes antes do intervalo, ambas com Baroninho. A primeira numa bomba em cobrança de falta e a segunda com assistência de Adílio.

Com a vitória já muito perto de ser assegurada e a decisão do torneio dali a dois dias, o Flamengo retornou para o segundo tempo tirando o pé. Só voltou a forçar o ritmo nos minutos finais – e aí disparou a goleada: Zico recebeu de Baroninho e fez o quarto aos 33 minutos, enquanto Leandro, num contra-ataque, anotou o quinto com um belíssimo toque de cobertura, dois minutos depois. Aos 42, o Avellino diminuiu para 5 a 1 com um gol de cabeça de Giuseppe Massa. Mas a passagem do Fla à final já estava mais do que garantida.

No jogo de fundo, o Napoli também goleou – 4 a 0 no Linfield – e se classificou. Em sua avaliação prévia da final, o jornal italiano La Stampa, de Turim, exaltava a possibilidade de um jogo tecnicamente muito atraente na decisão do torneio e os dois placares elásticos das semifinais, mas atribuía ligeiro favoritismo aos cariocas: “O ponteiro da balança, porém, pelo que vimos em campo, penderia a favor do Flamengo, que revelou um dinamismo excepcional, astúcia nas manobras e um domínio impressionante da bola”, publicou o diário.

O Napoli vinha de uma excelente temporada 1980/81, uma das melhores de sua história antes de sua primeira conquista do scudetto com Diego Maradona em 1987. Liderado em campo pelo líbero holandês Ruud Krol (um dos nomes mais emblemáticos da Laranja Mecânica das Copas de 1974 e 1978), o clube do sul da Itália esteve muito perto de levantar o título. Naquele mesmo estádio San Paolo, havia goleado a Roma de Falcão por 4 a 0 na quinta rodada do campeonato. E mais tarde alcançaria a liderança.

Krol, capitão do Napoli e melhor jogador da Serie A italiana em 1980/81.

No caminho até o topo – ao qual chegou na 25ª rodada, em 12 de abril – o time sob o comando de Rino Marchesi encaixou uma sequência invicta de 16 partidas, nas quais sofreu míseros cinco gols. Sob as traves, aliás, o time contava com outro nome experiente: Luciano Castellini, campeão italiano com o Torino em 1976 e reserva da seleção na Copa do Mundo de 1974. Porém, depois de um tropeço em casa contra o lanterna Perugia, o sonho do scudetto acabou na penúltima rodada, ao perder para a futura campeã Juventus.

De toda forma, a campanha dos partenopei (que terminaram com o terceiro lugar, atrás apenas de Juventus e Roma) havia impressionado na Itália, assim como as exibições de Ruud Krol, eleito o craque da temporada no país pela revista Guerin Sportivo. Era contra essa boa equipe, bem armada, de defesa firme, tendo um craque apontado como o melhor do mundo em sua posição como seu líder técnico e – sobretudo – que jogava em sua casa, diante da torcida mais fanática da Itália, que o Flamengo decidiria o torneio.

O BAILE NO SAN PAOLO

E a previsão do La Stampa de que haveria uma grande exibição na final seria confirmada. Da parte do Flamengo. Em atuação primorosa, taticamente inteligente e tecnicamente deslumbrante, a equipe rubro-negra botou o Napoli no bolso. A começar por anular Krol, de onde partiam todas as ações ofensivas dos partenopei. Escalado com a missão de colar no líbero holandês, Nunes não só obteve sucesso nessa missão como tratou de abrir o placar ao receber de Andrade nas costas do adversário e bater sem defesa para Castellini.

Começava com aquele gol, aos 11 minutos do primeiro tempo, “um espetáculo de alto nível que não decepcionou as expectativas do público, enfeitiçado pela genialidade das combinações, pela fantasia do jogo, pela excepcional preparação atlética e pelo virtuosismo individual dos jogadores visitantes, que inebriaram o Napoli e receberam longuíssimos aplausos do público”, como escreveu Adriaco Luise, o correspondente do La Stampa, que não se cansou de tecer elogios aos rubro-negros em sua crônica da partida.

Quatro minutos depois do primeiro gol, um lance incrível já fazia antever o massacre rubro-negro: Zico lançou Adílio, que driblou o lateral Roberto Amodio e chutou na trave. Zico apanhou o rebote e também acertou a trave. A sobra chegou a Baroninho, que encheu o pé, mas mandou para fora. E o baile seguia: pouco depois, uma triangulação entre Junior, Baroninho e Nunes terminou com outra ótima chance de gol, mas o João Danado – mais uma vez passando às costas de Krol – não acertou a finalização, batendo para fora.

Atacando sempre em bloco e utilizando muito as jogadas pelas pontas, o Fla logo chegaria ao segundo gol. Chiquinho sofreu falta do lateral Luciano Marangon (mais tarde campeão italiano com o Verona) pelo lado direito do ataque. Zico levantou na área, o zagueiro Moreno Ferrario rebateu, mas a sobra ficou com Junior, que entrou na área e foi derrubado pelo ponta Giuseppe Damiani (outro nome experiente do time, ex-Juventus e seleção). Na cobrança do pênalti, Zico não deu chance a Castellini e ampliou a vantagem.

Chamada do jornal La Stampa.

A melhor chance do Napoli no jogo veio aos 37 minutos: o meia Enrico Nicolini fez o passe para o atacante Gaetano Musella, que entregou ao ponta Claudio Pellegrini, cuja finalização também acertou a trave de Cantarele. Mas se o Napoli fazia força para levar perigo ao Fla, os rubro-negros chegavam com facilidade e naturalidade ao gol adversário, em triangulações que enlouqueciam a defesa italiana. Em mais uma delas, entre Zico, Nunes e Chiquinho aos 41 minutos, o camisa 10 recebeu do ponta-direita e marcou o terceiro.

Quando o jogo voltou do intervalo, a RAI, rede de televisão italiana, interrompeu a programação e começou a transmitir ao vivo a partida para todo o país. A transmissão foi anunciada por um locutor em êxtase, que chamou de “45 minutos de espetáculo do melhor futebol do mundo”. O Fla, porém, voltou novamente se poupando, afinal havia pela frente uma longa viagem de volta ao Brasil e o clássico diante do America pela Taça Guanabara dentro de poucos dias. Mas a própria torcida napolitana pedia mais e mais gols.

O Flamengo, é claro, não faria desfeita aos anfitriões. Mesmo marcado de perto pelo volante e capitão do Napoli Claudio Vinazzani (numa tarefa que o La Stampa classificou como “ingrata”), Zico ainda anotaria o quarto gol rubro-negro – e seu terceiro na partida – aos 29 minutos da etapa final. Chiquinho acionou Junior, que fez um excelente passe para a conclusão do Galinho. E ainda houve tempo para repetir o volume ofensivo da estreia: aos 42, Chiquinho lançou Adílio, que não teve trabalho para encerrar a goleada em 5 a 0.

Se contra o Avellino o jornal de Turim havia se mostrado pouco impressionado com a atuação do camisa 10 rubro-negro, desta vez ele também se rendia: “Zico foi o criador e o protagonista de emoções contínuas” para os milhares de espectadores que em vão tentaram empurrar o Napoli, escreveu o La Stampa. “Ele [Zico] esteve, de fato, à altura de sua fama de goleador e maestro, e de seus pés partiram as ações mais perigosas para Castellini, que com uma série de defesas prodigiosas evitou uma derrota ainda mais clamorosa”.

A conquista não rendeu apenas o troféu, dólares e prestígio ao Flamengo. Ajudou a trazer de volta a certeza do grande potencial daquele elenco. Solidificou o trio de meio-campo com Andrade, Adílio (muito elogiado pela imprensa italiana por sua mobilidade) e Zico. Afirmou de vez o talento de Leandro. Fez descobrir em Baroninho uma opção importante, com seus chutes fortes que seriam muito úteis na Libertadores. Mas a melhor história daquela goleada na decisão tem como protagonista um adversário: Krol.

Se na véspera da partida o holandês afirmava que o Flamengo não teria contra o Napoli a mesma tranquilidade com que vencera o Avellino, ao fim do jogo ele se rendia ao time rubro-negro e a seu camisa 10: “Não faz mais sentido continuar comparando Maradona a Zico. Porque Maradona terá de se esforçar muito para atingir o nível do atacante brasileiro”. E sobre a goleada de 5 a 0 imposta pelo Flamengo, o líbero – ainda atônito com o que presenciara – tinha apenas duas palavras em italiano a dizer: “Uno scandalo!”.

Artigo sobre Zico publicado no La Stampa de 16 de junho de 1981.

Dez jogos, dez vitórias: Há 70 anos, o Fla fazia bonito em sua estreia na Europa

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O time rubro-negro perfilado na Suécia. A partir da esquerda: Garcia, Biguá, Pavão, Válter, Bria, Bigode, Nestor, Hermes, Adãozinho, Índio e Esquerdinha.

Passo fundamental para o resgate de um Flamengo forte no início da década de 1950, a histórica excursão à Europa realizada pelo clube entre maio e junho de 1951 marcou a primeira visita ao Velho Continente e teve saldo muito positivo: foram dez vitórias em dez partidas enfrentando equipes da Suécia, Dinamarca, França e Portugal. Por onde passou, o time rubro-negro dirigido por Flávio Costa encantou pela qualidade técnica de seus jogadores e pela simpatia de seus craques. E lançou as bases para o segundo tri carioca de sua história, que viria a partir de 1953 com Fleitas Solich no comando.

AS TRATATIVAS

A aproximação dos suecos com o futebol brasileiro começou no fim dos anos 1940, quando o Malmö – uma das três grandes forças do país ao lado do IFK Gotemburgo e do AIK – veio ao país para uma excursão em dezembro de 1949, na qual enfrentou duas vezes o Flamengo em partidas disputadas no estádio tricolor em Laranjeiras. Na primeira delas, houve empate em 4 a 4. Já na segunda, o Fla venceu com facilidade por 3 a 0. Era uma espécie de “missão diplomática” dos escandinavos com vistas à Copa do Mundo de 1950.

Neste Mundial, os suecos jogariam em São Paulo, Curitiba e no Rio de Janeiro (enfrentando o Brasil no Maracanã) e estreitariam ainda mais seus laços com o país. Naquela ocasião, o cicerone da delegação foi o empresário Gunnar Goransson, representante no país da Facit, empresa sueca de utensílios de escritório – e que, anos depois, chegaria a ocupar por quase uma década o cargo de diretor de futebol do Flamengo. E não demoraria muito até que as rotas se invertessem, e os clubes daqui se aventurassem pelo país escandinavo.

O Flamengo se tornaria o pioneiro entre eles. O contrato para a primeira excursão rubro-negra à Europa foi assinado no fim da tarde de 12 de março de 1951 pelo presidente Gilberto Cardoso na velha sede da praia do Flamengo, após um encontro de uma comissão do clube formada pelo mandatário, pelos dirigentes Francisco Abreu e José Alves de Morais e pelo técnico Flávio Costa com os representantes dos clubes suecos: o já mencionado Gunnar Goransson e o antigo cônsul da Suécia no Rio de Janeiro, Per Soederberg.

A assinatura do contrato para a excursão (Foto: Jornal dos Sports).

O documento previa de início seis partidas obrigatórias, podendo se estender a mais duas ou três de acordo com o desempenho rubro-negro naqueles primeiros jogos. Nos primeiros planos já havia também a intenção de estender a turnê até Portugal e eventualmente algum outro país do continente. Bem espaçado entre os jogos (algo não tão comum na época), o calendário da excursão mereceu elogios até do jornalista vascaíno Álvaro Nascimento, do Jornal dos Sports, que o considerou o mais racional envolvendo clubes brasileiros.

UM NOVO FLAMENGO

O ano de 1951 marcou o início de uma profunda reformulação no Flamengo. Eleito em dezembro do ano anterior, o presidente Gilberto Cardoso trouxe de volta o técnico Flávio Costa, tricampeão em 1942-43-44, para tentar resgatar o time de um declínio acentuado o qual vinha vivendo desde aquelas três conquistas consecutivas, e que culminaria com a desastrosa sétima colocação no Carioca de 1950. Poucos veteranos daquela última glória permaneciam, como o lateral Biguá, o defensor Newton Canegal e o médio paraguaio Modesto Bria.

E alguns reforços aportariam no clube no início da temporada. Para a defesa chegaram o vigoroso zagueiro Pavão (Portuguesa Santista) e o lateral Cido (América de Recife). Já para o ataque, vieram o ponta-direita Nestor, jogador revelado pelo Canto do Rio e que passara por Vasco e Palmeiras, de quem o Fla o contrataria, e ainda o arisco centroavante Adãozinho, do Internacional, reserva da Seleção na Copa de 50, onde foi companheiro do lateral-esquerdo Bigode, ex-Atlético-MG e Fluminense, que chegara ao clube no começo de 1950.

Naquele momento, também começavam a despontar nomes que fariam história no clube, como o centromédio Dequinha (outro vindo do América de Recife em 1950) e o atacante Índio, cria da base rubro-negra. Outros, um pouco mais antigos no elenco, como o goleiro paraguaio García, o centromédio Válter (mais tarde técnico da base e do profissional) e o ponta Esquerdinha, já se tornavam nomes consolidados. Já alguns, como o atacante gaúcho Hermes (ex-Grêmio) ficariam pelo caminho, apesar de terem sua importância no ciclo.

O Flamengo de 1951 em figurinhas.

A delegação fez sua despedida oficial no dia 6 de maio, dois dias antes do embarque, com os jogadores desfilando uniformizados pela pista do estádio das Laranjeiras antes de um confronto dos aspirantes de Flamengo e Vasco pelo Torneio Municipal. Chefiada pelo escritor e rubro-negro fanático José Lins do Rego, ela incluía ainda o presidente Gilberto Cardoso, que viajaria também como médico do clube, o vice-presidente Marcus Vinícius de Carvalho, o técnico Flávio Costa e sua esposa Florita, além de 17 jogadores.

O elenco incluía os goleiros García e Cláudio; os defensores Biguá, Pavão, Bigode, Cido, Newton Canegal e Beto; os médios Bria, Dequinha e Válter; e os atacantes Nestor, Hermes, Adãozinho, Aloísio, Índio e Esquerdinha. O veterano massagista Johnson já havia seguido para a Suécia, onde encontraria a delegação. Outro que também já se encontrava na Europa era o dirigente Francisco Abreu, que tratava de negociar os amistosos e preparar todo o terreno e o que hoje se chamaria de “logística” para a chegada da delegação.

A imprensa se mobilizou para cobrir a excursão: o Jornal dos Sports enviou os jornalistas Ricardo Serran e Mário Julio Rodrigues. A revista O Cruzeiro contou com o célebre fotojornalista José Medeiros. E o renomado narrador Oduvaldo Cozzi comandou as transmissões de rádio para a emissora Continental, com patrocínio da Bayer. A viagem despertou interesse até em São Paulo: os jogos narrados por Cozzi seriam retransmitidos pelas rádios Panamericana e Record (em ondas curtas) com o apoio do jornal paulistano Gazeta Esportiva.

OS JOGOS DA EXCURSÃO

Flamengo 1×0 Malmö

O primeiro adversário da excursão, em 16 de maio, seria o Malmö, campeão sueco da temporada 1950-51 com apenas uma derrota em 22 partidas e nove pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Nesta campanha do título nacional, o clube da camisa azul celeste teve ainda o melhor ataque e a melhor defesa. A partida aconteceria no mesmo estádio Råsunda, em Solna (subúrbio de Estocolmo), no qual o Brasil venceria a Suécia por 5 a 2 – com o rubro-negro Zagallo marcando um dos gols – e conquistaria o título mundial em 1958.

Bigode cumprimenta a sueca: visita do Fla marcou o país (Foto: O Cruzeiro).

Curiosamente, quem também estava em Estocolmo na ocasião era o Liverpool, igualmente participando de uma temporada internacional na Suécia. Quarenta anos antes do confronto que valeria o título mundial em Tóquio, os dois times desfilaram juntos pelo gramado do Råsunda antes de seus respectivos compromissos (os ingleses enfrentariam o AIK). O Fla entraria completo contra o Malmö: García no gol, Biguá, Pavão e Bigode na defesa, Válter e Bria na linha média e Nestor, Hermes, Adãozinho, Índio e Esquerdinha no ataque.

A partida começou equilibrada, mas aos poucos o Flamengo passou a controlar as ações, tendo os pontas Nestor e Esquerdinha e o centroavante Adãozinho como os melhores no setor ofensivo. Entretanto, além da falta de pontaria dos brasileiros, a defesa sueca trabalhava bem, chegando a colocar o ataque rubro-negro por seis vezes em impedimento só na primeira etapa. Dessa forma, o primeiro tempo só poderia terminar num empate sem gols. Para a etapa final, Aloísio entraria no lugar de Índio, tentando dar mais ímpeto ao setor.

E, de fato, o time passou a envolver mais a retaguarda adversária. Com Bria acertando na linha média e empurrando o Flamengo à frente, a equipe acertou por duas vezes a trave sueca. O gol, porém, nasceria de um lance curioso: Nestor tentou a jogada na ponta, perto da bandeirinha de escanteio, mas foi desarmado por Erik Nilsson, que em seguida recuou a bola para o goleiro. Este, porém, escorregou e caiu, deixando a bola limpa para Esquerdinha tocar para as redes aos 15 minutos do segundo tempo.

Os jogadores rubro-negros e o técnico Flávio Costa, porém, não saíram satisfeitos. Não houve reclamação contra a arbitragem ou o público, pelo contrário. O que desgostou aos atletas foi a própria falta de sorte e a percepção de que a vitória poderia ter sido por um placar mais folgado. De qualquer forma, era preciso relevar o desempenho pelo fato de se tratar de uma estreia em gramado desconhecido, com clima um tanto adverso. E, afinal de contas, o time havia derrotado um dos adversários mais fortes do programa.

Flamengo 6×1 AIK

Força tradicional do futebol sueco, mas vivendo mau momento. Havia terminado o campeonato na penúltima colocação, sendo rebaixado para a segunda divisão ao fim da temporada 1950-51. Mas recebeu reforços emprestados por outros clubes para enfrentar o Flamengo, também no Råsunda, na tarde de 20 de maio. Porém, mordidos pelo placar considerado magro da estreia, os jogadores rubro-negros foram à forra diante do clube promotor da excursão. E arrancaram sua primeira goleada estrondosa da excursão.

Esquerdinha abriu o placar aos 19 minutos e Hermes ampliou marcando duas vezes, aos 30 e aos 32. Mas a atuação até ali vinha sendo um tanto protocolar. O time só melhorou mesmo na etapa final, quando Índio cresceu de produção. Nilsson diminuiu para o AIK pouco depois do reinício do jogo, mas dali em diante o Fla deslancharia: Índio fez o quarto aos seis minutos. Hermes fechou sua tripleta marcando o quinto aos 16. E Adãozinho – saudado pelo rei Gustavo da Suécia ao fim da partida – fechou a contagem anotando o sexto aos 24 minutos.

Flamengo 2×0 Malmö

O Malmö pediu revanche da derrota no Råsunda, mas desta vez a partida seria disputada em sua casa, no velho estádio Idrottsplats (ainda hoje existente, embora o clube não atue mais lá), onde estava invicto há 47 jogos. E assim como na estreia rubro-negra, o jogo começou equilibrado, sem predomínio de nenhum dos lados, e com a defesa sueca deixando muitas vezes o ataque do Flamengo em impedimento (Nestor chegou a balançar as redes, mas o tento foi anulado). O gramado escorregadio também atrapalhava o Fla.

Pouco depois dos 30 minutos, porém, o Flamengo conseguiu abrir a contagem. Bigode passou a Hermes, que abriu na direita com Nestor. O ponta superou Erik Nilsson na corrida e chutou da linha de fundo, sem ângulo. A bola surpreendeu o goleiro Petterson, que tentava fechar o canto, e foi parar nas redes. Imediatamente, o Malmö tentou reagir, mas o Fla se fechou bem, com os meias auxiliando os laterais e Dequinha recuando na proteção à defesa. Apesar dos problemas físicos e com o gramado, o time demonstrou resiliência.

A pressão do time da casa durou mais de meia hora. Mas, num raro contra-ataque, o Flamengo teve a chance de definir o resultado e foi letal. Índio escapou pelo meio e levou a bola até a área adversária, onde cruzou para Nestor, que acompanhava na corrida. O ponta de novo se livrou de Erik Nilsson e bateu quase da linha de fundo, vencendo Petterson outra vez. Mesmo felizes com a vitória, os jogadores rubro-negros não pouparam críticas à arbitragem, que marcou nada menos que 23 impedimentos do Fla e nenhum do time sueco.

Flamengo 2×1 Combinado do Norte da Suécia

De Malmö, ao sul da Suécia, a delegação rubro-negra subiu quase mil quilômetros ao norte, com destino a Sundsvall, onde enfrentaria o combinado da região conhecida como Norrland. O jogo foi disputado no estádio Idrottsparken no domingo, 27 de maio. O combinado era formado por jogadores de três clubes locais – entre eles o GIF Sundsvall, que mais tarde integraria a primeira divisão sueca – e incrementado por dois atletas do Malmö. Mas o mais reforço dos locais seria mesmo o clima gélido, mesmo próximo do verão no país.

O Flamengo perfilado antes do jogo na gélida Sundsvall.

A neve que caía no estádio e a temperatura de 1°C foram muito sentidas pelo time do Flamengo em Sundsvall. “Todos os brasileiros assistiram ao encontro embrulhados em cobertores, tendo os jogadores sentido o intenso frio”, relatava a crônica do Jornal dos Sports, “a ponto de alguns terem necessidade de massagens estimulantes, como Bigode e Adãozinho”. O lateral-esquerdo chegou a ser colocado numa banheira de água quente após o jogo, em virtude das cãibras que sofria, com os músculos das pernas congelados.

Mesmo assim, outra vitória veio: aos 15 minutos do primeiro tempo, Índio recebeu passe de Esquerdinha numa brecha da defesa sueca e abriu o placar. O segundo gol surgiu de uma falta bem perto da área sueca: Adãozinho (que teve ainda um tento anulado) rolou para Pavão, que encheu o pé e ampliou aos nove minutos do segundo tempo. O combinado diminuiu aos 23 com Nordlander e buscou o empate, mas o Fla resistiu apesar do frio e saiu vitorioso, tendo Pavão, Dequinha e Bigode como maiores destaques.

Flamengo 3×0 Elfsborg

No dia 30, a delegação seguiu para Åtvidaberg, onde visitaria a fábrica da Facit e realizaria um treino coletivo com entradas pagas, com jogadores do clube da fábrica completando a equipe reserva. O montante arrecadado ajudaria a custear o tratamento de Per Soederberg, internado no Hospital da Cruz Vermelha em Estocolmo. “O Flamengo faz questão especial de colaborar com este grande amigo”, lembrou o Jornal dos Sports. O antigo cônsul da Suécia no Brasil, no entanto, não resistiria e acabaria falecendo em outubro daquele ano.

De Åtvidaberg, os rubro-negros partiram em dois ônibus especiais para Borås, onde enfrentariam o Elfsborg, time local, no estádio Ryavallen em jogo inicialmente marcado para 30 de maio, mas que acabou disputado em 1º de junho. Décimo colocado na temporada 1950-51 do campeonato sueco, o clube aurinegro havia se salvado do rebaixamento ao superar o AIK no número de gols marcados. A concentração do Flamengo para este jogo foi na localidade de Hindas, a mesma onde a Seleção Brasileira ficaria na Copa do Mundo de 1958.

Pavão e Hermes, dois destaques da excursão (Foto: O Cruzeiro).

Este foi, até aquele momento da excursão, o jogo mais fácil do Flamengo, que poderia ter vencido por um placar maior se buscasse mais o gol depois de ter aberto a vantagem. O time encurralava o Elfsborg, que se fechava na defesa e via suas tentativas de contra-atacar morrerem sem sequer ultrapassarem o meio-campo. O primeiro gol saiu aos nove minutos. Hermes recebeu a bola, ameaçou o chute, mas preferiu servir a Nestor, que passava à sua direita na lateral da área. O ponta chutou forte e com efeito, vencendo o goleiro Nygran.

O segundo gol, aos 13, nasceu de arrancada de Índio, que cruzou certeiro para Hermes concluir. E o terceiro, aos 24 minutos, foi fruto da pressão ofensiva da equipe de Flávio Costa: apertado, o zagueiro Hansson tentou recuar para o goleiro Nygran, mas não percebeu o arqueiro fora de posição, e a bola tomou o rumo das redes. Dali em diante, o Fla relaxou e passou a fazer jogadas de efeito para o público sueco. Ainda chegou às redes mais uma vez, com Adãozinho de cabeça aos 45 minutos, mas o gol acabou anulado por impedimento.

Na etapa final, o Elfsborg chegou a ameaçar por duas vezes, mas García apareceu seguro num lance e, após ser batido no outro, Newton surgiu para salvar na hora exata. Aos 30 minutos, Hermes sentiu lesão e foi substituído por precaução por Aloísio, mas seu estado não chegava a preocupar. Ao fim do jogo, os atletas rubro-negros tiveram dificuldade para chegar aos vestiários por terem sido cercados pelo público local, que desejava ver os jogadores bem de perto. A vitória rendeu ainda ao clube uma taça, a Elfsborg Cup.

O Flamengo viajou de ônibus até Gotemburgo e, de lá, pegou um avião até Copenhague. O jogo a ser realizado na capital da Dinamarca no dia 5 seria inicialmente contra o KB, um dos principais clubes do país, mas o adversário acabou trocado por um combinado da capital dinamarquesa. O KB, porém, hospedou a delegação rubro-negra em sua concentração. Com a partida marcada para um feriado na cidade, o horário pôde ser antecipado para as 16h locais (os jogos anteriores vinham sendo realizados por volta das 19h).

Flamengo 2×0 Combinado de Copenhague

O cartaz rubro-negro estava alto em Copenhague, cidade a qual a delegação chegou no dia 2 de junho. As imprensas sueca e dinamarquesa vinham avaliando o time do Flamengo como superior ao combinado São Paulo-Bangu que também havia atuado recentemente nos dois países. Já o tal “combinado de Copenhague” que enfrentaria o Fla era, na prática, a seleção da Dinamarca e incluía diversos nomes que haviam atuado nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, e/ou que atuariam no torneio de Helsinque, em 1952.

O Jornal dos Sports destaca a vitória na Dinamarca.

O primeiro tempo foi equilibrado, com as defesas muito firmes predominando sobre os ataques. Ainda assim, o Flamengo esteve perto de abrir a contagem com um chute de Hermes na trave aos 31 minutos. Na volta do intervalo, o combinado se lançou ao ataque e passou a pressionar. Mas seria o Fla que marcaria: Dequinha recolheu uma bola e lançou Esquerdinha, que passou na frente a Índio. Este entregou a Adãozinho, que entrava na área e chutou com violência, rasteiro, no canto direito. A bola passou por baixo do goleiro Nielsen.

Em desvantagem, o combinado dinamarquês passou a atacar ainda mais. E seria castigado em outro contra-ataque rubro-negro aos 26 minutos: Pavão afastou um ataque e a jogada chegou a Bigode, que lançou Esquerdinha. O ponta rubro-negro arrancou para a área e chutou no canto esquerdo, ampliando para o Flamengo. Aos 42, o time chegou a anotar o terceiro com Hermes, aproveitando confusão na área e mandando para as redes. Mas o árbitro já havia invalidado o lance marcando falta de Adãozinho.

Flamengo 2×0 Halmia

De volta à Suécia, o Fla teria novamente seu próximo adversário mudado: em vez do Halmstad, ele seria o Halmia, da mesma cidade, no estádio Örjans Vall em 8 de junho, uma sexta-feira. O novo oponente havia acabado de vivenciar seu melhor e mais longo período na divisão de elite sueca entre as temporadas 1943-44 e 1949-50. Neste último ano, apesar de rebaixado, chegou às semifinais da Copa da Suécia. E, para o confronto, recebeu de última hora alguns reforços, como o atacante Karl-Erik Palmér, cedido pelo Malmö.

Precedida por uma exibição de ginástica sueca, a partida teve público bem superior ao esperado: caravanas de localidades vizinhas correram até Halmstad para assistir ao Flamengo. O time rubro-negro, porém, não fez um bom primeiro tempo, falhando muito na defesa e no ataque. E aos poucos o adversário percebeu os pontos fracos da equipe de Flávio Costa e começou a levar perigo, com García se desdobrando em várias ocasiões para evitar a abertura do placar por parte do time local. Mas quem acabou marcando foi o Fla.

Aos 16 minutos, Bria passou a Nestor, que desceu pela direita e cruzou. A bola passou por toda a defesa e chegou a Índio, que amorteceu no peito, dominou e chutou firme, vencendo o goleiro Ludvigson. Aos 36, num contra-ataque, viria o segundo gol: Adãozinho veio tabelando com Hermes pelo meio até entrar na área e chutar sem defesa para o arqueiro local. O Flamengo voltou do intervalo com Dequinha no lugar de Válter e passou a demonstrar mais segurança na defesa e mais coesão na bola trabalhada pelo meio.

O cerco ao gol do Halmia (Foto: O Cruzeiro).

Mas, se parou de levar sustos na retaguarda, também passou a ter mais dificuldades na frente contra um adversário fechado. É bem verdade que chegou de novo a balançar as redes em cabeçada de Hermes após cruzamento de Esquerdinha. Mas o árbitro, incrivelmente, encerrou o jogo no momento da finalização. Os destaques rubro-negros foram Adãozinho, García, Bigode, Dequinha e Índio. Este último recebeu uma homenagem do presidente do Halmia por ter sido considerado o melhor dos 22 em campo.

Flamengo 6×1 Norrköping

Historicamente a quarta força do futebol sueco (embora a terceira em títulos), o Nörrkoping seria o último adversário do Flamengo na Suécia. O clube vivera uma era de ouro na década anterior, levantando cinco vezes o título nacional (incluindo um tetra entre 1945 e 1948). Terminara em quarto na temporada 1950-51, mas seria de novo campeão na campanha seguinte. A partida foi disputada no estádio Nya Parken, em 10 de junho, e entrou no programa de última hora, depois de não ter havido acerto com o Helsingborg e o Kalmar.

Havia duas baixas importantes na equipe de Flávio Costa. Com distensão muscular, Bria e Nestor ficaram de fora. Válter e Dequinha formaram a dupla de médios (posição em que mais houve revezamento de nomes durante a excursão) e Aloísio entrou na ponta direita. Mas mesmo com as alterações forçadas, o Flamengo entrou disposto a cumprir uma atuação marcante em sua despedida da Suécia, em homenagem ao público local que prestigiou a equipe em todos os jogos e em retribuição à acolhida no país escandinavo.

E que atuação! Goleou o bom time do Norrköping por 6 a 1, embora, como observou o experiente jornalista Ricardo Serran, que cobriu a excursão para o Jornal dos Sports, “a contagem neste encontro é coisa secundária, porque de fato o team do Flamengo realizou uma de suas melhores exibições alardeando as virtudes individuais de seus integrantes e apresentando um trabalho coletivo apreciável que deu margem a entusiásticas manifestações do público calculado em cerca de 12 mil pessoas, presentes ao match”.

