Há 30 anos, “misto quente” do Fla trazia outro caneco do Japão: a Copa Kirin

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O Fla que derrotou o Bayer Leverkusen na decisão em Tóquio e levantou a Copa Kirin de 1988. Em pé: Leandro, Delacir, Valmir, Gonçalves, Paulo César e Cantarele. Agachados: Márcio, Gerson, Paloma, Zico e Gilmar Popoca.

Palco do maior momento da história do Flamengo, a conquista do Mundial Interclubes diante do Liverpool em 1981, o Estádio Nacional de Tóquio assistiu há 30 anos a um outro título rubro-negro assegurado com vitória sobre um clube campeão de troféu europeu. No dia 7 de junho de 1988, o Fla derrotava o Bayer Leverkusen (então detentor da Copa da Uefa) por 1 a 0, gol de Zico, e levantava a Copa Kirin, competição disputada anualmente na capital japonesa. Foi um título especial por ter sido vencido com um time que misturava garotos da base e reservas (muitos deles desconhecidos dos próprios torcedores rubro-negros), reforçado pelo Galinho – que aumentou seu prestígio em solo japonês – e alguns outros nomes experientes.

A Copa Kirin é um torneio amistoso organizado e patrocinado pela cervejaria japonesa Kirin Brewery Company desde 1978. Até a edição de 1991, misturava clubes e seleções (a do Japão era participante fixa) se enfrentando num sistema de pontos corridos antes de uma decisão entre os dois primeiros colocados. Dentro deste período, vários clubes brasileiros além do Flamengo (Palmeiras, Internacional, Santos, Fluminense, Vasco) disputaram a competição. A partir de 1992, ela foi transformada num torneio exclusivamente de seleções.

Além de representar um desvio da tradicional rota de torneios de verão europeus, a Copa Kirin tinha na estrutura e na premiação uma de suas atrações. A participação do Flamengo na edição de 1988 foi acertada em 2 de maio daquele ano. O clube receberia 35 mil dólares por partida com bônus de 10 mil, caso fosse campeão. Parece pouco, mas para a realidade econômica brasileira da época significava quase 30 milhões de cruzados. Além disso, o contrato praticamente exigia a participação de Zico – sem o qual, a cota por jogo cairia para 17 mil dólares.

Zico, o astro requisitado pelos organizadores japoneses.

Naquela altura, o Fla seguia disputando o Campeonato Estadual, então na reta final da Taça Rio e com um terceiro turno a caminho. Mesmo com o título da Copa União conquistado no fim do ano anterior e o da Taça Guanabara já no início daquela temporada, o time não conseguia levar bons públicos aos jogos do Carioca. A competição, de um modo geral, teve média bastante decepcionante. As principais causas apontadas foram a violência dentro e fora dos gramados, a crise econômica e ainda as transmissões ao vivo pela televisão, que voltaram naquele ano, pela Rede Manchete.

De modo que, para arcar com um elenco de folha salarial bastante alta como aquele, era preciso arrecadar das mais variadas formas. E o convite, financeiramente irrecusável, veio num momento providencial. Porém, sem poder interromper sua participação no Estadual, o Flamengo teve de armar um time misto bem curioso para viajar ao Japão. O elenco que embarcou tinha, além de Zico, um trio de nomes experientes: o goleiro Cantarele (então na reserva de Zé Carlos) e os zagueiros Leandro e Edinho. Junto a eles, um punhado de garotos da base, como o lateral Valmir, o zagueiro Gonçalves, os meias Jecimar e Zé Ricardo e os atacantes Gérson e Paloma.

Para completar o grupo, o Fla bateu na porta de outros clubes em busca de reforços temporários. No America, conseguiu o empréstimo do lateral-esquerdo Paulo César e do volante Delacir, além de receber de volta o ponta Márcio, que pertencia ao próprio Flamengo – o meia Renato, destaque cobiçado daquele time rubro, também viajaria em princípio, mas na última hora seu clube vetou. E do Porto Alegre, de Itaperuna, veio no mesmo esquema o ponta-esquerda Cosme, uma das revelações do time do Noroeste Fluminense naquele Estadual.

Por fim, o meia Gilmar Popoca – eterna promessa rubro-negra de meados dos anos 80 que acabou não se firmando – ganhou nova chance na Gávea, emprestado pela Ponte Preta, com quem o Fla o havia negociado no começo do ano anterior. Com esses jogadores, o time misto comandado pelo auxiliar João Carlos Costa – Carlinhos seguiria com a equipe principal – realizou alguns treinos na Gávea para ganhar algum entrosamento e embarcou para Tóquio, com uma escala em Los Angeles, na noite de 24 de maio.

Zico bate falta no primeiro jogo contra o Bayer Leverkusen.

Além de enfrentar as seleções do Japão, anfitriã do torneio, e da China, o principal adversário do Flamengo no torneio seria o Bayer Leverkusen, time ascendente no futebol da então Alemanha Ocidental, e que havia acabado de conquistar a Copa da Uefa (atual Liga Europa), deixando pelo caminho clubes como o Barcelona e o Werder Bremen, antes de derrotar o Espanyol na decisão. O camisa 10 do time era um velho conhecido dos rubro-negros: Tita, que havia se transferido do Vasco em setembro de 1987. Além dele, outros astros eram o polonês Andrzej Buncol, o sul-coreano Cha Bum-Kun e os alemães de seleção Ralf Falkenmayer e Herbert Waas.

Um dia depois de a equipe principal golear o Goytacaz por 6 a 0 com quatro gols de Bebeto na Gávea pela última rodada da Taça Rio, em Tóquio a equipe mista estreou enfrentando a seleção japonesa, que curiosamente por essa época usava camisas vermelhas, em vez das atuais azuis. O time entrou com Cantarele no gol, Valmir e Paulo César nas laterais, Leandro e Edinho no centro da defesa, Delacir de volante com Gilmar e Zico na armação, tendo no ataque Márcio, Paloma e Gerson (este, mais recuado ajudando o meio-campo).

De camisas brancas (e sem o patrocínio da Lubrax), o time da estreia.

A vitória veio sem dificuldade: logo aos nove minutos, o lateral Paulo César recebeu lançamento de Gilmar Popoca e foi deslocado na área por um defensor, num pênalti que Zico bateu para abrir o placar. O segundo gol saiu já na etapa final, aos sete minutos. Bola de pé em pé: Zico para Gilmar, Gilmar para Márcio, e de Márcio sai o passe vertical que encontra Paulo César entrando na área. O lateral só tem o trabalho de tirar do goleiro, ampliando para 2 a 0.

Aos 20 vem o terceiro: Zico lança Valmir, que entra na área, limpa a marcação e deixa a bola para o volante Delacir, que manda um foguete para as redes. Os japoneses – que estiveram perto de disputar a Copa do Mundo no México dois anos antes, perdendo a decisão de uma das vagas para a Coreia do Sul – descontam com um belo gol de Yoshida, que ganha de Edinho na velocidade, limpa Paulo César e bate vencendo Cantarele.

De trem bala, a delegação rubro-negra viajou até Kioto para enfrentar os alemães do Bayer Leverkusen, que haviam vencido a China por 2 a 0. A partida foi disputada numa noite de quarta-feira, 1º de junho, no estádio Nishikyogoku. E o Flamengo saiu atrás no marcador, curiosamente com gol de um oriental: o sul-coreano Cha Bum-Kun, que concluiu um contra-ataque conduzido por Tita aos 21 minutos do primeiro tempo.

Mas ainda naquela etapa, aos 36, veio o empate por meio de Edinho (que cumpria excelente atuação) num chute que desviou na defesa. Outro que esteve muito bem foi Cantarele, garantindo o resultado com defesas sensacionais, entre elas uma cabeçada à queima-roupa que tinha a direção do ângulo e um chute venenoso de Tita. Na saída do estádio, os jogadores do Fla experimentaram a idolatria dos nipônicos, tendo de sair escoltados por policiais para escapar do assédio de centenas de crianças.

Destaque e autor do gol contra o Bayer Leverkusen, Edinho teria de voltar ao Rio para se juntar a time principal na disputa do terceiro turno do Estadual, com estreia marcada para o dia 4, num Fla-Flu. Em seu lugar, entraria mais um garoto da base, um certo Gonçalves. O jovem, que havia entrado durante a partida contra o Japão, formaria a zaga com Leandro para a partida contra a China, na qual um empate garantia os rubro-negros na decisão do torneio.

O jogo disputado no dia 5 de junho em Kagoshima não teve grandes emoções. O Fla abriu o placar com Gerson, que aproveitou ótimo passe de Zico no meio da defesa aos 17 minutos. Mas os chineses, que estranhamente atuaram retrancados mesmo precisando vencer, ainda chegaram ao empate no segundo tempo, numa cabeçada de Ma Lin. Com o resultado, os rubro-negros terminaram na segunda colocação e avançaram para a final contra o Bayer Leverkusen, que bateu o Japão por 1 a 0 mesmo sem contar com Tita, convalescendo de uma intoxicação alimentar.

O ex-rubro-negro também não estaria em campo contra o Flamengo na decisão do torneio, em 7 de junho, apenas dois dias depois da rodada anterior. O palco da final era o mesmo da estreia no torneio e também o mesmo em que o Flamengo derrotou o Liverpool da final do Mundial Interclubes em 1981: o Estádio Nacional de Tóquio. E de novo o Fla levantou a taça, graças a um gol de Zico, aos dez minutos de etapa final.

O lance nasceu de um passe de Zico para Márcio, que chutou na trave. A bola correu por toda a extensão da pequena área até sobrar para Paloma, que cruzou da linha de fundo. A zaga tentou afastar de cabeça, mas o Galinho rebateu também em cabeceio, encobrindo o goleiro Vollborn. Jogador mais determinado do time na partida, o camisa 10 vibrou muito na comemoração. Porém, nos minutos finais, ao tentar um pique para alcançar uma bola longa de bola de Cantarele, o capitão rubro-negro sentiu a coxa e teve de deixar o campo.

O Flamengo ditou o ritmo da partida e fez o público japonês vibrar com suas jogadas de efeito contra os atarantados alemães. Tão perdido estava o Bayer que, em certa altura, após levar um drible desmoralizante de Leandro, o atacante Klaus Täuber acertou um soco no queixo do zagueiro rubro-negro, provocando um pequeno corte no local. Mesmo assim, o Fla não se intimidou, vencendo na bola e na garra: “Os alemães tentaram se impor pela força, mas não conseguiram. O Flamengo foi um time valente durante os 90 minutos”, exaltou o técnico João Carlos Costa.

Se reforçou o prestígio do Flamengo e de Zico no Japão e foi um dos últimos títulos das carreiras de Leandro e Cantarele, além do derradeiro de Edinho pelo Flamengo, a Copa Kirin também marcou o ponto alto da passagem dos demais jogadores daquele time misto pelo Fla. Foi uma ocasião inesquecível para os garotos que se juntaram ao quarteto experiente, mas também uma alegria efêmera vestindo rubro-negro, já que, dentro de pouco tempo, eles não estariam mais nos planos do clube, segundo suas carreiras em outras equipes.

Leandro encara o Japão: um de seus últimos títulos.

Os reforços que pertenciam ao America acabaram sendo contratados, mas não chegaram a se firmar: Delacir foi titular do time no Campeonato Brasileiro de 1988 no lugar de Andrade (vendido à Roma), mas logo no início do ano seguinte seguiria para o São José, defendendo também o Bahia, mais tarde. Paulo César, por sua vez, ficaria um pouco mais, saindo apenas em meados de 1989, após o Estadual, negociado com o Cruzeiro. Já o meia-atacante Márcio seguiria integrado ao elenco rubro-negro pelo restante daquele ano, mas teria raras chances na equipe, sendo emprestado ao Ceará no ano seguinte e defendendo ainda o Fluminense, em 1991.

Os garotos “prata da casa” campeões no Japão também rodariam bastante depois de deixarem o Fla – o que não demorou muito para acontecer. Ainda naquele ano, Valmir, Paloma e Gerson seguiriam para o America, participando da última campanha do time rubro na elite do Brasileiro. Posteriormente, o lateral defenderia times como Bragantino, Portuguesa, Grêmio e Atlético-MG (chegando a ser vice brasileiro em 1996 pela Lusa e 1999 pelo Galo), enquanto o atacante mais tarde se tornaria ídolo em outro América, o de Natal, e o meia passaria pelo futebol goiano.

Leandro (3) e Zico (10) dividem as comemorações de mais um título na capital japonesa com a garotada rubro-negra.

O zagueiro Gonçalves ganharia mais espaço no time em 1989, mas cairia em desgraça ao marcar um gol contra a favor do Botafogo num jogo em que o Fla vencia por 3 a 1 e terminou empatado em 3 a 3 pela Taça Rio daquele ano. Por coincidência, seria negociado com o próprio Alvinegro logo depois do Estadual, tornando-se um ídolo da torcida do rival. Sem mais chances na Gávea, Gilmar Popoca também defenderia o Botafogo, mas já em 1988, no Brasileiro. E pelas temporadas seguintes, continuaria rodando, passando por clubes como Santos, São Paulo e Vitória.

Curiosamente, na volta do Japão o Flamengo acabaria contratando em definitivo o meia Renato, de quem o America havia negado o empréstimo anteriormente. Chegando à Gávea no mesmo momento em que seu xará gaúcho também trocava o Fla pela Roma, Renato receberia o complemento “Carioca” para ser diferenciado do ponteiro e, como ele, formaria uma boa dupla com Bebeto, na virada de 1988 para 1989. Ainda seria o responsável por outra vitória memorável do Flamengo derrotando um grande clube europeu em um torneio internacional. Mas essa é uma outra história, a ser resgatada em breve.

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Há 35 anos, Fla se reinventava para levar tri brasileiro com vitória épica e casa cheia

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O time do primeiro jogo da decisão contra o Santos, que valeu o tri brasileiro. Em pé: Bigu, Raul, Mozer, Marinho, Leandro e Junior. Agachados: Élder, Adílio, Baltazar, Zico e Julio César. Na segunda partida, Bigu deu lugar a Vitor e Mozer foi substituído por Figueiredo.

O terceiro título do Campeonato Brasileiro levantado pelo Flamengo em sua história talvez seja o menos relembrado e comentado entre os seis. O primeiro, em 1980, é citado como pontapé inicial para a conquista do mundo. O segundo, de 1982, é a consagração definitiva do Fla “campeão de tudo”. O quarto, em 1987, à parte das polêmicas judiciais sempre levantadas (pelos outros), tem a marca de um timaço que uniu gerações de ídolos rubro-negros. O penta, em 1992, é do Vovô Garoto e dos Gaúcho’s Boys. E o hexa, em 2009, evoca as jornadas memoráveis de Adriano e Petkovic. E o de 1983? Como entra nesse álbum de memórias?

A vitória categórica sobre o Santos por 3 a 0 naquele 29 de maio de 1983 num Maracanã atulhado de gente – que deu ali ao Brasileiro seu maior público de todos os tempos – consagrou um Fla já um tanto diferente daquele que todo mundo decorou. Do meio para a frente, só Adílio e Zico mantiveram-se como titulares. Mas foi o primeiro título nacional vencido na base do “deixou chegar”, que se tornaria tão característico. Talvez pouca gente saiba, mas o Flamengo, apesar de todo o elenco e cartel recentes, entrou com o moral baixo naquele torneio, subestimado pela imprensa e desacreditado pela torcida.

Foi também o que marcou a despedida de Zico, cuja saída para o futebol italiano foi preservada como segredo de estado na reta final da competição até o triste anúncio, dias depois da conquista. Foi também o último Brasileiro com Raul, nosso senhor goleiro, sob as traves. A taça veio com um treinador que talvez tenha sido o menos “feito em casa” dentro da tradição rubro-negra de conquistas, mas que acabou sendo fundamental naquele curto espaço de tempo em que ficou, ao injetar gás novo na equipe. Ah, sim! Houve ainda a deliciosa eliminação de um arquirrival no mata-mata. São muitas histórias. Vamos a elas?

PRÓLOGO: O ANO QUE TERMINOU EM SETEMBRO

Até o fim de setembro, o Flamengo viveu um ano de 1982 irretocável. Numa campanha repleta de viradas memoráveis e vitórias marcantes sobre vários dos grandes clubes brasileiros, o clube levantou o Campeonato Brasileiro derrubando na final o campeão anterior, Grêmio, dentro do estádio Olímpico. A conquista representava ainda a unificação de todas as taças possíveis: naquele fim de abril, os rubro-negros se tornavam os atuais detentores dos títulos estadual, nacional, continental e mundial. E ainda sobrava, de lambuja, a Taça Guanabara.

E mesmo em meio à tristeza que envolveu o futebol brasileiro com a derrota de uma Seleção encantadora no Mundial da Espanha, em julho, a torcida do Fla ainda encontrava motivos para sorrir: o time começara a campanha no Carioca da mesma maneira que vinha antes da pausa para a Copa. Depois de surrar pequenos (a Portuguesa levou de quatro e o Madureira, de oito) e grandes (Botafogo e Fluminense perderam de 3 a 0, fora os respectivos bailes), o time faturou o penta da Taça Guanabara vencendo o Vasco em jogo extra, 1 a 0, gol de Adílio no último minuto.

Naqueles três últimos meses do ano, havia pela frente a Taça Rio, a Taça Libertadores da América (na qual o Flamengo, como atual campeão, já entrava diretamente no triangular semifinal) e, mais adiante, a fase final do Carioca, para qual o time já estava classificado por vencer o primeiro turno. A prudência aconselhava girar o elenco – que havia sido até reforçado naquele semestre, com nomes como os ponteiros Wilsinho e Zezé – no torneio estadual para evitar que o desgaste físico e uma certa autossuficiência em vista das conquistas anteriores atrapalhassem a caminhada para manter a hegemonia.

Adílio na batalha contra o River Plate pela Libertadores de 1982: fim do sonho do bi continental e mundial.

Não foi, no entanto, o que se viu. O time titular foi mantido no Carioca e, em 17 de outubro, perdeu para o perigoso Campo Grande no alçapão de Ítalo del Cima por 1 a 0. Dois dias depois, já estava em Montevidéu, estreando na Libertadores contra o Peñarol. A nova derrota pelo placar mínimo não foi um bom sinal. Até porque, dali em diante, o elenco iniciaria uma verdadeira maratona, jogando de três em três dias, indo de estádios acanhados a aeroportos.

Se venceu duas vezes o River Plate (3 a 0 dentro do Monumental de Nuñez e 4 a 2 no Maracanã), perdeu de vez o rumo no Estadual com derrotas para a Portuguesa na Ilha do Governador e para o Fluminense no Maracanã. Após o triunfo sobre os portenhos no Rio, muito mais complicado do que o placar indica, João Saldanha chegou a intimar em sua coluna no Jornal do Brasil: “Parem os onze!”. Segundo ele, o desgaste físico e psicológico era gritante no time do Flamengo, vinha atrapalhando a fluência de seu jogo e poderia levar a consequências desastrosas.

Não deu outra: definitivamente afastado da conquista da Taça Rio após perder para o America quatro dias depois de vencer o River Plate, o Fla viveria um dos jogos mais traumáticos de sua história em 16 de novembro: precisando vencer o Peñarol no Maracanã por qualquer placar para voltar à final da Libertadores, o time desperdiçou um caminhão de gols, viu uma cobrança de falta do brasileiro Jair vencer Cantarele e perdeu por 1 a 0 diante de um estádio incrédulo. Três semanas depois, perderia também o título carioca para o Vasco. Era o pior desfecho possível.

UM CLUBE DILACERADO

Se dentro de campo, as coisas já haviam ficado inacreditavelmente amargas, fora dele ficariam ainda piores. Dois dias depois da derrota para o Vasco, o supervisor Domingo Bosco foi internado com problemas cardíacos. No dia 20, morreria vitimado por uma trombose cerebral, aos 51 anos. Era fundamental na estrutura rubro-negra: verdadeiro paizão para os atletas, servia de anteparo na relação entre eles e a diretoria, cuidava de todos os detalhes na concentração, e ainda atuava como “relações públicas”, promovendo os jogos. Era insubstituível.

Outra baixa foi a demissão do preparador físico José Roberto Francalacci, no clube desde o fim dos anos 60 e responsável por todo o tratamento ao qual Zico e outros pratas da casa haviam se submetido na adolescência para ganhar massa muscular. Uma discordância com o técnico Paulo César Carpegiani sobre a divisão de atribuições e o método de trabalho levaria à saída do preparador. Já o treinador teria seu contrato renovado por mais um ano. Mas não resistiria até lá, como veremos.

Sem Bosco, os pequenos atritos que haviam entre jogadores e comissão técnica se intensificaram e se tornaram quase incontroláveis. No começo de janeiro de 1983, o New York Cosmos sondou a contratação de Nunes. Indagado se gostaria de deixar o Flamengo, o atacante deixou escapar que “não se dava com uma pessoa” de dentro do clube. Pressionado por jornalistas, acabou deixando no ar que seu desafeto era o treinador. Afastado do elenco (até porque o clube já tentava o gremista Baltazar), foi colocado em disponibilidade. Depois de Palmeiras, Millonarios de Bogotá e Ponte Preta manifestarem interesse, ele é emprestado ao Botafogo no fim de fevereiro, com o Brasileiro já rolando.

Ainda em janeiro, no dia 17, o clube acerta a chegada de Baltazar, em troca por empréstimo por Tita, que sai insatisfeito e triste por deixar o clube. Chega também um certo lateral-direito chamado Cocada, vindo do Operário-MS. Para a ponta-direita, no dia 20 é anunciado Robertinho, do Fluminense, também em troca por Wilsinho (ex-ponteiro do Vasco, trazido para o Carioca de 1982). Por outro lado, há ainda a pendência dos contratos de Figueiredo, Mozer e Lico, que vencem em breve.

UM INÍCIO IRREGULAR

Enquanto isso, o time largava no Brasileiro com atuações oscilantes ao extremo. Na estreia, uma atuação muito segura na vitória sobre o Santos por 2 a 0, gols de Baltazar e Zico. Seis dias depois, uma péssima apresentação num vexatório empate em 1 a 1 com o fraco Moto Clube em pleno Maracanã. Em seguida, a equipe vai ao Norte e faz dois jogos nervosos contra o Rio Negro no acanhado Estádio da Colina, em Manaus (1 a 1), e contra o Paysandu no Mangueirão (vitória por 3 a 2), deslanchando apenas no terceiro, indo à forra com o Moto Clube com uma goleada de 5 a 1 no Castelão de São Luís.

Passado o Carnaval, o time volta embalado, arrasando o Rio Negro no Maracanã por 7 a 1, num jogo em que Cocada marca duas vezes. Três dias depois, nova vitória por 3 a 2 sobre o Paysandu, agora em casa, com três de Baltazar. Mas na última partida, o time perde para o Santos por 3 a 2, deixando cair um tabu de oito anos sem derrotas no Morumbi e outros dez sem perder para o Peixe – que também arrebata a primeira colocação do grupo ao fim da primeira fase.

A primeira etapa tem Baltazar como personagem: embora artilheiro da equipe com oito gols, o atacante recém-chegado do Grêmio é muito criticado pela afobação nas conclusões e o individualismo nas jogadas. Em algumas partidas, até mesmo Zico demonstra muita irritação quando o centroavante prefere tentar uma jogada infrutífera a passar para um companheiro melhor colocado. Por outro lado, Marinho vem se agigantando na zaga, apontado como o melhor jogador da linha de defesa no momento. Enquanto Raul, aos 38 anos e vivendo a última temporada de sua carreira, mantém a segurança sob as traves.

O AUGE DE UMA CRISE DEVORADORA

Pausa no Brasileiro: o Fla vira a chave para a outra competição do semestre, a Libertadores. Em 4 de março, o time vai ao Olímpico, mesmo palco da final do Brasileiro do ano anterior, e estreia com um ótimo empate em 1 a 1 diante do Grêmio. Baltazar balança as redes do ex-clube com um belo gol logo aos 16 minutos, mas o uruguaio Hugo De León deixa tudo igual a dez minutos do fim do jogo. De volta à competição nacional, os rubro-negros têm um grupo fácil na segunda fase, no qual o Tiradentes do Piauí e o velho conhecido Americano de Campos são os azarões, enquanto o badalado Palmeiras disputa o favoritismo.

Contra o Tiradentes em Teresina. Em pé: Marinho, Leandro, Raul, Ademar, Andrade e Junior. Agachados: Robertinho, Adílio, Baltazar, Zico e Lico.

Na primeira rodada, o time vai a Teresina e bate o Tiradentes por 3 a 1, com dois gols de Zico e um de Andrade. Porém, um problema no joelho faz o volante ser desfalque para o jogo seguinte, dali a quatro dias, contra o Palmeiras no Morumbi. O Fla sai na frente e chega a controlar o jogo em parte do primeiro tempo, mas o Alviverde empata antes do intervalo e volta arrasador na etapa final, vencendo por 3 a 1. E a crise volta. Mesmo vencendo o Americano no Maracanã por 3 a 0, o time cumpre péssima atuação e sai vaiado. O que se repete dois dias depois nos 2 a 0 sobre o Tiradentes.

Xingado de “burro” pelos torcedores por tirar o ponta-esquerda Édson, um dos melhores da equipe contra o Tiradentes, e não os decepcionantes Robertinho e Baltazar, para a entrada do garoto Bebeto, Carpegiani procurou o vice-presidente de futebol Paulo Dantas ao fim do jogo e comunicou seu desejo de deixar o clube. De um dia para o outro o pedido de demissão foi oficializado, e o Fla já apontava o ex-meia Carlinhos, então técnico dos juvenis, para comandar o time pelos próximos jogos. Sondado por dirigentes árabes, Carpegiani dali a poucos dias assinaria contrato com o Al-Nassr.

