Fleitas Solich, o outro treinador estrangeiro que revolucionou o Flamengo

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Seguramente entre os cinco maiores treinadores da história do Flamengo, o paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich provocou uma revolução de estilo de jogo, de conceitos táticos e de métodos de treinamento no clube e no próprio futebol brasileiro, especialmente em sua primeira passagem pela Gávea, entre 1953 e 1959. O técnico, cujo nascimento completa 120 anos nesta quarta-feira, ainda foi o responsável por revelar e lapidar muitos nomes históricos rubro-negros. No texto abaixo, publicado originalmente no site Trivela em novembro de 2019, apresentamos e contextualizamos sua importância para o Fla.

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O desempenho em campo do Flamengo de Jorge Jesus na temporada de 2019, sagrando-se campeão da Copa Libertadores e do Brasileirão de maneira quase simultânea com um futebol ofensivo, criativo e que valorizava a qualidade técnica, despertou a previsível comparação com o lendário esquadrão que o clube formou em sua geração mais vitoriosa, no início dos anos 80 – em especial pelo feito de repetir o título sul-americano após 38 anos.

Observando mais atentamente e ampliando um pouco mais o olhar para todo o impacto sobre o jogo no Brasil representado pela chegada – e sobretudo pelo sucesso quase imediato – do treinador português por aqui, ela evoca, talvez com mais propriedade, outra passagem um pouco mais distante da história rubro-negra: o período em que o técnico paraguaio Manuel Fleitas Solich esteve à frente do time, durante boa parte dos anos 50 e início dos 60.

Naquele momento, como hoje, havia um Flamengo com fome de conquistas, disposto a arriscar com um nome novo, trazido de fora, sem vícios do futebol brasileiro. E, da outra parte, um treinador também oriundo de outra cultura e ao mesmo tempo antenado com a vanguarda tática mundial daquele momento, apresentando ideias quase nunca vistas até então por aqui e que, em seu tempo, chegariam a refletir até na Seleção Brasileira.

A comparação expositiva de métodos, trabalho ou perfil entre os dois treinadores, no entanto, para por aqui. O foco deste texto incide basicamente sobre os principais aspectos da passagem de Solich pela Gávea. Porém, suas semelhanças e diferenças mais notáveis em relação a Jorge Jesus podem ser lidas nas entrelinhas – guardados, é claro, os devidos momentos no futebol brasileiro (e mundial) de então e de hoje.

MUDANÇA NECESSÁRIA

No fim dos anos 30, o Flamengo já ousara ao trazer da Europa o húngaro Dori Krüschner com o intuito de atualizar o time em conceitos táticos. O estrangeiro, porém, não foi visto com bons olhos pelo público e pela imprensa ao tentar implementar o WM em voga no Velho Continente. Em especial ao decidir recuar o classudo médio Fausto dos Santos (já sem fôlego em virtude da tuberculose que o mataria poucos anos depois) para o posto de zagueiro central.

A segunda grande ousadia seria a contratação de Manuel Agustín Fleitas Solich, paraguaio com longa carreira de jogador e treinador no futebol de seu país e também no argentino. Solich havia dirigido a seleção guarani na Copa do Mundo de 1950 e nos Campeonatos Sul-Americanos (atual Copa América) de 1949 e 1953, em ambos com vitórias marcantes sobre o Brasil – no segundo deles, por duas vezes, em resultados que acabaram valendo o título.

O Flamengo naquela altura enfrentava uma fila que já passava dos oito anos sem conquistar o Campeonato Carioca – desde seu primeiro tri, entre 1942 e 1944. O técnico daqueles títulos, Flávio Costa, havia deixado o clube em 1946 seguindo para o Vasco, retornado em 1951 e agora, janeiro de 1953, pegava de novo o rumo de São Januário, deixando o time rubro-negro de modo interino nas mãos do ex-jogador (e capitão) Jayme de Almeida.

O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, conhecera e se impressionara com o trabalho de Solich já no ano anterior, e tinha seu nome em mente para fazer do Flamengo enfim uma máquina pronta para ganhar títulos. No Sul-Americano de Lima, a crônica esportiva brasileira também ficara bastante impactada com o alto nível de competitividade da seleção guarani. A resistência ao técnico, porém, estava dentro do Flamengo.

Por ironia, alguns dirigentes do clube faziam forte campanha por outro estrangeiro, o uruguaio Ondino Viera. Este, no entanto, já era um velho conhecido do futebol carioca desde o fim da década de 1930, com passagens por Fluminense, Vasco, Bangu e Botafogo, levantando títulos cariocas com os clubes de Laranjeiras e de São Januário. O velho Ondino, porém, era mais do mesmo para a época e não contava com a simpatia de Gilberto Cardoso.

Fleitas Solich e o presidente Gilberto Cardoso: um Flamengo forte nos anos 50.

Decidido, o presidente rubro-negro viajou a Lima para conversar com Solich durante o Sul-Americano. Depois, os dois se encontraram em Buenos Aires – onde o Fla disputava um torneio e também onde o treinador residia – e enfim o contrato foi assinado. Solich se juntava uma pequena colônia paraguaia na Gávea, formada pelo goleiro García, pelo atacante Benítez e pelo médio Modesto Bria, já em vias de trocar os gramados pela comissão técnica.

De início, o técnico preferiu apenas observar o time comandado por Jayme de Almeida, que acabaria conquistando o torneio citado, um quadrangular contra Botafogo, Boca Juniors e San Lorenzo. Mais tarde, ao assumir o controle do time, usou o Torneio Rio-São Paulo, que marcava aquele início de temporada, para que os jogadores se ambientassem às suas ideias. Quando o Carioca começou, em julho, o Flamengo já estava em ponto de bala.

OS FUNDAMENTOS DE SOLICH

Para se entender o tamanho da revolução colocada em prática por Fleitas Solich no Flamengo e no futebol carioca e brasileiro é preciso antes de tudo compreender o contexto. Naquele começo dos anos 50, jogava-se aqui um futebol mais lento, cadenciado e sobretudo centrado no virtuose. Um jogo em que o craque ditava o ritmo e resolvia as partidas, com total liberdade para exibir sua técnica. O drible a mais era não só permitido como incensado.

Era também um futebol em que o velho sistema WM (numericamente, uma espécie de 3-2-2-3) ainda dominava – especialmente em sua variante criada aqui, a chamada “diagonal”, com o quarteto de médios e meias formando mais um losango que um quadrado. A bem da verdade, o WM ainda era o sistema dominante no mundo, mas já tinha seus dias contados – muito embora a imprensa daqui publicasse as escalações no ainda mais antigo 2-3-5.

No Brasil, diz-se que Martim Francisco havia sido o primeiro a adotar conscientemente o esquema 4-2-4 no Villa Nova campeão mineiro de 1951. No Rio, porém, o sistema só seria visto com a chegada de Solich. Especialmente quando ele passou a escalar o zagueiro Servílio como o que se conhecia então por médio direito, mas que, na prática, significava formar uma dupla de beques de área com o central Pavão. Aí já havia ficado claro.

Após uma goleada de 7 a 2 do Flamengo no Bangu na abertura do returno do Carioca, o jornalista Luiz Mendes (que se tornaria um dos comentaristas mais respeitados do Rio) escreveria na Esporte Ilustrado: “A introdução do jogador Servílio no posto que Jadir deixou vago e o recuo de Marinho para beque de extrema deu consistência nova e mais segura à defesa do clube da Gávea”, antes de explicar o então inusitado desenho tático da equipe de Solich.

“Aliás, o médio direito do Flamengo precisa ser meio zagueiro. Isso porque o sistema defensivo do clube rubro-negro coloca quatro homens atrás, formando uma primeira linha de defesa, dois no meio – Dequinha e Rubens – um pela esquerda e outro pela direita – ficando na frente quatro homens que sempre recebem a cooperação dos dois que ficam entre eles e os quatro da retaguarda”, observava Mendes. Era setembro de 1953.

O Flamengo campeão de 1953. Em pé: García, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha.

Não foi, porém, apenas no desenho tático e no sistema praticamente inédito por aqui que Solich trouxe novidades. O estilo implementado pelo paraguaio também diferia enormemente do que era aplicado aqui. Na Gávea, a ordem era um jogo direto, vertical, veloz e solidário, com a defesa coberta por zona e os pontas recuando para fechar os espaços. Tudo isso ancorado numa excelente preparação física, exigência natural para a intensidade proposta.

Numa excelente entrevista à Manchete Esportiva em outubro de 1956, na qual explicava em detalhes como armava suas equipes, Solich era até mais radical quanto à nomenclatura do sistema de jogo que empregava: em vez de 4-2-4, segundo ele, “a fórmula certa seria mais 5-5” (ou seja, cinco homens atacando e cinco defendendo). Espantado, o célebre jornalista Albert Laurence indagou sobre o meio-campo, ao que o Feiticeiro respondeu:

“Podemos abandoná-lo. O meio do campo é só para mostrar jogo bonito. Praticamente não interessa. E ganha-se jogos defendendo sua área e contra-atacando de repente em grande velocidade, com um jogo direto, sem atrasar-se em jogadas bonitas no meio do campo. Acho, aliás, que o futebol direto do 5-5 pode tornar-se muito agradável como espetáculo, quando perfeitamente executado”, explicou o paraguaio.

Em outra frase sobre o mesmo tema e que se tornaria célebre, o Feiticeiro afirmava: “O meio-campo é por onde a bola passa, não onde ela fica”. Se para aqueles anos 50, em que praticamente todos os clubes tinham um “solista” no setor, esse comentário parecia vindo de outro planeta, causava não menos estranhamento o hábito de Solich de parar os treinos com seu apito quando um jogador começava a driblar em excesso.

O paraguaio, no entanto, não era inimigo do drible: apenas considerava que ele só seria mais bem aplicado num caso em que não fosse possível passar a bola a um companheiro melhor colocado. Entusiasta do jogo de primeira, que tinha parentescos com a escola húngara contemporânea e o “push-and-run” inglês, o técnico proibia seus atletas de pararem e dominarem a bola quando sob marcação, já que nesse caso “é mais fácil destruir que construir”.

O FEITICEIRO

Vale lembrar que esse estilo de jogo era aplicado em todas as categorias do futebol rubro-negro: Solich tomava contava do time de cima da mesma forma que orientava as equipes juvenil e de aspirantes. E tudo que era necessário para colocar em prática as ideias do treinador em campo – desde os pesados treinos físicos até o incessante trabalho de fundamentos para apurar passes, chutes e cabeceio – era feito com rigor e atenção já a partir da base.

O Feiticeiro ensina seus truques a Dequinha, Jadir e Jordan em treino na Gávea.

As categorias de base recebiam toda essa atenção porque Solich era um grande revelador de talentos, ao estilo de Matt Busby. Não se furtava a promover jovens, até por dois fatores: em geral assimilavam com mais facilidade as ordens táticas e tinham mais fôlego para cumprir o que o time exigia em campo. E ainda podiam ser um fator surpresa, como ocorreu na partida que marcaria a estreia de Dida, um clássico diante do Vasco em outubro de 1954.

Benítez e Evaristo, pontas-de-lança, estavam lesionados e o veterano ponteiro Esquerdinha era dúvida. Para o primeiro caso, não restava opção que não recorrer ao mirrado garoto alagoano que vinha brilhando nos aspirantes. Para o segundo, em tese, entraria o reserva imediato, um certo Zagallo. Mas Solich surpreendeu: em vez deste, levou a campo outro garoto mirrado, Babá, também do time de aspirantes. Por um motivo simples: entrosamento.

A ideia era a de que a presença da dupla que formava a ala esquerda dos aspirantes seria benéfica a ambos, um ajudando o outro a se tranquilizar e se familiarizar. E de fato, eles cresceram para a ocasião: os dois garotos provocaram o caos na retaguarda cruzmaltina, sendo o destaque na vitória rubro-negra por 2 a 1. Mas nem por isso Zagallo perderia seu valor. Pelo contrário: pelas mãos do paraguaio, transformaria-se em outro jogador.

Vindo da base do America para a rubro-negra no início da década, Zagallo chegara à Gávea como um ponta rápido e driblador, mas nada além disso. E assim se mostrava quando começou a figurar no time de cima ainda sob o comando de Flávio Costa no fim de 1952. Com Solich, o jogador deixaria de lado as firulas e viraria um ponta armador, versátil e inteligente. Auxiliava a cobertura defensiva por aquele lado e puxava os contra-ataques.

A versatilidade, aliás, era outro trunfo com que contava aquele Flamengo, em especial no ataque. Índio podia jogar como centroavante ou ponta-de-lança. Paulinho foi ponta-direita e meia-direita antes de se sagrar artilheiro do Carioca de 1955 como centroavante. Evaristo tinha facilidade de jogar em todas as posições do quinteto ofensivo. As opções de elenco e possibilidades de formação eram inúmeras, e sempre escolhidas de acordo com o adversário.

Como se tudo isso ainda não bastasse, havia a característica que levara o treinador a receber o apelido de “Feiticeiro” no Brasil (ou “El Brujo” no Paraguai): a estupenda leitura tática dos jogos e a habilidade de mudar inteiramente o panorama deles mexendo apenas na posição das peças das quais dispunha em campo – lembremos: na época, as substituições não eram permitidas nos torneios em que vigoravam as regras oficiais, como o Carioca.

Logo no início do certame de 1953 houve a emblemática partida na Rua Bariri contra o Olaria, na época dirigido pelo ex-zagueiro rubro-negro Domingos da Guia. Faltando cerca de dez minutos para o fim, os alvianis venciam por 1 a 0, e o Fla não ia bem, com o garoto Maurício sentindo o peso de substituir o ídolo Rubens na meia direita. Até que o Feiticeiro Solich decide entrar em ação e girar quase completamente o posicionamento de seu ataque.

Maurício é remanejado para a ponta-esquerda. Esquerdinha, por sua vez, troca de lado e vai para a ponta-direita. Joel, o dono desta posição, passa a meia-armador, centralizado, municiando Índio e Benítez. Em sete minutos, o Fla marca três vezes e decreta a virada. A mais célebre mudança radical feita por Solich na equipe, porém, viria antes da última partida da melhor-de-três que decidiu o Carioca de 1955 e que daria o tricampeonato aos rubro-negros.

O time do tri. Em pé: Chamorro, Servílio, Pavão, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Dida e Zagallo.

O Flamengo, vencedor dos dois primeiros turnos, enfrentava o America, que levou o terceiro ao aproveitar o cansaço dos rubro-negros na reta final. No primeiro jogo da decisão, os comandados de Solich venceram por 1 a 0, gol de Evaristo no último minuto. No segundo, numa tarde de 1º de abril, os rubros aplicaram uma estrondosa goleada de 5 a 1. Três dias depois viria o desempate, para o qual o treinador tomaria decisões radicais.

Para conter o centroavante americano Leônidas “da Selva”, forte pelo alto e trombador, Servílio entraria na quarta zaga no lugar do titular Jadir. A outra mudança era no ataque: Paulinho, nada menos que o artilheiro do campeonato, era sacado do time para a entrada do garoto Dida, com Evaristo sendo remanejado da ponta de lança para o comando do ataque. E o Fla deu o troco numa final épica, vencendo por 4 a 1. Quatro gols de Dida.

Antes da partida, quando soube que estava fora da final, Jadir chorou. E Paulinho se revoltou. Mas ao fim dos 90 minutos, Solich pôde mostrar que tinha razão. Até porque para ele não era problema barrar quem quer que fosse. O antigo ídolo Rubens havia sentido isso. Meia de futebol filigranado e drible curto, mas com tendência a prender a bola um pouco mais, entrou em rota de colisão com o treinador e foi afastado, mesmo amado pela massa.

Os hábitos de beber e fumar, intoleráveis para o rigoroso Solich, também contribuíram muito para o afastamento do “Doutor Rúbis” do time, assim como o de outros jogadores. Do ponto de vista do preparo físico exigido para realizar o futebol intenso do time, fazia total sentido. Mas a barração revelava algo além: no Flamengo não havia espaço para vedetismos. Nenhum jogador poderia se considerar acima do time, por mais talentoso ou idolatrado que fosse.

Aquele Flamengo era certamente o melhor exemplo em seu tempo da predominância do coletivo sobre a individualidade. Não era o Flamengo de Dida, ou de Evaristo, ou de Rubens, ou de Joel, ou de Dequinha, ou de nenhum outro jogador. Era sobretudo o Flamengo de Solich. As digitais daquele time eram as do Feiticeiro. Seria ele o grande comandante da equipe que levantaria o primeiro tricampeonato carioca do recém-inaugurado Maracanã.

AS CONQUISTAS

No primeiro título, o de 1953, a conquista veio com uma rodada de antecipação e 21 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas nas 27 partidas. O ataque foi o mais positivo do torneio: 77 gols. E o time-base foi bem definido: o paraguaio García no gol; Marinho e Jordan nas laterais; Servílio e Pavão na zaga; Dequinha e Rubens no meio; enquanto Joel, Índio, o também paraguaio Benítez e Esquerdinha formavam o quarteto ofensivo.

No segundo, mais uma vez vencido com uma rodada de antecedência, a campanha foi quase idêntica, apenas com uma vitória a menos e um empate a mais. Desta vez, o destaque foi a defesa, a menos vazada do certame (27 gols sofridos). O time-base, no entanto, foi alterado: o alagoano Tomires entrou na lateral-direita, Jadir retomou seu lugar na zaga ao lado de Pavão, enquanto Evaristo e Zagallo ganharam as vagas de Benítez e Esquerdinha.

O terceiro foi o mais longo de todos: a campanha começou em 7 de agosto de 1955 e só terminou em 4 de abril do ano seguinte, estendendo-se por 30 partidas, com 21 vitórias, dois empates e sete derrotas. Mais uma vez, o time ostentou o ataque mais letal: 87 gols marcados. O time outra vez foi alterado: o argentino Chamorro entrou no gol, Paulinho ganhou mesmo o lugar de Rubens, e Dida passou a se revezar com Evaristo na ponta-de-lança.

Nos anos seguintes, o título carioca não viria, mas o time andaria sempre perto. Em 1956, em um campeonato mais curto (o terceiro turno fora abolido), o Flamengo perdeu o tetra por diversos motivos: o cansaço, as lesões de nomes importantes (Dequinha, onipresente no tri, ficou várias rodadas de fora), uma certa dose de máscara em alguns jogos, além de erros de arbitragem em outros. A taça acabou ficando com o Vasco de Bellini e Vavá.

Em 1957, numa briga cabeça a cabeça com Fluminense e Botafogo, o caneco foi perdido com uma sequência de empates na reta final, deixando o time apenas dois pontos atrás do Alvinegro de Garrincha, Didi e Nilton Santos, treinado por João Saldanha. Curiosamente, o Fla não perderia para nenhum destes campeões: somou uma vitória (1 a 0) e um empate (1 a 1) contra o Vasco de 1956 e duas igualdades (3 a 3 e 1 a 1) contra o dono da taça no ano seguinte.

Também sob o comando de Solich naquelas temporadas, o Flamengo obteve triunfos expressivos, entre eles os 6 a 4 sobre o mítico Honvéd de Puskas, no Maracanã, no dia 19 de janeiro de 1957. Aquele seria o primeiro de uma série de cinco amistosos entre as duas equipes disputados no Rio e em Caracas, entre janeiro e fevereiro, que terminou com duas vitórias para cada lado e um empate, mas com os rubro-negros anotando um gol a mais (18 a 17).

O prestígio de Solich seguia intacto em 1958, a ponto de, no início daquele ano, ser seriamente considerado para o posto de técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suécia. Quanto mais porque, depois de ter revelado vários jogadores para o escrete canarinho e vendido mais de um ataque inteiro (Paulinho, Rubens, Duca, Índio, Evaristo, Benítez, Esquerdinha), o paraguaio havia conseguido formar na Gávea outra equipe tão forte quanto.

Com Solich, a fábrica de craques da Gávea não parava de produzir talentos.

Na época, alegou-se que Solich não era diplomado, e que por isso havia sido preterido pela CBD. Típico argumento para escamotear o real motivo do veto ao treinador: sua nacionalidade. Em fevereiro daquele ano, a escolha surpreendente acabou recaindo sobre Vicente Feola, técnico duas vezes campeão paulista com o São Paulo nos anos 40, auxiliar de Flávio Costa na Copa do Mundo de 1950 e que vinha trabalhando como supervisor no Morumbi.

No ano anterior, Feola havia trabalhado com o treinador húngaro Béla Guttmann no São Paulo e comenta-se que fora muito influenciado por ele ao adotar o 4-2-4 na Seleção. Solich, porém, militava no futebol brasileiro há mais tempo, e Feola tinha conhecimento de seu trabalho: naquele início de 1958, assistira às goleadas do Flamengo sobre o Botafogo (4 a 0) e o Palmeiras (6 a 2) pelo Torneio Rio-São Paulo e se mostrava muito impressionado.

Com efeito, o Flamengo seria o clube com maior número de jogadores chamados tanto na pré-lista, com os convocados para a fase de preparação, quanto na relação final dos 22 para o Mundial da Suécia. Joel, Moacir, Dida e Zagallo integrariam o escrete campeão mundial, enquanto Jadir só não fez companhia a eles por ter sido preterido de última hora pelo quarto-zagueiro vascaíno Orlando, mais acostumado a atuar pelo lado esquerdo da defesa.

Zagallo, aliás, corria por fora na disputa pela ponta-esquerda da Seleção, chegando à titularidade com as lesões de Canhoteiro (que acabaria cortado) e Pepe. Mas, na Suécia, faria toda a diferença na equipe do ponto de vista tático. Era quem dava o equilíbrio entre os três setores, permitia os avanços de Nilton Santos e auxiliava tanto na criação quanto na marcação. Era o símbolo do futebol moderno daquele time, cumprindo o que já fazia no Flamengo.

No segundo semestre, mesmo após negociar Joel e Zagallo, o Fla novamente chegaria bem perto do título carioca, perdido apenas no chamado “supersupercampeonato”, um segundo triangular extra com Botafogo e Vasco – que levou a taça. Mas no início de 1959, o time de Solich ainda levantaria a prestigiosa Gran Serie Suramericana de Clubs, um hexagonal em Lima contra Peñarol, River Plate, Colo Colo, Alianza e Universitario.

Em julho daquele ano, o treinador encerraria sua primeira passagem pelo clube ao ser chamado para substituir o argentino Luis Carniglia no comando do Real Madrid. Voltaria exatamente um ano depois, ficando até janeiro de 1962. Nessa segunda fase, conquistou em 1961 o Torneio Octogonal de Verão (em que os rubro-negros enfrentaram Vasco, São Paulo, Corinthians, Boca Juniors, River Plate, e os uruguaios Nacional e Cerro), e o Torneio Rio-São Paulo.

Também nesta passagem, revelou mais um punhado de excelentes jogadores, como o volante Carlinhos “Violino”, o meia Gérson (o “Canhotinha de Ouro”) e o ponta Germano, mais tarde vendido ao Milan. Anos depois, a eles se juntaria outro nome histórico rubro-negro, o qual Solich lançaria no time de cima em sua terceira e última passagem pela Gávea, no segundo semestre de 1971: um garoto franzino de apenas 18 anos chamado Zico.

Invicto e avassalador, o Flamengo levantava há 100 anos o título carioca de 1920

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O time campeão de 1920 na capa da revista Vida Sportiva.

Poucas conquistas na história do futebol do Flamengo vieram de maneira tão tranquila quanto este terceiro título carioca, matematicamente confirmado há exatamente um século, em 28 de novembro de 1920, após uma vitória sobre o extinto Andarahy no também não mais existente estádio rubro-negro da Rua Paissandu. O caneco veio com dois jogos de antecedência e sem nenhum arranhão, de maneira invicta. Um autêntico passeio, e ainda carregado de simbologias em meio a um ano repleto de eventos, como veremos.

O ano de 1920 foi muito movimentado no Rio de Janeiro (então capital federal) e no Brasil, dentro e fora do esporte. O país ainda voltava à normalidade após a pandemia da gripe espanhola, que – ao contrário do que o nome popular sugere – surgiu nos Estados Unidos e de lá se espalhou pelo planeta, matando cerca de 3% da população mundial na virada de 1918 para 1919. Por aqui, o Rio, então a cidade mais populosa, teve também o maior número de infectados e de óbitos, chegando a registrar mil mortes num único dia.

Com consequência daqueles dias duros, conta-se que o Carnaval de 1920 (o primeiro após o país se livrar de vez do vírus) foi uma loucura, uma celebração ensandecida, uma catarse coletiva. Enquanto isso, a cidade e o país se preparavam para receber a visita oficial do Rei Alberto, da Bélgica, que passaria quase um mês por aqui, entre setembro e outubro. A viagem impactaria até mesmo no futebol, interrompendo a disputa do Campeonato Carioca por todo aquele período. Mas aquele não seria o único evento a suspender o certame.

Também em setembro haveria a disputa do Campeonato Sul-Americano no Chile, com a Seleção Brasileira (composta basicamente por jogadores de clubes cariocas) entrando em campo nos dias 11, 18 e 25. Naquele ano seria realizado ainda outro grande evento esportivo, os Jogos Olímpicos de Antuérpia, na Bélgica, entre agosto e setembro. Mas como o Brasil não levou equipe de futebol, os certames locais não foram interrompidos. Com todos esses eventos, o Campeonato Carioca começou mais cedo que o habitual, no dia 11 de abril.

UM BOM PRESSÁGIO EM VERMELHO E PRETO

Uma semana antes, porém, foi realizada a quarta edição do Torneio Início (ou “Initium” na grafia da época), a terceira com participação do Flamengo, que sairia vencedor pela primeira vez. Na série de jogos disputada no estádio de Laranjeiras, os rubro-negros estrearam superando o Bangu no número de escanteios (3 contra 1) após empate em 0 a 0 nos 20 minutos de bola rolando. Em seguida, venceram fácil o Mangueira por 3 a 0 na semifinal. E na final, um gol do ponta Carregal deu a vitória pelo placar mínimo sobre o São Cristóvão.

Carregal havia sido um dos quatro jogadores rubro-negros convocados para a Seleção Brasileira que em 1919 havia conquistado pela primeira vez na história o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), numa edição disputada no Rio. Mas apenas ele e o atacante Junqueira seguiam no clube para a temporada de 1920. O zagueiro Píndaro e o médio Gallo, remanescentes do primeiro time de futebol rubro-negro e veteranos das conquistas dos títulos cariocas de 1914 e 1915, decidiriam se aposentar ao fim de 1919 e se dedicar às suas profissões.

Píndaro, lendário zagueiro apelidado “Gigante de Pedra”, era médico sanitarista e ajudara a combater a pandemia da gripe espanhola na cidade enquanto fazia seus últimos jogos pelo clube. Mas ainda participaria da campanha de 1920, como veremos mais adiante. Por outro lado, o clube obteve importantes reforços. O maior deles era o goleiro gaúcho Julio Kuntz, revelado pelo Grêmio e com passagem rápida pelo obscuro Silva Manoel Football Club, do centro do Rio, mas que logo se sagraria um dos maiores da posição na história rubro-negra.

Kuntz, cuja história foi contada neste post, já se mostrou um arqueiro brilhante no Torneio Início, no qual não foi vazado nenhuma vez. Os outros dois principais reforços ficariam de fora destes jogos, mas logo entrariam em campo: o médio-direito Rodrigo, vindo do America, já seria titular na estreia no Carioca, contra o Villa Isabel. Já o atacante João de Deus Candiota, que havia feito algumas partidas pelo Botafogo em 1919, teria de esperar mais um pouco para jogar, antes de se firmar na equipe titular rubro-negra na competição.

