As outras vezes em que Ajax e Eintracht Frankfurt cruzaram o caminho do Fla

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Zico é o alvo da defesa do Eintracht Frankfurt no amistoso disputado em junho de 1980: parado apenas com falta.

Neste ano, o Flamengo participa pela primeira vez da Florida Cup, competição amistosa realizada nos Estados Unidos que coloca frente a frente equipes brasileiras e europeias como nos antigos torneios de verão no Velho Continente. Tanto o holandês Ajax, adversário desta quinta-feira, quanto o alemão Eintracht Frankfurt, do sábado, já mediram forças com os rubro-negros em outras ocasiões, nas quais o Mengão obteve ótimos resultados. As (boas) lembranças destes confrontos são trazidas agora em detalhes pelo Flamengo Alternativo.

AJAX

A única partida contra o Ajax foi disputada pelo Torneio de Amsterdã de 1988, no dia 5 de agosto daquele ano. A competição era um quadrangular em duas rodadas e com regulamento um tanto insólito: em vez de se cruzarem numa decisão, os vencedores da primeira série de jogos enfrentavam os perdedores da segunda, sem haver, portanto, a realização de uma final direta. Em caso de empate em pontos, o saldo de gols definiria o campeão.

Deste modo, era possível (como acabou acontecendo naquele ano) que uma equipe vencesse seus dois jogos e mesmo assim ficasse sem o título, caso tivesse saldo inferior a outra na mesma situação. Além do Flamengo e do organizador Ajax, os outros dois participantes daquela edição eram o Benfica, que havia acabado de ser finalista da Copa dos Campeões da Europa, e a Sampdoria, da então multimilionária Serie A italiana.

Manchete da página de esportes do jornal holandês De Telegraaf com a vitória rubro-negra diante do Ajax em 1988.

Rival do Flamengo logo na primeira rodada, o Ajax passava por um período de reformulação, após a saída do técnico Johan Cruyff para o Barcelona em janeiro – com vários nomes assumindo interinamente antes da chegada do alemão Kurt Linder, pouco tempo antes da partida – e a subsequente derrota para o KV Mechelen belga na decisão da Recopa europeia em maio, o que impediu seu bicampeonato no torneio, depois de ter levantado a taça no ano anterior.

Mas mesmo assim contava com grandes jogadores: quatro dos titulares naquela tarde (os meias Aron Winter, Jan Wouters e Arnold Mühren, mais o ponta-direita John Van’t Schip) haviam participado da conquista da Eurocopa pela seleção da Holanda em junho. Além deles, havia ainda outros bons nomes, de extenso histórico na seleção Laranja, como por exemplo o defensor Danny Blind, o volante Wim Jonk e os pontas Bryan Roy e Rob Witschge.

O momento do Flamengo não era muito diferente: com a perda do título carioca para o Vasco, em junho, o técnico Carlinhos foi demitido. Após uma rápida passagem do interino João Carlos Costa pelo cargo, o clube acertou em meados de mês seguinte com o paulista José Cândido Sotto Mayor, o Candinho, que dirigia a Inter de Limeira e havia desenvolvido sua carreira quase toda no futebol de seu estado natal, principalmente no interior.

O elenco também sofria mudanças: o ídolo Renato Gaúcho, um dos principais jogadores na conquista da Copa União no ano anterior, havia sido negociado com a Roma. Além dele, Andrade estava próximo do mesmo destino – e naquela partida vestiria a camisa rubro-negra pela última vez após mais de uma década de história na Gávea. Entre os reforços, o principal era o experiente meia Luvanor, revelado pelo Goiás e com passagem pelo futebol italiano.

Renato Carioca divide a jogada com o veterano Arnold Mühren.

Havia ainda o trio vindo do America, formado pelo lateral-esquerdo Paulo César, o volante Delacir e o meia-armador Renato Carioca. Os dois primeiros haviam vindo primeiro por empréstimo, para a disputa da Copa Kirin (cuja história foi contada neste post), e acabaram ficando de vez. Já o terceiro, destaque do time rubro semifinalista no Brasileirão de 1986, havia chegado depois. De resto, a mesma base campeã da Copa União, à exceção de Zico, lesionado.

Assim, naquele 5 de agosto, os rubro-negros entraram em campo com Zé Carlos no gol, Jorginho e Leonardo nas laterais, Leandro e Edinho na zaga, Andrade e Delacir na proteção do meio, Luvanor na ponta de lança, auxiliado na armação pelos falsos ponteiros Renato Carioca e Zinho, com Bebeto no comando do ataque (e Renato encostando para tabelar). Um desenho tático que se assemelhava mais à equipe campeã mundial de 1981.

E o Fla começou assustando: logo no primeiro minuto, Luvanor arrancou do meio-campo fazendo fila na defesa do Ajax, mas chutou para fora. Mais tarde, aos cinco, novamente Luvanor apareceu para concluir uma jogada tramada pela ponta direita com Bebeto e Jorginho. E aos 15, Renato desceu também pela direita, entrou na área e encobriu o goleiro Menzo, mas a bola passou a centímetros da linha. O gol rubro-negro amadurecia.

Renato Carioca chuta para marcar o gol da vitória.

O Ajax exigiria boas defesas de Zé Carlos aos 16 minutos, primeiro numa cabeçada de Willems e depois numa cobrança de falta de Wouters. Mas três minutos depois, o Flamengo seria letal num contragolpe: Luvanor recuperou uma bola na defesa e entregou a Zinho, que se livrou de Blind, arrancou e, mesmo desequilibrado, fez bom passe para Renato. O meia vindo do America arriscou um chute de longe, que bateu no montinho e enganou o goleiro Menzo. Um a zero.

Renato ainda perderia a chance de ampliar dois minutos depois ao receber outro passe de Zinho no meio da defesa holandesa, mas Menzo conseguiu bloquear seu chute à queima-roupa. O jogo seguiria bastante movimentado, com chances de parte a parte. Mas o placar não seria alterado. O Flamengo sairia vitorioso do Estádio Olímpico de Amsterdã naquela primeira rodada, aberta mais cedo com a goleada da Sampdoria sobre o Benfica por 5 a 1.

Embora vencesse também os lisboetas em seu segundo jogo por 2 a 0, o Fla não ficaria com a taça, que ficaria com os italianos após baterem o anfitrião Ajax por 3 a 0 e levarem a melhor no saldo de gols, já que não houve confronto entre os vencedores Flamengo e Sampdoria. Menos mal que os rubro-negros voltariam da excursão com um caneco, o do Troféu Colombino, disputado na Espanha, vencido dali a algumas semanas.

Flamengo: Zé Carlos – Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo – Andrade, Delacir, Luvanor – Renato Carioca (Alcindo), Bebeto, Zinho.

Ajax: Menzo – Blind, Scholten, Larsson, Verkuyl – Wouters, Winter, Mühren (Jonk) – Van’t Schip, Willems, Roy (Witschge).

EINTRACHT FRANKFURT

O outro adversário na Florida Cup já cruzou o caminho rubro-negro em duas ocasiões. Embora separadas por quase três décadas, ambas as partidas tinham em comum um Flamengo vindo de momento vitorioso. Em 1954, o Fla havia levantado em janeiro o título carioca do ano anterior, três meses antes de enfrentar o Eintracht Frankfurt numa excursão à Europa. Já em 1980, o duelo aconteceu apenas seis dias depois da primeira conquista do Brasileirão.

A primeira partida foi realizada em 11 de abril de 1954. Foi o primeiro jogo do Flamengo em solo alemão e o segundo jogo de uma longa excursão à Europa que durou cerca de 40 dias e se desenrolou principalmente naquele país, mas também pela Itália (onde começou, com o Fla enfrentando um combinado Milan-Inter), Hungria e Áustria. Durante todo aquele período, o elenco teve como desfalques Dequinha, Rubens e Índio, que serviam à Seleção Brasileira.

Naquele tempo, o campeonato da Alemanha Ocidental era regionalizado, e o Eintracht, naquela temporada 1953-54, havia terminado em segundo na recém-encerrada Oberliga-Süd, atrás do Stuttgart. Classificaria-se para a fase final (nacional) do certame, a ser disputada dali a algumas semanas, mas o título ficaria com o Hannover. O principal nome daquele time dos Águias – e que estava em campo contra o Fla – era o meia-esquerda Alfred Pfaff, da seleção.

A equipe rubro-negra, por sua vez, apresentou-se bastante modificada em relação ao time-base que havia vencido o Campeonato Carioca. Além de não contar com o já citado trio da Seleção Brasileira (substituídos por Jadir, Evaristo e Zezinho), o Flamengo também não teve em campo naquele dia o goleiro paraguaio Garcia e o ponteiro Esquerdinha. O argentino Chamorro vestiu a camisa 1 enquanto o jovem Zagallo entrou no ataque.

O jogo foi prejudicado tecnicamente pelo péssimo estado do gramado do local do jogo, mas ainda assim a qualidade do toque de bola rubro-negro impressionou o público e a imprensa locais. O primeiro tempo terminou sem gols, mas no início da etapa final, aos 13 minutos, o Flamengo abriria o placar: num rápido deslocamento, a bola passou de Evaristo para Benítez e do paraguaio para Zezinho, que só empurrou para as redes.

Logo depois, no entanto, o time de Fleitas Solich começou a ceder o controle do jogo à equipe local, que criou inúmeras chances de marcar. Só acabaria concretizando, porém, já perto do último minuto, através do centroavante Richard Kress. O empate em 1 a 1 acabou sendo justo pela alternância no domínio das ações ao longo da partida.

Flamengo: Chamorro – Marinho, Pavão, Servílio, Jordan – Jadir (Tomires), Evaristo – Joel (Paulinho), Zezinho, Benítez, Zagallo (Maurício).

Eintracht Frankfurt: Henig – Bechtold, Kudrass – Remlein, Wloka, Heilig – Dziwoki, Weilbächer (Krömmelbein), Kress, Pfaff, Höfer

* * * * *

O segundo jogo, pouco mais de 26 anos depois, foi a atração principal de uma grande festa que comemorava o aniversário da cidade de Frankfurt e também o título da Copa da Uefa conquistado pelo Eintracht havia cerca de duas semanas. O time alemão, no entanto, poupou alguns de seus titulares, embora levasse a campo nomes experientes como o meia-atacante Bernd Hölzenbein, campeão da Copa do Mundo de 1974 com a seleção alemã.

O Flamengo, recém-proclamado campeão brasileiro após bater o Atlético-MG, também teve problemas pela frente: embora entrasse em campo com praticamente os mesmos titulares da decisão do Brasileirão (apenas o goleiro Raul era desfalque, substituído por Cantarele), a equipe encarou longuíssima viagem de avião até a Alemanha Ocidental e, na hora do jogo, teve que driblar ainda um frio de 7 graus e um campo completamente encharcado.

Zico bate pênalti e inicia a reação do Flamengo.

Enquanto o time ainda se ambientava em campo, o Eintracht abriu o placar: aos três minutos, após um lançamento de Nickel, Nachtweih ganhou a disputa com Toninho e bateu sem chances para Cantarele. O empate do Fla também não tardou: aos 11 minutos, Zico entrou driblando na área até ser derrubado por Körbel. O próprio Galinho cobrou deslocando o goleiro Funk e igualou a contagem. O placar não voltaria a ser movimentado na primeira etapa.

Na segunda, porém, o Flamengo voltou disposto a matar o jogo: Nunes perdeu boa chance logo de saída, mas se recuperou marcando o segundo gol aos três minutos, após um belo drible em Trapp. Já no fim, aos 41, a vantagem seria aumentada quando Andrade pegou o rebote de uma confusão na área alemã e chutou forte, de longa distância, para fechar em 3 a 1 para o Flamengo, que ainda criou chances para golear antes do apito final.

Flamengo: Cantarele – Toninho, Manguito, Marinho, Júnior – Andrade, Carpegiani, Zico – Tita, Nunes, Júlio César (Adílio).

Eintracht: Funk – Trapp – Neuberger, Körbel, Ehrmantraut – Lottermann (Zick), Lorant (Peukert), Nickel, Hölzenbein (Künast) – Nachtweih, Otto.

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Os 80 anos de Cláudio Coutinho, o técnico que revolucionou o futebol do Flamengo

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Propositor do estilo de jogo técnico, ofensivo e repleto de conceitos táticos inovadores que levaram o Flamengo a um tricampeonato carioca e ao seu primeiro título nacional, na virada da década de 1970 para a de 1980, Cláudio Coutinho completaria 80 anos neste sábado. O legado do treinador, no entanto, extrapola seu período no comando do clube: foi sob a inspiração de suas ideias que o time subiria outros degraus até o título mundial.

Além das fronteiras cariocas, o trabalho de Coutinho é conhecido quase só por seu período à frente da Seleção, no qual sempre recebeu críticas (em especial da imprensa) de “engessar” o estilo de jogo intuitivo brasileiro em esquemas, de tentar torna-lo “europeu” ao máximo. Até mesmo de burocratiza-lo. Mesmo o fundamental e incensado “A Pirâmide Invertida”, do inglês Jonathan Wilson, reserva pouco espaço (e algum desdém) ao técnico, citado apenas por seu trabalho na Seleção Brasileira como preparador físico e treinador.

Num momento em que tanto se comenta o atraso tático do futebol brasileiro em relação não só ao europeu como até aos vizinhos sul-americanos, é até irônico observar a imagem que ficou de um dos maiores estudiosos do futebol no país. De um treinador que observou muitas vezes “in loco” o contexto mundial do jogo e levou a cabo as ideias que extraiu dele dentro da estrutura ainda mais conservadora do esporte no país naquele momento, em que “teórico” era um epíteto não muito abonador a um treinador de futebol.

Coutinho também morreu jovem, o que o impediu de – décadas depois, com a poeira baixada, os ânimos menos exaltados e sob a luz de um outro enfoque histórico – expor seus motivos, esclarecer temas espinhosos, reconhecer equívocos e reparar injustiças. Quanto à Seleção, é claro. No caso do Flamengo, não há nada a ser explicado. Trata-se de um dos maiores treinadores rubro-negros em todos os tempos e do grande formatador do esquadrão mais vitorioso na história do clube da Gávea, onde seu prestígio sempre foi e segue intocável.

O INÍCIO

Nascido na cidade gaúcha de Dom Pedrito (próxima à fronteira uruguaia) em 5 de janeiro de 1939, mas criado no Rio de Janeiro desde os quatro anos de idade, Coutinho sempre fora apaixonado por esportes. Sua história no Flamengo, clube de seu coração, começou como jogador de vôlei, sendo tricampeão carioca da modalidade entre 1959 e 1961. Na mesma época, iniciou sua carreira militar, pela qual se graduou em Educação Física em 1965 e trabalhou seis anos como instrutor de futebol e vôlei na Escola de Educação Física do Exército.

Seu salto de projeção viria no fim da década: fluente em cinco idiomas, entre eles o francês, seria indicado como representante num congresso de medicina esportiva na França, onde conheceria Kenneth Cooper, que vinha trabalhando num método revolucionário de preparação física. Da amizade entre os dois, surgiria o convite para um estágio de um ano na NASA, onde Cooper trabalhava. De lá, Coutinho voltaria com uma vaga na comissão técnica da Seleção Brasileira de futebol, que se prepararia para a Copa do Mundo do México.

Em gramados mexicanos, o time brasileiro voaria do ponto de vista do condicionamento físico, mesmo com a temida altitude, e complementando as invejáveis qualidades técnicas de jogadores como Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e Rivelino. Coutinho, porém, não se limitava à preparação física: ainda na primeira metade dos anos 70, ao afastar-se inteiramente da carreira militar, acumularia passagens como supervisor na própria Seleção Brasileira (durante aquela Copa), no Vasco, no Botafogo e até no Olympique de Marselha e treinaria a seleção peruana.

Em 1976, receberia de última hora uma missão especial: dirigir a Seleção Brasileira olímpica nos Jogos de Montreal, depois que Zizinho se desentendera com dirigentes da CBD e deixara o cargo. O Brasil nunca havia feito bons papeis no torneio olímpico de futebol, mesmo tendo contado com bons jogadores. Desta vez, havia o goleiro Carlos (Ponte Preta), o zagueiro Edinho (Fluminense), o volante Batista (Internacional) e dois do Flamengo: o lateral-esquerdo Júnior e o ponta Júlio César “Uri Geller”.

Com Coutinho, a Seleção conseguiu seu melhor resultado até então: chegou às semifinais, mas parou nas fortes seleções do bloco socialista, que levavam o que tinham de melhor. O time perdeu para a Polônia de Lato, Deyna e Szarmach e em seguida terminou em quarto, ao também cair na decisão do bronze para a União Soviética de Oleg Blokhin. Mas o bom desempenho do time renderia frutos ao treinador dentro de pouco tempo.

Em setembro de 1976, o Flamengo havia acabado de demitir o técnico Carlos Froner, após quase um ano no cargo. Para o posto, tentou Zagallo, que não conseguiu se desvencilhar de um contrato no Kuwait. Tentou Oswaldo Brandão, técnico da Seleção principal, mas não conseguiu a liberação por parte da CBD. A entidade, porém, fez uma contraproposta: “emprestaria” ao clube, até o fim do ano, o treinador das equipes de base, Cláudio Coutinho.

Consultado pelos dirigentes rubro-negros, Júnior, que havia trabalhado com Coutinho nos Jogos Olímpicos, deu seu aval: era um treinador jovem – 37 anos – e cheio de ideias novas, ainda sem a mesma experiência de outros nomes, mas ideal para um trabalho de médio ou longo prazo. Algumas de suas ideias e conceitos, burilados por suas obcecadas leituras e observações do futebol europeu de então, eram explicadas pelo treinador em entrevista ao Jornal do Brasil, sua primeira após assumir o cargo na Gávea. Entre outras coisas, afirmava:

“É preciso que algum clube comece a atuar de uma forma mais moderna para que os outros sejam forçados a mudar. O problema é que ninguém quer ser o primeiro. Por isso passamos algum tempo estagnados. No futebol de hoje, tem que haver uma participação total, durante os 90 minutos, quase como no basquete. O jogador que chuta em gol deve ajudar imediatamente na marcação, e vice-versa. Passou a época do jogador que só ataca ou só defende”.

Coutinho estreou no comando do Flamengo em 12 de setembro, numa boa vitória de 3 a 0 sobre o Sport no Maracanã pelo Brasileirão, mesmo sem contar com Zico (lesionado) e Luisinho Lemos (suspenso). Partindo de um 4-3-3 básico, fez alterações sutis no posicionamento da defesa – com Jayme atuando na sobra, como uma espécie de líbero, enquanto Rondinelli ia para o combate – e pediu ao trio de meio-campo para se aproximar mais do ataque.

Aos poucos, graças à sua facilidade no diálogo sempre aberto com os jogadores, o time assimilaria suas ideias. Faria ótima campanha na competição (a segunda melhor na soma de todas as fases), mas ficaria de fora das semifinais por um ponto. O início promissor motivou o clube, passando por mudanças administrativas profundas, a contratá-lo em definitivo na virada do ano. Mas uma grande ironia despontava no horizonte. “Emprestado” pela Seleção ao Flamengo em 1976, o treinador logo se veria na situação inversa.

A CHEGADA À SELEÇÃO: SURPRESA, NOVIDADES E POLÊMICAS

Em 26 de fevereiro de 1977, Oswaldo Brandão anunciava sua saída do comando da Seleção, em meio a uma crise técnica – agravada pelo empate em 0 a 0 com a Colômbia em Bogotá na estreia das Eliminatórias da Copa do Mundo, considerado desastroso – e de relacionamento com os atletas. Heleno Nunes, presidente da CBD, nem titubeou: convidou imediatamente Coutinho para o posto, inicialmente em regime temporário, visando motivar os jogadores para o segundo jogo contra o adversário, no início de março, agora no Maracanã.

Coutinho com Brandão, seu antecessor na Seleção Brasileira.

A atuação na goleada de 6 a 0 sobre os colombianos, obtida com dois gols de Roberto Dinamite, dois de Marinho Chagas, um de Zico e um de Rivelino, refletiu muitas diferenças entre o estilo dos dois treinadores: o time estático, antiquado taticamente e ofensivamente hesitante de Brandão deu lugar a uma equipe de muita movimentação e troca de posições, especialmente no meio-campo, abafando a saída de bola do adversário e com bastante apoio pelos lados.

Contratado pela CBD em princípio só até o fim da primeira etapa das Eliminatórias, Coutinho mantinha seu posto no Flamengo, comandando o time também durante todo o Campeonato Carioca de 1977. O Vasco, porém, foi um adversário quase imbatível naquele torneio e, depois de conquistar o primeiro turno, levantou também o segundo – e o título de forma direta – no fim de setembro, após derrotar o Fla nos pênaltis em jogo extra.

A partir de então, passou a ser exclusivo da CBD, com Jaime Valente, ex-zagueiro rubro-negro dos anos 60, assumindo o posto em caráter definitivo na Gávea e dirigindo a equipe no Brasileiro daquele ano, que se estendeu até março de 1978. Em seguida, Jaime acabou recebendo proposta do futebol árabe, passando o cargo para outro ex-jogador rubro-negro, Joubert, que foi o responsável pela condução do time durante o turbulento Brasileiro de 1978.

Enquanto isso, Coutinho enfrentava período igualmente turbulento na Seleção, criticado por suas escolhas, por suas inovações e até por seu vocabulário. A imprensa, em especial a paulista, fazia piada de expressões como “overlapping” (que nada mais era do que a passagem do lateral no apoio pelo corredor aberto quando os pontas fechavam pelo meio), ”ponto futuro” (ou, o local onde o jogador deveria estar para receber a bola num lançamento) e “polivalente” (atribuída ao atleta versátil, capaz de executar mais de uma função em campo).

Enquanto era acusado de tolher a criatividade do futebol brasileiro com esquemas táticos e de sucumbir a pressões dos altos escalões da CBD na escalação do time, Coutinho viu a Seleção começar mal no Mundial da Argentina, mas se recuperar ao longo da competição, ainda que sem chegar a mostrar um futebol vistoso – raro naquela Copa como um todo, aliás. Só que o título ficou com os donos da casa, em meio a suspeitas.

Na última rodada da segunda fase, disputada em formato de grupos, o Brasil bateu a Polônia por 3 a 1 e aguardou o jogo da Argentina com o Peru, marcado para horas depois. A Albiceleste precisava vencer por quatro gols de diferença para avançar e, num jogo sobre o qual muito ainda se fala, goleou por 6 a 0, passando à final. Depois da vitória sobre a Itália por 2 a 1 que deu ao Brasil o terceiro lugar, um irritado Coutinho defendeu sua equipe lançando outra expressão que marcaria sua passagem pela Seleção: “Nós somos os campeões morais desta Copa”.