A primeira passagem de Carlinhos como técnico do Flamengo não tem, no entanto, o sucesso que teriam as posteriores. Dura apenas cinco jogos, dado que confere um caráter de interino, ainda que segundo os jornais da época os dirigentes se referissem ao ex-meia como treinador efetivo. De cara, ele já precisa enfrentar problemas justamente em sua antiga posição, com o permanente afastamento de Andrade, ainda lesionado. Lico fará seu último jogo contra o Palmeiras antes de operar o joelho. Zico também tem problemas físicos, mas segue jogando e vai enfrentar o Alviverde.

Depois de jogar para 12 mil contra o Americano e seis mil contra o Tiradentes, o Flamengo arrasta 80 mil torcedores ao Maracanã para a estreia de Carlinhos. O time faz uma de suas melhores atuações do ano até então, encurralando os paulistas. Abre o placar numa cabeçada de Baltazar aos 27 minutos e perde várias chances claras. Mas, a 12 minutos do fim, numa jogada que nasce de impedimento não marcado de Cléo, Jorginho empata para o Palmeiras. Porém, três dias depois é o Fla que fica duas vezes atrás no placar contra o Americano em Campos e tem que buscar o empate em 2 a 2, novamente com Baltazar.

Chega a hora de novamente virar a chave para a Libertadores, viajando para enfrentar os bolivianos Blooming e Bolivar. E é aí que a equipe volta a mergulhar na crise. Mesmo sem o problema da altitude influindo em Santa Cruz de la Sierra, o time apenas empata com o primeiro, numa noite de péssima pontaria. Contra o segundo, em La Paz, veio o desastre. Sem organização, mas principalmente sem fôlego, o Fla chega a sofrer 3 a 0, descontando no fim do segundo tempo com um gol do ponteiro Édson, e fica praticamente eliminado, até porque o Grêmio vencera ambos os jogos no país andino.

O QUE HÁ COM O FLAMENGO?

A imprensa abre manchetes: o que há com o Flamengo? É o fim do grande esquadrão? No Rio, comenta-se sobre as mudanças pelas quais passou não só o time como a comissão técnica – sem Andrade, Tita, Nunes, Lico, Bosco, Carpegiani – que interferiram até no estilo de jogo tradicional da equipe. Também há a acusação de que alguns jogadores que não vêm rendendo o esperado nem honrando a camisa. Adílio é um dos mais visados, tachado de enfeitar demais, não ter garra, não saber cabecear nem chutar no gol.

Em São Paulo, por sua vez, há um indisfarçável regozijo com o fim da hegemonia rubro-negra. Até porque agora é possível dispensar o pudor de alçar os quatro grandes do estado à condição de maiores favoritos ao título do Brasileiro, que já adentra a terceira fase de grupos. Correm por fora o Grêmio e o Atlético-MG, pelos grandes jogadores que tinham e pelo bom desempenho recente. Já entre os cariocas, o mais cotado é – surpresa – o America, que vem de ótimo papel nas etapas anteriores.

Quanto ao Fla, alguns palpiteiros mais venenosos acreditam que o time nem chegará às quartas, caindo num grupo com dois paulistas: o (aparentemente) consolidado Corinthians de Sócrates e Casagrande e o ascendente Guarani. Antes da estreia, contra o Goiás no Maracanã, já é anunciada a saída de Carlinhos, que comandará o time pela última vez. Há também protestos da torcida, que leva muitas faixas à geral (“Queremos raça”, “Adílio pipoqueiro”, “Junior bailarino”, “Jogadores ganham muito e jogam pouco”). Mas o time deu de ombros, jogou bem e largou com vitória por 2 a 0, gols de Zico e Robertinho.

Paradoxalmente, em meio ao mau momento geral recente, crescia a olhos vistos o futebol do volante Vitor. Alvo de polêmica em anos anteriores por ser convocado com frequência por Telê Santana para a Seleção mesmo seguindo na reserva de Andrade no clube, foi visto com desconfiança quando assumiu a posição pela lesão do titular, de quem diferia no estilo. Menos técnico e classudo, era, porém, mais dinâmico, correndo o campo todo, fechando a frente da área, cobrindo as laterais e aparecendo bem na frente. Foi o único a se salvar nos catastróficos jogos na Bolívia. E daqui em diante seria fundamental.

Carlinhos voltou para a base, o preparador Cléber Camerino dirigiu interinamente o time no empate sem gols com o Guarani em Campinas, e o Fla, que sondou o velho ídolo Evaristo de Macedo (então no Catar), acabou acertando com Carlos Alberto Torres para o comando do time. O “Capita” teve rápida passagem como jogador pelo Fla em 1977, e havia pendurado as chuteiras em setembro de 1982 atuando pelo Cosmos justamente num amistoso com o Flamengo. Aos 38 anos, vivia sua primeira experiência como treinador e falava em resgatar o futebol alegre e a motivação dos jogadores rubro-negros.

Sua primeira medida, no entanto, foi mais prudente. Aproveitou a suspensão de Robertinho (expulso no último minuto do jogo com o Guarani) para armar um time sem pontas, mas mais combativo e aplicado no meio-campo. A ideia era aproveitar o vigor e a aplicação dos jovens Élder e Júlio César Barbosa (ambos promovidos da base naquela temporada), juntamente com Vitor no bloqueio, liberando Adílio e Zico para se concentrarem na criação, com Baltazar à frente.

O BAILE DO RENASCIMENTO

Deu muito certo. Empurrado por mais de 90 mil torcedores (seu maior público no Maracanã no ano até ali), o Fla arrasou o Corinthians de Leão, Zenon e Sócrates por 5 a 1, tendo ainda nada menos que três gols estranhamente anulados pelo árbitro, num jogo histórico, lembrado aqui. O time ganha outro ânimo. Após o empate em 1 a 1 com o Goiás no Serra Dourada e a vitória por 2 a 0 sobre o Guarani em casa, a vaga nas quartas de final vem por antecipação – ironicamente, os goianos serão os outros classificados, deixando pelo caminho os “favoritos” Corinthians e Guarani, este sem vencer nenhum jogo.

Na Libertadores, o Fla ainda arrasa o Blooming por 7 a 1 – mesmo depois de sofrer um gol com esdrúxulos 29 segundos de partida – em seu primeiro jogo em casa no torneio, mas entre aquela partida e as próximas, o Grêmio (eliminado de modo surpreendente no Brasileiro ao perder no Olímpico para a Ferroviária de Araraquara) também vencerá a dupla boliviana em Porto Alegre, selando a classificação. Para os rubro-negros, não faz mal. Há outras batalhas a serem vencidas no torneio nacional. E uma caseira o aguarda: o Vasco – que eliminara outro favorito paulista, o Palmeiras – é o adversário das quartas.

O primeiro jogo, numa noite de quinta-feira, foi bastante truncado e faltoso. Mas o Fla dominou as ações, especialmente no segundo tempo. Antes, na etapa inicial, o time abriu o placar numa triangulação iniciada por Zico e Junior, que encontrou Adílio no meio da zaga do Vasco, tendo apenas que tirar de Mazarópi para abrir o placar. Os cruzmaltinos, no entanto, empataram numa infelicidade de Mozer, que, numa disputa pelo alto com Roberto Dinamite, cabeceou contra as próprias redes uma rebatida de Raul.

Aos 23 do segundo tempo, o Fla marcaria o gol da vitória com Júlio César, aproveitando uma grande jogada e o cruzamento de Marinho pela direita, além da saída em falso do goleiro vascaíno. O resultado deixava o Fla com a possibilidade de até perder por um gol de diferença na partida de volta. No domingo, o Vasco até saiu na frente, num lance de sorte: Roberto rolou uma cobrança de falta para Elói, que chutou e viu a bola resvalar na defesa rubro-negra, enganando Raul.

Só que os cruzmaltinos ficaram nisso. E aos poucos o Flamengo retomou o controle do jogo: mesmo em desvantagem (embora garantido com aquele resultado), era o melhor time em campo e criava muitas chances para o empate. Somente nos 15 minutos finais, o Vasco acordou e foi tentar o segundo gol. Mas foi a vez de o Fla ser traiçoeiro, gastando a bola e o tempo. Quando o relógio se aproximava dos 45 minutos, Élder recebeu lançamento de Leandro na ponta direita e tocou de calcanhar para Adílio. O meia avançou até a área em meio à aberta defesa vascaína e só rolou para o lado, para Zico chegar e empatar.

Irritados com a eliminação decretada, os vascaínos voltaram sua ira contra a arbitragem, numa reclamação absurda de impedimento (Zico estava bem atrás da linha da bola). Visivelmente descontrolado, Roberto tentou agredir o juiz Valquir Pimentel, acabou expulso e teve de ser escoltado para fora do gramado. O técnico cruzmaltino Antônio Lopes ainda tentou acusar o Fla de “jogar como time pequeno”, quando havia sido exatamente o Vasco que inexplicavelmente passara a maior parte do jogo se defendendo, quando deveria ter saído para buscar o resultado.

DEIXARAM CHEGAR…

O que importava ao Flamengo era estar nas semifinais, e diante de um adversário surpreendente: o Atlético Paranaense, que derrubara mais um favorito paulista – agora o São Paulo – vencendo as duas partidas. Era o que dava ao time curitibano a vantagem de decidir o confronto em casa (no caso, no Couto Pereira, então o principal estádio da capital do estado). Antes, porém, teriam que encarar outra prova de fogo: um Maracanã com mais de 100 mil flamenguistas.

O jogo do Maracanã foi um verdadeiro massacre do Flamengo. Mesmo a ausência de Raul, lesionado, não foi sentida, já que Cantarele foi praticamente um espectador da partida. Do outro lado, Roberto Costa gastava toda a sua cota de milagres no gol do time paranaense. Mas não pôde deter a cabeçada de Zico, após bola escorada também de cabeça por Júlio César, aos 39 minutos do primeiro tempo. Nem quando o Galinho passou a Vitor, e o volante fuzilou com um chute cruzado aos oito da etapa final. Nem a cobrança de pênalti de Zico (após Robertinho ser bloqueado com o braço por um defensor), aos 16.

Baltazar tenta a cabeçada contra o Atlético-PR, observado por Adílio (8), Mozer (4), Zico e Julio César (11).

Na volta, porém, o Fla teve problemas. Diante de mais de 65 mil torcedores (recorde de público do estádio até hoje), o time começou melhor e perdeu pelo menos duas chances claras com Baltazar. E pagou caro levando dois gols de Washington em jogadas idênticas, com um intervalo de apenas três minutos entre ambos. Continuou criando e perdendo várias chances a longo da partida (Roberto Costa estava novamente inspirado), mas também foi salvo por uma defesa crucial de Raul em chute de Capitão.

Com a vaga na Libertadores de 1984 garantida pela passagem à final, a decisão é um reencontro: o Santos, rival na primeira fase, cruza novamente o caminho do Fla. Vitor, com um problema na coxa, seria uma baixa. Em seu lugar entraria o garoto Bigu, promovido por Carlos Alberto durante o campeonato (“Meu time é Bigu mais dez”, chegou a dizer o treinador para motivar o jovem volante). Já no Santos havia um jogador disposto a mostrar seu valor: o também volante Lino, emprestado pelo próprio Flamengo depois de integrar o elenco por cinco anos sem chegar a se firmar em sucessivos empréstimos.

Com o Morumbi lotado, o Fla perde chance clara com Élder logo no início e, como em Curitiba, acaba castigado com a abertura do placar pelos santistas, num chute forte, de fora da área, de Pita em rebote de escanteio. Para dar mais ofensividade, Carlos Alberto mexe no intervalo: tira Júlio César e coloca o garoto Bebeto. Mas no segundo tempo, aos 18, uma bobeada da defesa rubro-negra, que parou para reclamar da marcação de uma falta, resulta no segundo gol do time paulista, com Serginho aproveitando rebote de Raul. Na comemoração, o atacante é atingido por um rojão arremessado pela própria torcida.

Enquanto Serginho é atendido fora do campo, há um escanteio para o Flamengo. Junior levanta na área, Mozer cabeceia para trás na segunda trave, Marinho também testa e Baltazar, meio de costas para o gol, desvia de cabeça para as redes. Um gol que mantém o Fla vivo no campeonato. O problema é perder Mozer, um dos melhores em campo, que sofre afundamento do malar após uma cabeçada sem intenção de Paulo Isidoro no último minuto. Mas Vitor retorna para a batalha final.

A FINAL PERFEITA

Julio César, Baltazar (9) e Junior (5) encaram a defesa do Santos.

Com a derrota por 2 a 1 na ida, o Flamengo precisava vencer por dois gols para levar o título nos 90 minutos. Em caso de vitória por um gol de diferença, independentemente do placar, a decisão iria para prorrogação, e então pênaltis. Empate era do Santos. Para empurrar os rubro-negros em busca do terceiro título brasileiro, que tal um recorde de público? Pois nada menos que 155.253 torcedores vão ao Maracanã e, logo aos quarenta segundos, são premiados com o primeiro gol, marcado por Zico.

Quarenta segundos. Pouca coisa aconteceu entre a bola começar a rolar e ela ser lançada por Vitor para Julio Cesar, o loirinho garoto goiano que faz um carnaval pela ponta-esquerda onde há não muito tempo outro Julio César costumava brilhar. Dá dois cortes em Toninho Oliveira e cruza rasteiro. Baltazar é bloqueado, Junior pega a sobra e enche o pé. Marolla espalma, e Zico, no lugar certo e na hora certa, toca para o gol vazio mesmo caído. O Maracanã ferve, pulsa, treme. A decisão já está igual de novo.

Baltazar perde uma ótima chance de ampliar logo aos cinco, tocando por cima na pequena área. Em seguida, é a arbitragem que fica na berlinda: primeiro Toninho Silva corta com o braço um cruzamento de Zico dentro da área, mas o jogo segue. Instantes depois, Pita arranca e é travado por Marinho fora da área, quase sobre a linha. Os santistas pedem pênalti. Arnaldo César Coelho marca tiro livre indireto dentro da área. E a cobrança não dá em nada.

O Santos cresce e assusta em alguns lances. O Fla responde com uma cabeçada de Baltazar que tinha endereço certo, mas Marolla vai buscar. Aos 40, há uma falta lateral para o Flamengo perto da linha de fundo. Zico levanta na primeira trave e Leandro cabeceia no canto, inapelável. Antes do fim do primeiro tempo, o lateral-direito quase marca o terceiro, depois de desarmar o ponteiro João Paulo, cortar pelo meio e, de pé esquerdo, desferir um petardo que explode no travessão e quica sobre a linha. Agora, o Flamengo vai para o intervalo como o senhor da partida.

Na etapa final, o Santos começa querendo descontar e até entra duro em alguns lances, mas o Flamengo aos poucos retoma o domínio. Vitor e Adílio são onipresentes. O volante é o motor do meio-campo rubro-negro, correndo, cobrindo, passando, lançando. Já o dono da camisa 8, contestado durante todo o campeonato, tem uma das maiores atuações da carreira. O time chega perto do terceiro gol, mas tanto Julio Cesar e, mais tarde, Adílio, param em Marolla.

Adílio marca o terceiro de cabeça e confirma o tri.

Até que aos 44, Vitor desarma um jogador do Santos que tentava iniciar um contra-ataque e Robertinho, que entrara no lugar de Baltazar, ganha a disputa com Gilberto, dá dois cortes lindos no lateral santista e cruza alto. Adílio, aquele que “não sabe cabecear”, testa para vencer Marolla pela terceira e última vez no jogo. O título já é uma realidade. Os jogadores do Santos, de cabeça quente, tentam estragar a festa. Paulo Isidoro empurra um fotógrafo – a essa altura, o gramado do Maracanã já está repleto também de repórteres e cinegrafistas – e o papelão degringola para uma confusão à beira do campo.

A gigantesca torcida do Flamengo não quer nem saber. Seu time é tricampeão brasileiro, contrariando os prognósticos – como passaria a ser a regra nas conquistas nacionais posteriores. É que o Flamengo em crise, destroçado, rachado internamente, supostamente uma caricatura da grande equipe que foi nos anos anteriores, reconstruiu-se, recuperou a alegria e deu a volta por cima com mais uma taça nas mãos. Em fim de ciclo? Pode até ser, até porque o astro maior, Zico, partiria para a Udinese dali a alguns dias. Mas, como todo bom time vencedor, o Flamengo o encerra brilhantemente com mais um título brasileiro.

Nos 60 anos de Tita, momentos em que ele honrou o Manto Rubro-Negro

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Falar de Milton Queirós da Paixão, o Tita, entre rubro-negros é um tema um tanto espinhoso. Embora tenha formado parte da geração mais vitoriosa e festejada do Flamengo em todos os tempos, o meia-atacante – que completa 60 anos neste domingo – costuma ser visto com certa reserva por muitos torcedores. Não é difícil entender os motivos dessa rejeição, como veremos. Mas também não é justo que se esqueça o papel importante que desempenhou na Era de Ouro do clube, assim como seus momentos de protagonismo dentro de campo, fosse com base na técnica ou na garra que sempre demonstrou vestindo vermelho e preto.

Desde o início da carreira, Tita sempre teve como meta vestir a camisa 10 do time profissional do Flamengo, a mesma que vestia nos juvenis. E isso mesmo com Zico sendo o dono inquestionável do trono de Rei rubro-negro. Reclamava com frequência por atuar fora de sua posição (perambulou pelas duas pontas, pelo miolo do ataque e jogou até como segundo homem do meio-campo, até se fixar com a camisa 7), o que, junto com sua obsessão com o posto do Galinho causou um certo mal-estar na Gávea durante muito tempo.

Mas o que seria decisivo em queimar para sempre o filme do jogador com muitos torcedores do Fla foi sua ida para o Vasco no início de 1987, após passagem de um ano e meio pelo Internacional. E pior: em agosto daquele ano, marcaria o gol do título carioca dos cruzmaltinos contra o clube que o revelou. Estava então irremediavelmente tachado de “traidor” e de “vascaíno” (quando sempre afirmou ser Flamengo desde a infância) por muitos rubro-negros. O fato de ter voltado ao Vasco para uma segunda passagem como jogador (entre 1989 e 1990) e de, mais tarde, assumir cargos na comissão técnica – inclusive treinador – do rival deixaria para a sempre a certeza de que havia “se bandeado” para os lados de lá.

Entretanto, é preciso fazer justiça ao jogador que era este carioca da Tijuca, e ao que fez de grande em sua carreira no Flamengo. Tita era um meia-atacante de ótima qualidade técnica, bom nos passes curtos e longos. Como Zico, era ótimo cobrador de faltas. E ainda contava com uma característica raramente citada quando se fala de seu futebol: era ótimo no jogo aéreo. Sua cabeçada era precisa como uma tacada de sinuca dos grandes mestres, ao mesmo tempo forte e colocada, como comprovam seus inúmeros gols (golaços, inclusive) utilizando-se do fundamento.

Se não tinha a mesma visão de jogo e o mesmo talento acima da média para resolver as jogadas num lampejo como o Galinho (o que seria especialmente notado em sua segunda passagem pela Gávea), compensava sendo um batalhador incansável em campo, sempre raçudo, combativo, aguerrido (às vezes até um pouco demais, como não se cansavam de afirmar seus detratores). Corria por todo o campo fechando espaços, recuperando bolas. Sair de campo com a camisa limpa, sem suor, era impensável.

No Flamengo campeão de tudo (Carioca, Libertadores, Mundial e Brasileiro) na virada de 1981 para 1982, tinha enorme importância tática. Embora vestisse a camisa 7, mas não como ponta autêntico – desses que jogam abertos, isolados, correndo com a bola até a linha de fundo antes de cruzar para a área. Pelo contrário: fechava pelo meio, abrindo o corredor por onde passava Leandro – de modo que foi fundamental para que este pudesse fazer seu jogo ofensivo aparecer. E ao centralizar, Tita atuava mais perto de Zico e de Nunes, aproximando-se de sua posição de origem.

HERÓI DO TRI

Tita flutua no ar para marcar de cabeça contra o Vasco o gol que daria o tri estadual ao Flamengo em 1979.

E o primeiro grande momento de Tita no time rubro-negro foi jogando em sua posição de origem, em 1979. Campeão carioca de 1978 e vencedor invicto do chamado Campeonato Especial, disputado entre fevereiro e abril de 1979, o Fla buscava chegar ao tri vencendo também o inchado Estadual daquele ano, que reuniu 18 clubes em três turnos entre maio e novembro. Faturou a Taça Guanabara com dois jogos de antecipação, mas no segundo turno sofreu um abalo aparentemente irreparável.

Na antepenúltima rodada do returno, o Flamengo em situação desfavorável na tabela disputava um jogo duríssimo contra o Goytacaz em Campos. No segundo tempo, numa disputa de bola com o zagueiro Orlando Fumaça, Zico sofreu estiramento na coxa direita e teve de sair quase imediatamente em campo. Feitos os exames, veio a confirmação: O Galinho – que até ali somava absurdos 34 gols marcados em 24 jogos naquele Estadual – estava fora dos próximos jogos do turno, talvez até do campeonato. Mas o Fla obteve vitória importante por 1 a 0. Gol de Tita.

O aspirante a 10 da Gávea foi prontamente apontado pelo técnico Cláudio Coutinho como o substituto de Zico pelo tempo que durasse a recuperação do ídolo rubro-negro. Era a chance que Tita aguardava para provar seu valor. No jogo seguinte, contra o Botafogo, o Fla foi melhor em todo o jogo, mas, como no jogo do primeiro turno, viu-se atrás no marcador com gol de Renato Sá.

Felizmente, porém, o desfecho seria diferente desta vez: aos 28 minutos do segundo tempo, Tita sofreu falta e, da cobrança, nasceu o gol de empate, de Cláudio Adão. E aos 46, o novo dono da 10 aproveitou-se de uma indecisão da defesa alvinegra para tomar a bola de Manfrini e chutar para defesa parcial de Ubirajara. No rebote, Adão marcou de novo, decretando a virada emblemática.

Sobre o meia, o Jornal do Brasil avaliou: “Faltou apenas um gol para premiar sua atuação. Esteve sempre livre de marcação e cumpriu com perfeição a difícil missão de substituir Zico”. Era seu cartão de visitas para o jogo da última rodada, contra o Fluminense. A reação rubro-negra naquele turno coincidiu com tropeços dos rivais, de modo que a equipe de Cláudio Coutinho chegava ao Fla-Flu decisivo, em 23 de setembro, precisando apenas do empate. Mas os tricolores, que contavam com o futuro ídolo rubro-negro Nunes no comando do ataque, partiram para cima e levaram perigo em alguns momentos.

O jogo, porém, foi decidido no fim, aos 42 minutos. E a favor do Fla. Num contra-ataque, Adílio desceu pela direita e rolou para Tita, que chutou prensado, mas mesmo assim conseguiu vencer o goleiro Paulo Goulart. A vitória confirmou o título do segundo turno (o sexto consecutivo vencido pelos rubro-negros nos três últimos campeonatos cariocas) e também a conquista do segundo ponto extra para a disputa do terceiro e decisivo turno, que começaria logo em seguida, ainda com o desfalque de Zico.

Tita também abriu o caminho para a conquista do terceiro turno (todo jogado no Maracanã) ao anotar o primeiro gol na vitória por 3 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha do Governador, na primeira rodada. Na partida seguinte, goleada de 5 a 1 sobre o Goytacaz, balançou as redes mais duas vezes. E no terceiro jogo ainda salvou o Fla – que patinava numa péssima atuação contra o Bangu – ao aproveitar cruzamento de Toninho da ponta direita para marcar de cabeça o único gol do jogo.

Não foi, no entanto, um turno de vitórias do início ao fim. Com recuperação apressada pelos médicos rubro-negros, Zico foi relacionado para o banco na partida seguinte, um Fla-Flu. No primeiro tempo, o Flamengo dominou as ações, mas, em dois descuidos, sofreu dois gols. No intervalo, o Galinho entrou no lugar de Andrade. Ainda sem condições físicas ideais, desperdiçou um pênalti. No fim do jogo, num contragolpe, o Flu marcou o terceiro. E lá se foram os dois pontos de bonificação.

Apesar da clara demonstração de ainda não estar recuperado, Zico foi novamente relacionado e agora escalado de saída no jogo contra o Americano. Mas saiu no intervalo, por precaução, dando lugar ao ponteiro Reinaldo. Tita, vestindo a 7, foi passado novamente para a ponta de lança. Autor do único gol do primeiro tempo, em tabela com o Galinho, ele completou a tranquila vitória marcando mais duas vezes na etapa final, primeiro de cabeça e depois matando no peito antes de fuzilar o goleiro Paulo Sérgio. Para o Jornal do Brasil, ele foi “o destaque do jogo, não só pelos gols, como também pelo desembaraço”.

“Desembaraço”, aliás, é uma ótima palavra para descrever a principal qualidade de Tita dentro daquela equipe. Em meio a jogadores de excelente qualidade técnica, mas sempre propensos a um toque ou drible a mais, ele era o senso prático, a objetividade. E ela seria de grande valia na partida seguinte, a penúltima, contra o Vasco na tarde de 28 de outubro. Era o jogo que poderia encaminhar o título do turno (e, por conseguinte, o tricampeonato carioca) para a Gávea. Em caso de vitória, eram boas as chances de os rubro-negros já entrarem de faixa no último jogo, contra o Botafogo.

Tita, na raça, faz o segundo contra o Vasco no jogo decisivo do tri de 79.

O Flamengo saiu matando e abriu o placar logo aos 11 minutos. Júlio César, o Uri Geller, foi lançado em profundidade na ponta esquerda, avançou e cruzou para a área. Afobado, o zagueiro Ivã se antecipou a Claudio Adão e, de carrinho, mandou a bola para as próprias redes. Logo depois, na jogada que terminaria no segundo gol, um exemplo da diferença de estilo de Tita. Júlio César e Cláudio Adão entraram tabelando na área, mas ambos se complicaram justo na hora de concluir, perdendo chance incrível. A zaga vascaína afastou e a bola sobrou para o ponteiro Reinaldo, que mandou um chute venenoso defendido apenas parcialmente por Leão. Tita não quis nem saber: na raça, meteu o pé na bola para dentro das redes.