O favorito destacado ao título daquele ano, porém, era o Fluminense. Detentor dos três últimos títulos (1917, 1918 e 1919), ainda que não pudesse contar com seu goleiro Marcos Carneiro de Mendonça por boa parte do certame de 1920, mantinha todos os seus demais destaques, como os médios Laís e Fortes e a poderosa linha ofensiva formada por Mano, Zezé, Welfare, Machado e Bacchi, que anotara 68 gols na campanha de 1919 – na qual somou 17 vitórias e uma derrota (para o São Cristóvão) em seus 18 jogos. Uma verdadeira máquina.

O certame era organizado pela Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA) e disputado por dez equipes em turno e returno no sistema de pontos corridos. E tinha como grande novidade o estreante Palmeiras Athletico Club, agremiação da Quinta da Boa Vista que se sagrara campeã da segunda divisão e substituía o Carioca Football Club, rebaixado no ano anterior. Mas, mesmo com todo o favoritismo do Fluminense, o Flamengo logo de saída mostrou suas credenciais à conquista do título, iniciando sua campanha de maneira fulminante.

A estreia veio no dia 18 de abril, uma semana após a abertura do certame, diante do Villa Isabel no campo do adversário, localizado no antigo Jardim Zoológico. O Fla abriu 2 a 0 com gols de Carregal e do meia Aníbal Candiota (um dos grandes talentos daquele time, apelidado “Príncipe dos Passes”, pela enorme qualidade técnica). Viu o time da casa descontar com o meia-esquerda Cecy na etapa final. Mas fechou o placar em 3 a 1 com um gol de Eustace Pullen. Era a primeira vitória do Fla sobre o adversário naquele campo, após dois empates.

O segundo jogo também seria como visitante, agora diante do Mangueira no campo do Andarahy, na rua Barão de São Francisco. O adversário – que também usava camisas rubro-negras, mas com listras verticais – já construíra na década anterior a fama de saco de pancadas da competição, mas mesmo assim o Fla chegou a ter dificuldades no primeiro tempo e esteve perdendo primeiro por 1 a 0 e depois por 2 a 1 (com Eustace Pullen marcando o gol de empate). Mas ainda voltaria a igualar antes do fim do primeiro tempo com Sisson.

Na volta do intervalo, o time deslanchou: Sisson marcou mais três vezes e Eustace Pullen também balançou novamente as redes para selar a vitória por 6 a 2. O jogo ainda ficou marcado pela agressão do médio Moacyr, do Mangueira, a Candiota, mas a turma do “deixa disso” agiu rápido e evitou que a briga se transformasse numa batalha campal. Curiosamente, o Fla só voltaria a entrar em campo pelo certame quase um mês depois, em 23 de maio, e logo no primeiro Fla-Flu da competição, atraindo enorme expectativa.

UM FLA-FLU PARA A AFIRMAÇÃO

“Como sempre acontece a lucta entre os dois mais terríveis adversários provoca uma grande curiosidade, fazendo com que a polícia mandasse suspender a venda de entradas porque não havia mais lugar onde ficar quem quizesse assistir o match”, escreveu, na grafia da época, o Jornal de Theatro & Sport. Era a primeira vez naquele certame que o Flamengo jogaria em seu estádio na Rua Paissandu. O Fluminense, por sua vez, defendia invencibilidade no clássico que vinha desde maio de 1916, quando o Fla venceu por 4 a 1 no mesmo palco.

O time rubro-negro para o Fla-Flu do primeiro turno.

O Flamengo escalaria naquela tarde o time que, com apenas uma alteração na meia-esquerda, formaria a base campeã: o extraordinário Kuntz era o goleiro, tendo à sua frente a dupla Burgos e Telefone na zaga. Os médios eram Rodrigo, Sydney Pullen e Dino. E a linha de ataque trazia Carregal, Candiota, Sisson, Eustace Pullen (que logo sairia do time para a entrada de João de Deus) e Junqueira. Sisson e Sydney Pullen – este, o nome mais experiente do time – muitas vezes trocavam de posição, de pivô do meio-campo para o ataque.

Naquela tarde de sol, o estádio da Rua Paissandu recebeu “colossal assistência, calculada em 15 mil pessoas”, segundo o jornal O Paiz. Para se ter uma ideia, a crônica do jogo não saiu detalhada como de costume nas publicações do dia seguinte porque o local destinado à imprensa também foi invadido pelo público. Sydney Pullen abriu a contagem para o Flamengo no primeiro tempo e Junqueira ampliou na etapa final, antes de Machado descontar para os tricolores. Depois, com grande atuação de sua linha média, o Fla segurou a vitória por 2 a 1.

A comemoração da torcida rubro-negra foi intensa: “Terminada a partida, o povo invadiu o campo e, em triumpho, carregou os victoriosos do dia”, registrou O Paiz. A vitória sobre os tricampeões era mais uma mostra de que o Flamengo poderia interromper a sequência de títulos do rival. Uma semana depois, porém, o time perderia seu primeiro ponto, ao empatar em 0 a 0 o clássico diante do America de novo na Rua Paissandu, numa partida em que o adversário perdeu dois pênaltis – um deles, cobrado pelo zagueiro Perez, defendido por Kuntz.

Em junho, o Fla entraria em campo duas vezes. Na primeira partida, uma ótima vitória sobre o São Cristóvão em Figueira de Melo sob chuva forte e campo alagado. O jogo bem movimentado teve como destaque Junqueira, autor de três gols, incluindo o que abriu o placar aos 15 minutos. Leão deixou tudo igual aos 26, e o jogo foi para o intervalo no 1 a 1. Na volta, Candiota colocou o Fla de novo na frente e Junqueira ampliou. Martins descontou e novamente Junqueira fez o quarto. No fim, Leão diminuiu de novo para 4 a 3, escore final.

A VOLTA DE UM VELHO CONHECIDO

Na segunda, contra o Palmeiras no dia 27, o Flamengo enfrentava sucessivas baixas na defesa: o zagueiro titular Burgos era desfalque, assim como o jovem Antonico, dos chamados “segundos quadros” (espécie de equipe de aspirantes), forçando o clube a recorrer a uma solução inusitada: chamar de volta o aposentado Píndaro, 28 anos, na ocasião exercendo sua profissão de médico sanitarista à frente do Departamento de Higiene da Prefeitura do Distrito Federal. Por um único jogo, ele voltaria a formar a dupla de zaga com Telefone.

Píndaro, é verdade, já havia reaparecido nos gramados uma semana antes, comandando a zaga do “scratch” (seleção) carioca que derrotara os paulistas por 2 a 1 na capital bandeirante num jogo-treino de observações para a formação da Seleção Brasileira que disputaria o Campeonato Sul-Americano no Chile e – então ainda se cogitava – também os Jogos Olímpicos de Antuérpia. E para a partida do Flamengo com o Palmeiras, a ser realizada no campo do America na rua Campos Sales, ele foi inicialmente relacionado para a reserva.

Mas acabou jogando e cumprindo atuação impecável contra um ataque adversário que incluía dois jogadores que se transfeririam para o próprio Flamengo na temporada seguinte: o ponteiro Orlando Torres e o centroavante Nonô – este, em particular, faria história vestindo rubro-negro. O Flamengo marcou duas vezes no primeiro tempo, com Junqueira e Candiota (aproveitando falha do zagueiro Dídimo), e disparou a goleada na etapa final, com mais dois gols de Candiota e um de Sydney Pullen, fechando o escore num elástico 5 a 0.

O próximo adversário, em 11 de julho, era o Botafogo, que até ali cumpria campanha perfeita, com seis vitórias em seis jogos, mas ainda sem enfrentar nenhum dos grandes da época. Seu primeiro clássico seria diante do Flamengo na Rua Paissandu. Com a bola rolando, os rubro-negros tiveram amplo domínio das ações: além de acertarem a trave num chute de Junqueira, obrigaram o goleiro alvinegro Oliveira a realizar sete defesas, contra apenas duas de Kuntz. Mas foi o Botafogo que abriu o placar com Petiot, num contra-ataque.

O Flamengo, no entanto, chegaria ao empate logo aos dois minutos da etapa final com Geraldo, num chute que desviou no zagueiro Sylla. E a virada, que premiaria o melhor time em campo, chegaria aos 26 minutos, quando Junqueira recebeu ótimo passe de Sydney Pullen e tocou para vencer Oliveira. Com o resultado, o Fla enfim assumia a liderança do torneio tanto em pontos ganhos quanto perdidos e se mantinha como a única equipe ainda invicta no campeonato. E logo na semana seguinte conseguiria ampliar essa vantagem.

De novo jogando na rua Barão de São Francisco, o Flamengo derrotou o Andarahy por 2 a 1 e se isolou na liderança. Após um empate a zero no primeiro tempo, Junqueira marcou duas vezes no início da etapa final, chegando a oito gols em oito partidas no campeonato, antes de Gilabert descontar para a equipe da casa. Naquela mesma tarde, o Botafogo voltou a ser derrotado, agora caindo para o Fluminense em Laranjeiras por 3 a 1, fazendo com que a vantagem dos rubro-negros na ponta da tabela aumentasse para três pontos ganhos.

A diferença, porém, cairia para dois pontos após a rodada do dia 1º de agosto. Fla e Bota teriam pela frente, respectivamente, Villa Isabel e Palmeiras, as duas equipes que ocupavam a rabeira da classificação. Enquanto os alvinegros golearam os estreantes por 6 a 1 em partida disputada em Laranjeiras, os rubro-negros – que não puderam treinar nenhuma vez durante a semana devido a outros compromissos de seus jogadores – amargaram um surpreendente tropeço na Rua Paissandu, parando no empate em 1 a 1.

O “club do Boulevard” saiu na frente com gol de Julinho e teve outras chances para marcar. Mas na etapa final, o Fla reagiu e chegou à igualdade com mais um gol de Junqueira aproveitando passe de Sydney Pullen. Depois desse tropeço, no entanto, o time rubro-negro voltou aos trilhos: uma semana depois, derrotou o Bangu por 2 a 0 na Rua Paissandu com um gol de Candiota no primeiro tempo e mais um de Junqueira na etapa final. E sete dias depois, bateu novamente o Botafogo, agora em General Severiano, tornando-se ainda mais líder.

O Flamengo abriu o placar logo no primeiro minuto com Sisson. Com disso, o Botafogo se viu obrigado a se lançar ao ataque e até chegou a empatar com gol de Vadinho, após uma série de grandes defesas de Kuntz. Mas o Fla retomou a vantagem ainda na etapa inicial, aos 19 minutos, quando o médio Japonês bateu escanteio e Sydney Pullen cabeceou para marcar. Os alvinegros voltaram para o segundo tempo dispostos a buscar de qualquer maneira ao menos o empate, pressionando intensamente, mas Kuntz esteve intransponível.

No último minuto, num contra-ataque, a jogada já tradicional do ataque rubro-negro: passe de Sydney Pullen para Junqueira, que se aproveita da indecisão do zagueiro Monti e da falha de posicionamento do goleiro Oliveira para chutar e marcar o terceiro gol do Flamengo, selando a importante vitória. O resultado no confronto direto fazia o Fla abrir quatro pontos de frente sobre o Botafogo, além de sete sobre o Fluminense, terceiro colocado – que, no entanto, tinha três jogos a menos. E então veio a pausa para os grandes eventos do ano.

ENQUANTO A BOLA PAROU…

Entre 15 de agosto e 31 de outubro foram disputadas apenas algumas partidas atrasadas. O Fla não chegou a jogar nesse período, mas alguns de seus atletas – Kuntz, Telefone, Rodrigo, Sisson, Japonês e Junqueira – entraram em campo pela Seleção Brasileira no Campeonato Sul-Americano do Chile. Apesar da fraca campanha do Brasil em Viña del Mar, o goleiro rubro-negro terminou o certame como um grande destaque, recebendo muitos elogios da imprensa internacional, prestígio que só aumentaria na edição seguinte do torneio, em 1921.

Pouco depois da disputa do Sul-Americano, cerca de 200 atletas do Flamengo das mais variadas modalidades – com o famoso remador Arnaldo Voigt à frente, como porta-bandeira – estiveram entre os participantes da grande parada esportiva em homenagem ao Rei Alberto da Bélgica, realizada em 26 de setembro em Laranjeiras. O campo da Rua Paissandu, aliás, foi onde se deu a concentração dos desportistas de todos os clubes da Liga. O evento teve ainda um jogo de futebol entre combinados de clubes da Zona Norte e da Zona Sul.

Na volta ao campeonato, em 31 de outubro, o Flamengo ainda vivia situação confortável na tabela. O Botafogo – que entrou em campo duas vezes durante a paralisação – diminuíra a diferença para um ponto, mas agora tinha dois jogos a mais. Em terceiro, o America vinha três pontos atrás dos rubro-negros, mas em 12 jogos contra 11. O Fluminense, por sua vez, seguia na mesma situação de antes (13 pontos ganhos contra os 20 do Fla, mas em apenas oito partidas). O primeiro adversário do Fla no retorno seria o São Cristóvão.

O time cadete (cujo goleiro tinha o curioso nome de Carnaval) bem que tentou equilibrar as ações na etapa inicial, mas o Fla foi mais preciso nas conclusões e levou para o intervalo o placar de 3 a 0, marcando Candiota, Japonês e Sydney Pullen. Logo no primeiro minuto da etapa final, Junqueira deixaria o seu, ampliando a goleada. No fim, Epaminondas diminuiria, mas a vitória de 4 a 1 não só confirmaria que o Flamengo não perdera o gás com a paralisação como ainda evidenciava que o título estava próximo, ajudado por tropeços dos rivais.

O Flamengo perfilado para enfrentar o São Cristóvão na reta final.

O Fluminense, por exemplo, sofrera uma surpreendente derrota por 3 a 0 para o lanterna Villa Isabel, aumentando para nove pontos sua distância para o Fla, quase inalcançável mesmo apesar dos três jogos a menos. Quanto mais porque, uma semana depois, o Flamengo voltou a vencer, fazendo 2 a 1 no Mangueira na Rua Paissandu (num jogo em que o goleiro adversário Milla evitou um placar muito mais elástico), enquanto o clube de Laranjeiras foi novamente derrotado, agora no clássico diante do Botafogo, por 2 a 1 em General Severiano.

A vantagem rubro-negra poderia ter aumentado na rodada de 14 de novembro, em que o time receberia o Palmeiras. Porém, jogando com muita displicência, o Flamengo voltou a perder um ponto após quatro vitórias seguidas, ficando no empate em 1 a 1 numa partida em que poderia ter até saído derrotado. Candiota abriu o placar para o Fla e o futuro ídolo rubro-negro Nonô decretou o empate, tendo ainda um gol anulado no segundo tempo. Atuação que muito provavelmente motivou sua contratação para a temporada seguinte.

PARA NÃO ALCANÇAREM MAIS

A recuperação viria uma semana depois na visita ao Bangu, no longínquo campo da rua Ferrer. A vitória começou a se desenhar ainda no primeiro tempo, quando o médio Waldemiro cometeu pênalti aos 24 minutos e o zagueiro rubro-negro Telefone cobrou e converteu. Junqueira, que passara em branco contra o Palmeiras depois de ter balançado as redes em nove jogos seguidos, ampliou para o Fla dois minutos depois. Mas ainda na etapa inicial o atacante banguense Claudionor (o “Bolão”) descontou num momento de pressão do time da casa.

No segundo tempo, os rubro-negros ainda ampliaram com Candiota, antes do zagueiro Leitão diminuir convertendo um pênalti cometido por Dino. Aliada aos tropeços, no mesmo dia, do Fluminense contra o Palmeiras em Laranjeiras e do America na visita ao Andarahy (ambos, empates em 1 a 1), a vitória por 3 a 2 sobre os alvirrubros deixou o Flamengo com a mão na taça, podendo ser campeão já na rodada seguinte, em 28 de novembro, caso vencesse o mesmo Andarahy na Rua Paissandu e o Botafogo não batesse o Bangu na Rua Ferrer.

Mas havia um problema: por alguma estranha razão, o Fla tinha enormes dificuldades sempre que enfrentava o alviverde da Zona Norte em casa, na Rua Paissandu. Para se ter uma ideia, desde 1916 os rubro-negros haviam recebido o Andarahy cinco vezes em seu estádio (entre amistosos e jogos pelo Carioca), vencendo apenas uma – por um magro 1 a 0 – e somando dois empates e duas derrotas acachapantes por 3 a 0 nas outras duas. Só a partir de 1922 é que bater aquele adversário no antigo estádio rubro-negro se tornaria rotineiro.

Contra essa pedra no sapato inesperada o Flamengo recorreu a sua dupla que já arquitetara e concretizara muitos de seus gols na campanha. Junqueira foi o primeiro a entrar em ação, logo no primeiro minuto, marcando o primeiro gol da tarde num chutaço em que a bola ainda bateu na trave antes de entrar. O Andarahy, que chutava de qualquer maneira e para todo lado sempre que tinha a bola nos pés, ainda tentou de novo atrapalhar as pretensões rubro-negras empatando aos sete minutos do segundo tempo com seu goleador Gilabert.

Mas a 13 minutos do fim, João de Deus cruzou para Sydney Pullen, e o “inglês”, com belos dribles, livrou-se dos beques alviverdes antes de mandar a bola para as redes. Era não somente o gol que recolocava o Fla em vantagem. Era o da vitória. E o do título antecipado, uma vez que, na distante rua Ferrer, o Bangu derrotava o Botafogo pela primeira vez em sua história, fazendo 4 a 3 num jogo em que os alvinegros saíram vencendo por 2 a 0, mas levaram a virada ainda no primeiro tempo. Caneco assegurado, o Fla agora jogaria para se manter invicto.

A defesa do America leva a melhor. Mas o título já estava ganho.

Corriam pela cidade, entretanto, os boatos dando conta de que, por já ter o título assegurado e também por não poder contar com alguns titulares, o Flamengo não entraria em campo e entregaria os pontos nos seus dois últimos compromissos, ambos na casa dos adversários, diante do America em Campos Sales no dia 5 de dezembro e do Fluminense em Laranjeiras no dia 18. Tais rumores foram logo desmentidos: mesmo desfalcado, o Fla arrancou um 0 a 0 dos rubros e um 2 a 2 dos tricolores, após estar duas vezes em desvantagem.

E o Flamengo foi campeão invicto. Não era a primeira vez que isso acontecia no campeonato (o próprio Fla levantara o título de 1915 sem derrotas). Mas nenhuma outra equipe até então havia obtido o feito jogando tantas partidas: foram 18 jogos, com 13 vitórias e cinco empates. Dois destes cinco, aliás, vieram quando a conquista já estava matematicamente assegurada. Além disso, com aquele título os rubro-negros iniciavam certa tradição de impedir tetras do Fluminense, algo que voltaria a acontecer em 1939 e 1986.

O título também foi marcante por outra simbologia: em 15 de agosto (mesmo dia da vitória no futebol sobre o Botafogo em General Severiano por 3 a 1), o Flamengo conquistara com a guarnição “Aymoré” seu terceiro título carioca de remo, esporte fundador. Era a primeira vez que o clube levantava num mesmo ano os certames da cidade em ambas as modalidades, tornando-se de fato “campeão de terra e mar”. E que, em um século, aconteceria 18 vezes.

Os 60 anos de Mozer, raça e talento na zaga rubro-negra da década de 1980

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Um dos melhores zagueiros da história do Flamengo, Mozer completa 60 anos neste sábado. Um dos mais jovens do time que venceu todos os títulos possíveis na virada 1981/82, tinha estilo que parecia uma síntese dos maiores do clube na posição: conciliava a raça e a coragem de Rondinelli, a técnica ousada que fazia lembrar Domingos da Guia e a excelência na saída de jogo e nas arrancadas ao ataque à imagem do paraguaio Reyes. E ainda acrescentava à receita a imposição física e a excelência no jogo aéreo na defesa e no ataque.

Em sua edição especial “Quem é quem no futebol”, publicada em setembro de 1991, a revista Placar descreve Mozer em sua ficha como “quarto-zagueiro, técnico, forte nas disputas corpo a corpo, impulsão fantástica, recuperação rápida”. Mas o que poucos sabem é que seus primeiros passos no futebol aconteceram em outra posição e que muitas de suas qualidades observadas ao longo da carreira só despontaram no fim da adolescência, quando o “Vampiro” (como passou a ser chamado pelos companheiros) cresceu e apareceu.

UM SALTO PARA O SUCESSO

Nascido num conjunto residencial de Bangu, Zona Oeste carioca, José Carlos Nepomuceno Mozer começou no futebol de salão (hoje futsal) atuando pelo Cassino Bangu e depois pelo Pavunense. Já nos gramados, o início veio no dente-de-leite no Campo Grande, chegando mais tarde à escolinha do Botafogo, então comandada por Neca, famoso revelador de talentos do futebol carioca da época. Mas sua carreira quase terminou por aí. Embora muito habilidoso, o meia-esquerda de 14 anos tinha problemas: era baixinho e mirrado.

Antevendo sua provável dispensa ao fim do ano, pediu a seu pai que o levasse numa peneira do Flamengo na Ilha do Governador. Aprovado, foi submetido ao mesmo tratamento de Zico para ganhar corpo e acelerar seu crescimento. Quando chegou ao clube, media 1,53 metro. Aos 19, já media 1,86. O rápido crescimento, por outro lado, diminuiu sua velocidade, levando-o a mudar de posição: de meia, passou a centroavante, volante e, por fim, quarto-zagueiro, por orientação do paraguaio Modesto Bria, técnico da base rubro-negra.

Campeão carioca juvenil pelo clube em 1979 e bicampeão brasileiro da categoria pela seleção carioca, Mozer já era apontado dentro e fora do clube como grande promessa, antes mesmo de ser promovido ao elenco principal. O lateral-esquerdo Júnior chegou a comentar na época que ele e seus companheiros pediam para chegar mais cedo ao Maracanã para poder assistir, do túnel, ao garoto jogar pela equipe de juvenis. “Ele sabe tudo de bola”, dizia o Capacete. Não demorou muito até ser chamado pela Seleção Brasileira de novos.

Em maio de 1980, a equipe canarinho dirigida pelo experiente técnico Nelsinho Rosa Martins (ex-jogador rubro-negro), viajaria para a França, onde participaria do Torneio de Toulon, tradicional competição entre seleções de base. Na primeira fase, o Brasil goleou a China (8 a 0), empatou com a Tchecoslováquia (1 a 1) e derrotou a Holanda (2 a 0). Na final, uma vitória sobre a dona da casa França na prorrogação (2 a 1) deu ao Brasil seu primeiro título no torneio. Elogiado por sua regularidade, Mozer foi apontado como o destaque do campeonato.

Ao lado de Júnior, Mozer carrega a Taça Guanabara de 1980.

Quando retornou, o Flamengo tinha acabado de se sagrar campeão brasileiro. Mas haveria uma oportunidade aguardando por ele na Taça Guanabara, que naquele ano voltaria a ser disputada como um torneio à parte do Estadual, como em seus primeiros anos. A estreia de Mozer no time principal viria nesta competição, no Fla-Flu de 13 de julho, vencido pelos rubro-negros por 2 a 0. Titular ao lado de Rondinelli, o novato começou nervoso, recorrendo a entradas duras. Mas logo se acalmou e fez partida de destaque por sua segurança.

O zagueiro de 19 anos seguiu como titular até o fim do torneio, ajudando o Flamengo a levantar o tricampeonato. Entre um jogo e outro, voltou ao time de juniores para conquistar o bi estadual da categoria. E em seguida, embarcou com o elenco principal para uma excursão europeia, atuando em alguns jogos e adquirindo valiosa experiência. Entretanto, no retorno ao Rio para a disputa do Estadual, percebeu seu espaço se reduzir quando o clube anunciou a contratação do ex-palmeirense Luís Pereira, vindo do Atlético de Madrid.

Agora em quarto lugar na fila dos zagueiros (atrás do novo reforço, de Rondinelli e de Marinho), Mozer precisaria ter paciência e aguardar sua vez. Pouco utilizado no Carioca de 1980 (a última competição do Flamengo sob o comando de Cláudio Coutinho) e também no Brasileiro de 1981 (quando Modesto Bria, seu ex-técnico da base, assumiu o time profissional), ele só ganhou uma sequência de jogos ao ser mais uma vez convocado para a Seleção de novos que retornaria a Toulon em junho daquele ano. E de lá voltaria com mais um caneco.

ENFIM, TITULAR ABSOLUTO

O título na França – no qual o Brasil passou sem sofrer gols diante de Itália (2 a 0), Portugal (2 a 0), União Soviética (1 a 0) e Tchecoslováquia (2 a 0) – rendeu novo destaque a Mozer, que agora se depararia com um cenário mais favorável na Gávea: Luís Pereira, que nunca se adaptara ao clube, foi negociado com o Palmeiras em 28 de abril, logo após o Brasileiro. E no fim de junho, durante a Taça Guanabara (agora de novo um turno do Estadual), uma lesão de Rondinelli abriu espaço para o retorno do jovem zagueiro. E ele não sairia mais do time.

Seleção de novos em 1981: Mozer, capitão do time, é o primeiro da esquerda para a direita. O volante Vitor, outro rubro-negro, é o quinto.

Jogando ao lado de Marinho, ou de Rondinelli, ou de Figueiredo – seu antigo companheiro de zaga no juvenil – ou mesmo de Leandro (que chegou a ser escalado no centro da defesa), Mozer só ficou de fora de três dos 43 jogos que o Flamengo faria de sua efetivação até o fim do ano – mesmo assim por ter sido poupado em meio à intensa rotina de jogos que em muitos momentos fazia a equipe entrar em campo até quatro vezes por semana, pelo longo Estadual em três turnos e pela Taça Libertadores da América, disputada em paralelo.

Mas a história quase foi diferente: em 19 de julho, o Flamengo enfrentava o Serrano no Maracanã e vencia por 1 a 0, quando houve uma cobrança de falta para o adversário, com a bola levantada para a área. Na barreira, Mozer tentou uma jogada de efeito, esticando o tronco para a frente e a perna para trás na tentativa de fazer o corte – o que conseguiu. Só que Dino Sani, novo técnico rubro-negro, considerou o recurso do zagueiro uma jogada irresponsável e tirou-o de campo ainda no primeiro tempo, além de dar uma bronca no intervalo.

Havia a expectativa sobre se o lance faria Mozer perder seu lugar no time. Mas Dino Sani – que já se indispusera com outros jogadores – caiu antes, substituído por Paulo César Carpegiani. Arestas aparadas, o zagueiro se firmou de tal modo que o clube não se importou em abrir mão de Rondinelli, negociando o antigo ídolo com o Corinthians em setembro. Afinal, o Flamengo já estava formando seu novo Deus da Raça, com a mesma garra e liderança (apesar da pouca idade) somadas à vantagem de ter a qualidade técnica de um meia.

E seria com Mozer como titular da zaga que o Flamengo conquistaria no fim daquele ano, num espaço de 21 dias, a Libertadores, o Estadual e o Mundial Interclubes. Nas três decisões suas atuações foram bastante seguras, com destaque para a do Carioca, no 2 a 1 sobre o Vasco de Roberto Dinamite na tarde de 6 de dezembro, que recebeu a seguinte avaliação do Jornal do Brasil: “O melhor da defesa. Não falhou uma vez sequer. Ganhou pelo alto, por baixo, deu chutões, mostrou categoria e entrou duro quando necessário”.

O NOVO DEUS DA RAÇA

Sua titularidade seguiu por boa parte do Brasileiro de 1982 (também vencido pelo Fla), no qual protagonizou uma virada sensacional sobre o Atlético-MG na segunda fase. Os rubro-negros saíram atrás com gol de Reinaldo aos 14 minutos e tiveram Figueiredo (improvisado na lateral direita) expulso ainda na primeira etapa. Mesmo com um a menos, o time chegou ao empate no segundo tempo, com gol de Adílio após passe de cabeça de Mozer aos 28 minutos. E mais tarde à vitória, na raça, em cabeçada fulminante do zagueiro a nove minutos do fim.