DEPOIS DAS CRÍTICAS, A AFIRMAÇÃO

A frase não repercutiu bem nem entre a imprensa nem entre a torcida brasileiras. Ao retornar da Copa, o treinador voltaria ao Flamengo, onde reconstruiria sua reputação. Manteve muitas de suas convicções táticas, mas reformulou algumas e abdicou de outras (como a utilização de laterais ofensivos nas pontas). Esta segunda parte de sua passagem no comando rubro-negro seria a mais bem-sucedida de sua carreira. Nela, faria história.

Das ideias táticas que fervilhavam na cabeça do treinador, algumas tinham outras modalidades como inspiração. O boxe, por exemplo. Para ele, a equipe deveria pressionar o adversário desde o início e tentar definir a partida o quanto antes, de modo a não possibilitar uma reação. “Se você acerta um soco no cara, tenta o segundo, o terceiro, para derrubar logo. Se esperar que ele se recupere, pode levar um daqui a pouco. Fez um gol, massacra para fazer outros e resolver logo o jogo”, explicou Zico no livro “1981”, de André Rocha e Mauro Beting.

O basquete também moldava a filosofia de jogo de Coutinho, que gostava de times agrupados, compactos, criativos, com as linhas de marcação alta e que trabalhassem a bola com paciência. Quando a jogada tentada por uma das pontas não se concretizava, a ordem era voltar a bola até a defesa e recomeçar a saída pelo outro lado. Nada de tentar alçar bolas na área infindavelmente a esmo. Para isso, é claro, era necessário o domínio completo dos fundamentos, algo também exigido e apurado cotidianamente pelo treinador.

“Coutinho pregava que os fundamentos do futebol tinham que ser exercitados diariamente, porque todo dia o jogador iria usá-los quando fosse tocar na bola. Não importava qual treinamento, tático, técnico ou coletivo. Em todos eles, teríamos de colocar em prática passes, chutes, cabeçada, domínio de bola, criatividade”, relembra Júnior no mesmo livro. Assim, bastou apenas uma excursão à Europa, em agosto de 1978, para que o time rubro-negro chegasse na ponta dos cascos para a disputa do Campeonato Carioca.

O Flamengo repetiu o que o Vasco havia feito no ano anterior e venceu os dois turnos, sagrando-se campeão sem a necessidade de finais. No primeiro, que valia a Taça Guanabara, liderou de ponta a ponta e faturou o caneco mesmo perdendo o Fla-Flu da última rodada. No segundo, somou dez vitórias e apenas um empate em 11 jogos, superando o Vasco na última rodada por 1 a 0, com o gol histórico de Rondinelli, encerrando quatro anos de frustrações.

O ANO DERRADEIRO NA SELEÇÃO

Coutinho também seguiu seu trabalho na Seleção em 1979. E iniciaria um processo de renovação muitas vezes esquecido ou ignorado. Em maio daquele ano, quando o escrete entrou em campo para seu primeiro jogo oficial desde a Copa, lá estava um quarteto de estreantes que se firmaria no time pelos anos seguintes: o rubro-negro Júnior, Falcão, Sócrates e Éder. O Brasil arrasou Paraguai, Uruguai e o Ajax holandês em amistosos que valeriam como preparação para a Copa América daquele ano, disputada sem sede fixa, em jogos de ida e volta e por vários meses.

No torneio sul-americano, a Seleção avançou na primeira fase num grupo em que também estava a campeã do mundo Argentina, que apresentava um novato chamado Diego Maradona, e a Bolívia, que mandou seus jogos na altitude de La Paz. No entanto, nas semifinais contra o Paraguai, o time perdeu Zico – na época fora de ação após se lesionar num jogo do Fla contra o Goytacaz pelo Carioca – e acabou eliminada.

Os guaranis avançariam à final e conquistariam a Copa América pela segunda vez em sua história. Cláudio Coutinho, por sua vez, deixaria de vez o comando da Seleção em fevereiro do ano seguinte, quando o novo presidente da recém-criada CBF, Giulite Coutinho, anunciou Telê Santana para o cargo.

TRI ESTADUAL COM O FLA

O ano de 1979, no qual ocorreria a muito protelada fusão das federações carioca e fluminense de futebol, também foi marcado pela divergência entre os clubes grandes e pequenos sobre quantas e quais equipes disputariam o estadual daquele ano, e o que levou, no fim das contas, à disputa de dois torneios num mesmo ano. Se não faltou bagunça fora de campo, também sobrou bola ao Flamengo, que levantou os dois títulos de modo inquestionável.

Com o presidente Márcio Braga, comemorando mais um título carioca.

No primeiro, denominado “Campeonato Especial”, com 10 clubes jogando turno e returno entre fevereiro e abril, o Fla repetiu o que havia feito em 1978: venceu as duas etapas e foi campeão direto, sem finais. E com um bônus: o título veio de forma invicta (o primeiro de um time carioca na era Maracanã), com 13 vitórias e cinco empates. Já o segundo, que ficou conhecido como “Estadual” e disputado entre maio e o início de novembro, foi mastodôntico.

Dividido em três turnos, contou com 18 equipes jogando o primeiro deles (que valeu a Taça Guanabara), dez no segundo (com os oito piores jogando uma repescagem em paralelo) e oito no terceiro. Novamente, o Flamengo conquistou os três turnos mesmo perdendo Zico – que então já havia marcado impressionantes 60 gols em 43 jogos, somando os dois campeonatos – por mais de um turno inteiro, com a lesão sofrida contra o Goytacaz.

Como se não bastasse o excesso de jogos nos dois torneios, a agenda do Fla também andava cheia pelos amistosos e excursões marcados para aquele período. Em uma delas, à Espanha, o time de Coutinho brilhou na conquista do Torneio Ramón de Carranza. O adversário na estreia seria o Barcelona, que acabara de vencer a Recopa europeia e contava com nomes como Asensi, Migueli e Rexach, além do goleador austríaco Hans Krankl e do talentoso meia dinamarquês Allan Simonsen.

Pelo lado do Flamengo, havia outra preocupação: o desgaste físico e psicológico. Na quinta-feira à noite, cinco atletas (Toninho, Júnior, Carpegiani, Zico e Tita), além do próprio técnico Cláudio Coutinho, estavam em Buenos Aires, onde participaram do empate em 2 a 2 com a Argentina pela Copa América. De lá, o grupo pegou um voo de 20 horas de duração até Cádiz, chegando à cidade espanhola na tarde de sábado, horas antes da estreia.

Quando a bola rolou, o cansaço foi deixado de lado e o que se viu foi um domínio completo do Flamengo, que marcou duas vezes ainda no primeiro tempo, criou chances para golear e até ensaiou um olé, antes de o Barça descontar no fim. O time de Coutinho saiu de campo aplaudido de pé e aclamado pela imprensa espanhola. No dia seguinte, com direito a gol relâmpago, abrindo o placar na saída de bola, o Fla bateu os húngaros do Ujpest por 2 a 0 e levantou a taça.

Passo seguinte para a confirmação do poderio daquela equipe, o título brasileiro teve que ser adiado. Na espremida e caótica edição de 1979, o time vinha fazendo boa campanha, mas acabou eliminado antes das semifinais pelo Palmeiras de Telê Santana, que veio ao Maracanã precisando do empate, mas saiu com algo ainda melhor, com uma goleada de 4 a 1 que ficaria atravessada nas gargantas rubro-negras. Porém, não por muito tempo.

ENTRANDO PARA A ETERNIDADE

No ano seguinte, a primeira conquista do Brasileiro finalmente chegaria e com direito a uma saborosa revanche diante de um Alviverde que repetia dez dos 11 jogadores da vitória de quatro meses antes e, por ironia, estreava o velho Oswaldo Brandão no comando. Mordido, o Fla chegou a abrir 5 a 0, antes do Palmeiras descontar duas vezes. Mas Nunes, o novo camisa 9 da equipe no lugar de Cláudio Adão, ainda deixaria o seu para fechar a goleada histórica em 6 a 2.

O Fla, que estreara no campeonato batendo o Santos no Morumbi e também já havia vencido o tricampeão Internacional no Maracanã, eliminou um ótimo time do Coritiba nas semifinais antes de decidir o título numa final épica com o Atlético Mineiro. E Nunes, trazido por indicação de Coutinho depois da tentativa malsucedida de repatriar Roberto Dinamite (então no Barcelona), seria o autor do gol que daria o pontapé inicial à escalada para conquistar o mundo.

Após o título brasileiro, o Flamengo ainda levantaria a Taça Guanabara (naquele ano, novamente disputada como um torneio à parte do Estadual) e voltaria a excursionar pela Europa, voltando com mais algumas taças, entre elas o bi do Ramón de Carranza. Mas, sucumbindo ao cansaço, à pressão para manter o ritmo de vitórias e até a uma certa dose de autossuficiência, o time perdeu o tetra carioca e entrou em crise. Estafado, Coutinho deixou o comando, seguindo para o Los Angeles Aztecs.

No primeiro semestre de 1981, o Flamengo ainda enfrentaria turbulências, comandado pelo antigo ídolo Modesto Bria e mais tarde por Dino Sani. Mas voltaria a reencontrar o caminho das conquistas com a ascensão de Paulo César Carpegiani – capitão e organizador do time nos tempos de Coutinho – ao cargo. Ainda que com alterações pontuais em nomes e na formatação do setor ofensivo, a equipe que conquistaria o mundo ao fim daquele ano preservava essencialmente a filosofia de jogo do time de Coutinho.

No fim de novembro, no desembarque da delegação rubro-negra no Rio após a conquista da Libertadores, Coutinho – que havia acabado de assinar contrato para treinar o Al Hilal, da Arábia Saudita – encontrou por acaso seus ex-comandados no aeroporto do Galeão e vaticinou: “Agora só falta o Mundial”. O treinador, porém, não chegaria a ver o time que criou alcançar o topo do planeta. Três dias depois, morreria no mar de Ipanema, aos 42 anos.

Na manhã daquele dia 27, Coutinho saíra para praticar outro de seus esportes favoritos: a pesca submarina. Havia prometido trazer um peixe para um jantar com amigos, entre eles Júnior. Mergulhava em apneia, ou seja, sem a ajuda de cilindros de oxigênio. Quando conseguiu arpoar uma garoupa, não percebeu que o ar inspirado na superfície se transformara em gás carbônico em seu corpo. Perdeu os sentidos e se afogou. Morreu sem sentir.

A notícia caiu como uma bomba entre jogadores, dirigentes e comissão técnica do Flamengo, que se preparava para disputar a decisão do Estadual contra o Vasco, a começar dentro de dois dias. Carpegiani, trazido pelo treinador à Gávea em 1977, chorou convulsivamente. Entre os jogadores, o clima era de incredulidade geral. O clube decretou luto oficial de três dias. A morte, porém, não comoveu apenas os rubro-negros, mas o futebol brasileiro como um todo.

“Sempre recebi as maiores atenções do Coutinho. Inclusive, ele me colocou à disposição o seu arquivo sobre futebol internacional e me prestou todas as informações sobre a Seleção Brasileira, quando o substituí”, lembrou Telê Santana. Então goleiro do Grêmio, Leão comentou: “Acho que o futebol brasileiro pode ser dividido em duas etapas. Antes e depois de Cláudio Coutinho. Ele foi um treinador que viu muito além daquilo que se julga comum”.

Ao velório, realizado na antiga sede do Flamengo no Morro da Viúva, estiveram presentes colegas treinadores como Carlos Alberto Silva e Oswaldo Brandão, que viera de São Paulo especialmente para se despedir. Milhares de torcedores rubro-negros seguiram o cortejo até o cemitério do Caju, onde Coutinho foi enterrado com a bandeira do clube. A torcida que melhor o compreendeu não lhe poupou carinho e emoção na despedida.

Há 40 anos, gol de Rondinelli mudava o curso da história rubro-negra

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Após a cabeçada, Rondinelli assiste à bola tocar o fundo das redes e parte para o abraço: fim da agonia e afirmação de uma geração.

Para muitos torcedores rubro-negros, Zico incluso, aquele foi o gol do Flamengo mais arrepiante já testemunhado. A conquista também é considerada o verdadeiro “big bang” da geração mais vitoriosa do clube, que partiria dali para o topo do mundo. Reafirmou talentos, fez justiça a craques, enterrou traumas. A cabeçada do zagueiro Rondinelli, que decretou a vitória por 1 a 0 sobre o Vasco aos 42 minutos do segundo tempo e deu ao clube da Gávea o título carioca de 1978, entrou para a história do futebol brasileiro há exatos 40 anos.

Tempos de angústia

Maracanã, dezembro de 1974. Com um time repleto de garotos, o Flamengo levanta o título carioca segurando um matreiro e tarimbado Vasco (campeão brasileiro quatro meses antes) e apresenta geração promissora. No elenco, titulares durante toda a campanha ou em parte dela, estão o goleiro Cantarele, o lateral-direito Junior, os zagueiros Rondinelli e Jaime, o meia Geraldo e o ponta-de-lança Zico. Todos com idades em torno dos 20 anos.

O time campeão de 1974: equipe jovem e promissora.

Com os meninos comandados pelo técnico Joubert – ele próprio, ex-lateral criado no clube – há a expectativa de que o Flamengo já tenha um bom time para os próximos cinco, dez anos. Mas o que se segue começa a incomodar. No ano seguinte, sem ganhar nenhum dos três turnos do Carioca, o time fica afastado das finais. No Brasileiro, engrena na reta final e chega a liderar seu grupo, à frente do Internacional, faltando uma rodada para as semifinais. O adversário é o Santa Cruz no Maracanã. O time joga pelo empate. Mas perde por 3 a 1 e é desclassificado.

O ano de 1976 é ainda mais frustrante. O Flamengo decide a Taça Guanabara em jogo extra com o Vasco, mas perde nos pênaltis. No segundo turno, o título fica com o Botafogo. E o terceiro, disputado cabeça a cabeça com o Fluminense, vai para os tricolores. O Fla é o segundo na soma total de pontos. Mas fica de fora do quadrangular final. O mesmo se repete no Brasileiro. Só o Inter, futuro campeão, faz mais pontos que o Fla. Mas os rubro-negros não vão às semifinais.

Nesse mesmo ano, um outro drama calou muito mais fundo no peito dos rubro-negros, jogadores e torcedores: a morte precoce do meia Geraldo, vitimado por um choque anafilático durante uma simples cirurgia de retirada das amígdalas no fim de agosto, aos 22 anos. A perda do armador de futebol refinado, que desfilava uma classe exuberante em campo, e que chegara à Seleção antes mesmo de Zico, mergulhou tudo num luto que custaria a ser superado.

Chega 1977, e uma nova diretoria é empossada. A chapa Frente Ampla pelo Flamengo (FAF) elege o tabelião Márcio Braga como presidente do clube e inicia uma grande reformulação na gestão do futebol do clube. Valoriza a base e complementa com reforços pontuais, como o lateral Carlos Alberto Torres, o meia Paulo César Carpegiani, o ponta Osni e o centroavante Cláudio Adão, mas o time volta a viver o drama de perder um jogo decisivo nos pênaltis para o Vasco no Carioca. No Brasileiro, após bom começo, o time de novo naufraga antes das semifinais.

A campanha do Brasileiro de 1978, que vem logo a seguir, é medíocre do começo ao fim. Sem contar com Zico – preparando-se para a Copa do Mundo da Argentina com a Seleção Brasileira – durante todo o torneio, o Fla se perde em meio a um elenco inchado, mas muito desnivelado. A necessidade de parar, refletir e mudar muita coisa é urgente. Zico, às voltas com lesões, retorna com a moral em baixa da Copa do Mundo. Mas não menos que o técnico da Seleção, o gaúcho Cláudio Coutinho, também treinador licenciado do Fla.

Um treinador em busca de reconhecimento

Coutinho já contava com um bom currículo no futebol. Integrante da aclamada equipe de preparação física da Seleção campeã do mundo em 1970, era um dos maiores peritos brasileiros no assunto, inclusive com estágio na Nasa. Trabalhara ainda como supervisor no Vasco, no Botafogo e no Olympique de Marselha, dirigira a seleção peruana e também assumira, de última hora, o comando da Seleção Brasileira olímpica nos Jogos de Montreal em 1976. Logo depois do torneio, recebeu o convite para substituir o também gaúcho Carlos Froner no Flamengo.

Estudioso dos esportes, Coutinho viu no Fla um terreno interessante para experimentar suas ideias táticas. Fluente em cinco idiomas, participara de congressos no exterior e conhecera de perto muitas das novidades europeias. Embora não conquistasse títulos num primeiro momento, o estilo aplicado no Flamengo de jogo ofensivo com ideias pouco usuais no futebol brasileiro de então agradava. E ele acabaria chamado para treinar de novo na Seleção Brasileira, mas agora a principal, no lugar do veterano Oswaldo Brandão, demitido no começo de 1977.

Coutinho com Brandão, seu antecessor na Seleção: novas ideias.

Após uma breve trégua inicial, Coutinho começou a ser bombardeado pela imprensa esportiva, em especial a paulista. Era criticado por suas novidades táticas tidas como invencionice, pelo que se considerava uma falta de critério nas convocações e escalações e até por seu vocabulário. De fato, o Brasil apresentou um futebol um tanto engessado em meio a um Mundial onde o brilho, de um modo geral, andou em falta. E, para piorar, o treinador deu mostras de falta de pulso, ao acatar todo tipo de interferências em seu trabalho.

Copa do Mundo encerrada, o Flamengo iniciou sua reconstrução. Aparou arestas, enxugou o elenco, trouxe reforços pontuais – o mais expressivo deles era o experiente goleiro Raul, que então já planejava sua aposentadoria – e embarcou para a Europa, onde disputaria os prestigiosos torneios de verão no continente. Mesmo sem Zico, ainda se recuperando de um estiramento sofrido no Mundial da Argentina, cumpriu ótimas atuações e levantou o Torneio Ciutat de Palma, em Palma de Mallorca em uma atuação épica, antológica, diante do Real Madrid.

Na Europa, uma conquista encorajadora

No acanhado estádio Lluís Sitjar, o Flamengo abriu 2 a 0 no campeão espanhol ainda no primeiro tempo, com gols de Cláudio Adão e do meia-atacante Cléber. Até que o árbitro Alsocúa Sanz começou a aprontar contra o Fla. Marcou impedimentos inexistentes, inverteu faltas e, na etapa final, apitou pênalti duvidoso de Raul em Aguilar (convertido pelo próprio atacante merengue) e expulsou, por reclamação, o lateral Toninho e os atacantes Cléber e Eli Carlos, mais o técnico Cláudio Coutinho, o supervisor Domingo Bosco e todo o banco de reservas rubro-negro.

Com apenas oito homens em campo contra os 11 do Real Madrid, o Fla ainda viu o árbitro esticar o segundo tempo até os 50 minutos, prática incomum na época. No último lance, Juanito conseguiu superar Raul com um toque de cobertura. Mas Cláudio Adão surgiu para salvar o empate em cima da linha. Alsocúa Sanz apitou o fim do jogo, e o estádio inteiro, que já se virara a favor do Flamengo, aplaudiu de pé, assim como fez a imprensa espanhola. A atuação memorável dava motivos para acreditar que as coisas seriam diferentes naquele ano.

Logo a seguir começaria o Campeonato Carioca – aliás, o último realmente “carioca”. Embora a fusão dos antigos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara tivesse acontecido no início de 1975, no futebol ela ainda não havia se concretizado: havia duas federações e dois campeonatos que corriam em paralelo. Em 1976 e 1977, porém, três clubes do interior (os campistas Americano, Goytacaz e o recém-criado Volta Redonda) haviam disputado o campeonato da capital como convidados. O que não se repetiria em 1978.

O Conselho Nacional do Desporto (CND) obrigou a fusão das federações (e dos torneios). Antes disso, no entanto, seriam disputados os últimos campeonatos, que valeriam também como classificatórios para o primeiro estadual “unificado” a ser disputado em 1979. O Carioca começou então com os 12 times da capital e tinha o Vasco, atual campeão, apontado como grande favorito. Os cruzmaltinos haviam perdido o meia Zanata e o ponteiro Dirceu, vendidos ao futebol mexicano. Mas se reforçaram trazendo do Palmeiras o goleiro Leão.

Embora terminasse de desmantelar o que sobrara da Máquina bicampeã carioca em 1975 e 1976 com a venda de Rivelino ao futebol árabe, o Fluminense também havia investido alto para trazer a dupla Nunes e Fumanchu, do Santa Cruz. O Botafogo, embora em atrito constante com o ponta Paulo Cézar Caju, também tinha uma equipe de respeito. Havia ainda o America, com um bom time, azeitado e sempre perigoso. Entre os pequenos, as atenções se voltavam para o São Cristóvão, que firmara um convênio com o Cruzeiro, recebendo 12 jogadores e dividindo as rendas.

A Taça Guanabara

O time cadete, no entanto, foi presa fácil para o Flamengo logo na primeira rodada, sendo goleado por 6 a 0. Em seguida, o Fla voltou a golear, fazendo 5 a 0 no Campo Grande. Depois de bater com dificuldade o Madureira (2 a 1) e derrotar também a Portuguesa (2 a 0), o time de Coutinho teria seu primeiro clássico pela frente, diante do Vasco. Com mais de 120 mil pagantes no Maracanã, o empate em 0 a 0 persistiu, mas não tirou os rubro-negros da liderança. Depois de bater o Bangu em Moça Bonita por 3 a 0, veio a vez de enfrentar o America.

Naquele momento, o Flamengo enfrentava um pequeno, mas incômodo tabu diante dos rubros. Não os vencia desde setembro do ano anterior. Pelo Brasileiro de 1978, os dois times haviam se enfrentado três vezes, com o America vencendo as três. E a escrita acabou persistindo: o Fla esteve duas vezes à frente no placar, mas acabou cedendo o empate com dois gols do ponta Silvinho, que estenderam o jejum rubro-negro a seis jogos.

Um tranquilo 5 a 0 no Olaria foi seguido por mais um empate, 1 a 1 diante do Botafogo. E uma vitória fácil diante do Bonsucesso por 3 a 0 na penúltima rodada serviu para manter o time na ponta. O último adversário seria o Fluminense. Mas graças ao empate em 2 a 2 entre Botafogo e Vasco no dia anterior, o Fla entrou em campo no domingo podendo até perder por cinco gols de diferença para levantar a Taça Guanabara. Os tricolores marcaram duas vezes nos cinco minutos finais e venceram por 2 a 0. Mas a taça do turno foi mesmo para a Gávea.