Adãozinho atende às crianças suecas à caça de autógrafos (Foto: O Cruzeiro).

“Os cronistas locais mostraram-se entusiasmados com a boa categoria do quadro rubro-negro, ressaltando a perfeição das deslocações, dos passes, da agilidade, rapidez e habilidade de cada homem, trabalhando para o perfeito desempenho do conjunto”, prosseguiu Serran em sua crônica da partida. Em apenas cinco minutos o Flamengo já vencia por 2 a 0, com dois gols de Esquerdinha, aproveitando seu chute forte de canhota. Hermes ampliou aos 23, e o primeiro tempo terminou com o placar parcial de 3 a 0.

Na etapa final, aos 14 minutos, Índio acertou um belo chute de fora da área e marcou o quarto. Mais adiante, Esquerdinha e Hermes voltaram a balançar as redes, antes de o médio sueco Arnell descontar a goleada para 6 a 1 cobrando pênalti nos minutos finais. O Flamengo saiu de campo aclamado pelo público, tendo sido oferecido um brinde aos jogadores. E deixou a Escandinávia com oito vitórias em oito jogos, 24 gols marcados e apenas três sofridos (sendo um de penalidade) – além de polpudos US$ 5 mil em caixa.

Flamengo 5×1 Racing Paris

Depois dos dias inesquecíveis na Suécia, chegava a vez de conhecer a França. Após a viagem de Norrköping até Paris, os jogadores tiveram um dia de descanso para recobrar as energias. Mas, dos desfalques no jogo anterior, só Nestor estava inteiramente apto a entrar em campo. O Racing Paris, único adversário do Flamengo na parada francesa da excursão, vinha de um discreto 13º lugar no campeonato nacional. Mas recentemente havia obtido bons resultados na Copa da França, sendo campeão em 1945 e 1949 e vice em 1950.

O time que enfrentou o Flamengo no famoso estádio Parque dos Príncipes em 13 de junho reunia sete jogadores que defendiam ou haviam recentemente defendido a seleção da França: o goleiro René Vignal, o zagueiro Roger Lamy, o lateral-esquerdo Marcel Salva, o meia Roger Gabet e os atacantes Roger Quenolle e Georges Moreel, além do meia-atacante Henri Arnaudeau, recém-contratado do Stade Français para a temporada que se iniciaria e que faria ali um de seus primeiros jogos com a camisa do novo clube.

Após o equilíbrio inicial, o Flamengo saiu na frente logo aos oito minutos em boa jogada coletiva. Nestor cruzou para Índio, que passou a Adãozinho e este entregou na frente para Hermes, que chutou sem defesa para o arqueiro Vignal. Aos 18, Hermes teve gol bem anulado por toque de mão. Mas ele insistiria e voltaria a marcar aos 22: Dequinha, um dos destaques da excursão, deu um lençol em um adversário e fez a assistência perfeita para o meia-atacante, que chutou com força e precisão para colocar o 2 a 0 no placar.

Mesmo em boa vantagem, o Flamengo não baixou o ritmo e “continuou na ofensiva, com uma excelente demonstração de técnica e agilidade, dando trabalho insano à defesa local”, como descreveu a crônica do Jornal dos Sports. E o terceiro gol viria aos 26 minutos por intermédio de Adãozinho, após ótima combinação com Esquerdinha. Só depois desse tento, já com a folgada vantagem de 3 a 0 no placar, é que o time começou a administrar o resultado e se exibir para o público parisiense com dribles e jogadas de efeito.

Após o intervalo, o time voltou com Aloísio no lugar de Nestor e segurou a pressão do Racing, esperando a hora certa para contra-atacar. E ela veio aos 18 minutos: Esquerdinha se livrou do marcador e chutou. Vignal fez a defesa apenas parcial, a bola subiu e, no rebote, o ponta chegou antes para tocar para as redes. Aos 21, após nova combinação com Esquerdinha, Adãozinho deu drible de corpo espetacular no beque francês e chutou com violência para marcar o quinto. O Racing só desconta aos 30, numa cabeçada de Salva.

Na metade da etapa final, o ataque do Fla perdeu Índio, com distensão muscular, e logo depois também seu substituto, o improvisado lateral Beto, com torção no tornozelo. O também lateral Cido teve de entrar na ponta direita, passando Aloísio para a meia. Mas não houve maiores problemas: o Fla deu olé e saiu aplaudido de pé pelo público que lotou o Parque dos Príncipes. “Foi a melhor exibição de futebol deste ano na França”, disseram os dirigentes do Racing, satisfeitos com a excelente renda de 4,8 milhões de francos.

A repercussão também foi grande na imprensa francesa: os jornais destacaram as atuações de Dequinha, Biguá e Adãozinho, em meio ao comentário geral de que “o Flamengo conquistou Paris”. O prestigioso diário esportivo L’Équipe, por sua vez, comparou o time rubro-negro aos ases do basquete do Harlem Globetrotters: “Esses jogadores são uns acrobatas, feiticeiros da pelota”, escreveu em sua crônica. Já o Le Figaro comentou que “os jogadores brasileiros divertiram-se, literalmente, com os seus adversários”.

Flamengo 3×0 Belenenses

A última parada da excursão seria em Portugal, depois que as ofertas de alguns jogos na Espanha não foram aceitas (entre elas, a participação no Torneio Teresa Herrera, em La Coruña, no dia 29 de junho). As tratativas para os jogos no restante da programação foram feitas pelo dirigente rubro-negro Francisco Abreu, juntamente com o português Cândido de Oliveira, que havia sido técnico do Flamengo no ano anterior e era um treinador e jornalista renomado em seu país, sendo um dos fundadores do jornal A Bola.

Inicialmente, estavam certos os jogos no Estádio Nacional do Jamor contra o Belenenses no dia 17 (na preliminar do amistoso internacional entre as seleções de Portugal e Bélgica) e o Benfica no dia 23 (antecipado em um dia devido a outra partida do escrete luso, agora contra a Espanha, marcado para o local no dia seguinte). Mas este segundo acabou cancelado após os dirigentes rubro-negros não aceitaram uma contraproposta do clube português, que pretendia tirar o jogo do Jamor e leva-lo para seu campo próprio.

O Flamengo viajou de avião de Paris até Lisboa, embarcando no dia 15 e chegando no mesmo dia à capital portuguesa, onde os jogadores se hospedariam no Grande Hotel Estoril. Com Beto lesionado e descartado do restante da excursão, as dúvidas no time ficavam por conta de Nestor, Índio e Bria. Os dois primeiros, no entanto, apresentaram sensível melhora de suas lesões antes do jogo contra o Belenenses. O quadro de Bria também progrediu, mas o técnico Flávio Costa achou desnecessário forçar o retorno do médio.

Na despedida, vitória sobre o Belenenses (Foto: O Cruzeiro).

Assim, o time entrou com a mesma escalação que goleara o Racing para enfrentar o Belenenses, considerado na época um dos quatro grandes de Portugal. O time das camisas azuis sagrara-se campeão português em 1946 e, até aquele momento, era o segundo no ranking dos clubes que mais haviam cedido jogadores à seleção lusa. Na temporada 1950-51, no entanto, vinha de uma campanha decepcionante, terminando na nona colocação. Mas na temporada que se seguiria voltaria a ficar entre os quatro melhores.

O Flamengo não chegou a fazer uma boa exibição, especialmente no primeiro tempo, em que teve contra si os fortes ventos que sopravam no Estádio do Jamor. Mesmo assim, ainda na primeira etapa conseguiu sair na frente com gol de Índio. Já no segundo tempo, o desempenho melhorou e o placar foi ampliado com tranquilidade. Hermes, num chutaço de longa distância, marcou o segundo. E Aloísio, que entrara no lugar de Nestor, encerrou a contagem com uma cabeçada de puro oportunismo.

Uma nota curiosa sobre o adversário é que nele atuava o atacante uruguaio Umberto Buchelli, de curta e discreta passagem pelo Flamengo (seis jogos) entre abril e maio de 1945. Ao fim da excursão, entre as muitas manifestações de carinho recebidas pela delegação em Portugal, foi oferecida no dia 20, antes do retorno ao Brasil, uma suculenta feijoada por parte do Escritório Comercial do Brasil em Lisboa, em evento que contou também com a presença dos presidentes de Belenenses, Benfica e Sporting, os três grandes clubes lisboetas.

O RETORNO NOS BRAÇOS DO POVO

No Largo da Carioca, a recepção digna de campeões (Foto: O Cruzeiro).

A delegação embarcou de volta ao Brasil no dia 26, chegando ao Galeão na tarde do dia seguinte. E o que se seguiu foi uma aclamação popular digna de campeões do mundo. “Carnaval em junho: chega o Flamengo!”, anunciava o Jornal dos Sports. Do aeroporto, o cortejo de recepção passou pelas avenidas Brasil, Francisco Bicalho e Presidente Vargas, seguindo pela rua Uruguaiana, atravessando o Largo da Carioca e continuando pela avenida Rio Branco e pela praia do Russel até a sede rubro-negra na praia do Flamengo.

Já a partir do meio-dia, mais de quatro horas antes da previsão do desembarque, as ruas do centro da cidade já estavam tomadas de homens, mulheres e crianças com bandeiras do Flamengo. Após o pouso do avião da Scandinavian Airlines na pista do Galeão e da descida de jornalistas e dirigentes, apareceu Biguá, o primeiro jogador. Foi ovacionado. E o cortejo que veio em seguida literalmente “parou o trânsito e fechou o comércio” no centro, como descreveu o Jornal dos Sports em sua manchete do dia seguinte.

Era o Flamengo que retornava invicto da Europa, aclamado por seu povo.

Há 60 anos um Fla que soube crescer na hora certa vencia o Torneio Rio-São Paulo

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No pôster da Revista do Esporte, os campeões do Torneio Rio-São Paulo de 1961. Em pé: Joubert, Ary, Jadir, Bolero, Carlinhos e Jordan. Agachados: o massagista Luiz Luz, Joel, Gerson, Henrique, Dida e Germano.

Crises disciplinares, goleadas, classificação obtida no limite e até a renúncia de um presidente. E, claro, uma arrancada final maravilhosa. O caminho até a conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1961, há exatos 60 anos, teve tudo isso. Mais Flamengo, impossível. Aquela foi a única vez que o clube conquistou oficialmente o torneio interestadual organizado em conjunto pelas federações carioca e paulista. E o título fez a ponte entre duas gerações de talentos formados no clube e que escreveram seu nome na história rubro-negra.

O CONTEXTO

O paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich retornara ao comando técnico do Flamengo em julho de 1960 após uma temporada dirigindo o Real Madrid. O time, entretanto, vivia momento de transição e mesmo com o “Feiticeiro” de volta não chegou a cumprir uma grande campanha no Carioca daquele ano (terminou em quarto). De resultado marcante, apenas a vitória por 3 a 1 no Fla-Flu do returno que manteve as esperanças do America de vencer o título que no fim das contas conquistaria. Fora isso, tornava-se cada vez mais nítido o talento da nova geração de jovens formados no clube e ponteada pelos meias Carlinhos e Gerson e pelo ponta-esquerda Germano.

Logo no começo do ano seguinte, porém, o Fla já retomaria o rumo das conquistas ao levantar o Torneio Internacional Octogonal de Verão, também disputado por Vasco, São Paulo, Corinthians, Boca Juniors, River Plate, Nacional e Cerro de Montevidéu. A prestigiosa competição disputada em turno único no mês de janeiro, com jogos no Rio, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu, já teve sua história completa contada neste post. Três dias depois da conquista, confirmada com vitória de 2 a 0 (gols de Gerson) sobre o Cerro no Estádio Centenário, o time seguiu para Córdoba, na Argentina, onde goleou o Talleres por 5 a 0 em amistoso. E então ficou quase um mês sem jogar.

Quando voltou, em 25 de fevereiro, foi para disputar um amistoso com o Corinthians no Parque São Jorge. Era um jogo sem grande importância, apenas para marcar a inauguração dos refletores do estádio alvinegro, também conhecido como “Fazendinha”. Mas o Fla, sofrendo muito com a falta de ritmo de jogo, acabou goleado por 7 a 2. O placar contundente (mesmo levando-se em questão a irrelevância do confronto) diante de um adversário o qual o Flamengo havia derrotado dentro do Pacaembu por 2 a 1 em janeiro, no Octogonal, teve repercussão muito ruim na Gávea, em especial por faltar apenas uma semana para a estreia da equipe no Torneio Rio-São Paulo.

Naquele ano, a competição teve o regulamento modificado pela primeira vez desde que havia sido instituída regularmente, em 1950. Deixando de lado o turno único e pontos corridos simples, o torneio agora teria duas etapas. Na primeira, classificatória, os dez clubes se enfrentavam, mas para efeito de contagem de pontos eram divididos em dois grupos: o carioca e o paulista. Os três melhores de cada chave avançavam para a fase final, na qual desta vez só haveria confrontos entre as equipes de estados diferentes (cariocas versus paulistas). O time que somasse mais pontos nesse turno final seria o campeão.

A CAMPANHA

São Paulo 1×2 Flamengo

O Flamengo que estrearia contra o São Paulo no Pacaembu na noite de sábado, 4 de março, teria novidade: a reestreia do ponta-direita Joel, repatriado após dois anos e meio no Valencia, da Espanha. Um dos símbolos do clube na década anterior, remanescente do tricampeonato carioca em 1953/54/55 (junto com outros nomes do time, como Jadir, Jordan, Dida e Babá) e campeão mundial com o Brasil na Suécia em 1958, chegava para agregar experiência a um elenco de resto muito jovem. No jogo, o Fla foi melhor no primeiro tempo, levou mais perigo ao gol tricolor e abriu o placar aos 15 minutos quando Babá recebeu belo passe de Dida e chutou sem chances para o goleiro Suli.

Uma formação do ataque rubro-negro no torneio em foto da Revista do Esporte. Em cima: Gerson, Henrique e Dida. Abaixo: o repatriado Joel e Babá.

Na etapa final, o São Paulo treinado pelo ex-rubro-negro Flávio Costa reagiu e empatou logo aos quatro minutos: Peixinho foi lançado em profundidade, a defesa rubro-negra parou pedindo impedimento, mas a jogada seguiu com o ponta tricolor vencendo o estático goleiro Fernando. Porém, dois minutos mais tarde, Henrique livrou-se de um defensor e fez ótima assistência para Dida, que, com muita categoria, ajeitou e fuzilou Suli. No fim, o São Paulo tentou o abafa, mas parou na valente defesa do Fla, enquanto os rubro-negros até criaram oportunidades para ampliar a contagem nos contra-ataques.

Palmeiras 2×3 Flamengo

Entre o jogo anterior e este, mais crise: na segunda-feira, com a tarde de folga, alguns jogadores voltaram ao hotel além do horário determinado e foram afastados por Fleitas Solich. O treinador fez contato com o Rio, onde os dirigentes participavam de um jantar de encerramento do Octogonal de Verão. Ali mesmo no evento foi acertada a venda de Moacir – um dos envolvidos no ato de indisciplina – para o River Plate. O Fla chegou a manter conversas com outros clubes, como o Corinthians, a respeito de negociações envolvendo Henrique e Dida, mas elas não evoluíram. Dias antes, o clube havia recusado uma proposta do Boca Juniors por Gerson, que não estava entre os afastados por Solich.

Na quarta-feira à noite, no Pacaembu, os “negociáveis” deram uma resposta e tanto. Henrique abriu o placar cobrando falta na gaveta do goleiro Valdir de Moraes logo aos cinco minutos. O Palmeiras empatou com o centroavante Humberto acertando um sem-pulo da marca do pênalti aos 15. Mas antes do fim do primeiro tempo o Fla passou de novo à frente num contra-ataque fulminante: Gerson lançou Germano na esquerda, o ponta passou por Djalma Santos e entregou a Dida, que avançou a bateu para marcar o segundo.

Na etapa final, o Flamengo perdeu algumas chances de ampliar logo no início e acabou sofrendo o empate aos oito, quando Chinesinho se atirou de cabeça após escanteio e bateu Fernando. Foi a vez do Palmeiras se animar e desperdiçar algumas chances para a virada. Até o Fla voltar a mexer no placar aos 15 minutos: Joel lançou Henrique, e o centroavante cruzou para Dida. O camisa 10 acertou um maravilhoso chute de primeira, de virada, da marca do pênalti para anotar o terceiro do Fla. Daí em diante, só deu Flamengo, com direito a atuação brilhante do garoto Germano, dando trabalho ao experiente Djalma Santos.

Gerson e Germano: destaques contra o Palmeiras (Foto: Revista do Esporte)

Flamengo 1×7 Santos

Aparentemente, a vitória sobre o Palmeiras serviu como um analgésico para a crise rubro-negra. Porém, quando seu efeito passou, as dores voltaram com força redobrada. O Santos vinha com Pelé em forma espetacular. Goleara o Vasco na estreia por 5 a 1 no Pacaembu e em seguida vencera o Fluminense por 3 a 1 no Maracanã com o camisa 10 marcando o tento histórico que mereceria placa no estádio. Mesmo assim, o Fla começou fazendo um jogo bem parelho naquele sábado à noite. As chances se sucediam de um lado a outro. Até que, aos 22, Fernando não conseguiu segurar um chute de Pelé e Pepe marcou no rebote. E ainda no primeiro tempo, o próprio Pelé também deixou o dele.

Na etapa final, o Flamengo desmoronou fragorosamente, mesmo com a entrada no intervalo de um Jadir ainda longe de sua melhor forma. Pelé fez o terceiro aos quatro minutos. Coutinho ampliou aos seis. Henrique, na raça, diminuiu aos oito. Mas a goleada não parou: Dorval fez o quinto aos 10 e Pepe, de pênalti, marcou o sexto aos 12. Por fim, trocando passes e envolvendo a defesa rubro-negra com tranquilidade, o Santos ainda chegaria ao sétimo aos 30 minutos, outra vez com Pelé – que marcou três gols e participou dos outros quatro.

Fluminense 2×0 Flamengo

Depois da goleada sofrida diante de um Santos embalado, o Fla enfrentaria agora um Fluminense vindo de três derrotas. Na véspera do clássico, marcado para uma quinta-feira à noite, o zagueiro reserva Santana, na Gávea desde 1958, rescindia seu contrato e tinha cogitada uma transferência exatamente para o clube de Laranjeiras. Mais uma vez, o Fla começou bem a partida e chegou a acertar a trave com Dida. Mas, mais uma vez, deixaria o campo derrotado. Num jogo tecnicamente opaco, o Flu abriu o placar no fim do primeiro tempo e fechou no fim do segundo, com o atacante Jaburu marcando os dois tentos. Na metade da etapa final, o Flamengo ainda perdeu Gerson, expulso por reclamação pelo árbitro Wilson Lopes de Sousa.

Botafogo 3×0 Flamengo

Folgando na rodada de fim de semana, o Flamengo teve seis dias para se preparar para a partida seguinte – novamente um clássico, agora contra o Botafogo, na noite de quarta-feira. E o time sofreu mudanças: Ari, barrado após as falhas no amistoso contra o Corinthians, voltava ao gol; enfim totalmente recuperado, Jadir voltava à zaga no lugar de Nelinho; o garoto Norival entrava no meio, no lugar do suspenso Gerson; e Luís Carlos aparecia na ponta-direita substituindo Joel, poupado para recuperar sua melhor forma física. Só o resultado é que não foi diferente.

O roteiro, aliás, foi o mesmo das derrotas anteriores: o time fez um bom primeiro tempo, que terminou num parelho 0 a 0. Mas na etapa final, o Botafogo deslanchou para uma vitória tranquila. Que começou num lance de azar rubro-negro: Garrincha foi à linha de fundo e arriscou um chute torto e sem direção, mas a bola bateu no peito de Jadir (que vinha cumprindo ótima atuação) e entrou. Mais tarde, o mesmo Garrincha serviria a Quarentinha para marcar o segundo e, por fim, anotaria o terceiro aproveitando um recuo malfeito de Joubert para Ari. A situação do Flamengo ficava cada vez pior, e o time sofria a ameaça real da desclassificação no primeiro turno.

Flamengo 2×0 Portuguesa

O jogo do sábado à tarde contra a Lusa, lanterna do grupo paulista, era a chance de reabilitação para o Flamengo, que naquela altura ocupava apenas a quarta colocação da chave carioca e estaria eliminado se a primeira fase terminasse assim. E também era a oportunidade de reatar com o Maracanã: até ali no torneio, o time havia vencido seus dois jogos no Pacaembu, mas perdera os três no palco carioca. Ainda sem Gerson (suspenso) e Joel (lesionado), o time contaria novamente com Norival no meio, mas Luís Carlos dava lugar a um improvisado Germano na ponta-direita. Nelinho retornava na zaga, mas no lugar de Bolero e ao lado de Jadir.

E, de fato, não houve maiores surpresas: o Flamengo dominou o jogo inteiramente, com o jovem Norival aparecendo muito bem ao municiar o ataque e Dida em grande tarde. A Lusa assustou no começo, num chute de Jair da Costa que acertou a rede pelo lado de fora, mas de resto, praticamente assistiu à superioridade rubro-negra. Nem mesmo o fato de o primeiro tempo terminar sem gols enervou o time de Fleitas Solich. E na etapa final o placar foi inaugurado logo aos cinco minutos, com Babá completando um cruzamento de Henrique para vencer o goleiro Felix após uma sequência de intensa pressão rubro-negra. O arqueiro da Lusa saiu lesionado na metade do segundo tempo, dando lugar ao argentino e ex-rubro-negro Chamorro. E este levaria o segundo gol do Fla, a nove minutos do fim, numa jogada clássica de Dida: o domínio, a arrancada e a finalização implacável. A classificação ficava mais próxima.

Flamengo 2×1 America

Outros nomes retornaram ao time para a partida contra os rubros, detentores do título carioca: Bolero voltou à zaga no lugar de Nelinho e Gerson reapareceu no meio-campo, saindo o garoto Norival. No ataque, ainda sem Joel, Solich testou outro juvenil, Espanhol, na ponta-direita. O America precisava pontuar para evitar a eliminação precoce. Mas o Flamengo fez o resultado com certa tranquilidade. Foi melhor desde o primeiro tempo, quando Dida acertou a trave, e abriu a contagem aos 19 minutos da etapa final num chutaço de Carlinhos da intermediária. Aos 32, Gerson recebeu de Henrique e disparou outro petardo, ampliando o placar. Aos 38, numa disputa com Jadir, Quarentinha conseguiu diminuir para o America. Mas o jogo ficou nisso, e o Fla conseguiu uma vitória fundamental, ao mesmo tempo em que alijava o rival do torneio.

Porém, nem mesmo com o time se aproximando da classificação o Flamengo deixou de viver um dia agitado. A bomba da vez foi nada menos que a renúncia do presidente do clube, George Fernandes, alegando motivos familiares e profissionais. Economista, banqueiro e empresário do ramo imobiliário, George estava a dois dias de completar seu primeiro ano no cargo. Tinha apenas 31 anos de idade quando foi eleito mandatário do clube, um dos mais jovens da história rubro-negra. O Flamengo já vinha enfrentando uma séria crise financeira quando ele assumiu.

O jovem presidente George Fernandes: saída surpreendente (Foto: Manchete).

Após sua saída, o vice-presidente geral Osvaldo Aranha Filho assumiu a Presidência interinamente por pouco mais de um mês e meio, antes de serem convocadas novas eleições – vencidas em 16 de maio por Fadel Fadel, diretor de Esportes Profissionais e, posteriormente, de Futebol entre 1952 e 1957 e vice geral na gestão de Hilton Santos (1957-60).

Flamengo 2×1 Vasco

No dia seguinte à vitória do Fla sobre o America, o Vasco goleou o Fluminense por 4×1. O resultado levou os cruzmaltinos à liderança da chave carioca ao lado do Botafogo com 10 pontos. E deixou os tricolores com apenas seis tendo só mais uma partida por fazer. O Fla, naquela altura, tinha oito pontos e um jogo a menos que o Flu. Ou seja: bastava um ponto nos dois últimos jogos para selar a classificação. E o próximo adversário do time de Fleitas Solich seria justamente o Vasco, embalado e completo. O Flamengo não vencia o rival desde o Rio-São Paulo do ano anterior, perdendo os três confrontos seguintes (os dois pelo Carioca de 1960 e também o duelo pelo Octogonal de Verão), todos por 1×0.

Assim, apesar de ter comparecido em maior número, a torcida rubro-negra chegou ressabiada. Os vascaínos, pelo contrário, estavam confiantes e receberam seu time com enorme festa. E parecia que a quarta vitória seguida tinha começado a se desenhar quando, aos 24 minutos, Delém (que havia marcado o gol da vitória no segundo 1×0 da série) escorou de primeira um cruzamento de Sabará da direita e abriu o placar. O Flamengo tentava reagir, mas não parecia estar numa tarde favorável. Em momento nenhum foi dominado, mas tinha agora o placar e o tempo jogando contra.

Até que Gerson bateu uma falta com seu habitual chute forte, e o goleiro Ita não conseguiu segurar. A bola ricocheteou e tomou o rumo das redes. Era o empate aos 42 minutos da etapa inicial. E o Flamengo acordou. O rugido da torcida já era diferente no intervalo. E na volta, seria premiado com um gol épico aos 15 minutos: Gerson bateu uma falta da intermediária lançando para a área. Correndo ao lado de Bellini, o diminuto ponteiro Babá deu um salto absurdo e ganhou a disputa pelo alto, tocando de cabeça para encobrir Ita, que saía para tentar interceptar. A vitória de virada não apenas selava matematicamente a classificação ao turno final como colocava o Fla no bolo da liderança da chave carioca, ao lado da dupla alvinegra.

Corinthians 3×0 Flamengo

Já classificado, o Flamengo encerrou sua campanha naquela primeira etapa enfrentando o Corinthians no Pacaembu num jogo sem importância e de pouco público, visto que ambos estavam garantidos no turno final. Para os rubro-negros, a única motivação – mesmo assim muito pequena – era tentar a revanche da goleada sofrida no amistoso da Fazendinha. Havia também a oportunidade de dar jogo ao ponta Joel, recuperado fisicamente. Por outro lado, Babá estava de fora com um problema na coxa. Mais letal (e jogando em casa), o Corinthians acabou vencendo sem grande dificuldade.

O placar começou a ser alterado na metade do primeiro tempo num gol contra de Joubert, que desviou um chute de Joaquinzinho tirando do alcance do goleiro Ari. Sem se preocupar tanto com o resultado, o Fla voltou para a etapa final fazendo experiências – o centroavante Henrique foi recuado para a armação, com Gerson jogando mais adiantado – e até acertou uma bola na trave com o próprio Gerson. Mas o time paulista ampliou num pênalti cobrado por Joaquinzinho e fechou o placar numa cabeçada de Zague.

FASE FINAL

O Flamengo avançava para o turno final com uma campanha na conta do chá, como se diz. Em nove partidas, foram cinco vitórias e quatro derrotas (e, portanto, dez pontos ganhos), com 12 gols marcados e nada menos que 20 sofridos (culpa das derrotas quase sempre elásticas). Havia muita coisa a corrigir. Mas também estava colocada a chance de um recomeço, já que os pontos eram zerados. Além do Fla, também seguiam na briga o Botafogo (11 pontos) e o Vasco (também 10) pelo lado carioca e Santos (líder disparado com 15 pontos), Corinthians e Palmeiras (ambos com 11) pelo grupo paulista.

Dida marca o segundo gol contra o Corinthians na última rodada da fase final, o gol que sacramentou a conquista do título rubro-negro (Foto: Manchete).

A fase final, em que só haveria confrontos entre cariocas e paulistas, teve início no dia 13 de abril com dois jogos (as rodadas seriam quase todas assim, com uma partida no Rio e outra em São Paulo). E ao contrário do que se esperava em vista do desempenho na primeira fase, os cariocas largaram na frente com duas vitórias expressivas: no Maracanã, o Vasco bateu o Santos por 2 a 1, enquanto o Botafogo derrotou o Corinthians no Pacaembu por 1 a 0. O Fla só estrearia três dias depois, diante do Palmeiras no Maracanã.

Flamengo 3×1 Palmeiras

Em sua estreia nessa fase final, o Flamengo mostrou-se um time coeso, jogando futebol coletivo na marcação e insinuante no ataque. Assim, abriu o placar logo aos 13 minutos num golaço de Joel, emendando de bicicleta um cruzamento de Henrique pela direita, numa inversão de papeis bem ensaiada por Solich desde sua primeira passagem pela Gávea. Nesse lance, o ponta-direita começava a coroar sua melhor atuação pelo Fla desde seu retorno. Mas o Palmeiras chegaria ao empate seis minutos depois, numa arrancada do lateral-esquerdo Geraldo Scotto que o atacante Humberto Tozzi aproveitou para mandar às redes.

O jogo foi para o intervalo empatado, num resultado que não fazia jus ao domínio rubro-negro. Mas logo aos dois minutos o Fla voltaria a estar na frente, quando Dida completou cruzamento de Germano, vencendo o goleiro Valdir de Moraes. Mesmo em vantagem, o time de Solich seguia apertando o adversário, chegando a acertar o travessão num chute de Carlinhos e a trave direita uma jogada espetacular de Dida, após driblar duas vezes Djalma Santos, com Germano chutando para fora na sequência. Enquanto isso, na defesa, Jordan era o destaque ao anular totalmente o genial ponteiro alviverde Julinho Botelho.

(Foto: O Globo)

Dida ainda passaria por Djalma Santos outra vez num lance em que fez um belo passe para Gerson, mas o Canhota acabou chutando para fora, desperdiçando ótima chance. No fim, porém, ele se reabilitaria ao receber lançamento de Joel e arrancar para marcar o terceiro gol rubro-negro, selando uma vitória que dava moral para os próximos compromissos. O Fla conseguia repetir o feito dos rivais cariocas em suas estreias – e ainda por um placar mais dilatado – e se colocava como concorrente sério naquela fase decisiva.

Só não estava na liderança porque no mesmo dia o Vasco fez seu segundo jogo, batendo o Corinthians na capital paulista por 2 a 0. Ao mesmo tempo que colocava pressão no Fla para que não perdesse sua partida seguinte, contra o Santos no Pacaembu no dia 19, o resultado também punha fim às chances matemáticas do clube do Parque São Jorge, que seria exatamente o último adversário rubro-negro, em confronto no Maracanã. Enquanto isso, era bom ficar de olho no duelo entre Botafogo e Palmeiras no Rio, no mesmo dia.