O campeonato, porém, terminaria para Mozer no jogo de ida das quartas de final contra o Santos, no Maracanã, ao fraturar uma costela. Seria a primeira lesão de um ano marcado pelos problemas físicos, em especial no joelho direito, restringindo sua participação a apenas três partidas do mês de setembro em diante. Quando esteve em campo, no entanto, foi muito bem: teve ótima atuação tanto no 1 a 0 no Vasco que valeu o penta da Taça Guanabara quanto nos 3 a 0 sobre o River Plate no Monumental de Nuñez pela Libertadores.

Operado para a extração dos meniscos do joelho direito em novembro de 1982, Mozer ficou fora até abril de 1983. Recuperado, tornou-se peça fundamental no ressurgimento do time durante o Campeonato Brasileiro com a chegada do técnico Carlos Alberto Torres. Já na estreia do treinador, contra o Corinthians no Maracanã no dia 17 daquele mês, o zagueiro marcou com uma bonita cabeçada o quarto gol do Flamengo na goleada por 5 a 1. E fez também um dos três tentos do time estranhamente anulados pelo árbitro gaúcho Roque José Gallas.

Porém, novamente as lesões deixariam o zagueiro de fora da decisão do torneio. No jogo de ida da final contra o Santos no Morumbi, Mozer teve ótima atuação e chegou a participar da jogada que culminou no gol de desconto na derrota por 2 a 1, o que manteve viva a esperança de título do Flamengo. Porém, no último minuto, foi atingido por uma cabeçada (não intencional) de Paulo Isidoro e sofreu afundamento no malar, tendo de ser operado de emergência assim que voltou ao Rio. No Maracanã, Figueiredo entrou em seu lugar.

O Flamengo viveu período turbulento nos primeiros meses após a venda de Zico à Udinese, em junho de 1983. Mas Mozer passou incólume por ele, a ponto de, no fim de julho, ser chamado pela primeira vez para a Seleção principal, então dirigida por Carlos Alberto Parreira, e seguir como titular por toda a campanha da Copa América daquele ano. Começava ali seu auge técnico atuando no futebol brasileiro. Especialmente no momento em que, além de se consolidar como uma verdadeira barreira na zaga, tornou-se também temível no ataque.

A AFIRMAÇÃO NO CLUBE E NA SELEÇÃO

Além de se aproveitar de sua estatura nas jogadas aéreas ofensivas, Mozer também se tornou um ótimo batedor de faltas. E, como Júnior era um lateral-esquerdo que apoiava mais por dentro, fazendo a função de meia-armador, Mozer tinha liberdade para descer ao setor ofensivo como um verdadeiro ala por aquele lado. E por aquele flanco ele andou fazendo jogadas maravilhosas. Como no encarniçado empate em 1 a 1 diante do Paraguai no Defensores del Chaco, pelas semifinais da Copa América, na noite de 13 de outubro de 1983.

A dois minutos do fim, o Brasil perdia por 1 a 0, gol de Morel, quando um balão para o alto do lateral Paulo Roberto no rebote de uma cobrança de falta encontrou Mozer descendo pela esquerda do ataque. E o beque fez uma jogada de ponteiro autêntico: um drible curto para descadeirar o primeiro adversário, uma dividida ganha no pé de ferro com outro marcador e o cruzamento da linha de fundo na medida para o sem-pulo violento de Éder, arrancando o empate num jogo nervoso. E que rendeu ao zagueiro a aclamação definitiva.

Pela avaliação do Jornal do Brasil, Mozer “foi, de longe, o melhor do Brasil, com uma grande atuação”. “Mostrou segurança e coragem”, destacou o diário, que também lembrou sua presença crucial nos dois lances mais importantes para a Seleção na partida. A bola paraguaia salva de cabeça, em cima da linha, com Leão já vencido, e a jogada inteira do gol de Éder. Onze dias antes, em lance semelhante (arrancada pelo mesmo lado), ele havia cruzado para Tita cabecear o gol da vitória de virada por 2 a 1 no Fla-Flu da Taça Rio.

Um dos maiores destaques em meio à recuperação rubro-negra naquele returno do Estadual, Mozer também fez partida impecável na tranquila vitória por 3 a 0 sobre o Vasco, na penúltima rodada, dominando completamente seu setor e apoiando com decisão. Como analisou o Jornal do Brasil: “Está realmente numa forma exuberante. Dificilmente é batido e ainda se dá ao luxo de ir à frente tentar jogadas de gol. Sempre que se lança leva perigo e, em muitas vezes, só foi parado com faltas. Bateu uma falta muito bem, mas Acácio defendeu”.

Com seu futebol se afirmando a olhos vistos, Mozer apresentaria um belo cartão de visitas para a temporada 1984 com outra jogada ainda mais impressionante logo no início daquele ano. Na noite de 11 de fevereiro, Flamengo e Santos jogavam no Maracanã pela rodada de abertura da Taça Libertadores da América. E o zagueiro já havia inaugurado o placar no primeiro tempo com um belíssimo sem-pulo no rebote de uma cobrança de falta de Tita. Mas nada perto do que ele faria pouco depois da volta do intervalo, aos 11 minutos da etapa final.

Após recolher a bola num ataque rubro-negro, o goleiro santista – o uruguaio Rodolfo Rodríguez – saiu jogando com um lançamento com as mãos, buscando o atacante Serginho Chulapa. Mas Mozer atravessou a linha do meio-campo e se antecipou brilhantemente, iniciando uma nova ofensiva do Fla. Percebendo o espaço à sua frente, arrancou como se fosse um ponta, gingou na frente do lateral Toninho Oliveira e, antes que o beque Toninho Carlos chegasse para dividir, disparou um verdadeiro míssil para as redes. Rodolfo nem viu.

No fim, o Fla goleou por 4 a 1. Assim como faria na “revanche” santista no Morumbi no dia 20 de abril: 5 a 0, com mais outro gol de Mozer, o segundo da partida, mergulhando num sensacional peixinho ao escorar cruzamento de Leandro para as redes. Semanas antes, pelo Brasileiro, ele havia sido crucial na vitória por 2 a 0 sobre o Internacional no Maracanã que valeu a passagem à terceira fase: marcou um belo gol de falta, com a bola caindo de chuá nas redes coloradas, e cruzou da direita para Dunga empurrar contra a própria meta.

O MELHOR DO PAÍS

“Que bola fina está jogando esse rapaz”, comentou João Saldanha em sua coluna no Jornal do Brasil. E, de fato, Mozer se tornava uma das referências técnicas daquele time. Era feroz no combate, imponente no jogo aéreo, de precisão cirúrgica nos desarmes, tinha ótimo senso de colocação e aliava classe e dinamismo ao sair jogando. Ainda que o Flamengo só tenha vencido a Taça Guanabara naquela temporada, seu zagueiro teve desempenho individual sublime ao longo de todo o ano, preservando ainda seu lugar na Seleção.

Mozer foi titular nos três jogos da curta passagem de Edu Antunes Coimbra pelo comando do escrete. Na única vitória, 1 a 0 sobre o Uruguai no Couto Pereira, foi um dos destaques: “Perfeito nas bolas rasteiras e pelo alto. Foi ao ataque nos momentos precisos e criou boas jogadas”, escreveu o Jornal do Brasil, que lhe deu nota 9. Naquele momento, era, sem favor algum, o melhor da posição em atividade no país, e possivelmente o mais completo (talvez apenas o uruguaio e gremista Hugo de León se igualasse). Vivia seu auge no Flamengo.

No início de 1985, a revista Placar perguntou aos técnicos dos 20 principais clubes do Brasileirão quais seriam seus 22 convocados para uma Seleção Brasileira formada por atletas atuando no país. Dos 18 que responderam (e Zagallo, treinador do Fla, foi um dos que declinaram), 17 indicaram Mozer como um dos zagueiros (foi o mais votado no geral, junto com o lateral Branco). Na mesma época, o jornalista gaúcho Ruy Carlos Ostermann, da Zero Hora, referia-se ao beque rubro-negro como “nossa discreta unanimidade”.

E o beque seguiria intocável também na passagem de Evaristo de Macedo à frente da Seleção. Ao fim dela, em maio de 1985, Mozer alcançara a marca de 18 jogos seguidos como titular do Brasil – série que só terminaria com a volta de Telê Santana, em junho, para as Eliminatórias da Copa do México. Era um Telê aparentemente buscando se retratar das críticas feitas por imprensa e torcida no Mundial anterior. Além disso, ao contrário de seus antecessores, teria a vantagem de contar com os astros que atuavam no exterior.

A VOLTA DAS LESÕES

Com isso, o técnico decidiu trazer Edinho, da Udinese, para escalá-lo na posição que havia sido do inseguro Luizinho na Espanha. Mozer passava à reserva. Dos 17 jogos deste segundo ciclo de Telê à frente da Seleção, o zagueiro rubro-negro atuaria apenas em cinco amistosos preparatórios disputados em março e abril de 1986. E, depois de ter sido incluído na lista final de 22 jogadores, acabaria fora da Copa ao se lesionar num treino já no México: ao girar o corpo para tentar uma cabeçada, torceu o joelho direito e rompeu o menisco interno.

A extensa preparação da Seleção e a artroscopia no joelho lesionado reduziram a presença de Mozer na campanha do título carioca de 1986 do Flamengo a três partidas: a goleada de 4 a 1 sobre o Fluminense na rodada inaugural, um dia antes da apresentação a Telê, e os dois últimos jogos da Taça Rio – empate em 1 a 1 com o Bangu e vitória de 3 a 2 sobre o Vasco (que garantiu a conquista do turno e a ida às finais). Mas um inchaço no tornozelo tirou o defensor da melhor-de-três decisiva contra os cruzmaltinos que deu o caneco ao Flamengo.

Em 1986, Mozer já não apresentava forma física e técnica tão exuberante quanto nos dois anos anteriores, e o nível de suas atuações oscilava mais. Mas ainda era capaz de fazer ótimas partidas. Como na estreia do time no Brasileiro, por exemplo, quando balançou as redes duas vezes na goleada de 4 a 1 sobre o Paysandu, uma delas em ótima cobrança de falta. Ou mais adiante, na segunda fase, quando teve presença destacada no primeiro Fla-Flu daquela etapa e diante do perigoso Guarani em Campinas, em jogos que terminaram 0 a 0.

Sua última competição disputada com a camisa rubro-negra seria o Estadual de 1987, do qual nem chegou a participar até o fim. Precisando fazer caixa, o clube anunciou sua venda ao Benfica por US$ 500 mil (cerca de Cz$ 21,6 milhões no câmbio da época) no dia 28 de junho daquele ano, poucos dias após o fim da Taça Rio. Curiosamente, o zagueiro quase foi parar no Porto, primeiro clube a se interessar por sua contratação após ter enfrentado o Flamengo num torneio em Paris. Mas os encarnados lisboetas chegariam na frente.

Mozer deixaria na Gávea um substituto de muito futuro: um baiano chamado Aldair, também de enorme qualidade técnica, mas de personalidade mais calma e introvertida. Porém, num primeiro momento, os dirigentes preferiram repor sua saída com outro nome mais experiente: por ironia, o mesmo Edinho que tirara sua vaga de titular na Seleção em 1985. Enquanto isso, o ex-rubro-negro começaria a fazer história no futebol europeu, onde atuaria por oito temporadas, sendo cinco no Benfica (em duas passagens) e três no Olympique de Marselha.

LENDÁRIO TAMBÉM NA EUROPA

O brasileiro marcaria sua passagem por ambos os clubes: venceria dois títulos portugueses e um da Taça de Portugal com o Benfica e se sagraria tricampeão francês no Olympique de Marselha. O título continental, porém, escaparia por duas vezes: pelos Águias diante do PSV em 1988 e pelo OM diante do Estrela Vermelha em 1991. Ambas as derrotas vieram nos pênaltis, mesmo com o zagueiro convertendo suas cobranças com categoria. Mas as duas campanhas rumo às finais foram muito marcantes para os torcedores dos dois clubes.

O ex-rubro-negro se tornaria uma lenda também nos dois gigantes europeus: no Benfica, a dupla de zaga que fez com o compatriota Ricardo Gomes (ex-Fluminense) na temporada 1988-89 é frequentemente citada como a melhor já formada pelo clube. Já no Olympique de Marselha, ele foi eleito por torcedores para a equipe histórica do clube, numa votação de 2010. Nela, ficou à frente de monstros do futebol francês que atuaram no clube na posição, como Marius Trésor e a dupla campeã do mundo pelos Bleus, Laurent Blanc e Marcel Desailly.

Na Seleção, mesmo tendo chegado a jogar a Copa de 1990, na Itália, e de ter sido de novo cortado de última hora por problemas físicos no Mundial dos Estados Unidos, quatro anos depois, teve presença bem mais esporádica do que no período entre 1983 e 1986. Foram só nove partidas oficiais, destacando-se a atuação de gala no empate em 1 a 1 com a Inglaterra em Wembley, em 17 de maio de 1992. Outro grande momento veio dois dias depois, na vitória por 1 a 0 sobre o poderoso Milan, em amistoso não-oficial disputado no San Siro.

Mozer penduraria as chuteiras aos 36 anos, no fim de 1996, depois de um ano e meio atuando no Japão, defendendo o mesmo Kashima Antlers onde tantos outros ex-rubro-negros brilharam, a começar por Zico. E parou como campeão, ao vencer a J-League daquele ano. Após o fim da carreira de jogador, voltou a morar em Portugal e trabalhou como auxiliar de José Mourinho no Benfica e no União de Leiria. Teve ainda breves passagens como treinador, comentarista e até dirigente. Mas na maior parte do tempo esteve afastado do futebol.

Só nunca esqueceu o Flamengo, a quem sempre fez questão de demonstrar toda a gratidão pelo que conquistou no (e com o) futebol. “Eu era um menino pobre. De repente me vi morando numa casa enorme, com piscina e conforto. O Flamengo me deu a chance de ser alguém”, declarou em entrevista emocionada à TV Cultura, em 1994. Os rubro-negros também nunca o esqueceram: no mesmo ano ele foi eleito para o esquadrão histórico do clube, escolhido em pesquisa da revista Placar. Um caso simbólico de reconhecimento mútuo.

O centenário de Jayme de Almeida, craque exemplar, gigante rubro-negro

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Exemplo de lealdade, disciplina e regularidade no futebol carioca e brasileiro da década de 1940, Jayme de Almeida é nome lendário no Flamengo, clube do qual vivenciou o dia-a-dia por 20 anos e ao qual serviu nas mais diversas funções. O médio-esquerdo que teria completado 100 anos no último sábado tem um currículo e tanto: foi titular do time do primeiro tri estadual rubro-negro entre 1942 e 1944, sendo capitão nas duas últimas conquistas. Exerceu o mesmo posto na seleção carioca e se colocou como nome de destaque na Seleção Brasileira. Penduradas as chuteiras, teve ainda participação decisiva no surgimento da melhor geração da história do futebol peruano. Um gigante cuja trajetória – desconhecida para muitos – merece ser resgatada.

Jayme de Almeida nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro, mas se mudou ainda muito novo com a família para Belo Horizonte. Filho de um ferroviário logo aposentado e de uma dona de casa, viu a família crescer até o 13º rebento. Destes, só dois (além dele) seguiram carreira. Bráulio foi goleiro no futebol mineiro e Tião, bem mais moço, esteve pelo Flamengo nos anos 1950. Entre as mulheres, destacou-se Lélia – a antropóloga e intelectual de referência internacional nas questões feministas e afro-brasileiras Lélia González.

O próprio Jayme era um personagem diferenciado entre seus pares. O futebol entrou em sua vida por acaso. Quando garoto, admirava o abolicionista José do Patrocínio. Numa era em que a maioria dos atletas mal se preparava para a vida após a bola, Jayme conciliou o auge de sua carreira no Flamengo com a graduação em Comércio numa instituição carioca. E era um dos raros jogadores a manter boas relações com o temperamental botafoguense Heleno de Freitas, com quem compartilhava o gosto pela leitura de autores como Dostoiévski.

Mario Filho, um dos pais fundadores da crônica esportiva brasileira, dedica algumas páginas de seu célebre livro “O Negro no Futebol Brasileiro” para falar de Jayme de Almeida. Na obra, o autor relembra o jogador como “incapaz de dar um pontapé”, assemelhando-se a “um Gandhi jogando futebol”. “Quando se queria citar um jogador modelo”, escreve Mario, “só um nome acudia à todas as bocas: Jayme de Almeida”. Sintetizando todas as simbologias que utilizara, o jornalista acrescenta: “Tudo nele rescendia à limpeza, à bondade, à lealdade”.

Outro popular cronista do futebol carioca daquele período, Vargas Netto mencionaria Jayme em uma crônica publicada em sua coluna no Jornal dos Sports em novembro de 1947: “No football eu lhe poderei citar o preto Jayme, do Flamengo. É um homem que tem finura inata. Já me haviam dito, e eu tive ocasião de observar. Muito branco precisa aprender com ele e não sei se conseguirá! Jayme possui o senso da responsabilidade e a compreensão para todos os detalhes. É um homem de alma limpa. Esse é o resumo”, exaltou.

O INÍCIO NO FUTEBOL MINEIRO

Jayme, ao centro, ainda no Sete de Setembro, de Belo Horizonte.

Sua carreira profissional teve início em Belo Horizonte, como centromédio no extinto Sete de Setembro em 1938. No ano seguinte, chegou a ser cobiçado pelo Vasco, mas recusou a oferta por não se considerar apto a atuar num grande centro. Seguiria então ao Atlético no fim de 1939. No Galo, formaria a linha média com os “halfs” laterais Cafifa e Bigode e chegaria a disputar os jogos que marcaram a inauguração do Pacaembu, em abril de 1940. Não demoraria a atrair as atenções de Corinthians e São Paulo, mas não houve acerto.

Ainda naquele ano, seria convocado pela Seleção Brasileira do técnico Ademar Pimenta para os treinos visando ao Campeonato Sul-Americano na Bolívia, que acabaria cancelado. Em setembro, viria ao Rio de Janeiro para disputar um jogo em homenagem a Julio Castillo, atacante argentino do Flamengo recém-falecido. Foi quando, na busca por um substituto a curto ou mesmo médio prazo para o veterano centromédio Carlos Volante (também argentino), o clube rubro-negro começou a observar o jogador, até decidir que ele seria o substituto ideal.

Em março de 1941, o Flamengo manifestou interesse na contratação de Jayme. O Atlético botou preço: 20 contos de réis, soma expressiva para a época e que constava na cláusula de liberação do atleta. “Está certo”, respondeu o Flamengo, que logo remeteu o cheque. Porém, qual não foi a surpresa dos dirigentes rubro-negros ao receberem comunicação do Banco Comércio e Indústria notificando que em Belo Horizonte o clube mineiro se recusara a aceitar o depósito, alegando não ter “nenhuma negociação” em andamento com os cariocas.

Em seu canto, Jayme olhou para sua situação: apesar do passe valorizado, ganhava pouco no Galo (250 mil réis mensais) e seus salários estavam em atraso há vários meses. Pensou em sua família: com o pai aposentado, ele se tornara o arrimo de 13 irmãos e dependia de seus ganhos com o futebol. Além de tudo, era torcedor do Flamengo e, agora sim, sentia-se pronto para tentar a sorte na grande vitrine do então Distrito Federal – a maior do futebol brasileiro na época. Agir de modo intempestivo não era de seu feitio. Mas ele assim o fez.

O médio deixou para trás o Atlético – cujo presidente, Cassildo Quintino dos Santos, favorável ao negócio e sob pressão da diretoria, renunciara em meio ao imbróglio – e tomou sozinho um trem para o Rio. O estardalhaço que se seguiu na imprensa não tinha nada a ver com o jeito calmo e discreto do jogador. Até vir à tona o motivo pelo qual os mineiros não queriam aceitar o depósito: um antigo credor do Galo havia penhorado o dinheiro, o qual só não receberia caso o clube recusasse o cheque. Fim do impasse, negociação selada.

NA GÁVEA, REINVENTANDO A POSIÇÃO

Contratado no fim de março, Jayme impressionou desde sua chegada à Gávea, ditando o ritmo dos treinos mesmo atuando entre os reservas. E, após alguns amistosos, já era o dono da posição quando da estreia do time no Campeonato Carioca de 1941, desbancando o antigo titular Volante. Destaque do jogo e autor de um gol nos 5 a 2 sobre o Madureira, em 4 de maio, ele seguiu na equipe pelas duas próximas partidas. O que ninguém esperava, porém, era que Volante voltasse à velha forma e recuperasse a posição.

Jayme foi então para a reserva, mas após um breve retorno atuando na linha de frente como meia-esquerda, voltaria de vez ao time em outra posição, a de médio-esquerdo, no lugar de outro veterano, Artigas. Nesta posição, ele disputaria os três últimos jogos da campanha, incluindo o célebre Fla-Flu das “bolas na Lagoa”, que definiu o título em favor dos tricolores. Líder durante boa parte do certame, o Flamengo perderia o fôlego no terço final e seria superado. Mas o novo titular impressionara de tal forma que se tornaria intocável no posto.

Aliviando a defesa com uma bicicleta num Fla-Flu em Laranjeiras.

Aqui cabe parêntese para esclarecer de vez a posição de Jayme. Ao contrário do que muitos já escreveram, ele não era lateral-esquerdo. Pouco antes de sua chegada, o técnico rubro-negro Flávio Costa já havia começado a implementar no time a chamada “diagonal”, sua versão adaptada do sistema WM, já hegemônico na Europa, mas até então pouco utilizado no Brasil, onde ainda vigorava o obsoleto esquema da “pirâmide” – no qual, de fato, os médios pelos lados tinham funções e posicionamentos semelhantes às dos atuais laterais.

Já a diagonal pegava o desenho do WM (numericamente, um 3-2-2-3) e transformava o quadrado composto pelos dois médios e dois meias numa espécie de losango ligeiramente torto. Nesse formato, Jayme era o vértice pela esquerda, o apoiador que marcava o armador adversário e, vez por outra, somava-se ao quinteto ofensivo como um sexto atacante. Algo como um atual segundo homem de meio-campo, elo entre os setores defensivo e ofensivo, responsável pela perfeita fluência do jogo. Função a qual ele executava com elegância, sobriedade e eficiência.

O “SCRATCHMAN” LEVANTA SEUS PRIMEIROS TÍTULOS

Ainda que entrasse e saísse do time em vários momentos ao longo da campanha no Carioca, o jovem de 21 anos se destacara a ponto de chegar à Seleção Brasileira antes mesmo de ter passado pelo “scratch” carioca. Convocado pelo técnico Ademar Pimenta – o mesmo que dirigira o Brasil na Copa do Mundo de 1938 – para o Sul-Americano em Montevidéu, inicialmente para a reserva do corintiano Brandão, centromédio e capitão do time, ele logo teria chance como titular na goleada de 5 a 1 sobre o Equador, em 31 de janeiro.

Com os rubro-negros Biguá e Artigas na seleção carioca em 1942.

Cinco dias depois, no empate em 1 a 1 com o Paraguai, entraria aos dez minutos de jogo e teria boa atuação: “Não estranhou um só momento. Sempre desembaraçado, sempre com um jogo de boa fatura. Deu assim uma robusta prova de sua capacidade técnica”, avaliou o Jornal dos Sports. No geral, seu desempenho seria aprovado. Entre o primeiro e o último jogo de Jayme pelo Brasil a Seleção faria 20 partidas, das quais o médio rubro-negro atuaria em 15. Se as Copas de 1942 e 1946 tivessem sido disputadas, ele seria nome certo.

No mesmo ano que marcou sua estreia pelo Brasil, Jayme também levantaria seu primeiro título carioca pelo Flamengo, iniciando um histórico tricampeonato. O time chegou a virar o turno seis pontos atrás do Fluminense, mas arrancou de modo impressionante nas duas etapas seguintes, somando 34 pontos em 36 possíveis. O caneco veio com um empate em 1 a 1 com os tricolores em Laranjeiras, num jogo que marcou também a estreia da Charanga Rubro-Negra, a primeira do Brasil, liderada por seu quase xará Jayme de Carvalho.

Jayme – que anotou dois gols naquela campanha, um deles encerrando a goleada de 4 a 0 sobre o Botafogo pelo terceiro turno – atuou em todas as partidas. Com efeito, o médio iniciaria ali uma impressionante sequência: dos 145 jogos de Carioca disputados pelo Flamengo entre 1942 e 1948 (ou seja, em sete temporadas), ele ficaria de fora de apenas um. E além de onipresente no time, também se tornaria cada vez mais parte do clube, vivendo seu dia-a-dia na Gávea e zelando pelo estádio e pela concentração.

Com os colegas Biguá, Perácio e Artigas num Rio ainda sem o Aterro.

“Basta dizer que lá [na Gávea], nada se faz, levanta-se ou deita abaixo sem o seu visto. É ele quem dá as ordens: quem providencia a lavagem da roupa, o café, o almoço, o jantar, a ceia, tudo, tudo para os ‘cracks’. O único rádio que se ouve nos dormitórios dos jogadores é de sua propriedade”, relatava a coluna “Um por um” da revista O Globo Sportivo, que definia Jayme como “de boa índole, calmo, sério – quase impenetrável”. O texto citava ainda que o médio era o “único responsável” por sua família (“são treze ao todo”). Isso aos 22 anos.

Ainda naquele ano de 1942, Jayme viria com o Flamengo exibir seu futebol ao público paulistano em dois momentos, fazendo sete partidas sem perder nenhuma. Primeiro em março, pela Quinela de Ouro, torneio que reuniu o trio de ferro da capital paulista e a dupla Fla-Flu, no qual os rubro-negros venceram o São Paulo (2 a 1) e empataram com Corinthians (1 a 1), Palestra Itália (2 a 2) e Fluminense (0 a 0). Depois, voltaria em outubro para derrotar o rebatizado Palmeiras (2 a 1), o Corinthians (4 a 2) e empatar com o São Paulo (3 a 3).

Suas atuações no Pacaembu novamente chamaram tanto a atenção que, em fevereiro de 1943, o São Paulo chegou a sondar sua contratação junto ao Flamengo. Mas o técnico Flávio Costa se recusou a abrir mão de seu “craque número 1” da temporada anterior – numa equipe que, é bom lembrar, contava com Domingos da Guia e Zizinho – não estava à venda. E logo ele levantaria outra taça, a do Torneio Relâmpago, competição curta (como o nome indica) disputada pelos cinco grandes da cidade como aperitivo para o Carioca.

CAPITÃO DO TRI RUBRO-NEGRO

O time perfilado antes de golear o Vasco em General Severiano.

Prestigiado, e como retribuição por sua dedicação, Jayme seria apontado ainda como o novo capitão do time, tomando a braçadeira de Domingos. E como tal ele outra vez participaria de todos os jogos do Flamengo (agora 18, com a extinção do terceiro turno) na campanha rumo ao bicampeonato carioca. O time sofreu apenas uma derrota (para o America na Gávea, na quarta rodada), venceu todos os adversários pelo menos uma vez e registrou duas vitórias expressivas sobre o Botafogo: 4 a 1 em General Severiano e 4 a 2 na Gávea.

Mas o resultado mais marcante viria na penúltima rodada contra o Vasco, no jogo que deixou os rubro-negros com a mão na taça. O arquirrival ainda tinha chances de título e já contava com vários jogadores que formariam dali a alguns anos o lendário “Expresso da Vitória” (Rafanelli, Argemiro, Djalma, Ademir, Isaías, Lelé, Chico). Mas o Fla foi simplesmente arrasador e aplicou uma surra de 6 a 2, sua maior goleada sobre os cruzmaltinos na história do clássico. E uma semana depois, um 5 a 0 no Bangu na Gávea confirmaria a conquista.