Foi uma conquista importante: depois de oito turnos de frustrações, o time voltava a garantir vaga na decisão do Carioca. Porém, outro dado fazia ligar o alerta: o time não havia vencido nenhum clássico. E a tabela do returno já marcava, de saída, o confronto com o America. O Fla abriu o placar com gol de Zico após ótimo lançamento de Adílio, mas os rubros empataram no início da etapa final com o centroavante Mário, após confusão na área. A nove minutos do fim, Tita foi à linha de fundo, cruzou e o zagueiro Heraldo desviou contra as próprias redes, encerrando o tabu.

A goleada de 5 a 2 sobre o Campo Grande na reinauguração do estádio de Ítalo del Cima serviu para manter o time na ponta, mas a bruxa andou solta pela semana seguinte. Raul se lesionou num treino e teve de ceder o posto ao antigo titular Cantarele. Na quarta-feira, o time foi a Moça Bonita e novamente sofreu contra o Madureira, parando num empate em 2 a 2, no qual foi salvo por um gol de Junior a três minutos do fim. Agora o Vasco liderava isolado. E no fim de semana, o Fla teria novo clássico pela frente, contra o Fluminense.

Lavando a alma

A chuva insistente que caiu sobre o Rio naquele 5 de novembro afastou uma grande parcela do público do Maracanã (pouco menos de 40 mil pagantes se aventuraram). Mas também serviu para lavar a alma rubro-negra e carregar para longe as más notícias: cumprindo atuação primorosa, tanto do ponto de vista técnico (mesmo com gramado um tanto pesado) quanto do coletivo, o Flamengo engoliu o rival, sapecando uma goleada de 4 a 0, com dois gols de Zico e outros dois de Cláudio Adão, pagando com juros a derrota sofrida no primeiro turno.

Três dias depois, o time voltou a enfrentar o Bangu em Moça Bonita e venceu por 1 a 0, com gol de Tita cobrando falta no fim. As chances criadas e desperdiçadas no alçapão da Zona Oeste foram devidamente compensadas no jogo seguinte, uma acachapante goleada de 9 a 0 sobre a pobre Portuguesa da Ilha do Governador, no Maracanã. Após vencer o Bonsucesso por 2 a 0, foi a vez de encarar o Botafogo, num jogo de muitas ausências e retornos.

No dia seguinte à vitória sobre o Rubroanil da Leopoldina, o time perdeu Cláudio Adão, artilheiro disparado do campeonato com 19 gols, lesionado num treino. Por outro lado, Toninho e Adílio, ambos fora de time desde depois do Fla-Flu, estavam recuperados e jogariam. De última hora, o time perdeu também o zagueiro Nélson, fazendo voltar ao time um antigo titular que só ali estrearia no campeonato, reabilitado de um longo afastamento por lesão: Rondinelli.

Em campo, o Flamengo enfrentou um Botafogo cauteloso, com o zagueiro Renê adiantado ao meio-campo para marcar Zico e o armador Mendonça encarregado de anular Carpegiani. Mas o Fla ainda contava com Adílio, que aos 24 minutos da etapa final serviria a Zico, que se livrara da vigilância alvinegra para vencer o goleiro Zé Carlos com um leve toque, apenas o suficiente para encobrir o arqueiro de um jeito desmoralizante, e dar a vitória ao Fla.

Os rubro-negros então bateram São Cristóvão e Olaria, ambos por 2 a 0, e ficaram à espera de um tropeço do Vasco, que enfrentaria o Fluminense pela penúltima rodada, um dia depois do confronto entre rubro-negros e bariris. Mas os cruzmaltinos venceram também por 2 a 0 e, com isso, levaram a vantagem de um ponto para a rodada decisiva do returno. O empate no clássico de 3 de dezembro encaminharia a taça do turno para São Januário e provocaria uma decisão em jogo extra entre as duas equipes. Ao Flamengo, restava vencer.

Um time contra seus fantasmas

E vencer significava também superar outro tabu: em jogos válidos por competições oficiais, o Flamengo não derrotava o rival havia seis partidas, nas quais não havia sequer marcado gol. Os quatro últimos clássicos haviam terminado 0 a 0 (resultado que, naquela ocasião, favorecia ao Vasco). Ainda ecoava a lembrança amarga das derrotas nos pênaltis em 1976 e 1977. E mais do que tudo, os rubro-negros jogavam ali o futuro daquele elenco, que poderia ser desmantelado no caso de um eventual novo fracasso.

Mas assim como haviam os traumas, também havia a vontade de superar desconfianças. O desejo de Coutinho – que abandonara algumas ideias, mantivera outras e aperfeiçoara outras tantas – de ser reconhecido como estrategista brilhante que era. A vontade de Zico de recuperar seu prestígio perante o futebol brasileiro perdido na Argentina. E, mais modestamente, de Rondinelli, zagueiro de estilo raçudo e bom no jogo aéreo, pré-convocado para o Mundial no início daquele ano, mas que sofrera com lesões e buscava se recolocar como titular do time.

Sem Raul e Cláudio Adão, definitivamente fora do jogo, o time para a partida começava com Cantarele, goleiro prata-da-casa que vivera altos e baixos nos cinco anos em que integrara o elenco principal até ali. Nas laterais, os ofensivos Toninho e Junior. O primeiro, mais do que tudo um portento físico, bom marcador e apoiador vigoroso. O segundo, o lateral com técnica de meia que Coutinho se arrependera confessadamente de não ter levado para a Copa.

O time da decisão. Em pé: Rondinelli, Cantarele, Manguito, Toninho, Júnior e Carpegiani. Agachados: Marcinho, Adílio, Tita, Zico e Cléber.

Na zaga, Rondinelli fazia dupla com Manguito, trazido do Olaria para aquele campeonato, beque de técnica limitada, mas igualmente sério e duro. À frente deles, jogava Carpegiani, homem de referência não só do meio-campo como de todo o time. O carimbador de todas as bolas nas transições ofensivas. Na criação estava Adílio, que começara a despontar no fim de 1976, quando se revelara uma grata novidade, perfeito nos passes e na condução de bola.

A ausência de Cláudio Adão como homem de referência na frente levou Coutinho a escalar um trio com o prata-da-casa Tita e a dupla vinda por empréstimo do Atlético Mineiro, Marcinho e Cléber. Nenhum deles tinha posição fixa, girando por todo o setor. Tita aparecia pela direita e pelo meio, Cléber ia do centro para a esquerda e Marcinho flutuava por todo o ataque, especialmente pelas pontas. Isso fazia com que Zico se tornasse o jogador mais agudo, chegando à frente em tabelas com Adílio ou carregando a bola do meio até a área vascaína.

O Vasco, favorito apontado pela imprensa e treinado pelo veterano Orlando Fantoni, tinha Leão no gol, os experientes Orlando “Lelé” e Marco Antônio nas laterais e uma dupla de zaga também vigorosa com Abel e Gaúcho. No meio, dois volantes: o incansável Helinho, encarregado de ser a sombra de Zico, e Paulo Roberto, tendo à frente o armador Guina, tão talentoso quanto explosivo, como o principal responsável pela criação.

O trio de ataque teria o veloz e driblador ponteiro Wilsinho pela direita, o goleador Roberto Dinamite (que se igualara a Cláudio Adão e Zico na artilharia com 19 gols) pelo meio e o também experiente Ramón, ex-Santa Cruz, mais aberto pelo lado esquerdo. A surpresa era a permanência de Paulinho – artilheiro do Brasileirão daquele ano, quando substituiu Roberto – na reserva. Mas era uma boa arma para o segundo tempo à disposição de Fantoni.

A decisão

O público de pouco mais de 128 mil pagantes é considerado abaixo das expectativas, mas há uma explicação: numa época em que as rendas dos jogos tinham peso fundamental na arrecadação dos times muitos torcedores resolveram não ir por acreditarem que os dois times se poupariam para que acontecesse o jogo extra, o que proporcionaria outra casa cheia. Mesmo assim, os mais de Cr$ 6,6 milhões arrecadados batem o recorde nacional de renda, fazendo justiça mais uma vez o apelido de “Clássico dos Milhões”.

O Flamengo assustou logo aos dois minutos numa cabeçada firme de Zico defendida por Leão. Teria outras duas ótimas chances de abrir o placar no primeiro tempo aos 14 minutos num chute de Zico de fora da área, também contido pelo arqueiro vascaíno, e aos 23 numa tentativa de corte de Gaúcho, que quase marcou contra. E os rubro-negros ainda reclamaram de um pênalti não marcado, num carrinho de Helinho em Tita ao final da etapa.

Apesar de segurar os laterais e atacar mais pelo meio, o Fla era mais incisivo diante de um Vasco que procurava cozinhar o jogo, gastar tempo e tentar os contra-ataques, mas que sofria com a falta de “punch” ofensivo. No intervalo, o técnico Orlando Fantoni colocaria Paulinho, o artilheiro do Brasileirão daquele ano quando substituiu o convocado Roberto Dinamite, no lugar de Ramón, visivelmente fora de forma. E ele cria a primeira grande chance do Vasco no jogo, ao desviar na primeira trave um cruzamento de Wilsinho.

Zico se livra de Abel e parte para o ataque: só deu Fla na decisão.

Mas o Fla mantém o domínio das ações e empurra cada vez mais o Vasco para o campo defensivo. Aos 26, tem sua maior chance naquela etapa até ali, em que uma triangulação rápida na entrada da área coloca Zico frente a frente com Leão, mas o camisa 1 da Colina faz outro milagre. Mais tarde, aos 38, é a vez dos vascaínos desperdiçarem sua maior chance no jogo, surgida de um lance fortuito: bola espirrada na defesa do Fla, Roberto ganha a disputa de Rondinelli e cruza. Sozinho na área e diante de Cantarele, Paulinho erra o domínio e deixa a bola escapar.

O instante em que tudo mudou

Aos 41, Junior recebe de Manguito na meia esquerda, avança, tabela com Tita e cruza alto, procurando Zico, que avançava pela outra ponta. Aparentemente a bola sairia em lateral ou tiro de meta, mas Marco Antônio, temendo a chegada do 10 rubro-negro, prefere não arriscar e faz o corte pela linha de fundo, cedendo escanteio. Nesse lance um tanto prosaico, estamos diante do momento capital do jogo, aquele que mudará muito mais do que a história da partida.

Atrás do gol de Leão estava o fotógrafo Rubens Walter Etcheverria, o Che, uruguaio radicado no Rio e amigo dos jogadores rubro-negros, especialmente do lateral Sergio Ramírez, aquele que correra atrás de Rivelino num Brasil x Uruguai no mesmo Maracanã dois anos antes e que agora era reserva de Toninho e Junior no Fla. Quando a bola cortada por Marco Antônio parou perto de sua bolsa de trabalho e Zico apareceu para busca-la, Che entregou em mãos com um pedido apressado: “Vai lá, ainda dá! Bate logo que está acabando!”.

Zico não batia escanteios no Flamengo, tarefa mais comum aos pontas. De fato, aquele fora o único que ele cobraria em todo o jogo. Rondinelli também não estava na área. Estava no meio-campo discutindo com Carpegiani sobre se devia ou não ir ao ataque. Roberto, que costumava marcar o zagueiro rubro-negro nos escanteios, também se dispersou com a discussão e ficou onde estava. Até que Zico levantou o braço e Rondinelli pressentiu: “É agora”.

Foram cerca de dez passos largos até a área e um salto, num daqueles instantes em que o tempo parece parar, congelar. A bola passou alta por todos os outros jogadores do Flamengo que estavam na área e veio para onde Rondinelli se encontrava, entre Abel e Orlando Lelé. A cabeçada foi inapelável, no canto esquerdo. Nem que se esticasse todo Leão alcançaria. Não houve rubro-negro que segurasse mais o enorme grito contido pela tensão no Maracanã. Aos 42 minutos, enfim, num misto de alívio e êxtase, era a hora de extravasar.

O fim do jogo, no entanto, demorou um pouco mais que o esperado. Guina e Zico se estranharam, e o vascaíno acertou um pontapé no rubro-negro que, furioso, só não pôde revidar por ter sido contido por companheiros e rivais. A confusão foi o estopim para uma gigantesca invasão de campo, típica do estádio naqueles tempos, e que paralisou a partida por cerca de seis minutos. Os dois jogadores acabaram expulsos. E o jogo terminou pouco depois, iniciando de vez a agora incontida festa da massa rubro-negra.

A sensação foi de se mudar o curso da história. Acabavam o tabu, o jejum, os traumas, os questionamentos. Agora definitivamente consagrado como o “Deus da Raça”, Rondinelli emulara Agustín Valido, o ponta argentino que, em 1944, marcara também de cabeça e também nos minutos finais o gol de um título dramático diante do Vasco. Só que o gol de Valido completaria um tri. E o de Rondinelli iniciaria outro, que seria seguido nos anos posteriores pelas conquistas do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial Interclubes.

Em pé: Cantarele, Cláudio Coutinho, Alberto Leguelé, Manguito, Toninho, Eli Carlos, Moisés, Júnior e Nielsen. Agachados: Nélson, Rondinelli, Ramírez, Marcinho, Adílio, Tita, Cléber, Zico e Carpegiani.

Os 90 anos do “Doutor” Rubens: De fenômeno de massa a relíquia esquecida

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Prolífico em craques, o futebol brasileiro também é cruel ao lidar com a passagem do tempo. Conforme avança, vai deixando no esquecimento um sem número de nomes tidos como mestres em seu tempo. Foi o caso de Rubens Josué da Costa, meia-armador nascido na capital paulista, mas que se fez ídolo num Flamengo que iniciava sua caminhada rumo a um histórico tricampeonato carioca em meados dos anos 1950.

No caso de Rubens, porém, há um agravante. O jogador de estilo ao mesmo tempo cerebral e malicioso, elegante e abusado, de drible curto e chute potente atingiu o patamar de verdadeiro fenômeno das massas. Mas, em pleno auge, foi tendo seu prestígio minado por problemas disciplinares e uma relação desmedida com o álcool, sendo varrido da memória do esporte dentro de pouco tempo, tornando-se uma relíquia perdida.

NA GÁVEA, UMA TRANSIÇÃO DOLOROSA

Tricampeão carioca com um esquadrão lendário treinado por Flávio Costa em 1942/43/44, o Flamengo foi aos poucos perdendo o protagonismo do futebol do então Distrito Federal a partir dali. Nos anos que se seguiram até a virada da década, aquele grande time foi envelhecendo, jogadores históricos como Jayme de Almeida, Pirillo, Perácio e Vevé se aposentaram ou deixaram o clube, Zizinho fraturou a perna duas vezes, e os nomes que chegaram, com raras exceções (como Jair Rosa Pinto, de passagem malograda), não estavam no mesmo nível dos que saíam.

Tudo culminou na desastrosa temporada de 1950, uma das piores da história do clube, na qual, além de ter perdido Zizinho de maneira tola para o Bangu, terminara em um péssimo sétimo lugar no Carioca, com dez derrotas e apenas sete vitórias em seus 20 jogos. Era necessário realizar mudanças profundas. Para isso, em janeiro de 1951, foi empossado presidente do clube o médico Gilberto Cardoso. Sua primeira providência foi trazer de volta à Gávea o técnico Flávio Costa, que saíra para o Vasco em 1947 e também vinha de dirigir a Seleção Brasileira.

Depois vieram os reforços. Para a defesa, chegou Pavão, da Portuguesa Santista, zagueiro sério e duro, verdadeiro xerife de área. Para o ataque, o clube foi buscar no Internacional o centroavante Adãozinho, o “Negrinho do Pastoreio”, reserva da Seleção na Copa de 1950. Faltava o meio-campo. E os problemas foram solucionados em setembro: o Flamengo realizava um sonho antigo e contratava o armador Rubens, então na Portuguesa paulistana, onde perdera prestígio e espaço após se incompatibilizar com o técnico Oswaldo Brandão.

UM TALENTO PROMISSOR PAULISTANO

Rubens (segundo agachado) no Ypiranga, início dos anos 50.

Rubens iniciara a carreira bem no meio do tri rubro-negro, em 1943, aos 14 anos, quando chegou ao Ypiranga, clube paulistano hoje afastado do futebol profissional, mas na época um famoso celeiro de talentos. Ao longo de sua história, o clube alvinegro revelaria nomes como o goleiro Barbosa (Vasco), o zagueiro Homero (Corinthians) e o ponta-esquerda Rodrigues (Fluminense e Palmeiras). Além de Rubens, que jogava no clube ao ser chamado para defender os paulistas no Campeonato Brasileiro de seleções, em março de 1950.

O título ficou com os cariocas, mas o futebol do jovem meia encantou a todos. Três meses depois estaria de novo no Rio, defendendo o selecionado paulista de novos no célebre jogo de inauguração do Maracanã. A Portuguesa correu na frente de todos e contratou o jogador. Mas ele ficaria pouco tempo com os rubro-verdes. Um ano depois, de tanto insistir, o Flamengo acabou pagando 625 mil cruzeiros e levando seu futebol para o Rio, identificando-o como o substituto ideal para Zizinho. Sua estreia seria em 16 de setembro de 1951, no clássico diante do Vasco, pelo primeiro turno do Campeonato Carioca daquele ano.

Desde a dramática vitória por 1 a 0 com gol do argentino Agustín Valido nos minutos finais, que dera ao clube o heroico tri carioca em 1944, o Flamengo não sabia o que era derrotar o Vasco pelo estadual. Vencera o clássico seguinte (4 a 3), válido pelo Torneio Relâmpago em abril de 1945, mas depois disso passara 20 jogos em branco, com 15 derrotas. O “Expresso da Vitória” cruzmaltino tornara-se a nova e indiscutível potência do futebol carioca naquela segunda metade dos anos 40 e início da década posterior.

A ESTREIA MEMORÁVEL EM VERMELHO E PRETO

Até a chegada de Rubens ao Flamengo. Naquela tarde de 16 de setembro, até pareceu que o Vasco, líder do campeonato com quatro vitórias em quatro jogos, manteria a escrita ao abrir o placar logo aos dez minutos com Maneca. Foi o tempo do novo reforço rubro-negro se ambientar e começar a chamar o jogo para si. Ele não participaria do gol de empate, marcado por Adãozinho escorando cruzamento do ponteiro Esquerdinha. Mas iniciaria a jogada do da virada, feito por Índio, acertaria a trave em cobrança de falta e dominaria inteiramente o meio-campo.

O time rubro-negro perfilado para a partida de estreia de Rubens (o terceiro a partir da esquerda) contra o Vasco em setembro de 1951.

Ao fim da partida, já deixava o gramado carregado pelos torcedores. O artífice do fim do jejum era o novo ídolo da massa. “Rubens fez uma estreia auspiciosa. Jogando atrás, na armação do jogo, cumpriu aí um trabalho exato, perfeitíssimo, o que mais se torna notável quando lembramos que era esta a sua segunda oportunidade entre os companheiros. A primeira foi no treino, a segunda em pleno jogo. Grande aquisição do Flamengo”, escreveu a Esporte Ilustrado.

Anos mais tarde, relembrando o futebol de Rubens, Mario Filho descreveu em um texto delicioso o estilo de jogo do meia: “Gostava de dar dribles largos. Parecia que prendia a bola com um barbante amarrado à chuteira. Porque a bola, que ele atirava para a esquerda e para a direita, voltava sempre, logo, aos pés dele. Rubens não andava como qualquer mortal. Levava um pé à frente, devagar, deixava-o pousar na calçada e, depois, trazia o outro, gingando o corpo, como se dançasse. Não era um samba (…). Era um gingar de malandro. De bamba de terreiro”.

O Flamengo não conquistou o título de 1951 (ficou com o Fluminense), mas apresentou nítida evolução em relação aos anos anteriores e voltou a bater os cruzmaltinos no returno, em outra grande exibição de Rubens, autor do segundo gol, cobrando pênalti, na vitória por 2 a 0. No ano seguinte, o time subiria mais alguns degraus e ficaria em segundo, empatado em pontos com os tricolores (o Vasco voltaria a levantar o caneco). E Rubens seria lembrado pela primeira vez para a Seleção, convocado para o Campeonato Pan-Americano, no Chile.

O PRIMEIRO TÍTULO E A CONSAGRAÇÃO

Seu auge, no entanto, seria o ano seguinte, quando enfim o Flamengo voltou a ser campeão carioca, título que lhe escapava desde 1944 – e, de quebra, iniciando outro tricampeonato. No início daquele ano, Flávio Costa havia sido recontratado pelo Vasco, deixando o time nas mãos do ex-jogador Jayme de Almeida interinamente. Com ele, o Fla conquistaria na Argentina o Torneio Quadrangular de Buenos Aires, superando Boca Juniors, San Lorenzo e o rival Botafogo, este derrotado por 3 a 0, com dois gols de Rubens.

Na volta ao Brasil, o novo treinador já tinha sido escolhido: era o paraguaio Fleitas Solich, que em janeiro levara a seleção de seu país a um surpreendente título sul-americano em Lima, no Peru, ao bater por duas vezes a Seleção Brasileira. O novo treinador, que chegaria para revolucionar o futebol no clube, e Rubens travariam uma dolorosa queda de braço, mas não de início, já que a popularidade do jogador era insuperável no futebol carioca – e em todo o país.

Havia naquele tempo um programa humorístico de enorme sucesso na Rádio Nacional carioca – cujas ondas potentes alcançavam o país inteiro – chamado “Balança Mas Não Cai”, criado pelo humorista Max Nunes, torcedor do America. Um dos quadros do programa trazia um torcedor rubro-negro, o Peladinho, e seu bordão “Mengo, tu é o maior!”. Naturalmente, Peladinho falava em Rubens o tempo todo. Ou melhor, em “Doutor Rúbis”, como o personagem chamava o meia e seu futebol refinado em sua pronúncia peculiar. E o apelido pegou.

Time campeão carioca de 1953. Em pé: García, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha.

Em 1953, o Campeonato Carioca trouxe mudanças em seu regulamento em relação aos anos anteriores. O torneio agora seria dividido em três turnos. Nos dois primeiros, os 12 clubes se enfrentariam no sistema de pontos corridos, com seu líder, ao final das 22 rodadas, garantindo presença na decisão. O terceiro seria disputado apenas pelas seis melhores equipes, apontando o outro finalista. O Flamengo, porém, nem quis saber de final e venceu todas as fases, somando 21 vitórias (e apenas duas derrotas) em 27 jogos.