Santos 1×5 Flamengo

Desta vez o Santos não teria Pelé, que não se recuperara de uma lesão no ombro, nem o volante Zito. Mesmo assim era um timaço. Reunia seis nomes de Seleção entre os titulares: o zagueiro Mauro (que seria o capitão do Brasil na Copa do Mundo do Chile no ano seguinte), o médio Formiga, o armador Mengálvio, os pontas Dorval e Pepe e o centroavante Coutinho. Os atacantes Nenê e Sormani partiriam para uma longa e destacada carreira no futebol italiano. No banco, o ponteiro Tite também já vestira a amarelinha. E naquele dia estreava o “curinga” Lima, outro futuro nome de Seleção.

Do lado rubro-negro, porém, nenhum jogador, dirigente ou torcedor havia esquecido a goleada amarga sofrida para o adversário dentro do Maracanã na fase de classificação. De modo que a motivação para não apenas vencer, mas se possível dar o troco, era grande. O Santos entraria precisando vencer para seguir com chances. Mas o Flamengo não estava nem um pouco disposto a concedê-las. Já entrou em campo avassalador. E abriria o placar logo aos 18 minutos, após uma troca de passes entre Henrique, Dida e Gerson, com o Canhota passando por Formiga para bater para as redes.

Gerson e Dida comandaram a forra sobre o Santos (Foto: Revista do Esporte).

Já no primeiro tempo o Flamengo dominou inteiramente um Santos atarantado, perdido em campo. E pouco depois de Henrique perder chance clara com o gol aberto, Dida não vacilou e escorou de pé esquerdo, num sem-pulo, um cruzamento de Joel. Fla 2 a 0 aos 33 minutos. O time de Solich comandava as ações como se estivesse no Maracanã. Subjugava um Santos definido como “uma caricatura” pela crônica do Jornal dos Sports. E antes do intervalo viria o terceiro gol. Joel cruzou, Formiga e Mauro não conseguiram afastar e Gerson apareceu para chutar com calma e vencer o goleiro Lalá.

Na volta do intervalo o Flamengo nem pensou em diminuir o ritmo. Logo aos três minutos Joel recebeu na direita e bateu forte. Lalá não conseguiu segurar e a bola tomava o caminho das redes até Dida mergulhar de cabeça e confirmar o quarto gol. Cada vez mais entrosado e com fome de vitória, o Fla não dá trégua à defesa alvinegra. E, com passes de pé em pé, marca o quinto com Gerson – o grande destaque da partida – num chute forte que fura a rede aos 23 minutos. No fim, já se aproximando do último minuto, Coutinho se aproveita de um cochilo da modificada defesa rubro-negra para diminuir a goleada.

A revanche da primeira fase só não chega a ser pela mesma contagem porque o árbitro Alberto da Gama Malcher ignora dois pênaltis claros a favor do Flamengo na etapa final: um de Mauro sobre Gerson e outro de Formiga em Dida. Mas não faz mal. A exibição primorosa e a goleada inapelável fazem com que a equipe rubro-negra deixe o campo sob aplausos do público paulistano – cena rara num tempo de rivalidade regional aguçada. E o resultado, ao mesmo tempo em que elimina o Santos, coloca o Fla com ótimas chances no torneio e embalado para pegar um Corinthians também já fora do páreo em casa na última rodada.

Flamengo 2×0 Corinthians

Na mesma noite de quarta-feira em que o Flamengo humilhava o Santos no Pacaembu, Botafogo e Palmeiras paravam num 0 a 0 sob forte chuva no Maracanã. Com isso, o Alviverde também estava matematicamente fora da disputa, que chegava à última rodada restrita ao trio carioca. Mas o clube paulista ainda teria papel importante na definição do título: no sábado, em partida isolada, derrotou o Vasco por 1 a 0 no Pacaembu, complicando e muito a situação dos cruzmaltinos e beneficiando principalmente o Flamengo, que jogaria no dia seguinte contra o Corinthians no Maracanã.

A intensa comemoração do gol de Joel, o primeiro contra o Corinthians, que abriu o caminho para a conquista do torneio (Foto: Manchete).

Também no domingo, o Botafogo iria à capital bandeirante para jogar sua vida diante do Santos. Precisaria vencer e secar o Fla. Caso o Corinthians vencesse no Maracanã, o título seguiria para General Severiano. Já em caso de empate, os dois rivais cariocas se enfrentariam numa melhor de três. Havia ainda a chance de empate triplo, incluindo o Vasco, caso o Flamengo perdesse para o Corinthians e o Botafogo ficasse na igualdade com o Santos. Mas os rubro-negros dependiam apenas de suas próprias forças. E elas bastaram.

Naquela tarde de domingo, 23 de abril, o Flamengo entrou em campo com a escalação que havia, entre idas e vindas, firmado-se como a base da campanha. No gol, Ary Seixas, que desbancara Fernando após o Fla-Flu. Nas laterais, Joubert e Jordan destacavam-se como marcadores seguros. Pelo miolo de zaga, Bolero se firmava combinando vitalidade a uma boa técnica, enquanto Jadir, que andou se ressentindo de problemas físicos, voltava ao melhor de sua forma e contribuía com sua experiência, prestes a completar uma década de clube.

No meio, a classe de Carlinhos combinava-se com a visão de jogo e a boa presença ofensiva de Gerson, apontado como o grande jogador da competição e nome certo nas próximas Seleções Brasileiras. Já nas pontas, enquanto Joel voltava gradualmente à velha forma que o tornara ídolo, o ascendente Germano mostrava talento para ganhar a briga com o experiente Babá na esquerda. Pelo centro, a já conhecida dupla goleadora Henrique e Dida aliava a raça do primeiro ao futebol insinuante e extremamente habilidoso do segundo.

No primeiro tempo o Fla teve dificuldade para criar chances de gol e desperdiçou algumas boas (ou mesmo ótimas) que criou. Mas na etapa final, a equipe deslanchou. Aos sete minutos, uma bola alçada na área por Germano tomou o rumo das redes após cabeçada certeira de Joel, dando início à festa no Maracanã. E aos 23, Henrique ganhou uma disputa pelo lado direito e, da linha de fundo, fez o passe rasteiro que encontrou Dida. Na pequena área, o camisa 10 demonstrou oportunismo de centroavante e só escorou para as redes.

Daí em diante, o time apenas administrou o resultado. De acordo com a crônica do jornal Correio da Manhã, o Corinthians “nada fez, apenas impediu um maior escore”. Dando sequência a suas excelentes exibições naquela reta final do torneio, a equipe de Solich dominou inteiramente o jogo, com garra, brio e uma grande demonstração de jogo solidário, coletivo e objetivo em todos os setores. Superando inúmeros revezes dentro e fora de campo para embalar no fim, aquele renascido Flamengo levantava um título essencialmente rubro-negro.

Fleitas Solich, o outro treinador estrangeiro que revolucionou o Flamengo

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Seguramente entre os cinco maiores treinadores da história do Flamengo, o paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich provocou uma revolução de estilo de jogo, de conceitos táticos e de métodos de treinamento no clube e no próprio futebol brasileiro, especialmente em sua primeira passagem pela Gávea, entre 1953 e 1959. O técnico, cujo nascimento completa 120 anos nesta quarta-feira, ainda foi o responsável por revelar e lapidar muitos nomes históricos rubro-negros. No texto abaixo, publicado originalmente no site Trivela em novembro de 2019, apresentamos e contextualizamos sua importância para o Fla.

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O desempenho em campo do Flamengo de Jorge Jesus na temporada de 2019, sagrando-se campeão da Copa Libertadores e do Brasileirão de maneira quase simultânea com um futebol ofensivo, criativo e que valorizava a qualidade técnica, despertou a previsível comparação com o lendário esquadrão que o clube formou em sua geração mais vitoriosa, no início dos anos 80 – em especial pelo feito de repetir o título sul-americano após 38 anos.

Observando mais atentamente e ampliando um pouco mais o olhar para todo o impacto sobre o jogo no Brasil representado pela chegada – e sobretudo pelo sucesso quase imediato – do treinador português por aqui, ela evoca, talvez com mais propriedade, outra passagem um pouco mais distante da história rubro-negra: o período em que o técnico paraguaio Manuel Fleitas Solich esteve à frente do time, durante boa parte dos anos 50 e início dos 60.

Naquele momento, como hoje, havia um Flamengo com fome de conquistas, disposto a arriscar com um nome novo, trazido de fora, sem vícios do futebol brasileiro. E, da outra parte, um treinador também oriundo de outra cultura e ao mesmo tempo antenado com a vanguarda tática mundial daquele momento, apresentando ideias quase nunca vistas até então por aqui e que, em seu tempo, chegariam a refletir até na Seleção Brasileira.

A comparação expositiva de métodos, trabalho ou perfil entre os dois treinadores, no entanto, para por aqui. O foco deste texto incide basicamente sobre os principais aspectos da passagem de Solich pela Gávea. Porém, suas semelhanças e diferenças mais notáveis em relação a Jorge Jesus podem ser lidas nas entrelinhas – guardados, é claro, os devidos momentos no futebol brasileiro (e mundial) de então e de hoje.

MUDANÇA NECESSÁRIA

No fim dos anos 30, o Flamengo já ousara ao trazer da Europa o húngaro Dori Krüschner com o intuito de atualizar o time em conceitos táticos. O estrangeiro, porém, não foi visto com bons olhos pelo público e pela imprensa ao tentar implementar o WM em voga no Velho Continente. Em especial ao decidir recuar o classudo médio Fausto dos Santos (já sem fôlego em virtude da tuberculose que o mataria poucos anos depois) para o posto de zagueiro central.

A segunda grande ousadia seria a contratação de Manuel Agustín Fleitas Solich, paraguaio com longa carreira de jogador e treinador no futebol de seu país e também no argentino. Solich havia dirigido a seleção guarani na Copa do Mundo de 1950 e nos Campeonatos Sul-Americanos (atual Copa América) de 1949 e 1953, em ambos com vitórias marcantes sobre o Brasil – no segundo deles, por duas vezes, em resultados que acabaram valendo o título.

O Flamengo naquela altura enfrentava uma fila que já passava dos oito anos sem conquistar o Campeonato Carioca – desde seu primeiro tri, entre 1942 e 1944. O técnico daqueles títulos, Flávio Costa, havia deixado o clube em 1946 seguindo para o Vasco, retornado em 1951 e agora, janeiro de 1953, pegava de novo o rumo de São Januário, deixando o time rubro-negro de modo interino nas mãos do ex-jogador (e capitão) Jayme de Almeida.

O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, conhecera e se impressionara com o trabalho de Solich já no ano anterior, e tinha seu nome em mente para fazer do Flamengo enfim uma máquina pronta para ganhar títulos. No Sul-Americano de Lima, a crônica esportiva brasileira também ficara bastante impactada com o alto nível de competitividade da seleção guarani. A resistência ao técnico, porém, estava dentro do Flamengo.

Por ironia, alguns dirigentes do clube faziam forte campanha por outro estrangeiro, o uruguaio Ondino Viera. Este, no entanto, já era um velho conhecido do futebol carioca desde o fim da década de 1930, com passagens por Fluminense, Vasco, Bangu e Botafogo, levantando títulos cariocas com os clubes de Laranjeiras e de São Januário. O velho Ondino, porém, era mais do mesmo para a época e não contava com a simpatia de Gilberto Cardoso.

Fleitas Solich e o presidente Gilberto Cardoso: um Flamengo forte nos anos 50.

Decidido, o presidente rubro-negro viajou a Lima para conversar com Solich durante o Sul-Americano. Depois, os dois se encontraram em Buenos Aires – onde o Fla disputava um torneio e também onde o treinador residia – e enfim o contrato foi assinado. Solich se juntava uma pequena colônia paraguaia na Gávea, formada pelo goleiro García, pelo atacante Benítez e pelo médio Modesto Bria, já em vias de trocar os gramados pela comissão técnica.

De início, o técnico preferiu apenas observar o time comandado por Jayme de Almeida, que acabaria conquistando o torneio citado, um quadrangular contra Botafogo, Boca Juniors e San Lorenzo. Mais tarde, ao assumir o controle do time, usou o Torneio Rio-São Paulo, que marcava aquele início de temporada, para que os jogadores se ambientassem às suas ideias. Quando o Carioca começou, em julho, o Flamengo já estava em ponto de bala.

OS FUNDAMENTOS DE SOLICH

Para se entender o tamanho da revolução colocada em prática por Fleitas Solich no Flamengo e no futebol carioca e brasileiro é preciso antes de tudo compreender o contexto. Naquele começo dos anos 50, jogava-se aqui um futebol mais lento, cadenciado e sobretudo centrado no virtuose. Um jogo em que o craque ditava o ritmo e resolvia as partidas, com total liberdade para exibir sua técnica. O drible a mais era não só permitido como incensado.

Era também um futebol em que o velho sistema WM (numericamente, uma espécie de 3-2-2-3) ainda dominava – especialmente em sua variante criada aqui, a chamada “diagonal”, com o quarteto de médios e meias formando mais um losango que um quadrado. A bem da verdade, o WM ainda era o sistema dominante no mundo, mas já tinha seus dias contados – muito embora a imprensa daqui publicasse as escalações no ainda mais antigo 2-3-5.

No Brasil, diz-se que Martim Francisco havia sido o primeiro a adotar conscientemente o esquema 4-2-4 no Villa Nova campeão mineiro de 1951. No Rio, porém, o sistema só seria visto com a chegada de Solich. Especialmente quando ele passou a escalar o zagueiro Servílio como o que se conhecia então por médio direito, mas que, na prática, significava formar uma dupla de beques de área com o central Pavão. Aí já havia ficado claro.

Após uma goleada de 7 a 2 do Flamengo no Bangu na abertura do returno do Carioca, o jornalista Luiz Mendes (que se tornaria um dos comentaristas mais respeitados do Rio) escreveria na Esporte Ilustrado: “A introdução do jogador Servílio no posto que Jadir deixou vago e o recuo de Marinho para beque de extrema deu consistência nova e mais segura à defesa do clube da Gávea”, antes de explicar o então inusitado desenho tático da equipe de Solich.

“Aliás, o médio direito do Flamengo precisa ser meio zagueiro. Isso porque o sistema defensivo do clube rubro-negro coloca quatro homens atrás, formando uma primeira linha de defesa, dois no meio – Dequinha e Rubens – um pela esquerda e outro pela direita – ficando na frente quatro homens que sempre recebem a cooperação dos dois que ficam entre eles e os quatro da retaguarda”, observava Mendes. Era setembro de 1953.

O Flamengo campeão de 1953. Em pé: García, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha.

Não foi, porém, apenas no desenho tático e no sistema praticamente inédito por aqui que Solich trouxe novidades. O estilo implementado pelo paraguaio também diferia enormemente do que era aplicado aqui. Na Gávea, a ordem era um jogo direto, vertical, veloz e solidário, com a defesa coberta por zona e os pontas recuando para fechar os espaços. Tudo isso ancorado numa excelente preparação física, exigência natural para a intensidade proposta.

Numa excelente entrevista à Manchete Esportiva em outubro de 1956, na qual explicava em detalhes como armava suas equipes, Solich era até mais radical quanto à nomenclatura do sistema de jogo que empregava: em vez de 4-2-4, segundo ele, “a fórmula certa seria mais 5-5” (ou seja, cinco homens atacando e cinco defendendo). Espantado, o célebre jornalista Albert Laurence indagou sobre o meio-campo, ao que o Feiticeiro respondeu:

“Podemos abandoná-lo. O meio do campo é só para mostrar jogo bonito. Praticamente não interessa. E ganha-se jogos defendendo sua área e contra-atacando de repente em grande velocidade, com um jogo direto, sem atrasar-se em jogadas bonitas no meio do campo. Acho, aliás, que o futebol direto do 5-5 pode tornar-se muito agradável como espetáculo, quando perfeitamente executado”, explicou o paraguaio.

Em outra frase sobre o mesmo tema e que se tornaria célebre, o Feiticeiro afirmava: “O meio-campo é por onde a bola passa, não onde ela fica”. Se para aqueles anos 50, em que praticamente todos os clubes tinham um “solista” no setor, esse comentário parecia vindo de outro planeta, causava não menos estranhamento o hábito de Solich de parar os treinos com seu apito quando um jogador começava a driblar em excesso.

O paraguaio, no entanto, não era inimigo do drible: apenas considerava que ele só seria mais bem aplicado num caso em que não fosse possível passar a bola a um companheiro melhor colocado. Entusiasta do jogo de primeira, que tinha parentescos com a escola húngara contemporânea e o “push-and-run” inglês, o técnico proibia seus atletas de pararem e dominarem a bola quando sob marcação, já que nesse caso “é mais fácil destruir que construir”.

O FEITICEIRO

Vale lembrar que esse estilo de jogo era aplicado em todas as categorias do futebol rubro-negro: Solich tomava contava do time de cima da mesma forma que orientava as equipes juvenil e de aspirantes. E tudo que era necessário para colocar em prática as ideias do treinador em campo – desde os pesados treinos físicos até o incessante trabalho de fundamentos para apurar passes, chutes e cabeceio – era feito com rigor e atenção já a partir da base.

O Feiticeiro ensina seus truques a Dequinha, Jadir e Jordan em treino na Gávea.

As categorias de base recebiam toda essa atenção porque Solich era um grande revelador de talentos, ao estilo de Matt Busby. Não se furtava a promover jovens, até por dois fatores: em geral assimilavam com mais facilidade as ordens táticas e tinham mais fôlego para cumprir o que o time exigia em campo. E ainda podiam ser um fator surpresa, como ocorreu na partida que marcaria a estreia de Dida, um clássico diante do Vasco em outubro de 1954.

Benítez e Evaristo, pontas-de-lança, estavam lesionados e o veterano ponteiro Esquerdinha era dúvida. Para o primeiro caso, não restava opção que não recorrer ao mirrado garoto alagoano que vinha brilhando nos aspirantes. Para o segundo, em tese, entraria o reserva imediato, um certo Zagallo. Mas Solich surpreendeu: em vez deste, levou a campo outro garoto mirrado, Babá, também do time de aspirantes. Por um motivo simples: entrosamento.

A ideia era a de que a presença da dupla que formava a ala esquerda dos aspirantes seria benéfica a ambos, um ajudando o outro a se tranquilizar e se familiarizar. E de fato, eles cresceram para a ocasião: os dois garotos provocaram o caos na retaguarda cruzmaltina, sendo o destaque na vitória rubro-negra por 2 a 1. Mas nem por isso Zagallo perderia seu valor. Pelo contrário: pelas mãos do paraguaio, transformaria-se em outro jogador.

Vindo da base do America para a rubro-negra no início da década, Zagallo chegara à Gávea como um ponta rápido e driblador, mas nada além disso. E assim se mostrava quando começou a figurar no time de cima ainda sob o comando de Flávio Costa no fim de 1952. Com Solich, o jogador deixaria de lado as firulas e viraria um ponta armador, versátil e inteligente. Auxiliava a cobertura defensiva por aquele lado e puxava os contra-ataques.

A versatilidade, aliás, era outro trunfo com que contava aquele Flamengo, em especial no ataque. Índio podia jogar como centroavante ou ponta-de-lança. Paulinho foi ponta-direita e meia-direita antes de se sagrar artilheiro do Carioca de 1955 como centroavante. Evaristo tinha facilidade de jogar em todas as posições do quinteto ofensivo. As opções de elenco e possibilidades de formação eram inúmeras, e sempre escolhidas de acordo com o adversário.

Como se tudo isso ainda não bastasse, havia a característica que levara o treinador a receber o apelido de “Feiticeiro” no Brasil (ou “El Brujo” no Paraguai): a estupenda leitura tática dos jogos e a habilidade de mudar inteiramente o panorama deles mexendo apenas na posição das peças das quais dispunha em campo – lembremos: na época, as substituições não eram permitidas nos torneios em que vigoravam as regras oficiais, como o Carioca.

Logo no início do certame de 1953 houve a emblemática partida na Rua Bariri contra o Olaria, na época dirigido pelo ex-zagueiro rubro-negro Domingos da Guia. Faltando cerca de dez minutos para o fim, os alvianis venciam por 1 a 0, e o Fla não ia bem, com o garoto Maurício sentindo o peso de substituir o ídolo Rubens na meia direita. Até que o Feiticeiro Solich decide entrar em ação e girar quase completamente o posicionamento de seu ataque.

Maurício é remanejado para a ponta-esquerda. Esquerdinha, por sua vez, troca de lado e vai para a ponta-direita. Joel, o dono desta posição, passa a meia-armador, centralizado, municiando Índio e Benítez. Em sete minutos, o Fla marca três vezes e decreta a virada. A mais célebre mudança radical feita por Solich na equipe, porém, viria antes da última partida da melhor-de-três que decidiu o Carioca de 1955 e que daria o tricampeonato aos rubro-negros.

O time do tri. Em pé: Chamorro, Servílio, Pavão, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Dida e Zagallo.

O Flamengo, vencedor dos dois primeiros turnos, enfrentava o America, que levou o terceiro ao aproveitar o cansaço dos rubro-negros na reta final. No primeiro jogo da decisão, os comandados de Solich venceram por 1 a 0, gol de Evaristo no último minuto. No segundo, numa tarde de 1º de abril, os rubros aplicaram uma estrondosa goleada de 5 a 1. Três dias depois viria o desempate, para o qual o treinador tomaria decisões radicais.

Para conter o centroavante americano Leônidas “da Selva”, forte pelo alto e trombador, Servílio entraria na quarta zaga no lugar do titular Jadir. A outra mudança era no ataque: Paulinho, nada menos que o artilheiro do campeonato, era sacado do time para a entrada do garoto Dida, com Evaristo sendo remanejado da ponta de lança para o comando do ataque. E o Fla deu o troco numa final épica, vencendo por 4 a 1. Quatro gols de Dida.

Antes da partida, quando soube que estava fora da final, Jadir chorou. E Paulinho se revoltou. Mas ao fim dos 90 minutos, Solich pôde mostrar que tinha razão. Até porque para ele não era problema barrar quem quer que fosse. O antigo ídolo Rubens havia sentido isso. Meia de futebol filigranado e drible curto, mas com tendência a prender a bola um pouco mais, entrou em rota de colisão com o treinador e foi afastado, mesmo amado pela massa.

Os hábitos de beber e fumar, intoleráveis para o rigoroso Solich, também contribuíram muito para o afastamento do “Doutor Rúbis” do time, assim como o de outros jogadores. Do ponto de vista do preparo físico exigido para realizar o futebol intenso do time, fazia total sentido. Mas a barração revelava algo além: no Flamengo não havia espaço para vedetismos. Nenhum jogador poderia se considerar acima do time, por mais talentoso ou idolatrado que fosse.

Aquele Flamengo era certamente o melhor exemplo em seu tempo da predominância do coletivo sobre a individualidade. Não era o Flamengo de Dida, ou de Evaristo, ou de Rubens, ou de Joel, ou de Dequinha, ou de nenhum outro jogador. Era sobretudo o Flamengo de Solich. As digitais daquele time eram as do Feiticeiro. Seria ele o grande comandante da equipe que levantaria o primeiro tricampeonato carioca do recém-inaugurado Maracanã.

AS CONQUISTAS

No primeiro título, o de 1953, a conquista veio com uma rodada de antecipação e 21 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas nas 27 partidas. O ataque foi o mais positivo do torneio: 77 gols. E o time-base foi bem definido: o paraguaio García no gol; Marinho e Jordan nas laterais; Servílio e Pavão na zaga; Dequinha e Rubens no meio; enquanto Joel, Índio, o também paraguaio Benítez e Esquerdinha formavam o quarteto ofensivo.

No segundo, mais uma vez vencido com uma rodada de antecedência, a campanha foi quase idêntica, apenas com uma vitória a menos e um empate a mais. Desta vez, o destaque foi a defesa, a menos vazada do certame (27 gols sofridos). O time-base, no entanto, foi alterado: o alagoano Tomires entrou na lateral-direita, Jadir retomou seu lugar na zaga ao lado de Pavão, enquanto Evaristo e Zagallo ganharam as vagas de Benítez e Esquerdinha.

O terceiro foi o mais longo de todos: a campanha começou em 7 de agosto de 1955 e só terminou em 4 de abril do ano seguinte, estendendo-se por 30 partidas, com 21 vitórias, dois empates e sete derrotas. Mais uma vez, o time ostentou o ataque mais letal: 87 gols marcados. O time outra vez foi alterado: o argentino Chamorro entrou no gol, Paulinho ganhou mesmo o lugar de Rubens, e Dida passou a se revezar com Evaristo na ponta-de-lança.

Nos anos seguintes, o título carioca não viria, mas o time andaria sempre perto. Em 1956, em um campeonato mais curto (o terceiro turno fora abolido), o Flamengo perdeu o tetra por diversos motivos: o cansaço, as lesões de nomes importantes (Dequinha, onipresente no tri, ficou várias rodadas de fora), uma certa dose de máscara em alguns jogos, além de erros de arbitragem em outros. A taça acabou ficando com o Vasco de Bellini e Vavá.

Em 1957, numa briga cabeça a cabeça com Fluminense e Botafogo, o caneco foi perdido com uma sequência de empates na reta final, deixando o time apenas dois pontos atrás do Alvinegro de Garrincha, Didi e Nilton Santos, treinado por João Saldanha. Curiosamente, o Fla não perderia para nenhum destes campeões: somou uma vitória (1 a 0) e um empate (1 a 1) contra o Vasco de 1956 e duas igualdades (3 a 3 e 1 a 1) contra o dono da taça no ano seguinte.

Também sob o comando de Solich naquelas temporadas, o Flamengo obteve triunfos expressivos, entre eles os 6 a 4 sobre o mítico Honvéd de Puskas, no Maracanã, no dia 19 de janeiro de 1957. Aquele seria o primeiro de uma série de cinco amistosos entre as duas equipes disputados no Rio e em Caracas, entre janeiro e fevereiro, que terminou com duas vitórias para cada lado e um empate, mas com os rubro-negros anotando um gol a mais (18 a 17).

O prestígio de Solich seguia intacto em 1958, a ponto de, no início daquele ano, ser seriamente considerado para o posto de técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suécia. Quanto mais porque, depois de ter revelado vários jogadores para o escrete canarinho e vendido mais de um ataque inteiro (Paulinho, Rubens, Duca, Índio, Evaristo, Benítez, Esquerdinha), o paraguaio havia conseguido formar na Gávea outra equipe tão forte quanto.

Com Solich, a fábrica de craques da Gávea não parava de produzir talentos.

Na época, alegou-se que Solich não era diplomado, e que por isso havia sido preterido pela CBD. Típico argumento para escamotear o real motivo do veto ao treinador: sua nacionalidade. Em fevereiro daquele ano, a escolha surpreendente acabou recaindo sobre Vicente Feola, técnico duas vezes campeão paulista com o São Paulo nos anos 40, auxiliar de Flávio Costa na Copa do Mundo de 1950 e que vinha trabalhando como supervisor no Morumbi.

No ano anterior, Feola havia trabalhado com o treinador húngaro Béla Guttmann no São Paulo e comenta-se que fora muito influenciado por ele ao adotar o 4-2-4 na Seleção. Solich, porém, militava no futebol brasileiro há mais tempo, e Feola tinha conhecimento de seu trabalho: naquele início de 1958, assistira às goleadas do Flamengo sobre o Botafogo (4 a 0) e o Palmeiras (6 a 2) pelo Torneio Rio-São Paulo e se mostrava muito impressionado.

Com efeito, o Flamengo seria o clube com maior número de jogadores chamados tanto na pré-lista, com os convocados para a fase de preparação, quanto na relação final dos 22 para o Mundial da Suécia. Joel, Moacir, Dida e Zagallo integrariam o escrete campeão mundial, enquanto Jadir só não fez companhia a eles por ter sido preterido de última hora pelo quarto-zagueiro vascaíno Orlando, mais acostumado a atuar pelo lado esquerdo da defesa.

Zagallo, aliás, corria por fora na disputa pela ponta-esquerda da Seleção, chegando à titularidade com as lesões de Canhoteiro (que acabaria cortado) e Pepe. Mas, na Suécia, faria toda a diferença na equipe do ponto de vista tático. Era quem dava o equilíbrio entre os três setores, permitia os avanços de Nilton Santos e auxiliava tanto na criação quanto na marcação. Era o símbolo do futebol moderno daquele time, cumprindo o que já fazia no Flamengo.

No segundo semestre, mesmo após negociar Joel e Zagallo, o Fla novamente chegaria bem perto do título carioca, perdido apenas no chamado “supersupercampeonato”, um segundo triangular extra com Botafogo e Vasco – que levou a taça. Mas no início de 1959, o time de Solich ainda levantaria a prestigiosa Gran Serie Suramericana de Clubs, um hexagonal em Lima contra Peñarol, River Plate, Colo Colo, Alianza e Universitario.

Em julho daquele ano, o treinador encerraria sua primeira passagem pelo clube ao ser chamado para substituir o argentino Luis Carniglia no comando do Real Madrid. Voltaria exatamente um ano depois, ficando até janeiro de 1962. Nessa segunda fase, conquistou em 1961 o Torneio Octogonal de Verão (em que os rubro-negros enfrentaram Vasco, São Paulo, Corinthians, Boca Juniors, River Plate, e os uruguaios Nacional e Cerro), e o Torneio Rio-São Paulo.

Também nesta passagem, revelou mais um punhado de excelentes jogadores, como o volante Carlinhos “Violino”, o meia Gérson (o “Canhotinha de Ouro”) e o ponta Germano, mais tarde vendido ao Milan. Anos depois, a eles se juntaria outro nome histórico rubro-negro, o qual Solich lançaria no time de cima em sua terceira e última passagem pela Gávea, no segundo semestre de 1971: um garoto franzino de apenas 18 anos chamado Zico.

Invicto e avassalador, o Flamengo levantava há 100 anos o título carioca de 1920

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O time campeão de 1920 na capa da revista Vida Sportiva.

Poucas conquistas na história do futebol do Flamengo vieram de maneira tão tranquila quanto este terceiro título carioca, matematicamente confirmado há exatamente um século, em 28 de novembro de 1920, após uma vitória sobre o extinto Andarahy no também não mais existente estádio rubro-negro da Rua Paissandu. O caneco veio com dois jogos de antecedência e sem nenhum arranhão, de maneira invicta. Um autêntico passeio, e ainda carregado de simbologias em meio a um ano repleto de eventos, como veremos.

O ano de 1920 foi muito movimentado no Rio de Janeiro (então capital federal) e no Brasil, dentro e fora do esporte. O país ainda voltava à normalidade após a pandemia da gripe espanhola, que – ao contrário do que o nome popular sugere – surgiu nos Estados Unidos e de lá se espalhou pelo planeta, matando cerca de 3% da população mundial na virada de 1918 para 1919. Por aqui, o Rio, então a cidade mais populosa, teve também o maior número de infectados e de óbitos, chegando a registrar mil mortes num único dia.

Com consequência daqueles dias duros, conta-se que o Carnaval de 1920 (o primeiro após o país se livrar de vez do vírus) foi uma loucura, uma celebração ensandecida, uma catarse coletiva. Enquanto isso, a cidade e o país se preparavam para receber a visita oficial do Rei Alberto, da Bélgica, que passaria quase um mês por aqui, entre setembro e outubro. A viagem impactaria até mesmo no futebol, interrompendo a disputa do Campeonato Carioca por todo aquele período. Mas aquele não seria o único evento a suspender o certame.