A reta final daquela campanha marcou ainda a chegada do centromédio paraguaio Modesto Bria, trazido do Nacional de Assunção, e que estreou no Fla-Flu do returno, a cinco rodadas do fim do certame. Ali, pela primeira vez, seria escalada a “linha média” (com o perdão do desenho tático) que se tornaria uma das mais célebres não só do Flamengo como do futebol brasileiro, Biguá-Bria-Jayme, que seguiria intacta na equipe por boa parte dos anos 1940 e anteciparia outra que marcaria época na década seguinte, Jadir-Dequinha-Jordan.

Jayme comemora com Domingos da Guia (atrás) e o goleiro Jurandyr no emocionante Fla-Flu do returno do Carioca de 1943.

Individualmente, Jayme foi um dos destaques do Fla na conquista de 1943. Sobre ele, escreveu o Correio da Manhã: “Dois nomes merecem os louvores do Flamengo pelo muito que contribuíram para a vitória, e estes são Flávio Costa e Jayme de Almeida. (…) Jayme, o médio esquerdo e capitão do time, foi o elemento mais eficiente e regular. Foi o esteio da defesa onde há outros elementos ótimos, e a sua atuação técnica e disciplinar foi acima de qualquer expectativa. Um jogador perfeito neste nosso futebol tão cheio de imperfeições”.

Como capitão do campeão carioca, era natural que Jayme exercesse o mesmo papel no “scratch” do então Distrito Federal que jogaria a seguir o Brasileiro de Seleções. Os paulistas venceram os dois primeiros jogos da final no Pacaembu. Mas os cariocas retrucaram com duas contundentes vitórias no Rio – 3 a 0 e 6 a 1 – e levaram o título com um 2 a 1 no quinto jogo, também na capital federal. Jayme, porém, ficou de fora dos dois últimos, com o tornozelo fraturado após receber um grosseiro pontapé do ponta-direita sãopaulino Luizinho Mesquita.

Recuperado da lesão, ele se prepararia para encarar em 1944 a campanha mais difícil daquele primeiro tricampeonato carioca do Flamengo. O time, que desde o ano anterior já não contava com o aposentado ponta-direita argentino Agustín Valido, também perdeu a impositiva presença de Domingos da Guia, vendido ao Corinthians. E durante a campanha também se veria desfalcado do ponta-de-lança Perácio, recrutado pela Força Expedicionária Brasileira para combater na Itália na Segunda Guerra – para onde também foi Bráulio, irmão de Jayme.

Com tantas baixas, o Flamengo fez campanha irregular na metade inicial da competição e virou o turno na quarta colocação. Chegou a estar cinco pontos atrás do líder (então o Fluminense) e até apontado pela imprensa como fora da briga pelo tricampeonato, mas arrancou na reta final. Na penúltima rodada, ganhou o reforço de Valido, afastado há dois anos do futebol profissional, e, com ele, aplicou uma incrível goleada de 6 a 1 sobre os tricolores. O último desafio era o Vasco, com quem dividia a liderança, em jogo marcado para a Gávea.

O Fla tinha vários problemas. Valido, destaque contra o Fluminense, passara a semana decisiva com febre alta. O ponteiro Vevé sofria de dores crônicas no joelho esquerdo. Bria estava às voltas com um lumbago (dor lombar). E Pirillo tinha orquite, inflamação nos testículos. Todos entraram em campo com suas dores para enfrentar o Vasco. Jayme se desdobrou pelos colegas: teve atuação irrepreensível premiada com uma das poucas notas 10 do jogo pelo Globo Sportivo. E Valido cabeceou para fazer o gol do título a quatro minutos do fim.

O MELHOR DA AMÉRICA DO SUL

Na sequência do tri carioca – o primeiro da história do Flamengo – viria mais um Brasileiro de Seleções. E tendo novamente Jayme como capitão, os cariocas levaram o bicampeonato em outra melhor de cinco jogos contra os paulistas. O torneio também ajudaria a preparar o “scratch” nacional para o Campeonato Sul-Americano Extra a ser disputado em Santiago no começo do ano seguinte. Com um time fortíssimo e o rubro-negro como médio-esquerdo titular, o Brasil teria ótimas chances de encerrar seu jejum no certame que vinha desde 1922.

A partida de estreia seria contra a Colômbia (o primeiro confronto com os cafeteiros na história), e os brasileiros venceriam por 3 a 0 com Jayme anotando seu primeiro e único gol pela Seleção, fechando a contagem ainda na primeira etapa com um chutaço de fora da área no rebote de Zizinho. Em seguida, o time bateu a Bolívia (2 a 0) e impressionou ao impor ainda no primeiro tempo um categórico 3 a 0 ao forte Uruguai de Obdulio Varela, Roque Máspoli, Roberto Porta, Atílio Garcia e Schubert Gambetta, dirigido pelo lendário José Nasazzi.

Lesionado contra os uruguaios, Jayme passou a semana como dúvida para enfrentar a Argentina. Titular inquestionável, acabou escalado nitidamente sem condições físicas. Disto se aproveitaram os adversários. Capengando em campo, não teve como conter o meia-direita “Tucho” Méndez, que apareceu para marcar os dois primeiros gols argentinos. Pouco depois de Heleno descontar para o Brasil, ainda no primeiro tempo, Jayme foi substituído. Não podia mais continuar. Minutos mais tarde, Méndez fechou a contagem em 3 a 1.

A lesão o tiraria da goleada de 9 a 2 sobre o Equador (até ali a maior aplicada pela Seleção na história), mas na última partida, contra os anfitriões chilenos, ele estaria de volta e teria papel importante na vitória por 1 a 0. Ao desarmar o ponta Piñero e entregar a bola a Jair Rosa Pinto, ele iniciaria a jogada do único gol do jogo, marcado por Heleno de Freitas, após cruzamento de Ademir de Menezes. O Brasil, que vencera cinco de suas seis partidas, teria de se contentar com o vice. Mas Jayme, mesmo assim, sairia coberto de honra.

Ao fim da competição, jornalistas de todos os países participantes se reuniram para eleger a seleção do torneio, o que equivaleria a apontar os melhores da América do Sul em cada posição naquele ciclo. E Jayme foi nomeado, indiscutivelmente, o melhor médio-esquerdo “pela sobriedade, pela alta noção do que faz, pelo sentido prático da marcação e do ataque”, conforme o texto do Globo Sportivo. Na votação, ele superara o argentino Bartolomé Colombo e formaria a linha média com os também portenhos Carlos Sosa e Ángel Perucca.

A Seleção Brasileira do Sul-Americano Extra de 1945: Jayme é o último jogador em pé, ao lado do técnico Flávio Costa.

Além disso, Jayme – e a Seleção – só precisariam esperar até o fim do ano para ter sua revanche contra os argentinos nos jogos que valeram pela Copa Roca, troféu o qual não ficava com os brasileiros desde 1922. Na primeira partida, a Albiceleste venceu por 4 a 3 em jogo cheio de reviravoltas no Pacaembu. Mas na segunda, em São Januário, o Brasil arrasou a equipe de Mario Boyé, Adolfo Pedernera, René Pontoni, Rinaldo Martino e Ángel Labruna por impiedosos 6 a 2, com Jayme fazendo a assistência para o sexto tento, de Ademir.

As vitórias alternadas forçaram um terceiro jogo, novamente em São Januário, na antevéspera do Natal de 1945. E o Brasil voltou a vencer, desta vez por 3 a 1, ficando com a taça a qual nunca mais perderia. No mês seguinte, quase emendando uma competição na outra, a Seleção estaria novamente em campo disputando primeiro a Copa Rio Branco no Uruguai e, em seguida, mais um Sul-Americano, desta vez em Buenos Aires. Seriam as duas últimas participações de Jayme no escrete – que ainda não era canarinho e usava camisas brancas.

Pelo primeiro torneio, em Montevidéu, o Brasil perdeu apertado por 4 a 3 e empatou em 1 a 1, deixando a taça com os anfitriões. Mas daria o troco na Celeste no Sul-Americano, devolvendo os 4 a 3 num jogo marcado pela violência dos uruguaios, que tiraram três jogadores brasileiros de campo lesionados. Um deles seria Jayme, que levou uma rasteira do meia uruguaio José María Medina e, ao cair no gramado, levou um pisão do mesmo adversário. Teve de ser substituído aos 30 minutos de jogo e foi desfalque contra Paraguai e Chile.

Para seu azar, voltou para fazer o que seria sua última partida pela Seleção num ambiente ainda mais carregado. O jogo contra a Argentina (que precisava só do empate para levar o título) no Monumental de Nuñez foi uma guerra, com invasão de campo por parte de torcedores, que chegaram a espancar o ponta-esquerda Chico. O jogador vascaíno foi retirado de campo desacordado e – bizarramente – expulso pelo árbitro uruguaio Nobel Valentini, o mesmo que apitara o confronto no Sul-Americano anterior.

Com Biguá e o vascaíno Danilo Alvim: um trio de seleção.

Jayme também não completou a partida. Levou um pontapé e teve de ser substituído ainda no primeiro tempo. Encerraria ali seu ciclo na seleção brasileira, mas ainda participaria pela última vez do Brasileiro de Seleções pela equipe do Distrito Federal, sagrando-se tricampeão no torneio de 1946 em outra final vencida sobre os paulistas e só disputada em março do ano seguinte. O restante da carreira de jogador seria dedicado exclusivamente ao Flamengo. O clube, no entanto, começava a viver um declínio na segunda metade da década.

O FIM DA CARREIRA COM DIGNIDADE

O time tricampeão carioca se desmantelava aos poucos. Valido se aposentara de vez após o gol histórico sobre o Vasco. Zizinho sofreria duas fraturas na perna em 1946 e 1947, ficando de fora de campanhas quase inteiras. Pirillo seria vendido ao Botafogo em 1948. Outros, como Perácio, o goleiro Jurandyr e o ponteiro Vevé, aos poucos sairiam de cena. E o técnico Flávio Costa seguiria para o Vasco – que montara um esquadrão – em 1947. O trio Biguá, Bria e Jayme é que se mantinha intacto, e era muitas vezes o termômetro da equipe.

Jayme fez uma excelente temporada de 1946, ano em que, para a surpresa geral, o Vasco esteve longe do bicampeonato e os outros quatro grandes terminaram empatados após turno e returno, obrigando a realização de um quadrangular em ida e volta para apontar o campeão (que seria o Fluminense). O médio rubro-negro chegou a ser eleito o craque do primeiro turno e ganhou elogios rasgados do técnico tricolor Gentil Cardoso, para quem o jogador se equiparava em brilho aos velhos ídolos Domingos da Guia e Leônidas da Silva.

Biguá, Bria e Jayme, histórica linha média rubro-negra.

Em maio de 1948, Jayme venceria o concurso de popularidade promovido por um fabricante de balas (um dos muitos certames deste tipo organizados na época). Mas a honraria mais simbólica de sua carreira viria em novembro do ano seguinte, ao ser um dos primeiros atletas no país a ser agraciado com o Prêmio Belfort Duarte, instituído pelo Conselho Nacional do Desporto para homenagear os jogadores que passassem pelo menos dez anos sem terem sido expulsos de campo, tendo disputado pelo menos 200 partidas. Uma ode à disciplina.

Aquela temporada de 1949 seria sua última como jogador. Já minado por lesões, ele atuaria em apenas sete dos 20 jogos do time no Carioca – queda sensível de ritmo para quem, entre 1942 e 1948, só ficara de fora de uma partida. Participaria, porém, da famosa vitória sobre o Arsenal por 3 a 1 em maio, numa excursão dos Gunners ao Brasil. Seu último jogo de competição (no qual entrou no lugar de Bria) seria a goleada de 6 a 2 sobre o Corinthians, em 22 de dezembro, em partida que já valeu pelo Torneio Rio-São Paulo de 1950.

O adeus definitivo viria num amistoso com o Goytacaz em Campos, no feriado de 1º de maio de 1950, quando o médio, aos 29 anos, já se desligara do elenco. Naquele mesmo mês, uma extensa matéria da revista Esporte Ilustrado relembrava os grandes nomes da posição que passaram pela Seleção (Martim, Afonsinho, Zezé Procópio, Brandão) e avaliava os novatos (Danilo, Bauer, Eli, Rui, Brandãozinho), antes de afirmar que Jayme havia sido “o mais completo” da posição no país: “Uma das maiores glórias do futebol nacional”, exaltava.

Tornado um patrimônio do Flamengo, Jayme de Almeida passou a comandar as categorias de base rubro-negras tão logo pendurou as chuteiras. Ajudou a formar futuros ídolos como Índio e Zagallo até ser recrutado para auxiliar Flávio Costa, trazido de volta do Vasco no início de 1951 para dirigir o time principal. Naquela altura, porém, ele próprio já acumulava nada menos que quatro passagens (todas rápidas) à frente do time, incluindo duas em que conciliara os postos de jogador e treinador, em janeiro de 1946 e em dezembro de 1947.

Quando Flávio deixou o cargo, no fim de 1952, foi Jayme quem fez a ponte até a chegada do paraguaio Fleitas Solich, em abril do ano seguinte. E levantou um título nesse processo: em Buenos Aires, um Fla conquistou um quadrangular internacional enfrentando Boca Juniors, San Lorenzo e o velho rival Botafogo. Nos anos em que o “Feiticeiro” reinou na Gávea, Jayme era seu braço direito e assistente do Departamento de Futebol. E, quando o técnico saiu para dirigir o Real Madrid, em meados de 1959, Jayme foi efetivado no comando.

No túnel do Maracanã, como fiel escudeiro de Solich.

O Flamengo, porém, vivia período de transição após a saída de alguns jogadores e a ascensão de outros vindos da base, como Carlinhos. Com isso, os rubro-negros estiveram longe de brigar pelas primeiras posições no Carioca daquele ano, tendo especial dificuldade nos clássicos. Mas antes de deixar o cargo, Jayme ainda comandaria a equipe no ponto alto da campanha, a sensacional goleada sobre o Botafogo, líder do certame, dirigido por João Saldanha e que alinhava Garrincha, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo e Paulo Valentim.

Os rubro-negros estavam mordidos pela derrota por 2 a 1 no primeiro turno, obtida, segundo os jogadores, com uma bola que não entrou. Mas o troco viria com estilo. Naquela tarde de 25 de outubro, o Alvinegro abriu o placar com Quarentinha, mas o Fla empatou um minuto depois com Henrique e virou ainda no primeiro tempo com Babá. Na etapa final, veio a avalanche: Henrique, Babá, Luís Carlos e Dida elevaram o placar a 6 a 1, antes de Joubert e Quarentinha serem expulsos e de Paulinho Valentim diminuir para o rival no último minuto.

Enquanto era superintendente no Departamento de Futebol do Flamengo, Jayme assumiu ainda a empreitada de dirigir a Associação Beneficente de Veteranos Cariocas. A entidade tinha como objetivo organizar partidas entre veteranos com arrecadação revertida aos antigos craques mais necessitados. “Creio que já encontramos grande movimento de solidariedade mesmo entre os novos. Eles afinal entendem que um dia serão veteranos”, comentou o velho ídolo rubro-negro à revista Manchete Esportiva em entrevista de 1956.

LENDA TAMBÉM NO FUTEBOL PERUANO

Em julho de 1961, Jayme deixaria a Gávea após 20 anos ao embarcar para Lima, onde comandaria o Alianza. No clube mais popular do Peru, levantaria os títulos de 1962, 1963 e 1965, tornando-se o treinador mais vezes campeão nacional pelo clube na era profissional. E ainda promoveria uma talentosa geração de garotos que fariam história na seleção blanquiroja: foi Jayme quem lançou no clube ídolos como Teófilo Cubillas e Julio Baylon, além de consolidar na equipe nomes como Pedro Pablo “Perico” León e Victor “Pitín” Zegarra.

Segundo técnico que mais comandou os blanquiazules na história, Jayme também teve resultados expressivos em amistosos. Em 1966, bateu o Botafogo de Jairzinho, Gérson, Afonsinho e Manga por 3 a 1. No ano seguinte, goleou por 6 a 1 um Independiente já bicampeão da Libertadores, treinado pelo brasileiro Oswaldo Brandão e contando com nomes como Pastoriza, Santoro, Pavoni e Bernao. Chegou ainda a dirigir um combinado peruano que bateu o Real Madrid de Puskás e Gento por 3 a 2 em 1965, numa excursão merengue a Lima.

No Alianza, revolucionando o futebol peruano.

Em 1966, Jayme passaria de treinador a supervisor (cargo já desempenhado no Flamengo), ainda que volta e meia retornasse ao comando do time – numa dessas últimas passagens, em 1970, lançaria outro talento da base, o meia César Cueto. Em janeiro de 1971, um combinado Alianza-Deportivo Municipal co-dirigido por ele e pelo ex-jogador Roberto “Tito” Drago derrotaria o Bayern de Beckenbauer, Maier e Gerd Müller por 4 a 1. No ano seguinte, ele se mudaria para o pequeno Defensor Arica, o qual não conseguiria salvar do descenso.

Seu último trabalho seria como superintendente no Deportivo Municipal, em 1973. No dia 17 de maio daquele ano, Jayme de Almeida faleceria em Lima vitimado por uma trombose cerebral em consequência de um derrame sofrido dias antes. Tinha 52 anos. Sua morte comoveu o meio esportivo no Peru e no Rio de Janeiro – onde seu filho, também chamado Jayme, preparava-se para ser promovido ao elenco principal do Flamengo. O mesmo clube do qual se tornara um símbolo por 20 anos e uma referência eterna de cavalheirismo.

O Mundialito de 1983: A taça não veio, mas o Flamengo brilhou na Itália

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Time da decisão. Em pé: Leandro, Raul, Marinho, Mozer, Ademar, Andrade e Júnior. Agachados: Robertinho, Adílio, Júlio César e Peu.

Mesmo clubes muito vitoriosos pelo mundo registram em sua história grandes campanhas que não resultaram em conquistas, mas foram motivo de orgulho. No Flamengo não é diferente: torneios como a Supercopa de 1993 e a Mercosul de 2001, além da arrancada rumo ao terceiro lugar no Brasileirão de 2007, ainda são lembrados com carinho por muitos torcedores.

O mesmo aconteceu anos antes com a participação rubro-negra no Mundialito de Clubes disputado em Milão, em junho e julho de 1983, no qual um Fla que juntava os cacos após perder Zico (vendido à Udinese), bateu gigantes do futebol mundial, mas terminou sem a taça após um polêmico jogo decisivo contra a Juventus. Uma história que vale ser conhecida ou relembrada.

OS PRIMEIROS DIAS SEM ZICO

Em 29 de maio de 1983, diante de mais de 155 mil torcedores no Maracanã, o Flamengo vencia o Santos por um enfático 3 a 0 – gols de Zico, Leandro e Adílio – e sacramentava a conquista de seu terceiro título brasileiro, num campeonato no qual entrou bastante desacreditado, conviveu com crises, mas, como era do feitio rubro-negro, cresceu na reta final e ficou com a taça numa das mais antigas expressões do tradicional “deixou chegar”.

As semanas que seguiram à conquista, no entanto, não foram mera ressaca das comemorações do caneco nacional. Na verdade, nem tudo foi festa e notícia boa. Para Zico, Júnior, Leandro e Adílio não houve nem tempo de festejar: na noite do título eles embarcaram para Munique, onde participariam do jogo festivo de despedida do craque alemão Paul Breitner, em que um time de astros internacionais (incluindo o quarteto rubro-negro) enfrentaria o Bayern.

Quando voltaram, a bomba já havia caído sobre a Gávea: em 2 de junho o presidente do clube, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, anunciava a venda de Zico à Udinese por Cr$ 2 bilhões em moeda da época. O acerto, porém, ainda teria muitas idas e vindas, mas acabaria confirmado. Ficou famosa a sequência de fotos em que Dunshee simula enxugar suas lágrimas de pesar pela venda do ídolo numa camisa 10 rubro-negra, mas aparece sorrindo no instante seguinte.

Inconsolável, órfã, a torcida nem se deu ao trabalho de ir ao Maracanã nos dias 3 e 5 de junho, quando o Fla – já sem chance de classificação – fez suas duas últimas partidas pela primeira fase da Libertadores daquele ano. Num contraste extremo com o público que passou pelas roletas do estádio no jogo contra o Santos, apenas 1.629 torcedores foram ver o time, já sem Zico, golear o Bolivar por 5 a 2. E apenas 6.145 assistiram à derrota para o Grêmio por 3 a 1.

Um dos destaques do time gaúcho que derrotou um desmotivado Flamengo naquela tarde de domingo num gramado castigado havia sido Tita, que deixara a Gávea por empréstimo no começo daquele ano em busca de uma chance de enfim vestir a camisa 10 que considerava a sua – mesmo que não fosse a rubro-negra. Por ironia, agora que Zico dizia adeus e rumava para o futebol italiano, Tita não estava no Flamengo para a esperada passagem do bastão.

O herdeiro inicial da camisa 10 seria Adílio, que demonstrava confiança em honrá-la ao lembrar que havia sido exatamente com ela, e no lugar de Zico, que estreara no time de cima do Flamengo em setembro de 1976, num jogo contra o Sport pelo Brasileirão. Muito elogiado por sua atuação impecável na decisão contra o Santos, com a qual se redimira das críticas sofridas no início do ano, Adílio – que acabara de se tornar pai – vivia momento de maturidade.

O técnico rubro-negro Carlos Alberto Torres não descartava, no entanto, aproveitar outros dois jogadores os quais via como talhados para a função de terceiro homem do meio-campo: Leandro e Júnior. Na cabeça do treinador havia até uma lista de virtudes indispensáveis para os candidatos à camisa 10: chutar forte com os dois pés; ser bom cabeceador; ter criatividade; ser habilidoso no trato com a bola e no drible; ter muita decisão nas disputas de bola.

UM TRAUMA EM ÚDINE

O novo Flamengo foi testado primeiro num amistoso diante do Uberlândia no Parque do Sabiá, exatas duas semanas após a última partida, contra o Grêmio. Mas o início da nova era não foi dos mais auspiciosos: jogando mal, o time até saiu na frente, com um gol de falta de Júnior, mas terminou derrotado de virada pela equipe mineira por 2 a 1. No dia seguinte, a delegação rubro-negra já estava de novo no Rio, de onde embarcaria para a Itália.

Entre os dias 24 de junho e 2 de julho, o Flamengo participaria em Milão da segunda edição do Mundialito de Clubes, torneio criado pela emissora de televisão Canale 5 reunindo clubes que já haviam conquistado o título mundial. A primeira edição havia sido realizada em 1981 e teve como participantes a dupla local Internazionale e Milan mais três convidados: o Santos, o Peñarol e o Feyenoord holandês – o caneco terminou nas mãos da Inter de Milão.

O pica-pau símbolo do Canale 5 na logo do torneio.

Agora, na edição de 1983, além das duas equipes milanesas, do Flamengo e do Peñarol (os dois últimos campeões mundiais), o torneio abria espaço para a Juventus, que ainda não havia vencido o título intercontinental, mas fora convidada como representante da Itália. As cinco equipes se enfrentariam em turno único, em cinco rodadas duplas disputadas a cada dois dias no lendário estádio San Siro. E o título seria do time que somasse mais pontos.

Antes disso, porém, haveria um amistoso. O adversário era a Udinese, na despedida do atacante iugoslavo Ivica Surjak do time italiano e a estreia daquele que o substituiria em uma das duas vagas reservadas aos jogadores estrangeiros no elenco: Zico. Numa situação que nem o jogador nem a torcida rubro-negra nunca imaginaram nem desejaram que um dia pudesse acontecer, o Galinho e o Flamengo estariam, por breves cinco minutos, em lados opostos.

Quando Zico pisou o gramado do estádio Friuli, aos 40 minutos da etapa inicial, a Udinese vencia por 2 a 1. Havia acabado de marcar o segundo gol, com o meia Massimo Mauro, depois de Surjak ter aberto a contagem e Adílio – vestindo a 10 – ter empatado um minuto depois. O Galinho deu apenas dois toques na bola e não participou do terceiro gol italiano, marcado pelo atacante Pietro Paolo Virdis. E sairia no intervalo, substituído por Giorgio de Giorgis.

O time rubro-negro ainda parecia atônito por ter presenciado seu grande regente vestir a camisa do adversário quando outro brasileiro, Edinho, anotou o quarto gol da Udinese cobrando falta na metade do segundo tempo. Marinho ainda diminuiria, mas a atuação fraca numa partida que, no íntimo, muitos desejavam que não tivesse sido realizada (os próprios dirigentes do Flamengo a classificariam como “um erro”) levou Carlos Alberto a pensar em mudanças.

O time também demonstrava cansaço: enfrentara a Udinese no dia seguinte ao desembarque na Itália após um voo de 11 horas seguido de uma viagem de ônibus que durou mais seis horas até Údine. Em Milão, mais ambientado e descansado, o time poderia jogar melhor contra a Inter, acreditava Carlos Alberto. Mas o treinador mexeria no time: Figueiredo entrava no lugar de Mozer na zaga e Andrade, voltando de cirurgia, substituiria Élder no meio-campo.

A equipe que enfrentou a Inter de Milão na estreia.

ENFIM, O MUNDIALITO

A Inter, terceira colocada no Campeonato Italiano recém-encerrado (atrás apenas da Roma de Falcão e da Juventus), tinha muitos nomes da Azzurra: os laterais Giuseppe Bergomi e Giuseppe Baresi (irmão mais velho de Franco Baresi, do Milan), o líbero e capitão Graziano Bini, o volante Salvatore Bagni, o meia Gianpiero Marini e o atacante Alessandro Altobelli – estes dois últimos iniciariam a partida do banco, entrando no decorrer do jogo.

No gol, um novato chamado Walter Zenga assumia a titularidade após a saída do veterano Ivano Bordon para a Sampdoria ao fim da temporada. Havia ainda os meias Antonio Sabato (que atuaria pela seleção olímpica da Itália nos Jogos de Los Angeles no ano seguinte) e Evaristo Beccalossi, armador talentoso, ídolo histórico da torcida interista, com nome de craque rubro-negro, mas que estranhamente nunca chegou a ter chance na Azzurra.

Havia, é claro, os astros estrangeiros: o habilidoso armador Hansi Müller, da seleção da Alemanha Ocidental, ditava o ritmo no meio-campo, enquanto o brasileiro Juary, atacante veloz e esperto revelado pelo Santos, incomodava as defesas. E, especialmente para o torneio, a Inter contou também por empréstimo, em caráter experimental, com o ponteiro René Van Der Gijp, jogador da seleção da Holanda que atuava pelo Lokeren, da Bélgica.

O Fla, por sua vez, tinha sob as traves um Raul em forma excepcional e vivendo o último ano da carreira. Nas laterais, Leandro e Júnior buscavam compensar a ausência de Zico participando mais da criação de jogadas. Na zaga, para o jogo de estreia, Figueiredo jogaria na sobra, com Marinho num combate mais direto com o ataque da Inter. No meio, Vitor ficaria mais fixo na cabeça de área, liberando o apoio de Andrade, juntando-se ao novo 10, Adílio.

Júnior bate a falta. Zenga atento no gol. Hansi Müller na barreira. Bergomi, Baltazar e Robertinho (camisa 7) apenas observam.