Naquele torneio, ninguém jogou mais bola do que o Doutor Rúbis, aclamado pela imprensa como o craque do torneio. E olha que a concorrência era forte. Para a mesma posição de meia-armador, por exemplo, havia o banguense Zizinho, o vascaíno Ipojucan e o tricolor Didi. Contra este, aliás, o ídolo rubro-negro viveu um duelo memorável no Fla-Flu que valeu pela decisão do primeiro e segundo turnos, no dia 6 de dezembro.

COM DIDI, GRANDES DUELOS NO FLA-FLU

Um ponto à frente na tabela, o time das Laranjeiras jogava pelo empate, para a alegria de seu técnico Zezé Moreira, conhecido por montar fortes sistemas defensivos. E saiu na frente no primeiro tempo com gol de Marinho num contra-ataque, após um erro da defesa rubro-negra. O Fla ainda conseguiu o empate, que fazia jus a seu domínio das ações, ainda antes do intervalo, numa cabeçada de Índio. E logo no início da etapa final, aos dez minutos, chegaria à virada num gol de antologia de seu maestro em campo, o Doutor Rúbis.

Rubens apanhou a bola na intermediária e fez fila na defesa tricolor. Passou por Didi, Jair e Edson até disparar um petardo da entrada da área que tomou o caminho das redes sem que o goleiro Veludo pudesse esboçar reação. Mais tarde, o meia ainda sofreria pênalti claro do lateral-esquerdo Bigode, não apitado pelo árbitro Mario Vianna, mas o placar terminou mesmo em 2 a 1. Foi até pouco: “A equipe rubro-negra manteve-se 90% do jogo com o comando das ações. Deve ter ficado feliz o Fluminense, perdendo só de 2 a 1”, escreveu Luiz Mendes para a Esporte Ilustrado.

Já o jornal A Noite preferiu destacar o duelo do meio-campo: “E Didi, incumbido da ingrata tarefa de marcar Rubens e auxiliar o seu próprio ataque, acabou não fazendo nem uma coisa nem outra levando, inclusive, um ‘baile’ do meia adversário”. Dali, o Fla partiria para o terceiro turno, no qual venceria todos os jogos, a começar por outro 2 a 1 no Fluminense. Em seguida, 2 a 0 no America e no Bangu. Uma goleada de 4 a 1 sobre o Vasco de Bellini, Ademir e Pinga, levou à conquista antecipada do turno – e do campeonato, sem a necessidade de finais. No último jogo, o das faixas, 1 a 0 sobre o Botafogo de Garrincha e Nilton Santos. Gol de Rubens.

Além de coroado o melhor jogador do certame, o meia terminava como o terceiro artilheiro do Fla, com 17 gols marcados em 24 jogos, boa parte deles em cobranças de falta – uma de suas especialidades – e pênalti. Além de incontáveis assistências para o ataque mais positivo do torneio, que balançou as redes nada menos que 77 vezes em 27 partidas. Com a preparação para a Copa do Mundo da Suíça prestes a começar, era natural que se cogitasse sua convocação para o grupo que iniciaria os treinamentos e amistosos.

NA SELEÇÃO, POUCO APROVEITADO

Curiosamente, na mesma tarde de 20 de janeiro de 1954 em que o Fla recebia suas faixas de campeão antecipado e vencia o Botafogo pela última rodada do terceiro turno do Carioca, o Maracanã recebia uma grande festa. Além das homenagens aos rubro-negros e a celebração do dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) fazia ali a apresentação oficial os novos uniformes com os quais a Seleção jogaria na Suíça, com camisas em tom amarelo ouro, calções azuis e meias brancas.

O trio rubro-negro Rubens, Dequinha e Índio veste a nova “canarinho”.

Por ironia, o novo técnico do escrete seria Zezé Moreira, treinador do Fluminense contra o qual Rubens fizera grandes exibições no campeonato, e que cedera aos apelos de imprensa e torcida, convocando o meia para a fase de preparação. Em março, ao analisar os relacionados, o jornalista David Nasser escrevia na revista O Cruzeiro sobre o craque rubro-negro: “Frio, calculista, 100% driblador, bom passador, faz da bola um ioiô como diz o meu amigo [o radialista Oduvaldo] Cozzi e dono de um canhão certeiríssimo. Atualmente o melhor cobrador de penalidades. Uma arma secreta que Zezé poderá usar a qualquer momento”.

A vontade de muitos, porém, acabou quase frustrada. Embora chegasse a levar Rubens para o Mundial, Zezé só o utilizou uma vez e num amistoso, a goleada de 4 a 1 sobre o time colombiano do Millonarios, dos argentinos Néstor Rossi e Adolfo Pedernera, no Pacaembu. Defensor do clássico sistema WM (diferente do 4-2-4 já utilizado pelo Flamengo de Solich), Zezé preferia escalar Didi na meia-direita e o jovem Humberto Tozzi ou o vascaíno Pinga na esquerda. Além disso, como na época as substituições em jogos oficiais não eram permitidas, o meia não teve chance de entrar em campo na Suíça.

Na Copa, dando autógrafo a um garotinho suíço.

Mesmo assim, Doutor Rúbis voltou ao seu povo com o prestígio intacto. E foi outra vez o condutor do Flamengo em mais uma campanha vitoriosa, num campeonato que manteve o regulamento do ano anterior. O time começou arrasador. Na oitava rodada, no clássico diante do Vasco que marcaria a estreia de outro futuro ídolo rubro-negro, um garoto alagoano chamado Dida, o meia anotou um golaço em cobrança de falta, a bola sinuosa fazendo a curva ao redor de Barbosa e entrando no canto esquerdo, perto do ângulo do arqueiro.

A perícia na bola parada era outro ponto em comum entre Rubens e Didi, e a comparação entre os dois era frequente então. Sobre ambos, o ex-atacante Evaristo de Macedo, que jogou ao lado dos dois, comentou tempos mais tarde: “Ele era um jogador incrível, um doutor mesmo em matéria de futebol. Suas qualidades eram inúmeras. Protegia a bola como ninguém, driblava fácil, lançava bem e tinha um chute de uma precisão fora do comum. Na posição dele, na época, talvez nem o Didi fosse melhor, pois Rubens chegava mais na área para concluir. Era também um grande artilheiro. Acho que ele era até mais dinâmico que o Didi. Mas eram dois fenômenos”.

O BICAMPEONATO QUE VIROU SAMBA

Time contra o Vasco em 1954. Em pé: García, Pavão, Tomires, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Dida e Babá.

A equipe de Solich só foi sofrer a primeira derrota na 17ª partida – somando aquele campeonato ao anterior, o time chegou a ficar 34 jogos seguidos sem perder – e chegou à última rodada do returno com a conquista daquela fase garantida. No terceiro turno, depois de um empate com o Fluminense na estreia (3 a 3), o time venceu todos os outros jogos – 3 a 2 no America, 2 a 0 no Botafogo, 2 a 1 no Vasco e 5 a 1 no Bangu – e levantou o bicampeonato, novamente com apenas duas derrotas em 27 jogos, mas uma vitória a menos que no ano anterior (20 contra 21).

O título levou o compositor Wilson Batista, um dos gigantes da música brasileira daquele período (e de todos os tempos) e torcedor flamenguista fanático, a escrever o famoso “Samba Rubro-Negro”, no qual citava nominalmente o meia e dois outros expoentes daquela equipe e fez sucesso estrondoso no Carnaval de 1955: “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã / O Mais Querido tem Rubens, Dequinha e Pavão / Eu já rezei pra São Jorge / Pro Mengo ser campeão”.

Rubens (à direita) na concentração: sinuca com Joel, García e Jordan.

A popularidade de Rubens era tamanha que, em novembro de 1955, quando a editora Bloch lançou a histórica revista Manchete Esportiva, uma das principais publicações do país em seu tempo, o meia foi escolhido para figurar na capa da primeira edição. Vestido de toga e capelo, como um verdadeiro acadêmico, o Doutor Rúbis matava uma bola no peito sobre a legenda: “Dr. Rubens, bacharel de letras e salames” – este último termo, uma gíria da época para dribles.

“Era realmente um autêntico ídolo. A torcida o adorava. Tinha a cara do povão. Era um homem simples, sem grande cultura, mas possuía muita vivacidade e sempre fazia observações pertinentes. Ele era um jogador muito inteligente. Sua visão de jogo era impressionante e, numa fração de segundo, resolvia uma jogada e decidia a parada”, comentou o velho companheiro de clube Evaristo de Macedo. Naquele momento em que virou capa de revista, no entanto, Rubens já começava a assistir a sua carreira sair dos trilhos.

Rubens nas revistas: um ídolo popular, um símbolo daquele Fla.

O DECLÍNIO ACELERADO

Fleitas Solich não era entusiasta do futebol cadenciado, lento e filigranado dos grandes virtuoses, então quase onipresente no Brasil. Preferia o jogo veloz, intenso, objetivo, sem firulas e sobretudo coletivo. Costumava dizer que “o meio-campo é por onde a bola passa, não onde ela fica”. Gostava menos ainda de jogadores que não se esforçassem nos treinos. Mas, acima de qualquer outra coisa, tinha verdadeira ojeriza aos atletas que cultivassem hábitos considerados boêmios. Em outras palavras: detestava cigarro e bebida.

Rubens com Fleitas Solich: relação deteriorada.

Fumante de três maços de cigarro por dia e bom de copo, Rubens previsivelmente estaria na mira de Solich. E não só dele. Conta-se que, em 1954, durante as Eliminatórias, a Seleção estava em Santiago e os jogadores ganharam uma tarde de folga. Perto da hora de retornarem, Zezé Moreira conversava com Luiz Mendes no hall do hotel quando percebeu, pelo reflexo em uma vidraça, que o jogador chegara carregado pelos colegas, de tanto que bebera. O meia escapou de ser cortado, mas este teria sido um dos motivos de seu pouco espaço no time.

Outra história envolvendo Rubens era a de que, durante uma excursão do clube a Curitiba, Solich teria flagrado o jogador fumando e bebendo em um bar com torcedores, e mandado-o de volta ao Rio imediatamente. Foi a gota d’água. Na mesma época, o meia começou a sofrer de inchaço no joelho esquerdo, chegando a operar o menisco. Foi a ocasião que o treinador queria para sacá-lo do time e lançar os garotos da base que pediam passagem, como Paulinho e Duca. Na longa campanha do tri, entre agosto de 1955 e abril de 1956, Rubens fez apenas seis jogos.

NO RIVAL, TENTANDO SE REERGUER

Os médicos do clube diagnosticaram o problema crônico no joelho de Rubens como um derrame, demandando nova operação. Enquanto isso, Paulinho, seu jovem substituto, firmava-se até como goleador: sagrou-se artilheiro do time e do Carioca, com 23 gols. O Doutor Rúbis havia perdido espaço. Na temporada 1956, jogou apenas amistosos, antes de ser emprestado ao Santa Cruz. Em 1957, só fez uma partida. Marginalizado, comprou seu próprio passe e aceitou um convite para jogar no Vasco no segundo semestre.

Em São Januário, Rubens conquistou o Torneio Rio-São Paulo e o Campeonato Carioca de 1958 e ficou até o fim do ano seguinte, quando foi dispensado. Aos 31 anos de idade, voltou ao seu estado de São Paulo, assinando com a Prudentina, onde penduraria as chuteiras em 1963. Mais tarde, chegaria a trabalhar como auxiliar técnico do amigo Marinho Rodrigues, ex-companheiro de Flamengo, no Atlético Junior de Barranquilla, antes de largar de vez o futebol.

Em 1978, a Manchete Esportiva (que experimentara um renascimento na época) promoveu um encontro entre ele e outro meia talentoso que despontava no Flamengo, seu herdeiro da camisa 8, também de estilo refinado e ótima condução de bola: o jovem Adílio ouviu histórias e conselhos do velho craque. Foi uma das últimas vezes em que Rubens foi destaque na imprensa. Em 31 de maio de 1987, vitimado por um câncer pulmonar, Doutor Rúbis viraria saudade. A rotina de fumante, que lhe roubara o prestígio no Fla e a idolatria da massa rubro-negra, terminaria por lhe tirar também a vida, aos 58 anos.

LEMBRANDO O VELHO CRAQUE

A mudança de perfil do futebol brasileiro, as portas fechadas na Seleção e a súbita descida de seu pedestal de ídolo – do qual acabou destronado pela ascensão de nomes como Dida no panteão rubro-negro – fizeram de Rubens um jogador quase esquecido, do tipo o qual nos falta a dimensão histórica para entender o tamanho da paixão e da identificação dispensada a ele pela torcida naqueles anos. Mas muitos que viram o meia atuar nas tardes do Maracanã têm doces recordações de seu jogo. Como o historiador e pesquisador Ivan Soter, que também o descreveu em seu livro “Quando a bola era redonda”.

“Sim, a bola já foi protagonista. Quando ela ficava com Rubens, o doutor Rúbis, ficava feliz. Rubens tinha um elástico mágico que a prendia a seus pés. Os adversários, hipnotizados, olhavam a bola nos pés de Rubens. Parados. Rubens se mexia, todos se mexiam para o lado que Rubens tinha se mexido. Ele só esperava que alguém ousasse roubá-la. Até que um sujeito do outro time, mais desavisado, avançasse desequilibrando a natureza morta pintada no gramado. Era a hora do drible. Só então a bola saía do lugar. Para continuar nos pés de Rubens”.

Há 30 anos, Fla arrasava Guarani em Campinas na estreia de Telê Santana

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Zico domina a bola à frente do lateral Marquinhos: artífice da goleada rubro-negra no reencontro com seu antigo treinador na Seleção.

Técnico reconhecido como apreciador e defensor do futebol ofensivo, Telê Santana chegou ao Flamengo em outubro de 1988 com a missão de recolocar o Flamengo nos trilhos após uma campanha irregular no Campeonato Brasileiro daquele ano, na qual o time sentiu bastante as muitas baixas que tivera naquele momento. Mas na estreia do treinador, há exatos 30 anos, contra o forte time do Guarani no estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, todos os problemas foram esquecidos: o time rubro-negro fez exibição primorosa e brindou o novo comandante com uma contundente goleada de 5 a 1 sobre os bugrinos, relembrada aqui.

MEADOS DE 1988, UM PERÍODO TURBULENTO

Entre o fim do Estadual de 1988 (perdido para o Vasco) e o início do Brasileiro, parte do time rubro-negro que vencera a Copa União no ano anterior se desmantelara. Renato Gaúcho e Andrade haviam sido vendidos à Roma. Edinho decidira voltar ao Fluminense. Leandro, às voltas com problemas nos joelhos, só jogaria na estreia, antes de passar por cirurgia e parar até o fim do ano. E havia ainda os desfalques de Zé Carlos, Jorginho e Bebeto, convocados (assim como Andrade) para a Seleção Brasileira olímpica que disputaria os Jogos de Seul sob o comando do mineiro Carlos Alberto Silva.

Carlinhos “Violino”, técnico campeão em 1987, também havia deixado o clube, demitido após a perda do Estadual. Para o cargo, o Flamengo apostava em Candinho, paulista com rodagem em seu estado e trazido da Inter de Limeira. Porém, sua primeira experiência no futebol carioca seria curta. Depois de se desentender com Zico e Leandro, acabaria demitido ainda na quinta rodada, após um jogo desastroso contra o Santa Cruz no Maracanã, na qual o time empatou em 2 a 2, perdendo a disputa nos pênaltis prevista no regulamento.

Em princípio, o nome tido como quase acertado para substituir Candinho era o de Valdir Espinoza, campeão mundial interclubes com o Grêmio em 1983 e que só não havia vindo meses antes para a Gávea por um compromisso com o Cerro Porteño. Porém, outro nome passou a ser acompanhado com atenção: Telê Santana, balançando no cargo no Atlético-MG, clube do qual o Flamengo havia acabado de contratar por fabulosos 200 milhões de cruzados o ponta-direita Sérgio Araújo, com a missão de fazer a torcida esquecer Renato Gaúcho.

O clube mineiro também vivia sob agitação, e a saída do técnico enfrentava a resistência de seu presidente, Nélson Campos. Mas, desgastado após a derrota para o Criciúma, lanterna do Brasileiro, em pleno Mineirão, durante a qual foi hostilizado por torcedores, Telê manifestou sua vontade de sair, e a transferência acabou acertada por telefone com o mandatário rubro-negro Márcio Braga, assim como as bases do contrato, na noite de 11 de outubro.

A CHEGADA DO VELHO MESTRE

No domingo, Telê assistiu das tribunas do Maracanã à vitória do Flamengo sobre o Santos por 1 a 0, gol de Sérgio Araújo, no terceiro e último jogo do interino João Carlos Costa no comando do time (que havia vencido Botafogo e Grêmio nos pênaltis nas outras duas partidas). E durante a semana preparou o time para enfrentar o perigoso time do Guarani, líder de seu grupo, no estádio Brinco de Ouro, em Campinas, no domingo seguinte.

Treinado pelo ex-meia Eli Carlos (de rápida passagem pelo Fla em 1978, quando levantou o título carioca), o Bugre havia sofrido baixas após se sagrar vice-campeão paulista e chegar às quartas de final da Taça Libertadores de 1988, mas ainda contava com jogadores que exigiam cuidados, como o habilidoso meia Neto, o combativo volante Marco Antônio Boiadeiro e o arisco ponta-esquerda João Paulo, além do experiente zagueiro Vágner “Bacharel”, ex-Botafogo e Palmeiras, e do fato de estar mais adaptado ao sofrível gramado de seu estádio, prejudicado ainda mais pelas chuvas do fim de semana.

O time de Campinas estava invicto no torneio e fazia campanha bastante consistente. Em sete jogos (um a menos que os demais, já que a partida contra o Bangu em Moça Bonita fora adiada), somava quatro vitórias, três delas por 1 a 0 (Goiás no Serra Dourada, Atlético-MG e São Paulo em casa), além de um 3 a 1 sobre o Palmeiras, também em Campinas. E havia empatado os outros três jogos, batendo nos pênaltis o Sport em casa e o Atlético-PR em Curitiba, perdendo apenas para o Vitória na Fonte Nova (mas somando um ponto).

Pelo lado do Flamengo, um pacote de reforços havia sido contratado para repor as perdas temporárias ou definitivas. O mais famoso era o zagueiro uruguaio Darío Pereyra, que deixara o São Paulo após dez anos, trazido para o lugar de Edinho. Também havia chegado o meia Luvanor (ex-Goiás e com passagem pelo futebol italiano), o volante Paulo Martins (ex-São Paulo) e o trio do America formado pelo volante Delacir, pelo lateral-esquerdo Paulo César e pelo meia Renato Carioca (os dois primeiros já haviam defendido o time por empréstimo para a disputa da Copa Kirin, no Japão, em junho).

Porém, para o jogo daquele domingo, uma baixa preocupava: a de Jorginho, que ainda discutia a renovação de contrato e seria substituído pelo jovem Xande, trazido do América de São José do Rio Preto (SP) no início da competição, mas que ainda não se desencabulara na Gávea. Bebeto, já mais perto de um acerto contratual, também ficaria de fora, mas Alcindo vinha treinando bem e entraria no comando do ataque, ganhando a disputa com o improvisado Renato Carioca.

Assim, o Flamengo entraria em campo com Zé Carlos no gol, Xande e Leonardo nas laterais, Aldair e Darío Pereyra na zaga, Delacir, Luvanor e Zico no meio-campo, contando com o auxílio de Zinho como ponta recuado, e, na frente, Sérgio Araújo pela direita e Alcindo no comando do ataque. Já os bugrinos escalaram Sérgio Néri no gol, Marquinhos e Albéris nas laterais, com Vágner “Bacharel” e Júnior na zaga. O losango do meio-campo tem o volante Tosin, Marco Antônio Boiadeiro na meia direita, Cilinho pelo lado esquerdo e Neto avançado. Na frente, bem aberto, joga o ponteiro João Paulo. E pelo meio, o homem de área, Careca Bianchesi.

DE SAÍDA, UM SUSTO

Zico entrou em campo trazendo pela mão um garoto com a camisa do Guarani. Era seu filho, Artur Junior, de 11 anos, torcedor do clube campineiro e meia-esquerda do time infantil bugrino. A explicação para a simpatia insólita foi prontamente explicada pelo menino aos repórteres: o Guarani vingara o Flamengo no mata-mata do Brasileiro de 1986, eliminando nas semifinais o Atlético-MG, clube que desclassificara os rubro-negros nas oitavas de final. Do clube, Junior recebeu uma placa de prata como homenagem.

Zico e seu filho Artur Junior, homenageado pelo Guarani.

O Guarani deu a saída e logo teve dois arremessos de lateral seguidos no campo de ataque. No segundo, Tosin recebeu a bola na meia esquerda e lançou para a área. O experiente Darío Pereyra furou a cabeçada, e a bola sobrou limpa para o centroavante Careca Bianchesi. Zé Carlos saiu do gol e não teve escolha a não ser derrubar o atacante. Pênalti marcado pelo árbitro baiano Ney Andrade Nunes Maia com menos de um minuto de partida. Neto bateu no ângulo e abriu o placar, sem chances para o arqueiro rubro-negro.

Do banco de reservas, o técnico bugrino Eli Carlos comentou que o gol de seu time saiu muito cedo. Mas quando Neto cobrou falta no travessão aos quatro minutos, a sensação era a de que uma goleada estava se desenhando no Brinco de Ouro. O Flamengo tentava reagir e pressionava, mas o time campineiro levava mais perigo nos contra-ataques. Até João Paulo perder a jogada numa dividida limpa com Aldair aos 15 minutos e cair no gramado. Mancando, ele esperou alguns minutos, mas viu que não tem condições de continuar.

O ponta saiu de campo com torção no tornozelo e deu lugar ao armador Barbiéri, com Cilinho sendo avançado para a ponta. O Flamengo seguiu trocando passes procurando encurralar o Bugre em seu próprio campo, esperando uma brecha na defesa adversária. Ela surgiu primeiro aos 28 minutos, quando Leonardo foi acionado na esquerda e cruzou alto. Sérgio Néri espalmou, a bola sobrou na outra ponta para Xande, que cruzou de novo. A defesa rebateu, e Luvanor pegou na corrida, da entrada da área, enchendo o pé. Mas a bola foi para fora, a milímetros da trave.