Também em setembro haveria a disputa do Campeonato Sul-Americano no Chile, com a Seleção Brasileira (composta basicamente por jogadores de clubes cariocas) entrando em campo nos dias 11, 18 e 25. Naquele ano seria realizado ainda outro grande evento esportivo, os Jogos Olímpicos de Antuérpia, na Bélgica, entre agosto e setembro. Mas como o Brasil não levou equipe de futebol, os certames locais não foram interrompidos. Com todos esses eventos, o Campeonato Carioca começou mais cedo que o habitual, no dia 11 de abril.

UM BOM PRESSÁGIO EM VERMELHO E PRETO

Uma semana antes, porém, foi realizada a quarta edição do Torneio Início (ou “Initium” na grafia da época), a terceira com participação do Flamengo, que sairia vencedor pela primeira vez. Na série de jogos disputada no estádio de Laranjeiras, os rubro-negros estrearam superando o Bangu no número de escanteios (3 contra 1) após empate em 0 a 0 nos 20 minutos de bola rolando. Em seguida, venceram fácil o Mangueira por 3 a 0 na semifinal. E na final, um gol do ponta Carregal deu a vitória pelo placar mínimo sobre o São Cristóvão.

Carregal havia sido um dos quatro jogadores rubro-negros convocados para a Seleção Brasileira que em 1919 havia conquistado pela primeira vez na história o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), numa edição disputada no Rio. Mas apenas ele e o atacante Junqueira seguiam no clube para a temporada de 1920. O zagueiro Píndaro e o médio Gallo, remanescentes do primeiro time de futebol rubro-negro e veteranos das conquistas dos títulos cariocas de 1914 e 1915, decidiriam se aposentar ao fim de 1919 e se dedicar às suas profissões.

Píndaro, lendário zagueiro apelidado “Gigante de Pedra”, era médico sanitarista e ajudara a combater a pandemia da gripe espanhola na cidade enquanto fazia seus últimos jogos pelo clube. Mas ainda participaria da campanha de 1920, como veremos mais adiante. Por outro lado, o clube obteve importantes reforços. O maior deles era o goleiro gaúcho Julio Kuntz, revelado pelo Grêmio e com passagem rápida pelo obscuro Silva Manoel Football Club, do centro do Rio, mas que logo se sagraria um dos maiores da posição na história rubro-negra.

Kuntz, cuja história foi contada neste post, já se mostrou um arqueiro brilhante no Torneio Início, no qual não foi vazado nenhuma vez. Os outros dois principais reforços ficariam de fora destes jogos, mas logo entrariam em campo: o médio-direito Rodrigo, vindo do America, já seria titular na estreia no Carioca, contra o Villa Isabel. Já o atacante João de Deus Candiota, que havia feito algumas partidas pelo Botafogo em 1919, teria de esperar mais um pouco para jogar, antes de se firmar na equipe titular rubro-negra na competição.

O favorito destacado ao título daquele ano, porém, era o Fluminense. Detentor dos três últimos títulos (1917, 1918 e 1919), ainda que não pudesse contar com seu goleiro Marcos Carneiro de Mendonça por boa parte do certame de 1920, mantinha todos os seus demais destaques, como os médios Laís e Fortes e a poderosa linha ofensiva formada por Mano, Zezé, Welfare, Machado e Bacchi, que anotara 68 gols na campanha de 1919 – na qual somou 17 vitórias e uma derrota (para o São Cristóvão) em seus 18 jogos. Uma verdadeira máquina.

O certame era organizado pela Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA) e disputado por dez equipes em turno e returno no sistema de pontos corridos. E tinha como grande novidade o estreante Palmeiras Athletico Club, agremiação da Quinta da Boa Vista que se sagrara campeã da segunda divisão e substituía o Carioca Football Club, rebaixado no ano anterior. Mas, mesmo com todo o favoritismo do Fluminense, o Flamengo logo de saída mostrou suas credenciais à conquista do título, iniciando sua campanha de maneira fulminante.

A estreia veio no dia 18 de abril, uma semana após a abertura do certame, diante do Villa Isabel no campo do adversário, localizado no antigo Jardim Zoológico. O Fla abriu 2 a 0 com gols de Carregal e do meia Aníbal Candiota (um dos grandes talentos daquele time, apelidado “Príncipe dos Passes”, pela enorme qualidade técnica). Viu o time da casa descontar com o meia-esquerda Cecy na etapa final. Mas fechou o placar em 3 a 1 com um gol de Eustace Pullen. Era a primeira vitória do Fla sobre o adversário naquele campo, após dois empates.

O segundo jogo também seria como visitante, agora diante do Mangueira no campo do Andarahy, na rua Barão de São Francisco. O adversário – que também usava camisas rubro-negras, mas com listras verticais – já construíra na década anterior a fama de saco de pancadas da competição, mas mesmo assim o Fla chegou a ter dificuldades no primeiro tempo e esteve perdendo primeiro por 1 a 0 e depois por 2 a 1 (com Eustace Pullen marcando o gol de empate). Mas ainda voltaria a igualar antes do fim do primeiro tempo com Sisson.

Na volta do intervalo, o time deslanchou: Sisson marcou mais três vezes e Eustace Pullen também balançou novamente as redes para selar a vitória por 6 a 2. O jogo ainda ficou marcado pela agressão do médio Moacyr, do Mangueira, a Candiota, mas a turma do “deixa disso” agiu rápido e evitou que a briga se transformasse numa batalha campal. Curiosamente, o Fla só voltaria a entrar em campo pelo certame quase um mês depois, em 23 de maio, e logo no primeiro Fla-Flu da competição, atraindo enorme expectativa.

UM FLA-FLU PARA A AFIRMAÇÃO

“Como sempre acontece a lucta entre os dois mais terríveis adversários provoca uma grande curiosidade, fazendo com que a polícia mandasse suspender a venda de entradas porque não havia mais lugar onde ficar quem quizesse assistir o match”, escreveu, na grafia da época, o Jornal de Theatro & Sport. Era a primeira vez naquele certame que o Flamengo jogaria em seu estádio na Rua Paissandu. O Fluminense, por sua vez, defendia invencibilidade no clássico que vinha desde maio de 1916, quando o Fla venceu por 4 a 1 no mesmo palco.

O time rubro-negro para o Fla-Flu do primeiro turno.

O Flamengo escalaria naquela tarde o time que, com apenas uma alteração na meia-esquerda, formaria a base campeã: o extraordinário Kuntz era o goleiro, tendo à sua frente a dupla Burgos e Telefone na zaga. Os médios eram Rodrigo, Sydney Pullen e Dino. E a linha de ataque trazia Carregal, Candiota, Sisson, Eustace Pullen (que logo sairia do time para a entrada de João de Deus) e Junqueira. Sisson e Sydney Pullen – este, o nome mais experiente do time – muitas vezes trocavam de posição, de pivô do meio-campo para o ataque.

Naquela tarde de sol, o estádio da Rua Paissandu recebeu “colossal assistência, calculada em 15 mil pessoas”, segundo o jornal O Paiz. Para se ter uma ideia, a crônica do jogo não saiu detalhada como de costume nas publicações do dia seguinte porque o local destinado à imprensa também foi invadido pelo público. Sydney Pullen abriu a contagem para o Flamengo no primeiro tempo e Junqueira ampliou na etapa final, antes de Machado descontar para os tricolores. Depois, com grande atuação de sua linha média, o Fla segurou a vitória por 2 a 1.

A comemoração da torcida rubro-negra foi intensa: “Terminada a partida, o povo invadiu o campo e, em triumpho, carregou os victoriosos do dia”, registrou O Paiz. A vitória sobre os tricampeões era mais uma mostra de que o Flamengo poderia interromper a sequência de títulos do rival. Uma semana depois, porém, o time perderia seu primeiro ponto, ao empatar em 0 a 0 o clássico diante do America de novo na Rua Paissandu, numa partida em que o adversário perdeu dois pênaltis – um deles, cobrado pelo zagueiro Perez, defendido por Kuntz.

Em junho, o Fla entraria em campo duas vezes. Na primeira partida, uma ótima vitória sobre o São Cristóvão em Figueira de Melo sob chuva forte e campo alagado. O jogo bem movimentado teve como destaque Junqueira, autor de três gols, incluindo o que abriu o placar aos 15 minutos. Leão deixou tudo igual aos 26, e o jogo foi para o intervalo no 1 a 1. Na volta, Candiota colocou o Fla de novo na frente e Junqueira ampliou. Martins descontou e novamente Junqueira fez o quarto. No fim, Leão diminuiu de novo para 4 a 3, escore final.

A VOLTA DE UM VELHO CONHECIDO

Na segunda, contra o Palmeiras no dia 27, o Flamengo enfrentava sucessivas baixas na defesa: o zagueiro titular Burgos era desfalque, assim como o jovem Antonico, dos chamados “segundos quadros” (espécie de equipe de aspirantes), forçando o clube a recorrer a uma solução inusitada: chamar de volta o aposentado Píndaro, 28 anos, na ocasião exercendo sua profissão de médico sanitarista à frente do Departamento de Higiene da Prefeitura do Distrito Federal. Por um único jogo, ele voltaria a formar a dupla de zaga com Telefone.

Píndaro, é verdade, já havia reaparecido nos gramados uma semana antes, comandando a zaga do “scratch” (seleção) carioca que derrotara os paulistas por 2 a 1 na capital bandeirante num jogo-treino de observações para a formação da Seleção Brasileira que disputaria o Campeonato Sul-Americano no Chile e – então ainda se cogitava – também os Jogos Olímpicos de Antuérpia. E para a partida do Flamengo com o Palmeiras, a ser realizada no campo do America na rua Campos Sales, ele foi inicialmente relacionado para a reserva.

Mas acabou jogando e cumprindo atuação impecável contra um ataque adversário que incluía dois jogadores que se transfeririam para o próprio Flamengo na temporada seguinte: o ponteiro Orlando Torres e o centroavante Nonô – este, em particular, faria história vestindo rubro-negro. O Flamengo marcou duas vezes no primeiro tempo, com Junqueira e Candiota (aproveitando falha do zagueiro Dídimo), e disparou a goleada na etapa final, com mais dois gols de Candiota e um de Sydney Pullen, fechando o escore num elástico 5 a 0.

O próximo adversário, em 11 de julho, era o Botafogo, que até ali cumpria campanha perfeita, com seis vitórias em seis jogos, mas ainda sem enfrentar nenhum dos grandes da época. Seu primeiro clássico seria diante do Flamengo na Rua Paissandu. Com a bola rolando, os rubro-negros tiveram amplo domínio das ações: além de acertarem a trave num chute de Junqueira, obrigaram o goleiro alvinegro Oliveira a realizar sete defesas, contra apenas duas de Kuntz. Mas foi o Botafogo que abriu o placar com Petiot, num contra-ataque.

O Flamengo, no entanto, chegaria ao empate logo aos dois minutos da etapa final com Geraldo, num chute que desviou no zagueiro Sylla. E a virada, que premiaria o melhor time em campo, chegaria aos 26 minutos, quando Junqueira recebeu ótimo passe de Sydney Pullen e tocou para vencer Oliveira. Com o resultado, o Fla enfim assumia a liderança do torneio tanto em pontos ganhos quanto perdidos e se mantinha como a única equipe ainda invicta no campeonato. E logo na semana seguinte conseguiria ampliar essa vantagem.

De novo jogando na rua Barão de São Francisco, o Flamengo derrotou o Andarahy por 2 a 1 e se isolou na liderança. Após um empate a zero no primeiro tempo, Junqueira marcou duas vezes no início da etapa final, chegando a oito gols em oito partidas no campeonato, antes de Gilabert descontar para a equipe da casa. Naquela mesma tarde, o Botafogo voltou a ser derrotado, agora caindo para o Fluminense em Laranjeiras por 3 a 1, fazendo com que a vantagem dos rubro-negros na ponta da tabela aumentasse para três pontos ganhos.

A diferença, porém, cairia para dois pontos após a rodada do dia 1º de agosto. Fla e Bota teriam pela frente, respectivamente, Villa Isabel e Palmeiras, as duas equipes que ocupavam a rabeira da classificação. Enquanto os alvinegros golearam os estreantes por 6 a 1 em partida disputada em Laranjeiras, os rubro-negros – que não puderam treinar nenhuma vez durante a semana devido a outros compromissos de seus jogadores – amargaram um surpreendente tropeço na Rua Paissandu, parando no empate em 1 a 1.

O “club do Boulevard” saiu na frente com gol de Julinho e teve outras chances para marcar. Mas na etapa final, o Fla reagiu e chegou à igualdade com mais um gol de Junqueira aproveitando passe de Sydney Pullen. Depois desse tropeço, no entanto, o time rubro-negro voltou aos trilhos: uma semana depois, derrotou o Bangu por 2 a 0 na Rua Paissandu com um gol de Candiota no primeiro tempo e mais um de Junqueira na etapa final. E sete dias depois, bateu novamente o Botafogo, agora em General Severiano, tornando-se ainda mais líder.

O Flamengo abriu o placar logo no primeiro minuto com Sisson. Com disso, o Botafogo se viu obrigado a se lançar ao ataque e até chegou a empatar com gol de Vadinho, após uma série de grandes defesas de Kuntz. Mas o Fla retomou a vantagem ainda na etapa inicial, aos 19 minutos, quando o médio Japonês bateu escanteio e Sydney Pullen cabeceou para marcar. Os alvinegros voltaram para o segundo tempo dispostos a buscar de qualquer maneira ao menos o empate, pressionando intensamente, mas Kuntz esteve intransponível.

No último minuto, num contra-ataque, a jogada já tradicional do ataque rubro-negro: passe de Sydney Pullen para Junqueira, que se aproveita da indecisão do zagueiro Monti e da falha de posicionamento do goleiro Oliveira para chutar e marcar o terceiro gol do Flamengo, selando a importante vitória. O resultado no confronto direto fazia o Fla abrir quatro pontos de frente sobre o Botafogo, além de sete sobre o Fluminense, terceiro colocado – que, no entanto, tinha três jogos a menos. E então veio a pausa para os grandes eventos do ano.

ENQUANTO A BOLA PAROU…

Entre 15 de agosto e 31 de outubro foram disputadas apenas algumas partidas atrasadas. O Fla não chegou a jogar nesse período, mas alguns de seus atletas – Kuntz, Telefone, Rodrigo, Sisson, Japonês e Junqueira – entraram em campo pela Seleção Brasileira no Campeonato Sul-Americano do Chile. Apesar da fraca campanha do Brasil em Viña del Mar, o goleiro rubro-negro terminou o certame como um grande destaque, recebendo muitos elogios da imprensa internacional, prestígio que só aumentaria na edição seguinte do torneio, em 1921.

Pouco depois da disputa do Sul-Americano, cerca de 200 atletas do Flamengo das mais variadas modalidades – com o famoso remador Arnaldo Voigt à frente, como porta-bandeira – estiveram entre os participantes da grande parada esportiva em homenagem ao Rei Alberto da Bélgica, realizada em 26 de setembro em Laranjeiras. O campo da Rua Paissandu, aliás, foi onde se deu a concentração dos desportistas de todos os clubes da Liga. O evento teve ainda um jogo de futebol entre combinados de clubes da Zona Norte e da Zona Sul.

Na volta ao campeonato, em 31 de outubro, o Flamengo ainda vivia situação confortável na tabela. O Botafogo – que entrou em campo duas vezes durante a paralisação – diminuíra a diferença para um ponto, mas agora tinha dois jogos a mais. Em terceiro, o America vinha três pontos atrás dos rubro-negros, mas em 12 jogos contra 11. O Fluminense, por sua vez, seguia na mesma situação de antes (13 pontos ganhos contra os 20 do Fla, mas em apenas oito partidas). O primeiro adversário do Fla no retorno seria o São Cristóvão.

O time cadete (cujo goleiro tinha o curioso nome de Carnaval) bem que tentou equilibrar as ações na etapa inicial, mas o Fla foi mais preciso nas conclusões e levou para o intervalo o placar de 3 a 0, marcando Candiota, Japonês e Sydney Pullen. Logo no primeiro minuto da etapa final, Junqueira deixaria o seu, ampliando a goleada. No fim, Epaminondas diminuiria, mas a vitória de 4 a 1 não só confirmaria que o Flamengo não perdera o gás com a paralisação como ainda evidenciava que o título estava próximo, ajudado por tropeços dos rivais.

O Flamengo perfilado para enfrentar o São Cristóvão na reta final.

O Fluminense, por exemplo, sofrera uma surpreendente derrota por 3 a 0 para o lanterna Villa Isabel, aumentando para nove pontos sua distância para o Fla, quase inalcançável mesmo apesar dos três jogos a menos. Quanto mais porque, uma semana depois, o Flamengo voltou a vencer, fazendo 2 a 1 no Mangueira na Rua Paissandu (num jogo em que o goleiro adversário Milla evitou um placar muito mais elástico), enquanto o clube de Laranjeiras foi novamente derrotado, agora no clássico diante do Botafogo, por 2 a 1 em General Severiano.

A vantagem rubro-negra poderia ter aumentado na rodada de 14 de novembro, em que o time receberia o Palmeiras. Porém, jogando com muita displicência, o Flamengo voltou a perder um ponto após quatro vitórias seguidas, ficando no empate em 1 a 1 numa partida em que poderia ter até saído derrotado. Candiota abriu o placar para o Fla e o futuro ídolo rubro-negro Nonô decretou o empate, tendo ainda um gol anulado no segundo tempo. Atuação que muito provavelmente motivou sua contratação para a temporada seguinte.

PARA NÃO ALCANÇAREM MAIS

A recuperação viria uma semana depois na visita ao Bangu, no longínquo campo da rua Ferrer. A vitória começou a se desenhar ainda no primeiro tempo, quando o médio Waldemiro cometeu pênalti aos 24 minutos e o zagueiro rubro-negro Telefone cobrou e converteu. Junqueira, que passara em branco contra o Palmeiras depois de ter balançado as redes em nove jogos seguidos, ampliou para o Fla dois minutos depois. Mas ainda na etapa inicial o atacante banguense Claudionor (o “Bolão”) descontou num momento de pressão do time da casa.

No segundo tempo, os rubro-negros ainda ampliaram com Candiota, antes do zagueiro Leitão diminuir convertendo um pênalti cometido por Dino. Aliada aos tropeços, no mesmo dia, do Fluminense contra o Palmeiras em Laranjeiras e do America na visita ao Andarahy (ambos, empates em 1 a 1), a vitória por 3 a 2 sobre os alvirrubros deixou o Flamengo com a mão na taça, podendo ser campeão já na rodada seguinte, em 28 de novembro, caso vencesse o mesmo Andarahy na Rua Paissandu e o Botafogo não batesse o Bangu na Rua Ferrer.

Mas havia um problema: por alguma estranha razão, o Fla tinha enormes dificuldades sempre que enfrentava o alviverde da Zona Norte em casa, na Rua Paissandu. Para se ter uma ideia, desde 1916 os rubro-negros haviam recebido o Andarahy cinco vezes em seu estádio (entre amistosos e jogos pelo Carioca), vencendo apenas uma – por um magro 1 a 0 – e somando dois empates e duas derrotas acachapantes por 3 a 0 nas outras duas. Só a partir de 1922 é que bater aquele adversário no antigo estádio rubro-negro se tornaria rotineiro.

Contra essa pedra no sapato inesperada o Flamengo recorreu a sua dupla que já arquitetara e concretizara muitos de seus gols na campanha. Junqueira foi o primeiro a entrar em ação, logo no primeiro minuto, marcando o primeiro gol da tarde num chutaço em que a bola ainda bateu na trave antes de entrar. O Andarahy, que chutava de qualquer maneira e para todo lado sempre que tinha a bola nos pés, ainda tentou de novo atrapalhar as pretensões rubro-negras empatando aos sete minutos do segundo tempo com seu goleador Gilabert.

Mas a 13 minutos do fim, João de Deus cruzou para Sydney Pullen, e o “inglês”, com belos dribles, livrou-se dos beques alviverdes antes de mandar a bola para as redes. Era não somente o gol que recolocava o Fla em vantagem. Era o da vitória. E o do título antecipado, uma vez que, na distante rua Ferrer, o Bangu derrotava o Botafogo pela primeira vez em sua história, fazendo 4 a 3 num jogo em que os alvinegros saíram vencendo por 2 a 0, mas levaram a virada ainda no primeiro tempo. Caneco assegurado, o Fla agora jogaria para se manter invicto.

A defesa do America leva a melhor. Mas o título já estava ganho.

Corriam pela cidade, entretanto, os boatos dando conta de que, por já ter o título assegurado e também por não poder contar com alguns titulares, o Flamengo não entraria em campo e entregaria os pontos nos seus dois últimos compromissos, ambos na casa dos adversários, diante do America em Campos Sales no dia 5 de dezembro e do Fluminense em Laranjeiras no dia 18. Tais rumores foram logo desmentidos: mesmo desfalcado, o Fla arrancou um 0 a 0 dos rubros e um 2 a 2 dos tricolores, após estar duas vezes em desvantagem.

E o Flamengo foi campeão invicto. Não era a primeira vez que isso acontecia no campeonato (o próprio Fla levantara o título de 1915 sem derrotas). Mas nenhuma outra equipe até então havia obtido o feito jogando tantas partidas: foram 18 jogos, com 13 vitórias e cinco empates. Dois destes cinco, aliás, vieram quando a conquista já estava matematicamente assegurada. Além disso, com aquele título os rubro-negros iniciavam certa tradição de impedir tetras do Fluminense, algo que voltaria a acontecer em 1939 e 1986.

O título também foi marcante por outra simbologia: em 15 de agosto (mesmo dia da vitória no futebol sobre o Botafogo em General Severiano por 3 a 1), o Flamengo conquistara com a guarnição “Aymoré” seu terceiro título carioca de remo, esporte fundador. Era a primeira vez que o clube levantava num mesmo ano os certames da cidade em ambas as modalidades, tornando-se de fato “campeão de terra e mar”. E que, em um século, aconteceria 18 vezes.

Os 60 anos de Mozer, raça e talento na zaga rubro-negra da década de 1980

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Um dos melhores zagueiros da história do Flamengo, Mozer completa 60 anos neste sábado. Um dos mais jovens do time que venceu todos os títulos possíveis na virada 1981/82, tinha estilo que parecia uma síntese dos maiores do clube na posição: conciliava a raça e a coragem de Rondinelli, a técnica ousada que fazia lembrar Domingos da Guia e a excelência na saída de jogo e nas arrancadas ao ataque à imagem do paraguaio Reyes. E ainda acrescentava à receita a imposição física e a excelência no jogo aéreo na defesa e no ataque.

Em sua edição especial “Quem é quem no futebol”, publicada em setembro de 1991, a revista Placar descreve Mozer em sua ficha como “quarto-zagueiro, técnico, forte nas disputas corpo a corpo, impulsão fantástica, recuperação rápida”. Mas o que poucos sabem é que seus primeiros passos no futebol aconteceram em outra posição e que muitas de suas qualidades observadas ao longo da carreira só despontaram no fim da adolescência, quando o “Vampiro” (como passou a ser chamado pelos companheiros) cresceu e apareceu.

UM SALTO PARA O SUCESSO

Nascido num conjunto residencial de Bangu, Zona Oeste carioca, José Carlos Nepomuceno Mozer começou no futebol de salão (hoje futsal) atuando pelo Cassino Bangu e depois pelo Pavunense. Já nos gramados, o início veio no dente-de-leite no Campo Grande, chegando mais tarde à escolinha do Botafogo, então comandada por Neca, famoso revelador de talentos do futebol carioca da época. Mas sua carreira quase terminou por aí. Embora muito habilidoso, o meia-esquerda de 14 anos tinha problemas: era baixinho e mirrado.

Antevendo sua provável dispensa ao fim do ano, pediu a seu pai que o levasse numa peneira do Flamengo na Ilha do Governador. Aprovado, foi submetido ao mesmo tratamento de Zico para ganhar corpo e acelerar seu crescimento. Quando chegou ao clube, media 1,53 metro. Aos 19, já media 1,86. O rápido crescimento, por outro lado, diminuiu sua velocidade, levando-o a mudar de posição: de meia, passou a centroavante, volante e, por fim, quarto-zagueiro, por orientação do paraguaio Modesto Bria, técnico da base rubro-negra.

Campeão carioca juvenil pelo clube em 1979 e bicampeão brasileiro da categoria pela seleção carioca, Mozer já era apontado dentro e fora do clube como grande promessa, antes mesmo de ser promovido ao elenco principal. O lateral-esquerdo Júnior chegou a comentar na época que ele e seus companheiros pediam para chegar mais cedo ao Maracanã para poder assistir, do túnel, ao garoto jogar pela equipe de juvenis. “Ele sabe tudo de bola”, dizia o Capacete. Não demorou muito até ser chamado pela Seleção Brasileira de novos.

Em maio de 1980, a equipe canarinho dirigida pelo experiente técnico Nelsinho Rosa Martins (ex-jogador rubro-negro), viajaria para a França, onde participaria do Torneio de Toulon, tradicional competição entre seleções de base. Na primeira fase, o Brasil goleou a China (8 a 0), empatou com a Tchecoslováquia (1 a 1) e derrotou a Holanda (2 a 0). Na final, uma vitória sobre a dona da casa França na prorrogação (2 a 1) deu ao Brasil seu primeiro título no torneio. Elogiado por sua regularidade, Mozer foi apontado como o destaque do campeonato.

Ao lado de Júnior, Mozer carrega a Taça Guanabara de 1980.

Quando retornou, o Flamengo tinha acabado de se sagrar campeão brasileiro. Mas haveria uma oportunidade aguardando por ele na Taça Guanabara, que naquele ano voltaria a ser disputada como um torneio à parte do Estadual, como em seus primeiros anos. A estreia de Mozer no time principal viria nesta competição, no Fla-Flu de 13 de julho, vencido pelos rubro-negros por 2 a 0. Titular ao lado de Rondinelli, o novato começou nervoso, recorrendo a entradas duras. Mas logo se acalmou e fez partida de destaque por sua segurança.

O zagueiro de 19 anos seguiu como titular até o fim do torneio, ajudando o Flamengo a levantar o tricampeonato. Entre um jogo e outro, voltou ao time de juniores para conquistar o bi estadual da categoria. E em seguida, embarcou com o elenco principal para uma excursão europeia, atuando em alguns jogos e adquirindo valiosa experiência. Entretanto, no retorno ao Rio para a disputa do Estadual, percebeu seu espaço se reduzir quando o clube anunciou a contratação do ex-palmeirense Luís Pereira, vindo do Atlético de Madrid.

Agora em quarto lugar na fila dos zagueiros (atrás do novo reforço, de Rondinelli e de Marinho), Mozer precisaria ter paciência e aguardar sua vez. Pouco utilizado no Carioca de 1980 (a última competição do Flamengo sob o comando de Cláudio Coutinho) e também no Brasileiro de 1981 (quando Modesto Bria, seu ex-técnico da base, assumiu o time profissional), ele só ganhou uma sequência de jogos ao ser mais uma vez convocado para a Seleção de novos que retornaria a Toulon em junho daquele ano. E de lá voltaria com mais um caneco.

ENFIM, TITULAR ABSOLUTO

O título na França – no qual o Brasil passou sem sofrer gols diante de Itália (2 a 0), Portugal (2 a 0), União Soviética (1 a 0) e Tchecoslováquia (2 a 0) – rendeu novo destaque a Mozer, que agora se depararia com um cenário mais favorável na Gávea: Luís Pereira, que nunca se adaptara ao clube, foi negociado com o Palmeiras em 28 de abril, logo após o Brasileiro. E no fim de junho, durante a Taça Guanabara (agora de novo um turno do Estadual), uma lesão de Rondinelli abriu espaço para o retorno do jovem zagueiro. E ele não sairia mais do time.

Seleção de novos em 1981: Mozer, capitão do time, é o primeiro da esquerda para a direita. O volante Vitor, outro rubro-negro, é o quinto.

Jogando ao lado de Marinho, ou de Rondinelli, ou de Figueiredo – seu antigo companheiro de zaga no juvenil – ou mesmo de Leandro (que chegou a ser escalado no centro da defesa), Mozer só ficou de fora de três dos 43 jogos que o Flamengo faria de sua efetivação até o fim do ano – mesmo assim por ter sido poupado em meio à intensa rotina de jogos que em muitos momentos fazia a equipe entrar em campo até quatro vezes por semana, pelo longo Estadual em três turnos e pela Taça Libertadores da América, disputada em paralelo.

Mas a história quase foi diferente: em 19 de julho, o Flamengo enfrentava o Serrano no Maracanã e vencia por 1 a 0, quando houve uma cobrança de falta para o adversário, com a bola levantada para a área. Na barreira, Mozer tentou uma jogada de efeito, esticando o tronco para a frente e a perna para trás na tentativa de fazer o corte – o que conseguiu. Só que Dino Sani, novo técnico rubro-negro, considerou o recurso do zagueiro uma jogada irresponsável e tirou-o de campo ainda no primeiro tempo, além de dar uma bronca no intervalo.

Havia a expectativa sobre se o lance faria Mozer perder seu lugar no time. Mas Dino Sani – que já se indispusera com outros jogadores – caiu antes, substituído por Paulo César Carpegiani. Arestas aparadas, o zagueiro se firmou de tal modo que o clube não se importou em abrir mão de Rondinelli, negociando o antigo ídolo com o Corinthians em setembro. Afinal, o Flamengo já estava formando seu novo Deus da Raça, com a mesma garra e liderança (apesar da pouca idade) somadas à vantagem de ter a qualidade técnica de um meia.

E seria com Mozer como titular da zaga que o Flamengo conquistaria no fim daquele ano, num espaço de 21 dias, a Libertadores, o Estadual e o Mundial Interclubes. Nas três decisões suas atuações foram bastante seguras, com destaque para a do Carioca, no 2 a 1 sobre o Vasco de Roberto Dinamite na tarde de 6 de dezembro, que recebeu a seguinte avaliação do Jornal do Brasil: “O melhor da defesa. Não falhou uma vez sequer. Ganhou pelo alto, por baixo, deu chutões, mostrou categoria e entrou duro quando necessário”.

O NOVO DEUS DA RAÇA

Sua titularidade seguiu por boa parte do Brasileiro de 1982 (também vencido pelo Fla), no qual protagonizou uma virada sensacional sobre o Atlético-MG na segunda fase. Os rubro-negros saíram atrás com gol de Reinaldo aos 14 minutos e tiveram Figueiredo (improvisado na lateral direita) expulso ainda na primeira etapa. Mesmo com um a menos, o time chegou ao empate no segundo tempo, com gol de Adílio após passe de cabeça de Mozer aos 28 minutos. E mais tarde à vitória, na raça, em cabeçada fulminante do zagueiro a nove minutos do fim.