O Vasco reagiu ainda no primeiro tempo em duas cochiladas rubro-negras. A tensão tomou conta do Maracanã, e a definição do campeonato ficou em suspenso durante boa parte do segundo tempo. Até que, após uma cobrança de escanteio pelo Fla que saiu da esquerda e rodou até à meia direita, a bola parou nos pés do lateral Toninho. O baiano avançou alguns passos e, quase de lá mesmo, alçou a bola sobre a área. E o que se seguiu foi um dos gols de cabeça mais plasticamente impressionantes e marcantes da história do Maracanã. Tita, quase da risca da grande área, subiu e pairou no ar. Sua testada encobriu Leão e morreu no canto oposto, no fundo das redes vascaínas. E o Flamengo começou a vestir as faixas.

O título acabou confirmado na véspera da partida com o Botafogo, após uma vitória cruzmaltina sobre o Fluminense. Lesionado, Tita não enfrentou o Alvinegro. Mas sua enorme contribuição já estava eternizada. Foram 11 gols nos nove jogos anteriores. Quase todos que deram vitórias. E o garoto de 21 anos se sentiu realizado ao perceber que, com ele, por aqueles momentos, a torcida nem sentiu falta de Zico.

REVANCHE E ‘BYE-BYE’

No Campeonato Brasileiro de 1980, em meio à campanha que levaria o clube ao seu primeiro título nacional, o Fla reencontrou na segunda fase o Palmeiras, algoz do ano anterior na mesma competição ao golear de maneira até surpreendente os rubro-negros dentro do Maracanã por 4 a 1. Torcida, jogadores, comissão técnica, dirigentes, todos ansiavam por uma revanche categórica. E ela veio, em grande estilo, numa antológica, memorável, deliciosa goleada por 6 a 2 no dia 13 de abril.

Tita abriu o caminho para o massacre, aproveitando a falha do goleiro Gilmar com um leve toque de cabeça. Zico marcou de falta e de pênalti e ampliou. Toninho apareceu lá da lateral direita para fuzilar o arqueiro e marcar o quarto. Aos 26, Tita recebeu na área pela direita, matou a bola na coxa e girou marcando o quinto em um bonito chute. Melhor mesmo, só a comemoração, o símbolo da revanche conquistada: o camisa 7 atravessou quase toda a extensão do campo para acenar em despedida, com um sorriso de satisfação nos lábios, à torcida palmeirense. Uma imagem marcante daquela conquista.

No ano seguinte, depois de ser um dos destaques da Seleção Brasileira nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982, Tita surpreendeu até mesmo os próprios companheiros ao anunciar que abria mão de futuras convocações caso fosse mantido como ponta-direita. Vivia também momento difícil dentro do clube, tratado como jogador problemático. Para vestir a sete, o Fla contratara o ponta autêntico Chiquinho, do Olaria, e este vinha tendo sequência como titular. Cogitava-se o empréstimo de Tita para a Portuguesa paulista (já então uma provável canoa furada a se embarcar).

Até chegar a partida contra o Atlético-MG no Maracanã, pela primeira fase da Taça Libertadores, no dia 7 de agosto. Após um primeiro tempo sem gols, o time mineiro abriu o placar num contra-ataque em que Palhinha deslocou Rondinelli e ficou livre para driblar Raul e tocar para as redes. O Fla empatou com Nunes, aproveitando rebote de João Leite. E dois minutos depois Tita apertou a saída de bola do Galo, desarmou Heleno, dominou e, de fora da área, soltou uma bomba de pé esquerdo para virar o jogo. Na comemoração, mostrou a camisa para a torcida em tom de desabafo. O adversário ainda empataria com Reinaldo, mas Tita mostrou que entrava no time para não sair mais, como de fato aconteceu.

Às voltas com uma arrastada renovação de contrato, Tita ficou de fora de algumas partidas do começo do Brasileiro de 1982. Quando enfim retornou, balançou as redes logo de cara contra o Treze em Campina Grande, o Ferroviário em Fortaleza e, mais tarde, contra o São Paulo no Morumbi. Mas o jogo no qual sua participação seria mais decisiva viria bem adiante, na partida de ida das quartas de final, contra o Santos no Maracanã.

Por força de um casuísmo do regulamento, o time paulista teria as vantagens de jogar por dois resultados iguais e de decidir em casa, apesar de ter feito campanha inferior à do Fla ao longo da competição. E para complicar mais ainda, os santistas saíram na frente no primeiro jogo, com um gol do lateral-esquerdo Gilberto aos 19 minutos do primeiro tempo. Havia então uma certa montanha para o Fla escalar. O time passou todo o restante do jogo em cima do adversário, mas o gol não saía.

Até que aos 28 minutos do segundo tempo, Junior ganhou uma bola na ponta esquerda e alçou de pé direito sobre a área. Tita apareceu no meio da defesa e desviou do goleiro Marolla (até ali, um monstro na partida) com um leve toque de cabeça, igualando o marcador e inflamando a torcida. Pegou a bola no fundo da rede e correu com ela até a marca central para a nova saída. Aos 44, o Fla chegaria a virada com um gol do zagueiro Marinho. Na partida de volta, o empate em 1 a 1 (gol de Zico) levou o time às semifinais.

DE RENEGADO A NECESSÁRIO

No fim daquele ano, no entanto, o clima no Flamengo já era outro. Bem diferente do time que jogava por música, e que emendou os títulos carioca, sul-americano e mundial da temporada anterior com mais um Brasileiro, além do penta da Taça Guanabara. Sofrendo com um esgotamento físico e mental, com as pressões por mais conquistas, além das críticas mais frequentes e contundentes (típicas a quem levanta a barra da qualidade muito no alto), o Fla vivia uma aguda crise interna.

Naquela virada de ano, Tita se desentendeu seriamente com o técnico Carpegiani, e foi emprestado para o Grêmio (Nunes, pelo mesmo motivo, passou o ano exilado em General Severiano). Não esteve presente, portanto, no elenco que conquistou o tri brasileiro diante do Santos, no fim de maio. Mas foi instrumental para levar os gaúchos a sua primeira Libertadores (além de levantar seu bi particular da competição).

No início de junho, Zico foi para a Udinese, deixando a torcida órfã e o Fla quase acéfalo, irreconhecível. Numa espiral de humilhações, vários jogadores foram testados (e se queimaram) com a camisa 10. Após uma Taça Guanabara em que o time terminou na sexta colocação (atrás do Goytacaz), com mais derrotas do que vitórias e saldo de gols negativo (graças em grande parte a uma vexatória goleada de 6 a 2 para o Bangu), o Flamengo passou por mudanças até na presidência. Entre especulações e deliberações, uma coisa foi definida como imperiosa, urgente, necessária: trazer Tita de volta.

Após um complicado acerto com o Grêmio, que envolveu a devolução do centroavante Baltazar e o repasse de uma boa quantia em dinheiro, o meia finalmente reestreou em 24 de setembro, contra o Goytacaz no Maracanã. Não apenas vestindo a 10 como também ostentando a braçadeira de capitão. Abriu o placar logo aos 15 minutos, ao mergulhar de cabeça para concluir cruzamento de Junior, antes de Edmar anotar o segundo, fechando a vitória em 2 a 0.

Tita (ao centro) corre em direção à velha geral para comemorar com Edmar e Cléo o gol de empate no Fla-Flu da Taça Rio de 1983.

O Jornal do Brasil não poupou elogios: “Voltou muito bem ao time do Flamengo. Mostrou a garra costumeira, disputando os lances com entusiasmo. Realizou grandes jogadas, principalmente quando ocupava a meia esquerda. Naturalmente, o Flamengo continuará se ressentindo da saída de Zico, mas Tita mostrou que a partir de agora a equipe terá um jogador que saberá usar a camisa 10 com dignidade”.

Mas o grande teste viria mesmo no segundo jogo, diante do Fluminense que havia acabado de conquistar a Taça Guanabara e se colocava como a equipe mais sólida do futebol carioca. Diante de mais de 110 mil torcedores no Maracanã, os tricolores saíram na frente aos 19 minutos, quando Assis aproveitou um passe errado da defesa rubro-negra, avançou e tocou na saída de Raul. Mas o Fla não demorou a reagir.

Cinco minutos depois, numa cobrança de falta no lado esquerdo do ataque, Tita recebeu passe de Cléo e mostrou oportunismo para empatar o jogo. No segundo tempo, chegaria a virada: Mozer desceu pela ponta esquerda, tabelou com Adílio, foi à linha de fundo e cruzou. O novo camisa 10 subiu e cabeceou colocado, com estilo, sem chances para Paulo Vitor. E o Flamengo começou a voltar aos trilhos.

Liderado por Tita, que marcaria 10 gols nos 11 jogos do turno (sem contar a decisão extra com o Bangu), o Flamengo sacudiu a poeira da má fase a qual havia enfrentado meses antes e conquistou a Taça Rio. Não venceu, porém, o Estadual, eliminado em seu primeiro jogo no triangular final numa derrota no detalhe para o Fluminense, num gol de Assis já nos descontos, iniciado da marcação equivocada de impedimento de Adílio. Mas em seu último jogo no torneio, o time venceu o Bangu por 2 a 0, com dois gols nascidos dos pés de Tita. No primeiro, seu chute bateu na trave, e Adílio conferiu no rebote. No segundo, uma cobrança de falta perfeita, irretocável, digna de Zico.

Tita também foi o autor do primeiro gol do Flamengo no ano seguinte: da vitória de 1 a 0 sobre o Palmeiras, num sábado à noite, na partida de abertura do Campeonato Brasileiro daquele ano. Outra cabeçada primorosa estufou as redes de Leão. Entre altos e baixos, conseguiu terminar como artilheiro da Taça Libertadores (nove gols) num Fla que esteve bem perto de sua segunda final no torneio. O time também era um dos grandes favoritos ao título brasileiro, mas sucumbiu nas quartas de final, diante do Corinthians no Morumbi, num jogo em que o meia foi desfalque sentido, especialmente pela garra e experiência.

Campeões da Taça GB de 1984. Em pé: Leandro, Mozer, Jorginho, Andrade, Adalberto e Fillol; Agachados: Bebeto, Élder, Nunes, Tita (capitão) e Adílio.

Naquele ano, o Flamengo levantaria apenas a Taça Guanabara, depois de chegar a ser dado pela imprensa como eliminado, ao acumular tropeços nas primeiras rodadas. Depois de uma sequência de vitórias, o time chegou à decisão contra o Fluminense e venceu por 1 a 0. Tita cobrou falta da ponta esquerda na cabeça de Adílio, que venceu Paulo Vitor e deu início à festa.

O desfecho do Campeonato Estadual, porém, não foi feliz. Na Taça Rio, o Vasco deslanchou desde o início e levou o título. Para o Flamengo, já classificado para a fase final, a ideia era se consolidar também como o time de melhor campanha na soma dos dois turnos e transformar o triangular final numa decisão em dois jogos com os cruzmaltinos, tendo direito a um ponto extra. Esse status poderia ser garantido por antecipação, no jogo da penúltima rodada, contra o Campo Grande no Maracanã.

O Fla abriu o placar com o garoto Gilmar Popoca e logo depois teve um pênalti a seu favor. Tita se apresentou para a cobrança, mas chutou na trave. Pouco antes do intervalo, foi a vez de o Campusca ter penalidade ao seu favor e empatar o jogo. O 1 a 1 persistiu. Na última rodada, no sábado, aconteceu o Fla-Flu do returno. Tita sentiu lesão no vestiário e não jogou. E os tricolores venceram por 2 a 1 e empataram com o Flamengo na soma de pontos, conquistando vaga no triangular final.

O Fluminense levantaria mais uma vez o título carioca, e o pênalti perdido contra o Campo Grande serviria para azedar de vez a relação da torcida com Tita, que não conseguira trazer as conquistas as quais os rubro-negros acreditavam que Zico certamente obteria. Desgastado, o meia pediu para sair do clube, apesar de ter recentemente renovado contrato. Um problema nos joelhos também o tirou de ação até o fim de abril do ano seguinte, num momento em que os rumores da volta do Galinho ganhavam força.

Quando o Flamengo enfim acertou o retorno de Zico, o passe de Tita foi dado como garantia à Udinese. O retorno do meia à ponta-direita indicava que ele havia perdido definitivamente o prestígio. Muito magoado com o tratamento por parte de dirigentes e torcida, deu entrevista anunciando sua saída: “Flamengo nunca mais”. Mas ainda seguiu no clube por mais alguns meses, fazendo até partidas muito boas.

Em setembro, no mesmo momento em que o Fla anunciava repatriar também Sócrates, Tita deixava o clube pela porta dos fundos, negociado com o Internacional – embora tenha manifestado não querer se transferir para outra equipe brasileira. Saía de vez do clube pelo qual torcia e que o revelara depois de atuar em 389 jogos e marcar 135 gols. Só voltaria a vestir rubro-negro em jogos festivos, como as despedidas de Zico e Nunes, mas recebendo mais hostilidades do que aplausos.

Sua história de vitórias, conquistas, raça e bom futebol no Flamengo é inegável e indelével. E não deve ser eclipsada pelo que tenha feito depois. Foi parte importante de uma inesquecível geração. Está lá na história por cada bola dividida, cada cabeçada certeira, cada cobrança de falta precisa. Cada gota de suor deixada no Manto Rubro-Negro.

Vevé, a malícia do drible no timaço do primeiro tricampeonato carioca

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O ponteiro rápido e driblador, aquele cujo futebol é tão habilidoso e abusado que suas fintas beiram a galhofa, é um perene favorito de torcedores em todos os cantos do planeta. No Flamengo, com longa folha corrida de prestígio ao futebol ofensivo e técnico, não seria diferente – o garoto Vinícius Junior é a bola da vez. Por isso, é preciso reverenciar aqueles que encantaram uma geração inteira de rubro-negros, como foi o caso de Vevé. Considerado um dos maiores pontas-esquerdas do clube em todos os tempos, faria aniversário nesta quarta-feira, 14 de março. E sua história merece ser lembrada.

Há uma certa divergência quanto ao ano de nascimento correto de Vevé. A maioria das fontes apontam para a data de 14 de março de 1918 (e, portanto, o ponteiro estaria completando seu centenário neste ano), mas o obituário do craque escrito por Geraldo Romualdo da Silva para o Jornal dos Sports cita uma suposta entrevista do jogador na qual ele afirmava ter nascido em 1917.

O que se sabe ao certo, além do dia e mês de seu aniversário, é que Everaldo Paes de Lima (seu nome de batismo) nasceu em Belém, começou a jogar bola nos campinhos da travessa Quintino Bocaiúva, na capital paraense, e logo foi levado para o Remo, onde chegou ao time principal com apenas 18 anos, sagrando-se campeão do estado já em 1936.

Em 1939, jogando pela seleção do Pará, teve boa atuação contra o escrete baiano, sendo prontamente contratado pelo Galícia, uma das forças do futebol soteropolitano da época. O time da colônia espanhola de Salvador – que em breve levantaria um então inédito tricampeonato estadual – era forte a ponto de derrotar o Vasco num amistoso disputado na Boa Terra em março de 1941. O resultado foi destaque na imprensa carioca e fez crescer os olhos dos clubes da cidade sobre o excelente ponteiro baixinho e de bigode fino. Vevé esteve perto de ir para o próprio Cruzmaltino, mas as negociações não andaram. Foi levado então ao Botafogo, mas seu tamanho não lhe deu muito crédito.

Vevé e o tricolor Pinhegas, ponteiro paraense como ele.

A CHEGADA À GÁVEA

Quem lucrou com o mau julgamento dos alvinegros foi o Flamengo. Vevé pegou um “ita” (famosa linha de transporte marítimo que partia do Norte e Nordeste com destino à capital federal) em Salvador, desembarcando outra vez no Rio em 20 de maio de 1941. Seguiu direto para a Gávea, treinou e foi aprovado. Mas demorou quase um mês para entrar de vez no time: o Galícia pediu uma quantia significativa por seu passe, e o Fla teve trabalho para negociar, até poder enfim escalar o ponteiro na partida contra o Canto do Rio, pela sétima rodada do Campeonato Carioca, no dia 15 de junho nas Laranjeiras.

Substituindo o lendário Jarbas, o “Flecha Negra”, dono da ponta-esquerda do Fla desde sua chegada ao clube em 1933 e então lesionado, Vevé exibiu seu cartão de visitas logo aos cinco minutos de jogo. Um drible espetacular no zagueiro Degas e um chute forte e alto, fuzilando o experiente goleiro Walter Goulart (ex-Flamengo e seleção brasileira da Copa de 1938) e estufando as redes do time niteroiense. Acabou mantido na equipe pelo resto do campeonato, que infelizmente não terminou bem para os rubro-negros. Depois de liderar a maior parte da competição, o time perdeu o gás na reta final e viu o Fluminense levantar a taça no famoso “Fla-Flu das bolas na Lagoa”. Mas pôde levantar a cabeça em vista do punhado generoso de jovens talentos que possuía.

Naquela temporada de 1941, o Flamengo começara aos poucos a renovar seu elenco. Juntamente com Vevé, chegaram outros nomes que se consagrariam no tricampeonato carioca que viria nos anos seguintes e que se eternizariam como gigantes na história do clube. Do Paraná, veio o lateral-direito Biguá. De Minas Gerais, o médio-esquerdo Jayme de Almeida. Do futebol uruguaio, veio o centroavante gaúcho Pirillo. Além deles, também vieram jogadores que participaram da campanha do tri, mas não chegaram a se firmar como titulares, caso do zagueiro gaúcho Barradas e do meia-esquerda baiano Nandinho. Sem falar em pratas da casa, como Zizinho, que disputara sua primeira campanha no time de cima no ano anterior.

O Flamengo para 1942. Em pé: Jaime de Almeida, Volante, Biguá, Domingos da Guia, Jurandir e Newton Canegal. Agachados: Valido, Zizinho, Pirillo, Perácio e Vevé.

Assim como naquele tempo cada jogador tinha uma posição bem marcada, naquele time cada um tinha um conjunto de talentos que delineavam não só um estilo de jogo como também uma personalidade. Domingos da Guia tinha a frieza e a elegância. Biguá era todo raça e pulmão. Jaime era o símbolo do dinamismo e da lealdade. Ziizinho era a técnica e a clarividência. Pirillo, a valentia e o faro de gol. Vevé, naturalmente, também tinha sua tradução: era o homem do cruzamento preciso, milimétrico, mas sobretudo do drible malicioso, da finta seca que desnorteava os adversários, escondendo deles a bola como um adulto brinca de iludir uma criança.

Certa feita, o Vasco trouxe do futebol pernambucano um defensor chamado Luís Zago, conhecido como duro e intimidador, com o objetivo de parar Vevé. Até que veio o primeiro confronto. No começo do segundo tempo, o ponteiro rubro-negro recebeu lançamento de Perácio no bico da área e esperou a chegada do beque. Zago se apresentou e levou o primeiro drible. Quando olhou, já tenha levado o segundo. E o terceiro. Tentou esboçar alguma reação e levou o quarto. Depois o quinto. Quando enfim levou o sexto, só lhe restou cair estatelado no chão. Assim, Vevé só precisou dar alguns passos com a bola dominada e encher o pé para estufar as redes. E Zago foi prontamente descartado pelo Vasco.

Outra característica de Vevé eram seus espetaculares chutes de sem-pulo, muitos deles parando do lado de dentro das redes. A habilidade de escorar de primeira, com força e precisão, uma bola alta, vinda da direita (especialmente em escanteios cobrados por Valido) ficou registrada na memória até mesmo do jornalista Armando Nogueira, cronista pouco simpático ao Fla, ainda que também nortista. Quando do falecimento do jogador, Armando relembrou em sua coluna no Jornal do Brasil que a jogada foi tornada tão marcante pelo ponta que, tempos depois de já ter parado de jogar, um gol de sem-pulo feito por qualquer atleta passou a ser chamado de “gol de Vevé”.

O COMEÇO DO PRIMEIRO TRI

A habilidade fora do comum com a bola – fosse para chutar com força ou driblar com sutileza, para iniciar ou concluir uma jogada – foi exemplarmente demonstrada em vermelho e preto ao longo da temporada de 1942. O ponteiro terminou a competição como o vice-artilheiro rubro-negro, autor de 18 gols (número inferior apenas aos 22 de Pirillo). Alguns decisivos, como os dois na vitória por 2 a 0 diante do São Cristóvão (quarto colocado naquele ano, é bom lembrar) em Figueira de Melo e aquele que deu a vitória dramática de virada, no último minuto, ao Fla diante do America em Campos Sales por 4 a 3. Mas não apenas balançando as redes: Vevé brilhou também nas assistências.

O tento marcado por Pirillo na vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense na Gávea, pela última rodada do segundo turno, que colocou de vez o Fla na briga pelo título, teve sua jogada iniciada em Vevé, rabiscando por duas vezes o zagueiro Norival e limpando a jogada para o meia Nandinho cruzar para a cabeçada do centroavante gaúcho. Em outro jogo crucial, novamente contra o São Cristóvão, agora pela penúltima rodada do terceiro turno, em São Januário, o Fla passava por apuros: o time cadete jogava melhor e em vários momentos poderia abrir o placar. Mas quem o fez foram os rubro-negros, em cobrança de falta lateral que Vevé coloca na cabeça de Valido, abrindo o caminho para a vitória por 4 a 0.

Aclamado como o melhor ponta-esquerda do campeonato, Vevé foi chamado para a seleção carioca, que disputaria no fim do ano o Campeonato Brasileiro. O título ficou com São Paulo, após decisão em quatro partidas épicas. Mas os paulistas já haviam tido a oportunidade de se impressionar com o talento do jogador rubro-negro ao vê-lo em ação no Pacaembu em duas ocasiões naquele ano. A primeira no troféu Quinela de Ouro, em março, quando ele marcou os dois gols na vitória por 2 a 1 diante do São Paulo. E a segunda em outubro, logo após a conquista do título carioca, quando o Fla excursionou por lá, vencendo o Palmeiras campeão estadual por 2 a 1 (novamente dois gols de Vevé) e o Corinthians por 4 a 2 (com mais um tento do ponteiro), além de empatar com o São Paulo em 3 a 3.

Na virada daquele ano, além de ver, também era possível ouvir Vevé. O ponteiro, juntamente com Pirillo e o meia-esquerda Nandinho, foi um dos três cantores do samba “Coisas do Destino”, composto pelo mestre Wilson Baptista, rubro-negro honorário, e lançado no Carnaval de 1943. O refrão dizia: “Ai, ai, são coisas do destino / Sou rubro-negro, meu patrão é vascaíno / Ai, ai, este emprego eu vou perder / Mas deixar de ser Flamengo, não, não pode ser”.

Na vez de Vevé cantar como solista, o “mestre de cerimônias” da canção conclamava: “Centra, Vevé!”. E o ponteiro entoava: “Lá no meu quarto / Tem escudo e tem retrato / De vários campeonatos / Sou Flamengo pra chuchu”. E continuava: “Ainda me lembro / Gazeteava a escola / Só pra ver o bate-bola / Na Rua do Paissandu”. A canção fez muito sucesso, tendo grande execução nas rádios da época.

No título de 1943, Vevé ficou de fora de apenas três partidas, mas foi menos assíduo como goleador: anotou nove tentos, metade da marca do campeonato anterior (que teve um turno a mais). No entanto, foram gols marcantes. O pequeno paraense balançou as redes nos dois clássicos contra o Botafogo, fazendo o terceiro nos 4 a 1 do primeiro turno em General Severiano e uma sensacional tripleta nos 4 a 2 do returno na Gávea – dentre os grandes, os Alvinegros foram os rivais que mais sofreram gols do ponteiro em sua carreira. E também abriu o placar e o caminho para a saborosa goleada histórica de 6 a 2 sobre o Vasco, que deixou encaminhada a conquista, sacramentada uma semana depois, diante do Bangu.

No fim do ano, Vevé ainda brilharia na revanche contra os paulistas em mais uma decisão do Campeonato Brasileiro de seleções. Numa melhor de cinco partidas, a equipe bandeirante venceu as duas primeiras no Pacaembu (3 a 1 e 3 a 2), mas o antigo Distrito Federal (que compreendia a cidade do Rio de Janeiro) daria o troco em São Januário com dois placares elásticos: 3 a 0 e um acachapante 6 a 1, com o ponteiro marcando o segundo gol. No quinto e último jogo, em 30 de dezembro, Vevé abriria o placar e o caminho para o título na vitória por 2 a 1.

Time que derrotou o Vasco por 6 a 2 na reta final do certame de 1943: Jurandir, Domingos da Guia, Perácio, Newton Canegal, Jaime de Almeida, Bria, Pirillo, Zizinho, Biguá, Vevé e Jacy.

1944: O ÚLTIMO BRILHO ANTES DO OCASO

Arisco em campo, Vevé também personificava a malandragem fora das quatro linhas. Desde sua chegada ao Flamengo, já fazia parte da chamada “turma do bagaço”, grupo de boêmios jogadores do clube (como Biguá e o goleiro Jurandir) que eram frequentadores eméritos dos cabarés da antiga Lapa. Por volta de 1944, ano do lance que ajudaria a imortalizá-lo na galeria de heróis rubro-negros, seus problemas com a bebida já começavam a preocupar. Conta Mario Filho que o técnico Flávio Costa – duro e disciplinador, mas que não dispensava o talento – revolvia diversas vezes a cama do ponteiro na concentração à procura de eventuais garrafas que o jogador escondia sob o colchão.