E surgiu de novo aos 35 minutos, quando Darío Pereyra apanhou o rebote de mais um ataque rubro-negro e, da intermediária ofensiva, fez o lançamento para Leonardo na ponta-esquerda. O camisa 4 do Flamengo deu um lindo chapéu no lateral Marquinhos, mas levou um rapa de Neto, quase na linha lateral da grande área, e o árbitro apitou a falta. Zico bateu à meia altura, Zinho desviou, Sérgio Néri deu rebote e, na confusão, Sérgio Araújo tocou para as redes. Era o empate merecido. E o quarto gol do recém-chegado ponta em quatro jogos.

O gol rubro-negro fazia até o sol sair em Campinas, depois de um fim de semana inteiro nublado e chuvoso, motivo do gramado pesado do Brinco de Ouro. Mas antes do intervalo, o Fla ainda levou um susto, numa falta cobrada por Neto na área e mal espanada por Leonardo, mas Zé Carlos apareceu para bloquear a finalização de Careca. O primeiro tempo terminou empatado, com o jogo em aberto, mas o Flamengo tendo o domínio territorial da partida.

FLA DESLANCHA NO SEGUNDO TEMPO

Na volta para o segundo tempo, foi a vez do Flamengo perder uma peça importante logo no início. Leonardo, uma das principais armas ofensivas de Telê Santana, dividiu com Careca na lateral e sentiu o joelho. Ficou mais alguns minutos em campo, antes de dar lugar a Paulo César. Antes disso, houve tempo de o Guarani assustar em cobranças de falta, com Neto batendo rasteiro, queimando grama, para boa encaixada de Zé Carlos.

E houve tempo de o Flamengo encaixar três belos lances. Primeiro, o lançamento primoroso de Zico encontrando Sérgio Araújo na intermediária bugrina para sofrer falta marcada pelo árbitro. Depois, a cobrança de Zinho com curva, furando a barreira e indo no canto, exigindo boa defesa de Sérgio Néri, espalmando para escanteio. E quase na sequência, depois do córner, veio a jogada do gol da virada rubro-negra, aos 10 minutos.

Após uma bola espirrada na defesa, Xande bateu lateral para Zinho, que reteve a bola e devolveu ao camisa 2, que adiantou para Luvanor. O meia venceu a marcação de Marco Antônio Boiadeiro na corrida e foi à linha de fundo, cruzando alto para a área. Com um tempo de bola perfeito, Zico pulou e cabeceou firme na direção do gol, no contrapé de Sérgio Néri. Era o primeiro gol do Galinho naquele Brasileiro, num momento fundamental para o time no jogo.

O Guarani voltou a assustar numa cabeçada de Boiadeiro após cobrança de escanteio venenosa de Neto. Precisando partir para cima, Eli Carlos mexeu no time: trocou o lateral Marquinhos pelo centroavante Marco Aurélio, abrindo Cilinho e Careca pelas pontas. Em mais uma cobrança de falta de Neto, Vágner cabeceou com perigo. O Bugre ia ao ataque, mas também se expunha. E o Flamengo se aproveitaria disso com requintes de crueldade.

Zinho, outro com ótima atuação, é travado pelo zagueiro Vágner.

Aos 27, houve uma falta para o Guarani na ponta esquerda. Neto bateu, a zaga afastou e a bola sobrou para Sérgio Araújo na intermediária defensiva. Com o time do Guarani todo à frente, o ponta arrancou empurrado pelos gritos de Telê. Ultrapassou a linha divisória e entregou a bola para Zinho, vindo pelo meio. Quando o goleiro Sérgio Néri, desesperado, deixou a área, o camisa 11 passou para Alcindo, que dominou e fuzilou para a meta vazia. Era o terceiro gol.

Dois minutos depois, Sérgio Araújo desceu pela ponta e tentou a inversão de jogo, mas Boiadeiro cortou o lance com a mão, e o árbitro marcou a falta. Zico levantou a bola na segunda trave, Aldair cabeceou, Sérgio Néri espalmou e a bola acertou o travessão. No rebote, Alcindo cruzou de volta de bicicleta e, de novo, Aldair apareceu num peixinho para mandar a bola às redes. Já virava goleada. Só que para o outro lado, o rubro-negro, ao contrário do que se previa.

A essa altura, Zé Carlos já levava a melhor em todas as cobranças de falta de Neto, esbanjando confiança e segurança. E mesmo o garoto Xande, a maior preocupação na escalação rubro-negra, fazia uma grande partida. Enquanto isso, nas arquibancadas, a torcida do Flamengo – a única a continuar gritando – pedia “mais um”. E ele quase veio aos 40, quando Zico recebeu reposição do goleiro e lançou Sérgio Araújo nas costas da defesa. O ponta arrancou, limpou a marcação e bateu para a defesa de Sérgio Néri. Na sobra, Zinho perdeu a chance com o gol aberto.

A recompensa veio, enfim, dois minutos depois. Alcindo aproveitou um passe displicente de Barbiéri, e esticou na frente para Zinho. O camisa 11 limpou o zagueiro e tocou rasteiro na saída do goleiro bugrino. Era o quinto gol de um Flamengo impiedoso, letal. A equipe que havia feito apenas oito gols nos oito primeiros jogos fazia cinco de uma vez só, e na casa do forte adversário – que, por sua vez, tinha até então a defesa menos vazada. Difícil imaginar uma estreia mais perfeita do que aquela para Telê no comando rubro-negro.

APÓS A GOLEADA

O novo técnico do Fla, aliás, chegou a considerar o resultado “anormal”, mas não se furtou a distribuir sorrisos diante do resultado e da atuação da equipe. A classificação, porém, dependia de uma sequência de vitórias no tempo normal. Na partida seguinte, o time bateu o Criciúma por 3 a 0 no Maracanã em atuação espetacular de Zico. Depois, empatou seus dois últimos jogos no turno, contra Cruzeiro no Mineirão (no qual teve pênalti claro não marcado) e Coritiba no Couto Pereira, vencendo o primeiro e perdendo o segundo nos pênaltis.

Sem obter a vaga, o time precisaria jogar todas as suas fichas no segundo turno, mas a campanha começou mal, e o time foi descartado da briga pela classificação na quinta rodada, ao perder para o Vitória em pleno Maracanã. Até ali, havia somado apenas quatro pontos em 15 possíveis, tendo derrotado apenas o Sport em casa (2 a 1). A arrancada viria nos seis últimos jogos, com 16 pontos ganhos em 18 possíveis. Na última rodada, uma vitória sobre o Atlético-MG no Maracanã aliada a um empate do São Paulo contra o Goiás no Morumbi colocou o Fla nas quartas.

Infelizmente, a possibilidade de a arrancada final se converter em outro título nacional acabou prejudicada pelo calendário. Entre a fase classificatória e o mata-mata houve longa pausa para o período de férias dos jogadores – o jogo contra o Atlético-MG aconteceu em 18 de dezembro, e o Fla só voltaria a campo nas quartas em 28 de janeiro de 1989. Com isso, o time perdeu o embalo (embora contasse com o retorno de alguns jogadores lesionados) e acabou eliminado pelo Grêmio com um empate no Olímpico (0 a 0) e uma derrota no Maracanã (1 a 0).

Mas a exibição memorável daquela tarde há 30 anos em Campinas, goleando de modo arrasador um adversário forte dentro de seus próprios domínios depois de um susto inicial, permanece como uma das grandes atuações do Flamengo naquele campeonato e naquele ano. E um dos grandes momentos de Telê no comando rubro-negro.

Os 70 anos do ponta Arílson, prata da casa e ídolo de jovens rubro-negros em seu tempo

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A magia que existe no surgimento e na afirmação de um jogador criado no próprio clube, o chamado “prata da casa”, se dá pela identificação do jovem torcedor com sua trajetória e sua admiração por ela. Quantas crianças e adolescentes rubro-negros já não se projetaram no craque que despontava, como se o jogador fosse um deles, que saísse das peladas de rua direto para brilhar no Maracanã, realizando esse sonho tão popular quanto o Flamengo?

Arílson, ponta-esquerda rubro-negro das décadas de 1960 e 1970 que completa 70 anos nesta quinta-feira, foi, em seu tempo, um desses jovens craques com quem a multidão de moleques se identificou. Atacante habilidoso, de drible fácil, que o tempo transformou num jogador solidário, incansável. Que fez gol que valeu taça ao Flamengo e chegou à Seleção Brasileira. E que tem sua história com o Manto Sagrado contada aqui.

O INÍCIO

Nascido em Bonsucesso e criado na Ilha do Governador, Arílson Pedro dos Santos começou a jogar nos campinhos de terra batida que haviam no extinto bairro Itacolomi, na Ilha (hoje engolido pelas obras de expansão do aeroporto do Galeão), e logo chegou à base da Portuguesa carioca, firmando-se na ponta-esquerda com seu futebol de habilidade e dribles. Em 1965, o Flamengo pagou dez milhões de cruzeiros e o levou para sua equipe de juvenis.

No ano seguinte, formava uma promissora linha ofensiva na base ao lado do ponta-direita Zequinha (mais tarde negociado com o Botafogo), o meia Rodrigues Neto (que passaria por várias posições até ser fixado na lateral-esquerda), o centroavante Dionísio (um de seus grandes companheiros no clube) e o ponta-de-lança Luís Carlos (que depois seguiria para o Vasco).

Arílson na base: o último agachado, da esquerda para a direita. Também na foto, o goleiro Ubirajara Alcântara, o futuro lateral Rodrigues Neto (penúltimo em pé) e o atacante e futuro técnico Jair Pereira (penúltimo agachado).

No início de 1967, Arílson foi convocado pelo técnico Zagallo para a seleção carioca juvenil que jogaria o brasileiro da categoria em Belo Horizonte. Na apresentação dos atletas, o repórter José Castelo, do Jornal dos Sports, assim definia seu futebol: “É esperança rubro-negra para 1967 e da própria seleção carioca com vistas ao penta brasileiro. Titular, tem a velocidade, o drible fácil e a potência de chute, qualidades exigidas de um bom ponteiro”.

Considerado então um jogador-chave nos juvenis do clube, Arílson tinha praticamente certa a sua promoção ao time de cima para o lugar do veterano Osvaldo “Ponte Aérea”, em vias de deixar a Gávea e retornar ao futebol paulista de onde viera. Mas na metade do campeonato da categoria de base, o garoto sofreu uma violenta entorse no tornozelo direito que o tirou de ação por vários meses, adiando seu melhor aproveitamento.

Arílson disputa o lance com Jairzinho: técnica e dedicação.

Mesmo assim, de pé gessado, vestiria a faixa de campeão carioca de juvenis em junho. A lesão e as frequentes trocas de comando no time de cima foram minando as chances do garoto. Chegou a treinar como lateral e a ser oferecido como moeda de troca na tentativa de contratação do veterano ponteiro Dorval, ex-Santos, que estava no Atlético-PR. Só no fim de 1968, durante o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ele ganharia uma certa sequência na equipe – retribuída com passes e assistências, aparecendo bem apesar da campanha fraca do Fla.

Sua virada aconteceria pelas mãos do técnico Tim. O experiente treinador, que chegou ao Fla no início de 1969, transformou o ponta o qual considerava indisciplinado taticamente – embora de inegável talento individual – num jogador solidário, que se sacrificava pelo time. Assim, Arílson passou a ajudar a preencher o meio-campo e ajudar na cobertura do lateral, e ao mesmo tempo, aparecer mais bem colocado na frente para dar passes e até marcar mais gols.

A GRANDE VIRADA

Seu futebol cresceu a olhos vistos, e ele viveu a primeira grande fase da carreira, senão a melhor. O ano começara com uma excursão ao Suriname e ao Pará e Amazonas, nas quais o Flamengo levava como atração o velho Mané Garrincha, 35 anos, contratado em novembro do ano anterior. Arílson, na outra ponta, fez bons jogos e alguns gols, mantendo o crédito conquistado pelas atuações no Robertão, mas sofreu uma distensão na coxa no fim de março, perdendo parte do turno do Carioca, em que o Fla acumulou alguns tropeços.

O Flamengo no Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme, Paulo Henrique e Jayme de Carvalho, fundador da Charanga. Agachados: Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

Sua volta coincidiu com a recuperação da equipe na competição. Voltou aos titulares no Fla-Flu de 1º de maio, pela nona rodada do turno, que terminou num empate sem gols. Dali em diante, o Fla enfileiraria seis vitórias consecutivas, passando a brigar pelo título. A série começou com um 4 a 1 diante da Portuguesa, com Arílson fechando o placar na sua velha conhecida Ilha do Governador. O time ainda bateu o Vasco por categóricos 3 a 0, derrotou o America e enfim se vingou do Bonsucesso, sensação da época, o qual não derrotava há três jogos.

Mas o jogo mais simbólico e marcante foi a vitória diante do Botafogo, em 1º de junho. Há quatro anos o Flamengo não derrotava o rival pelo Campeonato Carioca. Mas Tim havia preparado uma arapuca tática para os alvinegros. Antes do jogo começar, um presságio: dois torcedores rubro-negros soltaram um urubu que sobrevoou o Maracanã diante do êxtase e da incredulidade gerais. Na época, o termo “urubu” era frequentemente usado pelos rivais para tratar a massa flamenga, composta em sua maioria por negros e pobres, moradores dos subúrbios e favelas, de forma pejorativa.

Em campo, o tabu começou a cair graças a Arílson, logo aos nove minutos: Doval cruzou da direita, Dionísio chutou, o goleiro Ubirajara Mota não conseguiu segurar, e o ponta-esquerda pegou o rebote e mandou para as redes. Mais tarde, aos 23, Doval recebeu de Rodrigues Neto e marcou o segundo gol rubro-negro. O Botafogo descontou num gol de pênalti de Paulo César Caju no segundo tempo e partiu para a pressão, mas o Fla segurou a vitória bravamente. E o urubu acabou definitivamente adotado como símbolo do clube.

O Flamengo não levaria o estadual, porém: perderia a chance de título ao ser derrotado pelo Fluminense por 3 a 2 na penúltima rodada do returno, em jogo da polêmica expulsão do goleiro argentino Rogelio Domínguez. Mas aquela equipe renovada, com Liminha e Rodrigues Neto no meio, mais a linha de frente com Doval (trazido durante o torneio), Dionísio, Fio (ou Luís Cláudio) e Arílson, havia mostrado um futebol empolgante, de velocidade, técnica e muita luta.

Passado o Carioca, no entanto, os bons ventos foram se dissipando e, no Robertão, o Flamengo voltou a fazer campanha fraca. Arílson, porém, seguia em alta: estava em campo nas três vitórias do time no torneio e, em duas delas (ambas no Maracanã), balançou as redes: abriu o placar nos 2 a 1 diante do futuro campeão Palmeiras e anotou o gol de empate que impulsionaria a vitória de virada sobre o Vasco por 3 a 1. O terceiro triunfo viria diante do Internacional no recém-inaugurado estádio Beira Rio por 2 a 1.

Considerado muito permissivo do ponto de vista disciplinar pela diretoria rubro-negra (ainda que taticamente brilhante), Tim não continuou no comando do time para 1970. Seu sucessor foi seu oposto radical: Yustrich, ex-goleiro rubro-negro nos anos 30 e 40, treinador da linha dura, mas sem a mesma argúcia tática. Para Arílson, a troca não influiu em seu futebol. Pelo contrário: de início, ele se entendeu bem com o novo técnico e manteve o bom desempenho.

NO AUGE, A SELEÇÃO E O MAIOR DRAMA

Com efeito, Arílson começou o ano de 1970 voando. Fez o primeiro gol do time na temporada, no empate em 1 a 1 com o América-MG num amistoso em Belo Horizonte. E fez três partidas memoráveis no Torneio Internacional de Verão, quadrangular conquistado pelo Fla em fevereiro. Na estreia, uma folgada goleada de 4 a 1 sobre a seleção da Romênia, ele marcou dois gols – um em cobrança de falta na gaveta e outro numa inteligente tabela com Dionísio – e arrancou muitos aplausos entusiasmados da crônica esportiva, como na avaliação do Jornal dos Sports:

O time do Fla que derrotou o Vasco no Torneio Internacional de Verão de 1970. Em pé: Murilo, Sidnei, Washington, Tinho, Zanata e Tinteiro. Agachados: Doval, Liminha, Dionísio, Fio e Arílson.

“Arílson começou o jogo como se fosse um pugilista a estudar os pontos fracos de seu adversário. Plantado no meio-campo, dominava a bola e fazia lançamentos para Fio e Dionísio. Depois de meia hora de jogo e principalmente do gol de empate, feito por ele próprio, veio um verdadeiro show de bola do ponteiro esquerdo. Ele fez de tudo em campo. Seu gol de falta foi um primor. E seu segundo gol, o último do Flamengo, foi de placa. Arílson correu o campo todo. Deu combate na defesa, lutou como nunca no meio-campo, cobriu seus companheiros, deu o passe para o gol de Doval e fez os dele. Foi o dono do jogo, o melhor de todos no campo”, escreveu o JS.

No segundo jogo, outro massacre: 6 a 1 diante do forte Independiente, da Argentina. Arílson não balançou as redes, mas fez um lindo lançamento para Dionísio anotar o terceiro gol e foi apontado como o melhor do ataque pela imprensa, por sua eficiência e facilidade de jogar. E no terceiro, a vitória por 2 a 0 sobre o Vasco que valeu o título, o ponta criou com Dionísio a jogada do primeiro gol, marcado por Liminha, e anotou ele mesmo o segundo, cabeceando cruzamento de Ademir da direita, sendo novamente escolhido o destaque.

Bastante elogiado também por treinadores de outras equipes que compareceram ao Maracanã para observar o torneio, Arílson caiu também nas graças de Zagallo, que em 18 de março daquele ano substituiria João Saldanha no comando da Seleção Brasileira. Ele próprio um ex-ponta-esquerda rubro-negro e de estilo algo semelhante ao do jovem talento de 21 anos, o treinador surpreendeu ao incluí-lo, logo no dia seguinte ao que assumiu o cargo, na convocação de cinco novos nomes para os treinos de início de preparação para a Copa do Mundo do México.

Carteado na concentração da Seleção em 1970: Arílson ao centro, ladeado por Carlos Alberto Torres, Gerson, Félix, Fontana e Piazza.

Disputando um espaço com os mais experientes Paulo Cézar “Caju” e Edu, Arílson representava um meio-termo entre o estilo de ponta recuado, mais armador, do botafoguense e o jogo mais veloz e ofensivo do santista. Porém, teve poucas chances de mostrar seu jogo. Nas semanas em que treinou com a Seleção, disputou apenas dois amistosos não oficiais por uma equipe B (contra a seleção amazonense B e o Olaria) e atuou até fora de sua posição, prejudicando sua observação. Acabou cortado em 27 de abril, a dois dias do amistoso contra a Áustria no Maracanã.

Reintegrado ao Flamengo, reforçou o time na reta final da Taça Guanabara, na época ainda um torneio separado do Estadual – e naquele ano disputada em três turnos, estendendo-se de março a maio. Arílson chegou às vésperas do turno final, quando a equipe encaminhou o título batendo Vasco (2 a 0), Bangu (3 a 1, com dois gols seus), Botafogo (2 a 1) e America (2 a 0), finalizando com um empate em 1 a 1 diante do Fluminense que valeu o ponto necessário para a confirmação da conquista. Só que, em meio à festa, começava um drama.

O time que conquistou a Taça Guanabara de 1970, a primeira da história do clube. Em pé: Murilo, Adão, Washington, Tinho, Zanata e Paulo Henrique. Agachados: Ademir, Liminha, Adãozinho, Fio e Arílson.

Durante o jogo, Arílson dividiu uma bola com o lateral tricolor Oliveira e levou a pior, mas seguiu no jogo. Mais tarde descobriria: havia estourado os meniscos do joelho esquerdo. Veio então uma primeira cirurgia, que o deixou de molho por vários meses, com o mineiro Caldeira, trazido por Yustrich de suas andanças pelo futebol daquele estado, ocupando seu lugar na ponta-esquerda. O Fla fez um Carioca decepcionante, mas se recuperou com uma boa campanha no Robertão – e Arílson assistia a tudo de um leito hospitalar.

Foi quando, ao tentar voltar, o ponteiro descobriu que havia sido operado do menisco errado – o interno, em vez do problemático externo. Foi um escândalo, que o levou novamente à mesa de operação em janeiro de 1971 e o tirou de ação por mais alguns meses, interrompendo seu auge de forma abrupta. Voltou no fim de maio, na reta final do Carioca, com boas atuações, embora naquele momento a equipe já estivesse afastada da disputa pelo título.

RECUPERADO, MAS SEM LUGAR CATIVO NO TIME

Arílson fez o gol no 1 a 0 sobre o America em 6 de junho e participou de outro jogo memorável contra o Botafogo, uma semana depois, quando o Fla venceu por 2 a 0 (gols de Buião), quebrou a invencibilidade do rival que vinha desde o início do campeonato e ajudou a tirar o título quase ganho do time da Estrela Solitária. Mas os problemas físicos voltaram a tirá-lo do time. Só no fim de outubro, já na reta final do Brasileiro, é que ele voltou a ter sequência. Marcou o único gol numa vitória sobre o Ceará em Fortaleza e se mostrou pronto para resgatar a titularidade.

De camisa branca, o time do Fla para o início da temporada 1972. Em pé: Aloísio, Ubirajara, Fred, Reyes, Liminha e Rodrigues Neto. Agachados: Rogério, Doval, Fio, Paulo Cézar Caju e Arílson.

Só que o time seria bastante remodelado para 1972 buscando apagar a desastrosa temporada anterior. A começar pela chegada de Zagallo, técnico da Seleção, para sua primeira passagem como treinador rubro-negro. Doval retornou de seu exílio por empréstimo ao Huracán argentino (para onde fora após brigar com Yustrich) e Caio, do America. O goleiro Renato, cria da Gávea, retornava comprado ao clube após ter sido campeão brasileiro com o Atlético-MG no ano anterior. O volante Zé Mário, destaque do Bonsucesso, também foi contratado. E jogadores recuperados de lesões sérias, como Zanata e Dionísio, voltavam a treinar.

Mas a maior contratação para aquele ano impactaria decisivamente nas ambições de Arílson: nada menos que Paulo Cézar Lima, com quem o rubro-negro havia disputado posição na Seleção em 1970. De início, os dois chegaram a jogar juntos, com o novo reforço atuando na ponta de lança, tendo ainda Caio e o ponteiro Rogério completando o ataque. Arílson chegou a marcar o gol da vitória de 1 a 0 sobre o Santos de Pelé em amistoso no Maracanã.