O campeonato, porém, terminaria para Mozer no jogo de ida das quartas de final contra o Santos, no Maracanã, ao fraturar uma costela. Seria a primeira lesão de um ano marcado pelos problemas físicos, em especial no joelho direito, restringindo sua participação a apenas três partidas do mês de setembro em diante. Quando esteve em campo, no entanto, foi muito bem: teve ótima atuação tanto no 1 a 0 no Vasco que valeu o penta da Taça Guanabara quanto nos 3 a 0 sobre o River Plate no Monumental de Nuñez pela Libertadores.

Operado para a extração dos meniscos do joelho direito em novembro de 1982, Mozer ficou fora até abril de 1983. Recuperado, tornou-se peça fundamental no ressurgimento do time durante o Campeonato Brasileiro com a chegada do técnico Carlos Alberto Torres. Já na estreia do treinador, contra o Corinthians no Maracanã no dia 17 daquele mês, o zagueiro marcou com uma bonita cabeçada o quarto gol do Flamengo na goleada por 5 a 1. E fez também um dos três tentos do time estranhamente anulados pelo árbitro gaúcho Roque José Gallas.

Porém, novamente as lesões deixariam o zagueiro de fora da decisão do torneio. No jogo de ida da final contra o Santos no Morumbi, Mozer teve ótima atuação e chegou a participar da jogada que culminou no gol de desconto na derrota por 2 a 1, o que manteve viva a esperança de título do Flamengo. Porém, no último minuto, foi atingido por uma cabeçada (não intencional) de Paulo Isidoro e sofreu afundamento no malar, tendo de ser operado de emergência assim que voltou ao Rio. No Maracanã, Figueiredo entrou em seu lugar.

O Flamengo viveu período turbulento nos primeiros meses após a venda de Zico à Udinese, em junho de 1983. Mas Mozer passou incólume por ele, a ponto de, no fim de julho, ser chamado pela primeira vez para a Seleção principal, então dirigida por Carlos Alberto Parreira, e seguir como titular por toda a campanha da Copa América daquele ano. Começava ali seu auge técnico atuando no futebol brasileiro. Especialmente no momento em que, além de se consolidar como uma verdadeira barreira na zaga, tornou-se também temível no ataque.

A AFIRMAÇÃO NO CLUBE E NA SELEÇÃO

Além de se aproveitar de sua estatura nas jogadas aéreas ofensivas, Mozer também se tornou um ótimo batedor de faltas. E, como Júnior era um lateral-esquerdo que apoiava mais por dentro, fazendo a função de meia-armador, Mozer tinha liberdade para descer ao setor ofensivo como um verdadeiro ala por aquele lado. E por aquele flanco ele andou fazendo jogadas maravilhosas. Como no encarniçado empate em 1 a 1 diante do Paraguai no Defensores del Chaco, pelas semifinais da Copa América, na noite de 13 de outubro de 1983.

A dois minutos do fim, o Brasil perdia por 1 a 0, gol de Morel, quando um balão para o alto do lateral Paulo Roberto no rebote de uma cobrança de falta encontrou Mozer descendo pela esquerda do ataque. E o beque fez uma jogada de ponteiro autêntico: um drible curto para descadeirar o primeiro adversário, uma dividida ganha no pé de ferro com outro marcador e o cruzamento da linha de fundo na medida para o sem-pulo violento de Éder, arrancando o empate num jogo nervoso. E que rendeu ao zagueiro a aclamação definitiva.

Pela avaliação do Jornal do Brasil, Mozer “foi, de longe, o melhor do Brasil, com uma grande atuação”. “Mostrou segurança e coragem”, destacou o diário, que também lembrou sua presença crucial nos dois lances mais importantes para a Seleção na partida. A bola paraguaia salva de cabeça, em cima da linha, com Leão já vencido, e a jogada inteira do gol de Éder. Onze dias antes, em lance semelhante (arrancada pelo mesmo lado), ele havia cruzado para Tita cabecear o gol da vitória de virada por 2 a 1 no Fla-Flu da Taça Rio.

Um dos maiores destaques em meio à recuperação rubro-negra naquele returno do Estadual, Mozer também fez partida impecável na tranquila vitória por 3 a 0 sobre o Vasco, na penúltima rodada, dominando completamente seu setor e apoiando com decisão. Como analisou o Jornal do Brasil: “Está realmente numa forma exuberante. Dificilmente é batido e ainda se dá ao luxo de ir à frente tentar jogadas de gol. Sempre que se lança leva perigo e, em muitas vezes, só foi parado com faltas. Bateu uma falta muito bem, mas Acácio defendeu”.

Com seu futebol se afirmando a olhos vistos, Mozer apresentaria um belo cartão de visitas para a temporada 1984 com outra jogada ainda mais impressionante logo no início daquele ano. Na noite de 11 de fevereiro, Flamengo e Santos jogavam no Maracanã pela rodada de abertura da Taça Libertadores da América. E o zagueiro já havia inaugurado o placar no primeiro tempo com um belíssimo sem-pulo no rebote de uma cobrança de falta de Tita. Mas nada perto do que ele faria pouco depois da volta do intervalo, aos 11 minutos da etapa final.

Após recolher a bola num ataque rubro-negro, o goleiro santista – o uruguaio Rodolfo Rodríguez – saiu jogando com um lançamento com as mãos, buscando o atacante Serginho Chulapa. Mas Mozer atravessou a linha do meio-campo e se antecipou brilhantemente, iniciando uma nova ofensiva do Fla. Percebendo o espaço à sua frente, arrancou como se fosse um ponta, gingou na frente do lateral Toninho Oliveira e, antes que o beque Toninho Carlos chegasse para dividir, disparou um verdadeiro míssil para as redes. Rodolfo nem viu.

No fim, o Fla goleou por 4 a 1. Assim como faria na “revanche” santista no Morumbi no dia 20 de abril: 5 a 0, com mais outro gol de Mozer, o segundo da partida, mergulhando num sensacional peixinho ao escorar cruzamento de Leandro para as redes. Semanas antes, pelo Brasileiro, ele havia sido crucial na vitória por 2 a 0 sobre o Internacional no Maracanã que valeu a passagem à terceira fase: marcou um belo gol de falta, com a bola caindo de chuá nas redes coloradas, e cruzou da direita para Dunga empurrar contra a própria meta.

O MELHOR DO PAÍS

“Que bola fina está jogando esse rapaz”, comentou João Saldanha em sua coluna no Jornal do Brasil. E, de fato, Mozer se tornava uma das referências técnicas daquele time. Era feroz no combate, imponente no jogo aéreo, de precisão cirúrgica nos desarmes, tinha ótimo senso de colocação e aliava classe e dinamismo ao sair jogando. Ainda que o Flamengo só tenha vencido a Taça Guanabara naquela temporada, seu zagueiro teve desempenho individual sublime ao longo de todo o ano, preservando ainda seu lugar na Seleção.

Mozer foi titular nos três jogos da curta passagem de Edu Antunes Coimbra pelo comando do escrete. Na única vitória, 1 a 0 sobre o Uruguai no Couto Pereira, foi um dos destaques: “Perfeito nas bolas rasteiras e pelo alto. Foi ao ataque nos momentos precisos e criou boas jogadas”, escreveu o Jornal do Brasil, que lhe deu nota 9. Naquele momento, era, sem favor algum, o melhor da posição em atividade no país, e possivelmente o mais completo (talvez apenas o uruguaio e gremista Hugo de León se igualasse). Vivia seu auge no Flamengo.

No início de 1985, a revista Placar perguntou aos técnicos dos 20 principais clubes do Brasileirão quais seriam seus 22 convocados para uma Seleção Brasileira formada por atletas atuando no país. Dos 18 que responderam (e Zagallo, treinador do Fla, foi um dos que declinaram), 17 indicaram Mozer como um dos zagueiros (foi o mais votado no geral, junto com o lateral Branco). Na mesma época, o jornalista gaúcho Ruy Carlos Ostermann, da Zero Hora, referia-se ao beque rubro-negro como “nossa discreta unanimidade”.

E o beque seguiria intocável também na passagem de Evaristo de Macedo à frente da Seleção. Ao fim dela, em maio de 1985, Mozer alcançara a marca de 18 jogos seguidos como titular do Brasil – série que só terminaria com a volta de Telê Santana, em junho, para as Eliminatórias da Copa do México. Era um Telê aparentemente buscando se retratar das críticas feitas por imprensa e torcida no Mundial anterior. Além disso, ao contrário de seus antecessores, teria a vantagem de contar com os astros que atuavam no exterior.

A VOLTA DAS LESÕES

Com isso, o técnico decidiu trazer Edinho, da Udinese, para escalá-lo na posição que havia sido do inseguro Luizinho na Espanha. Mozer passava à reserva. Dos 17 jogos deste segundo ciclo de Telê à frente da Seleção, o zagueiro rubro-negro atuaria apenas em cinco amistosos preparatórios disputados em março e abril de 1986. E, depois de ter sido incluído na lista final de 22 jogadores, acabaria fora da Copa ao se lesionar num treino já no México: ao girar o corpo para tentar uma cabeçada, torceu o joelho direito e rompeu o menisco interno.

A extensa preparação da Seleção e a artroscopia no joelho lesionado reduziram a presença de Mozer na campanha do título carioca de 1986 do Flamengo a três partidas: a goleada de 4 a 1 sobre o Fluminense na rodada inaugural, um dia antes da apresentação a Telê, e os dois últimos jogos da Taça Rio – empate em 1 a 1 com o Bangu e vitória de 3 a 2 sobre o Vasco (que garantiu a conquista do turno e a ida às finais). Mas um inchaço no tornozelo tirou o defensor da melhor-de-três decisiva contra os cruzmaltinos que deu o caneco ao Flamengo.

Em 1986, Mozer já não apresentava forma física e técnica tão exuberante quanto nos dois anos anteriores, e o nível de suas atuações oscilava mais. Mas ainda era capaz de fazer ótimas partidas. Como na estreia do time no Brasileiro, por exemplo, quando balançou as redes duas vezes na goleada de 4 a 1 sobre o Paysandu, uma delas em ótima cobrança de falta. Ou mais adiante, na segunda fase, quando teve presença destacada no primeiro Fla-Flu daquela etapa e diante do perigoso Guarani em Campinas, em jogos que terminaram 0 a 0.

Sua última competição disputada com a camisa rubro-negra seria o Estadual de 1987, do qual nem chegou a participar até o fim. Precisando fazer caixa, o clube anunciou sua venda ao Benfica por US$ 500 mil (cerca de Cz$ 21,6 milhões no câmbio da época) no dia 28 de junho daquele ano, poucos dias após o fim da Taça Rio. Curiosamente, o zagueiro quase foi parar no Porto, primeiro clube a se interessar por sua contratação após ter enfrentado o Flamengo num torneio em Paris. Mas os encarnados lisboetas chegariam na frente.

Mozer deixaria na Gávea um substituto de muito futuro: um baiano chamado Aldair, também de enorme qualidade técnica, mas de personalidade mais calma e introvertida. Porém, num primeiro momento, os dirigentes preferiram repor sua saída com outro nome mais experiente: por ironia, o mesmo Edinho que tirara sua vaga de titular na Seleção em 1985. Enquanto isso, o ex-rubro-negro começaria a fazer história no futebol europeu, onde atuaria por oito temporadas, sendo cinco no Benfica (em duas passagens) e três no Olympique de Marselha.

LENDÁRIO TAMBÉM NA EUROPA

O brasileiro marcaria sua passagem por ambos os clubes: venceria dois títulos portugueses e um da Taça de Portugal com o Benfica e se sagraria tricampeão francês no Olympique de Marselha. O título continental, porém, escaparia por duas vezes: pelos Águias diante do PSV em 1988 e pelo OM diante do Estrela Vermelha em 1991. Ambas as derrotas vieram nos pênaltis, mesmo com o zagueiro convertendo suas cobranças com categoria. Mas as duas campanhas rumo às finais foram muito marcantes para os torcedores dos dois clubes.

O ex-rubro-negro se tornaria uma lenda também nos dois gigantes europeus: no Benfica, a dupla de zaga que fez com o compatriota Ricardo Gomes (ex-Fluminense) na temporada 1988-89 é frequentemente citada como a melhor já formada pelo clube. Já no Olympique de Marselha, ele foi eleito por torcedores para a equipe histórica do clube, numa votação de 2010. Nela, ficou à frente de monstros do futebol francês que atuaram no clube na posição, como Marius Trésor e a dupla campeã do mundo pelos Bleus, Laurent Blanc e Marcel Desailly.

Na Seleção, mesmo tendo chegado a jogar a Copa de 1990, na Itália, e de ter sido de novo cortado de última hora por problemas físicos no Mundial dos Estados Unidos, quatro anos depois, teve presença bem mais esporádica do que no período entre 1983 e 1986. Foram só nove partidas oficiais, destacando-se a atuação de gala no empate em 1 a 1 com a Inglaterra em Wembley, em 17 de maio de 1992. Outro grande momento veio dois dias depois, na vitória por 1 a 0 sobre o poderoso Milan, em amistoso não-oficial disputado no San Siro.

Mozer penduraria as chuteiras aos 36 anos, no fim de 1996, depois de um ano e meio atuando no Japão, defendendo o mesmo Kashima Antlers onde tantos outros ex-rubro-negros brilharam, a começar por Zico. E parou como campeão, ao vencer a J-League daquele ano. Após o fim da carreira de jogador, voltou a morar em Portugal e trabalhou como auxiliar de José Mourinho no Benfica e no União de Leiria. Teve ainda breves passagens como treinador, comentarista e até dirigente. Mas na maior parte do tempo esteve afastado do futebol.

Só nunca esqueceu o Flamengo, a quem sempre fez questão de demonstrar toda a gratidão pelo que conquistou no (e com o) futebol. “Eu era um menino pobre. De repente me vi morando numa casa enorme, com piscina e conforto. O Flamengo me deu a chance de ser alguém”, declarou em entrevista emocionada à TV Cultura, em 1994. Os rubro-negros também nunca o esqueceram: no mesmo ano ele foi eleito para o esquadrão histórico do clube, escolhido em pesquisa da revista Placar. Um caso simbólico de reconhecimento mútuo.

O centenário de Jayme de Almeida, craque exemplar, gigante rubro-negro

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Exemplo de lealdade, disciplina e regularidade no futebol carioca e brasileiro da década de 1940, Jayme de Almeida é nome lendário no Flamengo, clube do qual vivenciou o dia-a-dia por 20 anos e ao qual serviu nas mais diversas funções. O médio-esquerdo que teria completado 100 anos no último sábado tem um currículo e tanto: foi titular do time do primeiro tri estadual rubro-negro entre 1942 e 1944, sendo capitão nas duas últimas conquistas. Exerceu o mesmo posto na seleção carioca e se colocou como nome de destaque na Seleção Brasileira. Penduradas as chuteiras, teve ainda participação decisiva no surgimento da melhor geração da história do futebol peruano. Um gigante cuja trajetória – desconhecida para muitos – merece ser resgatada.

Jayme de Almeida nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro, mas se mudou ainda muito novo com a família para Belo Horizonte. Filho de um ferroviário logo aposentado e de uma dona de casa, viu a família crescer até o 13º rebento. Destes, só dois (além dele) seguiram carreira. Bráulio foi goleiro no futebol mineiro e Tião, bem mais moço, esteve pelo Flamengo nos anos 1950. Entre as mulheres, destacou-se Lélia – a antropóloga e intelectual de referência internacional nas questões feministas e afro-brasileiras Lélia González.

O próprio Jayme era um personagem diferenciado entre seus pares. O futebol entrou em sua vida por acaso. Quando garoto, admirava o abolicionista José do Patrocínio. Numa era em que a maioria dos atletas mal se preparava para a vida após a bola, Jayme conciliou o auge de sua carreira no Flamengo com a graduação em Comércio numa instituição carioca. E era um dos raros jogadores a manter boas relações com o temperamental botafoguense Heleno de Freitas, com quem compartilhava o gosto pela leitura de autores como Dostoiévski.

Mario Filho, um dos pais fundadores da crônica esportiva brasileira, dedica algumas páginas de seu célebre livro “O Negro no Futebol Brasileiro” para falar de Jayme de Almeida. Na obra, o autor relembra o jogador como “incapaz de dar um pontapé”, assemelhando-se a “um Gandhi jogando futebol”. “Quando se queria citar um jogador modelo”, escreve Mario, “só um nome acudia à todas as bocas: Jayme de Almeida”. Sintetizando todas as simbologias que utilizara, o jornalista acrescenta: “Tudo nele rescendia à limpeza, à bondade, à lealdade”.

Outro popular cronista do futebol carioca daquele período, Vargas Netto mencionaria Jayme em uma crônica publicada em sua coluna no Jornal dos Sports em novembro de 1947: “No football eu lhe poderei citar o preto Jayme, do Flamengo. É um homem que tem finura inata. Já me haviam dito, e eu tive ocasião de observar. Muito branco precisa aprender com ele e não sei se conseguirá! Jayme possui o senso da responsabilidade e a compreensão para todos os detalhes. É um homem de alma limpa. Esse é o resumo”, exaltou.

O INÍCIO NO FUTEBOL MINEIRO

Jayme, ao centro, ainda no Sete de Setembro, de Belo Horizonte.

Sua carreira profissional teve início em Belo Horizonte, como centromédio no extinto Sete de Setembro em 1938. No ano seguinte, chegou a ser cobiçado pelo Vasco, mas recusou a oferta por não se considerar apto a atuar num grande centro. Seguiria então ao Atlético no fim de 1939. No Galo, formaria a linha média com os “halfs” laterais Cafifa e Bigode e chegaria a disputar os jogos que marcaram a inauguração do Pacaembu, em abril de 1940. Não demoraria a atrair as atenções de Corinthians e São Paulo, mas não houve acerto.

Ainda naquele ano, seria convocado pela Seleção Brasileira do técnico Ademar Pimenta para os treinos visando ao Campeonato Sul-Americano na Bolívia, que acabaria cancelado. Em setembro, viria ao Rio de Janeiro para disputar um jogo em homenagem a Julio Castillo, atacante argentino do Flamengo recém-falecido. Foi quando, na busca por um substituto a curto ou mesmo médio prazo para o veterano centromédio Carlos Volante (também argentino), o clube rubro-negro começou a observar o jogador, até decidir que ele seria o substituto ideal.

Em março de 1941, o Flamengo manifestou interesse na contratação de Jayme. O Atlético botou preço: 20 contos de réis, soma expressiva para a época e que constava na cláusula de liberação do atleta. “Está certo”, respondeu o Flamengo, que logo remeteu o cheque. Porém, qual não foi a surpresa dos dirigentes rubro-negros ao receberem comunicação do Banco Comércio e Indústria notificando que em Belo Horizonte o clube mineiro se recusara a aceitar o depósito, alegando não ter “nenhuma negociação” em andamento com os cariocas.

Em seu canto, Jayme olhou para sua situação: apesar do passe valorizado, ganhava pouco no Galo (250 mil réis mensais) e seus salários estavam em atraso há vários meses. Pensou em sua família: com o pai aposentado, ele se tornara o arrimo de 13 irmãos e dependia de seus ganhos com o futebol. Além de tudo, era torcedor do Flamengo e, agora sim, sentia-se pronto para tentar a sorte na grande vitrine do então Distrito Federal – a maior do futebol brasileiro na época. Agir de modo intempestivo não era de seu feitio. Mas ele assim o fez.

O médio deixou para trás o Atlético – cujo presidente, Cassildo Quintino dos Santos, favorável ao negócio e sob pressão da diretoria, renunciara em meio ao imbróglio – e tomou sozinho um trem para o Rio. O estardalhaço que se seguiu na imprensa não tinha nada a ver com o jeito calmo e discreto do jogador. Até vir à tona o motivo pelo qual os mineiros não queriam aceitar o depósito: um antigo credor do Galo havia penhorado o dinheiro, o qual só não receberia caso o clube recusasse o cheque. Fim do impasse, negociação selada.

NA GÁVEA, REINVENTANDO A POSIÇÃO

Contratado no fim de março, Jayme impressionou desde sua chegada à Gávea, ditando o ritmo dos treinos mesmo atuando entre os reservas. E, após alguns amistosos, já era o dono da posição quando da estreia do time no Campeonato Carioca de 1941, desbancando o antigo titular Volante. Destaque do jogo e autor de um gol nos 5 a 2 sobre o Madureira, em 4 de maio, ele seguiu na equipe pelas duas próximas partidas. O que ninguém esperava, porém, era que Volante voltasse à velha forma e recuperasse a posição.

Jayme foi então para a reserva, mas após um breve retorno atuando na linha de frente como meia-esquerda, voltaria de vez ao time em outra posição, a de médio-esquerdo, no lugar de outro veterano, Artigas. Nesta posição, ele disputaria os três últimos jogos da campanha, incluindo o célebre Fla-Flu das “bolas na Lagoa”, que definiu o título em favor dos tricolores. Líder durante boa parte do certame, o Flamengo perderia o fôlego no terço final e seria superado. Mas o novo titular impressionara de tal forma que se tornaria intocável no posto.

Aliviando a defesa com uma bicicleta num Fla-Flu em Laranjeiras.

Aqui cabe parêntese para esclarecer de vez a posição de Jayme. Ao contrário do que muitos já escreveram, ele não era lateral-esquerdo. Pouco antes de sua chegada, o técnico rubro-negro Flávio Costa já havia começado a implementar no time a chamada “diagonal”, sua versão adaptada do sistema WM, já hegemônico na Europa, mas até então pouco utilizado no Brasil, onde ainda vigorava o obsoleto esquema da “pirâmide” – no qual, de fato, os médios pelos lados tinham funções e posicionamentos semelhantes às dos atuais laterais.

Já a diagonal pegava o desenho do WM (numericamente, um 3-2-2-3) e transformava o quadrado composto pelos dois médios e dois meias numa espécie de losango ligeiramente torto. Nesse formato, Jayme era o vértice pela esquerda, o apoiador que marcava o armador adversário e, vez por outra, somava-se ao quinteto ofensivo como um sexto atacante. Algo como um atual segundo homem de meio-campo, elo entre os setores defensivo e ofensivo, responsável pela perfeita fluência do jogo. Função a qual ele executava com elegância, sobriedade e eficiência.

O “SCRATCHMAN” LEVANTA SEUS PRIMEIROS TÍTULOS

Ainda que entrasse e saísse do time em vários momentos ao longo da campanha no Carioca, o jovem de 21 anos se destacara a ponto de chegar à Seleção Brasileira antes mesmo de ter passado pelo “scratch” carioca. Convocado pelo técnico Ademar Pimenta – o mesmo que dirigira o Brasil na Copa do Mundo de 1938 – para o Sul-Americano em Montevidéu, inicialmente para a reserva do corintiano Brandão, centromédio e capitão do time, ele logo teria chance como titular na goleada de 5 a 1 sobre o Equador, em 31 de janeiro.

Com os rubro-negros Biguá e Artigas na seleção carioca em 1942.

Cinco dias depois, no empate em 1 a 1 com o Paraguai, entraria aos dez minutos de jogo e teria boa atuação: “Não estranhou um só momento. Sempre desembaraçado, sempre com um jogo de boa fatura. Deu assim uma robusta prova de sua capacidade técnica”, avaliou o Jornal dos Sports. No geral, seu desempenho seria aprovado. Entre o primeiro e o último jogo de Jayme pelo Brasil a Seleção faria 20 partidas, das quais o médio rubro-negro atuaria em 15. Se as Copas de 1942 e 1946 tivessem sido disputadas, ele seria nome certo.

No mesmo ano que marcou sua estreia pelo Brasil, Jayme também levantaria seu primeiro título carioca pelo Flamengo, iniciando um histórico tricampeonato. O time chegou a virar o turno seis pontos atrás do Fluminense, mas arrancou de modo impressionante nas duas etapas seguintes, somando 34 pontos em 36 possíveis. O caneco veio com um empate em 1 a 1 com os tricolores em Laranjeiras, num jogo que marcou também a estreia da Charanga Rubro-Negra, a primeira do Brasil, liderada por seu quase xará Jayme de Carvalho.

Jayme – que anotou dois gols naquela campanha, um deles encerrando a goleada de 4 a 0 sobre o Botafogo pelo terceiro turno – atuou em todas as partidas. Com efeito, o médio iniciaria ali uma impressionante sequência: dos 145 jogos de Carioca disputados pelo Flamengo entre 1942 e 1948 (ou seja, em sete temporadas), ele ficaria de fora de apenas um. E além de onipresente no time, também se tornaria cada vez mais parte do clube, vivendo seu dia-a-dia na Gávea e zelando pelo estádio e pela concentração.

Com os colegas Biguá, Perácio e Artigas num Rio ainda sem o Aterro.

“Basta dizer que lá [na Gávea], nada se faz, levanta-se ou deita abaixo sem o seu visto. É ele quem dá as ordens: quem providencia a lavagem da roupa, o café, o almoço, o jantar, a ceia, tudo, tudo para os ‘cracks’. O único rádio que se ouve nos dormitórios dos jogadores é de sua propriedade”, relatava a coluna “Um por um” da revista O Globo Sportivo, que definia Jayme como “de boa índole, calmo, sério – quase impenetrável”. O texto citava ainda que o médio era o “único responsável” por sua família (“são treze ao todo”). Isso aos 22 anos.

Ainda naquele ano de 1942, Jayme viria com o Flamengo exibir seu futebol ao público paulistano em dois momentos, fazendo sete partidas sem perder nenhuma. Primeiro em março, pela Quinela de Ouro, torneio que reuniu o trio de ferro da capital paulista e a dupla Fla-Flu, no qual os rubro-negros venceram o São Paulo (2 a 1) e empataram com Corinthians (1 a 1), Palestra Itália (2 a 2) e Fluminense (0 a 0). Depois, voltaria em outubro para derrotar o rebatizado Palmeiras (2 a 1), o Corinthians (4 a 2) e empatar com o São Paulo (3 a 3).

Suas atuações no Pacaembu novamente chamaram tanto a atenção que, em fevereiro de 1943, o São Paulo chegou a sondar sua contratação junto ao Flamengo. Mas o técnico Flávio Costa se recusou a abrir mão de seu “craque número 1” da temporada anterior – numa equipe que, é bom lembrar, contava com Domingos da Guia e Zizinho – não estava à venda. E logo ele levantaria outra taça, a do Torneio Relâmpago, competição curta (como o nome indica) disputada pelos cinco grandes da cidade como aperitivo para o Carioca.

CAPITÃO DO TRI RUBRO-NEGRO

O time perfilado antes de golear o Vasco em General Severiano.

Prestigiado, e como retribuição por sua dedicação, Jayme seria apontado ainda como o novo capitão do time, tomando a braçadeira de Domingos. E como tal ele outra vez participaria de todos os jogos do Flamengo (agora 18, com a extinção do terceiro turno) na campanha rumo ao bicampeonato carioca. O time sofreu apenas uma derrota (para o America na Gávea, na quarta rodada), venceu todos os adversários pelo menos uma vez e registrou duas vitórias expressivas sobre o Botafogo: 4 a 1 em General Severiano e 4 a 2 na Gávea.

Mas o resultado mais marcante viria na penúltima rodada contra o Vasco, no jogo que deixou os rubro-negros com a mão na taça. O arquirrival ainda tinha chances de título e já contava com vários jogadores que formariam dali a alguns anos o lendário “Expresso da Vitória” (Rafanelli, Argemiro, Djalma, Ademir, Isaías, Lelé, Chico). Mas o Fla foi simplesmente arrasador e aplicou uma surra de 6 a 2, sua maior goleada sobre os cruzmaltinos na história do clássico. E uma semana depois, um 5 a 0 no Bangu na Gávea confirmaria a conquista.

A reta final daquela campanha marcou ainda a chegada do centromédio paraguaio Modesto Bria, trazido do Nacional de Assunção, e que estreou no Fla-Flu do returno, a cinco rodadas do fim do certame. Ali, pela primeira vez, seria escalada a “linha média” (com o perdão do desenho tático) que se tornaria uma das mais célebres não só do Flamengo como do futebol brasileiro, Biguá-Bria-Jayme, que seguiria intacta na equipe por boa parte dos anos 1940 e anteciparia outra que marcaria época na década seguinte, Jadir-Dequinha-Jordan.

Jayme comemora com Domingos da Guia (atrás) e o goleiro Jurandyr no emocionante Fla-Flu do returno do Carioca de 1943.

Individualmente, Jayme foi um dos destaques do Fla na conquista de 1943. Sobre ele, escreveu o Correio da Manhã: “Dois nomes merecem os louvores do Flamengo pelo muito que contribuíram para a vitória, e estes são Flávio Costa e Jayme de Almeida. (…) Jayme, o médio esquerdo e capitão do time, foi o elemento mais eficiente e regular. Foi o esteio da defesa onde há outros elementos ótimos, e a sua atuação técnica e disciplinar foi acima de qualquer expectativa. Um jogador perfeito neste nosso futebol tão cheio de imperfeições”.

Como capitão do campeão carioca, era natural que Jayme exercesse o mesmo papel no “scratch” do então Distrito Federal que jogaria a seguir o Brasileiro de Seleções. Os paulistas venceram os dois primeiros jogos da final no Pacaembu. Mas os cariocas retrucaram com duas contundentes vitórias no Rio – 3 a 0 e 6 a 1 – e levaram o título com um 2 a 1 no quinto jogo, também na capital federal. Jayme, porém, ficou de fora dos dois últimos, com o tornozelo fraturado após receber um grosseiro pontapé do ponta-direita sãopaulino Luizinho Mesquita.

Recuperado da lesão, ele se prepararia para encarar em 1944 a campanha mais difícil daquele primeiro tricampeonato carioca do Flamengo. O time, que desde o ano anterior já não contava com o aposentado ponta-direita argentino Agustín Valido, também perdeu a impositiva presença de Domingos da Guia, vendido ao Corinthians. E durante a campanha também se veria desfalcado do ponta-de-lança Perácio, recrutado pela Força Expedicionária Brasileira para combater na Itália na Segunda Guerra – para onde também foi Bráulio, irmão de Jayme.

Com tantas baixas, o Flamengo fez campanha irregular na metade inicial da competição e virou o turno na quarta colocação. Chegou a estar cinco pontos atrás do líder (então o Fluminense) e até apontado pela imprensa como fora da briga pelo tricampeonato, mas arrancou na reta final. Na penúltima rodada, ganhou o reforço de Valido, afastado há dois anos do futebol profissional, e, com ele, aplicou uma incrível goleada de 6 a 1 sobre os tricolores. O último desafio era o Vasco, com quem dividia a liderança, em jogo marcado para a Gávea.

O Fla tinha vários problemas. Valido, destaque contra o Fluminense, passara a semana decisiva com febre alta. O ponteiro Vevé sofria de dores crônicas no joelho esquerdo. Bria estava às voltas com um lumbago (dor lombar). E Pirillo tinha orquite, inflamação nos testículos. Todos entraram em campo com suas dores para enfrentar o Vasco. Jayme se desdobrou pelos colegas: teve atuação irrepreensível premiada com uma das poucas notas 10 do jogo pelo Globo Sportivo. E Valido cabeceou para fazer o gol do título a quatro minutos do fim.