Na frente, o time contava com a velocidade e os dribles de Robertinho pela direita, um jogador mais agudo e que combinava bem com Leandro. Pelo meio, Baltazar brigava com os zagueiros e abria espaços na defesa adversária. Já pela esquerda, o garoto Júlio César, revelação do Brasileiro de 1983, compunha o meio-campo, combatia e se movimentava para que especialmente Júnior e Adílio tivessem liberdade tática para criarem as jogadas ofensivas.

Mesmo assim, o time rubro-negro teve muita dificuldade no primeiro tempo. Embora ocupasse a intermediária adversária, não conseguia se infiltrar na área da Inter e levava pouco perigo nos chutes de média e longa distância. Além disso, sofria com os contragolpes italianos, em jogadas trabalhadas pelo lado esquerdo ou em lançamentos longos pelo meio, nas costas da defesa. Num deles, a Inter abriria o placar logo aos dez minutos de partida.

A jogada começou na esquerda, com Van der Gijp, que entregou a Beccalossi. O camisa 10 da Inter percebeu o avanço do líbero Bini e fez o lançamento no meio da retaguarda rubro-negra. O capitão interista entrou na área, mas Raul travou sua finalização com as pernas. A bola, porém, sobrou quase na pequena área para Juary, que tocou para o gol aberto anotando o primeiro tento daquela edição do torneio, para a vibração da torcida local.

Antes dos 20 minutos, os italianos ainda criaram duas chances claras para ampliarem o placar. Primeiro num cruzamento de Juary da direita que Van Der Gijp dominou sem marcação dentro da área e soltou um petardo que carimbou o travessão. E mais tarde num contra-ataque de dois contra um em que Bagni foi lançado acompanhado apenas por Marinho e passou a Juary, mas o chute cruzado do brasileiro passou a milímetros da trave, para a sorte do Fla.

A VIRADA ANIMADORA DIANTE DA INTER

Leandro escora o escanteio no lance do primeiro gol.

Só depois desse lance o Flamengo obrigou Zenga a trabalhar pela primeira vez, espalmando um chute de fora da área de Júnior. Em seguida, seria a vez de Vítor levar perigo ao goleiro interista numa finalização. As duas jogadas estabilizaram o time rubro-negro no jogo. A partir dali o Fla equilibrou as ações e, aos 27 minutos, chegou ao gol de empate: Júnior bateu escanteio alto, na segunda trave. Leandro escorou e Robertinho testou firme para as redes.

Se já nos minutos finais do primeiro tempo o Flamengo demonstrava um maior acerto no toque de bola e no posicionamento, na segunda etapa os papeis do início da partida seriam invertidos. Agora era o Fla que não dava espaços à Inter, combinava-se melhor no meio-campo e chegava com perigo em lançamentos em profundidade. Num deles sairia o gol da virada: Andrade faria o passe longo nas costas da defesa e Baltazar chegaria antes de Zenga para marcar.

Depois daquele segundo gol, aos 14 minutos da etapa final, o Flamengo ainda criaria ocasiões para aumentar a vantagem. Quase no lance seguinte, Robertinho tabela com Baltazar e é travado de maneira faltosa por Giuseppe Baresi quando se preparava para finalizar. Aparentemente, o toque é dentro da área (ou, no mínimo, em cima da linha), mas o árbitro marca apenas um tiro livre no interior da meia-lua. A cobrança de Júnior, no entanto, para na barreira.

Minutos mais tarde, Andrade lança Baltazar num contra-ataque e, após troca de passes com Adílio, Robertinho chuta cruzado tirando tinta da trave de Zenga. A Inter mexe no time, fazendo entrar o experiente armador Marini e o goleador Altobelli. Este logo aparece em duas chances de gol, mas o Fla leva a melhor em ambas. Primeiro é Raul que detém seu chute cruzado. E depois é Figueiredo que faz o desarme perfeito, tirando o doce da boca do italiano.

No fim, o Flamengo já inegavelmente controlava o jogo, intransponível na defesa e perigoso no ataque, fazendo com que, ao apito final, os cerca de 55 mil torcedores que ocupavam o San Siro reconhecessem a grande atuação e o mérito da vitória, aplaudindo efusivamente o time rubro-negro. Do lado do Fla, Carlos Alberto Torres se mostrava feliz com a melhora da equipe: “Subimos de produção aos poucos e no segundo tempo a partida foi toda nossa”.

A imprensa italiana também não poupou elogios, considerando “de alto nível” o futebol exibido pelo Flamengo. Os jornais destacaram especialmente Raul (tido como um goleiro veterano da qualidade de Zoff) e Júnior – os dois receberam nota 7,5 na avaliação do exigente Corriere dello Sport, que não costumava dar notas acima de 7. Já para Eugenio Bersellini, ex-técnico da Inter e então no Torino, Leandro e Júnior eram os dois maiores laterais do mundo.

Júnior era particularmente assediado pela imprensa devido a rumores de uma transferência para a Lazio, clube que havia acabado de ter seu controle diretivo assumido pelo ex-atacante Giorgio Chinaglia. O Capacete, porém, minimizava a possibilidade: “Chinaglia disse que eu seria a atração do time e não ficaria mais na lateral-esquerda, e sim no meio-campo. No entanto, sua proposta foi muito pequena, quase o que eu ganho no Flamengo”, declarou após o jogo.

O SUSTO CONTRA O MILAN

No jogo de fundo, concluindo a rodada de abertura, o Peñarol venceu o Milan por 1 a 0, gol de Fernando Morena, de pênalti. A equipe uruguaia seria a antítese do Flamengo: com seu jogo retrancado e violento, não tardou a conquistar a manifesta antipatia do público. A ponto de, na segunda rodada, após sua vitória sobre a Inter por 2 a 1, um grupo de irritados torcedores locais terem tentado invadir o campo para bater nos jogadores carboneros.

O Flamengo folgou na segunda rodada, que registrou ainda o empate em 2 a 2 entre a elegante Juventus de Michel Platini e o valente Milan, que acabara de voltar do purgatório da Serie B. A equipe de Turim havia saído na frente com um gol do meia francês após cruzamento do atacante polonês Zbigniew Boniek, mas os rossoneri viraram com gols de Stefano Cuoghi e Aldo Serena. A três minutos do fim, porém, Paolo Rossi deixou tudo igual de novo.

O Milan, adversário seguinte do Flamengo, era a equipe de menor qualidade técnica entre os três italianos do torneio. Mas vinha embalado por ter conseguido retornar à divisão de elite do país e ainda por cima jogava em casa, empurrado por sua fanática torcida. Contava ainda com jogadores que logo se firmariam na seleção italiana, como o lateral Mauro Tassotti, o meia (então lateral) Alberrigo Evani, o líbero Franco Baresi e o atacante Aldo Serena.

Já o Flamengo levou a campo o mesmo time que venceu a Inter de virada. Mas, estranhamente, parecia ter esquecido seu futebol naquela partida. O time até começou bem, e Adílio acertou a trave do goleiro Giulio Nuciari antes dos dez minutos. Mas no restante do jogo, a equipe esteve francamente irreconhecível, frouxa na marcação, levando um sufoco sem fim, completamente envolvida pelo Milan, que perdeu chances inacreditáveis.

Serena, impedido, abre o placar para o Milan.

Com Raul fazendo um milagre atrás do outro e Marinho jogando por todo o setor defensivo, o Flamengo ia se segurando até os 35 minutos do primeiro tempo, quando o Milan abriu o placar. A grande ironia é que, mesmo senhores absolutos da partida e criando oportunidades para aplicar uma goleada histórica, os italianos tiveram de se valer de um gol irregular, com Serena impedido ao cabecear um cruzamento da esquerda, para saírem em vantagem.

Além dos erros de marcação, dos espaços e da falta de combatividade que levavam aos seguidos ataques do Milan, os jogadores do Fla também tinham dificuldades para trocar passes e até para se manterem de pé no gramado escorregadio pela forte chuva que caiu antes da partida. Mesmo assim, o time ainda sairia no lucro ao conseguir empatar com um gol de Marinho, de cabeça, após falta levantada na área por Júnior, aos 34 minutos da etapa final.

Mesmo com o empate no fim, o time deixou o campo atordoado. “Nunca vi coisa assim”, disse Carlos Alberto Torres. Raul, por sua vez, chegou a temer a goleada: “Por cinco ou seis vezes eu já estava preparado para aceitar o gol e não sei como a bola não entrava. Foi um jogo incrível. É claro que nós facilitamos muito. A defesa parecia hipnotizada. Confesso que nunca passei por uma situação dessas”. Após o quase desastre, as mudanças viriam.

A REVANCHE CONTRA O PEÑAROL

Foram quatro as trocas na equipe titular para o jogo contra o Peñarol – que vinha de empate em 0 a 0 com a Juventus na preliminar de Flamengo x Milan e poderia ser campeão caso vencesse o Fla. Na zaga, Mozer entraria no lugar de Figueiredo. Recuperado de lesão no tornozelo esquerdo, o novo titular já havia entrado durante a partida contra o Milan. Júnior passaria de vez para o meio-campo, com o garoto Ademar entrando na lateral. Vítor saía do time.

Na frente, Baltazar e Júlio César – este, muito criticado pelo espaço que deu na marcação na partida contra o Milan – cediam seus postos a outro garoto, o centroavante Vinícius, que estreara nos profissionais no amistoso de Uberlândia e entraria pela primeira vez como titular, e a Peu, que retornava ao clube naquele torneio após ter jogado o Brasileiro emprestado ao Atlético-PR. A expectativa era a de um time mais acertado em todos os setores.

Contra os uruguaios, havia ainda um clima de revanche. Afinal, era o mesmo adversário que, sete meses antes, havia eliminado o Fla em pleno Maracanã nas semifinais da Taça Libertadores da América de 1982, impedindo um possível bicampeonato consecutivo do torneio. Em Milão, o time do Peñarol era quase o mesmo daquela partida. A exceção era o meia brasileiro Jair, ex-Internacional, exatamente o autor do gol que derrotou os rubro-negros naquele dia.

O time do Peñarol, o mais odiado do Mundialito pelo público.

O time carbonero começou a partida tentando colocar em prática o mesmo estilo de jogo que vinha desempenhando até ali no Mundialito: fechado na defesa, procurando os contra-ataques pelas pontas e abusando do jogo violento. Mas o Flamengo, com um meio-campo bem compacto, tendo Andrade, Adílio e Júnior apoiados pelos avanços de Leandro e Mozer e pelo recuo de Peu, trocava passes para envolver os uruguaios e forçava a saída do adversário.

Robertinho também era peça importante, com sua rapidez e seus dribles ajudando a desmontar a defesa uruguaia pelos flancos. Por meio dele o Fla teria sua primeira jogada de perigo: uma falta dura de Juan Morales (o Peñarol começava a abrir a caixa de ferramentas) cobrada por Júnior na área teve desvio de cabeça do camisa 7 e passou perto da trave de Gustavo Fernández. Pela esquerda, Ademar – vestindo a 8 – também descia bem no apoio.

O Peñarol provocou a primeira grande confusão aos 15 minutos, quando, com o jogo paralisado, o zagueiro Washington Oliveira deu uma solada no joelho de Peu e o tempo fechou. Andrade foi para cima do uruguaio tirar satisfações e acabou empurrado. Depois, o mesmo jogador bateu boca com Júnior. A torcida italiana gritava “fuori, fuori”, pedindo a expulsão imediata do zagueiro carbonero, mas o árbitro Maurizio Mattei aplicou apenas o cartão amarelo.

Quase no mesmo instante, o Flamengo teve de fazer sua primeira substituição, quando Vinícius, que sofrera duas entradas duas nos primeiros dez minutos, não teve mais condição de seguir na partida. Em seu lugar entrou Baltazar. E logo depois, uma bonita troca de passes entre os rubro-negros na intermediária uruguaia foi interrompida na meia-lua quando o meia Mario Saralegui cortou com a mão um passe pelo alto de Peu para Baltazar.

Júnior e Adílio se posicionaram para a cobrança, que ficou com o Capacete. A bola viajou por sobre a barreira, pegou Fernández no contrapé e entrou no ângulo. Um golaço. Mas a arbitragem seguia contemporizando: Fernando Morena, impedido, obrigou Raul a trabalhar pela primeira vez no jogo, detendo um chute à queima-roupa. Mais adiante, o lateral Victor Diogo cortou com o braço dentro da área um centro de Baltazar, mas o signore Mattei deixou seguir.

Robertinho disputa a jogada com a defesa uruguaia.

O Flamengo era melhor no primeiro tempo, ainda que chutasse pouco a gol. Uma das finalizações, aliás, viria perto do fim, num chutaço de Júnior batendo uma falta de muito longe e quase surpreendendo Gustavo Fernández. O cenário, porém, ameaçou se modificar no início da etapa final, com o Peñarol passando a adotar uma postura mais ofensiva, além do gramado escorregadio em decorrência da chuva que começou a cair no intervalo.

Mas isso durou apenas cerca de dez minutos. Logo o Fla recuperou o controle e assustou num foguete de Mozer em cobrança de falta e em duas ótimas jogadas de Baltazar descendo pela esquerda, em raros momentos nos quais ele não se posicionou em impedimento. Na segunda, ele ganhou na corrida de Saralegui, entortou Oliveira com um lindo drible e centrou rasteiro. Mas nem Robertinho, nem Adílio chegaram a tempo de concluir.

O jogo voltou a ficar quente na metade do segundo tempo. Júnior passou a bola por entre as pernas de Nelson Gutiérrez e, na sequência, levou uma entrada dura de Oliveira, mas não deixou barato e deu o troco. O juiz fez vistas grossas. Minutos depois foi a vez de Andrade, prestes a entrar na área com bola dominada, receber um pontapé de Gutiérrez na altura do estômago e se revoltar ao perceber que o árbitro novamente nada marcou.

O Fla respondia na bola: minutos depois de Robertinho quase ampliar no rebote de uma falta batida por Ademar, veio o segundo gol. Andrade despachou a bola para o campo de ataque e ela encontrou Peu descendo em velocidade pela esquerda. O atacante percebeu a passagem de Baltazar pelo meio e entregou de primeira. O centroavante invadiu a área e fuzila Fernández. O gol tranquilizou o Flamengo, que enfim conseguia definir o jogo.

Foi a senha para que a torcida de Milão começasse a gritar “olé” a cada toque de bola do Fla, que colocou os uruguaios na roda. Após o apito final, os jogadores do Peñarol ainda tentaram arrumar uma nova confusão: Oliveira, que em campo prometera quebrar a perna de Júnior, ameaçou agora bater no jogador do Fla no hotel – as duas delegações estavam hospedadas no mesmo Jolly, em Milão. Mas após uma acalorada discussão, os dois foram apartados.

O TÍTULO QUE ANDOU TÃO PERTO

O time uruguaio dava adeus ao torneio com cinco pontos ganhos em quatro jogos, enquanto o Flamengo já somava a mesma pontuação, mas com uma partida a menos. Havia ainda a Juventus, que chegou aos quatro pontos ao derrotar a Internazionale por 1 a 0 no jogo de fundo graças a um gol do zagueiro reserva Massimo Storgato. Com isso, os rubro-negros precisavam apenas de um empate com os bianconeri no confronto direto da última rodada.

A Juve havia montado um grande esquadrão na temporada recém-encerrada, acrescentando à sua equipe – que já formava a base da seleção italiana campeã do mundo – dois dos jogadores mais aclamados daquela Copa: o francês Michel Platini e o polonês Zbigniew Boniek. Porém, a primeira campanha havia sido de decepções, perdendo o título italiano para a Roma de Falcão e a Copa dos Campeões para o Hamburgo. Como consolo, venceu a Copa da Itália.

Antes do Mundialito, a Vecchia Signora se despedira do veterano goleiro Dino Zoff, aposentado aos 42 anos. Seu lugar era ocupado pelo antigo reserva Luciano Bodini. De todo modo, continuava um time respeitável. Na defesa, havia Claudio Gentile (que marcara duramente Zico no fatídico Brasil x Itália do Sarriá), o líbero Gaetano Scirea e o talentoso lateral-esquerdo Antonio Cabrini. No meio, o dinâmico Marco Tardelli. Na frente, o goleador Paolo Rossi.

Se não chegara a brilhar em nenhuma das partidas, empatando em 2 a 2 com o Milan e em 0 a 0 com o Peñarol e vencendo a Inter por 1 a 0, reunia o maior contingente de talento e experiência entre os demais participantes. Um duro adversário para o Fla, que teria uma mudança na equipe: a volta de Júlio César para reforçar a contenção no meio-campo, liberando a criatividade de Adílio e Júnior, com Robertinho e Peu formando a dupla de ataque.

O jogo começou bem movimentado, com o Flamengo ocupando o campo de ataque e deixando espaços para a Juventus se arriscar nos contragolpes. Mas a arbitragem de Enzo Barbaresco logo se fez notar: aos 12 minutos, Marinho desarmou Paolo Rossi limpamente na intermediária, mas o juiz apitou falta. Platini bateu forte e rasteiro, a bola desviou em Peu na barreira e traiu Raul, tomando o rumo das redes. Mas o Flamengo não se abalou.

Assim, pouco depois de uma bonita troca de passes do time rubro-negro que só não terminou em gol pelo corte providencial de Scirea na hora da finalização de Adílio, o empate veio aos 20 minutos. Júlio César ajeitou para o chute de Júnior, mas a bola bateu em Giuseppe Furino e sobrou para Adílio. Da entrada da área, o camisa 10 encheu o pé esquerdo e acertou o canto de Bodini. Um resultado mais condizente com o que se via em campo.

A virada quase veio em dois momentos. Aos 35, após mais uma troca de passes na entrada da área da Juventus que terminou aos pés de Leandro. O cruzamento do lateral resvalou em Cabrini e obrigou Bodini a mergulhar ao pé da trave para espalmar para escanteio. E aos 41, um chute com efeito de Peu quase traiu o arqueiro da Juve, que não conseguiu segurar de primeira, mas teve agilidade para se recuperar e travar a tentativa de Robertinho no rebote.

O Flamengo, porém, sofreria um duro baque ainda antes do fim do primeiro tempo: Mozer, que vinha cumprindo atuação excelente na defesa, chocou-se de cabeça com Scirea ao afastar um cruzamento para escanteio e teve de deixar o jogo na maca, substituído por Figueiredo. Na volta para o segundo tempo, o panorama do jogo seguiu com o Fla tocando a bola no meio-campo, procurando espaços na defesa da Juve, que explorava os contra-ataques.

Marinho e Boniek, o polonês da Juve: duelo frequente na decisão.

Num deles, aos 17 minutos, os italianos passaram novamente à frente: o lançamento de Gentile encontrou Boniek à frente de Marinho, em posição irregular. Mas a jogada seguiu, o polonês avançou e bateu forte da entrada da área, sem chance para Raul. Imediatamente, Carlos Alberto Torres colocou Baltazar em campo no lugar de Júlio César. Mas o Flamengo nitidamente sentiu o segundo gol, enquanto a Juventus cresceu e se organizou melhor em campo.

O Fla se mandou todo para o ataque, deixando apenas os dois zagueiros no campo de defesa. E, sem conseguir furar a sólida defesa da Juventus, sofreu com os incontáveis contra-ataques. Num deles, Paolo Rossi chegou a driblar Raul, mas perdeu o ângulo e viu sua finalização bater no pé da trave e correr sobre a linha, antes de Ademar aparecer para afastar. O goleiro rubro-negro ainda brilhou em outras três situações, parando Boniek, Rossi e Cabrini.

Houve ainda uma boa chance aos 33 minutos em falta sofrida por Adílio próxima à área: Ademar cobrou com chute forte de perna esquerda, Bodini não segurou, mas a finalização de Robertinho no rebote acertou o zagueiro Nicola Caricola. Houve, sobretudo, o pênalti escandaloso de Furino, agarrando Júnior pela camisa e pelo pescoço, quando o camisa 5 havia entrado na área pelo lado direito, aos 37 minutos. Inacreditavelmente, Barbaresco deixou seguir.

E houve, na última volta do ponteiro, a derradeira chance do empate quando Andrade esticou um passe para a área e Baltazar surgiu no meio da defesa para desviar a bola de Bodini. Mas ela, caprichosamente, passou rente à trave para fora. Ao apito final, mesmo com a derrota amarga, os jogadores do Flamengo saíram aplaudidos e de cabeça erguida. A impressão deixada pela equipe na imprensa italiana havia sido bastante positiva.

A delegação retornou ao Rio quatro dias após a partida e foi recepcionada no Galeão por muitos torcedores, que reconheceram a honrosa participação do Flamengo no Mundialito. Se o troféu não veio na bagagem, pelo menos o time havia colecionado grandes atuações nas vitórias sobre a Internazionale e o Peñarol e em parte do jogo contra a Juventus, além de ter demonstrado muita técnica e espírito de luta. O orgulho do campeão seguia intacto.

Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 3: Para a eternidade

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Nunes decide e parte para o abraço: o Fla, enfim, era campeão do Brasil.

Chegou enfim a hora de relembrar o inesquecível desfecho do Campeonato Brasileiro de 1980, primeira grande conquista nacional do Flamengo. Foi num 1º de junho há exatos 40 anos que Nunes, em jornada histórica, balançou as redes do Atlético-MG por duas vezes na vitória por 3 a 2 (Zico, também em atuação gigantesca, fez o outro), sacudiu o Maracanã com mais de 150 mil torcedores e entrou de vez para a galeria dos ídolos eternos rubro-negros.

Depois de contextualizarmos o Flamengo e o futebol brasileiro naquele período e contarmos as mudanças enfrentadas pelo time na pré-temporada e na fase inicial do campeonato no primeiro capítulo e de termos rememorado a saborosa revanche diante do Palmeiras na segunda etapa e da grande vitória sobre o Santos na terceira, é o momento de revisitar em detalhes a reta final da competição, começando pela memorável semifinal diante do Coritiba.

O PENÚLTIMO DEGRAU

Treinado por Mário Juliato, o time paranaense fazia ótima campanha mesclando nomes esbanjando experiência – como o centroavante Escurinho (ex-Inter e Palmeiras) e o veteraníssimo ponteiro esquerdo Aladim (ex-Bangu e Corinthians) – a boas revelações e nomes em ascensão, como o zagueirão Gardel, o volante Almir e os armadores Freitas e Vílson Tadei, além do beque uruguaio Taborda, que saíra mal do Corinthians, mas se consagrara no Paraná.

Com esses nomes, o Alviverde sustentou duas marcas expressivas até ali. Uma era ter sido o líder de seu grupo em todas as três etapas do campeonato. Na primeira fase, à frente de Grêmio, São Paulo e Vasco. Na segunda, diante de adversários mais fracos, aproveitou para aplicar goleadas: fez 7 a 1 no Ferroviário-CE e na Desportiva. E na terceira, foi a grande surpresa num grupo com Grêmio, Botafogo e o favorito Corinthians, de Sócrates.

Na chave P, o clube bateu Corinthians e Botafogo por 1 a 0 em casa – a longa série invicta mantida no Couto Pereira desde o início do Brasileiro era a outra marca expressiva – e, mesmo perdendo para o Grêmio na última rodada em Porto Alegre pelo mesmo placar, avançou às semifinais pelo saldo de gols, à frente do Tricolor gaúcho (que antes havia apanhado de 5 a 0 do Timão). O gol de Gardel contra o Bota, no último minuto, acabou valendo a vaga.

Gardel, porém, desfalcaria o Coritiba no primeiro jogo da semifinal – marcado para a noite de quarta-feira, 21 de maio, no Couto Pereira – após ter sido expulso nos minutos finais da partida contra o Grêmio. Pelo lado do Fla também havia uma baixa das mais importantes: o capitão Carpegiani voltou a sentir o problema muscular na coxa que o levou a ser substituído contra o Santos e ficaria de fora da primeira partida. Adílio entraria em seu lugar.

UMA GRANDE SEMIFINAL

Zico, o dono da braçadeira em Curitiba, seria decisivo ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 0. Mas contou com o auxílio luxuoso de Júnior e Adílio. No primeiro, ele tabelou com o lateral, que avançou pelo meio, descadeirou o marcador e fez belo passe na frente para o Galinho tocar na saída do goleiro Moreira. No segundo, já na etapa final, foi o camisa 8 quem limpou a jogada, antes de Zico encher o pé da intermediária e marcar um golaço.

Para a partida de volta, além de ainda não poder contar com Carpegiani, o Fla também perderia Toninho, que recebera o terceiro cartão amarelo em Curitiba e, como era a sua segunda série, foi suspenso por dois jogos. O que o time não esperava é que também fosse perder outros dois de seus principais jogadores ainda no primeiro tempo do jogo, que se converteria num drama inimaginável, antes de se consumar uma classificação com ares de épico.

Buscando reforçar a contenção ao lado esquerdo rubro-negro (de Júnior e Júlio César), o técnico Juliato sacou do time do Coritiba o ponta-direita João Carlos e escalou pelo setor o volante Leomir (que mais tarde defenderia o Fluminense). Mas o Fla começou assustando pelo outro lado, numa escapada de Carlos Alberto, o substituto de Toninho, que recebeu de Tita e bateu cruzado da entrada da área, tirando tinta da trave de Moreira.

Aos poucos, porém, o Coritiba começou a cozinhar o jogo. Bem postado na defesa, não dava espaço aos homens de frente do Flamengo e tentava sair em contra-ataques. Não chegou, porém, a incomodar Raul nos primeiros minutos. E o Fla também não chegava a se desesperar, já que detinha a vantagem. Porém a partida começou aos poucos a ficar desconfortável, até acontecer o primeiro baque da noite, aos 20 minutos.

Zico deitou à beira do campo sentindo uma fisgada na coxa esquerda. Era uma contratura. O camisa 10 não poderia continuar em campo. Enquanto ele deixava o gramado, substituído pelo ponta Reinaldo, Aladim alçava a bola na área rubro-negra, Escurinho ajeitava de cabeça e Vílson Tadei saía de frente com Raul, tocando de leve por cima do goleiro rubro-negro para abrir a contagem no Maracanã. A torcida do Fla ficava desconfiada.

E logo a desconfiança viraria perplexidade: aos 31 minutos, Luís Freire recebeu pelo lado direito do ataque, livrou-se de Rondinelli, foi à linha de fundo e cruzou. Aladim apanhou num sem-pulo, e estufou as redes, ampliando a vantagem do Coritiba no jogo e deixando os paranaenses a um gol das semifinais. Mas Nunes não deixaria as coisas assim por muito tempo: três minutos depois, ele foi lançado por Andrade, arrancou e fuzilou Moreira. O Fla diminuía.

Imediatamente, os nervos rubro-negros voltaram a ser testados: agora era Júlio César – que vinha em ótima fase – a deixar o gramado lesionado, com uma torção de tornozelo. O centroavante Anselmo entrava em seu lugar, esgotando as substituições do time ainda aos 35 minutos de jogo. Mas nem mesmo a nova baixa interromperia a reação do Fla: dois minutos depois Andrade cruzou da esquerda, Tita ajeitou e Nunes encheu o pé. Era o empate.

A virada chegaria logo em seguida e de maneira apoteótica, como a exorcizar todas as provações pelas quais a equipe passara até ali na partida. Carlos Alberto interceptou passe de Vílson Tadei na intermediária defensiva rubro-negra e arrancou. Deu uma meia-lua no zagueiro Gardel, recebeu um calço do beque, mas seguiu de pé e ao entrar na área, bateu cruzado. A bola voou até quase o ângulo do goleiro Moreira e encontrou as redes. Êxtase no Maracanã.

Já na etapa final, depois do gol da catarse veio o gol da arte. Aos 27 minutos do segundo tempo, Tita lançou Anselmo da própria intermediária por trás da defesa alviverde, que parou. O camisa 16 arrancou, deu uma meia-lua no goleiro Moreira (que já saía da área) e mandou um lindo toque de cobertura para as redes. Nem mesmo Gardel, que se esticou todo para tentar afastar a bola, conseguiu evitar o golaço, o quarto rubro-negro na partida.