Mas com a confirmação do retorno de Doval, o “Caju” foi deslocado para a ponta, e Arílson acabou sacado do time, sem entrar em campo nenhuma vez ao longo da campanha vitoriosa na Taça Guanabara de 1972 (pela primeira vez valendo como turno do Carioca). Depois de já ter vencido também o Torneio Internacional de Verão e o Torneio do Povo no início do ano, o Fla se sagraria campeão estadual em setembro, mas Arílson jogaria apenas sete partidas.

O elenco posa na Gávea com as faixas de campeão carioca de 1972. Arílson é o primeiro no chão, da esquerda para a direita.

EM 1973, O GOL DO TÍTULO DA TAÇA GUANABARA

No Brasileiro, quando o Flamengo teve maior necessidade de rodar o elenco pelo desgaste com viagens e jogos a cada três dias, Arílson atuou em 16 das 28 partidas do time (sendo 11 como titular) e marcou dois gols – um deles, o da vitória de virada sobre o Vasco por 2 a 1. E seria em outra vitória diante dos mesmos cruzmaltinos que o ponta-esquerda entraria de vez para a história rubro-negra: a decisão da Taça Guanabara de 1973.

Flamengo e Vasco chegavam à última rodada do turno empatados em pontos, ambos invictos, com oito vitórias e dois empates. Caso o confronto direto também terminasse em igualdade, um jogo extra decidiria o título. Mas a expectativa era grande para o duelo daquele domingo, 6 de maio. Tanto que mais de 160 mil pagantes passaram pelas bilheterias do Maracanã. Arílson, que havia sofrido entrada dura do tricolor Denílson no Fla-Flu da rodada anterior, era dúvida no time do Fla devido a uma entorse na perna esquerda. Mas foi confirmado naquele dia.

O jogo seguiu equilibrado até os 30 minutos, quando Dario, o “Dadá Maravilha”, cruzou rasteiro para a entrada da área do Vasco. O ex-rubro-negro Zanata, que trocara a Gávea por São Januário no início daquele ano, dominou a bola de início, mas escorregou. Arílson se aproveitou e invadiu pela esquerda, batendo cruzado na saída de Andrada para marcar o único gol do jogo, o que valeu ao Fla o bicampeonato da Taça e a vaga na decisão do Carioca.

Aquela, porém, seria a última alegria daquele ano para o jogador e para o clube: logo depois do turno, houve uma longa pausa no campeonato para excursão da Seleção. Quando os jogos recomeçaram, os rubro-negros haviam perdido o embalo, e Arílson voltaria a entrar e sair da equipe. O Fla perderia a final do Carioca para o Fluminense, com o atacante entrando durante o jogo no lugar do ponteiro direito Vicentinho. No Brasileiro, Arílson fez apenas sete jogos, com o Fla cumprindo uma de suas piores campanhas na história da competição.

Mas com a virada do ano, as coisas melhorariam: preparando a Seleção para a Copa de 1974, Zagallo deixaria o time nas mãos do auxiliar Joubert. Alguns medalhões do ano anterior seriam dispensados ou menos utilizados, abrindo espaço para bons valores dos juvenis. Foi quando jogadores como Zico, Geraldo e Rondinelli se firmaram. E Arílson voltou a viver boa fase: titular de um Fla que fez ótima campanha na primeira fase (a segunda melhor entre 40 clubes), antes de sucumbir a desfalques na reta final, o ponteiro balançou a rede quatro vezes.

Seu último campeonato com a camisa rubro-negra seria o Carioca daquele ano, disputado no segundo semestre – e conquistado pelo Flamengo. Arílson disputaria apenas seis partidas, antes de parar até o fim do ano devido a uma fratura de clavícula. No ano seguinte, deixaria a Gávea seguindo para o Corinthians, onde não teria muitas chances. De lá, voltaria ao estado do Rio defendendo o Americano e o Volta Redonda, onde pendurou as chuteiras.

Muito tempo depois, Arílson foi chamado para trabalhar no Flamengo como olheiro e treinador da base. Durante quase 20 anos tornou real o sonho de outros garotos rubro-negros de se tornarem jogadores profissionais. Porque é preciso alimentar o ciclo para que a magia da identificação perdure.

Há 50 anos, Flamengo batia campeão mundial e faturava taça no Marrocos

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O mesmo time que derrotou o Racing no Marrocos posa no Maracanã. Em pé: Murilo, Claudinei, Onça, Rodrigues Neto, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: Cardosinho, Liminha, Luís Cláudio, Silva e Diogo.

Uma das mais belas e impressionantes taças conquistadas pelo Flamengo em sua história, o Troféu Mohamed V foi levantado há exatos 50 anos em Casablanca, no Marrocos, com uma vitória de grande peso: para ficar com ele, os rubro-negros precisaram derrotar na decisão, num jogo intensamente disputado, os argentinos do Racing, que na época ostentavam nada menos que o título de campeões mundiais interclubes.

O troféu vencido pelo Fla foi disputado anualmente (com poucas interrupções) entre 1962 e 1980, retornando sob o nome de Torneio de Casablanca para mais três derradeiras edições em 1986, 1988 e 1989. Era batizado em homenagem ao monarca marroquino que negociara com os franceses a independência do país em 1956 e que falecera um ano antes da criação da competição. Dentre os famosos torneios de verão realizados continuamente no hemisfério norte, tinha o diferencial de ser o único no continente africano.

Ao longo de sua história, contou com a participação de gigantes do futebol mundial, como Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Bayern de Munique, Inter de Milão, Boca Juniors e Peñarol, o que evidencia seu prestígio. Quatro clubes brasileiros fazem parte deste seleto grupo: Flamengo, São Paulo, Internacional e Grêmio. Porém, só os rubro-negros tiveram a honra de levantar a enorme e imponente taça oferecida.

O torneio concluiria a rota da excursão internacional iniciada pelo Flamengo em meados de agosto de 1968. A primeira parada havia sido na Espanha, onde o clube disputou o Troféu Joan Gamper, promovido pelo Barcelona no estádio Camp Nou. Depois de derrotar o Athletic Bilbao na semifinal por 1 a 0 com um gol de bicicleta do atacante Silva “Batuta”, os rubro-negros acabaram derrotados pelos donos da casa por 5 a 4 num jogo maluco.

Em seguida, a delegação seguiu para La Coruña, onde participou da primeira edição do Torneio Conde de Fenosa, disputando apenas uma partida, uma derrota de 2 a 0 para o Racing argentino. De lá, os rubro-negros cruzaram a fronteira portuguesa e foram para Lisboa, onde tiveram como adversário o tradicional Belenenses, no estádio do Restelo, em jogo válido pelo troféu de mesmo nome. A taça foi arrematada para a Gávea com uma vitória por 3 a 2.

O ÚLTIMO TORNEIO DA EXCURSÃO

Comandado pelo baiano Válter Miraglia, ex-meio-campo do time nos anos 40 e 50 e ex-técnico da base, o Flamengo chegou ao Marrocos para a disputa do último troféu com dois desfalques: o zagueiro uruguaio Manicera tinha um estiramento muscular no adutor esquerdo, enquanto o ponta-de-lança Fio estava vetado por uma fissura no dedo mínimo do pé esquerdo. Assim, o esforçado Guilherme, ex-Campo Grande, entrava na zaga e o meio-campo paraguaio Reyes era improvisado numa posição mais avançada, encostando nos atacantes.

De resto, o time escalado para a partida de estreia contra o time marroquino do FAR Rabat incluía o goleiro Marco Aurélio, os históricos laterais Murilo e Paulo Henrique, o quarto-zagueiro baiano Onça, o clássico volante Carlinhos “Violino” e o dínamo Liminha no meio, o ponta-direita Néviton, também baiano, o camisa 10 Silva “Batuta” e o jovem curinga Rodrigues Neto, então na ponta-esquerda, ajudando a compor o meio-campo.

Além de ter a torcida local a seu favor no Estádio Marcel Cerdan, o time do FAR (sigla para Real Força Aérea) contava com vários jogadores que integrariam a seleção marroquina a qual disputaria a Copa do Mundo do México dali a menos de dois anos: o goleiro Allal Ben Kassou, os defensores Lamrani, Fadili e Benkhrif, os meias Maaroufi e Bamous e o atacante El Khiati. E atuaria diante do rei do Marrocos, Hassan II, filho de Mohammed V.

O Flamengo, no entanto, é que abriria o placar com Liminha aos 15 minutos. O FAR reagiria, mostrando um futebol veloz e aguerrido, empatando aos 34 minutos com Maaroufi e criando chances para virar o placar. O Fla conseguiu se segurar e voltou mais objetivo para a etapa final. Pressionou durante quase todo o segundo tempo a defesa local, mas só conseguiu marcar o gol da classificação aos 40 minutos, com Silva.

Antes disso, no entanto, a influência de Hassan II já havia interferido no andamento da partida, num lance curioso. Com o placar em 1 a 1, a bola saiu pela lateral num ataque do Flamengo, sendo devolvida por um jogador do banco de reservas rubro-negro a Paulo Henrique antes da chegada do gandula. Silva recebeu a cobrança rápida, driblou seu marcador e chutou da quina da área, vencendo o goleiro.

Mas o rei não concordou e obrigou o árbitro (também marroquino) a anular o lance, no que surpreendentemente foi atendido. Quando a nova saída estava para ser dada, o juiz foi avisado do desagrado do monarca e invalidou o lance, voltando atrás e apontando tiro de meta para o FAR. Mas não adiantou: no fim, a vitória acabou mesmo com o Fla. E o adversário na decisão seria o Racing, que bateu o Saint Étienne por 1 a 0, gol de Salomone, na outra semifinal.

A DECISÃO

O time argentino era a grande estrela do torneio. E não era para menos: tratava-se do campeão da Taça Libertadores da América do ano anterior e, na ocasião, ainda detentor do título mundial interclubes, quando derrotou numa decisão em três jogos a lendária equipe do Celtic, da Escócia, campeã europeia. A equipe dirigida por Juan José Pizzutti também chegava aclamada pelos resultados obtidos e pelo futebol de primeira linha apresentado em sua excursão.

No elenco racinguista, nomes históricos do futebol argentino, como o goleiro Agustín Cejas, os meias Juan Carlos Rulli e Enrique “Quique” Wolff e o atacante Humberto Maschio, além de outros que marcaram época no clube, como os atacantes Jaime Martinolli, Juan Carlos Cárdenas e Roberto Salomone. Um time experiente e bastante técnico, um legítimo campeão do mundo.

Em relação ao time que venceu o FAR, o Flamengo apresentou algumas mudanças, justificadas em parte pelo cansaço da maratona da excursão. Claudinei entrou no gol no posto de Marco Aurélio. No meio, Cardosinho – armador trazido do interior paulista junto com Liminha – ganhava uma chance ao lado de seu antigo colega, na vaga de Carlinhos. Na frente, o habilidoso ponta-de-lança Luís Cláudio, ex-Santos, e o atacante Diogo, ex-Prudentina, substituíam Néviton e Reyes.

Mesmo com alguns jogadores mais descansados, o Fla logo viu o Racing tomar conta do jogo e abrir o placar aos cinco minutos, com Marcos Cominelli arrematando um centro de Cárdenas. Ao longo da primeira etapa, aos poucos os rubro-negros conseguiram se recolocar na partida e foram premiados com o empate um minuto antes do intervalo: Cejas saiu em falso em um cruzamento, e Luís Cláudio chutou para o gol vazio, igualando o marcador.

O jogo recomeçou equilibrado na etapa final, mas aos 23 minutos o Fla passou à frente num chute de Liminha que surpreendeu Cejas. Com o Racing tonto, Silva ampliou aos 30 em grande jogada individual, passando por dois defensores antes de finalizar. O time argentino só conseguiu se reorganizar já perto do fim do jogo e descontou aos 40 com o ponteiro Salomone. Mas os rubro-negros seguraram a vantagem e confirmaram o triunfo sobre os campeões mundiais, que valeu também como o troco da derrota em La Coruña.

Ao fim do jogo, o rei Hassan II desceu das tribunas para entregar a taça ao capitão Paulo Henrique, que recebeu o troféu sob aplausos entusiasmados do público marroquino e enquanto uma banda marcial entrava em campo tocando um tema comemorativo da conquista. A delegação rubro-negra retornou ao Rio dois dias depois, recepcionada pela torcida no aeroporto do Galeão e exibindo a enorme taça, trabalhada em ouro e prata. Uma taça digna do feito de derrotar um campeão do mundo.

Silva, camisa 10 rubro-negro, exibe a taça no desembarque no Galeão.

Contra tudo e todos: Há 40 anos, Fla sem Zico derrotava o Real Madrid e o juiz

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Fosse outro clube, talvez tivesse sucumbido, amarelado, até tirado seu time de campo. Eram oito contra 11, ou contra 12, se contarmos Vossa Senhoria, mais um do lado adversário. Oito que conseguiram segurar, com garra fora do comum, uma vitória épica construída com brilhantismo na primeira etapa, o que até a imprensa local reconheceu e saudou. Uma vitória daquelas que merecem ser contadas e recontadas, geração após geração.

Há 40 anos, em 19 de agosto de 1978, mesmo desfalcado de Zico, o Flamengo vencia um dos jogos mais memoráveis de sua história, ao bater o poderoso Real Madrid por 2 a 1 na Espanha – num jogo em que teve três jogadores, o técnico Cláudio Coutinho e todo o banco de reservas expulsos por uma arbitragem absurdamente caseira – e levantar o Troféu Ciutat de Palma, em Mallorca.

TEMPO DE REDEFINIÇÕES

Em meados de 1978, o Flamengo vivia um impasse. Embora contasse com o mais novo superastro do futebol brasileiro, Zico, não levantava um troféu de grande relevância desde dezembro de 1974, quando conquistara o Campeonato Carioca. A Frente Ampla pelo Flamengo (FAF), grupo político que ganhara as eleições no fim de 1976 alçando Márcio Braga à presidência, prometia revolucionar o clube, mas ainda não havia convertido seu modelo de administração em títulos.

As duas últimas ocasiões em que o time andou perto de levantar um troféu haviam sido perdidas em jogos extras decididos de maneira dramática nos pênaltis diante do Vasco: a Taça Guanabara de 1976 e o segundo turno do Campeonato Carioca de 1977 – que teria colocado os rubro-negros na decisão da competição diante dos cruzmaltinos. No Brasileiro de 1977, depois de fazer boa campanha nas duas primeiras fases, o desempenho caiu vertiginosamente na terceira. Mas na edição seguinte da competição, logo na sequência, os resultados seriam ainda piores.

Sem poder contar com Zico nem com o lateral-direito Toninho, cedidos para a Seleção Brasileira que se preparava para disputar a Copa do Mundo da Argentina, e também sem o técnico “titular” Cláudio Coutinho (de licença, pelo mesmo motivo), o Flamengo fez um Brasileiro de 1978 decepcionante, bem abaixo da expectativa, ficando apenas em 16º lugar entre os 74 participantes do mastodôntico campeonato. E uma das evidências apresentadas por aquela campanha irregular era a de que o elenco precisava ser fortalecido.

Uma escalação do Flamengo no Brasileiro de 1978. Em pé: Cantarele, Rondinelli, Ramírez, Dequinha, Júnior e Merica. Agachados: Júnior Brasília, Carpegiani, Tita, Adílio e Luís Paulo.

Não em quantidade: o treinador Joubert, ex-defensor rubro-negro nos anos 50 e 60, utilizara nada menos que 28 jogadores, quase três times inteiros, ao longo do torneio. A questão era a qualidade: além de inchado, o elenco era sensivelmente desnivelado, onde se misturavam jogadores de verdadeiro talento (feitos em casa ou trazidos de fora, como Carpegiani e Cláudio Adão) com outros que simplesmente não estavam à altura de defender o Flamengo.

APARANDO ARESTAS

Encerrada a Copa do Mundo e a participação do Flamengo no Brasileiro, Coutinho retornou ao comando da equipe rubro-negra com uma reputação a reconstruir. Uma faxina no elenco levou mais de uma dezena de jogadores a serem negociados, emprestados ou devolvidos à base. E reforços pontuais foram trazidos. Um deles, o veterano goleiro cruzeirense Raul, surpreendido com o anúncio da própria contratação, mas convencido diante da perspectiva imediata de embarcar para uma excursão europeia, na qual o clube disputaria alguns torneios de verão.

Dias depois de derrotar o Atlético-MG por 2 a 0 em amistoso no Mineirão, o time rubro-negro viajou para a Espanha levando quase todo o seu elenco para o segundo semestre, incluindo os novos contratados. Do próprio Galo vieram o meia Cléber e o atacante Marcinho. Do Cruzeiro, além de Raul, também aportaram os atacantes Tião e Eli Carlos (com o ponteiro Júnior Brasília seguindo para a Raposa). Do Bahia, chegou o meia Alberto Leguelé, trocado pelo volante Merica. Para a zaga, vieram Manguito, revelação do Olaria no Carioca do ano anterior, e o experiente Moisés, o “Xerife”, que retornava para sua segunda passagem pela Gávea, dez anos depois.

Ainda se recuperando de um estiramento sofrido durante a Copa, Zico ficou no Rio. Não participaria dos três torneios que o Fla disputaria na Europa – e em dois dos quais, curiosamente, enfrentaria rivais cariocas. Pelo Troféu Teresa Herrera, em La Coruña, venceria o Fluminense nos pênaltis após empate sem gols, no jogo que marcaria a estreia de Raul pelo clube. E pelo Torneio de Milão, o último da excursão, derrotaria o Botafogo por 2 a 0 no estádio San Siro. Entre os dois, haveria o Troféu Ciutat de Palma, realizado na cidade de Palma de Mallorca, nas Ilhas Baleares, costa leste espanhola, em 18 e 19 de agosto.

Quatro equipes participavam daquela décima edição do torneio: o Rayo Vallecano – pequeno clube de Madri promovido pela primeira vez à elite espanhola no ano anterior – e o RDWM (sigla para Racing White Daring Molenbeek) belga eram tidos como figurantes. O confronto que se aguardava para a decisão seria entre o Flamengo e o Real Madrid, detentor do título espanhol daquele ano com uma campanha espetacular: seis pontos à frente do vice Barcelona, o qual havia derrotado nos dois confrontos da liga (4 a 0 no Santiago Bernabéu e 3 a 2 no Camp Nou).

Nas semifinais, deu a lógica: em duas vitórias de virada, Fla e Real Madrid bateram Rayo Vallecano e o Molenbeek por 2 a 1 e 3 a 2, respectivamente, avançando para a final a ser jogada no dia seguinte, no estádio Lluís Sitjar. O time rubro-negro apresentou algumas alterações: Nélson entrou na zaga no lugar do improvisado Ramírez, Cléber ganhou a vaga do volante Jorge Luís no meio e Tita retornou à ponta-direita no lugar de Tião. Os demais titulares foram os mesmos da semifinal: Raul no gol, Toninho e Júnior nas laterais, Manguito na zaga, Carpegiani e Adílio no meio e Eli Carlos e Cláudio Adão na frente.

Além de seus três astros estrangeiros (o volante argentino Enrique “Quique” Wolff, o armador alemão Ulrich “Uli” Stielike e o ponta dinamarquês Henning Jensen), o Real Madrid dirigido por Luís Molowny contava com vários espanhóis tarimbados e de seleção, como o goleiro Miguel Ángel, os defensores Sol, San José e o veterano Pirri, o meia Vicente Del Bosque e o atacante Juanito. Mas o principal adversário rubro-negro não seria nenhum jogador merengue, e sim o árbitro Jesús Ausocúa Sanz, 43 anos, natural de Valladolid e que apitou na elite espanhola entre 1976 e 1982.

A VITÓRIA INESQUECÍVEL

A péssima atuação do juiz começou a ser notada logo aos sete minutos de jogo, quando Cléber recebeu lançamento em boa posição para marcar, mas Ausocúa Sanz apitou impedimento inexistente. Dois minutos depois, no entanto, ele não teve como anular a jogada do primeiro gol rubro-negro: Toninho recebeu de Tita e fez a jogada de ultrapassagem até a linha de fundo. De lá mesmo, cruzou forte para Cláudio Adão, que chutou para a defesa parcial de Miguel Ángel e pegou o rebote para estufar as redes.

Aos poucos, o Fla foi consolidando seu amplo domínio na partida e criou duas ótimas chances para ampliar o marcador aos 17, com Adílio e Tita. O Real, confuso, só chegou pela primeira vez com perigo aos 20 minutos graças à intervenção do árbitro: Jensen engatilhou uma bicicleta dentro da área rubro-negra e quase atingiu a cabeça de Manguito. Inexplicavelmente, Ausocúa Sanz assinalou tiro livre indireto contra o Fla, cobrado por Pirri por cima do gol.

Aos 37, pouco depois de Eli Carlos perder mais uma ótima oportunidade, Cléber ampliou para o Flamengo, apanhando rebote da defesa e chutando sem chances para Miguel Ángel. E só aos 40 o Real voltou a ameaçar, com Jensen exigindo grande defesa de Raul. A sensação, no entanto, era a de que o placar estava até barato para os merengues quando a partida foi para o intervalo, tal era a superioridade rubro-negra em todas as ações e todos os setores do campo.

Na crônica da partida escrita por José Damian González para o jornal madrilenho El País (que pode ser lida na íntegra aqui), a fantástica atuação rubro-negra na primeira etapa é destacada com palavras fortes: “O Flamengo, no primeiro tempo, havia oferecido uma bela lição de futebol (…). O virtuosismo dos jogadores do Flamengo provocou o mais claro ridículo dos brancos [madridistas]. A equipe de Coutinho mal deixou a de Molowny tocar na bola”, disse o texto, antes de passar a comentar a atuação do árbitro.

No intervalo, satisfeito com a exibição até ali, o treinador rubro-negro preparava a estratégia para a etapa final: “Estou com três jogadores descansados no banco. Prontinhos para entrar. Não mudarei o esquema. Vamos continuar marcando sob pressão e aumentar a cautela na defesa. Nossas jogadas de ataque estão surtindo efeito, mas é preciso não esquecer que o time do Real Madrid é perigoso. Toca a bola com maestria e, quando vai à frente, cria problemas”, observou Coutinho.