Além do problema com o alcoolismo, as persistentes dores nos joelhos (é de se indagar se o primeiro caso colaborou para o segundo) prejudicaram sua presença em campo na temporada do tricampeonato e, mais tarde, provocariam seu corte da seleção carioca no Campeonato Brasileiro. Embora ainda dono da posição, Vevé atuaria apenas em metade dos 18 jogos da equipe no Carioca, levando a um surpreendente ressurgimento do veterano Jarbas, que entrou em campo nas outras nove partidas, marcando os mesmos quatro gols que o paraense. Mas Vevé ainda retornaria na reta final, justo na hora em que um Flamengo desacreditado arrancava para mais um título.

Na foto do time perfilado antes da partida decisiva contra o Vasco, Vevé aparece com o joelho esquerdo enfaixado. Sentia ainda as dores que o tiraram de boa parte do campeonato. Era um dos problemas do Flamengo naquele dia. Valido suava com uma febre de 40 graus. Bria estava às voltas com um lumbago (dor lombar). E Pirillo sofria com uma orquite (inflamação nos testículos). Sem falar em Perácio, ausente por ter sido convocado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) para servir na Itália em tempos de Segunda Guerra Mundial.

O Fla precisava superar um time cruzmaltino mais inteiro e mais cotado, mesmo jogando na Gávea. O empate levaria a decisão do título a uma melhor de três, para a qual os rubro-negros talvez não tivessem mais pernas, ainda que viessem em ascensão dentro do campeonato. Mas nada disso foi necessário.

O time do tri. Da esquerda para a direita: Jurandir, Quirino, Newton Canegal, Valido, Jaime de Almeida, Bria, Pirillo, Zizinho, Tião, Biguá e Vevé (com o joelho enfaixado).

O gol do título, marcado por Valido aos 41 minutos do segundo tempo entrou para a história do clube e do futebol carioca. Simbolizou mais uma conquista heroica, de superação e calando todas as críticas feitas ao longo da competição. E teve participação decisiva de Vevé. Foi o ponteiro quem sofreu a falta do vascaíno Djalma pelo lado direito da defesa adversária, perto da área. Foi ele quem alçou a primeira bola à área, rebatida pela defesa. E foi ele quem, quase do mesmo lugar, fez outro levantamento, na medida para o cabeceio do autor do gol do tricampeonato rubro-negro.

Curiosamente, só depois disso, quando já começava a experimentar o ocaso físico e técnico, é que teria sua primeira – e única – chance na seleção brasileira, convocado por Flávio Costa para o Campeonato Sul-Americano de 1945, em janeiro daquele ano, no Chile. Atuaria apenas na estreia, contra a Colômbia, entrando durante a partida no lugar do ponteiro-esquerdo Jorginho, do America – que havia conquistado a titularidade na seleção carioca no Brasileiro do ano anterior, justamente após o corte de Vevé.

Em 11 de julho daquele ano, deitou-se na mesa de cirurgia para uma operação de extração dos meniscos. Não voltaria, no entanto, a ser o mesmo jogador. A velocidade nos piques e a agilidade no drible ficariam bastante prejudicadas. Ainda conseguiria se manter como titular do Flamengo pelas temporadas de 1946 (com maior constância, mas em atuações irregulares que aborreceram a torcida) e 1947 (já participando bem menos), mas no ano seguinte faria apenas oito das 20 partidas do time no Carioca.

Naquela competição, Vevé entraria em campo pelo time rubro-negro pela última vez em 21 de novembro, vencendo o Fla-Flu do returno por 2 a 1. Curiosamente, seu sucessor na posição seria um conterrâneo, Esquerdinha. Também nascido em Belém, mas vindo do Madureira para a Gávea, ele chegaria ao posto de capitão do time durante a conquista do primeiro título do segundo tri carioca rubro-negro, em 1953, mas já no ano seguinte começaria a dar lugar ao alagoano Zagallo.

Logo após se retirar do futebol profissional, Vevé ainda participou com frequência de jogos de veteranos. Mas, bebendo cada vez mais, logo se desencantaria da bola. Trabalhou por um tempo com corretagem de imóveis, mas não teve muito sucesso. Orgulhoso, recusava-se a receber qualquer tipo de ajuda. Definhando lentamente, faleceu de cirrose hepática aos 46 anos, em 26 de julho de 1964. O clube cobriu todas as despesas com o funeral de um de seus ídolos.

Os rubro-negros mais antigos, que viram Vevé jogar, também sempre lhe fizeram justiça: em 1982, a revista Placar promoveu uma votação entre jornalistas, torcedores anônimos e famosos e ex-dirigentes e jogadores para eleger o time ideal do Flamengo de todos os tempos – até ali, obviamente. Vevé foi o mais escolhido na ponta-esquerda com certa folga. E ainda hoje permanece entre os magos rubro-negros do drible.

 

Há 60 anos, Fla dava olé com chocolate no Boca Juniors em plena Bombonera

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Um time rubro-negro do início de 1958, praticamente idêntico ao que venceu o Boca Juniors na Bombonera. Em pé: Joubert, Fernando, Pavão, Jadir, Milton Copolilo (na Argentina jogou Dequinha, cortado no canto da foto) e Jordan. Agachados: Joel, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

Inaugurado em 1940, o Estádio Alberto José Armando, popularmente conhecido como “La Bombonera”, é um dos grandes palcos do futebol mundial e entrou definitivamente para o imaginário do torcedor brasileiro pelo fim dos anos 90, época em que o Boca Juniors (seu dono) empilhou títulos continentais, como símbolo de alçapão, um campo onde a pressão aos visitantes é insustentável e o triunfo caseiro é quase certo. E foi neste mítico gramado que o Flamengo conquistou, há exatos 60 anos, uma vitória memorável, em partida que integrou uma excursão sul-americana da equipe rubro-negra: exibindo um futebol extremamente dinâmico e técnico, aplicou categóricos 4 a 2 aos boquenses.

A EXPECTATIVA PARA O CONFRONTO

Os argentinos tinham ainda viva na memória a última visita do Flamengo ao país, no começo de 1953, quando os rubro-negros trouxeram de volta o troféu do Torneio Quadrangular de Buenos Aires, depois de empatar com o Boca na mesma Bombonera e com o San Lorenzo, além de derrotar o Botafogo por 3 a 0, no clássico carioca jogado na capital portenha. Na ocasião, o técnico rubro-negro era o mesmo Jayme de Almeida, nome histórico do clube como jogador, que dirigia novamente a equipe de modo provisório durante a excursão sul-americana realizada naquele início de temporada 1958.

Jayme era o comandante provisório devido às prolongadas especulações em torno da permanência do paraguaio Fleitas Solich, técnico rubro-negro nas cinco temporadas anteriores, cujo contrato venceria em março. A imprensa noticiava uma certa insatisfação do treinador com alguns dirigentes, o que poderia leva-lo a deixar a Gávea rumo ao Vasco ou ao Palmeiras ou ao futebol da Argentina, país onde ainda viviam seus familiares. Além disso, Solich era o nome preferido do presidente da CBD, João Havelange, para dirigir o Brasil na Copa do Mundo da Suécia, naquele ano. Porém, nada disso se concretizaria: Fleitas Solich renovou contrato exatamente naquele fim de janeiro.

Outra boa impressão – esta, mais recente – causada no público e na imprensa argentina havia sido a deixada pelo Vasco em seus dois jogos contra o mesmo Boca Juniors, e que terminaram em empates, apesar do amplo domínio dos cariocas. O bom futebol demonstrado pelos cruzmaltinos virou parâmetro pelo qual se mediria o desempenho dos rubro-negros em sua visita à Bombonera. Apesar de estar bem no meio do segundo maior jejum de sua história (entre 1954 e 1962), o Boca Juniors vinha de um aceitável quarto lugar no Campeonato Argentino do ano anterior, encerrado em dezembro, e terminaria o torneio seguinte como vice-campeão, atrás apenas do Racing.

No time boquense que entrou em campo para receber o Flamengo naquele 31 de janeiro de 1958, chamavam a atenção três nomes que eram velhos conhecidos dos rubro-negros: o ponta-esquerda paraguaio Silvio Parodi (ex-Vasco), que jogou apenas amistosos pelos xeneíses; o centroavante uruguaio Javier Ambrois (ex-Fluminense), que havia disputado a Copa do Mundo de 1954 e fora contratado poucas semanas antes; e o treinador Bernardo Gandulla, ex-jogador cruzmaltino no início dos anos 40.

Mas os destaques daquela equipe, os nomes que a história boquense consagrou, eram outros: o experiente Federico Edwards – zagueiro duro, homem de seleção argentina e que atravessou quase toda a década de 50 como dono da posição no clube – e um novato (20 anos) chamado Antonio Rattín – volante de boa técnica, muita garra e um fenomenal senso de liderança, que se tornaria um dos maiores jogadores xeneíses de todos os tempos, além de capitão do clube e da seleção por quase toda a década seguinte.

UM FLA QUE SE RENOVAVA

O Flamengo, que vinha em excursão desde o dia 9 de janeiro, colocaria seu time titular em campo. Era a equipe que chegara a brigar palmo a palmo com Botafogo e Fluminense pelo título carioca de 1957 até a metade do returno, no início de novembro. Mas uma sequência de quatro empates e apenas uma vitória nos seis últimos jogos acabou afastando-a da briga. De qualquer modo, era um time renovado, com vários jovens se firmando nos lugares de uma leva de antigos ídolos negociados na metade do ano – casos de Evaristo (vendido ao Barcelona), Paulinho (ao Palmeiras) e Índio (Corinthians).

O goleiro era Fernando, trazido do Bangu. O lateral-direito era Joubert, outro nome que se afirmava, enquanto o experiente Jordan atuava pelo outro lado. No miolo de zaga jogava o sólido Pavão. Jadir, recentemente convocado para a Seleção, completava o setor como quarto-zagueiro. Na frente da área jogava Dequinha, o capitão e o esteio do time. O quinteto ofensivo tinha Joel e Zagallo nas pontas, o talentoso Moacir como meia-armador, Dida era o ponta-de-lança e Henrique, o centroavante. Seria este o time que entraria em campo sob aplausos da torcida local na Bombonera e atuaria pelos 90 minutos.

ROLA A BOLA

O primeiro chute, logo no primeiro minuto, é do Flamengo: Henrique atira de longe para testar o goleiro Giambartolomei. O Boca responde em dois lances quase idênticos, duas cobranças de falta roladas de Ambrois para Parodi, com chutes violentos do ponteiro paraguaio. Fernando defende a primeira em dois tempos, enquanto a segunda passa perto da trave e assusta. Quando o Fla volta a ameaçar, aos nove minutos, é letal: Dida recebe de Dequinha, avança em velocidade até a intermediária boquense e lança para a infiltração de Henrique. O centroavante dispara um petardo, que Giambartolomei defende com dificuldade, mas dá rebote. Moacir, livre, aparece para tocar para as redes.

O arqueiro argentino, garantidor do empate boquense diante do Vasco com grandes defesas, impediria o Fla de ampliar a vantagem minutos depois, ao salvar de modo magistral um chute à queima-roupa de Moacir, na marca do pênalti. Do outro lado, o Boca tem um gol de Parodi anulado por impedimento claro. Mas acaba empatando de qualquer modo aos 28: após uma blitz rubro-negra, o zagueiro Rico espana e a bola cai no pé de Ambrois, que liga o contragolpe com Rodríguez. Este passa a Parodi, que cruza para a conclusão de Rattín. Fernando salva na primeira, mas não detém a cabeçada de Ambrois.

Não houve tempo nem mesmo para a pressão pela virada xeneíse. Na saída de bola, Henrique toca para Moacir, que avança e abre a Zagallo na esquerda. O ponteiro corta para dentro, entra na área e dispara um petardo que entra no canto direito de Giambartolomei. Inapelável. Um minuto depois de ceder o empate, o Fla já está de novo em vantagem, já é outra vez o senhor do jogo. Tão senhor que o Boca se assusta e começa a recorrer a outros expedientes.

Depois de o árbitro ignorar um pênalti em Henrique, a bola volta ao meio-campo e, em lance casual, um jogador argentino se lesiona e precisa ser atendido. Imediatamente o técnico xeneíse entra em campo para tirar satisfações com o árbitro, e uma confusão se forma com a entrada também da comissão técnica rubro-negra. Naquele tempo, nem sempre um amistoso era sinônimo de cordialidade, cavalheirismo ou mesmo desinteresse. Com a bola rolando, o Flamengo dá mais mostras de superioridade, em duas grandes chances com Henrique – na segunda, novamente parado na área com falta não marcada.

O Boca reequilibra as ações, ancorado numa boa exibição de Rattín, mas logo depois leva nova estocada: Jadir deixa a quarta-zaga rubro-negra e avança, lançando Zagallo pelo meio. O ponta passa a Henrique, e este abre no espaço criado para Dida. O camisa 10 invade e atira com fúria, estufando pela terceira vez as redes de Giambartolomei aos 38 minutos do primeiro tempo. Depois de um chute venenoso de Joel que o arqueiro boquense salva arrancando aplausos, o Fla toca a bola até o apito final da etapa.

Moacir, Henrique, Dida e Zagallo: artilheiros e artífices dos quatro gols rubro-negros em La Bombonera.

NO FIM, TEVE ATÉ OLÉ

Após o intervalo, o Boca volta furioso, querendo a reação a todo custo. O Fla rebate, e aos cinco minutos, num contragolpe, balança as redes com Zagallo, mas o árbitro anula, apontando impedimento de Henrique na jogada. Com Pavão e Dequinha firmes no setor defensivo, o Flamengo continua indo à frente com frequência. Henrique, com sua valentia costumeira, era o jogador que mais importunava a zaga argentina. Chegou a sofrer outro pênalti, após uma entrada dura de Héctor García, mas que o árbitro preferiu marcar falta fora da área.

O Boca tenta reagir na metade do segundo tempo, mas Fernando intervém com eficiência. Porém, pelo outro lado, Giambartolomei é mais exigido. Salva brilhantemente um tiro de Henrique após passe de Dequinha. Depois, outra vez bloqueia finalização do centroavante rubro-negro, que recebera bola de Joel. Aos 26 minutos, entretanto, nada pode fazer para evitar o golaço de Moacir: Dequinha entrega a Henrique, que abre na esquerda com Zagallo. O ponteiro passa a Moacir, e o Canivete dá um drible espetacular em no zagueiro Carlos Rico, avança e chuta colocado, tirando do alcance do arqueiro boquense.

Já virou goleada. Com os 4 a 1 no placar, o Flamengo deita e rola em plena Bombonera. Zagallo, em jogada sensacional, dribla quatro boquenses e dá a Henrique, que chuta para o arqueiro argentino espalmar com dificuldade para escanteio. Em seguida o Fla gira a bola, gasta o tempo. Moacir toca para Joel, que dá a Henrique, que passa a Dida, que recua a Jadir, que estica novamente até Joel, que devolve a Henrique, e este a Moacir. E assim segue o baile rubro-negro, deslumbrando o público argentino, que aplaude com vontade.

Nos minutos finais, ainda há tempo para Ambrois sofrer pênalti de Pavão e converter com um chute seco, descontando o placar. Mas não restam mais dúvidas da superioridade do conjunto rubro-negro. Firme na defesa, veloz e impetuoso nos contragolpes, com perfeito senso coletivo e esbanjando qualidade técnica, o Flamengo encantou o público portenho e escreveu seu nome na história do alçapão boquense.

BOCA JUNIORS 2 x 4 FLAMENGO

Estádio Alberto José Armando, “La Bombonera” (Buenos Aires, Argentina)
Sexta-feira, 31 de janeiro de 1958
Amistoso
Público e renda: não divulgados
Árbitro: Luís Ventre (Argentina)

Gols: Moacir (0-1) aos 9, Ambrois (1-1) aos 28, Zagallo (1-2) aos 29, Dida (1-3) aos 38 do primeiro tempo; Moacir (1-4) aos 26, Ambrois, de pênalti (2-4), aos 41 do segundo tempo.

Boca Juniors: Giambartolomei – Cardoso (Rico), Edwards e García – Rattín (Barberis) e Natiello – Scialino, Biaggio, Ambrois, Rodríguez (Bellomo) e Parodi. Técnico: Bernardo Gandulla.

Flamengo: Fernando – Joubert, Pavão, Jadir e Jordan – Dequinha e Moacir – Joel, Henrique, Dida e Zagallo. Técnico: Jayme de Almeida.

 

O centenário de Perácio: craque do Flamengo, personagem de anedotas e pracinha brasileiro

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Existiu Perácio, o craque, ídolo e artilheiro. Existiu Perácio, o personagem de anedotas. E existiu Perácio, pracinha brasileiro que serviu na Segunda Guerra Mundial. Todos eles, no entanto, foram um só, José Perácio, mineiro de Nova Lima, nascido há exatos 100 anos, em 2 de novembro de 1917. O atacante que aportou desacreditado no Flamengo e, homem simplório e ingênuo, fez-se ídolo do povo rubro-negro e tricampeão carioca na Gávea em 1942, 43 e 44 – com participação especialmente decisiva no segundo dos três – foi condecorado também como herói por outra nação, a brasileira, após ser convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira na Itália, em 1944. É um nome singular na história do Mais Querido.

Perácio, o craque, foi revelado pelo alvirrubro Villa Nova de sua cidade, clube que fazia frente aos grandes de Belo Horizonte. Era meia-esquerda, um dos cinco integrantes da linha ofensiva do velho esquema 2-3-5, ou “pirâmide”. Ou ainda ponta-de-lança, de acordo com a nomenclatura instituída após a adaptação do sistema WM inglês no Brasil por Flávio Costa, a chamada “diagonal”. Fosse qual fosse o nome da posição, Perácio era um portento no ataque, um verdadeiro tanque. Imparável nas arrancadas, arrastando marcadores, e culminando quase sempre com um chute fortíssimo ou uma cabeçada certeira.

Perácio, o personagem, era homem feito com ingenuidade de menino. O que trocava as palavras (“fui ao dentista para ele distrair meu dente”, em vez de “extrair”). O contador de histórias fantasiosas, o simplório, o brincalhão, o naïve. Eram tantos os casos que mais pareciam piadas envolvendo seu jeito de ver o mundo que Mário Filho, cronista imortal do nosso futebol, separou um capítulo inteiro de seu livro Histórias do Flamengo para registrar dezenas delas, intitulado “Perácio através das anedotas”.

O interlocutor costuma variar – às vezes Leônidas, às vezes Martim, às vezes Perrota – mas a história é a mesma, e popularíssima. Perácio dava carona a um deles em seu Packard quando parou num posto de gasolina para reabastecer. De pronto, acendeu um cigarro e jogou fora o fósforo, que caiu bem perto da mangueira de combustível. Ao ver o gesto, o outro passageiro se desesperou: “Mas como você faz uma coisa dessas, Perácio?!”. Ao que o atacante respondeu: “Ué, não sabia que você era supersticioso!”.

Perácio (ao centro, de gravata clara) e seu povo, em foto da Esporte Ilustrado, 1943.

Corria o primeiro semestre do ano de 1937 quando o Villa Nova andou pelo Rio de Janeiro, então capital federal, excursionando e exibindo seus craques pelos campos cariocas. Muitos deles ainda remanescentes do incrível tetracampeonato mineiro obtido pelo clube entre 1932 e 1935. Um deles era Perácio, sem nem 20 anos de idade completos e já titular desde os 17, chamando atenção o suficiente para merecer destaque na nota do Jornal dos Sports que registrou a iminência da vinda do Alvirrubro.

Perácio já era velho conhecido não só dos clubes cariocas como também dos paulistas, já que ambos jogavam regularmente contra o Villa Nova por essa época. O atacante esteve perto de se transferir para o Palestra Itália de São Paulo (atual Palmeiras), junto com o médio e amigo Zezé Procópio, numa movimentação conturbada que ganhou ares de escândalo por deserção. O Fluminense também sondou sua contratação. Mas naquele ano de 1937, ele acabaria seguindo para o Botafogo, para onde já tinha ido Zezé. O clube se impressionara com a atuação do jogador ao ser batido pelo Villa Nova por 3 a 2 num amistoso jogado no campo do São Cristóvão, em Figueira de Melo.

Pelo clube de General Severiano, Perácio atuaria entre 1937 e 1940. Chegou com o peso de craque mais caro do Brasil, comprado por 30 contos de réis. Formou com o ponta Patesko uma “ala esquerda” que chegaria junta à Seleção, na Copa do Mundo de 1938, na França. Naquele Mundial, o meia-esquerda atuaria em quatro dos cinco jogos do Brasil e marcaria três gols (dois contra a Polônia e um contra a Suécia), terminando como vice-artilheiro da Seleção, ao lado do tricolor Romeu Pelicciari, ainda que bem distantes dos sete tentos do rubro-negro Leônidas da Silva, goleador máximo da competição.

Na Copa de 1938, a delegação brasileira ficou hospedada num hotelzinho em Saint Germain, perto de Paris, achado pelo dirigente Irineu Chaves. Ao acordar, no dia seguinte à chegada, Perácio sentiu fome e apanhou o telefone. Do outro lado da linha, a recepção do hotel. Perácio então fez o pedido – em português, naturalmente: “Ô, rapaz, mande cá em cima uma média com pão e manteiga”. O recepcionista, atônito, apenas dizia “je ne comprend pas, je ne comprend pas…”. Perácio bateu o telefone, virou-se para Martim, seu companheiro de quarto, e, indignado, protestou: “Veja só pra que tipo de hotel nos levaram! A esta hora do dia e ainda não compraram pão!”.

Nos quatro anos em que jogou pelo Botafogo, no entanto, Perácio não conseguiu ser campeão. O mais perto que os alvinegros chegaram foi um vice em 1939, três pontos atrás do Flamengo. Tiveram o ataque mais positivo (com o meia-esquerda balançando as redes 13 vezes), mas não evitaram o título rubro-negro com uma rodada de antecipação. Ao fim da temporada seguinte, após mais um dos muitos desentendimentos que teve com o presidente botafoguense João Lyra Filho, Perácio foi afastado do elenco. O Flamengo se interessou, mas Lira Filho pediu alto, além de vetar o empréstimo temporário do jogador aos rubro-negros, que excursionariam pela Argentina.

O já rubro-negro Perácio na seleção carioca, ao lado dos companheiros de clube Jaime de Almeida e Biguá, em foto da revista Esporte Ilustrado, 1943.

No fim de maio de 1941, Perácio foi enfim negociado – ou melhor, exilado. Após longas negociações, teve acertada sua venda ao Canto do Rio. O clube niteroiense recebera naquele ano a licença especial da Liga de Football do Rio de Janeiro (logo transformada em Federação Metropolitana de Futebol) para disputar o Campeonato Carioca, inaugurava o estádio de Caio Martins e pretendia montar um time que justificasse sua presença no torneio. Perácio chegou com o certame em andamento e se machucou logo na estreia, contra o São Cristóvão. E não fez uma temporada tão brilhante quanto as que costumava fazer e que o levaram à Seleção.

Gordo, fora de forma após o longo período de inatividade entre o afastamento do Botafogo e a chegada ao Canto do Rio, desmotivado, sentindo-se chutado do clube no qual era o responsável por alegrar o ambiente, Perácio se entristeceu. Sentiu apenas uma ponta de revanche na última rodada do returno, em 31 de agosto, quando o Canto do Rio, já sem chances de se classificar para o terceiro e quarto turnos, recebeu o Botafogo de Heleno de Freitas e de seus velhos companheiros Zezé Procópio e Patesko em Caio Martins. O meia-esquerda abriu o placar na goleada cantorriense por 6 a 3.

Findado o campeonato, o Canto do Rio cedeu alguns de seus jogadores a outros clubes para disputarem amistosos. Perácio defendeu primeiro o America diante do Palestra Itália paulista. E em seguida, no dia 12 de dezembro de 1941, vestiria pela primeira vez a camisa do Flamengo, no estádio do time rubro, em Campos Salles, enfrentando o Sport, campeão pernambucano. Mesmo desfalcado de vários titulares, que defendiam naquele momento a seleção carioca no Campeonato Brasileiro, e contando com atletas emprestados em caráter experimental, o Fla não teve dificuldade para vencer por 3 a 1.

O Canto do Rio não cedeu Perácio para uma excursão a São Paulo que o Fla pretendia fazer. Mas seus dirigentes e os do Rubro-Negro acertariam a transferência do jogador para a Gávea para a próxima temporada. Só faziam questão de que o jogador só deixasse o clube após o dia 28 de dezembro, quando as duas equipes se enfrentariam pelo Torneio Extra, competição sem grandes atrativos, a qual o Fla disputava com time misto, sem vários de seus astros. Mas Perácio se despediria honrosamente do clube niteroiense ao mesmo tempo em que apresentava um belo cartão de visitas à torcida rubro-negra: o Canto do Rio venceu por 3 a 0, e ele marcou o gol que fechou a contagem.

Pirillo, Flávio Costa e Perácio. Os carros eram uma paixão do atacante.

A temporada de 1941 começara brilhante para o Flamengo, mas terminara amarga. Nos dois primeiros turnos, a equipe dirigida por Flávio Costa voou: venceu 15 de seus 18 jogos, somou 34 pontos em 38 possíveis e terminou na liderança, quatro pontos à frente do Fluminense, segundo colocado. Porém, ao fim do terceiro turno, disputado por apenas seis equipes, a vantagem na ponta já havia desaparecido. Na última rodada do quarto turno o Fluminense já chegava com vantagem de empate para o Fla-Flu da Gávea. Abriu 2 a 0, mas o Fla chegou à igualdade na raça. Porém, no jogo que ficaria conhecido como o das “bolas na Lagoa” (para fazer cera após a reação rubro-negra, os tricolores chutavam a bola para a Lagoa Rodrigo de Freitas, que então margeava o estádio do Fla), o título acabaria seguindo para as Laranjeiras.