Com a vaga mais do que confirmada (o Coritiba agora precisaria de quatro gols em menos de meio tempo), o Fla relaxou e o time paranaense ainda descontou aos 43, marcando mais um belo gol para a coleção de pinturas daquele jogaço. Vílson Tadei recebeu cruzamento da esquerda, ajeitou e entregou de calcanhar a Escurinho, que aparou e tocou sem deixar cair para Luís Freire. Também de primeira, o meia bateu forte e cruzado, vencendo Raul.

“Não fui falso humilde quando disse que temia esse jogo. Tudo pode acontecer em futebol, pois com a saída de Zico, o time ficou atordoado e sofreu dois gols. Felizmente, conseguimos acordá-lo, graças também ao incentivo da torcida, e viramos o jogo”, declarou Coutinho após a partida, reconhecendo o valor da ótima equipe do Coritiba. De todo modo, o ambiente nos vestiários do Fla era de apreensão com as lesões de Zico e Júlio César.

A outra semifinal reuniu Internacional e Atlético-MG, que já haviam se enfrentado na segunda fase, quando deram início a uma curiosa tradição, na qual os mandantes não tinham vez: o Inter triunfara no Mineirão (2 a 1) e o Atlético no Beira-Rio (3 a 1). No reencontro, aconteceu algo semelhante: no primeiro jogo, em Belo Horizonte, empate em 1 a 1, o que levou a crer que os gaúchos conquistariam a vaga na decisão contra o Flamengo.

Porém, houve reviravolta em Porto Alegre. Falcão foi vetado de última hora por problemas físicos no time colorado, frustrando a torcida. O baque duplo foi sentido em campo pelo time, que nunca se encontrou e só assistiu ao Galo impor um categórico 3 a 0. O Inter também teve Mário Sérgio expulso, o que gerou a reclamação do volante Batista nos vestiários de que o árbitro deveria também ter dado vermelho a Chicão e Palhinha que “distribuíram pontapés”.

A DECISÃO

Em 1977, um jovem time do Atlético decidira o título brasileiro diante do São Paulo dentro do Mineirão. Eram dois estilos opostos: o jogo técnico, leve e ofensivo – quase romântico – dos mineiros contra o futebol duro, vigoroso e competitivo (na falta de maior qualidade técnica) dos paulistas. O Galo perdeu nos pênaltis. Para a memória, ficou o lance em que o volante são-paulino Chicão provocou uma fratura na perna do talentoso meia atleticano Ângelo.

O tempo passou e o mundo deu voltas. Talvez atribuindo a perda daquele título a uma suposta falta de malícia, o Atlético se reforçou para a temporada 1980. Além do ponteiro Éder, revelado pelo América-MG e trazido do Grêmio, chegaram outros dois jogadores conhecidos pela catimba. Do Corinthians veio o meia-atacante Palhinha, antigo rival no Cruzeiro. E do São Paulo, veio exatamente Chicão, o ex-algoz que agora teria a torcida atleticana ao seu lado.

Estes dois últimos eram os maiores símbolos de um time que sabia muito bem jogar um futebol de primeira linha, mas que também em muitas vezes se valia de cavar faltas, irritar adversários e pressionar árbitros. Foi assim, por exemplo, que na terceira fase o Atlético segurou um valioso 0 a 0 diante do São Paulo no Morumbi e depois um outro empate sem gols diante do Vasco no Mineirão, resultado que o levou às semifinais.

E, passadas as semifinais, o time mineiro esfregava as mãos com a perspectiva de enfrentar o Flamengo na decisão. Estava com os rubro-negros atravessados na garganta precisamente desde o dia 6 de abril de 1979, quando, num amistoso em benefício das vítimas das enchentes em Minas Gerais e que teve Pelé vestindo a camisa do Fla, os cariocas aplicaram um vareio de 5 a 1 num Maracanã com 140 mil torcedores, em jogo transmitido pela TV para todo o país.

Daí os dois confrontos daquela decisão de 1980 terem sido truncados, picotados, faltosos – bem diferentes dos jogos do Flamengo contra Palmeiras e Santos, por exemplo, mais soltos, de poucas faltas, prevalecendo a técnica. Além disso, no primeiro jogo, o Fla teve três importantes baixas: Toninho (suspenso), Zico e Júlio César (lesionados). O Galo venceu no Mineirão por 1 a 0, com o atacante Reinaldo se aproveitando de um erro de Júnior na saída de bola.

Mas, para os rubro-negros, o lance que marcou mesmo aquela partida aconteceu mais tarde, aos 26 minutos da etapa final, após uma bola cruzada por Cerezo por sobre a área do Flamengo. De repente, um bolo de gente se formou perto da trave esquerda de Raul. Médicos, enfermeiros, jogadores, repórteres de rádio e televisão. No chão, caído, Rondinelli tinha o rosto – inchado e sangrando – apalpado pelo doutor Giuseppe Taranto.

O Deus da Raça rubro-negro havia levado um empurrão, soco ou cotovelada de Palhinha (a agressão muda de acordo com os diferentes relatos) e se chocara de cabeça contra a trave, fraturando o maxilar e deixando o campo ainda com suspeita de concussão cerebral. Levado aos vestiários, teve de ser contido e sedado. Furioso, queria a forra contra Éder, a quem inicialmente atribuíra a agressão. O clima era muito pesado.

Flamengo e Atlético haviam chegado até aquela decisão com campanhas muito semelhantes. Ambos haviam somado 32 pontos ao longo da competição. O Atlético somava uma vitória a mais (14 contra 13) e o Fla, uma derrota a menos (perdera apenas uma vez, contra duas do Galo). Os dois haviam anotado 43 gols, com o Fla sofrendo quatro a mais (17 contra 13), o que dava aos mineiros uma ligeira vantagem no saldo de gols.

Contudo, pelo regulamento, era dos rubro-negros a vantagem de decidir o título em casa e de jogar pela igualdade no placar agregado – e, portanto, por qualquer vitória no Maracanã para levantar a taça. Isto se devia ao fato de os critérios de desempate levarem em conta apenas os resultados obtidos da terceira fase de grupos em diante, onde começava a “fase final” para a CBF. Nesta reta final, o Fla somara nove pontos contra sete dos mineiros.

Para o jogo do Maracanã, o Atlético iria completo, assim como fora na ida. Já pelo lado do Fla, se Toninho, Zico e Júlio César voltavam, Rondinelli estava fora. “Passei por uma cirurgia muito séria, perdi 40% da minha audição, hoje só tenho 10%. Eu tenho até hoje a parte que é chamada de buco-maxilofacial toda ela amarrada com fios de aço. Não tenho sensibilidade nenhuma no queixo porque os músculos da face foram cortados”, relembrou o zagueiro.

O ÉPICO SEGUNDO JOGO

Com Manguito no lugar de Rondinelli e diante de exatos 154.355 pagantes – maior público da história do Brasileirão até ali e novo recorde de renda do futebol brasileiro – no Maracanã, o jogo começou quente, como se previa. Logo aos dois minutos, Tita fez falta dura em Jorge Valença e já recebeu o primeiro cartão amarelo do jogo. Para o rubro-negro, era o troco do jogo de ida. Mas a primeira chance de gol foi do Atlético, com Palhinha.

Porém, aos sete minutos, o Fla saiu na frente no placar. O zagueiro Osmar arrancou da defesa, mas esticou demais a bola ao passar do meio-campo. Andrade recolheu e entregou a Zico, que fez o passe perfeito para Nunes, exatamente no buraco que o beque atleticano deixara em sua defesa. João Leite deixou o gol desesperado, mas o camisa 9 rubro-negro tocou por baixo, com calma. Começava ali a se consagrar como o Artilheiro das Decisões.

A resposta atleticana, entretanto, foi imediata. Pouco depois do reinício do jogo, Cerezo recebeu na ponta-esquerda e passou a Reinaldo no meio da área. Mesmo marcado, o centroavante conseguiu dominar, contornar Manguito e Andrade, e chutar quase da linha de fundo. A bola bateu na coxa de Marinho e tirou totalmente Raul da jogada. Era o empate relâmpago. E o jogo seguiu equilibrado, com chances para ambos os lados.

Zico sofria marcação implacável e dura por parte dos atleticanos. Aos 17, Chicão fez uma alavanca que poderia até ter quebrado a perna do camisa 10 rubro-negro. A falta foi marcada e dali a cinco ou seis passos, o meia foi aterrado novamente, agora por Cerezo, que recebeu o cartão amarelo. Júnior levantou para a área e Marinho cabeceou com perigo, acertando o ferro de sustentação da rede. João Leite fazia cera e era repreendido pelo árbitro.

Aos 20, Chicão levantou Zico e também recebeu o amarelo. O Atlético fechava a frente da área com Chicão e Cerezo, e o Fla buscava os ataques quase sempre pelo lado esquerdo, com Júnior e Júlio César. Num cruzamento do ponteiro, João Leite saiu em falso e não achou nada, mas Jorge Valença tranquilizou para os mineiros. Empurrado pela torcida, cantando a plenos pulmões já refeita do susto do gol de empate, o Flamengo sufocava o Atlético.

Aos 23, Júlio César bateu falta rolada para Júnior, que chutou mascado, mas a bola desviou na defesa atleticana e subiu, obrigando João Leite a se esticar para mandar por cima do travessão. O Atlético, que não vinha conseguindo sair nos contra-ataques, enfim encaixou um aos 27: Cerezo lançou Reinaldo na ponta-direita, nas costas de Júnior. O centroavante desceu na diagonal até a área, mas Raul fechou bem o canto e o chute rasteiro foi para fora.

O Atlético seguia pressionando a arbitragem. Aos 30, Luisinho reclamou de uma falta de Tita e José de Assis Aragão apitou, mas o zagueiro atleticano continuou chiando a tal ponto que o árbitro acabou marcando uma infração técnica do defensor atleticano. Aos 36, foi a vez de Nunes levar o amarelo ao acertar o zagueiro Luisinho. Embora o Fla já tivesse mais volume de jogo, as chances se sucediam de um lado e de outro. Até o desempate os 41 minutos.

Luisinho fez falta em Tita na ponta direita, perto da bandeirinha de escanteio. Toninho levantou para a área, João Leite espalmou e Orlando despachou. Mas a bola sobrou para Júnior, que tentou um primeiro chute, bloqueado por Palhinha. A sobra voltou para o lateral, que bateu para o gol de pé direito. No meio do caminho, a bola encontra Zico, que apara e, mesmo quase caindo, consegue tocar para as redes. O êxtase voltava ao Maracanã.

Mesmo longe das condições físicas ideais e perseguido bem de perto pela marcação atleticana, o camisa 10 rubro-negro era decisivo pela segunda vez no jogo. Na saída de bola, o Atlético ainda tentou novo empate relâmpago com Palhinha. Atenta desta vez, a defesa rubro-negra rechaçou. E ao apito final do primeiro tempo, Chicão pegou a bola e a arremessou contra Júnior, iniciando ali um bate-boca com o lateral enquanto os times deixavam o campo.

No intervalo, nos vestiários, o técnico Cláudio Coutinho recebeu um bilhete e o entregou a Adílio, pedindo para que o meia lesse. Mesmo em voz baixa, podia ser ouvido pelos demais jogadores. Dizia a mensagem: “Companheiros, estou bem, torcendo de fora. Vamos pra cabeça. Assinado, Rondinelli”. Era a senha para que o Flamengo não deixasse de lutar um só instante, honrasse a camisa e a enorme massa de gente que o assistia no Maracanã.

A 45 MINUTOS DO TÍTULO

O entrevero entre Júnior e Chicão seguiu na volta do intervalo: o lateral cometeu falta no volante já no campo de ataque e, após ser provocado, tentou acertar um tapa na cabeça do atleticano. Aragão mostrou o amarelo ao rubro-negro, o segundo do time. Pouco depois, o Fla teve grande chance de ampliar o placar: Tita abriu o jogo para Júlio César na esquerda e o ponteiro cruzou de primeira para Nunes, que chegou atrasado por milímetros.

O Flamengo voltou à carga aos oito minutos, quando Zico recebeu de Tita e entrou driblando em velocidade pela defesa do Atlético, parado apenas com falta por Luisinho quase na risca da grande área. Na cobrança, a bola acertou a barreira, que andou muito e forçou Aragão a mandar voltar. Cerezo protestou e o árbitro chegou a botar a mão no bolso para puxar o cartão (que seria o vermelho). Mas foi Reinaldo quem acabou levando o amarelo.

O Atlético, que já havia trocado o lateral Orlando por Silvestre no intervalo, teve de gastar sua segunda alteração aos dez minutos da etapa final, quando Luisinho saiu lesionado para dar lugar ao lateral Geraldo (Silvestre passou para a zaga). Logo depois, numa bola esticada pela direita do ataque atleticano que Marinho protegeu para a saída de Raul, Reinaldo sentiu um estiramento no músculo posterior da perna coxa direita.

A torcida rubro-negra gritava “bichado”, e o jogo parecia se colocar à feição do Flamengo. Cerezo quase marcou contra ao tentar abafar um chute de Marinho, defendido no reflexo por João Leite. Na ponta-esquerda, Júlio César era duramente marcado por Geraldo. O lateral atleticano chegou a atingir o rubro-negro com um carrinho por trás sem, no entanto, levar nem o amarelo. Logo depois, Nunes perdeu chance incrível, chutando mal após passe de Júnior.

Aos 16 minutos, porém, a defesa rubro-negra cometeu um erro fatal. Manguito saiu da área para dar combate a Palhinha e deixou Marinho sozinho. A bola chegou a Éder, que cruzou alto. Marinho não alcançou, e Reinaldo, que se infiltrara nas costas da zaga, apareceu desmarcado para finalizar de primeira. A bola entrou chorando no gol de Raul. O empate atleticano, que parecia improvável, vinha com um jogador que fazia número em campo.

O Flamengo mexe no time: Carpegiani dá lugar a Adílio. O Atlético ganhava confiança. Mas um impedimento mal marcado de Reinaldo na ponta direita degringolaria numa enorme confusão. O atacante atleticano parou na frente da bola para impedir a cobrança e ainda a chutou. Aragão prontamente expulsou o camisa 9. Procópio e todo o banco atleticano entraram em campo, paralisando o jogo por mais de seis minutos. O técnico mineiro também seria expulso.

Reinaldo cai em campo – sente o músculo, faz cera, xinga a mãe do juiz. José de Assis Aragão revida: ‘Quebro a cara desse moleque. Tá expulso!’”, relatou a crônica do jogo publicada pela revista Placar. O fato é que a longa pausa, esfriando o jogo até quase os 30 minutos do segundo tempo, beneficiava o Atlético, que seria campeão com aquele empate. O Fla buscava forças para reagir. Adílio entrara bem no lugar de Carpegiani. E Júlio César crescia.

O ponteiro incomodava a defesa atleticana com seus dribles rápidos. E ao receber um pontapé de Palhinha, provocaria uma falta perigosa próxima à área. Adílio, por sua vez, abriria uma bola na direita para Toninho cruzar na cabeça de Zico, que tocou por cima. Mas logo a torcida voltaria a se inflamar. Aos 36, Osmar sairia jogando outra vez até o meio-campo. Sua tentativa de lançar Pedrinho, porém, foi interceptada por Júnior, que entregou a Andrade.

O camisa 8 então lançou a bola para Nunes, novamente no espaço deixado pelo beque atleticano. O atacante rubro-negro disparou em velocidade e tentou alçar a bola para a área, mas ela bateu no peito de Silvestre e voltou para o João Danado. Na risca lateral da área, o centroavante parou na frente do marcador, relembrando seus tempos de ponta. Sob as traves, João Leite gritava: “Quebra ele, Silvestre!”, mas o beque continuou parado.

Instintivamente, Nunes deu o drible para dentro, arrancou pela linha de fundo e, quando o arqueiro atleticano caiu para fechar o canto, o centroavante bateu à meia altura, estufando as redes. Um gol de raça, de ousadia, de inspiração. Um dos mais memoráveis da história do estádio e dos Campeonatos Brasileiros. E que fez explodir de vez a torcida rubro-negra, até então apoiando, empurrando o time, mas um tanto aflita, roendo as unhas.

Aos 39, para reforçar a marcação, Júlio César deixaria o campo dando lugar ao lateral Carlos Alberto, que entraria no meio-campo para conter Cerezo. Agora era o Flamengo que se fechava e explorava os contra-ataques puxados por Zico. O Atlético, à essa altura, já se deixava vencer pelos nervos: Osmar foi driblado por Andrade e cometeu falta. Quando o camisa 8 se levantava, de passagem, o zagueiro atleticano acertou um soco em seu rosto.

Depois, Tita sofreu falta perto do bico da área pelo lado direito, Chicão pegou a bola e jogou na cabeça de Aragão. Com o Flamengo pedindo desesperadamente o fim do jogo, o árbitro esticava para repor o tempo perdido com a paralisação após a expulsão de Reinaldo. Já eram 48 minutos quando Tita recebeu um passe na meia esquerda e começou a fazer embaixadinhas, até levar um pontapé de um descontrolado Chicão, expulso imediatamente.

Logo depois seria a vez de Palhinha, que encostou no árbitro e disse-lhe alguma coisa. Os dois discutiram, e o meia-atacante atleticano também recebeu o vermelho. O Flamengo rodava a bola de pé em pé aguardando o apito final, mas ainda levaria um susto: Carlos Alberto recuou para Manguito, que teve a carteira batida por Pedrinho. O ponta arrancou num último gás e passou até mesmo pelo goleiro Raul, que já deixava a área.

Quando Pedrinho preparou a perna para armar o chute, Andrade apareceu na hora exata para bloqueá-lo. E, para o alívio dos rubro-negros, aquele seria o último lance da partida, encerrada aos 51 minutos. A multidão que já aguardava o fim do jogo à beira do campo rapidamente invadiu o gramado, levando Coutinho e os jogadores nos ombros. Alguns torcedores também pagavam promessas, cruzando ajoelhados toda a extensão do campo.

CAMPEÃO DO BRASIL

Vestindo faixa de campeão, o paraibano Herontino Colombo, 31 anos, era um deles, um símbolo da massa: “Moço, nem sei como vou pagar as prestações da passagem. Ganhei uma grana no bicho e dei a entrada. Me mandei para cá. Nunca tinha botado os pés no Maracanã. Um troço me dizia para eu vir ao Rio, que eu ia ver o Flamengo campeão. Como vou fazer para pagar? Sei lá! Não é hora de pensar nisso”, declarou à Placar.

Herói da final e nordestino como o torcedor, Nunes falava sobre a reação ao gol do título: “Senti a perna tremer. E depois a frustração: eu queria era estar na geral, cair nos braços daquele monte de gente, rolar por cima do povão. Mas fiquei com medo na hora H. Para mim, o jogo terminou ali. Foi por isso que eu fiquei dançando, meio ausente: senti o estádio dentro da minha camisa, como se cada pessoa fosse um Nunes e eu fosse cada um daqueles torcedores”.

Zico era outro exemplo de raça: “Durante o jogo pensei em meu problema muscular, mas não tive medo. Uma decisão é diferente. Joguei, dividi e me movimentei com todas as minhas forças. Se tivesse que arrebentar o músculo não tinha importância ficar dois meses parado. Esse título teria que ser nosso. Fizemos por merecer”, declarou o camisa 10, que tratou de incentivar o time em todos os momentos: “Nunca gritei tanto num jogo como nessa decisão”.

Naquele instante, cada torcedor se sentia consagrado como Nunes, imortalizado como Zico, redimido como Cláudio Coutinho. Se sentia tão campeão do Brasil como todo aquele esquadrão rubro-negro, que dali partiria para conquistar a América e o mundo no ano seguinte, e levantando ainda três Brasileirões em quatro anos. Se sentia digno da eternidade.

Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 2: Uma doce revanche

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Toninho, um portento físico, não dá chance a Baroninho na goleada histórica do Flamengo sobre o Palmeiras no Maracanã pela segunda fase.

No primeiro capítulo da saga rubro-negra rumo ao primeiro título brasileiro, relembramos o histórico do Flamengo em competições nacionais até ali, falamos do interesse crescente de torcedores e dirigentes pelo Brasileirão, relatamos as reformas sofridas pelo torneio dentro do contexto do próprio futebol no país, abordamos as chegadas e partidas no elenco e, por fim, contamos com detalhes a trajetória na primeira fase da Taça de Ouro.

Agora, na segunda parte, a campanha avança pelas duas etapas seguintes, as quais o Flamengo atravessou invicto e colhendo excelentes resultados. Um deles, contra o Palmeiras no Maracanã, valeu como uma inesquecível revanche da derrota no ano anterior. Mais adiante, uma grande vitória sobre o Santos, também num Maracanã com casa cheia, significou a passagem às semifinais. Aquele era, portanto, o momento de afirmação da equipe.

OS ADVERSÁRIOS NA SEGUNDA FASE

Classificado como o segundo colocado do Grupo C, o Flamengo teria agora pela frente três novos adversários na segunda etapa da competição – a única fase de grupos jogada em turno e returno naquela edição. A chave J tinha dois favoritos destacados, mas também duas outras equipes bastante perigosas e dispostas a surpreender, prontas para fazerem os papões tropeçarem. E quem seriam esses rivais rubro-negros na disputa?

Em ordem alfabética, o primeiro era o Bangu, rival já conhecido do Estadual, mas que apresentava uma novidade para aquele ano de 1980: o retorno de Castor de Andrade a Moça Bonita, após dez anos de ausência, mas desta vez não mais como diretor de futebol do clube e sim como seu “patrono”, custeando com o dinheiro do jogo do bicho uma equipe repleta de nomes experientes, com longa rodagem no futebol carioca e brasileiro.

No gol, havia Tobias (ex-Corinthians). Na zaga, o “xerife” Moisés, que recentemente passara pelo próprio Flamengo. No meio-campo, os ex-botafoguenses Carlos Roberto e Ademir Vicente, além do sempre matreiro Dé “Aranha”. E na frente, outro ex-rubro-negro, Caio “Cambalhota”, tinha a companha do trombador Luisão, principal goleador da equipe dirigida pelo ex-zagueiro Ananias, campeão carioca pelo Flamengo como jogador em 1963.

O time da Zona Oeste vinha de grande campanha na Taça de Prata, vencendo o grupo que incluía Campo Grande, Volta Redonda, Serrano e quatro paulistas: Ferroviária de Araraquara, Botafogo de Ribeirão Preto, Inter de Limeira e Noroeste de Bauru. Com cinco vitórias, um empate e apenas uma derrota (para a Ferroviária na estreia), o Bangu liderou sua chave e superou o Uberlândia na decisão do acesso com uma goleada de 4 a 0 em Moça Bonita.

O Bangu com Castor de Andrade à frente: um dos adversários do Fla.

Outro adversário, com quem o Flamengo faria os confrontos mais aguardados, era o Palmeiras. O Alviverde mantinha praticamente o mesmo time que eliminara o Fla no Brasileiro anterior antes de cair nas semifinais para o Internacional. A única baixa era o ponta-de-lança Jorge Mendonça, que saíra para o Vasco. Mas sem dramas: o talentoso Jorginho, ponta-direita em 1979, assumia a camisa 10, enquanto o arisco Lúcio (ex-Ponte Preta) agora vestia a 7.

Houve, porém, a mudança no comando do time, forçada pela saída de Telê Santana para assumir o comando da Seleção. Em seu lugar, entrara Sérgio Clérici, ex-jogador revelado pela Portuguesa Santista e que fizera extensa carreira no futebol italiano, dos 19 aos 37 anos, passando por nada menos que sete clubes diferentes. Mas a campanha apenas regular na primeira fase daquele Brasileiro de 1980 já fazia com que o treinador balançasse no cargo.

Por fim, o Santa Cruz era um time com histórico respeitável no Brasileirão. Chegara às semifinais deixando o próprio Flamengo de fora em 1975 e estivera bem próximo de voltar a figurar entre os quatro primeiros em outras duas ocasiões: em 1977, quando perdeu a vaga no saldo de gols para o igualmente surpreendente Operário-MS, e em 1978, quando chegou às quartas de final, mas caiu diante do Internacional, terminando numa ótima quinta colocação.

Na edição de 1980, porém, havia cumprido uma campanha um tanto oscilante na primeira fase. Foi capaz tanto de empatar em casa com dois dos piores times de sua chave – Gama e Maranhão – quanto de vencer o líder Coritiba e arrancar um empate diante do Grêmio, segundo colocado, dentro do Estádio Olímpico, em Porto Alegre. Em suma: um time que complicava contra os fortes, mas ia mal contra os mais fracos. Valia ligar o sinal de alerta.

O elenco trazia alguns nomes experientes, como o goleiro Wendell (ex-Botafogo, Fluminense e Seleção), o vigoroso zagueiro Tecão (ex-São Paulo) e o malicioso centroavante Tadeu Macrini (ex-Operário-MS), somados ao bom armador Betinho e ao goleador ponta-de-lança Baiano. Mas o time logo enfrentaria uma troca no comando na virada da primeira fase para a segunda, com o gaúcho Cláudio Duarte dando lugar a Paulo Emílio, o mesmo de 1975.

E seria exatamente o Santa Cruz o primeiro adversário do Flamengo naquela segunda etapa, no Estádio do Arruda, no Recife, no dia 6 de abril. Uma partida com predomínio das defesas sobre os ataques, até com uma certa rispidez por parte dos pernambucanos (o zagueiro Gaúcho chegou a rasgar a camisa de Tita), e que teve os rubro-negros melhores no primeiro tempo e os tricolores, que chegaram a colocar uma bola na trave, no segundo.

O Fla, no entanto, poderia ter vencido se o árbitro paulista Dulcídio Vanderlei Boschilia não tivesse invalidado uma jogada de Nunes, que recebeu de Zico, encobriu o goleiro Wendell e, após rebote da defesa pernambucana, mandou para as redes. O juiz, no entanto, ignorou a lei da vantagem e preferiu marcar uma falta do arqueiro pernambucano, que havia tocado a bola com a mão fora da área. Apesar dos protestos, o jogo ficou mesmo no 0 a 0.

A GRANDE REVANCHE

Tita “se despede” dos torcedores palmeirenses após marcar seu gol.

A segunda rodada marcava o reencontro de Flamengo e Palmeiras no Maracanã, pouco mais de quatro meses após a goleada alviverde no mesmo local pelo Brasileiro do ano anterior. Agora, em 13 de abril de 1980, o time paulista chegava para o confronto em meio a uma troca de comando: Sérgio Clérici não resistira a uma surpreendente derrota por 3 a 2 para o Bangu dentro do Parque Antártica na estreia da segunda fase e seria demitido.

Para o seu lugar, a diretoria palmeirense apostou em uma lenda do clube. O veterano Oswaldo Brandão, comandante da Academia bicampeã brasileira em 1972 e 1973, voltava para aquela que seria sua última passagem pelo Parque Antártica. Nome com extenso e vencedor currículo no futebol paulista, havia recentemente dirigido a Seleção Brasileira, entre 1975 e 1977, quando foi substituído exatamente por Cláudio Coutinho – de quem era amigo particular.

“O líder, o pai, o técnico: Brandão voltou”: assim a Folha de São Paulo mancheteava o retorno do treinador, que – amizade com o comandante rubro-negro à parte – não evitou lançar uma bravata para motivar o ambiente palmeirense: “Se o Coutinho bobear, arrebento com ele lá dentro do Maracanã”. Para isso, contaria com dez dos 11 titulares do time de 1979. A única baixa, como dito, era a de Jorge Mendonça, compensada com a chegada de Lúcio.