O técnico não contava, no entanto, com uma mudança radical no panorama da partida levada a cabo pelo senhor Ausocúa Sanz no segundo tempo. Com o Real Madrid partindo para uma pressão desordenada na etapa final, Aguilar foi lançado na área aos 12 minutos e Raul saiu para fazer a defesa aos seus pés. Mas o atacante merengue caiu, e o árbitro aproveitou a deixa para apitar um pênalti para lá de discutível. Eli Carlos reclamou da marcação e foi expulso. Aguillar cobrou a penalidade e descontou para os madridistas.

O Flamengo recuou para segurar o resultado, e o árbitro continuou a inverter faltas e distribuir cartões amarelos para os jogadores rubro-negros: Manguito, Júnior, Tita e Cláudio Adão foram punidos quase em sequência. Aos 18, Toninho bateu falta perto da área do Real, a bola desviou na barreira e saiu para escanteio. Ausocúa Sanz marcou tiro de meta. O lateral rubro-negro reclamou e também foi expulso de campo.

Para recompor a defesa, Tita foi substituído pelo lateral uruguaio Ramírez, mas esta foi a única alteração que Coutinho pôde fazer das três que programara. Aos 27 minutos, Cléber sofreu falta não marcada no campo de ataque, protestou e também recebeu o cartão vermelho. Revoltados, o treinador e todo o banco do Flamengo ameaçaram entrar em campo. Todos foram expulsos. O papelão do árbitro foi tão vergonhoso que a própria torcida local, que de início torcia para o Real Madrid, passou a apoiar furiosamente pelo Flamengo.

Com a má intenção do árbitro já escancarada inclusive para o público, o time rubro-negro passou a dar chutões para todos os lados e evitar choques e contatos com os adversários. Àquela altura, apenas Raul, Ramírez, Manguito, Nélson, Júnior, Carpegiani, Adílio e Cláudio Adão estavam em campo pelo Fla. Mesmo assim, o inoperante Real Madrid pressionava sem levar perigo. O árbitro então lançou mão de sua última cartada: sob o pretexto de descontar o tempo de paralisação pelos protestos do Fla, estendeu o jogo até os 50 minutos, algo incomum para a época.

Depois de jogar 23 minutos com três homens a menos e sem poder fazer substituições, o Flamengo assegurou a vitória – e o título – na última volta do ponteiro: Juanito apareceu sozinho no meio da defesa e, com um leve toque, encobriu Raul. O estádio Lluis Sitjar prendeu a respiração. Até Cláudio Adão aparecer de maneira providencial para afastar a bola com uma cabeçada em cima da linha. Depois disso, só restava a Ausocúa Sanz apitar o fim do jogo – ou jogar a toalha, se preferisse. Nada nem ninguém tiraria a vitória do Flamengo naquele dia em Palma de Mallorca.

Aplaudido de pé pelos cerca de 20 mil torcedores, o Fla recebeu o troféu e partiu para a volta olímpica, enquanto o árbitro saía à francesa e sob vaias. Aquela vitória diante de um time daquele porte e naquelas condições criou a certeza de que coisas boas viriam para o Flamengo a partir daquele segundo semestre de 1978. Ou alguém ainda duvidaria?

Há 30 anos, “misto quente” do Fla trazia outro caneco do Japão: a Copa Kirin

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O Fla que derrotou o Bayer Leverkusen na decisão em Tóquio e levantou a Copa Kirin de 1988. Em pé: Leandro, Delacir, Valmir, Gonçalves, Paulo César e Cantarele. Agachados: Márcio, Gerson, Paloma, Zico e Gilmar Popoca.

Palco do maior momento da história do Flamengo, a conquista do Mundial Interclubes diante do Liverpool em 1981, o Estádio Nacional de Tóquio assistiu há 30 anos a um outro título rubro-negro assegurado com vitória sobre um clube campeão de troféu europeu. No dia 7 de junho de 1988, o Fla derrotava o Bayer Leverkusen (então detentor da Copa da Uefa) por 1 a 0, gol de Zico, e levantava a Copa Kirin, competição disputada anualmente na capital japonesa. Foi um título especial por ter sido vencido com um time que misturava garotos da base e reservas (muitos deles desconhecidos dos próprios torcedores rubro-negros), reforçado pelo Galinho – que aumentou seu prestígio em solo japonês – e alguns outros nomes experientes.

A Copa Kirin é um torneio amistoso organizado e patrocinado pela cervejaria japonesa Kirin Brewery Company desde 1978. Até a edição de 1991, misturava clubes e seleções (a do Japão era participante fixa) se enfrentando num sistema de pontos corridos antes de uma decisão entre os dois primeiros colocados. Dentro deste período, vários clubes brasileiros além do Flamengo (Palmeiras, Internacional, Santos, Fluminense, Vasco) disputaram a competição. A partir de 1992, ela foi transformada num torneio exclusivamente de seleções.

Além de representar um desvio da tradicional rota de torneios de verão europeus, a Copa Kirin tinha na estrutura e na premiação uma de suas atrações. A participação do Flamengo na edição de 1988 foi acertada em 2 de maio daquele ano. O clube receberia 35 mil dólares por partida com bônus de 10 mil, caso fosse campeão. Parece pouco, mas para a realidade econômica brasileira da época significava quase 30 milhões de cruzados. Além disso, o contrato praticamente exigia a participação de Zico – sem o qual, a cota por jogo cairia para 17 mil dólares.

Zico, o astro requisitado pelos organizadores japoneses.

Naquela altura, o Fla seguia disputando o Campeonato Estadual, então na reta final da Taça Rio e com um terceiro turno a caminho. Mesmo com o título da Copa União conquistado no fim do ano anterior e o da Taça Guanabara já no início daquela temporada, o time não conseguia levar bons públicos aos jogos do Carioca. A competição, de um modo geral, teve média bastante decepcionante. As principais causas apontadas foram a violência dentro e fora dos gramados, a crise econômica e ainda as transmissões ao vivo pela televisão, que voltaram naquele ano, pela Rede Manchete.

De modo que, para arcar com um elenco de folha salarial bastante alta como aquele, era preciso arrecadar das mais variadas formas. E o convite, financeiramente irrecusável, veio num momento providencial. Porém, sem poder interromper sua participação no Estadual, o Flamengo teve de armar um time misto bem curioso para viajar ao Japão. O elenco que embarcou tinha, além de Zico, um trio de nomes experientes: o goleiro Cantarele (então na reserva de Zé Carlos) e os zagueiros Leandro e Edinho. Junto a eles, um punhado de garotos da base, como o lateral Valmir, o zagueiro Gonçalves, os meias Jecimar e Zé Ricardo e os atacantes Gérson e Paloma.

Para completar o grupo, o Fla bateu na porta de outros clubes em busca de reforços temporários. No America, conseguiu o empréstimo do lateral-esquerdo Paulo César e do volante Delacir, além de receber de volta o ponta Márcio, que pertencia ao próprio Flamengo – o meia Renato, destaque cobiçado daquele time rubro, também viajaria em princípio, mas na última hora seu clube vetou. E do Porto Alegre, de Itaperuna, veio no mesmo esquema o ponta-esquerda Cosme, uma das revelações do time do Noroeste Fluminense naquele Estadual.

Por fim, o meia Gilmar Popoca – eterna promessa rubro-negra de meados dos anos 80 que acabou não se firmando – ganhou nova chance na Gávea, emprestado pela Ponte Preta, com quem o Fla o havia negociado no começo do ano anterior. Com esses jogadores, o time misto comandado pelo auxiliar João Carlos Costa – Carlinhos seguiria com a equipe principal – realizou alguns treinos na Gávea para ganhar algum entrosamento e embarcou para Tóquio, com uma escala em Los Angeles, na noite de 24 de maio.

Zico bate falta no primeiro jogo contra o Bayer Leverkusen.

Além de enfrentar as seleções do Japão, anfitriã do torneio, e da China, o principal adversário do Flamengo no torneio seria o Bayer Leverkusen, time ascendente no futebol da então Alemanha Ocidental, e que havia acabado de conquistar a Copa da Uefa (atual Liga Europa), deixando pelo caminho clubes como o Barcelona e o Werder Bremen, antes de derrotar o Espanyol na decisão. O camisa 10 do time era um velho conhecido dos rubro-negros: Tita, que havia se transferido do Vasco em setembro de 1987. Além dele, outros astros eram o polonês Andrzej Buncol, o sul-coreano Cha Bum-Kun e os alemães de seleção Ralf Falkenmayer e Herbert Waas.

Um dia depois de a equipe principal golear o Goytacaz por 6 a 0 com quatro gols de Bebeto na Gávea pela última rodada da Taça Rio, em Tóquio a equipe mista estreou enfrentando a seleção japonesa, que curiosamente por essa época usava camisas vermelhas, em vez das atuais azuis. O time entrou com Cantarele no gol, Valmir e Paulo César nas laterais, Leandro e Edinho no centro da defesa, Delacir de volante com Gilmar e Zico na armação, tendo no ataque Márcio, Paloma e Gerson (este, mais recuado ajudando o meio-campo).

De camisas brancas (e sem o patrocínio da Lubrax), o time da estreia.

A vitória veio sem dificuldade: logo aos nove minutos, o lateral Paulo César recebeu lançamento de Gilmar Popoca e foi deslocado na área por um defensor, num pênalti que Zico bateu para abrir o placar. O segundo gol saiu já na etapa final, aos sete minutos. Bola de pé em pé: Zico para Gilmar, Gilmar para Márcio, e de Márcio sai o passe vertical que encontra Paulo César entrando na área. O lateral só tem o trabalho de tirar do goleiro, ampliando para 2 a 0.

Aos 20 vem o terceiro: Zico lança Valmir, que entra na área, limpa a marcação e deixa a bola para o volante Delacir, que manda um foguete para as redes. Os japoneses – que estiveram perto de disputar a Copa do Mundo no México dois anos antes, perdendo a decisão de uma das vagas para a Coreia do Sul – descontam com um belo gol de Yoshida, que ganha de Edinho na velocidade, limpa Paulo César e bate vencendo Cantarele.

De trem bala, a delegação rubro-negra viajou até Kioto para enfrentar os alemães do Bayer Leverkusen, que haviam vencido a China por 2 a 0. A partida foi disputada numa noite de quarta-feira, 1º de junho, no estádio Nishikyogoku. E o Flamengo saiu atrás no marcador, curiosamente com gol de um oriental: o sul-coreano Cha Bum-Kun, que concluiu um contra-ataque conduzido por Tita aos 21 minutos do primeiro tempo.

Mas ainda naquela etapa, aos 36, veio o empate por meio de Edinho (que cumpria excelente atuação) num chute que desviou na defesa. Outro que esteve muito bem foi Cantarele, garantindo o resultado com defesas sensacionais, entre elas uma cabeçada à queima-roupa que tinha a direção do ângulo e um chute venenoso de Tita. Na saída do estádio, os jogadores do Fla experimentaram a idolatria dos nipônicos, tendo de sair escoltados por policiais para escapar do assédio de centenas de crianças.

Destaque e autor do gol contra o Bayer Leverkusen, Edinho teria de voltar ao Rio para se juntar a time principal na disputa do terceiro turno do Estadual, com estreia marcada para o dia 4, num Fla-Flu. Em seu lugar, entraria mais um garoto da base, um certo Gonçalves. O jovem, que havia entrado durante a partida contra o Japão, formaria a zaga com Leandro para a partida contra a China, na qual um empate garantia os rubro-negros na decisão do torneio.

O jogo disputado no dia 5 de junho em Kagoshima não teve grandes emoções. O Fla abriu o placar com Gerson, que aproveitou ótimo passe de Zico no meio da defesa aos 17 minutos. Mas os chineses, que estranhamente atuaram retrancados mesmo precisando vencer, ainda chegaram ao empate no segundo tempo, numa cabeçada de Ma Lin. Com o resultado, os rubro-negros terminaram na segunda colocação e avançaram para a final contra o Bayer Leverkusen, que bateu o Japão por 1 a 0 mesmo sem contar com Tita, convalescendo de uma intoxicação alimentar.

O ex-rubro-negro também não estaria em campo contra o Flamengo na decisão do torneio, em 7 de junho, apenas dois dias depois da rodada anterior. O palco da final era o mesmo da estreia no torneio e também o mesmo em que o Flamengo derrotou o Liverpool da final do Mundial Interclubes em 1981: o Estádio Nacional de Tóquio. E de novo o Fla levantou a taça, graças a um gol de Zico, aos dez minutos de etapa final.

O lance nasceu de um passe de Zico para Márcio, que chutou na trave. A bola correu por toda a extensão da pequena área até sobrar para Paloma, que cruzou da linha de fundo. A zaga tentou afastar de cabeça, mas o Galinho rebateu também em cabeceio, encobrindo o goleiro Vollborn. Jogador mais determinado do time na partida, o camisa 10 vibrou muito na comemoração. Porém, nos minutos finais, ao tentar um pique para alcançar uma bola longa de bola de Cantarele, o capitão rubro-negro sentiu a coxa e teve de deixar o campo.

O Flamengo ditou o ritmo da partida e fez o público japonês vibrar com suas jogadas de efeito contra os atarantados alemães. Tão perdido estava o Bayer que, em certa altura, após levar um drible desmoralizante de Leandro, o atacante Klaus Täuber acertou um soco no queixo do zagueiro rubro-negro, provocando um pequeno corte no local. Mesmo assim, o Fla não se intimidou, vencendo na bola e na garra: “Os alemães tentaram se impor pela força, mas não conseguiram. O Flamengo foi um time valente durante os 90 minutos”, exaltou o técnico João Carlos Costa.

Se reforçou o prestígio do Flamengo e de Zico no Japão e foi um dos últimos títulos das carreiras de Leandro e Cantarele, além do derradeiro de Edinho pelo Flamengo, a Copa Kirin também marcou o ponto alto da passagem dos demais jogadores daquele time misto pelo Fla. Foi uma ocasião inesquecível para os garotos que se juntaram ao quarteto experiente, mas também uma alegria efêmera vestindo rubro-negro, já que, dentro de pouco tempo, eles não estariam mais nos planos do clube, segundo suas carreiras em outras equipes.

Leandro encara o Japão: um de seus últimos títulos.

Os reforços que pertenciam ao America acabaram sendo contratados, mas não chegaram a se firmar: Delacir foi titular do time no Campeonato Brasileiro de 1988 no lugar de Andrade (vendido à Roma), mas logo no início do ano seguinte seguiria para o São José, defendendo também o Bahia, mais tarde. Paulo César, por sua vez, ficaria um pouco mais, saindo apenas em meados de 1989, após o Estadual, negociado com o Cruzeiro. Já o meia-atacante Márcio seguiria integrado ao elenco rubro-negro pelo restante daquele ano, mas teria raras chances na equipe, sendo emprestado ao Ceará no ano seguinte e defendendo ainda o Fluminense, em 1991.

Os garotos “prata da casa” campeões no Japão também rodariam bastante depois de deixarem o Fla – o que não demorou muito para acontecer. Ainda naquele ano, Valmir, Paloma e Gerson seguiriam para o America, participando da última campanha do time rubro na elite do Brasileiro. Posteriormente, o lateral defenderia times como Bragantino, Portuguesa, Grêmio e Atlético-MG (chegando a ser vice brasileiro em 1996 pela Lusa e 1999 pelo Galo), enquanto o atacante mais tarde se tornaria ídolo em outro América, o de Natal, e o meia passaria pelo futebol goiano.

Leandro (3) e Zico (10) dividem as comemorações de mais um título na capital japonesa com a garotada rubro-negra.

O zagueiro Gonçalves ganharia mais espaço no time em 1989, mas cairia em desgraça ao marcar um gol contra a favor do Botafogo num jogo em que o Fla vencia por 3 a 1 e terminou empatado em 3 a 3 pela Taça Rio daquele ano. Por coincidência, seria negociado com o próprio Alvinegro logo depois do Estadual, tornando-se um ídolo da torcida do rival. Sem mais chances na Gávea, Gilmar Popoca também defenderia o Botafogo, mas já em 1988, no Brasileiro. E pelas temporadas seguintes, continuaria rodando, passando por clubes como Santos, São Paulo e Vitória.

Curiosamente, na volta do Japão o Flamengo acabaria contratando em definitivo o meia Renato, de quem o America havia negado o empréstimo anteriormente. Chegando à Gávea no mesmo momento em que seu xará gaúcho também trocava o Fla pela Roma, Renato receberia o complemento “Carioca” para ser diferenciado do ponteiro e, como ele, formaria uma boa dupla com Bebeto, na virada de 1988 para 1989. Ainda seria o responsável por outra vitória memorável do Flamengo derrotando um grande clube europeu em um torneio internacional. Mas essa é uma outra história, a ser resgatada em breve.

Há 35 anos, Fla se reinventava para levar tri brasileiro com vitória épica e casa cheia

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O time do primeiro jogo da decisão contra o Santos, que valeu o tri brasileiro. Em pé: Bigu, Raul, Mozer, Marinho, Leandro e Junior. Agachados: Élder, Adílio, Baltazar, Zico e Julio César. Na segunda partida, Bigu deu lugar a Vitor e Mozer foi substituído por Figueiredo.

O terceiro título do Campeonato Brasileiro levantado pelo Flamengo em sua história talvez seja o menos relembrado e comentado entre os seis. O primeiro, em 1980, é citado como pontapé inicial para a conquista do mundo. O segundo, de 1982, é a consagração definitiva do Fla “campeão de tudo”. O quarto, em 1987, à parte das polêmicas judiciais sempre levantadas (pelos outros), tem a marca de um timaço que uniu gerações de ídolos rubro-negros. O penta, em 1992, é do Vovô Garoto e dos Gaúcho’s Boys. E o hexa, em 2009, evoca as jornadas memoráveis de Adriano e Petkovic. E o de 1983? Como entra nesse álbum de memórias?

A vitória categórica sobre o Santos por 3 a 0 naquele 29 de maio de 1983 num Maracanã atulhado de gente – que deu ali ao Brasileiro seu maior público de todos os tempos – consagrou um Fla já um tanto diferente daquele que todo mundo decorou. Do meio para a frente, só Adílio e Zico mantiveram-se como titulares. Mas foi o primeiro título nacional vencido na base do “deixou chegar”, que se tornaria tão característico. Talvez pouca gente saiba, mas o Flamengo, apesar de todo o elenco e cartel recentes, entrou com o moral baixo naquele torneio, subestimado pela imprensa e desacreditado pela torcida.

Foi também o que marcou a despedida de Zico, cuja saída para o futebol italiano foi preservada como segredo de estado na reta final da competição até o triste anúncio, dias depois da conquista. Foi também o último Brasileiro com Raul, nosso senhor goleiro, sob as traves. A taça veio com um treinador que talvez tenha sido o menos “feito em casa” dentro da tradição rubro-negra de conquistas, mas que acabou sendo fundamental naquele curto espaço de tempo em que ficou, ao injetar gás novo na equipe. Ah, sim! Houve ainda a deliciosa eliminação de um arquirrival no mata-mata. São muitas histórias. Vamos a elas?

PRÓLOGO: O ANO QUE TERMINOU EM SETEMBRO

Até o fim de setembro, o Flamengo viveu um ano de 1982 irretocável. Numa campanha repleta de viradas memoráveis e vitórias marcantes sobre vários dos grandes clubes brasileiros, o clube levantou o Campeonato Brasileiro derrubando na final o campeão anterior, Grêmio, dentro do estádio Olímpico. A conquista representava ainda a unificação de todas as taças possíveis: naquele fim de abril, os rubro-negros se tornavam os atuais detentores dos títulos estadual, nacional, continental e mundial. E ainda sobrava, de lambuja, a Taça Guanabara.

E mesmo em meio à tristeza que envolveu o futebol brasileiro com a derrota de uma Seleção encantadora no Mundial da Espanha, em julho, a torcida do Fla ainda encontrava motivos para sorrir: o time começara a campanha no Carioca da mesma maneira que vinha antes da pausa para a Copa. Depois de surrar pequenos (a Portuguesa levou de quatro e o Madureira, de oito) e grandes (Botafogo e Fluminense perderam de 3 a 0, fora os respectivos bailes), o time faturou o penta da Taça Guanabara vencendo o Vasco em jogo extra, 1 a 0, gol de Adílio no último minuto.

Naqueles três últimos meses do ano, havia pela frente a Taça Rio, a Taça Libertadores da América (na qual o Flamengo, como atual campeão, já entrava diretamente no triangular semifinal) e, mais adiante, a fase final do Carioca, para qual o time já estava classificado por vencer o primeiro turno. A prudência aconselhava girar o elenco – que havia sido até reforçado naquele semestre, com nomes como os ponteiros Wilsinho e Zezé – no torneio estadual para evitar que o desgaste físico e uma certa autossuficiência em vista das conquistas anteriores atrapalhassem a caminhada para manter a hegemonia.

Adílio na batalha contra o River Plate pela Libertadores de 1982: fim do sonho do bi continental e mundial.

Não foi, no entanto, o que se viu. O time titular foi mantido no Carioca e, em 17 de outubro, perdeu para o perigoso Campo Grande no alçapão de Ítalo del Cima por 1 a 0. Dois dias depois, já estava em Montevidéu, estreando na Libertadores contra o Peñarol. A nova derrota pelo placar mínimo não foi um bom sinal. Até porque, dali em diante, o elenco iniciaria uma verdadeira maratona, jogando de três em três dias, indo de estádios acanhados a aeroportos.

Se venceu duas vezes o River Plate (3 a 0 dentro do Monumental de Nuñez e 4 a 2 no Maracanã), perdeu de vez o rumo no Estadual com derrotas para a Portuguesa na Ilha do Governador e para o Fluminense no Maracanã. Após o triunfo sobre os portenhos no Rio, muito mais complicado do que o placar indica, João Saldanha chegou a intimar em sua coluna no Jornal do Brasil: “Parem os onze!”. Segundo ele, o desgaste físico e psicológico era gritante no time do Flamengo, vinha atrapalhando a fluência de seu jogo e poderia levar a consequências desastrosas.

Não deu outra: definitivamente afastado da conquista da Taça Rio após perder para o America quatro dias depois de vencer o River Plate, o Fla viveria um dos jogos mais traumáticos de sua história em 16 de novembro: precisando vencer o Peñarol no Maracanã por qualquer placar para voltar à final da Libertadores, o time desperdiçou um caminhão de gols, viu uma cobrança de falta do brasileiro Jair vencer Cantarele e perdeu por 1 a 0 diante de um estádio incrédulo. Três semanas depois, perderia também o título carioca para o Vasco. Era o pior desfecho possível.