O MELHOR DA AMÉRICA DO SUL

Na sequência do tri carioca – o primeiro da história do Flamengo – viria mais um Brasileiro de Seleções. E tendo novamente Jayme como capitão, os cariocas levaram o bicampeonato em outra melhor de cinco jogos contra os paulistas. O torneio também ajudaria a preparar o “scratch” nacional para o Campeonato Sul-Americano Extra a ser disputado em Santiago no começo do ano seguinte. Com um time fortíssimo e o rubro-negro como médio-esquerdo titular, o Brasil teria ótimas chances de encerrar seu jejum no certame que vinha desde 1922.

A partida de estreia seria contra a Colômbia (o primeiro confronto com os cafeteiros na história), e os brasileiros venceriam por 3 a 0 com Jayme anotando seu primeiro e único gol pela Seleção, fechando a contagem ainda na primeira etapa com um chutaço de fora da área no rebote de Zizinho. Em seguida, o time bateu a Bolívia (2 a 0) e impressionou ao impor ainda no primeiro tempo um categórico 3 a 0 ao forte Uruguai de Obdulio Varela, Roque Máspoli, Roberto Porta, Atílio Garcia e Schubert Gambetta, dirigido pelo lendário José Nasazzi.

Lesionado contra os uruguaios, Jayme passou a semana como dúvida para enfrentar a Argentina. Titular inquestionável, acabou escalado nitidamente sem condições físicas. Disto se aproveitaram os adversários. Capengando em campo, não teve como conter o meia-direita “Tucho” Méndez, que apareceu para marcar os dois primeiros gols argentinos. Pouco depois de Heleno descontar para o Brasil, ainda no primeiro tempo, Jayme foi substituído. Não podia mais continuar. Minutos mais tarde, Méndez fechou a contagem em 3 a 1.

A lesão o tiraria da goleada de 9 a 2 sobre o Equador (até ali a maior aplicada pela Seleção na história), mas na última partida, contra os anfitriões chilenos, ele estaria de volta e teria papel importante na vitória por 1 a 0. Ao desarmar o ponta Piñero e entregar a bola a Jair Rosa Pinto, ele iniciaria a jogada do único gol do jogo, marcado por Heleno de Freitas, após cruzamento de Ademir de Menezes. O Brasil, que vencera cinco de suas seis partidas, teria de se contentar com o vice. Mas Jayme, mesmo assim, sairia coberto de honra.

Ao fim da competição, jornalistas de todos os países participantes se reuniram para eleger a seleção do torneio, o que equivaleria a apontar os melhores da América do Sul em cada posição naquele ciclo. E Jayme foi nomeado, indiscutivelmente, o melhor médio-esquerdo “pela sobriedade, pela alta noção do que faz, pelo sentido prático da marcação e do ataque”, conforme o texto do Globo Sportivo. Na votação, ele superara o argentino Bartolomé Colombo e formaria a linha média com os também portenhos Carlos Sosa e Ángel Perucca.

A Seleção Brasileira do Sul-Americano Extra de 1945: Jayme é o último jogador em pé, ao lado do técnico Flávio Costa.

Além disso, Jayme – e a Seleção – só precisariam esperar até o fim do ano para ter sua revanche contra os argentinos nos jogos que valeram pela Copa Roca, troféu o qual não ficava com os brasileiros desde 1922. Na primeira partida, a Albiceleste venceu por 4 a 3 em jogo cheio de reviravoltas no Pacaembu. Mas na segunda, em São Januário, o Brasil arrasou a equipe de Mario Boyé, Adolfo Pedernera, René Pontoni, Rinaldo Martino e Ángel Labruna por impiedosos 6 a 2, com Jayme fazendo a assistência para o sexto tento, de Ademir.

As vitórias alternadas forçaram um terceiro jogo, novamente em São Januário, na antevéspera do Natal de 1945. E o Brasil voltou a vencer, desta vez por 3 a 1, ficando com a taça a qual nunca mais perderia. No mês seguinte, quase emendando uma competição na outra, a Seleção estaria novamente em campo disputando primeiro a Copa Rio Branco no Uruguai e, em seguida, mais um Sul-Americano, desta vez em Buenos Aires. Seriam as duas últimas participações de Jayme no escrete – que ainda não era canarinho e usava camisas brancas.

Pelo primeiro torneio, em Montevidéu, o Brasil perdeu apertado por 4 a 3 e empatou em 1 a 1, deixando a taça com os anfitriões. Mas daria o troco na Celeste no Sul-Americano, devolvendo os 4 a 3 num jogo marcado pela violência dos uruguaios, que tiraram três jogadores brasileiros de campo lesionados. Um deles seria Jayme, que levou uma rasteira do meia uruguaio José María Medina e, ao cair no gramado, levou um pisão do mesmo adversário. Teve de ser substituído aos 30 minutos de jogo e foi desfalque contra Paraguai e Chile.

Para seu azar, voltou para fazer o que seria sua última partida pela Seleção num ambiente ainda mais carregado. O jogo contra a Argentina (que precisava só do empate para levar o título) no Monumental de Nuñez foi uma guerra, com invasão de campo por parte de torcedores, que chegaram a espancar o ponta-esquerda Chico. O jogador vascaíno foi retirado de campo desacordado e – bizarramente – expulso pelo árbitro uruguaio Nobel Valentini, o mesmo que apitara o confronto no Sul-Americano anterior.

Com Biguá e o vascaíno Danilo Alvim: um trio de seleção.

Jayme também não completou a partida. Levou um pontapé e teve de ser substituído ainda no primeiro tempo. Encerraria ali seu ciclo na seleção brasileira, mas ainda participaria pela última vez do Brasileiro de Seleções pela equipe do Distrito Federal, sagrando-se tricampeão no torneio de 1946 em outra final vencida sobre os paulistas e só disputada em março do ano seguinte. O restante da carreira de jogador seria dedicado exclusivamente ao Flamengo. O clube, no entanto, começava a viver um declínio na segunda metade da década.

O FIM DA CARREIRA COM DIGNIDADE

O time tricampeão carioca se desmantelava aos poucos. Valido se aposentara de vez após o gol histórico sobre o Vasco. Zizinho sofreria duas fraturas na perna em 1946 e 1947, ficando de fora de campanhas quase inteiras. Pirillo seria vendido ao Botafogo em 1948. Outros, como Perácio, o goleiro Jurandyr e o ponteiro Vevé, aos poucos sairiam de cena. E o técnico Flávio Costa seguiria para o Vasco – que montara um esquadrão – em 1947. O trio Biguá, Bria e Jayme é que se mantinha intacto, e era muitas vezes o termômetro da equipe.

Jayme fez uma excelente temporada de 1946, ano em que, para a surpresa geral, o Vasco esteve longe do bicampeonato e os outros quatro grandes terminaram empatados após turno e returno, obrigando a realização de um quadrangular em ida e volta para apontar o campeão (que seria o Fluminense). O médio rubro-negro chegou a ser eleito o craque do primeiro turno e ganhou elogios rasgados do técnico tricolor Gentil Cardoso, para quem o jogador se equiparava em brilho aos velhos ídolos Domingos da Guia e Leônidas da Silva.

Biguá, Bria e Jayme, histórica linha média rubro-negra.

Em maio de 1948, Jayme venceria o concurso de popularidade promovido por um fabricante de balas (um dos muitos certames deste tipo organizados na época). Mas a honraria mais simbólica de sua carreira viria em novembro do ano seguinte, ao ser um dos primeiros atletas no país a ser agraciado com o Prêmio Belfort Duarte, instituído pelo Conselho Nacional do Desporto para homenagear os jogadores que passassem pelo menos dez anos sem terem sido expulsos de campo, tendo disputado pelo menos 200 partidas. Uma ode à disciplina.

Aquela temporada de 1949 seria sua última como jogador. Já minado por lesões, ele atuaria em apenas sete dos 20 jogos do time no Carioca – queda sensível de ritmo para quem, entre 1942 e 1948, só ficara de fora de uma partida. Participaria, porém, da famosa vitória sobre o Arsenal por 3 a 1 em maio, numa excursão dos Gunners ao Brasil. Seu último jogo de competição (no qual entrou no lugar de Bria) seria a goleada de 6 a 2 sobre o Corinthians, em 22 de dezembro, em partida que já valeu pelo Torneio Rio-São Paulo de 1950.

O adeus definitivo viria num amistoso com o Goytacaz em Campos, no feriado de 1º de maio de 1950, quando o médio, aos 29 anos, já se desligara do elenco. Naquele mesmo mês, uma extensa matéria da revista Esporte Ilustrado relembrava os grandes nomes da posição que passaram pela Seleção (Martim, Afonsinho, Zezé Procópio, Brandão) e avaliava os novatos (Danilo, Bauer, Eli, Rui, Brandãozinho), antes de afirmar que Jayme havia sido “o mais completo” da posição no país: “Uma das maiores glórias do futebol nacional”, exaltava.

Tornado um patrimônio do Flamengo, Jayme de Almeida passou a comandar as categorias de base rubro-negras tão logo pendurou as chuteiras. Ajudou a formar futuros ídolos como Índio e Zagallo até ser recrutado para auxiliar Flávio Costa, trazido de volta do Vasco no início de 1951 para dirigir o time principal. Naquela altura, porém, ele próprio já acumulava nada menos que quatro passagens (todas rápidas) à frente do time, incluindo duas em que conciliara os postos de jogador e treinador, em janeiro de 1946 e em dezembro de 1947.

Quando Flávio deixou o cargo, no fim de 1952, foi Jayme quem fez a ponte até a chegada do paraguaio Fleitas Solich, em abril do ano seguinte. E levantou um título nesse processo: em Buenos Aires, um Fla conquistou um quadrangular internacional enfrentando Boca Juniors, San Lorenzo e o velho rival Botafogo. Nos anos em que o “Feiticeiro” reinou na Gávea, Jayme era seu braço direito e assistente do Departamento de Futebol. E, quando o técnico saiu para dirigir o Real Madrid, em meados de 1959, Jayme foi efetivado no comando.

No túnel do Maracanã, como fiel escudeiro de Solich.

O Flamengo, porém, vivia período de transição após a saída de alguns jogadores e a ascensão de outros vindos da base, como Carlinhos. Com isso, os rubro-negros estiveram longe de brigar pelas primeiras posições no Carioca daquele ano, tendo especial dificuldade nos clássicos. Mas antes de deixar o cargo, Jayme ainda comandaria a equipe no ponto alto da campanha, a sensacional goleada sobre o Botafogo, líder do certame, dirigido por João Saldanha e que alinhava Garrincha, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo e Paulo Valentim.

Os rubro-negros estavam mordidos pela derrota por 2 a 1 no primeiro turno, obtida, segundo os jogadores, com uma bola que não entrou. Mas o troco viria com estilo. Naquela tarde de 25 de outubro, o Alvinegro abriu o placar com Quarentinha, mas o Fla empatou um minuto depois com Henrique e virou ainda no primeiro tempo com Babá. Na etapa final, veio a avalanche: Henrique, Babá, Luís Carlos e Dida elevaram o placar a 6 a 1, antes de Joubert e Quarentinha serem expulsos e de Paulinho Valentim diminuir para o rival no último minuto.

Enquanto era superintendente no Departamento de Futebol do Flamengo, Jayme assumiu ainda a empreitada de dirigir a Associação Beneficente de Veteranos Cariocas. A entidade tinha como objetivo organizar partidas entre veteranos com arrecadação revertida aos antigos craques mais necessitados. “Creio que já encontramos grande movimento de solidariedade mesmo entre os novos. Eles afinal entendem que um dia serão veteranos”, comentou o velho ídolo rubro-negro à revista Manchete Esportiva em entrevista de 1956.

LENDA TAMBÉM NO FUTEBOL PERUANO

Em julho de 1961, Jayme deixaria a Gávea após 20 anos ao embarcar para Lima, onde comandaria o Alianza. No clube mais popular do Peru, levantaria os títulos de 1962, 1963 e 1965, tornando-se o treinador mais vezes campeão nacional pelo clube na era profissional. E ainda promoveria uma talentosa geração de garotos que fariam história na seleção blanquiroja: foi Jayme quem lançou no clube ídolos como Teófilo Cubillas e Julio Baylon, além de consolidar na equipe nomes como Pedro Pablo “Perico” León e Victor “Pitín” Zegarra.

Segundo técnico que mais comandou os blanquiazules na história, Jayme também teve resultados expressivos em amistosos. Em 1966, bateu o Botafogo de Jairzinho, Gérson, Afonsinho e Manga por 3 a 1. No ano seguinte, goleou por 6 a 1 um Independiente já bicampeão da Libertadores, treinado pelo brasileiro Oswaldo Brandão e contando com nomes como Pastoriza, Santoro, Pavoni e Bernao. Chegou ainda a dirigir um combinado peruano que bateu o Real Madrid de Puskás e Gento por 3 a 2 em 1965, numa excursão merengue a Lima.

No Alianza, revolucionando o futebol peruano.

Em 1966, Jayme passaria de treinador a supervisor (cargo já desempenhado no Flamengo), ainda que volta e meia retornasse ao comando do time – numa dessas últimas passagens, em 1970, lançaria outro talento da base, o meia César Cueto. Em janeiro de 1971, um combinado Alianza-Deportivo Municipal co-dirigido por ele e pelo ex-jogador Roberto “Tito” Drago derrotaria o Bayern de Beckenbauer, Maier e Gerd Müller por 4 a 1. No ano seguinte, ele se mudaria para o pequeno Defensor Arica, o qual não conseguiria salvar do descenso.

Seu último trabalho seria como superintendente no Deportivo Municipal, em 1973. No dia 17 de maio daquele ano, Jayme de Almeida faleceria em Lima vitimado por uma trombose cerebral em consequência de um derrame sofrido dias antes. Tinha 52 anos. Sua morte comoveu o meio esportivo no Peru e no Rio de Janeiro – onde seu filho, também chamado Jayme, preparava-se para ser promovido ao elenco principal do Flamengo. O mesmo clube do qual se tornara um símbolo por 20 anos e uma referência eterna de cavalheirismo.

O Mundialito de 1983: A taça não veio, mas o Flamengo brilhou na Itália

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Time da decisão. Em pé: Leandro, Raul, Marinho, Mozer, Ademar, Andrade e Júnior. Agachados: Robertinho, Adílio, Júlio César e Peu.

Mesmo clubes muito vitoriosos pelo mundo registram em sua história grandes campanhas que não resultaram em conquistas, mas foram motivo de orgulho. No Flamengo não é diferente: torneios como a Supercopa de 1993 e a Mercosul de 2001, além da arrancada rumo ao terceiro lugar no Brasileirão de 2007, ainda são lembrados com carinho por muitos torcedores.

O mesmo aconteceu anos antes com a participação rubro-negra no Mundialito de Clubes disputado em Milão, em junho e julho de 1983, no qual um Fla que juntava os cacos após perder Zico (vendido à Udinese), bateu gigantes do futebol mundial, mas terminou sem a taça após um polêmico jogo decisivo contra a Juventus. Uma história que vale ser conhecida ou relembrada.

OS PRIMEIROS DIAS SEM ZICO

Em 29 de maio de 1983, diante de mais de 155 mil torcedores no Maracanã, o Flamengo vencia o Santos por um enfático 3 a 0 – gols de Zico, Leandro e Adílio – e sacramentava a conquista de seu terceiro título brasileiro, num campeonato no qual entrou bastante desacreditado, conviveu com crises, mas, como era do feitio rubro-negro, cresceu na reta final e ficou com a taça numa das mais antigas expressões do tradicional “deixou chegar”.

As semanas que seguiram à conquista, no entanto, não foram mera ressaca das comemorações do caneco nacional. Na verdade, nem tudo foi festa e notícia boa. Para Zico, Júnior, Leandro e Adílio não houve nem tempo de festejar: na noite do título eles embarcaram para Munique, onde participariam do jogo festivo de despedida do craque alemão Paul Breitner, em que um time de astros internacionais (incluindo o quarteto rubro-negro) enfrentaria o Bayern.

Quando voltaram, a bomba já havia caído sobre a Gávea: em 2 de junho o presidente do clube, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, anunciava a venda de Zico à Udinese por Cr$ 2 bilhões em moeda da época. O acerto, porém, ainda teria muitas idas e vindas, mas acabaria confirmado. Ficou famosa a sequência de fotos em que Dunshee simula enxugar suas lágrimas de pesar pela venda do ídolo numa camisa 10 rubro-negra, mas aparece sorrindo no instante seguinte.

Inconsolável, órfã, a torcida nem se deu ao trabalho de ir ao Maracanã nos dias 3 e 5 de junho, quando o Fla – já sem chance de classificação – fez suas duas últimas partidas pela primeira fase da Libertadores daquele ano. Num contraste extremo com o público que passou pelas roletas do estádio no jogo contra o Santos, apenas 1.629 torcedores foram ver o time, já sem Zico, golear o Bolivar por 5 a 2. E apenas 6.145 assistiram à derrota para o Grêmio por 3 a 1.

Um dos destaques do time gaúcho que derrotou um desmotivado Flamengo naquela tarde de domingo num gramado castigado havia sido Tita, que deixara a Gávea por empréstimo no começo daquele ano em busca de uma chance de enfim vestir a camisa 10 que considerava a sua – mesmo que não fosse a rubro-negra. Por ironia, agora que Zico dizia adeus e rumava para o futebol italiano, Tita não estava no Flamengo para a esperada passagem do bastão.

O herdeiro inicial da camisa 10 seria Adílio, que demonstrava confiança em honrá-la ao lembrar que havia sido exatamente com ela, e no lugar de Zico, que estreara no time de cima do Flamengo em setembro de 1976, num jogo contra o Sport pelo Brasileirão. Muito elogiado por sua atuação impecável na decisão contra o Santos, com a qual se redimira das críticas sofridas no início do ano, Adílio – que acabara de se tornar pai – vivia momento de maturidade.

O técnico rubro-negro Carlos Alberto Torres não descartava, no entanto, aproveitar outros dois jogadores os quais via como talhados para a função de terceiro homem do meio-campo: Leandro e Júnior. Na cabeça do treinador havia até uma lista de virtudes indispensáveis para os candidatos à camisa 10: chutar forte com os dois pés; ser bom cabeceador; ter criatividade; ser habilidoso no trato com a bola e no drible; ter muita decisão nas disputas de bola.

UM TRAUMA EM ÚDINE

O novo Flamengo foi testado primeiro num amistoso diante do Uberlândia no Parque do Sabiá, exatas duas semanas após a última partida, contra o Grêmio. Mas o início da nova era não foi dos mais auspiciosos: jogando mal, o time até saiu na frente, com um gol de falta de Júnior, mas terminou derrotado de virada pela equipe mineira por 2 a 1. No dia seguinte, a delegação rubro-negra já estava de novo no Rio, de onde embarcaria para a Itália.

Entre os dias 24 de junho e 2 de julho, o Flamengo participaria em Milão da segunda edição do Mundialito de Clubes, torneio criado pela emissora de televisão Canale 5 reunindo clubes que já haviam conquistado o título mundial. A primeira edição havia sido realizada em 1981 e teve como participantes a dupla local Internazionale e Milan mais três convidados: o Santos, o Peñarol e o Feyenoord holandês – o caneco terminou nas mãos da Inter de Milão.

O pica-pau símbolo do Canale 5 na logo do torneio.

Agora, na edição de 1983, além das duas equipes milanesas, do Flamengo e do Peñarol (os dois últimos campeões mundiais), o torneio abria espaço para a Juventus, que ainda não havia vencido o título intercontinental, mas fora convidada como representante da Itália. As cinco equipes se enfrentariam em turno único, em cinco rodadas duplas disputadas a cada dois dias no lendário estádio San Siro. E o título seria do time que somasse mais pontos.

Antes disso, porém, haveria um amistoso. O adversário era a Udinese, na despedida do atacante iugoslavo Ivica Surjak do time italiano e a estreia daquele que o substituiria em uma das duas vagas reservadas aos jogadores estrangeiros no elenco: Zico. Numa situação que nem o jogador nem a torcida rubro-negra nunca imaginaram nem desejaram que um dia pudesse acontecer, o Galinho e o Flamengo estariam, por breves cinco minutos, em lados opostos.

Quando Zico pisou o gramado do estádio Friuli, aos 40 minutos da etapa inicial, a Udinese vencia por 2 a 1. Havia acabado de marcar o segundo gol, com o meia Massimo Mauro, depois de Surjak ter aberto a contagem e Adílio – vestindo a 10 – ter empatado um minuto depois. O Galinho deu apenas dois toques na bola e não participou do terceiro gol italiano, marcado pelo atacante Pietro Paolo Virdis. E sairia no intervalo, substituído por Giorgio de Giorgis.

O time rubro-negro ainda parecia atônito por ter presenciado seu grande regente vestir a camisa do adversário quando outro brasileiro, Edinho, anotou o quarto gol da Udinese cobrando falta na metade do segundo tempo. Marinho ainda diminuiria, mas a atuação fraca numa partida que, no íntimo, muitos desejavam que não tivesse sido realizada (os próprios dirigentes do Flamengo a classificariam como “um erro”) levou Carlos Alberto a pensar em mudanças.

O time também demonstrava cansaço: enfrentara a Udinese no dia seguinte ao desembarque na Itália após um voo de 11 horas seguido de uma viagem de ônibus que durou mais seis horas até Údine. Em Milão, mais ambientado e descansado, o time poderia jogar melhor contra a Inter, acreditava Carlos Alberto. Mas o treinador mexeria no time: Figueiredo entrava no lugar de Mozer na zaga e Andrade, voltando de cirurgia, substituiria Élder no meio-campo.

A equipe que enfrentou a Inter de Milão na estreia.

ENFIM, O MUNDIALITO

A Inter, terceira colocada no Campeonato Italiano recém-encerrado (atrás apenas da Roma de Falcão e da Juventus), tinha muitos nomes da Azzurra: os laterais Giuseppe Bergomi e Giuseppe Baresi (irmão mais velho de Franco Baresi, do Milan), o líbero e capitão Graziano Bini, o volante Salvatore Bagni, o meia Gianpiero Marini e o atacante Alessandro Altobelli – estes dois últimos iniciariam a partida do banco, entrando no decorrer do jogo.

No gol, um novato chamado Walter Zenga assumia a titularidade após a saída do veterano Ivano Bordon para a Sampdoria ao fim da temporada. Havia ainda os meias Antonio Sabato (que atuaria pela seleção olímpica da Itália nos Jogos de Los Angeles no ano seguinte) e Evaristo Beccalossi, armador talentoso, ídolo histórico da torcida interista, com nome de craque rubro-negro, mas que estranhamente nunca chegou a ter chance na Azzurra.

Havia, é claro, os astros estrangeiros: o habilidoso armador Hansi Müller, da seleção da Alemanha Ocidental, ditava o ritmo no meio-campo, enquanto o brasileiro Juary, atacante veloz e esperto revelado pelo Santos, incomodava as defesas. E, especialmente para o torneio, a Inter contou também por empréstimo, em caráter experimental, com o ponteiro René Van Der Gijp, jogador da seleção da Holanda que atuava pelo Lokeren, da Bélgica.

O Fla, por sua vez, tinha sob as traves um Raul em forma excepcional e vivendo o último ano da carreira. Nas laterais, Leandro e Júnior buscavam compensar a ausência de Zico participando mais da criação de jogadas. Na zaga, para o jogo de estreia, Figueiredo jogaria na sobra, com Marinho num combate mais direto com o ataque da Inter. No meio, Vitor ficaria mais fixo na cabeça de área, liberando o apoio de Andrade, juntando-se ao novo 10, Adílio.

Júnior bate a falta. Zenga atento no gol. Hansi Müller na barreira. Bergomi, Baltazar e Robertinho (camisa 7) apenas observam.

Na frente, o time contava com a velocidade e os dribles de Robertinho pela direita, um jogador mais agudo e que combinava bem com Leandro. Pelo meio, Baltazar brigava com os zagueiros e abria espaços na defesa adversária. Já pela esquerda, o garoto Júlio César, revelação do Brasileiro de 1983, compunha o meio-campo, combatia e se movimentava para que especialmente Júnior e Adílio tivessem liberdade tática para criarem as jogadas ofensivas.

Mesmo assim, o time rubro-negro teve muita dificuldade no primeiro tempo. Embora ocupasse a intermediária adversária, não conseguia se infiltrar na área da Inter e levava pouco perigo nos chutes de média e longa distância. Além disso, sofria com os contragolpes italianos, em jogadas trabalhadas pelo lado esquerdo ou em lançamentos longos pelo meio, nas costas da defesa. Num deles, a Inter abriria o placar logo aos dez minutos de partida.

A jogada começou na esquerda, com Van der Gijp, que entregou a Beccalossi. O camisa 10 da Inter percebeu o avanço do líbero Bini e fez o lançamento no meio da retaguarda rubro-negra. O capitão interista entrou na área, mas Raul travou sua finalização com as pernas. A bola, porém, sobrou quase na pequena área para Juary, que tocou para o gol aberto anotando o primeiro tento daquela edição do torneio, para a vibração da torcida local.

Antes dos 20 minutos, os italianos ainda criaram duas chances claras para ampliarem o placar. Primeiro num cruzamento de Juary da direita que Van Der Gijp dominou sem marcação dentro da área e soltou um petardo que carimbou o travessão. E mais tarde num contra-ataque de dois contra um em que Bagni foi lançado acompanhado apenas por Marinho e passou a Juary, mas o chute cruzado do brasileiro passou a milímetros da trave, para a sorte do Fla.

A VIRADA ANIMADORA DIANTE DA INTER

Leandro escora o escanteio no lance do primeiro gol.

Só depois desse lance o Flamengo obrigou Zenga a trabalhar pela primeira vez, espalmando um chute de fora da área de Júnior. Em seguida, seria a vez de Vítor levar perigo ao goleiro interista numa finalização. As duas jogadas estabilizaram o time rubro-negro no jogo. A partir dali o Fla equilibrou as ações e, aos 27 minutos, chegou ao gol de empate: Júnior bateu escanteio alto, na segunda trave. Leandro escorou e Robertinho testou firme para as redes.

Se já nos minutos finais do primeiro tempo o Flamengo demonstrava um maior acerto no toque de bola e no posicionamento, na segunda etapa os papeis do início da partida seriam invertidos. Agora era o Fla que não dava espaços à Inter, combinava-se melhor no meio-campo e chegava com perigo em lançamentos em profundidade. Num deles sairia o gol da virada: Andrade faria o passe longo nas costas da defesa e Baltazar chegaria antes de Zenga para marcar.

Depois daquele segundo gol, aos 14 minutos da etapa final, o Flamengo ainda criaria ocasiões para aumentar a vantagem. Quase no lance seguinte, Robertinho tabela com Baltazar e é travado de maneira faltosa por Giuseppe Baresi quando se preparava para finalizar. Aparentemente, o toque é dentro da área (ou, no mínimo, em cima da linha), mas o árbitro marca apenas um tiro livre no interior da meia-lua. A cobrança de Júnior, no entanto, para na barreira.

Minutos mais tarde, Andrade lança Baltazar num contra-ataque e, após troca de passes com Adílio, Robertinho chuta cruzado tirando tinta da trave de Zenga. A Inter mexe no time, fazendo entrar o experiente armador Marini e o goleador Altobelli. Este logo aparece em duas chances de gol, mas o Fla leva a melhor em ambas. Primeiro é Raul que detém seu chute cruzado. E depois é Figueiredo que faz o desarme perfeito, tirando o doce da boca do italiano.

No fim, o Flamengo já inegavelmente controlava o jogo, intransponível na defesa e perigoso no ataque, fazendo com que, ao apito final, os cerca de 55 mil torcedores que ocupavam o San Siro reconhecessem a grande atuação e o mérito da vitória, aplaudindo efusivamente o time rubro-negro. Do lado do Fla, Carlos Alberto Torres se mostrava feliz com a melhora da equipe: “Subimos de produção aos poucos e no segundo tempo a partida foi toda nossa”.

A imprensa italiana também não poupou elogios, considerando “de alto nível” o futebol exibido pelo Flamengo. Os jornais destacaram especialmente Raul (tido como um goleiro veterano da qualidade de Zoff) e Júnior – os dois receberam nota 7,5 na avaliação do exigente Corriere dello Sport, que não costumava dar notas acima de 7. Já para Eugenio Bersellini, ex-técnico da Inter e então no Torino, Leandro e Júnior eram os dois maiores laterais do mundo.

Júnior era particularmente assediado pela imprensa devido a rumores de uma transferência para a Lazio, clube que havia acabado de ter seu controle diretivo assumido pelo ex-atacante Giorgio Chinaglia. O Capacete, porém, minimizava a possibilidade: “Chinaglia disse que eu seria a atração do time e não ficaria mais na lateral-esquerda, e sim no meio-campo. No entanto, sua proposta foi muito pequena, quase o que eu ganho no Flamengo”, declarou após o jogo.

O SUSTO CONTRA O MILAN

No jogo de fundo, concluindo a rodada de abertura, o Peñarol venceu o Milan por 1 a 0, gol de Fernando Morena, de pênalti. A equipe uruguaia seria a antítese do Flamengo: com seu jogo retrancado e violento, não tardou a conquistar a manifesta antipatia do público. A ponto de, na segunda rodada, após sua vitória sobre a Inter por 2 a 1, um grupo de irritados torcedores locais terem tentado invadir o campo para bater nos jogadores carboneros.

O Flamengo folgou na segunda rodada, que registrou ainda o empate em 2 a 2 entre a elegante Juventus de Michel Platini e o valente Milan, que acabara de voltar do purgatório da Serie B. A equipe de Turim havia saído na frente com um gol do meia francês após cruzamento do atacante polonês Zbigniew Boniek, mas os rossoneri viraram com gols de Stefano Cuoghi e Aldo Serena. A três minutos do fim, porém, Paolo Rossi deixou tudo igual de novo.

O Milan, adversário seguinte do Flamengo, era a equipe de menor qualidade técnica entre os três italianos do torneio. Mas vinha embalado por ter conseguido retornar à divisão de elite do país e ainda por cima jogava em casa, empurrado por sua fanática torcida. Contava ainda com jogadores que logo se firmariam na seleção italiana, como o lateral Mauro Tassotti, o meia (então lateral) Alberrigo Evani, o líbero Franco Baresi e o atacante Aldo Serena.

Já o Flamengo levou a campo o mesmo time que venceu a Inter de virada. Mas, estranhamente, parecia ter esquecido seu futebol naquela partida. O time até começou bem, e Adílio acertou a trave do goleiro Giulio Nuciari antes dos dez minutos. Mas no restante do jogo, a equipe esteve francamente irreconhecível, frouxa na marcação, levando um sufoco sem fim, completamente envolvida pelo Milan, que perdeu chances inacreditáveis.

Serena, impedido, abre o placar para o Milan.