A queda de rendimento do time rubro-negro na reta final do torneio era explicada em grande parte pelos problemas na meia-esquerda. O baiano Nandinho, dono da posição, não convencia. Flávio Costa chegou a deslocar o médio Jaime de Almeida e o ponta-esquerda Vevé para a função, mas nenhum dos dois se sentiu à vontade. Num último recurso, o clube trouxe da Argentina o meia Emilio Reuben, ex-Vélez Sarsfield, Independiente e Lanús. Mas ele não teve tempo de se adaptar ao estilo de jogo, e o jeito foi lamentar a perda de um título que pareceu iminente. Para tentar mais uma vez solucionar o problema é que os dirigentes apostaram suas fichas em Perácio.

Flávio Costa, ao ver o jogador chegar à Gávea com alguns quilos a mais, prontamente o colocou para perder peso. Perácio treinava todos os dias usando duas camisas de lã. Também havia deixado de lado definitivamente a vida boêmia pela qual se notabilizou ao lado dos colegas de Botafogo. Seu passatempo agora era pescar na Lagoa, ali na rampa do Flamengo, em frente ao estádio da Gávea. Almoçava numa pensão vizinha e frequentava apenas as redondezas, recolhendo-se cedo para ser o primeiro a aparecer nos treinos.

A elegância dos rubro-negros Jaime de Almeida, Biguá, Perácio e Artigas, num Rio ainda sem o Aterro, em foto de 1942 para a Esporte Ilustrado.

Foi incluído no time que iria a São Paulo disputar a Quinela de Ouro, torneio pentagonal que também contou com o Fluminense e os três grandes da capital paulista. O Fla voltou invicto, mas sem a taça – teve de se contentar com um segundo posto. E Perácio marcou um gol no empate em 2 a 2 com o Palmeiras. Voltaria a marcar na estreia pelo Campeonato Carioca, numa goleada sobre seu ex-clube, o Canto do Rio, por 6 a 0 nas Laranjeiras (disputava-se o chamado “turno neutro” do campeonato).

Mas embora o nível das atuações não tivesse piorado, os rubro-negros não seguiram bem naquela etapa, oscilando e perdendo muitos pontos. Terminaram o turno em terceiro, empatado com o Madureira, mas cinco pontos atrás do vice-líder Botafogo e sete atrás do líder Fluminense. Perácio saiu do time, retornou e depois foi para a reserva novamente, voltando Nandinho a ocupar a meia-esquerda. No returno as coisas voltaram a dar certo, e o Flamengo engrenou uma sequência de triunfos.

Às vésperas do Fla-Flu de 9 de agosto, pela última rodada do returno na Gávea, o centroavante Pirillo se lesionou. Precisando de um substituto de última hora, Flávio Costa trouxe de volta Perácio. Deslocado para uma posição que não era a dele, mas sem por isso deixar de se esforçar, o atacante acabou premiado: marcou o gol da vitória, completando numa cabeçada certeira um cruzamento de Vevé. Sete pontos atrás dos tricolores no turno, o Flamengo agora ultrapassava os rivais graças a aquela vitória, entrando no terceiro e último turno um ponto à frente.

O alvo a ser perseguido agora era o Botafogo, novo líder. E Perácio continuou contribuindo enormemente. Depois de ficar de fora da estreia no terceiro turno, contra o Canto do Rio, ele voltaria justamente no confronto direto entre os ponteiros, agora em sua verdadeira posição. E com uma atuação extraordinária, marcou dois gols ainda no primeiro tempo, com Pirillo e Jaime completando a goleada categórica por 4 a 0, placar tão desconcertante que irritou o ídolo alvinegro Heleno de Freitas, expulso perto do fim do jogo, com a contagem já definida. O Fla agora empatava na liderança. A briga estava em aberto.

A vitória sensacional sobre o Botafogo na Gávea naquela tarde de 23 de agosto deixou muitos torcedores eufóricos, inclusive alguns sócios rubro-negros. Homens endinheirados, eles fizeram questão de mostrar sua alegria com o resultado abrindo a carteira para homenagear Perácio, o artífice da goleada. Depois do jogo, o atacante mineiro entrou no vestiário com uma nota de 500 mil-réis pendurada uma orelha e outra de 200 mil-réis na outra, bem enroladinhas. E comentou, entre gargalhadas, com os companheiros de time: “Olhem os brincos que me deram!”.

Na partida seguinte, contra o Vasco em São Januário, o Flamengo perdia por 1 a 0 até há dez minutos do fim. Foi resgatado por Perácio, autor do gol de empate que incendiou o time: aos 42, o Fla viraria o placar com gol de Pirillo, seguindo na briga pelo título. O atacante mineiro ainda marcaria nos três jogos seguintes, três vitórias: um contra o Madureira (4 a 1), outro sobre o America (incríveis 8 a 5) e dois contra o Bonsucesso (7 a 0). Até que uma crise de apendicite o tirou do campeonato. Nandinho voltou ao onze titular nas rodadas finais, e os rubro-negros se sagraram campeões ao empatarem com o Fluminense nas Laranjeiras em 1 a 1 – uma espécie de troco da decisão do ano anterior.

O time campeão carioca de 1942. Em pé: Jaime de Almeida, Volante, Biguá, Domingos da Guia, o goleiro Jurandir e Newton Canegal. Agachados: Valido, Zizinho, Pirillo, Perácio e Vevé.

Perácio não voltaria a defender a Seleção Brasileira como jogador do Flamengo. Mas encontraria uma outra forma de servir ao Brasil. Entrou em cena Perácio, o pracinha. Convocado para se alistar na Força Expedicionária Brasileira que seguiria para a Itália lutar na Segunda Guerra Mundial, seguiu para o Recife no começo de 1943, onde recebeu treinamento militar e participou de exercícios que simulavam conflito.

Na volta ao Rio, Perácio conversava com a filha de um cartola rubro-negro durante um jantar. Contava suas experiências no Exército, onde vira pela primeira vez um submarino. “A senhorita já deve ter visto um no cinema. Eu achava que era coisa só de filme, mas lá eu vi um submarino de carne e osso”. A mocinha estranhou, mas manteve o papo: “De carne e osso? Que interessante!”. “Eu entrei no submarino, e ele mergulhou”, prosseguiu o jogador. “E o que aconteceu?”, retrucou a moça. “Ah, quase que eu não estou aqui pra contar a história. Pensei que morreria asquificiado!”.

A jovem enrubesceu, constrangida. Mas logo se acostumou ao jeito de Perácio. Ao fim da conversa, elogiou o atacante: “Eu fazia outra ideia dos jogadores de futebol. Espero que essa guerra acabe logo e você volte para o nosso Flamengo. Encantada!”. Perácio se curvou, sacudiu os braços e, entre o entusiasmado e o comovido, agradeceu ao seu estilo: “A senhorita é uma príncipa!”.

O atacante ficou no Recife lá até o início de julho, quando obteve transferência para o Rio. Ficou de fora de todos os jogos do Flamengo no primeiro semestre, jogando em seu lugar Nandinho, Tião, o ex-aspirante Vicente ou o argentino Ricardo Alarcón, que o Flamengo trouxera do Boca Juniors para substituí-lo. Nenhum esquentou lugar. A sorte é que Perácio voltou com fome de bola.

O Flamengo tinha em Pirillo seu goleador atestado e dado fé, o legítimo sucessor de Leônidas da Silva. Em 1941, ano de sua chegada, o gaúcho marcara impressionantes 39 vezes no Campeonato Carioca, recorde até hoje. No ano seguinte, o número de gols (e de jogos) diminuiu, mas com seus 22 tentos foi novamente o artilheiro do time na campanha do título. E não é que em 1943, mesmo estreando só na quinta rodada, Perácio fez ainda mais gols que Pirillo?

Perácio e o zagueiro tricolor Norival. O atacante brilhou em vários Fla-Flus ao longo da campanha do tricampeonato carioca.

A começar pela partida de reestreia, Fla-Flu nas Laranjeiras. Jogo muito disputado no primeiro tempo, como manda a tradição do clássico, mas sem gols. Até que Perácio abriu o placar aos três minutos da etapa final, aproveitando um cochilo da zaga tricolor e chutando fraco, mas sem chances para o goleiro Gijo. O Flamengo completaria o 2 a 0 mais tarde com Zizinho, recuperando-se da derrota para o America na Gávea (2 a 1) da rodada anterior. O próximo desafio era medir forças com o novo líder isolado do campeonato na abertura daquela sexta rodada. Sabem quem? O São Cristóvão.

Perácio não tomou conhecimento e marcou dois gols na impiedosa vitória rubro-negra por 4 a 0 na Gávea. Com seus já famosos “rushes”, foi um tormento para a defesa cadete. Seu retorno, comentava a imprensa, fazia inclusive crescer de novo o futebol de Pirillo, já que agora as retaguardas teriam dois goleadores para ficar de olho. E, com efeito, Perácio seguiu balançando as redes. Abriu a contagem nos 5 a 1 diante do Bonsucesso. Salvou um ponto no complicado empate com o Bangu na Rua Ferrer (2 a 2). Também inaugurou o marcador na revanche contra o America em Campos Sales (Fla 3 a 1).

Veio o Fla-Flu do returno, na Gávea, em 12 de setembro, com o Flamengo um ponto à frente na liderança do campeonato. Mas os tricolores é que abriram o placar, com o argentino Pablo Invernizzi, logo aos sete minutos. Aos 12, Perácio empatou aproveitando centro do ponta-direita Jacy, e minutos depois ainda faria a trave balançar com um chute fortíssimo. Mas perto do fim do primeiro tempo, Carreiro voltou a colocar o Flu na frente. Na etapa final, desde o início os tricolores já faziam cera, recorrendo ao expediente de chutar a bola para o mais longe que desse – se possível na Lagoa Rodrigo de Freitas, como em 1941.

O tempo passava, e o Flamengo seguia pressionando intensamente, apoiado pela torcida, mas um tanto nervoso e sem sorte nas finalizações. Até que, aos 45, o lateral tricolor Afonsinho cortou para escanteio um perigoso ataque rubro-negro pela ponta esquerda. Vevé cobrou o corner fechado, com veneno, como era seu costume, e acertou o travessão. O goleiro Gijo deu um tapa e a bola caiu aos pés de Perácio, que entrou como um touro e fuzilou para empatar o jogo, salvando ainda a liderança do Fla.

Perácio é abraçado pelos companheiros (entre eles, Jaime de Almeida e Biguá) na comemoração do gol de empate dramático diante do Fluminense.

“É difícil descrever o delírio que se apossou da torcida do Flamengo. A bola mal chegou ao centro do campo, Pereira Peixoto apitou, o match acabara. A multidão continuava a gritar goal, a pular, tudo que era flamengo enlouquecera”, escreveu Mario Filho em sua crônica do jogo para o Jornal dos Sports. “Desde 1941 que o Flamengo esperava por um gol assim”, lembrou Ricardo Serran, outro destacado jornalista esportivo da época, em sua análise para o Globo Sportivo.

Dali a duas semanas, Perácio marcaria novamente em outra goleada de 5 a 1 sobre o Bonsucesso, agora nas Laranjeiras, mantendo os rubro-negros na liderança, de novo ao lado do Fluminense. A duas rodadas do fim do certame, os dois clubes tinham 24 pontos, dois a mais que o Vasco, que vinha numa ascendente, com cinco vitórias consecutivas. Com 21 pontos, o São Cristóvão ainda alimentava esperanças, mas dependia de resultados pouco prováveis. No dia 3 de outubro, os quatro primeiros se enfrentavam: Flamengo e Vasco em General Severiano, São Cristóvão e Fluminense em São Januário.

O Vasco crescia porque já contava com a forte base do time que dominaria o futebol carioca a partir da metade daquela década de 40, o chamado “Expresso da Vitória”. Sete jogadores que entraram em campo naquele 3 de outubro no estádio botafoguense estariam no elenco cruzmaltino campeão dali a dois anos, incluindo o ponta-de-lança Ademir Menezes. Mas o senhor daquele jogo foi o Flamengo de Perácio.

O time abriu o placar com Vevé aos 39 da primeira etapa. E na segunda, veio o baile: em dois petardos de longa distância, aos três e aos quatro minutos, o atacante mineiro batia o goleiro vascaíno Oncinha e ampliava para 3 a 0. Pirillo também anotaria dois, aos 20 e 22. Dois minutos depois, o ponta Chico descontou para o Vasco, mas logo em seguida Zizinho fez o sexto. Já a oito minutos do fim, Lelé tornou a diminuir para os cruzmaltinos, sem, no entanto, deixar de evitar a goleada implacável por 6 a 2. A maior da história do Flamengo sobre o rival em todos os tempos.

Time que derrotou o Vasco por 6 a 2 na reta final do certame de 1943: Jurandir, Domingos da Guia, Perácio, Newton Canegal, Jaime de Almeida, Bria, Pirillo, Zizinho, Biguá, Vevé e Jacy.

A vitória rubro-negra acabara com as chances de título do São Cristóvão, mas o clube cadete contribuiu enormemente para a conquista rubro-negra: venceu o Fluminense por 3 a 1 naquela mesma tarde, deixando os tricolores dois pontos atrás do Flamengo antes da última rodada. O Fla receberia o Bangu na Gávea em 10 de outubro. O Flu jogaria nas Laranjeiras contra o Bonsucesso precisando vencer e torcer por um pouco provável triunfo alvirrubro no estádio do rival.

E o triunfo do Bangu ficaria ainda menos provável quando Perácio abriu o placar com menos de dois minutos de jogo, ampliando ainda aos 23. Pirillo ampliou cobrando pênalti aos 37, fechando o placar do primeiro tempo em 3 a 0. Na volta, Perácio disparou mais um míssil que se aninhou nas redes do arqueiro banguense João Alberto, e outra vez Pirillo completou a contagem na última volta do ponteiro. Em campo, não houve espaço para zebras. Mas sim para outro mamífero quadrúpede. Ídolo do povo, em meio às comemorações, Perácio foi agraciado por um torcedor rubro-negro com um cabrito.

Foi rápido. Pereira Gomes apitou dando por findo o jogo. Uma multidão invadiu o campo. Os jogadores do Flamengo, exceto Perácio, conseguiram fugir dos abraços. Perácio ficou para receber o cabrito, para ser carregado em triunfo. O cabrito seguro, bem no alto, pelas duas mãos de Perácio, esperneou, botou a boca no mundo. Perácio nessa hora já não estava com os pés no chão, deitara-se nos ombros da torcida, que o arrastava para lá e para cá. A banda de música atacou o hino do Flamengo. Das arquibancadas de cimento desciam espirais de serpentina. O vento ajudava a espalhar confete por todos os cantos. A Gávea perdera a fisionomia de um campo de football, virara salão de festa. Carnaval em pleno mês de outubro”, escreveu Mario Filho no Jornal dos Sports.

Jayme de Carvalho, fundador da Charanga, Perácio e o cabrito.

Com os três gols marcados sobre o Bangu, Perácio chegou a 14 tentos em 13 partidas, sagrando-se o artilheiro da vitoriosa campanha do bicampeonato rubro-negro. No tri, em 1944, Perácio participaria de apenas cinco jogos (entre eles uma goleada de 4 a 1 sobre seu ex-clube, o Botafogo, nas Laranjeiras), marcando três vezes: um no empate em 2 a 2 com o São Cristóvão e dois numa goleada de 6 a 1 sobre o Bonsucesso. Depois da difícil vitória por 1 a 0 sobre o Madureira na Gávea, decidida com gol de Pirillo, o atacante mineiro teria de se juntar novamente à FEB, só que agora embarcando para a Itália.

Lá, não chegaria a figurar na frente de batalha. Cumpriu o período como motorista de um marechal, mas pôde acompanhar de perto a tomada de Monte Castelo, ponto histórico da participação brasileira no conflito, em fevereiro de 1945. E não ficou de todo longe da bola, pelo contrário: sendo um dos quase 20 futebolistas brasileiros convocados pela FEB, foi escalado num time dos Aliados que disputou uma taça entre equipes de soldados, e acabou campeão. Alinhou também numa seleção brasileira que bateu oficiais da força aérea britânica, perto do fim do conflito.

Mesmo assim, a guerra provocou nele muitos traumas psicológicos. Não queria embarcar, inventou problemas de saúde, tentou recorrer até ao ministro da Guerra, marechal Eurico Gaspar Dutra, para que fosse dispensado. Mas não conseguiu. Na Itália, viveu em tensão permanente. “Eu tinha pavor de pensar numa batalha a gente é obrigado a matar para não morrer. E, se fosse o caso, teria que fazer isso, porque numa guerra está em jogo a nação”, declarou anos depois em entrevista à revista Placar.

Retornaria ao time do Flamengo apenas em setembro daquele ano, sem conseguir impedir, no entanto, o título carioca do Vasco, pondo fim ao sonho do tetra rubro-negro. Mas continuou jogando um excelente futebol e anotando muitos gols. Seria o artilheiro da equipe na temporada de 1946, com 32 gols, e chegaria a marcar cinco vezes numa mesma partida em duas ocasiões, ambas válidas pelo Torneio Municipal: nos sonoros 12 a 1 no Bonsucesso, naquele ano, e em um maluco 8 a 5 sobre o Bangu em 1947.

O Flamengo, porém, já andava cada vez mais longe das glórias, com a geração do tri envelhecendo aos poucos, Zizinho fraturando a perna duas vezes, Pirillo indo embora para o Botafogo, o técnico Flávio Costa trocando a Gávea por São Januário. O ano de 1947 foi o último de Perácio no elenco rubro-negro. O clube chegou a trazer Jair Rosa Pinto do Vasco para seu lugar. Jair, craque que fosse (e era um mestre da bola, de fato), nunca conseguiu preencher no coração do torcedor a lacuna que Perácio deixara.

O atacante ainda ensaiaria um retorno, disputando um amistoso pelo Flamengo no Espírito Santo em setembro de 1951, mas logo se aposentaria em definitivo, aos 33 anos, após 122 jogos e 97 gols pelo rubro-negro. Após pendurar as chuteiras, viveu como pacato funcionário público até falecer em março de 1977, aos 59 anos. Herói de duas nações, foi sepultado com a bandeira rubro-negra.

Convidado pelo Barça, Fla goleava Burnley na inauguração do Camp Nou há 60 anos

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Uma equipe do Flamengo em 1957, bem semelhante à que enfrentou o Burnley. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo. Apenas Dequinha não enfrentou os ingleses, substituído por Milton Copolilo.

Repleto de história, o estádio do Barcelona já recebeu muitos dos maiores jogadores e times de todos os tempos. O Camp Nou, como ficou popularmente (e, mais tarde, oficialmente) conhecido, foi inaugurado há exatos 60 anos, no fim de setembro de 1957, em festejos que se estenderam por vários dias, e para os quais o Flamengo teve a honra de ser um dos convidados. E o time rubro-negro, que contava com nomes históricos do clube, como Dida, Henrique e Zagallo, não decepcionou os torcedores catalães: numa atuação primorosa sob todos os pontos de vista – técnico, tático, físico –, os comandados do paraguaio Fleitas Solich golearam os ingleses do Burnley por 4 a 0, arrancando entusiasmados aplausos do público local, como contaremos agora.

O BARCELONA E A AMBIÇÃO DA NOVA CASA

No início dos anos 50, o Barcelona tinha grandes ambições: além de brigar pelo título espanhol e por taças internacionais como a Copa Latina, pretendia também subir de patamar como clube. Em 1951, contratara o meia húngaro László Kubala, que chegou com status de estrela à Catalunha e imediatamente fez aumentar o número de torcedores que desejavam vê-lo em ação. Paralelamente, na capital espanhola, o Real Madrid (que despontava como seu principal rival nacional), ampliava seu estádio Chamartín (o atual Santiago Bernabéu) para receber até 120 mil espectadores, transformando-o no maior do país e um dos maiores da Europa e do mundo.

Os blaugranas não poderiam ficar para trás nessa briga. Porém, o projeto de crescimento do clube esbarrava em seu estádio de Les Corts, inaugurado em 1922 com capacidade para 20 mil torcedores, e que na época havia sido expandido para caber até 60 mil. Mas as possibilidades de ampliação já haviam chegado ao limite. A solução vislumbrada pelo presidente Francesc Miró-Sans era construir um estádio inteiramente novo, em outro local nas imediações.

Projetado pelo arquiteto Francesc Mitjans, o novo campo teve sua construção iniciada em março de 1954 e apesar de problemas com o terreno terem atrasado o desenrolar das obras e encarecido sua concretização, tudo ficou pronto cerca de três anos e meio depois, no começo de setembro de 1957. Para a inauguração, marcada para o dia 24 daquele mês – dia de La Mercè, a padroeira da cidade de Barcelona – o clube preparou uma grande festa, convidando equipes do mundo inteiro para se apresentarem em meio ao cerimonial. Um destes clubes convidados foi o Flamengo, que no fim de abril havia negociado com o clube catalão o atacante Evaristo de Macedo.

De agasalho do Flamengo, os jogadores rubro-negros (Duca, Jadir, Pavão, Ari e Jordan, da esquerda para a direita) reencontram o velho companheiro Evaristo (ao centro) na tarde de inauguração do Camp Nou.

Evaristo vinha em grande fase no primeiro semestre de 1957: comandara o setor ofensivo do Fla na série de amistosos contra o mítico Honvéd húngaro no Maracanã, Pacaembu e em Caracas, na Venezuela, saindo-se como o artilheiro dos cinco confrontos. Depois, fora convocado para a Seleção Brasileira, disputando o Campeonato Sul-Americano (no qual estabeleceria o recorde de gols em um mesmo jogo pelo Brasil, vigente até hoje, ao marcar cinco vezes nos 9 a 0 sobre a Colômbia) e as Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, sofrendo a falta que originaria o famoso gol de “folha seca” do meia Didi contra o Peru no Maracanã, que classificaria o escrete canarinho para o Mundial.

A FÁBRICA DE CRAQUES DO FLA

O Flamengo, por sua vez, vivia um processo de renovação naquele ano de 1957. Manuel Fleitas Solich, o paraguaio que levou o clube ao tricampeonato carioca entre 1953 e 1955 ainda estava no comando, mas o time começava a sofrer modificações. No gol, o também paraguaio García já não era mais o titular, cedendo o posto a Ari, ex-Bonsucesso. E além de Evaristo, os dois outros titulares do setor central do ataque tinham sido negociados na metade do ano, ambos para o futebol paulista: Paulinho seguia para o Palmeiras, enquanto Índio se transferia para o Corinthians.

Para o lugar deles, Solich lançava vários garotos, como era de seu estilo: Joubert era o novo dono da lateral-direita, no lugar de Tomires (que ainda entrava esporadicamente). Outro garoto, Milton Copolilo, era formado para substituir Pavão na zaga central, embora também fosse utilizado em quase todas as posições do setor defensivo. E no ataque, Moacir, Henrique e Dida substituíam o trio negociado Paulinho-Índio-Evaristo. Dida, que já era frequentemente utilizado no time titular desde 1954 (havia sido o grande destaque da decisão do Carioca do ano seguinte contra o America), tinha então uma grande chance de se firmar de vez na equipe, e não desperdiçaria.

Após os amistosos com o Honved e a saída de Evaristo, o novo Flamengo foi testado em dois torneios. Primeiro no Rio-São Paulo, no qual terminou como vice-campeão ao lado do Vasco (o Fluminense levou a taça). Mas o desempenho foi bom, e o time registrou vitórias convincentes, como as goleadas diante de Santos (4 a 0) e Botafogo (4 a 1) no Maracanã e do Corinthians (4 a 0) no Pacaembu. Em seguida, veio a disputa do Torneio Internacional do Morumbi, organizado pelo São Paulo visando arrecadar fundos para construir seu estádio.

Na primeira fase, jogando no Maracanã, o Fla superou o Dinamo Zagreb iugoslavo (4 a 1) e o Belenenses português (3 a 1), além de empatar em 1 a 1 com um combinado formado por jogadores de Vasco e Santos. No quadrangular final, os rubro-negros estrearam batendo o Corinthians outra vez no Pacaembu, agora por 3 a 1, e largaram na liderança isolada. Mas o São Paulo decidiu cancelar abruptamente a competição, alegando rendas fracas, e reteve a taça.

O convite para participar dos festejos de inauguração do novo estádio do Barcelona chegou ao Flamengo no dia 24 de agosto. Os catalães ofereciam oito mil dólares, livres de despesas, para a partida a ser realizada dali a pouco mais de um mês, no dia 25 de setembro. Os dirigentes rubro-negros se declararam dispostos a aceitar a oferta caso conseguissem uma brecha no calendário, já que o Campeonato Carioca já estava em plena disputa. O clube então conseguiu que seu jogo contra o Bangu no Maracanã, pela nona rodada do primeiro turno, marcado originalmente para a noite de sábado, 21 de setembro, fosse antecipado para a quinta-feira, dia 19.

CONTRA O BANGU, O AQUECIMENTO PARA A VIAGEM

Na quinta, o Flamengo enfrentou e venceu com autoridade um bom time alvirrubro, que contava com o velho ídolo rubro-negro Zizinho, além do zagueiro Zózimo, futuro campeão mundial, e seu irmão Calazans, bom ponta-direita. O Fla abriu o placar logo nos primeiros minutos com Joel e ampliou com Henrique, antes de Mário descontar para os banguenses. Na etapa final, Henrique marcou de novo e Dida completou a goleada por 4 a 1 que deixava o time a um ponto dos líderes Botafogo e Fluminense. O próximo passo era arrumar as malas para a viagem ao Velho Continente.