No Flamengo, após quatro empates consecutivos (três deles fora de casa), Coutinho começava a viver um período de incertezas, com a imprensa começando a aventar um suposto desgaste entre ele e o elenco. E a vitória enfática dos reservas sobre os titulares num coletivo na semana do jogo fez com que o treinador resolvesse alterar o time, trocando Adílio por Andrade para fortalecer a combatividade no meio-campo. Toninho também voltava após lesão.

Em São Paulo, onde se costumava até mesmo ridicularizar o treinador rubro-negro pelo hábito de ler livros e mais livros sobre táticas, o jogo era tratado como o confronto entre a “experiência” (Brandão) e a “teoria” (Coutinho). Quando a bola rolou, de fato o primeiro tempo foi bastante estudado de parte a parte, com poucas chances de gol. O Flamengo, porém, aproveitou melhor as que teve e foi para o intervalo em vantagem.

Primeiro, aos 13 minutos, Andrade ganhou uma bola estourada com Rosemiro, e ela sobrou para Júlio César na ponta. O camisa 11 parou, olhou para a área e centrou. Gilmar saltou para a defesa, mas não segurou, e Tita rebateu de cabeça para as redes, abrindo a contagem. Depois, aos 33, Júnior fez jogada pela esquerda e sofreu falta do mesmo Rosemiro perto do bico da grande área. A cobrança de Zico foi perfeita, na gaveta de Gilmar: 2 a 0.

O Fla ainda esteve muito perto de fazer o terceiro ainda na etapa inicial, numa bomba de Toninho em cobrança de falta que Gilmar deu rebote, mas nem Zico nem Nunes conseguiram concluir. Mas, se não veio no primeiro tempo, acabou vindo no segundo, em que o time rubro-negro foi verdadeiramente avassalador. Logo aos sete minutos, Zico tabelou com Tita, entrou na área e foi derrubado por Pires. O próprio camisa 10 bateu e converteu.

Com a já confortável vantagem no placar, Zico alegou dores musculares e deixou o jogo aos 12 minutos, substituído pelo ponta-direita Reinaldo (Tita seria deslocado para a ponta-de-lança). Mas nem mesmo isso impediu o Flamengo de buscar – e, no fim das contas, infligir – uma goleada memorável sobre o time paulista, agora cada vez mais refém do bom toque de bola rubro-negro e desmantelado pelos deslocamentos constantes da ofensiva do Fla.

O quarto gol rubro-negro chegou a lembrar o de Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970. Júlio César bateu escanteio rolando a bola para Júnior, que carregou pela intermediária e abriu na diagonal, Nunes fez o corta-luz e então abriu-se um clarão pelo lado esquerdo da defesa palmeirense. Nele apareceu Toninho, chegando como uma locomotiva e enchendo o pé para fuzilar Gilmar. A vingança já estava completa. Mas cabia mais.

Depois disso, o Fla relaxou e o Palmeiras foi para cima tentando diminuir a goleada. Antes que pudesse fazê-lo, porém, Tita combinou bem com Carpegiani pelo lado direito do ataque e chutou de virada para marcar o quinto gol. Na comemoração, era hora de extravasar: o camisa 7 correu o campo todo e se dirigiu ao setor das arquibancadas onde estavam os cerca de três mil palmeirenses. Com um “tchauzinho” maroto, acenava despedindo-se deles.

O Palmeiras ensaiou uma breve reação. Primeiro quando Marinho calçou César na área e o árbitro marcou pênalti, convertido por Baroninho com um chute forte. E em seguida quando um centro de Lúcio da direita encontrou Mococa nas costas da zaga rubro-negra para finalizar marcando o segundo. Mas não terminaria assim: o Flamengo não daria ao adversário o direito de colocar o ponto final no placar da partida em plena revanche.

E veio então o cruzamento de Reinaldo também da direita, procurando Nunes na segunda trave. O zagueiro Beto Fuscão não alcançou, e o camisa 9 rubro-negro, na pequena área, teve todo o tempo de ajeitar, deixar cair e bater seco, por entre as pernas de Gilmar. Só mesmo um gol assim poderia concluir a deliciosa vingança do Flamengo, um time que ali provava sua verdadeira força. E que permitia ao seu treinador calar a boca da imprensa paulista.

Depois da grande forra, o Flamengo tratou de garantir a classificação antecipada para a próxima etapa, já que faria no Maracanã seus dois jogos seguintes, contra Bangu e Santa Cruz – e venceria ambos por 2 a 1. Contra o primeiro, o personagem do jogo foi o árbitro Wilson Carlos dos Santos, que apitou um pênalti inexistente para cada lado: Zico e o lateral Ademir converteram. O outro gol foi de Nunes, escorando cruzamento de Júlio César.

Já contra o Santa Cruz, em 21 de abril, Andrade comemorou seu aniversário de 23 anos anotando um lindo gol para abrir o placar, num chute da intermediária que entrou no ângulo. No segundo, na etapa final, Júlio César conseguiu impedir a bola de sair pela linha de fundo e cruzou. O goleiro Carlinhos se atrapalhou e jogou para dentro. No fim, os visitantes diminuíram com Tadeu Macrini, num lance em que a defesa rubro-negra parou.

A confirmação da classificação permitiu a Coutinho poupar Zico, então à beira de um desgaste físico mais sério. O camisa 10 ficaria de fora dos dois últimos jogos daquela etapa, com Tita ocupando sua posição. No domingo, dia 27, o time faria a partida de volta contra o Palmeiras no Morumbi, agora naturalmente com os paulistas ávidos por vingança depois da verdadeira surra sofrida no Maracanã. Mas ficariam apenas na vontade.

Depois de aguentar a pressão do time da casa por cerca de meia hora no primeiro tempo, o Fla saiu na frente com um golaço: Júlio César armou um salseiro na defesa palmeirense e passou de calcanhar para Júnior, que disparava em direção à linha de fundo. O centro do lateral encontrou Tita chegando como um raio na pequena área adversária. E numa cabeçada fulminante, o camisa 10 daquela tarde venceu o goleiro Gilmar e abriu a contagem.

O Palmeiras empatou três minutos depois com Jorginho, recebendo lançamento no meio da defesa. E virou logo no começo do segundo tempo com o futuro rubro-negro Baroninho, soltando uma bomba quase sem ângulo após rebote da defesa. Mas o Fla frustraria a torcida palmeirense a nove minutos do fim: Nunes carregou a defesa, Reinaldo cruzou da direita, Rondinelli escorou de cabeça e Carlos Henrique chutou de virada para empatar.

O ponto conquistado no Morumbi garantiu também a primeira colocação no grupo ainda com uma rodada pela frente. Mas antes de encerrar sua participação naquela etapa, o Fla foi a Belo Horizonte na quarta-feira, 1º de maio, enfrentar e vencer o Atlético no Mineirão por 1 a 0, gol de Tita, num confronto de times mistos, em amistoso comemorativo ao Dia do Trabalhador. Na volta, enfrentaria o Bangu no Maracanã, no dia 4, poupando vários titulares.

Coutinho deu descanso a Andrade, Carpegiani, Zico e Júlio César – os dois últimos se recuperando de problemas físicos – e ainda substituiu Rondinelli no intervalo. Mesmo assim, Tita garantiu a tarde, marcando os três gols (todos no segundo tempo) na vitória de 3 a 0. Primeiro, apanhando o rebote de um chute de Nunes. Depois, com um toque só, após o goleiro Arerê não segurar o cruzamento de Toninho. E por fim, numa cobrança de falta a la Zico.

A TERCEIRA FASE

Os 16 clubes classificados para a terceira fase seriam novamente divididos em grupos de quatro equipes, mas desta vez se enfrentando em turno único. Era tiro curto: apenas três partidas para cada clube. Ao Flamengo coube reencontrar dois adversários da primeira fase, Santos e Ponte Preta, além da Desportiva, principal surpresa entre os que avançaram, e que fazia a melhor campanha de um clube capixaba na elite nacional em todos os tempos.

Na primeira rodada, em 10 de maio, o Fla recebeu a Desportiva no Maracanã e venceu por 3 a 0 numa tarde em que Zico e Nunes inverteram os papeis. Foram três assistências do centroavante para três gols do camisa 10. Primeiro, num cruzamento da esquerda para a cabeçada do Galinho. Depois, Nunes driblou o goleiro e centrou para Zico dominar no peito e chutar. E o terceiro, no último minuto do jogo, Nunes cruzou e Zico cabeceou meio sem querer.

O Santos bateu a Ponte Preta pelo mesmo placar no outro jogo do grupo, o que deixou o time campineiro dependendo de uma vitória sobre o Flamengo em seu estádio Moisés Lucarelli, na noite de quarta-feira, 14 de maio, para seguir com chances. O Fla, por sua vez, queria pelo menos um empate para enfrentar o Peixe na rodada decisiva ainda em boas condições. E conseguiria o ponto precioso, mas não sem enfrentar um adversário duríssimo.

Empurrada pela torcida, a Ponte foi para cima e abriu a contagem aos 19 minutos da etapa final. Após confusão na área, o volante Humberto apanhou o rebote e chutou forte da marca do pênalti para abrir o placar. Mas o Fla não se deu por vencido e empatou aos 34: Zico arriscou de fora da área, Carlos não segurou e Nunes, oportunista, empurrou para as redes. No fim do jogo, Zico ainda foi atingido na barriga por uma pedra atirada por torcedores.

O empate tirou definitivamente a equipe campineira da briga. Mas, para o Fla, melhor ainda foi o resultado do dia seguinte, quando a Desportiva segurou o 0 a 0 com o Santos dentro de uma Vila Belmiro lotada, permitindo que os rubro-negros jogassem por uma nova igualdade diante do time paulista no domingo, 18 de maio, no Maracanã, por terem mais gols marcados, um dos critérios de desempate. Mas o Flamengo não se conformaria com a vantagem.

Curiosamente, o cenário lembrava muito o da fatídica partida contra o Palmeiras no ano anterior: o Flamengo a um jogo das semifinais do Brasileiro enfrentando um grande clube paulista que contava com uma equipe jovem, talentosa e de vocação ofensiva, diante de um público superior a 100 mil pessoas – desta vez, exatos 110.079 pagantes, que estabeleceram o recorde nacional de renda. Agora, porém, o desfecho seria completamente diferente.

Zico cabeceia para vencer Marolla e abrir o placar contra o Santos.

O jogo contra o Santos fechou com chave de ouro a campanha rubro-negra naquela terceira fase. Os paulistas bem que tentaram assustar nos minutos iniciais, mas o Flamengo logo tomou conta das ações. Fechando os espaços, tinha sob controle os dois meias de criação do adversário (Pita e Rubens Feijão), impedindo que a bola chegasse aos perigosos ponteiros Nílton Batata e João Paulo. E confundia a defesa santista com sua movimentação incessante.

Mesmo em meio à excelente atuação coletiva, foram muitos os destaques individuais. Toninho, um colosso na defesa e no apoio. Júlio César, com seus dribles, um tormento constante para o lado direito da retaguarda santista. Júnior, além de tomar conta de Nílton Batata, juntava-se aos meias como mais um armador. Andrade, protegendo e apoiando com muita classe. E Zico, é claro, o grande construtor da vitória e da classificação.

O placar foi aberto logo aos 13 minutos, depois que o Fla já havia construído uma sucessão de jogadas ofensivas. Carpegiani, outro que esteve soberbo nos 45 minutos em que atuou, recebeu a bola no meio-campo e, de primeira, lançou Nunes, que caía pela ponta-esquerda exatamente como fizera contra a Desportiva. Zico, pelo meio, correu para acompanhar. O cruzamento veio na medida: o camisa 10 cabeceou para baixo, vencendo o goleiro Marolla.

O arqueiro santista, aliás, revelaria-se a melhor figura de seu time. Depois de já ter espalmado um chute perigoso de Júnior, reapareceu de maneira brilhante aos 19 minutos, defendendo uma cabeçada de Nunes que tinha endereço certo. Pouco depois, Marolla também pegaria outra boa cabeçada, agora de Zico, e assistiria a outros chutes de Andrade e Tita passarem perto de suas traves. Tudo isso ainda no primeiro tempo.

Na volta para a etapa final, Carpegiani deixou o jogo por um desconforto físico e Adílio entrou em seu lugar. O substituto iniciaria a jogada do segundo gol, aos 13 minutos, puxando um contra-ataque e entregando a bola a Zico na intermediária. O Galinho arrancou fazendo fila na defesa santista até ser deslocado pelo zagueiro Neto na área. Pênalti que o próprio Zico bateu no canto, sem chances para Marolla, selando a classificação rubro-negra.

“Nossos jogadores esqueceram a vantagem do empate e chegaram a uma grande vitória. Na minha opinião, foi um show de autoridade técnica em todos os momentos”, declarava satisfeito Cláudio Coutinho nos vestiários. Uma afirmação que encontrava eco até no resignado treinador santista Pepe: “Atuamos contra o melhor time do Brasil no momento. E se o Flamengo continuar jogando dessa maneira, chegará facilmente ao título”.

Sobre Zico, que já chegava a 18 gols no Brasileiro e negociava uma renovação de contrato que elevaria seu salário a um milhão de cruzeiros, o maior do futebol brasileiro na época, Pepe também não economizou elogios: “Naquele lance em que ele pegou a bola no meio de campo e levou até a nossa área, cavando o pênalti e cobrando, ficou comprovado que Zico vale muito mesmo. Tudo que ele pedir tem que se dar, pois está muito bem”.

Assim, o Flamengo confirmou os prognósticos para o Grupo O e ficou em primeiro. Nas chaves M e N, também os clubes apontados como favoritos – Atlético-MG e Internacional – avançaram. Apenas o Grupo P surpreendeu, com a classificação do Coritiba à frente do favorito Corinthians e também de Grêmio e Botafogo. Os paranaenses seriam os próximos adversários do Fla. Mas esse confronto e também a decisão do título serão contados no próximo capítulo.

Até lá! SRN!

Os 40 anos do título brasileiro de 1980, parte 1: Tempo de mudanças

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Carpegiani e Zico na estreia vitoriosa diante do Santos no Morumbi.

Primeiro grande título nacional do Flamengo, o Campeonato Brasileiro de 1980 – conquistado em final épica diante do Atlético-MG no Maracanã e que serviu de pontapé inicial para as conquistas da América e do mundo no ano seguinte – completa 40 anos em 2020 e terá sua história contada aqui detalhadamente e em três partes, nesta e nas próximas duas segundas-feiras, dias 25 de maio e 1º de junho – esta, coincidindo com a data da conquista.

Neste primeiro capítulo, traçaremos um panorama histórico do Flamengo nos torneios nacionais anteriores a 1980, contextualizando com o momento vivido pelo clube em cada época e expondo motivos pelos quais ele ainda não havia sentido o gostinho de uma conquista nacional. E também rememoraremos as mudanças vividas pelo Fla e pelo próprio futebol brasileiro naquela virada dos anos 1970 para os 1980, além da campanha na primeira fase.

O FLAMENGO E OS TORNEIOS NACIONAIS

Os anos 1960 não foram um período particularmente feliz para o Flamengo. À medida em que os esquadrões memoráveis como os dos dois primeiros tricampeonatos cariocas faziam cada vez mais parte do passado, o clube mergulhava em dificuldades financeiras e, salvo alguns poucos jogadores que marcariam época mesmo naquele período de vacas magras, era forçado a levar a campo times muito mais aguerridos e aplicados do que técnicos.

Foi nessa mesma época que o futebol brasileiro viu nascer os primeiros torneios nacionais, como a Taça Brasil (disputada entre 1959 e 1968), competição entre campeões estaduais, e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, criado em 1967 como uma ampliação do antigo Torneio Rio-São Paulo (o qual o Flamengo havia conquistado em 1961) e realizado até 1970. Diante disso, pelos motivos já citados, o clube teve poucos momentos de brilho nos dois campeonatos.

Do primeiro só participou uma vez, em 1964, na condição de campeão carioca do ano anterior. Entrou já nas semifinais, em que venceu os dois jogos contra o Ceará, antes de ser superado pelo hegemônico Santos de Pelé com uma derrota por 4 a 1 em noite chuvosa no Pacaembu e um empate sem gols no Maracanã, diante de 52 mil torcedores, pouco mais de um terço do público do Fla-Flu do returno do Carioca daquele ano jogado dois meses antes.

Teria disputado outra vez a Taça Brasil em 1966, pelo mesmo critério da participação anterior. Mas no começo daquele ano de 1965, a Federação Carioca de Futebol decidiu passar a apontar como seu representante na competição o vencedor da Taça Guanabara, um torneio à parte do campeonato principal a ser instituído naquela temporada, em meio às comemorações do quarto centenário de fundação da cidade do Rio de Janeiro.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, por sua vez, pegou o Flamengo vivenciando o pior momento daquele período já ruim, bem no meio do jejum de sete anos sem títulos cariocas – o segundo maior da história do clube – entre 1965 e 1972. Com três campanhas fracas nas primeiras edições, a exceção seria 1970, quando o time surpreendeu ao brigar até o fim pela vaga no quadrangular final, perdida no saldo de gols. Acabaria em quinto lugar.

A partir de 1971, ao longo daquela década, o clube começaria a oscilar boas e más campanhas, algumas vezes batendo na trave para figurar entre os finalistas. Em 1974, por exemplo, havia feito a segunda melhor campanha geral na primeira fase entre os 40 participantes, ficando só atrás do Grêmio. Mas na etapa seguinte, com o time mutilado por lesões, entre elas a da revelação Zico, ficaria de novo pelo caminho antes de chegar ao quadrangular decisivo.

Em 1975, a campanha foi mais irregular nas primeiras etapas, mas o time parecia ter crescido na hora certa, às vésperas das semifinais. Vinha de um excelente empate diante do futuro campeão Internacional dentro do Beira-Rio quando pegaria, na última rodada, um surpreendente Santa Cruz, também brigando pela vaga. No Maracanã, o Flamengo jogava pelo empate, mas o Tricolor de Luís Fumanchu, Givanildo e Ramon se superou e venceu por 3 a 1.

No ano seguinte, outra vez a excelente campanha acabou se perdendo em meio ao regulamento da competição e a derrotas fora de hora. O time foi o segundo que mais somou pontos ao longo do certame, atrás apenas de um irretocável Internacional (que levantaria o bicampeonato) e à frente dos outros três semifinalistas (Corinthians, Fluminense e Atlético-MG). Mas acabou mais uma vez em quinto, eliminado na terceira etapa pelo saldo de gols.

Zico marca contra o Grêmio pelo Brasileiro de 1976: mesmo com a goleada de 5 a 1 sobre os gaúchos, o Flamengo ficou de fora das semifinais.

Entretanto, aquelas eliminações não chegaram exatamente a tirar o sono dos rubro-negros. Na época, entre os torcedores do Rio de Janeiro, o Campeonato Carioca ainda era aquele visto com mais carinho, não só entre os flamenguistas – e mesmo tendo em vista as conquistas nacionais de Botafogo (Taça Brasil de 1968), Fluminense (Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970) e Vasco (Brasileirão de 1974). Alguns números demonstravam isso.

Tanto em 1974 quanto em 1976, mesmo com as boas campanhas do Flamengo, o Campeonato Brasileiro registrou médias de público inferiores às do certame carioca. No primeiro ano, foram 11.601 torcedores em média os que assistiram aos jogos do torneio nacional, enquanto 15.012 viram, também em média, as partidas do estadual. Já em 1976, mesmo com a presença de público subindo para a média de 17.010 no Brasileiro, a do Carioca saltou até 19.070.

Mesmo os clássicos disputados pelo Brasileirão na maioria das vezes não alcançavam os mesmos fantásticos números registrados pelas bilheterias do Maracanã no Carioca. Naquele mesmo ano de 1976 em que Flamengo e Vasco estabeleceram o público recorde da história do clássico num jogo rotineiro de Taça Guanabara (mais de 174 mil pagantes), os dois levaram pouco mais de 52 mil num jogo pela reta final do Brasileiro, com ambos podendo ir às semifinais.

Por vezes, o que prejudicava a campanha do Flamengo e diminuía o interesse do torcedor pela competição nacional era o desequilíbrio das tabelas. Não foram poucas as vezes em que, desde os tempos do Robertão, o clube teve de fazer um número absurdamente maior de partidas como visitante, atuando em bem menos ocasiões no Rio (leia-se Maracanã). Era como se, para o clube, o campeonato nacional fosse uma espécie de excursão valendo pontos.

Na fase de classificação do Brasileirão de 1972, o Flamengo fez 21 partidas contra equipes de outros estados. Destas, em apenas cinco foi o mandante. No ano seguinte, a distorção voltou a acontecer: dos 17 jogos contra clubes de fora do Rio na primeira fase da competição, o time fez apenas quatro no Maracanã. Pulava de Goiânia para Recife, de Aracaju para Belo Horizonte, de Vitória para Belém. Tudo em intervalos muito curtos.

Tendo de cumprir essa estafante rotina de viagens, estabelecida pela antiga CBD no intuito de aumentar a arrecadação do torneio – ou seja, fazer cortesia com o chapéu rubro-negro, o que só reforçava a imagem do Fla (e sua torcida nacional) como trem pagador do futebol brasileiro –, o time não poderia mesmo chegar muito longe. Era natural que, sem o devido preparo para a maratona, perdesse peças (e pontos) importantes pelo caminho.

Além de tudo, o Campeonato Carioca (e os estaduais em geral) ocupava a maior parte, cerca de dois terços (às vezes mais), do calendário do futebol. Eram as suas disputas que priorizavam a atenção dos torcedores do Rio. E foi pela perda da chance de decidir um título carioca – o de 1977, contra o Vasco – que o Flamengo enfim decidiu mudar tudo, no episódio que entrou para a história rubro-negra como o Pacto do Barril.

ACORDANDO PARA O BRASILEIRO

O grande incômodo, a sensação de que realmente pegava mal um clube do tamanho, do peso e da representatividade do Flamengo não ter um título nacional, só começou a bater pelos lados da Gávea no fim dos anos 1970. E, por mais contraditório que possa parecer, reconquista da hegemonia estadual, com o tricampeonato levantado em 1979, acabou servindo também para abrir a cabeça do clube no âmbito nacional.

Foi como subir um degrau de cada vez. Se o gol histórico de Rondinelli de cabeça contra o Vasco em 1978 encerrava traumas regionais recentes e, sobretudo, simbolizava enfim a afirmação da talentosa geração liderada por Zico, e se os outros dois campeonatos estaduais vencidos na longuíssima e confusa temporada de 1979 colocavam o clube como o dono do pedaço no Rio, a ordem agora era enfim ser campeão do Brasil.

Haveria, porém, um obstáculo. No mastodôntico Brasileirão de 1979, que contou com 94 clubes, o Flamengo (assim como algumas outras equipes do Rio e de São Paulo) entrou na segunda fase, ficando em primeiro no seu grupo que incluía Grêmio, Bahia, Santa Cruz, Náutico, Londrina, XV de Piracicaba e Gama. Na etapa seguinte, teria pela frente o Palmeiras (que só estreara naquela fase), o São Bento de Sorocaba e o Comercial de Ribeirão Preto.

Nas duas primeiras rodadas, deu a lógica: os dois favoritos do grupo venceram os adversários interioranos. Mas só o Flamengo atuou fora de casa, enfrentando clima de guerra em Ribeirão Preto para vencer o Comercial por 2 a 0. Para o confronto decisivo da última rodada, o Palmeiras dirigido por Telê Santana tinha a vantagem do empate pelo saldo de gols. No Flamengo, haveria o desfalque de Rondinelli, mas todos confiavam na classificação.

Significativamente, era a primeira vez que o Fla levava mais de 100 mil pessoas ao Maracanã em um jogo de Campeonato Brasileiro contra uma equipe de fora do Rio. Só que o Palmeiras abriu o placar aos 11 minutos, com Jorge Mendonça livre na pequena área para escorar um cruzamento de César. O Flamengo foi para o intervalo perdendo, mas conseguiu um pênalti no início da etapa final e Zico bateu com categoria para empatar. Era a senha para a virada.

Só que ela não aconteceu. O time se mandou todo para o ataque, já que só a vitória o levaria às semifinais, e deixou enormes espaços às costas da defesa aproveitados pelo time do Palmeiras. Baroninho bateu falta e Carlos Alberto Seixas cabeceou para colocar os paulistas outra vez na frente. Pedrinho marcou o terceiro em nova jogada de Baroninho. E, no último minuto, em outra jogada de Baroninho, o volante Zé Mário fechou a goleada.

A derrota em casa se tornou ainda mais vexatória graças ao papelão protagonizado por Beijoca, centroavante contratado do Bahia para o Brasileiro e que entrara naquele jogo no lugar de Adílio, mas só seria notado ao agredir o volante Mococa e o ponta Baroninho, sendo merecidamente expulso de campo. O esquentado atacante baiano vestiria ali a camisa rubro-negra pela última vez, prenunciando outras mudanças no elenco para 1980.

NOVOS VENTOS

Naquela virada de ano, aliás, muitas coisas mudariam no futebol brasileiro. Até a própria entidade que tinha o papel de organizá-lo. Em 23 de novembro de 1979 foi criada a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sucessora da CBD, extinta em setembro. Imediatamente após seu surgimento, a CBF teve seu primeiro presidente eleito, o industrial carioca Giulite Coutinho, ex-presidente do America, e que prometia reformular o torneio nacional.

A primeira medida empreendida seria a transferência do torneio para o primeiro semestre do ano, começando no fim de fevereiro e se estendendo até o início de junho. Outra novidade, mais importante, foi a cisão da competição em Taça de Ouro e Taça de Prata, equivalentes ao que se chamaria de primeira e segunda divisão, respectivamente. E o número de participantes passou a ser mais controlado, quase fixo, bem diferente dos anos anteriores.

Depois da competição inchada em 1979 (e que, além disso, também não contou com muitos dos clubes paulistas, que abriram mão de disputa-la), agora apenas 40 – nomeadas obedecendo a critérios técnicos, limando a politicagem que marcou os torneios dos anos 1970 – iniciariam a disputa da Taça de Ouro, com quatro equipes vindas da Taça de Prata (que teria 64 participantes) subindo para disputar o torneio de elite a partir da segunda fase.

Nos exatos 76 dias compreendidos entre 9 de dezembro de 1979, quando da eliminação diante do Palmeiras, e 24 de fevereiro de 1980, data de sua estreia no Campeonato Brasileiro seguinte, o Flamengo também sofreu pequenas revoluções. Não foram muitas as peças que deixaram o elenco: além do já citado Beijoca, que retornou ao Bahia, o zagueiro Boca, que fez alguns jogos pelo Brasileiro, foi devolvido à Francana-SP, seu clube de origem.

Para reforçar a zaga, ponto mais criticado na derrota para o Palmeiras, o Flamengo contratou do Londrina um jogador que havia impressionado ao atuar contra o time no jogo pelo Brasileiro disputado no Estádio do Café. Marinho, perto de completar 25 anos, com passagem rápida pelo São Paulo em 1977, boa estatura e impulsão, destacava-se também pela velocidade na cobertura e recuperação. Chegava para ser o titular do setor, ao lado de Rondinelli.

Outro que chegava era o lateral-direito Carlos Alberto, do Joinville, marcador seguro e apoiador eficiente. Vinha para suprir uma possível lacuna no setor depois de o Internacional quase tirar Toninho Baiano e, mais tarde, o jovem Leandro da Gávea. Outras apostas de custo reduzido eram o meia Aderson, do Remo, e o centroavante Gérson Lopes, do Operário-MT, 20 anos, franzino, mas promissor. E que seria o pivô de um conflito que agitaria a Gávea.