Com Raul fazendo um milagre atrás do outro e Marinho jogando por todo o setor defensivo, o Flamengo ia se segurando até os 35 minutos do primeiro tempo, quando o Milan abriu o placar. A grande ironia é que, mesmo senhores absolutos da partida e criando oportunidades para aplicar uma goleada histórica, os italianos tiveram de se valer de um gol irregular, com Serena impedido ao cabecear um cruzamento da esquerda, para saírem em vantagem.

Além dos erros de marcação, dos espaços e da falta de combatividade que levavam aos seguidos ataques do Milan, os jogadores do Fla também tinham dificuldades para trocar passes e até para se manterem de pé no gramado escorregadio pela forte chuva que caiu antes da partida. Mesmo assim, o time ainda sairia no lucro ao conseguir empatar com um gol de Marinho, de cabeça, após falta levantada na área por Júnior, aos 34 minutos da etapa final.

Mesmo com o empate no fim, o time deixou o campo atordoado. “Nunca vi coisa assim”, disse Carlos Alberto Torres. Raul, por sua vez, chegou a temer a goleada: “Por cinco ou seis vezes eu já estava preparado para aceitar o gol e não sei como a bola não entrava. Foi um jogo incrível. É claro que nós facilitamos muito. A defesa parecia hipnotizada. Confesso que nunca passei por uma situação dessas”. Após o quase desastre, as mudanças viriam.

A REVANCHE CONTRA O PEÑAROL

Foram quatro as trocas na equipe titular para o jogo contra o Peñarol – que vinha de empate em 0 a 0 com a Juventus na preliminar de Flamengo x Milan e poderia ser campeão caso vencesse o Fla. Na zaga, Mozer entraria no lugar de Figueiredo. Recuperado de lesão no tornozelo esquerdo, o novo titular já havia entrado durante a partida contra o Milan. Júnior passaria de vez para o meio-campo, com o garoto Ademar entrando na lateral. Vítor saía do time.

Na frente, Baltazar e Júlio César – este, muito criticado pelo espaço que deu na marcação na partida contra o Milan – cediam seus postos a outro garoto, o centroavante Vinícius, que estreara nos profissionais no amistoso de Uberlândia e entraria pela primeira vez como titular, e a Peu, que retornava ao clube naquele torneio após ter jogado o Brasileiro emprestado ao Atlético-PR. A expectativa era a de um time mais acertado em todos os setores.

Contra os uruguaios, havia ainda um clima de revanche. Afinal, era o mesmo adversário que, sete meses antes, havia eliminado o Fla em pleno Maracanã nas semifinais da Taça Libertadores da América de 1982, impedindo um possível bicampeonato consecutivo do torneio. Em Milão, o time do Peñarol era quase o mesmo daquela partida. A exceção era o meia brasileiro Jair, ex-Internacional, exatamente o autor do gol que derrotou os rubro-negros naquele dia.

O time do Peñarol, o mais odiado do Mundialito pelo público.

O time carbonero começou a partida tentando colocar em prática o mesmo estilo de jogo que vinha desempenhando até ali no Mundialito: fechado na defesa, procurando os contra-ataques pelas pontas e abusando do jogo violento. Mas o Flamengo, com um meio-campo bem compacto, tendo Andrade, Adílio e Júnior apoiados pelos avanços de Leandro e Mozer e pelo recuo de Peu, trocava passes para envolver os uruguaios e forçava a saída do adversário.

Robertinho também era peça importante, com sua rapidez e seus dribles ajudando a desmontar a defesa uruguaia pelos flancos. Por meio dele o Fla teria sua primeira jogada de perigo: uma falta dura de Juan Morales (o Peñarol começava a abrir a caixa de ferramentas) cobrada por Júnior na área teve desvio de cabeça do camisa 7 e passou perto da trave de Gustavo Fernández. Pela esquerda, Ademar – vestindo a 8 – também descia bem no apoio.

O Peñarol provocou a primeira grande confusão aos 15 minutos, quando, com o jogo paralisado, o zagueiro Washington Oliveira deu uma solada no joelho de Peu e o tempo fechou. Andrade foi para cima do uruguaio tirar satisfações e acabou empurrado. Depois, o mesmo jogador bateu boca com Júnior. A torcida italiana gritava “fuori, fuori”, pedindo a expulsão imediata do zagueiro carbonero, mas o árbitro Maurizio Mattei aplicou apenas o cartão amarelo.

Quase no mesmo instante, o Flamengo teve de fazer sua primeira substituição, quando Vinícius, que sofrera duas entradas duas nos primeiros dez minutos, não teve mais condição de seguir na partida. Em seu lugar entrou Baltazar. E logo depois, uma bonita troca de passes entre os rubro-negros na intermediária uruguaia foi interrompida na meia-lua quando o meia Mario Saralegui cortou com a mão um passe pelo alto de Peu para Baltazar.

Júnior e Adílio se posicionaram para a cobrança, que ficou com o Capacete. A bola viajou por sobre a barreira, pegou Fernández no contrapé e entrou no ângulo. Um golaço. Mas a arbitragem seguia contemporizando: Fernando Morena, impedido, obrigou Raul a trabalhar pela primeira vez no jogo, detendo um chute à queima-roupa. Mais adiante, o lateral Victor Diogo cortou com o braço dentro da área um centro de Baltazar, mas o signore Mattei deixou seguir.

Robertinho disputa a jogada com a defesa uruguaia.

O Flamengo era melhor no primeiro tempo, ainda que chutasse pouco a gol. Uma das finalizações, aliás, viria perto do fim, num chutaço de Júnior batendo uma falta de muito longe e quase surpreendendo Gustavo Fernández. O cenário, porém, ameaçou se modificar no início da etapa final, com o Peñarol passando a adotar uma postura mais ofensiva, além do gramado escorregadio em decorrência da chuva que começou a cair no intervalo.

Mas isso durou apenas cerca de dez minutos. Logo o Fla recuperou o controle e assustou num foguete de Mozer em cobrança de falta e em duas ótimas jogadas de Baltazar descendo pela esquerda, em raros momentos nos quais ele não se posicionou em impedimento. Na segunda, ele ganhou na corrida de Saralegui, entortou Oliveira com um lindo drible e centrou rasteiro. Mas nem Robertinho, nem Adílio chegaram a tempo de concluir.

O jogo voltou a ficar quente na metade do segundo tempo. Júnior passou a bola por entre as pernas de Nelson Gutiérrez e, na sequência, levou uma entrada dura de Oliveira, mas não deixou barato e deu o troco. O juiz fez vistas grossas. Minutos depois foi a vez de Andrade, prestes a entrar na área com bola dominada, receber um pontapé de Gutiérrez na altura do estômago e se revoltar ao perceber que o árbitro novamente nada marcou.

O Fla respondia na bola: minutos depois de Robertinho quase ampliar no rebote de uma falta batida por Ademar, veio o segundo gol. Andrade despachou a bola para o campo de ataque e ela encontrou Peu descendo em velocidade pela esquerda. O atacante percebeu a passagem de Baltazar pelo meio e entregou de primeira. O centroavante invadiu a área e fuzila Fernández. O gol tranquilizou o Flamengo, que enfim conseguia definir o jogo.

Foi a senha para que a torcida de Milão começasse a gritar “olé” a cada toque de bola do Fla, que colocou os uruguaios na roda. Após o apito final, os jogadores do Peñarol ainda tentaram arrumar uma nova confusão: Oliveira, que em campo prometera quebrar a perna de Júnior, ameaçou agora bater no jogador do Fla no hotel – as duas delegações estavam hospedadas no mesmo Jolly, em Milão. Mas após uma acalorada discussão, os dois foram apartados.

O TÍTULO QUE ANDOU TÃO PERTO

O time uruguaio dava adeus ao torneio com cinco pontos ganhos em quatro jogos, enquanto o Flamengo já somava a mesma pontuação, mas com uma partida a menos. Havia ainda a Juventus, que chegou aos quatro pontos ao derrotar a Internazionale por 1 a 0 no jogo de fundo graças a um gol do zagueiro reserva Massimo Storgato. Com isso, os rubro-negros precisavam apenas de um empate com os bianconeri no confronto direto da última rodada.

A Juve havia montado um grande esquadrão na temporada recém-encerrada, acrescentando à sua equipe – que já formava a base da seleção italiana campeã do mundo – dois dos jogadores mais aclamados daquela Copa: o francês Michel Platini e o polonês Zbigniew Boniek. Porém, a primeira campanha havia sido de decepções, perdendo o título italiano para a Roma de Falcão e a Copa dos Campeões para o Hamburgo. Como consolo, venceu a Copa da Itália.

Antes do Mundialito, a Vecchia Signora se despedira do veterano goleiro Dino Zoff, aposentado aos 42 anos. Seu lugar era ocupado pelo antigo reserva Luciano Bodini. De todo modo, continuava um time respeitável. Na defesa, havia Claudio Gentile (que marcara duramente Zico no fatídico Brasil x Itália do Sarriá), o líbero Gaetano Scirea e o talentoso lateral-esquerdo Antonio Cabrini. No meio, o dinâmico Marco Tardelli. Na frente, o goleador Paolo Rossi.

Se não chegara a brilhar em nenhuma das partidas, empatando em 2 a 2 com o Milan e em 0 a 0 com o Peñarol e vencendo a Inter por 1 a 0, reunia o maior contingente de talento e experiência entre os demais participantes. Um duro adversário para o Fla, que teria uma mudança na equipe: a volta de Júlio César para reforçar a contenção no meio-campo, liberando a criatividade de Adílio e Júnior, com Robertinho e Peu formando a dupla de ataque.

O jogo começou bem movimentado, com o Flamengo ocupando o campo de ataque e deixando espaços para a Juventus se arriscar nos contragolpes. Mas a arbitragem de Enzo Barbaresco logo se fez notar: aos 12 minutos, Marinho desarmou Paolo Rossi limpamente na intermediária, mas o juiz apitou falta. Platini bateu forte e rasteiro, a bola desviou em Peu na barreira e traiu Raul, tomando o rumo das redes. Mas o Flamengo não se abalou.

Assim, pouco depois de uma bonita troca de passes do time rubro-negro que só não terminou em gol pelo corte providencial de Scirea na hora da finalização de Adílio, o empate veio aos 20 minutos. Júlio César ajeitou para o chute de Júnior, mas a bola bateu em Giuseppe Furino e sobrou para Adílio. Da entrada da área, o camisa 10 encheu o pé esquerdo e acertou o canto de Bodini. Um resultado mais condizente com o que se via em campo.

A virada quase veio em dois momentos. Aos 35, após mais uma troca de passes na entrada da área da Juventus que terminou aos pés de Leandro. O cruzamento do lateral resvalou em Cabrini e obrigou Bodini a mergulhar ao pé da trave para espalmar para escanteio. E aos 41, um chute com efeito de Peu quase traiu o arqueiro da Juve, que não conseguiu segurar de primeira, mas teve agilidade para se recuperar e travar a tentativa de Robertinho no rebote.

O Flamengo, porém, sofreria um duro baque ainda antes do fim do primeiro tempo: Mozer, que vinha cumprindo atuação excelente na defesa, chocou-se de cabeça com Scirea ao afastar um cruzamento para escanteio e teve de deixar o jogo na maca, substituído por Figueiredo. Na volta para o segundo tempo, o panorama do jogo seguiu com o Fla tocando a bola no meio-campo, procurando espaços na defesa da Juve, que explorava os contra-ataques.

Marinho e Boniek, o polonês da Juve: duelo frequente na decisão.

Num deles, aos 17 minutos, os italianos passaram novamente à frente: o lançamento de Gentile encontrou Boniek à frente de Marinho, em posição irregular. Mas a jogada seguiu, o polonês avançou e bateu forte da entrada da área, sem chance para Raul. Imediatamente, Carlos Alberto Torres colocou Baltazar em campo no lugar de Júlio César. Mas o Flamengo nitidamente sentiu o segundo gol, enquanto a Juventus cresceu e se organizou melhor em campo.

O Fla se mandou todo para o ataque, deixando apenas os dois zagueiros no campo de defesa. E, sem conseguir furar a sólida defesa da Juventus, sofreu com os incontáveis contra-ataques. Num deles, Paolo Rossi chegou a driblar Raul, mas perdeu o ângulo e viu sua finalização bater no pé da trave e correr sobre a linha, antes de Ademar aparecer para afastar. O goleiro rubro-negro ainda brilhou em outras três situações, parando Boniek, Rossi e Cabrini.

Houve ainda uma boa chance aos 33 minutos em falta sofrida por Adílio próxima à área: Ademar cobrou com chute forte de perna esquerda, Bodini não segurou, mas a finalização de Robertinho no rebote acertou o zagueiro Nicola Caricola. Houve, sobretudo, o pênalti escandaloso de Furino, agarrando Júnior pela camisa e pelo pescoço, quando o camisa 5 havia entrado na área pelo lado direito, aos 37 minutos. Inacreditavelmente, Barbaresco deixou seguir.

E houve, na última volta do ponteiro, a derradeira chance do empate quando Andrade esticou um passe para a área e Baltazar surgiu no meio da defesa para desviar a bola de Bodini. Mas ela, caprichosamente, passou rente à trave para fora. Ao apito final, mesmo com a derrota amarga, os jogadores do Flamengo saíram aplaudidos e de cabeça erguida. A impressão deixada pela equipe na imprensa italiana havia sido bastante positiva.

A delegação retornou ao Rio quatro dias após a partida e foi recepcionada no Galeão por muitos torcedores, que reconheceram a honrosa participação do Flamengo no Mundialito. Se o troféu não veio na bagagem, pelo menos o time havia colecionado grandes atuações nas vitórias sobre a Internazionale e o Peñarol e em parte do jogo contra a Juventus, além de ter demonstrado muita técnica e espírito de luta. O orgulho do campeão seguia intacto.

Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 3: Para a eternidade

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Nunes decide e parte para o abraço: o Fla, enfim, era campeão do Brasil.

Chegou enfim a hora de relembrar o inesquecível desfecho do Campeonato Brasileiro de 1980, primeira grande conquista nacional do Flamengo. Foi num 1º de junho há exatos 40 anos que Nunes, em jornada histórica, balançou as redes do Atlético-MG por duas vezes na vitória por 3 a 2 (Zico, também em atuação gigantesca, fez o outro), sacudiu o Maracanã com mais de 150 mil torcedores e entrou de vez para a galeria dos ídolos eternos rubro-negros.

Depois de contextualizarmos o Flamengo e o futebol brasileiro naquele período e contarmos as mudanças enfrentadas pelo time na pré-temporada e na fase inicial do campeonato no primeiro capítulo e de termos rememorado a saborosa revanche diante do Palmeiras na segunda etapa e da grande vitória sobre o Santos na terceira, é o momento de revisitar em detalhes a reta final da competição, começando pela memorável semifinal diante do Coritiba.

O PENÚLTIMO DEGRAU

Treinado por Mário Juliato, o time paranaense fazia ótima campanha mesclando nomes esbanjando experiência – como o centroavante Escurinho (ex-Inter e Palmeiras) e o veteraníssimo ponteiro esquerdo Aladim (ex-Bangu e Corinthians) – a boas revelações e nomes em ascensão, como o zagueirão Gardel, o volante Almir e os armadores Freitas e Vílson Tadei, além do beque uruguaio Taborda, que saíra mal do Corinthians, mas se consagrara no Paraná.

Com esses nomes, o Alviverde sustentou duas marcas expressivas até ali. Uma era ter sido o líder de seu grupo em todas as três etapas do campeonato. Na primeira fase, à frente de Grêmio, São Paulo e Vasco. Na segunda, diante de adversários mais fracos, aproveitou para aplicar goleadas: fez 7 a 1 no Ferroviário-CE e na Desportiva. E na terceira, foi a grande surpresa num grupo com Grêmio, Botafogo e o favorito Corinthians, de Sócrates.

Na chave P, o clube bateu Corinthians e Botafogo por 1 a 0 em casa – a longa série invicta mantida no Couto Pereira desde o início do Brasileiro era a outra marca expressiva – e, mesmo perdendo para o Grêmio na última rodada em Porto Alegre pelo mesmo placar, avançou às semifinais pelo saldo de gols, à frente do Tricolor gaúcho (que antes havia apanhado de 5 a 0 do Timão). O gol de Gardel contra o Bota, no último minuto, acabou valendo a vaga.

Gardel, porém, desfalcaria o Coritiba no primeiro jogo da semifinal – marcado para a noite de quarta-feira, 21 de maio, no Couto Pereira – após ter sido expulso nos minutos finais da partida contra o Grêmio. Pelo lado do Fla também havia uma baixa das mais importantes: o capitão Carpegiani voltou a sentir o problema muscular na coxa que o levou a ser substituído contra o Santos e ficaria de fora da primeira partida. Adílio entraria em seu lugar.

UMA GRANDE SEMIFINAL

Zico, o dono da braçadeira em Curitiba, seria decisivo ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 0. Mas contou com o auxílio luxuoso de Júnior e Adílio. No primeiro, ele tabelou com o lateral, que avançou pelo meio, descadeirou o marcador e fez belo passe na frente para o Galinho tocar na saída do goleiro Moreira. No segundo, já na etapa final, foi o camisa 8 quem limpou a jogada, antes de Zico encher o pé da intermediária e marcar um golaço.

Para a partida de volta, além de ainda não poder contar com Carpegiani, o Fla também perderia Toninho, que recebera o terceiro cartão amarelo em Curitiba e, como era a sua segunda série, foi suspenso por dois jogos. O que o time não esperava é que também fosse perder outros dois de seus principais jogadores ainda no primeiro tempo do jogo, que se converteria num drama inimaginável, antes de se consumar uma classificação com ares de épico.

Buscando reforçar a contenção ao lado esquerdo rubro-negro (de Júnior e Júlio César), o técnico Juliato sacou do time do Coritiba o ponta-direita João Carlos e escalou pelo setor o volante Leomir (que mais tarde defenderia o Fluminense). Mas o Fla começou assustando pelo outro lado, numa escapada de Carlos Alberto, o substituto de Toninho, que recebeu de Tita e bateu cruzado da entrada da área, tirando tinta da trave de Moreira.

Aos poucos, porém, o Coritiba começou a cozinhar o jogo. Bem postado na defesa, não dava espaço aos homens de frente do Flamengo e tentava sair em contra-ataques. Não chegou, porém, a incomodar Raul nos primeiros minutos. E o Fla também não chegava a se desesperar, já que detinha a vantagem. Porém a partida começou aos poucos a ficar desconfortável, até acontecer o primeiro baque da noite, aos 20 minutos.

Zico deitou à beira do campo sentindo uma fisgada na coxa esquerda. Era uma contratura. O camisa 10 não poderia continuar em campo. Enquanto ele deixava o gramado, substituído pelo ponta Reinaldo, Aladim alçava a bola na área rubro-negra, Escurinho ajeitava de cabeça e Vílson Tadei saía de frente com Raul, tocando de leve por cima do goleiro rubro-negro para abrir a contagem no Maracanã. A torcida do Fla ficava desconfiada.

E logo a desconfiança viraria perplexidade: aos 31 minutos, Luís Freire recebeu pelo lado direito do ataque, livrou-se de Rondinelli, foi à linha de fundo e cruzou. Aladim apanhou num sem-pulo, e estufou as redes, ampliando a vantagem do Coritiba no jogo e deixando os paranaenses a um gol das semifinais. Mas Nunes não deixaria as coisas assim por muito tempo: três minutos depois, ele foi lançado por Andrade, arrancou e fuzilou Moreira. O Fla diminuía.

Imediatamente, os nervos rubro-negros voltaram a ser testados: agora era Júlio César – que vinha em ótima fase – a deixar o gramado lesionado, com uma torção de tornozelo. O centroavante Anselmo entrava em seu lugar, esgotando as substituições do time ainda aos 35 minutos de jogo. Mas nem mesmo a nova baixa interromperia a reação do Fla: dois minutos depois Andrade cruzou da esquerda, Tita ajeitou e Nunes encheu o pé. Era o empate.

A virada chegaria logo em seguida e de maneira apoteótica, como a exorcizar todas as provações pelas quais a equipe passara até ali na partida. Carlos Alberto interceptou passe de Vílson Tadei na intermediária defensiva rubro-negra e arrancou. Deu uma meia-lua no zagueiro Gardel, recebeu um calço do beque, mas seguiu de pé e ao entrar na área, bateu cruzado. A bola voou até quase o ângulo do goleiro Moreira e encontrou as redes. Êxtase no Maracanã.

Já na etapa final, depois do gol da catarse veio o gol da arte. Aos 27 minutos do segundo tempo, Tita lançou Anselmo da própria intermediária por trás da defesa alviverde, que parou. O camisa 16 arrancou, deu uma meia-lua no goleiro Moreira (que já saía da área) e mandou um lindo toque de cobertura para as redes. Nem mesmo Gardel, que se esticou todo para tentar afastar a bola, conseguiu evitar o golaço, o quarto rubro-negro na partida.

Com a vaga mais do que confirmada (o Coritiba agora precisaria de quatro gols em menos de meio tempo), o Fla relaxou e o time paranaense ainda descontou aos 43, marcando mais um belo gol para a coleção de pinturas daquele jogaço. Vílson Tadei recebeu cruzamento da esquerda, ajeitou e entregou de calcanhar a Escurinho, que aparou e tocou sem deixar cair para Luís Freire. Também de primeira, o meia bateu forte e cruzado, vencendo Raul.

“Não fui falso humilde quando disse que temia esse jogo. Tudo pode acontecer em futebol, pois com a saída de Zico, o time ficou atordoado e sofreu dois gols. Felizmente, conseguimos acordá-lo, graças também ao incentivo da torcida, e viramos o jogo”, declarou Coutinho após a partida, reconhecendo o valor da ótima equipe do Coritiba. De todo modo, o ambiente nos vestiários do Fla era de apreensão com as lesões de Zico e Júlio César.

A outra semifinal reuniu Internacional e Atlético-MG, que já haviam se enfrentado na segunda fase, quando deram início a uma curiosa tradição, na qual os mandantes não tinham vez: o Inter triunfara no Mineirão (2 a 1) e o Atlético no Beira-Rio (3 a 1). No reencontro, aconteceu algo semelhante: no primeiro jogo, em Belo Horizonte, empate em 1 a 1, o que levou a crer que os gaúchos conquistariam a vaga na decisão contra o Flamengo.

Porém, houve reviravolta em Porto Alegre. Falcão foi vetado de última hora por problemas físicos no time colorado, frustrando a torcida. O baque duplo foi sentido em campo pelo time, que nunca se encontrou e só assistiu ao Galo impor um categórico 3 a 0. O Inter também teve Mário Sérgio expulso, o que gerou a reclamação do volante Batista nos vestiários de que o árbitro deveria também ter dado vermelho a Chicão e Palhinha que “distribuíram pontapés”.

A DECISÃO

Em 1977, um jovem time do Atlético decidira o título brasileiro diante do São Paulo dentro do Mineirão. Eram dois estilos opostos: o jogo técnico, leve e ofensivo – quase romântico – dos mineiros contra o futebol duro, vigoroso e competitivo (na falta de maior qualidade técnica) dos paulistas. O Galo perdeu nos pênaltis. Para a memória, ficou o lance em que o volante são-paulino Chicão provocou uma fratura na perna do talentoso meia atleticano Ângelo.

O tempo passou e o mundo deu voltas. Talvez atribuindo a perda daquele título a uma suposta falta de malícia, o Atlético se reforçou para a temporada 1980. Além do ponteiro Éder, revelado pelo América-MG e trazido do Grêmio, chegaram outros dois jogadores conhecidos pela catimba. Do Corinthians veio o meia-atacante Palhinha, antigo rival no Cruzeiro. E do São Paulo, veio exatamente Chicão, o ex-algoz que agora teria a torcida atleticana ao seu lado.

Estes dois últimos eram os maiores símbolos de um time que sabia muito bem jogar um futebol de primeira linha, mas que também em muitas vezes se valia de cavar faltas, irritar adversários e pressionar árbitros. Foi assim, por exemplo, que na terceira fase o Atlético segurou um valioso 0 a 0 diante do São Paulo no Morumbi e depois um outro empate sem gols diante do Vasco no Mineirão, resultado que o levou às semifinais.

E, passadas as semifinais, o time mineiro esfregava as mãos com a perspectiva de enfrentar o Flamengo na decisão. Estava com os rubro-negros atravessados na garganta precisamente desde o dia 6 de abril de 1979, quando, num amistoso em benefício das vítimas das enchentes em Minas Gerais e que teve Pelé vestindo a camisa do Fla, os cariocas aplicaram um vareio de 5 a 1 num Maracanã com 140 mil torcedores, em jogo transmitido pela TV para todo o país.

Daí os dois confrontos daquela decisão de 1980 terem sido truncados, picotados, faltosos – bem diferentes dos jogos do Flamengo contra Palmeiras e Santos, por exemplo, mais soltos, de poucas faltas, prevalecendo a técnica. Além disso, no primeiro jogo, o Fla teve três importantes baixas: Toninho (suspenso), Zico e Júlio César (lesionados). O Galo venceu no Mineirão por 1 a 0, com o atacante Reinaldo se aproveitando de um erro de Júnior na saída de bola.

Mas, para os rubro-negros, o lance que marcou mesmo aquela partida aconteceu mais tarde, aos 26 minutos da etapa final, após uma bola cruzada por Cerezo por sobre a área do Flamengo. De repente, um bolo de gente se formou perto da trave esquerda de Raul. Médicos, enfermeiros, jogadores, repórteres de rádio e televisão. No chão, caído, Rondinelli tinha o rosto – inchado e sangrando – apalpado pelo doutor Giuseppe Taranto.

O Deus da Raça rubro-negro havia levado um empurrão, soco ou cotovelada de Palhinha (a agressão muda de acordo com os diferentes relatos) e se chocara de cabeça contra a trave, fraturando o maxilar e deixando o campo ainda com suspeita de concussão cerebral. Levado aos vestiários, teve de ser contido e sedado. Furioso, queria a forra contra Éder, a quem inicialmente atribuíra a agressão. O clima era muito pesado.

Flamengo e Atlético haviam chegado até aquela decisão com campanhas muito semelhantes. Ambos haviam somado 32 pontos ao longo da competição. O Atlético somava uma vitória a mais (14 contra 13) e o Fla, uma derrota a menos (perdera apenas uma vez, contra duas do Galo). Os dois haviam anotado 43 gols, com o Fla sofrendo quatro a mais (17 contra 13), o que dava aos mineiros uma ligeira vantagem no saldo de gols.

Contudo, pelo regulamento, era dos rubro-negros a vantagem de decidir o título em casa e de jogar pela igualdade no placar agregado – e, portanto, por qualquer vitória no Maracanã para levantar a taça. Isto se devia ao fato de os critérios de desempate levarem em conta apenas os resultados obtidos da terceira fase de grupos em diante, onde começava a “fase final” para a CBF. Nesta reta final, o Fla somara nove pontos contra sete dos mineiros.

Para o jogo do Maracanã, o Atlético iria completo, assim como fora na ida. Já pelo lado do Fla, se Toninho, Zico e Júlio César voltavam, Rondinelli estava fora. “Passei por uma cirurgia muito séria, perdi 40% da minha audição, hoje só tenho 10%. Eu tenho até hoje a parte que é chamada de buco-maxilofacial toda ela amarrada com fios de aço. Não tenho sensibilidade nenhuma no queixo porque os músculos da face foram cortados”, relembrou o zagueiro.

O ÉPICO SEGUNDO JOGO

Com Manguito no lugar de Rondinelli e diante de exatos 154.355 pagantes – maior público da história do Brasileirão até ali e novo recorde de renda do futebol brasileiro – no Maracanã, o jogo começou quente, como se previa. Logo aos dois minutos, Tita fez falta dura em Jorge Valença e já recebeu o primeiro cartão amarelo do jogo. Para o rubro-negro, era o troco do jogo de ida. Mas a primeira chance de gol foi do Atlético, com Palhinha.

Porém, aos sete minutos, o Fla saiu na frente no placar. O zagueiro Osmar arrancou da defesa, mas esticou demais a bola ao passar do meio-campo. Andrade recolheu e entregou a Zico, que fez o passe perfeito para Nunes, exatamente no buraco que o beque atleticano deixara em sua defesa. João Leite deixou o gol desesperado, mas o camisa 9 rubro-negro tocou por baixo, com calma. Começava ali a se consagrar como o Artilheiro das Decisões.

A resposta atleticana, entretanto, foi imediata. Pouco depois do reinício do jogo, Cerezo recebeu na ponta-esquerda e passou a Reinaldo no meio da área. Mesmo marcado, o centroavante conseguiu dominar, contornar Manguito e Andrade, e chutar quase da linha de fundo. A bola bateu na coxa de Marinho e tirou totalmente Raul da jogada. Era o empate relâmpago. E o jogo seguiu equilibrado, com chances para ambos os lados.

Zico sofria marcação implacável e dura por parte dos atleticanos. Aos 17, Chicão fez uma alavanca que poderia até ter quebrado a perna do camisa 10 rubro-negro. A falta foi marcada e dali a cinco ou seis passos, o meia foi aterrado novamente, agora por Cerezo, que recebeu o cartão amarelo. Júnior levantou para a área e Marinho cabeceou com perigo, acertando o ferro de sustentação da rede. João Leite fazia cera e era repreendido pelo árbitro.

Aos 20, Chicão levantou Zico e também recebeu o amarelo. O Atlético fechava a frente da área com Chicão e Cerezo, e o Fla buscava os ataques quase sempre pelo lado esquerdo, com Júnior e Júlio César. Num cruzamento do ponteiro, João Leite saiu em falso e não achou nada, mas Jorge Valença tranquilizou para os mineiros. Empurrado pela torcida, cantando a plenos pulmões já refeita do susto do gol de empate, o Flamengo sufocava o Atlético.

Aos 23, Júlio César bateu falta rolada para Júnior, que chutou mascado, mas a bola desviou na defesa atleticana e subiu, obrigando João Leite a se esticar para mandar por cima do travessão. O Atlético, que não vinha conseguindo sair nos contra-ataques, enfim encaixou um aos 27: Cerezo lançou Reinaldo na ponta-direita, nas costas de Júnior. O centroavante desceu na diagonal até a área, mas Raul fechou bem o canto e o chute rasteiro foi para fora.

O Atlético seguia pressionando a arbitragem. Aos 30, Luisinho reclamou de uma falta de Tita e José de Assis Aragão apitou, mas o zagueiro atleticano continuou chiando a tal ponto que o árbitro acabou marcando uma infração técnica do defensor atleticano. Aos 36, foi a vez de Nunes levar o amarelo ao acertar o zagueiro Luisinho. Embora o Fla já tivesse mais volume de jogo, as chances se sucediam de um lado e de outro. Até o desempate os 41 minutos.

Luisinho fez falta em Tita na ponta direita, perto da bandeirinha de escanteio. Toninho levantou para a área, João Leite espalmou e Orlando despachou. Mas a bola sobrou para Júnior, que tentou um primeiro chute, bloqueado por Palhinha. A sobra voltou para o lateral, que bateu para o gol de pé direito. No meio do caminho, a bola encontra Zico, que apara e, mesmo quase caindo, consegue tocar para as redes. O êxtase voltava ao Maracanã.