A delegação rubro-negra embarcou no aeroporto do Galeão às 17h30 de sábado, dia 21, em voo da Air France, com um desfalque: o ponta-direita Joel, acometido da chamada gripe “asiática”, que se espalhou pela cidade por aqueles dias. Seria substituído por Luís Carlos, atacante versátil promovido dos aspirantes e que já vinha entrando esporadicamente no time, fosse pela direita ou pelo centro do setor ofensivo. Já na Espanha, outra baixa foi o experiente volante Dequinha, capitão do time, que sofreu distensão em um dos músculos da coxa durante um treino. Em seu lugar jogaria outro garoto, Milton Copolilo.

No dia 24, data oficial da inauguração, a delegação rubro-negra desfilou pelo estádio carregando a bandeira brasileira, sendo ovacionada pela torcida catalã, antes da partida de abertura das comemorações, na qual o Barcelona, dono da (nova) casa, venceu por 4 a 2 um combinado de Varsóvia, reunindo os principais jogadores em atividade nos clubes da capital polonesa. O ex-rubro-negro Evaristo marcou o segundo gol dos azulgranas na partida.

O Flamengo jogaria no dia seguinte contra o Burnley. Um dos fundadores da liga inglesa em 1888 e campeão nacional em 1921 e da Copa da Inglaterra em 1914, o clube da região de Lancashire viveu período de baixa depois disso, mas começara nova fase ascendente após a Segunda Guerra Mundial. Terminou na terceira colocação na temporada de retorno à elite, em 1948, e posteriormente em sexto em 1953 e sétimo em 1954, 1956 e 1957. Era, portanto, um time de porte médio, mas que havia impressionado em sua última visita à Espanha, em maio daquele mesmo ano, quando goleou o Athletic Bilbao – campeão nacional de 1956 – por 5 a 1 em pleno estádio San Mamés.

A equipe inglesa tinha como destaques o médio Jimmy Adamson e, principalmente, o meia-atacante Jimmy McIlroy, artilheiro da equipe na temporada anterior e principal jogador de uma surpreendente seleção da Irlanda do Norte que eliminaria Itália e Portugal, classificando-se para Copa do Mundo do ano seguinte, na Suécia. Além deles, outros cinco titulares da equipe que atuou naquela tarde em Barcelona levariam o Burnley a um novo título inglês dali a três anos.

O jogo teria início às 15h no horário local (11h no Rio) e seria transmitido para o Brasil pelo rádio, por meio das emissoras Continental e Mayrink Veiga, em conjunto com a paulista Pan-Americana (antecessora da atual Jovem Pan), que irradiaria a partida para São Paulo. Os locutores Rui Porto (Mayrink Veiga) e Jorge de Souza (Continental) viajaram junto com a delegação rubro-negra para Barcelona especialmente para a cobertura da partida.

O JOGO

Na hora marcada, o Fla entrou em campo sob uma salva de aplausos dos torcedores catalães e com Ari no gol, Joubert e Jordan nas laterais, Pavão e Jadir na zaga central, Milton Copolilo de volante, Moacir como meia-armador, Luís Carlos e Zagallo nas pontas, Dida como ponta-de-lança e Henrique no comando do ataque. Logo depois entrou o Burnley, com sua camisa vinho com mangas azul-claras. Com arbitragem espanhola do sr. Gómez Contreras, a partida seria disputada sob um clima quente, resquício do verão europeu, ainda que um calor não tão intenso quanto o do verão carioca no qual o Flamengo estava acostumado a atuar.

Os primeiros 15 minutos foram de estudos de parte a parte. Mas o Flamengo não demorou em impor seu jogo, o que faria durante toda a primeira etapa. Depois de dois escanteios quase seguidos, viria o primeiro gol rubro-negro aos 23 minutos. Luís Carlos bateu escanteio curto, entregando a Zagallo na ponta-esquerda. O camisa 11 cruzou com perfeição para Dida cabecear vencendo o goleiro Blacklaw de maneira inapelável. E a torcida catalã vibrou e bateu palmas pela primeira vez durante a partida.

Jadir e Pavão cortam um ataque do Burnley. (Foto: Mundo Deportivo)

Encurralando os ingleses, que mal conseguiam passar do meio-campo, o Flamengo marca o segundo gol três minutos depois, quase numa linha de passe. Jadir avançou e cedeu a Luís Carlos pela direita. De seus pés, a bola chegou a Moacir, que driblou o marcador e entregou a Dida. O camisa 10, que era ovacionado pelo público a cada jogada, abriu então na esquerda para Zagallo chegar na corrida e chutar forte para as redes. O estádio delirou, encantado com o jogo rubro-negro que dominou inteiramente o confronto e foi para o intervalo com vantagem de dois gols, e que poderia ser muito maior pelo volume de jogo apresentado e as chances criadas.

Em sua crônica extensa da partida, o jornal Mundo Deportivo, destacaria a engenhosidade do esquema tático de Fleitas Solich, utilizando o sistema 4-2-4, uma novidade na época (mas já incorporado pelo Fla desde a chegada do treinador paraguaio) e principalmente a intensa troca de posições no ataque rubro-negro. “O time do Flamengo se move com facilidade pelo campo, e com um sentido tático que nos impressionou”, escreveu a publicação, que também fez grandes elogios a Jadir, jogador de “portentosas condições físicas” e que atuava como uma espécie de “curinga” da defesa, cobrindo todo o setor.

O Burnley voltou para a segunda etapa disposto a reagir e chegou a pressionar o setor defensivo do Flamengo, embora sem criar chances que preocupassem o goleiro Ari. Para piorar a situação dos ingleses, aos 15 minutos o zagueiro-esquerdo Winton fez um recuo de bola pelo alto para Blacklaw, mas não notou que o arqueiro já vinha saindo em busca da bola. O gol contra, que estabeleceu o placar de 3 a 0, era mais um abalo no ânimo dos britânicos. Apesar disso, eles continuavam em cima e ainda acertaram a trave num chute de longe de McIlroy. O Fla respondeu e marcou com Luís Carlos após passe de Moacir, mas o árbitro anulou marcando toque de mão do ponteiro rubro-negro.

O goleiro Blacklaw se esforça para tentar salvar mais um gol rubro-negro, observado por Dida, ao centro. (Foto: Mundo Deportivo)

Até que, aos 30 minutos, o Fla fechou a contagem num sensacional lance individual de Henrique, que recebeu de Moacir perto da linha de fundo, protegeu de um zagueiro, girou, driblou mais dois, passou pelo goleiro e tocou para o fundo das redes. Ainda houve tempo para duas defesas magistrais de Blacklaw numa cabeçada de Henrique e num chute de Duca, substituto de Dida, após cobrança de escanteio. Mas o placar de 4 a 0 já estava definido e era incontestável. A grande exibição rubro-negra levou a imprensa espanhola a não poupar elogios ao estilo técnico, veloz e objetivo dos jogadores: “O Flamengo, através de seu jogo, confirmou a opinião que temos sobre o futebol brasileiro, ou seja, que talvez seja o melhor do mundo”.

Pelos anos seguintes, o Flamengo voltaria ao Camp Nou outras duas vezes. A primeira em 1962, quando enfim teve pela frente os donos da casa, o Barcelona, em amistoso disputado durante excursão europeia do time rubro-negro. A vitória por 2 a 0 veio com dois gols de Dida ainda no primeiro tempo. Mais tarde, em 1968, o Fla retornou ao grande estádio barcelonista para a disputa do prestigioso Troféu Joan Gamper, no qual derrotou o Athletic Bilbao por 1 a 0, num golaço de bicicleta de Silva Batuta, mas acabou derrotado na final pelos anfitriões numa partida movimentada, que terminou com o incrível placar de 5 a 4 para os azulgranas. Em todas essas ocasiões, o clube confirmou a excelente impressão deixada na Catalunha por aquela primeira visita, em que retribuiu o convite honroso com uma maravilhosa exibição de futebol.

FLAMENGO 4 x 0 BURNLEY

Estádio do FC Barcelona, “Camp Nou” (Barcelona, Espanha) – quarta-feira, 25 de setembro de 1957
Amistoso de inauguração do estádio
Público e renda: não divulgados
Árbitro: Gómez Contreras (Espanha)

Gols: Dida (1-0) aos 23, Zagallo (2-0) aos 26 minutos do primeiro tempo, Winton contra (3-0) aos 18, Henrique (4-0) aos 30 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Ari; Joubert, Pavão, Jadir e Jordan; Milton Copolilo e Moacir; Luís Carlos, Henrique, Dida (Duca) e Zagallo. Técnico: Fleitas Solich

Burnley: Blacklaw; Smith, Adamson e Winton; Sieth e Miller; Newlands, McIlroy, Shackleton (Robson), Cheesebrough (Connelly) e Pilkington. Técnico: Wiilliam “Billy” Dougall

Há 30 anos, Carlinhos “acertava” o Fla, que vencia o Vasco e reagia na Copa União

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No automobilismo, há pilotos que se notabilizam pela perfeita percepção dos pontos fortes e fracos de suas máquinas na pista e que utilizam de sua larga experiência para colaborar no desenvolvimento delas, a fim de melhorar o rendimento. São os chamados “acertadores” de carros. No futebol, tal termo poderia ser aplicado de modo bem apropriado a Luiz Carlos Nunes da Silva, o Carlinhos, técnico que iniciava seu primeiro período longevo como técnico do Flamengo há exatos 30 anos.

Sob seu comando, de voz mansa e jeito aparentemente tímido, que fizeram com que em muitas vezes seu conhecimento, capacidade e habilidade como treinador fossem subestimados, o time rubro-negro, que vivia um princípio de crise, venceu o Vasco por 2 a 1 numa grande atuação no Maracanã em 20 de setembro de 1987, em jogo válido pela segunda rodada do primeiro turno da Copa União, o Campeonato Brasileiro daquele ano.

UM TIME EM MAU MOMENTO

O Flamengo chegava à disputa da Copa União – torneio do qual fora um dos criadores – num período turbulento. Dirigido por Antônio Lopes, o time perdera o bicampeonato carioca ao ser derrotado pelo Vasco com um gol do ex-rubro-negro Tita na decisão disputada no início de agosto. Enfrentara o rival quatro vezes naquela competição e não marcara um gol sequer (três empates em 0 a 0 antecederam a derrota na final). Em seguida partira para uma excursão pelo México, voltando com um desempenho repleto de altos e baixos.

O elenco também havia passado por algumas modificações: se por um lado, Lopes não fizera objeções à saída de Adílio (que deixava a Gávea após quase uma vida inteira no Flamengo, transferindo-se para o Coritiba), outro veterano ídolo, Nunes, retornava após dois anos e meio rodando por Náutico, Santos, Atlético-MG e o Boavista português. Na defesa, para o lugar de Mozer, negociado durante o Carioca com o Benfica, o Fla repatriava outro veterano, o ex-tricolor Edinho, vindo da Udinese. O zagueiro, no entanto, acabaria barrado por Lopes logo ao chegar, numa tentativa de indicar que, com ele no comando, ninguém jogaria pelo nome.

Ainda havia outro problema físico, este de caráter mais definitivo: o jovem lateral-esquerdo Adalberto, que havia ficado quase um ano de fora do time por uma séria lesão provocada por uma entrada desleal num jogo pelo Brasileiro de 1986, retornara na reta final do Carioca. Mas num amistoso contra o Bahia na Fonte Nova, a seis dias da estreia na Copa União, voltara a se contundir com gravidade, desta vez sozinho, sem previsão de retorno. Para a partida contra o São Paulo, no domingo, 13 de setembro, o treinador preferiu improvisar, deslocando o zagueiro Aldair para o setor.

ESTREIA DESASTROSA NO BRASILEIRO

Foi uma escalação bastante estranha, a que Lopes levou a campo contra o perigoso São Paulo, que vinha de conquistar o Paulistão semanas antes. Na zaga, em vez dos experientes Leandro e Edinho, estavam os jovens, mas inconstantes, Guto e Zé Carlos II. Na esquerda, o técnico e sóbrio, mas improvisado, Aldair. No meio-campo, o jovem Flávio, recém-contratado após se destacar no Carioca pelo Olaria, ocupava a cabeça-de-área, enquanto Andrade jogava mais à frente, como um armador. E à frente, um quarteto ofensivo formado por Zico, Renato Gaúcho, Nunes e Bebeto sugeria talvez ofensividade demais para uma equipe de resto desbalanceada.

E, em campo, acontece o que a escalação indicava: o Flamengo ataca constantemente, mas é engolido no meio-campo pelo São Paulo, que resolve o jogo em menos de 20 minutos graças a duas jogadas de Müller pela ponta, no setor do improvisado Aldair, e ainda conta com uma generosa cota de milagres de seu goleiro Gilmar (que mais tarde jogará na Gávea) durante toda a partida. Quando Lopes tenta consertar o estrago, colocando os garotos Leonardo na lateral e Zinho no meio-campo (no lugar de Flávio), já é tarde demais para reagir. Apesar do péssimo resultado, no entanto, os dirigentes evitam fazer críticas ao trabalho do técnico, e mesmo os pedidos pela sua saída entre a torcida ainda são um tanto tímidos.

Na manhã seguinte, no entanto, para a surpresa geral, Lopes pede demissão. Alega se sentir sem respaldo dentro do clube, e também sabe que a diretoria está dividida quanto à sua permanência, assim como ele próprio está ciente de que não conta mais com o apoio irrestrito da torcida. Além dele, o preparador físico Carlos Alberto Lancetta também deixa a Gávea. Imediatamente, como sói acontecer, as especulações a respeito de seu substituto começam a pipocar. Os eternos Zagallo e Nelsinho Rosa eram os principais cotados, com Edu Coimbra, irmão de Zico, e Carpegiani correndo por fora, com menos força.

Para piorar, a contratação do meia-armador Osvaldo – ex-Grêmio e Ponte Preta, e que estava no Santos – acaba cancelada na terça-feira, quando era dada como certa, depois de o jogador já ter sido apresentado à torcida e realizado exames médicos. Há controvérsia sobre o motivo da desistência: segundo o presidente Márcio Braga, o clube paulista teria exigido a redução do prazo de pagamento pelo passe do jogador. Mas houve quem afirmasse que a verdadeira razão seria um problema crônico no joelho.

SEMANA DE SURPRESAS

Aquela não seria a única reviravolta da terça na Gávea. Contrariando os rumores, o Flamengo anuncia um nome que sequer havia sido especulado para o cargo de treinador. E ele já está lá mesmo na Gávea. É o ex-volante Carlinhos, ídolo do clube nos anos 60, e que assume o time pela terceira vez, e pela primeira como técnico efetivo, após duas passagens como interino – a última delas naquele mesmo ano de 1987, justamente entre a demissão de Sebastião Lazaroni (agora no Vasco) e a contratação de Antônio Lopes.

“Nas vezes anteriores ainda me sentia inseguro. Mas agora assumo a responsabilidade sem qualquer temor. Acho mesmo que chegou o momento de me firmar como técnico de um time profissional e nada melhor que o Flamengo”, afirma o novo comandante com sua voz mansa, mas discurso decidido, de currículo vitorioso na base rubro-negra e que acaba sendo escolhido depois que Nelsinho é descartado por problemas médicos e Zagallo por não ser unanimidade entre os cartolas.

Durante o treino da quarta-feira, seu primeiro no comando do clube, Carlinhos começa a ensaiar mudanças. Depois de colocar os titulares com a mesma formação que havia perdido para o São Paulo, e ver os reservas saírem na frente com um gol de Kita, interrompe a atividade e mexe as peças: Leandro e Edinho entram na zaga; o garoto Leonardo assume a lateral-esquerda no lugar do improvisado Aldair. E Zinho substitui Nunes para compor o meio-campo, deslocando Bebeto para o comando do ataque. Mais encorpado, o time principal cresce de produção.

Outra mudança ambicionada – a entrada de Aílton no meio-campo no lugar do volante Flávio para que Andrade volte a atuar mais recuado, à frente da zaga – ficaria para a atividade do dia seguinte. Mas na entrevista após seu primeiro treino, o novo treinador já evidencia o jeito simples e objetivo com o qual encara a organização da equipe: “O Aldair tem que atuar de zagueiro. É ali que ele se sente à vontade e tem alegria para jogar. Só vou escalá-lo em sua posição. Posso experimentá-lo com Leandro ou mesmo com Edinho”, disse sobre o defensor, que chegou a ser cogitado por Lopes para atuar no meio-campo.

CLÁSSICO À VISTA

A mudança no ambiente – até então carregado desde a demissão do supervisor Isaías Tinoco, antes mesmo da saída de Antônio Lopes – é nítida com a chegada de Carlinhos, e ele próprio se sente mais confiante e desinibido, a ponto de brincar nas entrevistas. O elenco também sente que a maré poderá virar a seu favor. “Todo clássico é difícil e não se pode garantir a vitória, mas o Flamengo a partir de agora será outro”, afirma Andrade.

Do outro lado, pelas bandas de São Januário, a semana começa ainda ecoando o excelente resultado cruzmaltino da primeira rodada: no domingo, o clube vencera de maneira categórica um bom time do Bahia em plena Fonte Nova por 3 a 0, três gols do jovem artilheiro Romário. Mas o astral começa a mudar ao longo daqueles sete dias que antecedem o clássico. Ao saber que Carlinhos é o novo técnico rubro-negro, Lazaroni franze a testa e pressente o perigo: “Eles vão jogar como nunca. Vamos ter de jogar com muito cuidado porque o Flamengo vai querer resolver seus problemas contra nós”.

Na quarta-feira, três jogadores vascaínos aparecem gripados. E na quinta, Romário é internado por conta de uma misteriosa gastroenterite. Mas numa última cartada para tentar abalar o Flamengo, o vice-presidente de futebol do Vasco, Eurico Miranda, anuncia na véspera do jogo a contratação de Osvaldo, o meia rejeitado na Gávea, embora não possa ir a campo no clássico por não estar regularizado.

No domingo, os dois times entram em campo. O novo Flamengo de Carlinhos alinha pela primeira vez juntos Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, o garoto Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho. Volta a experiência à zaga, combinada com a vitalidade e a força no apoio dos laterais. Andrade retorna à sua posição preferida, à frente da defesa. Zinho reveza as jogadas de linha de fundo com o auxílio no meio-campo. Uma escalação aparentemente mais equilibrada.

O Vasco também leva um time forte ao jogo: Acácio no gol, Paulo Roberto e Mazinho nas laterais, Fernando e Donato no miolo de zaga, Henrique na cabeça da área, Geovani e Luís Carlos Martins de armadores, Roberto Dinamite retornando do comando do ataque para exercer uma função semelhante à de Zico no Flamengo, lançando para Vivinho e Romário, que jogam abertos, entrando em velocidade pela diagonal. Henrique e Luís Carlos Martins são os substitutos de Dunga e Tita, negociados com o futebol europeu, enquanto Vivinho joga no lugar de Mauricinho na ponta.

E A BOLA ROLA

O jogo começa movimentado, e o Flamengo tem a primeira chance logo nos minutos iniciais quando Jorginho recebe de Andrade, vai à linha de fundo e cruza de pé esquerdo, mas Fernando corta antes de a bola chegar a Acácio. O Vasco aparece pela primeira vez num lance irregular: após cruzamento de Paulo Roberto, Zé Carlos sobe com Romário e soca para fora da área. Roberto disputa a bola com Andrade e empurra escancaradamente o volante rubro-negro. O árbitro manda o jogo seguir, e o camisa 10 cruzmaltino tenta o cruzamento rasteiro, mas Leandro afasta.

Os goleiros trabalham bem logo depois: Renato recebe de Andrade e avança pela esquerda até a linha de fundo, passa por Fernando e cruza alto, mas Acácio aparece antes de Bebeto para segurar. Do outro lado, Geovani recebe de Henrique, limpa a jogada e bate para Zé Carlos espalmar por sobre o travessão. O Vasco volta a assustar em dois escanteios seguidos. Paulo Roberto cobra pela ponta direita com veneno, dois vascaínos raspam de cabeça, mas Leandro aparece para afastar pela linha de fundo. No lance seguinte, pelo outro lado, Geovani levanta, Mazinho desvia e Zé Carlos salva quase sobre a linha.

Ponta-direita de origem, Renato brilha por todos os lados do ataque, fazendo ótimas jogadas também pelo lado esquerdo. Numa delas, Zinho desce por aquele lado e rola para trás. O gaúcho solta a bomba que passa muito perto do gol de Acácio. E logo em seguida, por ali mesmo, sai a jogada do primeiro gol rubro-negro: aos 31 minutos, mesmo combatido por Geovani, que tenta até segurá-lo pelo braço, Renato dribla e avança até a linha de fundo. O cruzamento, alto, encobre Fernando e encontra a testa de Bebeto, que agora sim se antecipa a Acácio e desvia para o fundo das redes. Flamengo 1 a 0. É o fim da invencibilidade de dez jogos do goleirão cruzmaltino.

Geovani, bom de bola e ruim de cabeça, estará no centro das atenções dali a alguns minutos. Faz uma grande jogada partindo do círculo central e descendo pela meia direita, enfileirando rubro-negros, cai, levanta e continua a jogada até que Edinho chega e toma a frente, protegendo a jogada. O meia vascaíno então agarra o zagueiro do Fla, e os dois caem. No chão, o camisa 8 da Colina acerta o primeiro soco da noite no rosto do defensor. O clima esquenta de vez, num festival de empurrões e dedos na cara. Restaurado o futebol, o Vasco ainda assusta em boa jogada de Vivinho, que chuta forte. A bola acerta o travessão e sobe. Fim do primeiro tempo.

O GOL FANTASMA

Logo aos três minutos da etapa final, Vivinho também participará do lance mais polêmico do jogo. O ponta recebe de Luís Carlos pelo lado direito, corre até a linha de fundo e cruza para Roberto Dinamite desviar. A bola bate na trave, no corpo de Zé Carlos e corre por sobre a linha, até que o goleiro rubro-negro a recolha. A torcida do Vasco grita gol, o bandeirinha Rubens de Souza Carvalho corre para o centro do campo, Roberto aponta para ele. E o árbitro Aloísio Felisberto da Silva, que inicialmente havia deixado o lance seguir, cede às pressões e inacreditavelmente dá um gol em que a bola claramente não entrou. Os vascaínos ganham o gol no grito.

A revolta rubro-negra é geral. Furioso com a marcação, Zé Carlos atira a bola ao chão, certo de que ela não havia entrado. Renato e Jorginho vão para cima do bandeira e são contidos por Edinho, que conversa com o auxiliar. Depois de mais de nove minutos de paralisação, o gol fantasma é validado. Vida que segue. Logo no primeiro lance após a bola voltar a rolar, o Fla desperdiça a chance de reação imediata num lance cruel: Jorginho dá a Renato na ponta direita, e o camisa 7 cruza. Acácio sai para abafar, mas a bola sobra nos pés de Bebeto, de costas para o gol. Sem ter como finalizar, o atacante passa a Zico. A bola, porém, pega uma rosca e o Galinho, quase debaixo da trave, apenas resvala, e ela sai pela linha de fundo, raspando. O camisa 10 cai dentro do gol, atônito, não acreditando no que tinha acabado de acontecer.

O jogo esfria. Lance de perigo só mesmo aos 27 minutos, quando o azar vai dar as caras do lado de lá: é a vez de Romário perder um gol inacreditável, na pequena área, finalizando fraco e mascado após cruzamento de Fernando. O Fla tem Renato querendo jogo, infernal pelas duas pontas. Já o Vasco tenta puxar contra-ataques com Luís Carlos pelo meio. E num deles, aos 37, Geovani volta a ficar na berlinda: enquanto Luís Carlos é travado em falta de Zico perto da área rubro-negra, o camisa 8 vascaíno corre em direção a Edinho e lhe acerta, pelas costas, o segundo soco da noite. Delatado pelo mesmo bandeirinha que validara o gol do Vasco, o meia cruzmaltino enfim é expulso.

O Flamengo parte para sua primeira alteração, mas é atrapalhado pela confusão do quarto árbitro: Carlinhos pretendia tirar Zinho para a entrada de Nunes. Mas a placa erguida na lateral do campo é a do número 9 – o de Bebeto, que sai de campo contra a vontade do treinador. Acabariam escrevendo certo por linhas tortas. Logo depois, Edinho deixa definitivamente o campo – com um enorme hematoma no olho direito e o osso malar daquele lado fraturado – substituído por Aldair (no dia seguinte, Bebeto também apareceria no clube de olho inchado após uma cabeçada de Geovani recebida durante o jogo). O Vasco também mexe: o experiente ponta Zé Sérgio entra no lugar de Vivinho, enquanto o volante Josenilton substitui Luís Carlos.

NO FIM, A VITÓRIA

Quando a bola é reposta em jogo, num chutão de Acácio rebatido do outro lado por Leonardo, vem o lance que decide a partida. A bola sobra para Donato na lateral direita do campo de defesa do Vasco. Acossado por Nunes, o zagueiro recua e gira, mas o controle lhe escapa. Zinho chega como um foguete e toma a frente, partindo em direção à linha de fundo. Até ser parado num carrinho duro e imprudente de Paulo Roberto no limite da área. Enquanto os cruzmaltinos ensaiam uma reclamação, os jogadores do Flamengo correm para abraçar o ponteiro, que dá uma sobrevida ao time no último fôlego. É pênalti.

Zico, que tivera atuação discreta até ali, chama a responsabilidade e se apresenta para a cobrança. Acácio aparece para tentar catimbar, mas a conversa entre os dois é mais cordial. “Sou profissional. Farei de tudo para defender este pênalti. Mas, no fundo do coração, torço por você”, confessou o arqueiro. O chute sai forte, seco, bate na trave e entra. Zico abraça Acácio. E a massa rubro-negra comemora a vitória no fim. Não há mais tempo para quase nada. Pouco mais de um minuto depois, o árbitro encerra o jogo, e o Flamengo respira. Carlinhos começa seu trabalho com o pé direito.