UM CLUBE DILACERADO

Se dentro de campo, as coisas já haviam ficado inacreditavelmente amargas, fora dele ficariam ainda piores. Dois dias depois da derrota para o Vasco, o supervisor Domingo Bosco foi internado com problemas cardíacos. No dia 20, morreria vitimado por uma trombose cerebral, aos 51 anos. Era fundamental na estrutura rubro-negra: verdadeiro paizão para os atletas, servia de anteparo na relação entre eles e a diretoria, cuidava de todos os detalhes na concentração, e ainda atuava como “relações públicas”, promovendo os jogos. Era insubstituível.

Outra baixa foi a demissão do preparador físico José Roberto Francalacci, no clube desde o fim dos anos 60 e responsável por todo o tratamento ao qual Zico e outros pratas da casa haviam se submetido na adolescência para ganhar massa muscular. Uma discordância com o técnico Paulo César Carpegiani sobre a divisão de atribuições e o método de trabalho levaria à saída do preparador. Já o treinador teria seu contrato renovado por mais um ano. Mas não resistiria até lá, como veremos.

Sem Bosco, os pequenos atritos que haviam entre jogadores e comissão técnica se intensificaram e se tornaram quase incontroláveis. No começo de janeiro de 1983, o New York Cosmos sondou a contratação de Nunes. Indagado se gostaria de deixar o Flamengo, o atacante deixou escapar que “não se dava com uma pessoa” de dentro do clube. Pressionado por jornalistas, acabou deixando no ar que seu desafeto era o treinador. Afastado do elenco (até porque o clube já tentava o gremista Baltazar), foi colocado em disponibilidade. Depois de Palmeiras, Millonarios de Bogotá e Ponte Preta manifestarem interesse, ele é emprestado ao Botafogo no fim de fevereiro, com o Brasileiro já rolando.

Ainda em janeiro, no dia 17, o clube acerta a chegada de Baltazar, em troca por empréstimo por Tita, que sai insatisfeito e triste por deixar o clube. Chega também um certo lateral-direito chamado Cocada, vindo do Operário-MS. Para a ponta-direita, no dia 20 é anunciado Robertinho, do Fluminense, também em troca por Wilsinho (ex-ponteiro do Vasco, trazido para o Carioca de 1982). Por outro lado, há ainda a pendência dos contratos de Figueiredo, Mozer e Lico, que vencem em breve.

UM INÍCIO IRREGULAR

Enquanto isso, o time largava no Brasileiro com atuações oscilantes ao extremo. Na estreia, uma atuação muito segura na vitória sobre o Santos por 2 a 0, gols de Baltazar e Zico. Seis dias depois, uma péssima apresentação num vexatório empate em 1 a 1 com o fraco Moto Clube em pleno Maracanã. Em seguida, a equipe vai ao Norte e faz dois jogos nervosos contra o Rio Negro no acanhado Estádio da Colina, em Manaus (1 a 1), e contra o Paysandu no Mangueirão (vitória por 3 a 2), deslanchando apenas no terceiro, indo à forra com o Moto Clube com uma goleada de 5 a 1 no Castelão de São Luís.

Passado o Carnaval, o time volta embalado, arrasando o Rio Negro no Maracanã por 7 a 1, num jogo em que Cocada marca duas vezes. Três dias depois, nova vitória por 3 a 2 sobre o Paysandu, agora em casa, com três de Baltazar. Mas na última partida, o time perde para o Santos por 3 a 2, deixando cair um tabu de oito anos sem derrotas no Morumbi e outros dez sem perder para o Peixe – que também arrebata a primeira colocação do grupo ao fim da primeira fase.

A primeira etapa tem Baltazar como personagem: embora artilheiro da equipe com oito gols, o atacante recém-chegado do Grêmio é muito criticado pela afobação nas conclusões e o individualismo nas jogadas. Em algumas partidas, até mesmo Zico demonstra muita irritação quando o centroavante prefere tentar uma jogada infrutífera a passar para um companheiro melhor colocado. Por outro lado, Marinho vem se agigantando na zaga, apontado como o melhor jogador da linha de defesa no momento. Enquanto Raul, aos 38 anos e vivendo a última temporada de sua carreira, mantém a segurança sob as traves.

O AUGE DE UMA CRISE DEVORADORA

Pausa no Brasileiro: o Fla vira a chave para a outra competição do semestre, a Libertadores. Em 4 de março, o time vai ao Olímpico, mesmo palco da final do Brasileiro do ano anterior, e estreia com um ótimo empate em 1 a 1 diante do Grêmio. Baltazar balança as redes do ex-clube com um belo gol logo aos 16 minutos, mas o uruguaio Hugo De León deixa tudo igual a dez minutos do fim do jogo. De volta à competição nacional, os rubro-negros têm um grupo fácil na segunda fase, no qual o Tiradentes do Piauí e o velho conhecido Americano de Campos são os azarões, enquanto o badalado Palmeiras disputa o favoritismo.

Contra o Tiradentes em Teresina. Em pé: Marinho, Leandro, Raul, Ademar, Andrade e Junior. Agachados: Robertinho, Adílio, Baltazar, Zico e Lico.

Na primeira rodada, o time vai a Teresina e bate o Tiradentes por 3 a 1, com dois gols de Zico e um de Andrade. Porém, um problema no joelho faz o volante ser desfalque para o jogo seguinte, dali a quatro dias, contra o Palmeiras no Morumbi. O Fla sai na frente e chega a controlar o jogo em parte do primeiro tempo, mas o Alviverde empata antes do intervalo e volta arrasador na etapa final, vencendo por 3 a 1. E a crise volta. Mesmo vencendo o Americano no Maracanã por 3 a 0, o time cumpre péssima atuação e sai vaiado. O que se repete dois dias depois nos 2 a 0 sobre o Tiradentes.

Xingado de “burro” pelos torcedores por tirar o ponta-esquerda Édson, um dos melhores da equipe contra o Tiradentes, e não os decepcionantes Robertinho e Baltazar, para a entrada do garoto Bebeto, Carpegiani procurou o vice-presidente de futebol Paulo Dantas ao fim do jogo e comunicou seu desejo de deixar o clube. De um dia para o outro o pedido de demissão foi oficializado, e o Fla já apontava o ex-meia Carlinhos, então técnico dos juvenis, para comandar o time pelos próximos jogos. Sondado por dirigentes árabes, Carpegiani dali a poucos dias assinaria contrato com o Al-Nassr.

A primeira passagem de Carlinhos como técnico do Flamengo não tem, no entanto, o sucesso que teriam as posteriores. Dura apenas cinco jogos, dado que confere um caráter de interino, ainda que segundo os jornais da época os dirigentes se referissem ao ex-meia como treinador efetivo. De cara, ele já precisa enfrentar problemas justamente em sua antiga posição, com o permanente afastamento de Andrade, ainda lesionado. Lico fará seu último jogo contra o Palmeiras antes de operar o joelho. Zico também tem problemas físicos, mas segue jogando e vai enfrentar o Alviverde.

Depois de jogar para 12 mil contra o Americano e seis mil contra o Tiradentes, o Flamengo arrasta 80 mil torcedores ao Maracanã para a estreia de Carlinhos. O time faz uma de suas melhores atuações do ano até então, encurralando os paulistas. Abre o placar numa cabeçada de Baltazar aos 27 minutos e perde várias chances claras. Mas, a 12 minutos do fim, numa jogada que nasce de impedimento não marcado de Cléo, Jorginho empata para o Palmeiras. Porém, três dias depois é o Fla que fica duas vezes atrás no placar contra o Americano em Campos e tem que buscar o empate em 2 a 2, novamente com Baltazar.

Chega a hora de novamente virar a chave para a Libertadores, viajando para enfrentar os bolivianos Blooming e Bolivar. E é aí que a equipe volta a mergulhar na crise. Mesmo sem o problema da altitude influindo em Santa Cruz de la Sierra, o time apenas empata com o primeiro, numa noite de péssima pontaria. Contra o segundo, em La Paz, veio o desastre. Sem organização, mas principalmente sem fôlego, o Fla chega a sofrer 3 a 0, descontando no fim do segundo tempo com um gol do ponteiro Édson, e fica praticamente eliminado, até porque o Grêmio vencera ambos os jogos no país andino.

O QUE HÁ COM O FLAMENGO?

A imprensa abre manchetes: o que há com o Flamengo? É o fim do grande esquadrão? No Rio, comenta-se sobre as mudanças pelas quais passou não só o time como a comissão técnica – sem Andrade, Tita, Nunes, Lico, Bosco, Carpegiani – que interferiram até no estilo de jogo tradicional da equipe. Também há a acusação de que alguns jogadores que não vêm rendendo o esperado nem honrando a camisa. Adílio é um dos mais visados, tachado de enfeitar demais, não ter garra, não saber cabecear nem chutar no gol.

Em São Paulo, por sua vez, há um indisfarçável regozijo com o fim da hegemonia rubro-negra. Até porque agora é possível dispensar o pudor de alçar os quatro grandes do estado à condição de maiores favoritos ao título do Brasileiro, que já adentra a terceira fase de grupos. Correm por fora o Grêmio e o Atlético-MG, pelos grandes jogadores que tinham e pelo bom desempenho recente. Já entre os cariocas, o mais cotado é – surpresa – o America, que vem de ótimo papel nas etapas anteriores.

Quanto ao Fla, alguns palpiteiros mais venenosos acreditam que o time nem chegará às quartas, caindo num grupo com dois paulistas: o (aparentemente) consolidado Corinthians de Sócrates e Casagrande e o ascendente Guarani. Antes da estreia, contra o Goiás no Maracanã, já é anunciada a saída de Carlinhos, que comandará o time pela última vez. Há também protestos da torcida, que leva muitas faixas à geral (“Queremos raça”, “Adílio pipoqueiro”, “Junior bailarino”, “Jogadores ganham muito e jogam pouco”). Mas o time deu de ombros, jogou bem e largou com vitória por 2 a 0, gols de Zico e Robertinho.

Paradoxalmente, em meio ao mau momento geral recente, crescia a olhos vistos o futebol do volante Vitor. Alvo de polêmica em anos anteriores por ser convocado com frequência por Telê Santana para a Seleção mesmo seguindo na reserva de Andrade no clube, foi visto com desconfiança quando assumiu a posição pela lesão do titular, de quem diferia no estilo. Menos técnico e classudo, era, porém, mais dinâmico, correndo o campo todo, fechando a frente da área, cobrindo as laterais e aparecendo bem na frente. Foi o único a se salvar nos catastróficos jogos na Bolívia. E daqui em diante seria fundamental.

Carlinhos voltou para a base, o preparador Cléber Camerino dirigiu interinamente o time no empate sem gols com o Guarani em Campinas, e o Fla, que sondou o velho ídolo Evaristo de Macedo (então no Catar), acabou acertando com Carlos Alberto Torres para o comando do time. O “Capita” teve rápida passagem como jogador pelo Fla em 1977, e havia pendurado as chuteiras em setembro de 1982 atuando pelo Cosmos justamente num amistoso com o Flamengo. Aos 38 anos, vivia sua primeira experiência como treinador e falava em resgatar o futebol alegre e a motivação dos jogadores rubro-negros.

Sua primeira medida, no entanto, foi mais prudente. Aproveitou a suspensão de Robertinho (expulso no último minuto do jogo com o Guarani) para armar um time sem pontas, mas mais combativo e aplicado no meio-campo. A ideia era aproveitar o vigor e a aplicação dos jovens Élder e Júlio César Barbosa (ambos promovidos da base naquela temporada), juntamente com Vitor no bloqueio, liberando Adílio e Zico para se concentrarem na criação, com Baltazar à frente.

O BAILE DO RENASCIMENTO

Deu muito certo. Empurrado por mais de 90 mil torcedores (seu maior público no Maracanã no ano até ali), o Fla arrasou o Corinthians de Leão, Zenon e Sócrates por 5 a 1, tendo ainda nada menos que três gols estranhamente anulados pelo árbitro, num jogo histórico, lembrado aqui. O time ganha outro ânimo. Após o empate em 1 a 1 com o Goiás no Serra Dourada e a vitória por 2 a 0 sobre o Guarani em casa, a vaga nas quartas de final vem por antecipação – ironicamente, os goianos serão os outros classificados, deixando pelo caminho os “favoritos” Corinthians e Guarani, este sem vencer nenhum jogo.

Na Libertadores, o Fla ainda arrasa o Blooming por 7 a 1 – mesmo depois de sofrer um gol com esdrúxulos 29 segundos de partida – em seu primeiro jogo em casa no torneio, mas entre aquela partida e as próximas, o Grêmio (eliminado de modo surpreendente no Brasileiro ao perder no Olímpico para a Ferroviária de Araraquara) também vencerá a dupla boliviana em Porto Alegre, selando a classificação. Para os rubro-negros, não faz mal. Há outras batalhas a serem vencidas no torneio nacional. E uma caseira o aguarda: o Vasco – que eliminara outro favorito paulista, o Palmeiras – é o adversário das quartas.

O primeiro jogo, numa noite de quinta-feira, foi bastante truncado e faltoso. Mas o Fla dominou as ações, especialmente no segundo tempo. Antes, na etapa inicial, o time abriu o placar numa triangulação iniciada por Zico e Junior, que encontrou Adílio no meio da zaga do Vasco, tendo apenas que tirar de Mazarópi para abrir o placar. Os cruzmaltinos, no entanto, empataram numa infelicidade de Mozer, que, numa disputa pelo alto com Roberto Dinamite, cabeceou contra as próprias redes uma rebatida de Raul.

Aos 23 do segundo tempo, o Fla marcaria o gol da vitória com Júlio César, aproveitando uma grande jogada e o cruzamento de Marinho pela direita, além da saída em falso do goleiro vascaíno. O resultado deixava o Fla com a possibilidade de até perder por um gol de diferença na partida de volta. No domingo, o Vasco até saiu na frente, num lance de sorte: Roberto rolou uma cobrança de falta para Elói, que chutou e viu a bola resvalar na defesa rubro-negra, enganando Raul.

Só que os cruzmaltinos ficaram nisso. E aos poucos o Flamengo retomou o controle do jogo: mesmo em desvantagem (embora garantido com aquele resultado), era o melhor time em campo e criava muitas chances para o empate. Somente nos 15 minutos finais, o Vasco acordou e foi tentar o segundo gol. Mas foi a vez de o Fla ser traiçoeiro, gastando a bola e o tempo. Quando o relógio se aproximava dos 45 minutos, Élder recebeu lançamento de Leandro na ponta direita e tocou de calcanhar para Adílio. O meia avançou até a área em meio à aberta defesa vascaína e só rolou para o lado, para Zico chegar e empatar.

Irritados com a eliminação decretada, os vascaínos voltaram sua ira contra a arbitragem, numa reclamação absurda de impedimento (Zico estava bem atrás da linha da bola). Visivelmente descontrolado, Roberto tentou agredir o juiz Valquir Pimentel, acabou expulso e teve de ser escoltado para fora do gramado. O técnico cruzmaltino Antônio Lopes ainda tentou acusar o Fla de “jogar como time pequeno”, quando havia sido exatamente o Vasco que inexplicavelmente passara a maior parte do jogo se defendendo, quando deveria ter saído para buscar o resultado.

DEIXARAM CHEGAR…

O que importava ao Flamengo era estar nas semifinais, e diante de um adversário surpreendente: o Atlético Paranaense, que derrubara mais um favorito paulista – agora o São Paulo – vencendo as duas partidas. Era o que dava ao time curitibano a vantagem de decidir o confronto em casa (no caso, no Couto Pereira, então o principal estádio da capital do estado). Antes, porém, teriam que encarar outra prova de fogo: um Maracanã com mais de 100 mil flamenguistas.

O jogo do Maracanã foi um verdadeiro massacre do Flamengo. Mesmo a ausência de Raul, lesionado, não foi sentida, já que Cantarele foi praticamente um espectador da partida. Do outro lado, Roberto Costa gastava toda a sua cota de milagres no gol do time paranaense. Mas não pôde deter a cabeçada de Zico, após bola escorada também de cabeça por Júlio César, aos 39 minutos do primeiro tempo. Nem quando o Galinho passou a Vitor, e o volante fuzilou com um chute cruzado aos oito da etapa final. Nem a cobrança de pênalti de Zico (após Robertinho ser bloqueado com o braço por um defensor), aos 16.

Baltazar tenta a cabeçada contra o Atlético-PR, observado por Adílio (8), Mozer (4), Zico e Julio César (11).

Na volta, porém, o Fla teve problemas. Diante de mais de 65 mil torcedores (recorde de público do estádio até hoje), o time começou melhor e perdeu pelo menos duas chances claras com Baltazar. E pagou caro levando dois gols de Washington em jogadas idênticas, com um intervalo de apenas três minutos entre ambos. Continuou criando e perdendo várias chances a longo da partida (Roberto Costa estava novamente inspirado), mas também foi salvo por uma defesa crucial de Raul em chute de Capitão.

Com a vaga na Libertadores de 1984 garantida pela passagem à final, a decisão é um reencontro: o Santos, rival na primeira fase, cruza novamente o caminho do Fla. Vitor, com um problema na coxa, seria uma baixa. Em seu lugar entraria o garoto Bigu, promovido por Carlos Alberto durante o campeonato (“Meu time é Bigu mais dez”, chegou a dizer o treinador para motivar o jovem volante). Já no Santos havia um jogador disposto a mostrar seu valor: o também volante Lino, emprestado pelo próprio Flamengo depois de integrar o elenco por cinco anos sem chegar a se firmar em sucessivos empréstimos.

Com o Morumbi lotado, o Fla perde chance clara com Élder logo no início e, como em Curitiba, acaba castigado com a abertura do placar pelos santistas, num chute forte, de fora da área, de Pita em rebote de escanteio. Para dar mais ofensividade, Carlos Alberto mexe no intervalo: tira Júlio César e coloca o garoto Bebeto. Mas no segundo tempo, aos 18, uma bobeada da defesa rubro-negra, que parou para reclamar da marcação de uma falta, resulta no segundo gol do time paulista, com Serginho aproveitando rebote de Raul. Na comemoração, o atacante é atingido por um rojão arremessado pela própria torcida.

Enquanto Serginho é atendido fora do campo, há um escanteio para o Flamengo. Junior levanta na área, Mozer cabeceia para trás na segunda trave, Marinho também testa e Baltazar, meio de costas para o gol, desvia de cabeça para as redes. Um gol que mantém o Fla vivo no campeonato. O problema é perder Mozer, um dos melhores em campo, que sofre afundamento do malar após uma cabeçada sem intenção de Paulo Isidoro no último minuto. Mas Vitor retorna para a batalha final.

A FINAL PERFEITA

Julio César, Baltazar (9) e Junior (5) encaram a defesa do Santos.

Com a derrota por 2 a 1 na ida, o Flamengo precisava vencer por dois gols para levar o título nos 90 minutos. Em caso de vitória por um gol de diferença, independentemente do placar, a decisão iria para prorrogação, e então pênaltis. Empate era do Santos. Para empurrar os rubro-negros em busca do terceiro título brasileiro, que tal um recorde de público? Pois nada menos que 155.253 torcedores vão ao Maracanã e, logo aos quarenta segundos, são premiados com o primeiro gol, marcado por Zico.

Quarenta segundos. Pouca coisa aconteceu entre a bola começar a rolar e ela ser lançada por Vitor para Julio Cesar, o loirinho garoto goiano que faz um carnaval pela ponta-esquerda onde há não muito tempo outro Julio César costumava brilhar. Dá dois cortes em Toninho Oliveira e cruza rasteiro. Baltazar é bloqueado, Junior pega a sobra e enche o pé. Marolla espalma, e Zico, no lugar certo e na hora certa, toca para o gol vazio mesmo caído. O Maracanã ferve, pulsa, treme. A decisão já está igual de novo.

Baltazar perde uma ótima chance de ampliar logo aos cinco, tocando por cima na pequena área. Em seguida, é a arbitragem que fica na berlinda: primeiro Toninho Silva corta com o braço um cruzamento de Zico dentro da área, mas o jogo segue. Instantes depois, Pita arranca e é travado por Marinho fora da área, quase sobre a linha. Os santistas pedem pênalti. Arnaldo César Coelho marca tiro livre indireto dentro da área. E a cobrança não dá em nada.

O Santos cresce e assusta em alguns lances. O Fla responde com uma cabeçada de Baltazar que tinha endereço certo, mas Marolla vai buscar. Aos 40, há uma falta lateral para o Flamengo perto da linha de fundo. Zico levanta na primeira trave e Leandro cabeceia no canto, inapelável. Antes do fim do primeiro tempo, o lateral-direito quase marca o terceiro, depois de desarmar o ponteiro João Paulo, cortar pelo meio e, de pé esquerdo, desferir um petardo que explode no travessão e quica sobre a linha. Agora, o Flamengo vai para o intervalo como o senhor da partida.

Na etapa final, o Santos começa querendo descontar e até entra duro em alguns lances, mas o Flamengo aos poucos retoma o domínio. Vitor e Adílio são onipresentes. O volante é o motor do meio-campo rubro-negro, correndo, cobrindo, passando, lançando. Já o dono da camisa 8, contestado durante todo o campeonato, tem uma das maiores atuações da carreira. O time chega perto do terceiro gol, mas tanto Julio Cesar e, mais tarde, Adílio, param em Marolla.

Adílio marca o terceiro de cabeça e confirma o tri.

Até que aos 44, Vitor desarma um jogador do Santos que tentava iniciar um contra-ataque e Robertinho, que entrara no lugar de Baltazar, ganha a disputa com Gilberto, dá dois cortes lindos no lateral santista e cruza alto. Adílio, aquele que “não sabe cabecear”, testa para vencer Marolla pela terceira e última vez no jogo. O título já é uma realidade. Os jogadores do Santos, de cabeça quente, tentam estragar a festa. Paulo Isidoro empurra um fotógrafo – a essa altura, o gramado do Maracanã já está repleto também de repórteres e cinegrafistas – e o papelão degringola para uma confusão à beira do campo.

A gigantesca torcida do Flamengo não quer nem saber. Seu time é tricampeão brasileiro, contrariando os prognósticos – como passaria a ser a regra nas conquistas nacionais posteriores. É que o Flamengo em crise, destroçado, rachado internamente, supostamente uma caricatura da grande equipe que foi nos anos anteriores, reconstruiu-se, recuperou a alegria e deu a volta por cima com mais uma taça nas mãos. Em fim de ciclo? Pode até ser, até porque o astro maior, Zico, partiria para a Udinese dali a alguns dias. Mas, como todo bom time vencedor, o Flamengo o encerra brilhantemente com mais um título brasileiro.