Mesmo longe das condições físicas ideais e perseguido bem de perto pela marcação atleticana, o camisa 10 rubro-negro era decisivo pela segunda vez no jogo. Na saída de bola, o Atlético ainda tentou novo empate relâmpago com Palhinha. Atenta desta vez, a defesa rubro-negra rechaçou. E ao apito final do primeiro tempo, Chicão pegou a bola e a arremessou contra Júnior, iniciando ali um bate-boca com o lateral enquanto os times deixavam o campo.

No intervalo, nos vestiários, o técnico Cláudio Coutinho recebeu um bilhete e o entregou a Adílio, pedindo para que o meia lesse. Mesmo em voz baixa, podia ser ouvido pelos demais jogadores. Dizia a mensagem: “Companheiros, estou bem, torcendo de fora. Vamos pra cabeça. Assinado, Rondinelli”. Era a senha para que o Flamengo não deixasse de lutar um só instante, honrasse a camisa e a enorme massa de gente que o assistia no Maracanã.

A 45 MINUTOS DO TÍTULO

O entrevero entre Júnior e Chicão seguiu na volta do intervalo: o lateral cometeu falta no volante já no campo de ataque e, após ser provocado, tentou acertar um tapa na cabeça do atleticano. Aragão mostrou o amarelo ao rubro-negro, o segundo do time. Pouco depois, o Fla teve grande chance de ampliar o placar: Tita abriu o jogo para Júlio César na esquerda e o ponteiro cruzou de primeira para Nunes, que chegou atrasado por milímetros.

O Flamengo voltou à carga aos oito minutos, quando Zico recebeu de Tita e entrou driblando em velocidade pela defesa do Atlético, parado apenas com falta por Luisinho quase na risca da grande área. Na cobrança, a bola acertou a barreira, que andou muito e forçou Aragão a mandar voltar. Cerezo protestou e o árbitro chegou a botar a mão no bolso para puxar o cartão (que seria o vermelho). Mas foi Reinaldo quem acabou levando o amarelo.

O Atlético, que já havia trocado o lateral Orlando por Silvestre no intervalo, teve de gastar sua segunda alteração aos dez minutos da etapa final, quando Luisinho saiu lesionado para dar lugar ao lateral Geraldo (Silvestre passou para a zaga). Logo depois, numa bola esticada pela direita do ataque atleticano que Marinho protegeu para a saída de Raul, Reinaldo sentiu um estiramento no músculo posterior da perna coxa direita.

A torcida rubro-negra gritava “bichado”, e o jogo parecia se colocar à feição do Flamengo. Cerezo quase marcou contra ao tentar abafar um chute de Marinho, defendido no reflexo por João Leite. Na ponta-esquerda, Júlio César era duramente marcado por Geraldo. O lateral atleticano chegou a atingir o rubro-negro com um carrinho por trás sem, no entanto, levar nem o amarelo. Logo depois, Nunes perdeu chance incrível, chutando mal após passe de Júnior.

Aos 16 minutos, porém, a defesa rubro-negra cometeu um erro fatal. Manguito saiu da área para dar combate a Palhinha e deixou Marinho sozinho. A bola chegou a Éder, que cruzou alto. Marinho não alcançou, e Reinaldo, que se infiltrara nas costas da zaga, apareceu desmarcado para finalizar de primeira. A bola entrou chorando no gol de Raul. O empate atleticano, que parecia improvável, vinha com um jogador que fazia número em campo.

O Flamengo mexe no time: Carpegiani dá lugar a Adílio. O Atlético ganhava confiança. Mas um impedimento mal marcado de Reinaldo na ponta direita degringolaria numa enorme confusão. O atacante atleticano parou na frente da bola para impedir a cobrança e ainda a chutou. Aragão prontamente expulsou o camisa 9. Procópio e todo o banco atleticano entraram em campo, paralisando o jogo por mais de seis minutos. O técnico mineiro também seria expulso.

Reinaldo cai em campo – sente o músculo, faz cera, xinga a mãe do juiz. José de Assis Aragão revida: ‘Quebro a cara desse moleque. Tá expulso!’”, relatou a crônica do jogo publicada pela revista Placar. O fato é que a longa pausa, esfriando o jogo até quase os 30 minutos do segundo tempo, beneficiava o Atlético, que seria campeão com aquele empate. O Fla buscava forças para reagir. Adílio entrara bem no lugar de Carpegiani. E Júlio César crescia.

O ponteiro incomodava a defesa atleticana com seus dribles rápidos. E ao receber um pontapé de Palhinha, provocaria uma falta perigosa próxima à área. Adílio, por sua vez, abriria uma bola na direita para Toninho cruzar na cabeça de Zico, que tocou por cima. Mas logo a torcida voltaria a se inflamar. Aos 36, Osmar sairia jogando outra vez até o meio-campo. Sua tentativa de lançar Pedrinho, porém, foi interceptada por Júnior, que entregou a Andrade.

O camisa 8 então lançou a bola para Nunes, novamente no espaço deixado pelo beque atleticano. O atacante rubro-negro disparou em velocidade e tentou alçar a bola para a área, mas ela bateu no peito de Silvestre e voltou para o João Danado. Na risca lateral da área, o centroavante parou na frente do marcador, relembrando seus tempos de ponta. Sob as traves, João Leite gritava: “Quebra ele, Silvestre!”, mas o beque continuou parado.

Instintivamente, Nunes deu o drible para dentro, arrancou pela linha de fundo e, quando o arqueiro atleticano caiu para fechar o canto, o centroavante bateu à meia altura, estufando as redes. Um gol de raça, de ousadia, de inspiração. Um dos mais memoráveis da história do estádio e dos Campeonatos Brasileiros. E que fez explodir de vez a torcida rubro-negra, até então apoiando, empurrando o time, mas um tanto aflita, roendo as unhas.

Aos 39, para reforçar a marcação, Júlio César deixaria o campo dando lugar ao lateral Carlos Alberto, que entraria no meio-campo para conter Cerezo. Agora era o Flamengo que se fechava e explorava os contra-ataques puxados por Zico. O Atlético, à essa altura, já se deixava vencer pelos nervos: Osmar foi driblado por Andrade e cometeu falta. Quando o camisa 8 se levantava, de passagem, o zagueiro atleticano acertou um soco em seu rosto.

Depois, Tita sofreu falta perto do bico da área pelo lado direito, Chicão pegou a bola e jogou na cabeça de Aragão. Com o Flamengo pedindo desesperadamente o fim do jogo, o árbitro esticava para repor o tempo perdido com a paralisação após a expulsão de Reinaldo. Já eram 48 minutos quando Tita recebeu um passe na meia esquerda e começou a fazer embaixadinhas, até levar um pontapé de um descontrolado Chicão, expulso imediatamente.

Logo depois seria a vez de Palhinha, que encostou no árbitro e disse-lhe alguma coisa. Os dois discutiram, e o meia-atacante atleticano também recebeu o vermelho. O Flamengo rodava a bola de pé em pé aguardando o apito final, mas ainda levaria um susto: Carlos Alberto recuou para Manguito, que teve a carteira batida por Pedrinho. O ponta arrancou num último gás e passou até mesmo pelo goleiro Raul, que já deixava a área.

Quando Pedrinho preparou a perna para armar o chute, Andrade apareceu na hora exata para bloqueá-lo. E, para o alívio dos rubro-negros, aquele seria o último lance da partida, encerrada aos 51 minutos. A multidão que já aguardava o fim do jogo à beira do campo rapidamente invadiu o gramado, levando Coutinho e os jogadores nos ombros. Alguns torcedores também pagavam promessas, cruzando ajoelhados toda a extensão do campo.

CAMPEÃO DO BRASIL

Vestindo faixa de campeão, o paraibano Herontino Colombo, 31 anos, era um deles, um símbolo da massa: “Moço, nem sei como vou pagar as prestações da passagem. Ganhei uma grana no bicho e dei a entrada. Me mandei para cá. Nunca tinha botado os pés no Maracanã. Um troço me dizia para eu vir ao Rio, que eu ia ver o Flamengo campeão. Como vou fazer para pagar? Sei lá! Não é hora de pensar nisso”, declarou à Placar.

Herói da final e nordestino como o torcedor, Nunes falava sobre a reação ao gol do título: “Senti a perna tremer. E depois a frustração: eu queria era estar na geral, cair nos braços daquele monte de gente, rolar por cima do povão. Mas fiquei com medo na hora H. Para mim, o jogo terminou ali. Foi por isso que eu fiquei dançando, meio ausente: senti o estádio dentro da minha camisa, como se cada pessoa fosse um Nunes e eu fosse cada um daqueles torcedores”.

Zico era outro exemplo de raça: “Durante o jogo pensei em meu problema muscular, mas não tive medo. Uma decisão é diferente. Joguei, dividi e me movimentei com todas as minhas forças. Se tivesse que arrebentar o músculo não tinha importância ficar dois meses parado. Esse título teria que ser nosso. Fizemos por merecer”, declarou o camisa 10, que tratou de incentivar o time em todos os momentos: “Nunca gritei tanto num jogo como nessa decisão”.

Naquele instante, cada torcedor se sentia consagrado como Nunes, imortalizado como Zico, redimido como Cláudio Coutinho. Se sentia tão campeão do Brasil como todo aquele esquadrão rubro-negro, que dali partiria para conquistar a América e o mundo no ano seguinte, e levantando ainda três Brasileirões em quatro anos. Se sentia digno da eternidade.

Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 2: Uma doce revanche

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Toninho, um portento físico, não dá chance a Baroninho na goleada histórica do Flamengo sobre o Palmeiras no Maracanã pela segunda fase.

No primeiro capítulo da saga rubro-negra rumo ao primeiro título brasileiro, relembramos o histórico do Flamengo em competições nacionais até ali, falamos do interesse crescente de torcedores e dirigentes pelo Brasileirão, relatamos as reformas sofridas pelo torneio dentro do contexto do próprio futebol no país, abordamos as chegadas e partidas no elenco e, por fim, contamos com detalhes a trajetória na primeira fase da Taça de Ouro.

Agora, na segunda parte, a campanha avança pelas duas etapas seguintes, as quais o Flamengo atravessou invicto e colhendo excelentes resultados. Um deles, contra o Palmeiras no Maracanã, valeu como uma inesquecível revanche da derrota no ano anterior. Mais adiante, uma grande vitória sobre o Santos, também num Maracanã com casa cheia, significou a passagem às semifinais. Aquele era, portanto, o momento de afirmação da equipe.

OS ADVERSÁRIOS NA SEGUNDA FASE

Classificado como o segundo colocado do Grupo C, o Flamengo teria agora pela frente três novos adversários na segunda etapa da competição – a única fase de grupos jogada em turno e returno naquela edição. A chave J tinha dois favoritos destacados, mas também duas outras equipes bastante perigosas e dispostas a surpreender, prontas para fazerem os papões tropeçarem. E quem seriam esses rivais rubro-negros na disputa?

Em ordem alfabética, o primeiro era o Bangu, rival já conhecido do Estadual, mas que apresentava uma novidade para aquele ano de 1980: o retorno de Castor de Andrade a Moça Bonita, após dez anos de ausência, mas desta vez não mais como diretor de futebol do clube e sim como seu “patrono”, custeando com o dinheiro do jogo do bicho uma equipe repleta de nomes experientes, com longa rodagem no futebol carioca e brasileiro.

No gol, havia Tobias (ex-Corinthians). Na zaga, o “xerife” Moisés, que recentemente passara pelo próprio Flamengo. No meio-campo, os ex-botafoguenses Carlos Roberto e Ademir Vicente, além do sempre matreiro Dé “Aranha”. E na frente, outro ex-rubro-negro, Caio “Cambalhota”, tinha a companha do trombador Luisão, principal goleador da equipe dirigida pelo ex-zagueiro Ananias, campeão carioca pelo Flamengo como jogador em 1963.

O time da Zona Oeste vinha de grande campanha na Taça de Prata, vencendo o grupo que incluía Campo Grande, Volta Redonda, Serrano e quatro paulistas: Ferroviária de Araraquara, Botafogo de Ribeirão Preto, Inter de Limeira e Noroeste de Bauru. Com cinco vitórias, um empate e apenas uma derrota (para a Ferroviária na estreia), o Bangu liderou sua chave e superou o Uberlândia na decisão do acesso com uma goleada de 4 a 0 em Moça Bonita.

O Bangu com Castor de Andrade à frente: um dos adversários do Fla.

Outro adversário, com quem o Flamengo faria os confrontos mais aguardados, era o Palmeiras. O Alviverde mantinha praticamente o mesmo time que eliminara o Fla no Brasileiro anterior antes de cair nas semifinais para o Internacional. A única baixa era o ponta-de-lança Jorge Mendonça, que saíra para o Vasco. Mas sem dramas: o talentoso Jorginho, ponta-direita em 1979, assumia a camisa 10, enquanto o arisco Lúcio (ex-Ponte Preta) agora vestia a 7.

Houve, porém, a mudança no comando do time, forçada pela saída de Telê Santana para assumir o comando da Seleção. Em seu lugar, entrara Sérgio Clérici, ex-jogador revelado pela Portuguesa Santista e que fizera extensa carreira no futebol italiano, dos 19 aos 37 anos, passando por nada menos que sete clubes diferentes. Mas a campanha apenas regular na primeira fase daquele Brasileiro de 1980 já fazia com que o treinador balançasse no cargo.

Por fim, o Santa Cruz era um time com histórico respeitável no Brasileirão. Chegara às semifinais deixando o próprio Flamengo de fora em 1975 e estivera bem próximo de voltar a figurar entre os quatro primeiros em outras duas ocasiões: em 1977, quando perdeu a vaga no saldo de gols para o igualmente surpreendente Operário-MS, e em 1978, quando chegou às quartas de final, mas caiu diante do Internacional, terminando numa ótima quinta colocação.

Na edição de 1980, porém, havia cumprido uma campanha um tanto oscilante na primeira fase. Foi capaz tanto de empatar em casa com dois dos piores times de sua chave – Gama e Maranhão – quanto de vencer o líder Coritiba e arrancar um empate diante do Grêmio, segundo colocado, dentro do Estádio Olímpico, em Porto Alegre. Em suma: um time que complicava contra os fortes, mas ia mal contra os mais fracos. Valia ligar o sinal de alerta.

O elenco trazia alguns nomes experientes, como o goleiro Wendell (ex-Botafogo, Fluminense e Seleção), o vigoroso zagueiro Tecão (ex-São Paulo) e o malicioso centroavante Tadeu Macrini (ex-Operário-MS), somados ao bom armador Betinho e ao goleador ponta-de-lança Baiano. Mas o time logo enfrentaria uma troca no comando na virada da primeira fase para a segunda, com o gaúcho Cláudio Duarte dando lugar a Paulo Emílio, o mesmo de 1975.

E seria exatamente o Santa Cruz o primeiro adversário do Flamengo naquela segunda etapa, no Estádio do Arruda, no Recife, no dia 6 de abril. Uma partida com predomínio das defesas sobre os ataques, até com uma certa rispidez por parte dos pernambucanos (o zagueiro Gaúcho chegou a rasgar a camisa de Tita), e que teve os rubro-negros melhores no primeiro tempo e os tricolores, que chegaram a colocar uma bola na trave, no segundo.

O Fla, no entanto, poderia ter vencido se o árbitro paulista Dulcídio Vanderlei Boschilia não tivesse invalidado uma jogada de Nunes, que recebeu de Zico, encobriu o goleiro Wendell e, após rebote da defesa pernambucana, mandou para as redes. O juiz, no entanto, ignorou a lei da vantagem e preferiu marcar uma falta do arqueiro pernambucano, que havia tocado a bola com a mão fora da área. Apesar dos protestos, o jogo ficou mesmo no 0 a 0.

A GRANDE REVANCHE

Tita “se despede” dos torcedores palmeirenses após marcar seu gol.

A segunda rodada marcava o reencontro de Flamengo e Palmeiras no Maracanã, pouco mais de quatro meses após a goleada alviverde no mesmo local pelo Brasileiro do ano anterior. Agora, em 13 de abril de 1980, o time paulista chegava para o confronto em meio a uma troca de comando: Sérgio Clérici não resistira a uma surpreendente derrota por 3 a 2 para o Bangu dentro do Parque Antártica na estreia da segunda fase e seria demitido.

Para o seu lugar, a diretoria palmeirense apostou em uma lenda do clube. O veterano Oswaldo Brandão, comandante da Academia bicampeã brasileira em 1972 e 1973, voltava para aquela que seria sua última passagem pelo Parque Antártica. Nome com extenso e vencedor currículo no futebol paulista, havia recentemente dirigido a Seleção Brasileira, entre 1975 e 1977, quando foi substituído exatamente por Cláudio Coutinho – de quem era amigo particular.

“O líder, o pai, o técnico: Brandão voltou”: assim a Folha de São Paulo mancheteava o retorno do treinador, que – amizade com o comandante rubro-negro à parte – não evitou lançar uma bravata para motivar o ambiente palmeirense: “Se o Coutinho bobear, arrebento com ele lá dentro do Maracanã”. Para isso, contaria com dez dos 11 titulares do time de 1979. A única baixa, como dito, era a de Jorge Mendonça, compensada com a chegada de Lúcio.

No Flamengo, após quatro empates consecutivos (três deles fora de casa), Coutinho começava a viver um período de incertezas, com a imprensa começando a aventar um suposto desgaste entre ele e o elenco. E a vitória enfática dos reservas sobre os titulares num coletivo na semana do jogo fez com que o treinador resolvesse alterar o time, trocando Adílio por Andrade para fortalecer a combatividade no meio-campo. Toninho também voltava após lesão.

Em São Paulo, onde se costumava até mesmo ridicularizar o treinador rubro-negro pelo hábito de ler livros e mais livros sobre táticas, o jogo era tratado como o confronto entre a “experiência” (Brandão) e a “teoria” (Coutinho). Quando a bola rolou, de fato o primeiro tempo foi bastante estudado de parte a parte, com poucas chances de gol. O Flamengo, porém, aproveitou melhor as que teve e foi para o intervalo em vantagem.

Primeiro, aos 13 minutos, Andrade ganhou uma bola estourada com Rosemiro, e ela sobrou para Júlio César na ponta. O camisa 11 parou, olhou para a área e centrou. Gilmar saltou para a defesa, mas não segurou, e Tita rebateu de cabeça para as redes, abrindo a contagem. Depois, aos 33, Júnior fez jogada pela esquerda e sofreu falta do mesmo Rosemiro perto do bico da grande área. A cobrança de Zico foi perfeita, na gaveta de Gilmar: 2 a 0.

O Fla ainda esteve muito perto de fazer o terceiro ainda na etapa inicial, numa bomba de Toninho em cobrança de falta que Gilmar deu rebote, mas nem Zico nem Nunes conseguiram concluir. Mas, se não veio no primeiro tempo, acabou vindo no segundo, em que o time rubro-negro foi verdadeiramente avassalador. Logo aos sete minutos, Zico tabelou com Tita, entrou na área e foi derrubado por Pires. O próprio camisa 10 bateu e converteu.

Com a já confortável vantagem no placar, Zico alegou dores musculares e deixou o jogo aos 12 minutos, substituído pelo ponta-direita Reinaldo (Tita seria deslocado para a ponta-de-lança). Mas nem mesmo isso impediu o Flamengo de buscar – e, no fim das contas, infligir – uma goleada memorável sobre o time paulista, agora cada vez mais refém do bom toque de bola rubro-negro e desmantelado pelos deslocamentos constantes da ofensiva do Fla.

O quarto gol rubro-negro chegou a lembrar o de Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970. Júlio César bateu escanteio rolando a bola para Júnior, que carregou pela intermediária e abriu na diagonal, Nunes fez o corta-luz e então abriu-se um clarão pelo lado esquerdo da defesa palmeirense. Nele apareceu Toninho, chegando como uma locomotiva e enchendo o pé para fuzilar Gilmar. A vingança já estava completa. Mas cabia mais.

Depois disso, o Fla relaxou e o Palmeiras foi para cima tentando diminuir a goleada. Antes que pudesse fazê-lo, porém, Tita combinou bem com Carpegiani pelo lado direito do ataque e chutou de virada para marcar o quinto gol. Na comemoração, era hora de extravasar: o camisa 7 correu o campo todo e se dirigiu ao setor das arquibancadas onde estavam os cerca de três mil palmeirenses. Com um “tchauzinho” maroto, acenava despedindo-se deles.

O Palmeiras ensaiou uma breve reação. Primeiro quando Marinho calçou César na área e o árbitro marcou pênalti, convertido por Baroninho com um chute forte. E em seguida quando um centro de Lúcio da direita encontrou Mococa nas costas da zaga rubro-negra para finalizar marcando o segundo. Mas não terminaria assim: o Flamengo não daria ao adversário o direito de colocar o ponto final no placar da partida em plena revanche.

E veio então o cruzamento de Reinaldo também da direita, procurando Nunes na segunda trave. O zagueiro Beto Fuscão não alcançou, e o camisa 9 rubro-negro, na pequena área, teve todo o tempo de ajeitar, deixar cair e bater seco, por entre as pernas de Gilmar. Só mesmo um gol assim poderia concluir a deliciosa vingança do Flamengo, um time que ali provava sua verdadeira força. E que permitia ao seu treinador calar a boca da imprensa paulista.

Depois da grande forra, o Flamengo tratou de garantir a classificação antecipada para a próxima etapa, já que faria no Maracanã seus dois jogos seguintes, contra Bangu e Santa Cruz – e venceria ambos por 2 a 1. Contra o primeiro, o personagem do jogo foi o árbitro Wilson Carlos dos Santos, que apitou um pênalti inexistente para cada lado: Zico e o lateral Ademir converteram. O outro gol foi de Nunes, escorando cruzamento de Júlio César.

Já contra o Santa Cruz, em 21 de abril, Andrade comemorou seu aniversário de 23 anos anotando um lindo gol para abrir o placar, num chute da intermediária que entrou no ângulo. No segundo, na etapa final, Júlio César conseguiu impedir a bola de sair pela linha de fundo e cruzou. O goleiro Carlinhos se atrapalhou e jogou para dentro. No fim, os visitantes diminuíram com Tadeu Macrini, num lance em que a defesa rubro-negra parou.

A confirmação da classificação permitiu a Coutinho poupar Zico, então à beira de um desgaste físico mais sério. O camisa 10 ficaria de fora dos dois últimos jogos daquela etapa, com Tita ocupando sua posição. No domingo, dia 27, o time faria a partida de volta contra o Palmeiras no Morumbi, agora naturalmente com os paulistas ávidos por vingança depois da verdadeira surra sofrida no Maracanã. Mas ficariam apenas na vontade.

Depois de aguentar a pressão do time da casa por cerca de meia hora no primeiro tempo, o Fla saiu na frente com um golaço: Júlio César armou um salseiro na defesa palmeirense e passou de calcanhar para Júnior, que disparava em direção à linha de fundo. O centro do lateral encontrou Tita chegando como um raio na pequena área adversária. E numa cabeçada fulminante, o camisa 10 daquela tarde venceu o goleiro Gilmar e abriu a contagem.

O Palmeiras empatou três minutos depois com Jorginho, recebendo lançamento no meio da defesa. E virou logo no começo do segundo tempo com o futuro rubro-negro Baroninho, soltando uma bomba quase sem ângulo após rebote da defesa. Mas o Fla frustraria a torcida palmeirense a nove minutos do fim: Nunes carregou a defesa, Reinaldo cruzou da direita, Rondinelli escorou de cabeça e Carlos Henrique chutou de virada para empatar.

O ponto conquistado no Morumbi garantiu também a primeira colocação no grupo ainda com uma rodada pela frente. Mas antes de encerrar sua participação naquela etapa, o Fla foi a Belo Horizonte na quarta-feira, 1º de maio, enfrentar e vencer o Atlético no Mineirão por 1 a 0, gol de Tita, num confronto de times mistos, em amistoso comemorativo ao Dia do Trabalhador. Na volta, enfrentaria o Bangu no Maracanã, no dia 4, poupando vários titulares.

Coutinho deu descanso a Andrade, Carpegiani, Zico e Júlio César – os dois últimos se recuperando de problemas físicos – e ainda substituiu Rondinelli no intervalo. Mesmo assim, Tita garantiu a tarde, marcando os três gols (todos no segundo tempo) na vitória de 3 a 0. Primeiro, apanhando o rebote de um chute de Nunes. Depois, com um toque só, após o goleiro Arerê não segurar o cruzamento de Toninho. E por fim, numa cobrança de falta a la Zico.

A TERCEIRA FASE

Os 16 clubes classificados para a terceira fase seriam novamente divididos em grupos de quatro equipes, mas desta vez se enfrentando em turno único. Era tiro curto: apenas três partidas para cada clube. Ao Flamengo coube reencontrar dois adversários da primeira fase, Santos e Ponte Preta, além da Desportiva, principal surpresa entre os que avançaram, e que fazia a melhor campanha de um clube capixaba na elite nacional em todos os tempos.

Na primeira rodada, em 10 de maio, o Fla recebeu a Desportiva no Maracanã e venceu por 3 a 0 numa tarde em que Zico e Nunes inverteram os papeis. Foram três assistências do centroavante para três gols do camisa 10. Primeiro, num cruzamento da esquerda para a cabeçada do Galinho. Depois, Nunes driblou o goleiro e centrou para Zico dominar no peito e chutar. E o terceiro, no último minuto do jogo, Nunes cruzou e Zico cabeceou meio sem querer.

O Santos bateu a Ponte Preta pelo mesmo placar no outro jogo do grupo, o que deixou o time campineiro dependendo de uma vitória sobre o Flamengo em seu estádio Moisés Lucarelli, na noite de quarta-feira, 14 de maio, para seguir com chances. O Fla, por sua vez, queria pelo menos um empate para enfrentar o Peixe na rodada decisiva ainda em boas condições. E conseguiria o ponto precioso, mas não sem enfrentar um adversário duríssimo.

Empurrada pela torcida, a Ponte foi para cima e abriu a contagem aos 19 minutos da etapa final. Após confusão na área, o volante Humberto apanhou o rebote e chutou forte da marca do pênalti para abrir o placar. Mas o Fla não se deu por vencido e empatou aos 34: Zico arriscou de fora da área, Carlos não segurou e Nunes, oportunista, empurrou para as redes. No fim do jogo, Zico ainda foi atingido na barriga por uma pedra atirada por torcedores.

O empate tirou definitivamente a equipe campineira da briga. Mas, para o Fla, melhor ainda foi o resultado do dia seguinte, quando a Desportiva segurou o 0 a 0 com o Santos dentro de uma Vila Belmiro lotada, permitindo que os rubro-negros jogassem por uma nova igualdade diante do time paulista no domingo, 18 de maio, no Maracanã, por terem mais gols marcados, um dos critérios de desempate. Mas o Flamengo não se conformaria com a vantagem.

Curiosamente, o cenário lembrava muito o da fatídica partida contra o Palmeiras no ano anterior: o Flamengo a um jogo das semifinais do Brasileiro enfrentando um grande clube paulista que contava com uma equipe jovem, talentosa e de vocação ofensiva, diante de um público superior a 100 mil pessoas – desta vez, exatos 110.079 pagantes, que estabeleceram o recorde nacional de renda. Agora, porém, o desfecho seria completamente diferente.

Zico cabeceia para vencer Marolla e abrir o placar contra o Santos.

O jogo contra o Santos fechou com chave de ouro a campanha rubro-negra naquela terceira fase. Os paulistas bem que tentaram assustar nos minutos iniciais, mas o Flamengo logo tomou conta das ações. Fechando os espaços, tinha sob controle os dois meias de criação do adversário (Pita e Rubens Feijão), impedindo que a bola chegasse aos perigosos ponteiros Nílton Batata e João Paulo. E confundia a defesa santista com sua movimentação incessante.

Mesmo em meio à excelente atuação coletiva, foram muitos os destaques individuais. Toninho, um colosso na defesa e no apoio. Júlio César, com seus dribles, um tormento constante para o lado direito da retaguarda santista. Júnior, além de tomar conta de Nílton Batata, juntava-se aos meias como mais um armador. Andrade, protegendo e apoiando com muita classe. E Zico, é claro, o grande construtor da vitória e da classificação.

O placar foi aberto logo aos 13 minutos, depois que o Fla já havia construído uma sucessão de jogadas ofensivas. Carpegiani, outro que esteve soberbo nos 45 minutos em que atuou, recebeu a bola no meio-campo e, de primeira, lançou Nunes, que caía pela ponta-esquerda exatamente como fizera contra a Desportiva. Zico, pelo meio, correu para acompanhar. O cruzamento veio na medida: o camisa 10 cabeceou para baixo, vencendo o goleiro Marolla.

O arqueiro santista, aliás, revelaria-se a melhor figura de seu time. Depois de já ter espalmado um chute perigoso de Júnior, reapareceu de maneira brilhante aos 19 minutos, defendendo uma cabeçada de Nunes que tinha endereço certo. Pouco depois, Marolla também pegaria outra boa cabeçada, agora de Zico, e assistiria a outros chutes de Andrade e Tita passarem perto de suas traves. Tudo isso ainda no primeiro tempo.

Na volta para a etapa final, Carpegiani deixou o jogo por um desconforto físico e Adílio entrou em seu lugar. O substituto iniciaria a jogada do segundo gol, aos 13 minutos, puxando um contra-ataque e entregando a bola a Zico na intermediária. O Galinho arrancou fazendo fila na defesa santista até ser deslocado pelo zagueiro Neto na área. Pênalti que o próprio Zico bateu no canto, sem chances para Marolla, selando a classificação rubro-negra.

“Nossos jogadores esqueceram a vantagem do empate e chegaram a uma grande vitória. Na minha opinião, foi um show de autoridade técnica em todos os momentos”, declarava satisfeito Cláudio Coutinho nos vestiários. Uma afirmação que encontrava eco até no resignado treinador santista Pepe: “Atuamos contra o melhor time do Brasil no momento. E se o Flamengo continuar jogando dessa maneira, chegará facilmente ao título”.

Sobre Zico, que já chegava a 18 gols no Brasileiro e negociava uma renovação de contrato que elevaria seu salário a um milhão de cruzeiros, o maior do futebol brasileiro na época, Pepe também não economizou elogios: “Naquele lance em que ele pegou a bola no meio de campo e levou até a nossa área, cavando o pênalti e cobrando, ficou comprovado que Zico vale muito mesmo. Tudo que ele pedir tem que se dar, pois está muito bem”.

Assim, o Flamengo confirmou os prognósticos para o Grupo O e ficou em primeiro. Nas chaves M e N, também os clubes apontados como favoritos – Atlético-MG e Internacional – avançaram. Apenas o Grupo P surpreendeu, com a classificação do Coritiba à frente do favorito Corinthians e também de Grêmio e Botafogo. Os paranaenses seriam os próximos adversários do Fla. Mas esse confronto e também a decisão do título serão contados no próximo capítulo.

Até lá! SRN!