Apesar de a vitória que valeu como revanche sobre o arquirrival levantar de novo o ânimo do elenco, o Flamengo ainda oscilará ao longo do primeiro turno, em grande parte pelos desfalques acumulados. No jogo seguinte, contra o Santos no Pacaembu, por exemplo, já não terá Leandro, Edinho (afastado até o fim daquela etapa) e Bebeto, e ainda perderá por uma partida o zagueiro reserva Aldair, expulso no segundo tempo. Zico também ficará vários jogos de fora na virada dos turnos.

Mas bastará Carlinhos escalar de novo aquele onze mágico – Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato, Bebeto, Zinho, as peças certas nos lugares certos, como gostava o treinador – na partida contra o Palmeiras no Maracanã, no dia 7 de novembro, para o Fla voltar a brilhar, vencer categoricamente por 2 a 0 e iniciar ali sua arrancada rumo ao título da Copa União. Dali em diante, ninguém segurou mais.

FLAMENGO 2 x 1 VASCO

Maracanã (Rio de Janeiro), domingo, 20 de setembro de 1987
Campeonato Brasileiro (Copa União), primeira fase, primeiro turno
Público: 28.682 – Renda: Cz$ 2.740.710
Árbitro: Aloísio Felisberto da Silva
Cartões amarelos: Leandro, Bebeto, Aílton, Jorginho (FLA); Roberto (VAS)
Expulsão: Geovani (VAS), 37 do 2º tempo.

Gols: Bebeto aos 31 (1-0) do primeiro tempo. Roberto aos 4 (1-1) e Zico, de pênalti, aos 44 (2-1) do segundo tempo.

Flamengo: 1. Zé Carlos; 2. Jorginho, 3. Leandro, 5. Edinho (13. Aldair), 4. Leonardo; 6. Andrade, 8. Aílton, 10. Zico; 7. Renato Gaúcho, 9. Bebeto (15. Nunes), 11. Zinho. Técnico: Carlinhos.

Vasco: 1. Acácio; 2. Paulo Roberto, 3. Fernando, 4. Donato, 6. Mazinho; 5. Henrique, 8. Geovani, 9. Luís Carlos (15. Josenílton); 7. Vivinho (16. Zé Sérgio), 10. Roberto Dinamite, 11. Romário. Técnico: Sebastião Lazaroni.

O épico título carioca de 1927 e o surgimento da mística da camisa rubro-negra

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Entre titulares e reservas, uma formação rubro-negra da reta final do campeonato de 1927, desfalcada do craque Moderato. Da esquerda para a direita: Amado, Hélcio, Nonô, Chrystolino, Frederico, Hermínio, Rubens, Fragoso, Agenor, Seabra, Vadinho e Benevenuto.

Pai fundador da crônica esportiva brasileira moderna e grande contador de histórias do Flamengo, Mario Filho gostava de explicar o nascimento do mito da camisa rubro-negra, a que joga sozinha, utilizando-se da trajetória do time rumo ao título carioca de 1927, levantado há exatos 90 anos. Na magistral pena do jornalista, aquela conquista ganhava ares de fábula, de épico. Há de se dizer, porém, que ao contrário do que possa parecer, ou seja, que o feito teria sido supostamente engrandecido pela prosa do cronista, não há na verdade exagero nenhum: a história foi exatamente daquele jeito – um épico, uma fábula.

A equipe que sequer disputaria a competição naquele ano por ver imposta contra si uma suspensão injusta. Que viu seu elenco se dispersar, tomar outros rumos, afastar-se da bola, e depois retornar aos poucos, em busca da forma perdida. Que, quando enfim foi a ela permitido competir, andou desacreditada desde o início, inferiorizada, sofrendo goleada que quase arrasou seu terreno. Que perdeu seus principais nomes em momentos cruciais da campanha, mas nem assim esmoreceu – apenas para vê-los retornar na hora mais crucial de todas. Essa equipe, por fim, foi campeã na raça, no coração, chegando junto, com os jogadores se multiplicando em campo. Um título de lutadores.

No começo, porém, os sinais eram bem diferentes. Nos principais prognósticos acerca do torneio daquele ano, o Vasco despontava como o maior favorito ao título. No ano anterior, quando mandou muitos de seus jogos no campo rubro-negro da Rua Paissandu, a taça lhe escapara por pouco. Agora, com o aporte financeiro da rica burguesia lusitana que integrava sua torcida, construíra e inaugurara um portentoso estádio, o de São Januário, o maior do Brasil. Outro favorito era o America, que também abrira os cofres, mas para montar um time com reforços escolhidos a dedo. “Um verdadeiro ‘scratch’ (seleção)”, comentava a imprensa da época.

Campeão de 1926, o São Cristóvão tinha a missão de provar que seu título inédito não havia sido obra do acaso. Ainda estavam lá os mesmos jogadores e o treinador Luiz Vinhaes, com seus rigorosos métodos de treinamento e preparação física. O Fluminense de Preguinho e Fortes, e o Botafogo de Nilo corriam por fora na briga, mas com talento suficiente para não serem ignorados como candidatos. Mas, e o Flamengo? “O Flamengo não tem time”, diziam.

O CASO PAULISTANO

O estádio rubro-negro da Rua Paissandu em dia de jogo contra o Vasco: no centro da briga que quase tirou o Fla do campeonato.

De fato, o Flamengo esteve perto de não ter mesmo time, no sentido literal. Até poucas semanas antes de a bola rolar, sua participação no certame esteve ameaçada. O motivo remete ainda ao fim do ano anterior e a uma briga nascida no futebol paulista. O Paulistano, uma das forças bandeirantes, havia sido expulso da Associação Paulista de Sports Athleticos por denunciar o chamado “amadorismo marrom”, prática que acobertava o pagamento de prêmios e salários a atletas, o que era rigorosamente proibido no regime amador puro, e que cada vez mais avançava tanto em São Paulo quanto no Rio.

Ocorre que Flamengo e Paulistano mantinham muito boas relações vindas de longa data. Em 1925, quando realizara sua célebre excursão à Europa, que chamou a atenção internacional para o futebol brasileiro, o time de Arthur Friedenreich contou com três ex-jogadores rubro-negros – o goleiro Julio Kuntz, o médio Seabra e o atacante Junqueira. Agora, fins de 1926, o clube paulista se via numa situação complicada: havia acertado amistosos contra equipes argentinas, mas, com a punição, não tinha onde enfrenta-los em sua cidade. E pediu ao Flamengo que lhe cedesse o campo da Rua Paissandu.

A Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (Amea), entidade que regia o futebol carioca, proibiu a cessão e ameaçou punir o Flamengo, referendando a medida de sua equivalente paulista, caso os jogos se realizassem. Mas, em nome da amizade com o Paulistano, o Rubro-Negro manteve sua palavra e não voltou atrás. O caso chegou à Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que decidiu, na véspera do Natal de 1926, pela suspensão do Flamengo por um ano.

A decisão foi fortemente criticada na imprensa e tachada de exagerada, de ter motivações pessoais, além de expressar uma profunda incoerência das entidades, agora rigorosas com as leis, mas que haviam burlado, cada qual em seu caso, suas próprias legislações. A Amea havia escalado o goleiro Batalha, não regularizado, para um jogo da seleção carioca contra a mineira. Já a CBD havia convocado jogadores do próprio Paulistano para o Campeonato Sul-Americano mesmo depois de o clube ter sido expulso pela Associação paulista. Cheirava a hipocrisia, moralismo de fachada.

A DEBANDADA

A perspectiva de um ano inteiro sem campeonato para disputar significava o desmantelamento do elenco rubro-negro. Muitos jogadores simplesmente deixaram a bola de lado e, amadores que eram, voltaram a se dedicar a seus empregos como funcionários do comércio, bancários, professores, médicos, advogados ou mesmo estudantes. Numa conversa informal com amigos mencionada pelo jornal O Imparcial, o centroavante Nonô, ídolo e artilheiro dos campeonatos de 1923 e 1925, declarava em fevereiro daquele ano que em hipótese alguma voltaria a jogar futebol.

Houve também quem preferisse seguir a carreira de jogador em outro clube, como o atacante Aché, que após ser convidado para defender o Botafogo em alguns amistosos, decidiu se transferir definitivamente para o Alvinegro em março. Ou o zagueiro Pennaforte, o “menino de ouro”, titular indiscutível da defesa, que saiu por motivo controverso, simbolizando bem as transformações pelas quais o regime amador passava na época. De casamento marcado, o jogador pediu ao clube que o ajudasse comprando a mobília de quarto para sua casa nova. Sem dinheiro, o Flamengo recusou. E o zagueiro acabou aceitando uma transferência para o America, que prometera atender seu pedido.

Houve ainda inúmeros casos de jogadores rubro-negros que, na inatividade, foram sondados por outros clubes. O goleiro Amado, que ano após ano vinha se colocando como um dos melhores – senão o melhor – da posição no futebol carioca, foi especulado no Vasco em janeiro e no America no mês seguinte. E o zagueiro Hélcio, outro destaque da equipe, esteve perto de se juntar a Pennaforte na defesa rubra. Felizmente, nenhum deles engrossou a lista de baixas da Rua Paissandu.

O goleiro Amado Benigno, um dos grandes nomes da posição na história rubro-negra e também do futebol carioca e brasileiro em seu tempo.

No entanto, mesmo com a punição já decretada e aplicada, havia no íntimo de todos os demais dirigentes, jornalistas e torcedores cariocas a convicção de que a suspensão poderia ser revertida. Quando nada porque a ausência do Flamengo era um baque para o campeonato, em vários sentidos. Inclusive no financeiro – mesmo num regime em tese amador. Em nota publicada já no dia 5 de janeiro de 1927, o jornal O Imparcial fazia as contas “a bico de pena” e comentava que, ao deixar de jogar o torneio, o clube perdia cerca de 100 contos de réis. Mais: os demais clubes também tinham prejuízo, calculado em torno de 500 contos de réis, ambos os valores representando verdadeiras fortunas para a época.

Assim, um clima de apreensão tomou conta do meio futebolístico da cidade naqueles primeiros meses de 1927. Por volta de meados de março, como quem não queria nada, o Flamengo chamou seu elenco – ou o que havia sobrado dele – para treinamentos semanais. Aos poucos, os jogadores foram se apresentando: Amado, Benevenuto, Flávio, Fragoso, Moderato. E foram trazendo outros, como o jovem médio Alemão, vindo de Niterói como possível reforço para o segundo quadro (espécie de time reserva ou de juniores). Quando, no fim daquele mês, a movimentação para tentar fazer com que a CBD suspendesse a punição se intensificou, dois ex-jogadores do Bangu chegaram para reposição de elenco: o ponta-direita Chrystolino e o curinga Américo Pastor, que já havia jogado até de goleiro, mas no Fla se fixaria na meia-esquerda.

No dia 31 de março, os demais clubes da primeira divisão da Amea e a Associação dos Cronistas Desportivos remeteram juntos um apelo à entidade para que a pena imposta ao Flamengo fosse cancelada. No dia 5 de abril, o pedido era encaminhado ao conselho deliberativo da entidade. E no dia 22, após reunião muito concorrida, os dirigentes da CBD decidiam por unanimidade pelo cancelamento da punição, aproveitando ainda para elogiar a serenidade e a disciplina com as quais o clube enfrentara todo o desenrolar do processo.

O COMEÇO ACIDENTADO

O time que bateu o São Cristóvão por 2 a 1 na Rua Paissandu pela terceira rodada do campeonato, em foto da revista “O Malho”.

Veio então a disputa do Torneio Início, realizado nas Laranjeiras em 24 de abril, no qual o Flamengo, depois de ter derrotado o Villa Isabel, seria eliminado em seu segundo jogo, perdendo no número de escanteios para o São Cristóvão após empate sem gols no tempo normal. E em 1º de maio começaria enfim o campeonato. Na análise prévia do torneio, o jornal O Imparcial destacava os pontos fortes e fracos de todos quase os concorrentes, colocava o Vasco como o postulante mais forte ao título e fazia ressalvas em relação ao Flamengo: “O rubro-negro carece de linha média e os próprios forwards [atacantes], com excepção de dois elementos, não inspiram grande confiança”.

Villa Isabel e Andarahy, os dois primeiros adversários, não representavam grandes desafios, mas a falta de coesão da remendada equipe rubro-negra fez as coisas se complicarem um pouco. Na primeira partida, o time abriu 2 a 0 diante do Villa Isabel, sofreu o empate e só a partir da metade do segundo tempo engrenou até conquistar uma tranquila vitória por 5 a 2 (enquanto isso, o Vasco demonstrava sua força surrando o pobre Sport Club Brasil por 11 a 0). Na segunda rodada, contra o Andarahy no estádio do adversário, o Fla contou com uma tarde inspirada do centroavante Fragoso, autor dos três gols na vitória por 3 a 2 – mas no intervalo, o placar marcava empate em 1 a 1.

Contra o São Cristóvão, equipe mais qualificada e detentora do título, o Flamengo sofreu mais. Mesmo jogando em casa, foi pressionado pelos cadetes em quase todo o primeiro tempo. Hélcio, enfim estreando no campeonato após longa inatividade, comandava a defesa. Na volta do intervalo, logo aos três minutos, Chrystolino bateu forte, Balthazar defendeu e, após confusão na área, Fragoso apanhou o rebote e chutou para abrir o placar. Mais tarde, em bola alçada para a área rubro-negra, Arthur empatou de cabeça. Mas logo no minuto seguinte, quando o time alvo pressionava pela virada, a defesa do Fla espanou uma bola que parou no meio-campo. Agenor recolheu e partiu em contra-ataque fulminante até a área, batendo cruzado para vencer o arqueiro adversário e garantir a terceira vitória.

Para uma equipe de tão poucos destaques individuais como aquela do Flamengo, perder um deles para um jogo importante como um clássico era um grande baque. Perder um goleiro como Amado, pela posição e pelo jogador que era – considerado o melhor arqueiro do futebol carioca – só aumentava a preocupação. Havia ainda outro agravante no caso do Botafogo, adversário da quarta rodada na Rua Paissandu: os alvinegros estavam com o Flamengo atravessado na garganta desde agosto do ano anterior, quando os rubro-negros haviam aplicado uma humilhante goleada de 8 a 1, a maior já registrada no clássico até então.

Foi uma tarde particularmente desastrosa para o garoto Egberto, goleiro do segundo quadro do Flamengo que substituía Amado. O Botafogo abriu a contagem com Ariza, aos oito minutos, e disparou a marcar. Quando Moderato descontou para o Fla pela primeira vez, aos 28, o Botafogo já vencia por 6 a 0. Ao fim, venceriam por 9 a 2, igualando a diferença de gols da goleada rubro-negra do ano anterior. O placar foi recebido com assombro. E ao Flamengo, restou juntar os cacos mais uma vez.

Uma semana depois, haveria a longa e cansativa viagem de trem para enfrentar o Bangu, adversário sempre difícil na Rua Ferrer. O ex-banguense Chrystolino aproveitou centro de Moderato e abriu o placar para os rubro-negros logo aos três minutos, mas Ladislau da Guia empatou de pênalti aos 11 e virou aos 15, levando os donos da casa em vantagem para o intervalo. Na etapa final, o Flamengo foi outro: Chagas tornou a empatar, Fragoso marcou duas vezes e Chrystolino voltou a balançar redes para fechar a contagem em 5 a 2. Foi a injeção de ânimo que o time precisava para as duas próximas batalhas contra o Fluminense nas Laranjeiras e o Vasco na Rua Paissandu.

Amado prepara-se para defesa na partida contra o São Cristóvão.

O Fluminense era o líder isolado do certame ao receber o Flamengo naquele 12 de junho nas Laranjeiras. Acabara de vencer a quinta partida em cinco rodadas ao bater o mesmo Botafogo que havia goleado os rubro-negros. E tinha no gol o arqueiro Batalha, que no ano passado havia deixado o Flamengo brigado em plena disputa do campeonato para atravessar a Rua Guanabara (atual Pinheiro Machado) e se juntar aos tricolores ao final do torneio. Já pelo lado do Fla, mais um jogador retornava à equipe: o médio Seabra, jogador experiente, de Seleção Brasileira, ainda que um pouco fora de forma devido à inatividade.

Mas seria outro jogador experiente, de Seleção, o grande artífice do triunfo rubro-negro: o ponta-esquerda gaúcho Moderato, estudante de Engenharia, craque e “garçom” daquele time. Num contragolpe, aos 27 minutos do primeiro tempo, ele passa pelo médio tricolor Nascimento, arranca, espera Chagas, o centroavante, entrar na área e cruza com perfeição geométrica para o atacante marcar o único gol do jogo. O outro destaque foi a defesa: Amado, elegante, valente e preciso nas intervenções. Hélcio, uma barreira intransponível na zaga. Hermínio, perfeito no jogo aéreo, afirmando-se a cada partida.

CONTRA O VASCO, UMA ATUAÇÃO HISTÓRICA

A vitória colocou o Flamengo de novo na briga: Fla, Flu, Vasco e Botafogo estavam agora empatados na liderança do torneio, e a partida contra os cruzmaltinos dali a uma semana na Rua Paissandu ganharia ainda mais importância. Mas, para variar, haveria um desfalque. Chagas, o autor do gol da vitória contra os tricolores, lesionara-se e estaria de fora do outro clássico. Restava ao Flamengo apostar suas fichas em seu substituto, um meia-direita do segundo quadro chamado Vadinho.

O jogo contra o Vasco foi uma das atuações históricas do Flamengo nos tempos do amadorismo. Mesmo sendo a partida disputada no estádio rubro-negro da Rua Paissandu, os cruzmaltinos eram apontados como francos favoritos: “Analyzando-se jogador por jogador, conjunto por conjunto, o quadro do Vasco da Gama, com excepção de dois elementos (Amado e Moderato, que aliás foram a differença do team), era todo superior à equipe rubro-negra”, escreveu O Paiz. Mas teriam pela frente uma “estupenda, magistral e assombrosa actuação” do arqueiro do Flamengo.

Desde o início o Vasco pressionou a retaguarda rubro-negra, mas saiu atrás no marcador aos 22 minutos, quando Moderato desceu pela ponta esquerda, passou pelo médio Nesi e cruzou. A defesa rebateu, mas Vadinho, o substituto de Chagas, testou para abrir a contagem. E tome pressão vascaína, afastada por Amado, Hermínio, Hélcio e quem mais aparecesse. Mas aos 37, a bola outra vez cai aos pés de Moderato, que repete a jogada do primeiro gol: passa por Nesi, vai à linha de fundo e centra. Vadinho, outra vez, aparece para cabecear longe do alcance do goleiro Nelson, ampliando a contagem em favor do Fla.

Mesmo em desvantagem, o Vasco procurava não se desesperar, tentando encontrar a melhor maneira de furar a barreira rubro-negra. Mas deixava sua defesa exposta. Aos seis minutos, foi salvo pela arbitragem, que anulou inexplicavelmente o que seria o terceiro gol do Flamengo quando, mais uma vez, Moderato foi à linha de fundo e cruzou para Fragoso, que vinha de trás, tocar para as redes. O juiz Homero Mesquita, do Andarahy, invalidou o lance sem motivo aparente.

O meia-direita Vadinho, grande carrasco dos cruzmaltinos.

E seria em novo contra-ataque, após intenso bombardeio da linha cruzmaltina, que o Flamengo mataria de vez a partida. Moderato, do meio-campo, encontra Vadinho com um lançamento primoroso. O atacante avança e bate na saída de Nelson, que ainda toca na bola, mas não consegue evitar o gol. O terceiro do substituto. O terceiro na vitória de um Flamengo brioso e letal, que deixava o rival para trás e se firmava na ponta da tabela, ao lado do Botafogo.

A partida com o Vasco foi de tamanha simbologia que foi a ela que Mário Filho se referiu para contar a saga do título de 1927 em seu livro Histórias do Flamengo. “Tinha havido um jogo com o Vasco, o Vasco sem sair da porta do gol do Flamengo, o Amado pegando tudo. O Flamengo deu quatro ataques, três a zero porque o gol mais bonito foi anulado. O Vasco não se conformou: time era o do Vasco, o Flamengo não tinha time. E o Flamengo, então, concordou que não tinha time, embora tivesse Amado no gol, Hélcio de beque e Fragoso e Vadinho lá na frente para fazer os gols. O Flamengo, era o que dizia grave e enfaticamente o pessoal do [Café] Rio Branco [tradicional reduto rubro-negro no centro da cidade], não precisava de time para conquistar o campeonato. Bastava-lhe a camisa. Onze paus de vassoura com camisa do Flamengo seriam irresistíveis”, escreveu o cronista.

“Vale lembrar que o Vasco tinha uma equipe poderosa, muito melhor do que a nossa”, confirmou o ponteiro rubro-negro Moderato, muitos anos mais tarde, em entrevista de 1982 ao jornal O Globo. “Naquele dia, o Vasco nos bombardeava. E Amado Benigno defendia tudo. Nosso time conseguia se superar. Hermínio, Hélcio, Benevenuto e Flávio Costa caíam em campo de tanto esforço. Eu mesmo, naquele dia, estava com a saúde comprometida. Mas era preciso ganhar”.

Moderato jogara toda a partida sentindo fortes dores na barriga. Ao fim do jogo, foi levado a um pronto socorro, onde seria operado em caráter de emergência de uma apendicite supurada, que poderia tê-lo levado à morte. A notícia correu a cidade, e o feito virou mais um exemplo da valentia daqueles jogadores. O ponta, no entanto, ficaria fora de ação por três meses. Era mais um sério obstáculo a ser enfrentado pelo time rubro-negro.

O ELENCO: UM COBERTOR CADA VEZ MAIS CURTO

Em princípio, o Flamengo superou bem a ausência de seu principal atacante diante do fraco adversário da rodada seguinte, o Sport Club Brasil. Nem mesmo quando o clube da Praia Vermelha empatou o jogo na metade do primeiro tempo imaginava-se que os rubro-negros deixariam de vencer. E o triunfo veio com goleada de 6 a 1, quatro gols de Fragoso e outros dois de Chagas, de volta à equipe. O resultado, aliado ao empate entre Vasco e Botafogo, levou o Flamengo pela primeira vez à liderança isolada do campeonato, algo absolutamente impensável ao início da temporada.

Na partida seguinte, no entanto, faltou ímpeto ao ataque rubro-negro diante do America em Campos Salles quando, depois de sair perdendo por 1 a 0 na etapa inicial e conseguir empatar no começo do segundo tempo, não aproveitou o momento favorável, sofrendo ainda mais dois gols rubros, perdendo por 3 a 1. Menos mal que a derrota do Botafogo para o São Cristóvão e o empate entre Fluminense e Vasco ajudaram a manter o Flamengo na liderança ao fim do primeiro turno.

Na abertura do returno, no dia 10 de julho, o Fla voltaria a ter dificuldades na visita ao Villa Isabel: embora dominado, saiu na frente do placar por duas vezes, mas cedeu o empate. Somente nos três minutos finais é que marcaria mais dois gols, vencendo por 4 a 2. Mas a atuação incisiva, mesmo com os desfalques, na vitória por 3 a 1 diante do Andarahy na Rua Paissandu uma semana depois representou um alento quanto à forma da equipe: “O vanguardeiro não está disposto a ceder a ponta”, escreveu O Imparcial.

Após uma suada vitória por 1 a 0 diante do modesto Sport Club Brasil, na Praia Vermelha, no entanto, a liderança rubro-negra seria ameaçada na visita ao São Cristóvão em Figueira de Melo. Além de enfrentar a pressão do time da casa num estádio de atmosfera comumente hostil e o vento forte que soprava contra seu campo de defesa em todo o primeiro tempo, o Flamengo ainda seria prejudicado com a anulação de um gol legal de Fragoso, após cruzamento da direita de Chrystolino. O árbitro Lippe Peixoto marcou toque de mão inexistente do ponteiro, antes de ele cruzar para a cabeçada do centroavante.

Aos 30 minutos, Teófilo abriu o placar para o São Cristóvão. Prejudicado também pela má forma física de alguns veteranos que retornavam após longa inatividade, como os médios Seabra e Japonês (este, improvisado na ponta-esquerda), o Flamengo sairia para o intervalo em desvantagem. Na volta, porém, empataria com Chrystolino, que recebeu de Vadinho e fuzilou o goleiro Baltazar. O empate manteve os rubro-negros na liderança graças ao tropeço do Fluminense, que também ficou no 1 a 1 contra o Bangu nas Laranjeiras. Mas o gol mal anulado de Fragoso na primeira etapa impediu que a vantagem do Flamengo na ponta aumentasse.

Intervenção decisiva de Amado no empate em 1 a 1 contra o São Cristóvão no alçapão de Figueira de Melo. Foto da revista “O Malho”.

Ainda que alguns veteranos retornassem aos poucos, o elenco rubro-negro era exigido ao máximo e sofria seguidas baixas. Na zaga, Roseira já vinha ocupando o lugar ora de Hermínio, ora de Hélcio nos últimos jogos. Contra o Botafogo em General Severiano, na rodada seguinte, ele é que teria de deixar o campo, substituído por um improvisado Ludovico, médio de origem. Além dele, Flávio Costa precisou entrar no segundo tempo no lugar do lesionado Rubens, que vinha fazendo boa partida na linha média.

O Flamengo abriu o marcador com Newton logo no início, sofreu a virada alvinegra para 3 a 1, mas foi buscar a igualdade na metade do segundo tempo, com dois gols de Vadinho. Porém, as falhas defensivas originadas das improvisações acabariam custando o ponto: três minutos depois do empate, Ariza aproveitou bobeada de Ludovico, Amado defendeu o chute, mas Nilo aproveitou o rebote para marcar o quarto. E já nos minutos finais, em contra-ataque, o mesmo Nilo marcaria o quinto, fechando o placar. Com a vitória do Fluminense por 4 a 3 diante do Brasil na Urca, o Fla acabaria ultrapassado pelos tricolores na ponta da tabela.

NA RETA FINAL, DOIS RETORNOS DECISIVOS

No dia 14 de agosto, o Flamengo bate o Bangu por 2 a 0 na Rua Paissandu, com gols de Fragoso e Newton ainda no primeiro tempo e retorna à ponta, junto com o Fluminense, após o empate deste com o Botafogo por 1 a 1 em General Severiano. E assim, igualados, eles chegariam ao confronto direto, o Fla-Flu do returno, em 21 de agosto no campo rubro-negro.

E do embate igualados também sairiam: empate em 1 a 1, com o Fla abrindo o placar com Agenor e o Flu empatando um minuto depois com Lagarto. A novidade é que teriam agora também a companhia do Vasco na ponta, após a vitória cruzmaltina sobre o Bangu por 4 a 0. Um ponto atrás vinha o America, também entrando de vez na briga, a duas rodadas do fim.

É quando entra em cena um reforço inesperado e decisivo para o Rubro-Negro, anunciado na edição de 2 de setembro do jornal O Imparcial: o centroavante Nonô, velho artilheiro e ídolo rubro-negro que no início do ano havia decidido parar com o futebol, estava de novo treinando com seus companheiros e seria escalado para a partida contra o Vasco. Não estava de todo fora de forma porque havia cumprido sua promessa apenas pela metade: continuava batendo sua bolinha no torneio da liga bancária e comercial, disputado por funcionários desses setores.

O jogo contra os cruzmaltinos também seria histórico por outro motivo: era o primeiro confronto oficial de competição entre os dois rivais a ser disputado no novíssimo estádio de São Januário. Belo pretexto para uma grande exibição dos rubro-negros. E ela veio, materializada na vitória por 2 a 1, em que o time esbanjou garra, superou suas limitações e controlou inteiramente o adversário, como conta O Imparcial: “No team vencedor houve bravura individual de todos os jogadores, sem excepção, de modo que a actuação de conjuncto resultou enthusiasta, impectuosa, digna da velha, tradicional coragem flamenga”.

Nonô, se não teve atuação tecnicamente brilhante, foi um líder empurrando o ataque rubro-negro. Acabou premiado com o primeiro gol da partida, numa bomba de longe, rasteira, vencendo o goleiro Amaral. O Vasco até ameaçou reagir, quando Bolão recebeu de Russinho e bateu para empatar. Mas ainda antes do intervalo o Flamengo estaria novamente na frente: Vadinho, que havia marcado os três gols do confronto do primeiro turno, percebeu uma brecha na defesa cruzmaltina e chutou forte, voltando a estufar as redes do rival no jogo.

Na etapa final, com o médio Benevenuto excepcional na destruição dos ataques cruzmaltinos, o Vasco não conseguia entrar na defesa rubro-negra (o goleiro Amado foi pouco acionado durante a partida). Os donos da casa tiveram então de recorrer às bolas alçadas para a área pelo médio Nesi, para que, na confusão, alguém empurrasse para o gol. Mas o Flamengo não teve grande dificuldade em conter a pressão estéril do time adversário e conquistar uma vitória maiúscula no imponente estádio do clube da comunidade lusitana e que – melhor ainda – afastava de vez o rival da briga pelo título carioca.

Na última rodada, disputada em 18 de setembro, três times ainda sonhavam com a conquista do campeonato: Flamengo e America, que se enfrentariam na Rua Paissandu, mais o Fluminense, que corria por fora e enfrentava o Vasco ali do lado, nas Laranjeiras, mas de olhos e ouvidos no que acontecia no vizinho estádio rubro-negro.

O Fla só dependia de si para levantar a taça. O America seria campeão direto se vencesse os rubro-negros e o Flu não conseguisse derrotar o Vasco. Já os tricolores não tinham chance de conquista imediata: precisando, antes de tudo, bater os cruzmaltinos, teriam ainda que torcer para o Flamengo não vencer. Dessa forma, em caso de empate na Rua Paissandu, Fla e Flu terminariam igualados na ponta. Já em caso de triunfo americano, os tricolores se igualariam a estes. Nos dois casos, seria disputada uma partida extra.

Logo no início do jogo, o Fla poderia ter saído em vantagem quando Nonô disputou uma bola com Pennaforte e chutou vencendo Joel num gol legal, aparentemente, mas que acabou anulado pelo árbitro Otto Bandusch, do Andarahy. Não teve importância. Poucos minutos depois, o gigantesco Nonô saltaria mais que a defesa rubra para completar de cabeça um centro da esquerda, abrindo o placar como fizera em São Januário duas semanas antes.

O autor do cruzamento seria mais um jogador que retornava ao time naquela reta final de campeonato. Era Moderato, ainda convalescendo da cirurgia de apendicite, com uma cinta sob o uniforme para segurar os pontos da cicatrização, em mais uma marca da raça daquela equipe. Sua atuação seria ainda coroada pela participação no segundo gol rubro-negro, marcado na etapa final: de seu pé esquerdo partiria um tiro cruzado, mistura de chute e centro, venenoso. Caprichosamente, a bola bateria em Pennaforte – o zagueiro que no início do ano trocara o Flamengo pelo America de maneira controversa – indo morrer lentamente nas redes de Joel. A torcida rubro-negra, que não perdoara a deserção do “menino de ouro”, sentiu-se vingada. Seria o gol do título.

No fim, ainda houve drama: Nonô se lesionou e teve que deixar a partida, substituído por Frederico. Era o esforço cobrando seu preço. O America se aproveitou e rapidamente descontou com Celso, passando a pressionar em busca do empate. Mas a defesa rubro-negra, o grande destaque da equipe naquele campeonato, voltaria a se destacar. Amado era intransponível. Hélcio e Hermínio, majestosos pelo alto ou por baixo. Benevenuto, um verdadeiro cão de guarda na linha média. Era o momento em que a raça transbordava ainda mais.

Ao apito final, os vencedores não se contiveram. De desacreditados, eram agora campeões. O Flamengo dera uma lição ao futebol carioca com sua “bravura moral, tenacidade, alegria de querer e de lutar” que eram “patrimônio e tradição” do clube, como citou O Imparcial. Com tudo contra, bastou erguer a camisa rubro-negra como uma bandeira de batalha. Puída, esfarrapada que fosse, foi ela quem prevaleceu no fim da história fabulosa e épica.

Julio Kuntz, colosso do gol rubro-negro

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Há uma controvérsia quanto à forma correta de se escrever seu nome: embora os historiadores do futebol brasileiro tenham eternizado a grafia “Kuntz”, com t, nas publicações de época também é encontrada de maneira igualmente recorrente a forma “Kunz”, dando a entender que a que se tornou padrão seria na verdade uma concessão gráfica à pronúncia alemã do “z” final. O que não se contesta de modo algum na trajetória do gaúcho Julio Kuntz (ou Kunz) Filho, nascido há exatos 120 anos, é sua excelência como goleiro, um dos maiores do futebol brasileiro em seu tempo e o primeiro fenômeno do gol do Flamengo – com o devido respeito ao pioneiro Baena, arqueiro rubro-negro na estreia futebolística do clube e dono da posição em seus dois primeiros títulos cariocas.

Dotado de agilidade e elasticidade impressionantes, Kuntz viveu o auge de sua carreira nas três temporadas completas em que defendeu o Flamengo, conquistando por duas vezes o Campeonato Carioca e outras duas o então prestigioso Torneio Início, além de vencer o Campeonato Sul-Americano de 1922 defendendo o gol da Seleção Brasileira. Mesmo que posteriormente tenha participado de outro feito histórico do futebol brasileiro – a lendária e triunfante excursão europeia do hoje extinto clube Paulistano, de Arthur Friedenreich – foi como jogador rubro-negro que o arqueiro tornou-se conhecido nacional e até internacionalmente, recebendo da imprensa argentina o apelido de “El Colosso”.

DO INTERIOR GAÚCHO À CAPITAL FEDERAL

Descendente de imigrantes alemães, Kuntz nasceu no interior gaúcho na área onde hoje fica o bairro de Hamburgo Velho, o qual daria origem mais tarde à atual cidade de Novo Hamburgo. Após iniciar a carreira no futebol local, foi para Porto Alegre em 1917 para defender o Grêmio, estreando no time principal do Tricolor em maio daquele ano. Em fins de 1919 viria para o Rio de Janeiro, então capital da República. Ao chegar, teve rápida passagem pelo gol do Silva Manoel Football Club, clube de vida curta sediado no Centro da cidade e que disputou só naquele ano o torneio da Associação Carioca de Sports Athleticos (entidade paralela à oficial Liga Metropolitana), antes de ser extinto e mais tarde refundado.

Paralelamente ao futebol e à profissão de empregado do comércio, competia pelo Flamengo em provas de atletismo pela Liga Metropolitana. Havia sido levado ao clube por um amigo que atuava pelo segundo quadro (espécie de time reserva) rubro-negro. Sua impressionante habilidade sob as traves, no entanto, só seria demostrada ao grande público no início da temporada de 1920, mais exatamente em 4 de abril, quando estreou em grande estilo pelo time de futebol do Flamengo.

Naquele dia foi disputado o Torneio Início, tradicional competição que marcava a abertura da temporada, com partidas eliminatórias de curta duração, cujo desempate era feito pelo número de escanteios. No estádio das Laranjeiras, o Flamengo fez seu primeiro jogo contra o Bangu, vencendo por 3 “córners” a 1, após empate em 0 a 0 no tempo normal. Na semifinal, o adversário foi o Mangueira, batido com tranquilidade por 3 a 0, em gols marcados ainda na etapa inicial. A decisão foi contra o São Cristóvão, derrotado por um gol de Carregal no segundo tempo.

O SURGIMENTO DO MITO

Considerado “o heróe da tarde” pelo jornal Gazeta de Notícias, o arqueiro gaúcho mereceu comentários bastante elogiosos da publicação, especialmente pela atuação na final: “A pugna foi ‘cavada’ de princípio a fim, assumindo o S. Christóvão domínio franco sobre o adversário no segundo tempo, quando Kuntz teve ensejo de se empregar com raro brilhantismo para livrar a sua cidadella de cerrados ataques, produzindo ahi difficíllimas defesas, que lhe valeram calorosos applausos da multidão. Ao keeper, que tão auspiciosa estréa fez hontem, deve o Flamengo não ter sido derrotado, aliás por um significativo score, tal foi o número de pegadas por elle praticadas e cada qual mais diffícil e mais linda”.

Assim, Kuntz era colocado como uma das armas do Flamengo para desbancar a hegemonia do Fluminense, tricampeão da cidade e que era apontado como candidato a um fabuloso tetracampeonato, enquanto os reforçados rubro-negros, juntamente com o America, eram tidos como seus maiores adversários naquela temporada. Depois de vencer bem seus dois primeiros jogos, contra o Villa Isabel e o Mangueira, o Flamengo teria pela frente dois confrontos cruciais justamente contra os tricolores, no dia 23 de maio, e os rubros, uma semana depois, ambos em seu estádio da Rua Paissandu. E o arqueiro gaúcho brilharia, sendo apontado como o melhor em campo no Fla-Flu (vencido pelo Flamengo por 2 a 1), e depois garantindo o empate em 0 a 0 com o America ao defender um pênalti cobrado por Perez.

A grande forma do início de temporada valeu a convocação para as partidas do “scratch” carioca contra os mineiros (valendo a Taça Delfim Moreira) e os paulistas (pela Taça Rodrigues Alves). No empate em 2 a 2 diante dos bandeirantes no campo da Floresta, em São Paulo, Kuntz foi o grande destaque, aplaudido entusiasticamente mesmo pelos torcedores locais. Na época, chegou-se a anunciar que as partidas também serviriam como base de observação para a formação de uma equipe que representaria o Brasil nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, no fim de agosto. Mas a Confederação Brasileira de Desportos acabou desistindo de enviar um time de futebol.

No entanto, havia outra competição importante para o “scratch” nacional em vista: o Campeonato Sul-Americano (atualmente denominado Copa América), a ser disputado em setembro no Chile, praticamente interrompendo a disputa do Campeonato Carioca por mais de um mês. No certame continental, o Brasil não fez grande campanha. Venceu apenas os donos da casa, por 1 a 0 na estreia, mas foi superado sem dificuldade nos dois jogos seguintes pelos uruguaios e argentinos, na época bem adiantados em relação aos brasileiros tanto no quesito técnico quanto em preparação. Mesmo assim, o arqueiro gaúcho deixou muito boa impressão, que seria confirmada no ano seguinte.

De volta ao Flamengo, Kuntz continuaria a colecionar grandes atuações, colaborando decisivamente na conquista invicta do Campeonato Carioca de 1920, o segundo troféu levantado pelo arqueiro no clube em sua temporada de estreia no futebol do Rio de Janeiro. O gaúcho foi vazado apenas 17 vezes nas 16 partidas em que atuou, número baixíssimo para uma época de jogo essencialmente ofensivo e de muitos gols.

O time que empatou com o Fluminense nas Laranjeiras por 2 a 2, garantindo o título invicto de 1920. Kuntz é o goleiro agachado. Os demais, da esquerda para a direita: Waldemar, Santiago, Rodrigo, Sydney Pullen, Sisson, Candiota, Junqueira, Dino, Telefone e João de Deus.

1921: BICAMPEONATO CARIOCA E CONSAGRAÇÃO INTERNACIONAL

Apesar da grande forma de seu goleiro continuar em 1921, o Flamengo teve problemas no início de sua campanha de defesa do título carioca: ao empatar em 1 a 1 com o São Cristóvão na Rua Paissandu e depois perder por 4 a 2 para o Bangu no alçapão da Rua Ferrer, o clube rubro-negro se colocou em desvantagem em relação aos principais adversários na briga pelo título. Mas aos poucos recuperaria o terreno perdido: já na terceira partida, uma goleada de 4 a 0 sobre o America recolocou a equipe nos trilhos.

Kuntz entra em ação de maneira brilhante novamente na importante vitória de 4 a 3 sobre o Fluminense nas Laranjeiras, em 29 de maio, com uma série espetacular de defesas que garantiram a vitória. Mas o Fla volta a se complicar com uma série de tropeços – entre 5 de junho e 7 de agosto, os rubro-negros empatam quatro de seus seis jogos, com uma vitória e uma derrota nas demais partidas. Num certame incrivelmente equilibrado (antes da penúltima rodada, entre os sete clubes participantes, apenas o Fluminense não tinha mais chances de título), o Flamengo precisou reagir e vencer suas duas últimas partidas (3 a 1 de virada sobre o Botafogo e 2 a 0 diante do Bangu) para terminar empatado em pontos com o America na liderança. Foi marcado então um jogo extra contra os rubros para o dia 4 de setembro, nas Laranjeiras.

O America abriu o placar num lance em que Kuntz, surpreendido por um chute do centroavante americano Chico, ainda tentou salvar, mas a bola já havia ultrapassado a linha. No entanto, o arqueiro se redimiria com algumas defesas espetaculares, incluindo uma em dois tempos após um petardo violento do mesmo Chico. O Flamengo empataria com um gol de Nonô, e venceria na prorrogação com um tento de Candiota. No fim, Kuntz lançaria mão de outro milagre para garantir o resultado, sendo aplaudido efusivamente e saudado pela imprensa como “um jogador extraordinário, de mil recursos (…), a alma do quadro rubro-negro”, como escreveu a Gazeta de Notícias. De nome firmado como o melhor goleiro do futebol carioca, Kuntz seguia incontestável no posto de titular da Seleção Brasileira que embarcaria para a Argentina disputar mais um Campeonato Sul-Americano.

O time que bateu o Bangu e se credenciou a disputar o título de 1921 com o America. Em pé: Nonô, Sydney Pullen, Dino, Candiota, Junqueira, Telefone (encoberto), Rodrigo e Orlando. Agachados: Santiago, Galvão Bueno e Kuntz.

Na estreia, contra os donos da casa, o Brasil viu-se em dificuldade desde o início: logo aos dez minutos o atacante Nonô, também do Flamengo, lesionou-se e teve que se resumir a fazer número em campo. Jogando diante de sua torcida, os platinos massacraram a defesa brasileira, mas Kuntz repelia os ataques um por um. Só não pôde evitar o gol de Libonatti, no primeiro tempo, mas registrou uma série de defesas magníficas (como um chute violento de Echeverría, aos 27 minutos), que o fizeram ser homenageado após o jogo. Conta O Paiz: “Ao terminar a partida, Kuntz foi carregado aos hombros por um conscripto e por um marinheiro, levando em suas mãos uma bandeira brasileira com que Tesorieri [arqueiro argentino] o obsequiara ao entrar em campo”.

A segunda partida seria contra os paraguaios. O Brasil venceria por 3 a 0, mas Kuntz teria trabalho, sendo acionado diversas vezes, inclusive ao defender uma finalização do médio (e futuro técnico rubro-negro) Solich quando já parecia batido, demonstrando agilidade e poder de recuperação. Novamente deixaria o campo aplaudido pela multidão. O terceiro e último jogo, entretanto, traria as piores recordações, especialmente em virtude da violência dos uruguaios e da arbitragem falha. A Celeste abriu o placar com Romano e mais tarde ampliaria num lance em que o goleiro brasileiro foi escandalosamente agarrado por Pendibene, deixando Romano novamente livre para finalizar. O Brasil ainda descontaria com Zezé, mas o resultado ficaria mesmo nos 2 a 1.

A Seleção terminaria o Sul-Americano como vice-campeã, superando uruguaios e paraguaios nos critérios de desempate, e atrás dos argentinos, que venceram as três partidas. Mas coube a Kuntz o reconhecimento maior. A imprensa platina o apelidou “El Coloso”, por suas exibições magistrais no gol brasileiro. O epíteto seria ainda utilizado para batizar um tango, composto pelo maestro Francisco Canaro em sua homenagem. Após o Sul-Americano, Kuntz embarcaria para seu Rio Grande do Sul natal, onde passaria férias. De volta ao Rio, receberia do clube uma medalha de ouro especial com o “CRF” gravado.

ENFIM, CAMPEÃO TAMBÉM COM O “SCRATCH”

A temporada de 1922 começaria para o Flamengo e para Kuntz com mais um título do Torneio Início, disputado em 26 de março. A campanha teve destaque especial pelos adversários enfrentados ao longo da campanha. Logo de saída haveria um Fla-Flu, e os rubro-negros sairiam na frente no primeiro tempo com Candiota. Na etapa final, o arqueiro gaúcho fez defesa magistral após rebater um forte chute de Welfare e, mesmo caído, chegar antes do atacante tricolor para espalmar para escanteio, impedindo o empate. No jogo seguinte, mais uma pedreira: o America, derrotado por 1 a 0, gol de Nonô.

A semifinal registraria um confronto histórico: pela primeira vez Flamengo e Vasco, os velhos rivais do remo, mediriam forças nos gramados. A partida foi muito disputada, chegando a ser violenta, em parte pela leniência do árbitro Eduardo Gibson – que, num lance, chegou a inverter um toque de mão de um jogador cruzmaltino apitando falta contra os rubro-negros. Mas o Fla marcou com Segreto, despachou o adversário, e avançou para a decisão contra o Andarahy, vencida sem dificuldade por 2 a 0. Era o quarto título oficial conquistado por Kuntz em seus três anos de clube.

O Flamengo campeão do Torneio Início de 1922. Kuntz, no chão, é o goleiro.

No Campeonato Carioca, que veio a seguir, o Flamengo brigou palmo a palmo pelo tricampeonato, mas teve o azar de perder Kuntz durante a partida contra o Fluminense disputada em 25 de junho no campo botafoguense de General Severiano e válida pelo returno. Lesionado após um choque com um jogador adversário, o goleiro teve que deixar o campo no intervalo, sendo substituído no posto pelo médio Dino. A lesão tirou o arqueiro gaúcho da partida crucial contra o America na Rua Paissandu, uma semana depois. Sem seu titular da meta, o Fla perdeu por 1 a 0. O resultado acabaria decidindo o campeonato em favor dos rubros, campeões superando o Flamengo por um ponto.

No dia 23 de julho, pela última rodada do Carioca, o Flamengo foi à Rua Ferrer e derrotou o Bangu por 3 a 2, com nova grande exibição de Kuntz. Na época não se sabia, mas aquela seria a última partida do arqueiro vestindo a camisa rubro-negra pelos próximos seis anos. Naquelas três temporadas em que o gaúcho fez parte de seu elenco, o Flamengo teve o arqueiro como titular no certame da cidade em 38 ocasiões, sofrendo apenas três derrotas. E não perdeu nenhuma vez para o Botafogo nem para o America em jogos válidos por aquele torneio.

Em setembro, como parte dos festejos do Centenário da Independência, o Brasil sediaria o Campeonato Sul-Americano daquele ano. Kuntz novamente marcaria presença, mas nas duas primeiras partidas da Seleção, contra Chile e Paraguai, o titular do gol foi o veterano Marcos Carneiro de Mendonça, do Fluminense. O time brasileiro parou em dois empates em 1 a 1. Adoecido, Marcos seria desfalque para os dois jogos finais, justamente os mais difíceis, contra uruguaios e argentinos. Havia nos bastidores a ideia de se chamar Kuntz para substituí-lo, mas, segundo o próprio arqueiro, a ele não chegou convite nenhum.

Foi mesmo por conta própria que o goleiro rubro-negro se apresentou para as duas partidas cruciais. E nelas, brilharia. Contra os uruguaios, entraria em ação várias vezes. “Vão os uruguayos ao ataque e Romano, ao receber optimo passe de Somma, emenda poderosamente. Parecia que a bola ia penetrar na rede, mas Kunz [sic] salva milagrosamente tão crítica situação com extraordinária pegada, sendo por isso alvo de acalorados applausos”, escreveu O Imparcial. Ao todo, foram impressionantes 37 defesas, entre elas uma cara a cara com o atacante Casanello, espalmada para escanteio.

Graças ao arqueiro, pela primeira vez a defesa brasileira passaria sem ser vazada. Apesar de empatar pela terceira vez em três jogos, o resultado manteria as chances da Seleção, que precisaria bater os argentinos no último jogo e aguardar os demais resultados. O Brasil venceria por 2 a 0 em jogo que dominaria as ações. Kuntz teve pouco trabalho, mas fez quatro defesas extraordinárias. Três dias depois, a derrota dos paraguaios para os argentinos provocou um tríplice empate entre Brasil, Paraguai e Uruguai. Com a desistência da Celeste, que reclamara bastante da arbitragem em seu jogo contra os guaranis, as outras duas equipes decidiriam o título em jogo extra.

Na finalíssima, Kuntz teve pouco trabalho. Ficou quase toda a partida encostado na trave, como um espectador privilegiado da vitória brasileira por 3 a 0, como descreve O Imparcial. Mas mostrou a segurança de sempre nas poucas vezes em que foi exigido. De qualquer forma, o título lhe fez justiça. Poucos jogadores da Seleção mereceram tanto aquela conquista quanto ele que, em torneios anteriores, brilhara tanto em equipes que estiveram sempre longe da taça e muitas vezes salvando o Brasil de derrotas ou goleadas mais contundentes. Agora era campeão e sem sofrer nenhum gol em suas três partidas.

Embora viesse de temporadas brilhantes, Kuntz passaria o ano de 1923 praticamente inativo. Primeiro Iberê e depois Amado, dois arqueiros jovens, ocuparam o posto de titular na equipe rubro-negra ao longo da temporada, na qual o clube terminou com o vice-campeonato carioca. Rumores de uma transferência para o Paulistano, equipe que vinha se colocando como praticamente imbatível no futebol de São Paulo, circulavam com frequência na imprensa e eram veementemente negados pelo goleiro. Curiosamente, mesmo sem atuar, ele seria convocado para a seleção carioca para a disputa do Brasileiro de seleções.

A SAÍDA DO FLA, O RETORNO E O FIM DA CARREIRA

No ano seguinte, voltaram as especulações de sua saída do Flamengo rumo ao futebol bandeirante, afinal confirmadas em março, quando se anunciou que Kuntz havia sido inscrito pelo Paulistano. Naquele mesmo ano, na capital paulista, o goleiro se casaria e passaria a tocar uma indústria de artefatos de alumínio, estabelecendo-se completamente por lá. Pelo clube, hoje extinto, Kuntz participou de uma excursão histórica do futebol brasileiro, em 1925, na qual o Paulistano viajou à Europa para enfrentar clubes e combinados franceses, suíços e portugueses, colhendo grandes resultados que repercutiram internacionalmente. Mais tarde, ainda defenderia o Ypiranga, também da capital paulista, e retornaria ao Rio em 1927, chegando a disputar amistosos pelo Vasco e a treinar no pequeno Andarahy.

Kuntz ainda voltaria ao Flamengo, já veterano para os padrões da época, disputando suas duas últimas partidas pelo clube – um amistoso contra o Vasco em 1929 e uma partida pelo Campeonato Carioca de 1931 contra o São Cristóvão – meio de improviso, quebrando galho. Mesmo assim, ainda impressionava: “A nota sensacional da tarde foi o reapparecimento de Kuntz no ‘goal’ do Flamengo. O grande arqueiro, embora destreinado, demonstrou ainda possuir grandes qualidades para a difícil posição. É um verdadeiro ‘gato’ na agilidade, sendo, pois, difícil vencê-lo”, escreveu o jornal Crítica, quando da partida contra os cruzmaltinos.

No ano seguinte ao último jogo já havia definitivamente pendurado as chuteiras, mas continuou no clube por um curto período na função de auxiliar técnico. Anos mais tarde, em 1938, ensaiaria uma volta ao esporte de modo curioso: candidatando-se ao quadro de árbitros da Liga de Football do Rio de Janeiro. Aprovado nos exames, não chegaria a se estabelecer na nova carreira. Adoecido, faleceria no fim de agosto daquele ano, dias antes de completar 41 anos de idade.