Num amistoso em Cuiabá, o Fla venceu o Mixto por 7 a 1, e o garoto jogou de início, marcando três gols. Cláudio Adão, o titular, ficou no banco e entrou no fim do jogo. Como também ficaria no amistoso seguinte, contra o Atlético-MG no Mineirão, antes de um problema muscular cortá-lo da delegação. Insatisfeito por pensar que de novo seria preterido no time, como chegara a ser em 1979 por Luizinho das Arábias, Adão botou a boca no mundo.

O centroavante exigia um lugar no time, sob a alegação de que era o segundo artilheiro da equipe (atrás apenas, naturalmente, de Zico). Ou então que o vendessem. No fim das contas, sua atitude se revelaria um exagero. Primeiro porque Gérson Lopes, ainda muito imaturo, acabaria sequer participando da campanha no Brasileiro (assim como Aderson). Sua carreira com a camisa rubro-negra se resumiria a aqueles amistosos de pré-temporada de 1980.

Segundo porque Cláudio Coutinho havia sido justamente o técnico que pedira sua contratação ao Flamengo em 1977, quando quase ninguém acreditava que Adão voltaria a jogar futebol após uma gravíssima fratura na perna, sofrida ainda quando defendia o Santos e que o afastara dos gramados por mais de um ano. A pouco mais de uma semana da estreia no Brasileiro, o treinador tinha agora um novo problema, o da camisa 9, para solucionar.

O próprio Coutinho, aliás, não deixava de representar uma novidade. No início de fevereiro, ele deixara o comando da Seleção, trocado por Telê Santana, precisamente o técnico do Palmeiras que eliminara o Flamengo no Brasileiro. O que significava estar livre para enfim se dedicar em tempo integral ao clube e, sobretudo, não ter mais de conviver com as críticas – vindas em especial da imprensa paulista – à sua maneira de comandar o escrete.

Tita (o camisa 9 do “losango móvel”) e Júnior combatem contra o Santos.

Para suprir a ausência de Adão – que, após ser afastado, acabaria negociado com o Botafogo já com o Brasileiro em andamento – o treinador teve de improvisar um novo sistema, com Tita a princípio escalado no centro do ataque, mas formando o vértice mais avançado de um certo “losango móvel” também composto por Andrade, Carpegiani e Zico, que girava o tempo todo, tendo ainda Adílio aberto pelo lado esquerdo como falso ponta.

Enquanto isso, lá atrás sob as traves, Raul – que esteve quase certo de ser vendido ao Grêmio – ganhava uma nova chance entre os titulares depois de ter atuado em apenas sete das 82 partidas disputadas pela equipe ao longo de 1979. Uma lesão de Cantarele fez com que o veterano goleiro fosse novamente escalado nos amistosos, saindo-se muito bem, em especial num empate em 0 a 0 diante do São Paulo no Morumbi, no qual fechou o gol.

A TAÇA DE OURO

Além de Raul vestindo a camisa 1, o Flamengo iniciaria sua campanha nacional com Carlos Alberto na lateral-direita (Toninho retornaria na quarta rodada), Rondinelli e Marinho no miolo de zaga e Júnior na lateral-esquerda. No meio, Andrade, Carpegiani e Zico, tendo Reinaldo (ex-America) pela ponta-direita e Adílio (depois Carlos Henrique, ponteiro veloz trazido da Desportiva em 1979) na esquerda. Por fim, Tita de centroavante, dentro do “losango móvel”.

A etapa inicial da Taça de Ouro trazia os 40 participantes divididos em quatro grupos de dez, enfrentando-se dentro das chaves em turno único. O Flamengo ficou no Grupo C e teria pela frente logo de cara nada menos que o Internacional de Falcão, Batista, Mário Sérgio e um novato chamado Mauro Galvão. Era o atual detentor do título nacional, conquistado de maneira invicta derrotando duas vezes o Vasco na decisão em dezembro de 1979.

O outro grande do grupo era o Santos, que mantinha a base dos “Meninos da Vila” originais, com o goleiro Marola (da Seleção Brasileira de Novos), um meio-campo talentoso com Gilberto Costa, Rubens Feijão e Pita, além dos velozes ponteiros Nílton Batata e João Paulo. A quarta força era a perigosa Ponte Preta, vinda de seu segundo vice-campeonato paulista em três anos e recheada de nomes de alto nível, como o goleiro Carlos, da Seleção principal.

Completavam o grupo a boa equipe do Náutico, o truculento São Paulo de Rio Grande (RS), o Botafogo da Paraíba (indicado como vencedor do estadual de 1978, uma vez que o de 1979 ainda não tinha se encerrado – e só terminaria em junho de 1980, após o Brasileiro) mais outros três campeões estaduais: o Ferroviário do Ceará, o Itabaiana (que conquistara o bi sergipano mais tarde estendido ao penta) e o Mixto (iniciando um tetra mato-grossense).

Logo de saída, o Flamengo teria de enfrentar os dois principais adversários, a começar pelo Santos no Morumbi. Na época, Zico era com frequência menosprezado pela imprensa paulista, tratado como “jogador de Maracanã”, incapaz de decidir jogos atuando longe do Rio, e hostilizado pelo público quando vinha jogar em São Paulo, até mesmo pela Seleção. Mas o camisa 10 rubro-negro trataria de silenciar os críticos e a torcida adversária.

Naquela tarde de 24 de fevereiro, mesmo enfrentando dura marcação do lateral santista Nelson (o futuro técnico Nelsinho Baptista, que passaria sem brilho pelo Fla em 2003), ele anotaria o gol da vitória aos 25 minutos da etapa inicial, após grande jogada do ponteiro-direito Reinaldo, que ganhou disputa de bola com João Paulo na lateral, avançou em velocidade, driblou o zagueiro Neto e fez o ótimo passe para Zico tirar do alcance de Marola.

O Galinho voltaria a decidir o confronto seguinte, diante de um Internacional que surpreendeu negativamente por exibir um antijogo pouco afeito à grande qualidade de talento que reunia. Aos 11 minutos da etapa final, Andrade recebeu de Reinaldo e fez assistência maravilhosa para Zico, a bola passando quase como pelo buraco de uma agulha. E o camisa 10 da Gávea chutou alto, vencendo o goleiro Gasperin e selando a segunda vitória rubro-negra.

Após derrubar os principais adversários, parecia que o Flamengo caminharia tranquilo rumo a uma campanha perfeita que lhe daria o primeiro lugar da chave, certo? Errado. Aquele era um grupo traiçoeiro, e o próprio Inter já havia sido vítima de uma zebraça logo na estreia, batido pelo Itabaiana em pleno Beira Rio por 2 a 1. O time sergipano perderia logo em seguida para o Botafogo-PB, que também venceria o Náutico em Recife.

O Belo seria o próximo adversário do Fla no Maracanã e assumiria o status de grande “fantasma” do grupo: saiu na frente com gol de Soares no começo do segundo tempo, sofreu o empate dos rubro-negros – em atuação confusa e desastrosa – com gol de Tita, mas logo voltaria a balançar as redes com Zé Eduardo. Uma cabeçada de Rondinelli ainda acertou a trave, mas os visitantes foram sempre melhores e mereceram a vitória por 2 a 1.

O resultado derrubou milhares de apostadores da Loteria Esportiva e levou os rubro-negros a repensarem seu esquema ofensivo, considerado pouco efetivo. Tita não rendia como “falso 9”. Com Cláudio Adão descartado, era preciso trazer outro centroavante de ofício, um goleador nato. O clube já tinha um nome bombástico em mente: Roberto Dinamite, que em janeiro trocara o Vasco pelo Barcelona, mas não vinha agradando na Catalunha.

Percebendo a oportunidade, mesmo com o caixa baixo, o presidente rubro-negro Márcio Braga embarcou para a Espanha para tentar negociar – até porque os catalães também não estavam nadando em dinheiro, ainda deviam parte do pagamento ao Vasco e, diante disso, não fariam jogo duro para liberar o atacante, que aceitou vir para a Gávea. Quando a notícia chegou ao Rio, a perspectiva da dupla Zico-Dinamite no Flamengo acendeu a torcida.

Enquanto isso, o time se reabilitava no campeonato. Venceu o Mixto em Cuiabá (2 a 0, gols de Carlos Henrique e Zico) e o Ferroviário no Maracanã (2 a 1, dois de Zico). Em Recife, diante do Náutico, dominou a etapa inicial e marcou com Toninho. Zico saiu no intervalo, Tita ampliou a contagem no segundo tempo, mas os pernambucanos cresceram no jogo e empataram a quatro minutos do fim. Só mesmo a atuação magistral de Raul impediu a virada.

No dia 20 de março, o time recebeu o Itabaiana e não teve problemas para disparar uma goleada de 5 a 0. Só no primeiro tempo, Zico já havia marcado três. Tita ampliou com um chute da entrada da área no começo da etapa final. E o Galinho ainda teve tempo de anotar seu quarto, que o levava à artilharia temporária da competição, com nove gols em sete jogos. E o Flamengo, já classificado para a segunda fase, alcançava a liderança da chave.

A partida seguinte, o empate sem gols contra o São Paulo de Rio Grande no Estádio Aldo Dapuzzo, foi uma verdadeira caçada dos defensores da equipe local aos jogadores rubro-negros, em especial a Zico, que apanhou demais, a ponto de declarar ao fim do jogo: “Vai chegar o dia em que eu não vou aguentar mais. Aí terei que quebrar a perna de alguém para acabar com essa violência. É assim, tem gente que só entende a lei da selva”.

O time gaúcho até demonstrou ímpeto ofensivo no início da partida, mas aos poucos a defesa rubro-negra, muito segura, foi se assenhorando do jogo. Raul, sempre muito calmo. Júnior, ótimo na defesa e no apoio. Andrade, perfeito na proteção à zaga. Zico, uma preocupação constante para os adversários. E Tita, movimentando-se muito e criando ótimas opções de jogada. O gol da vitória não saiu, mas a atuação do Flamengo foi consistente.

UM NOVO GOLEADOR

O que acabou não dando certo foi a negociação para trazer Roberto Dinamite. Desesperados com a possibilidade de ver seu maior ídolo de então seguir para o arquirrival, os dirigentes vascaínos trataram de atravessar a negociação: com o pretexto da dívida que o Barcelona ainda tinha com o clube, acertaram a devolução de Roberto e a rescisão do contrato, com os catalães indenizando o Vasco pelo valor desembolsado até ali.

O Flamengo, porém, não deixou de se reforçar. Se o atacante contratado pode ser chamado de “plano B”, então foi um dos melhores do tipo que se tem notícia. Surgido na base rubro-negra como Joãozinho, ponta-direita, mudou de nome e posição ao ser levado ao Confiança. De lá, foi para o Santa Cruz, onde explodiu e chegou à Seleção com o próprio Coutinho. Vendido caro ao Fluminense, seguiu então para o México antes de voltar à Gávea. Era Nunes.

“Vim para ficar. Comecei aqui, e minha meta sempre foi voltar para o Flamengo. Se tiver que retornar ao México, abandono o futebol. Mas tenho certeza de que isso não acontecerá. Confio no meu futebol”, declarou o atacante na véspera da estreia, contra a Ponte Preta no Maracanã, pela última rodada da primeira fase. Trazido do Monterrey por empréstimo, Nunes desejava retribuir as expectativas da torcida com muitos gols. E não decepcionaria.

Mesmo já classificados, Flamengo e Ponte Preta fizeram bom jogo naquela noite de 30 de março, com quatro gols e algumas belas jogadas, como a finalização de Zico na trave, num rebote de Carlos, e as boas intervenções dos dois goleiros. O Fla saiu na frente aos 18 minutos, quando Zico lançou Tita, que desceu pela direita na diagonal e fez um passe espetacular para Nunes, nas costas da defesa. O novo dono da 9 chutou forte e correu para o abraço.

A Ponte empatou pouco depois em cabeçada de Serginho. Mas no segundo tempo, sob chuva, Nunes voltaria a se destacar: em ótima jogada individual, passou por vários defensores antes de entregar na medida para o chute de Zico. Carlos nem se mexeu: Fla 2 a 1. O zagueiro Juninho ainda salvaria cabeçada do Galinho em cima da linha e, aos 38, Odirlei tornaria a empatar. Porém, diante de mais de 75 mil torcedores, a estreia de Nunes foi animadora.

O empate fez com que o Flamengo terminasse na segunda colocação do grupo, atrás do Santos. Mas a campanha, a quarta melhor entre todos os 40 clubes da primeira fase, era consistente: cinco vitórias, três empates e apenas uma derrota, 16 gols marcados e sete sofridos. Também se classificaram naquela chave, pela ordem, o surpreendente Botafogo-PB (em terceiro lugar), Internacional, Ponte Preta, Ferroviário do Ceará e Náutico.

E o time se ajeitava: Raul seguia em grande forma no gol; a nova zaga se entrosava; Júnior fazia partidas cada vez mais exuberantes; Zico já despontava como o artilheiro, com 10 gols, ao lado do gremista Baltazar; Tita era deslocado para a direita do ataque, deixando o ponta autêntico Reinaldo no banco; Nunes estreara de maneira empolgante; e Júlio César, o “Uri Geller”, recuperava seu melhor futebol entrando no time no lugar de Carlos Henrique.

Na segunda fase, os 28 clubes classificados da etapa anterior da Taça de Ouro se juntavam aos quatro promovidos da Taça de Prata (América de São José do Rio Preto-SP, Americano, Bangu e Sport) e eram novamente distribuídos em grupos, agora em oito chaves com quatro equipes cada enfrentando-se em turno e returno. Ao fim das seis rodadas, os dois melhores colocados de cada uma delas avançariam para a terceira fase de grupos.

A chave do Flamengo na segunda etapa teria, portanto, o já citado Bangu, vindo da Taça de Prata; o Santa Cruz, quinto colocado no Grupo D; e o Palmeiras, terceiro colocado no Grupo B, criando imediatamente a expectativa para o reencontro entre rubro-negros e alviverdes, apenas quatro meses após o triunfo dos paulistas no Maracanã no fim do ano anterior. Mas essa história será contada na segunda parte do especial, na próxima segunda-feira.

Até lá! SRN!

O adeus a Índio, o valente goleador do segundo tricampeonato carioca

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Décimo maior artilheiro da história do Flamengo, com 144 gols em 218 jogos, e um dos símbolos do time tricampeão carioca dirigido por Fleitas Solich nos anos 1950, o atacante Índio faleceu neste domingo, por ironia quando se comemorou o Dia do Índio, aos 89 anos. O centroavante ágil, valente e ótimo cabeceador também disputou a Copa de 1954 com o Brasil e teve papel importante para a classificação da Seleção nas Eliminatórias para o Mundial seguinte.

Paraibano de Cabedelo, Aluísio Francisco da Luz nasceu em 1º de março de 1931 e veio para o Rio de Janeiro com apenas cinco anos, pouco depois de perder o pai, para morar em Madureira com o irmão mais velho, oficial da Marinha. O interesse pelo futebol foi despertado por volta dos dez anos, nos bate-bolas da escola, e logo transportados para as peladas nos subúrbios da então capital do país. A carreira de jogador, porém, surgiu por iniciativa própria.

Depois de passar por clubes amadores das Zonas Norte e Oeste da cidade, um dia o garoto botou as chuteiras debaixo do braço e seguiu para uma peneira no Aliados, equipe de Bangu que revelava garotos para as categorias de base do clube de mesmo nome do bairro. Ganhou a chance de treinar por meia hora como ponta-esquerda e agradou. No dia seguinte já estava inscrito para disputar o campeonato de juvenis pelo Bangu, onde ficaria até o fim de 1948.

A chegada à Gávea

Enquanto atuava pelas equipes de base do Bangu, Índio mudou-se para a ilha do Governador, onde seguiu jogando peladas pelos fortes times amadores do bairro. Em uma dessas ocasiões, num domingo, o jogo seria assistido por Togo Renan Soares, o Kanela, maior treinador da história do basquete brasileiro e que também tinha tido passagem pelo comando do futebol do Flamengo. Na segunda-feira, Índio era levado para seu primeiro treino na Gávea.

O atacante disputaria as temporadas de 1949 e 1950 pelos juvenis rubro-negros, fazendo uma única partida pela equipe principal. Sua estreia viria em 20 de novembro de 1949, num amistoso contra o Tamoio, de São Gonçalo, no campo do adversário, que terminou empatado em 3 a 3. Índio deixou o dele. Naquele dia, porém, não teve a chance de atuar ao lado de seu grande ídolo, aquele a quem assistia com admiração nos treinos: Zizinho.

“A gente [os juvenis] não chegava perto dele, não. Ficava de longe só olhando. Eu ia para o campo nos treinamentos e ficava observando muito o Zizinho, não é? Como ele jogava… Passei até a imitar ele depois”, relembrou o atacante em depoimento de 2011 ao projeto “Futebol, Memória e Patrimônio”, parceria da Fundação Getúlio Vargas com o Museu do Futebol. Porém, logo o Velho Mestre deixaria a Gávea rumo ao Bangu, numa controvertida transferência.

O Flamengo vivia uma longa e tortuosa fase de transição naquele fim dos anos 1940. A temporada 1950, a da saída de Zizinho, foi traumática: o time terminou o Campeonato Carioca apenas em sétimo lugar, fazendo uma das piores campanhas de sua história. Mas no início do ano seguinte, novos e melhores ventos começaram a soprar pelos lados da Gávea com a eleição do médico Gilberto Cardoso à presidência e a volta do técnico Flávio Costa.

Flávio, que deixara o clube em 1946 para comandar o Vasco, teve como uma das primeiras medidas no retorno ao Flamengo promover Índio dos juvenis. Sua estreia para valer no time de cima viria no Torneio Rio-São Paulo, em 18 de março de 1951, entrando no lugar do atacante Durval durante a vitória rubro-negra sobre o São Paulo por 4 a 2. O primeiro gol sairia três jogos depois, numa goleada de 6 a 3 sobre o Internacional em amistoso no Maracanã.

Com o emérito rubro-negro Ary Barroso.

E a afirmação do jovem atacante viria na primeira excursão do Flamengo à Europa, em maio e junho daquele ano, na qual o Rubro-Negro disputou dez partidas na Suécia, Dinamarca, França e Portugal, vencendo todas. Índio foi titular em todos os jogos e marcou seis gols, voltando ao Brasil já estabelecido como peça importante no elenco, que ganharia reforços como o do meia Rubens, cuja técnica refinada logo o transformaria em ídolo da massa.

O “Doutor Rúbis”, como a torcida o apelidaria, seria o aguardado substituto de Zizinho e estrearia no clássico diante do Vasco pelo primeiro turno do campeonato de 1951. O Flamengo tinha uma escrita a ser quebrada: há seis anos não derrotava os cruzmaltinos, que haviam vencido quase todos os confrontos naquele período. Mas naquele 16 de setembro a história começaria a mudar, graças, em parte, ao novo reforço, mas também a Índio.

Quando Maneca abriu a contagem para o Vasco, logo aos dez minutos, parecia que o tabu permaneceria. Só que, aos 20, Esquerdinha desceu pela ponta e cruzou, Barbosa saiu em falso e o centroavante gaúcho Adãozinho empatou para os rubro-negros. Na etapa final, enfim, a virada se concretizaria: Rubens lançou Índio, que arrancou sozinho no meio da defesa vascaína e tocou na saída do arqueiro para colocar um ponto final no longo jejum.

O Flamengo terminaria aquele campeonato (vencido pelo Fluminense) na quarta colocação. Índio atuaria em 13 dos 20 jogos da equipe, anotando sete gols. Mas em 1952, ele veria ser reduzido seu espaço no time com a contratação do ponta-de-lança paraguaio Jorge Benítez, do Boca Juniors, para formar o centro do quinteto ofensivo rubro-negro com Rubens e Adãozinho. Porém, ao fim daquele ano, o comando do time sofreria mudanças.

Mesmo conquistando o título com seis pontos de vantagem sobre os vice-campeões Fluminense e Flamengo, o Vasco dispensou o técnico Gentil Cardoso e negociou o retorno de Flávio Costa, que tinha contrato com o clube da Gávea até o último dia de 1952. Como o campeonato daquele ano se estendeu até o fim de janeiro de 1953, os rubro-negros precisaram recrutar o ex-jogador Jayme de Almeida, velho ídolo e capitão, para dirigir o time interinamente.

A ascensão no início do tri carioca

Jayme comandaria o Flamengo nas quatro últimas partidas e traria Índio de volta ao time titular. O atacante retribuiu a aposta com gols. Anotou o tento rubro-negro na derrota por 2 a 1 para o America. Depois, fez três na goleada de 6 a 3 sobre o Botafogo. Outra tripleta viria nos 5 a 2 sobre o Bonsucesso. E na derradeira partida, ele marcaria o gol que iniciaria a virada do Flamengo por 3 a 1 sobre o Fluminense, iniciando muito bem um ano que marcaria sua carreira.

O time de 1953: equipe que iniciaria o novo tri.

Índio seguiria balançando as redes em amistosos e torneios no Rio, em outros estados e até no exterior. No fim de março, ainda sob o comando de Jayme de Almeida, o Flamengo levantaria o Torneio Quadrangular de Buenos Aires após empatar com o San Lorenzo (2 a 2) e com o Boca Juniors na Bombonera (1 a 1, gol de Índio), antes de derrotar o Botafogo por 3 a 0 no último jogo. Enquanto isso, o clube acertava com seu novo treinador.

Campeão sul-americano com a seleção de seu país no início daquele ano, o paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich revolucionaria o futebol do Flamengo – e, por tabela, o brasileiro. E Índio também se beneficiaria de sua chegada. Ao dispensar Adãozinho (centroavante manhoso, seis anos mais velho que o garoto paraibano e que havia sido reserva de Ademir de Menezes na Copa de 1950), Solich indicava ter planos para o novo dono da posição.

Índio era um atacante versátil. Podia atuar como centroavante “à húngara” – saindo da área para tabelar ou abrindo espaço na defesa adversária para a entrada de outros homens de frente – ou então como ponta-de-lança de estilo rompedor. Era também muito raçudo, lutava até o último minuto, o que o fez cair nas graças da torcida. Também era bastante rápido e ainda um exímio cabeceador. E além de tudo, era um jogador muito inteligente.

Em suma, era um atacante de perfil ideal para o estilo de futebol veloz, solidário, valente e de muita movimentação pregado pelo treinador, que logo tratou de criar uma jogada mortal no ataque rubro-negro: a inversão de papeis entre Índio e o ponta-direita Joel. O centroavante caía por aquele flanco do campo, puxando a marcação e permitindo o avanço do extrema na diagonal. Bom chutador, Joel marcou muitos gols graças a essa combinação.

No Campeonato Carioca de 1953, Índio entraria no time na quarta rodada, na vitória de 4 a 0 sobre o Bonsucesso, jogo em que Benítez anotou os quatro tentos, alguns deles aproveitando os buracos abertos pelo centroavante na defesa adversária. Daí em diante, o paraibano atuaria em todos os outros jogos, nos três turnos da campanha que levaria os rubro-negros a reconquistarem o título que não venciam desde 1944. Seria o começo do segundo tri.

Formando a linha de frente com Joel, Rubens, Benítez e Esquerdinha, Índio terminaria o certame como o vice-artilheiro da equipe, com 18 gols – atrás apenas do paraguaio, que seria o goleador do campeonato. Muitos desses 18 foram anotados em clássicos e alguns marcantes pela beleza (como o sutil toque de cobertura sobre o goleiro Osni nos 3 a 1 sobre o America, no primeiro turno) ou mais ainda pela grande importância que tiveram na campanha.

Saiu de seus pés o gol que iniciou a reação no duríssimo jogo contra o Olaria na Rua Bariri, vencido por 3 a 1 em virada épica nos minutos finais. Saiu de sua cabeça, numa disputa com Bellini, o tento de empate nos 3 a 3 contra o Vasco pelo returno, após os rubro-negros estarem em desvantagem de dois gols. E saiu de uma testada mortal sua o gol que iniciou a virada diante do Fluminense, valendo a primeira colocação na etapa inicial do certame.

Índio também deixaria o seu no jogo que confirmaria a conquista rubro-negra, uma goleada de 4 a 1 sobre o Vasco no dia 10 de janeiro de 1954. Esquerdinha abriu o escore para o Flamengo e o garoto paraibano fez o segundo, recebendo passe de Benítez e aproveitando falha do zagueiro Haroldo para concluir na pequena área. O time vencia ali o terceiro turno com uma rodada de antecipação e levantava o campeonato sem necessidade de finais.

Do Fla para a Seleção

As qualidades de Índio chamariam a atenção do técnico Zezé Moreira, que o observara de perto como treinador do Fluminense naquele Carioca e que agora assumiria o mesmo cargo na Seleção Brasileira para as Eliminatórias da Copa do Mundo da Suíça. O atacante rubro-negro não chegaria a participar dos jogos classificatórios contra Chile e Paraguai (o dono da posição era o corinthiano Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”), mas entraria em campo nos amistosos.

Após garantir a vaga, a Seleção enfrentou duas vezes o forte time colombiano do Millonarios, que contava com os lendários argentinos Néstor Rossi e Adolfo Pedernera, e venceu ambos os jogos. O primeiro, no Pacaembu, terminou em goleada por 4 a 1. E Índio, que entrara durante a partida no lugar de Baltazar, marcou duas vezes vestindo a nova camisa “canarinho”, a qual o Brasil havia estreado no início daquele ano, e confirmou ali sua presença no Mundial.

Na Seleção em 1954: Índio é o primeiro em pé.

Na Suíça, o Brasil estrearia goleando o México por 5 a 0 e, em seguida, empataria com a Iugoslávia em 1 a 1. Não brilhava, no entanto: era acusada de jogar um futebol “engessado”, rígido demais. Para piorar, cruzaria nas quartas de final em Berna com a melhor equipe do torneio, a Hungria. Foi quando, pretendendo dar mais mobilidade ao ataque brasileiro, Zezé Moreira sacou Baltazar (tido como muito “estático”) do time titular e escalou Índio.

Não foi o bastante para evitar a vitória magiar por 4 a 2, mas o centroavante do Flamengo foi um dos poucos a se salvarem no escrete canarinho: com os europeus já em vantagem de dois gols logo no início do jogo, ele sofreria o pênalti de Buzansky que Djalma Santos converteria para recolocar o Brasil no jogo e perturbaria a defesa húngara com sua movimentação intensa. Mas o time de Zezé Moreira não pôde com a força do adversário.

Após a Copa, Índio voltaria ao Flamengo para mais uma excelente temporada. Na campanha do bicampeonato carioca, ele ficaria de fora de apenas uma das 27 partidas dos rubro-negros e se sagraria o artilheiro da equipe, com 17 gols. A mira andou bem calibrada em especial no início do torneio, quando balançou as redes oito vezes nas primeiras sete partidas – uma delas, a tarde de estreia do garoto Dida, uma vitória por 2 a 1 sobre o Vasco.

E um outro 2 a 1 diante dos cruzmaltinos que confirmaria a conquista, mais uma vez sem necessidade de finais, mais uma vez ao vencer o terceiro turno por antecipação e mais uma vez após a virada do ano, em 12 de fevereiro de 1955, uma semana antes do Carnaval, o que só faria emendar a festa rubro-negra. E mais uma vez, Índio deixaria o dele no jogo decisivo – o gol de empate que precedeu a virada, após Ademir ter colocado o Vasco em vantagem.

A formação que goleou o Fluminense por 6 a 1 em 1955.

No intervalo entre as campanhas do bi e do tricampeonato carioca, Índio se destacou ao lado de Evaristo em duas grandes vitórias de virada do Flamengo, ambas por 3 a 2 e obtidas nos minutos finais. A primeira viria em amistoso no Estádio Centenário de Montevidéu contra o forte Peñarol, que abriu 2 a 0 com gols de Miguez, antes da reação comandada pela dupla de frente rubro-negra. E a segunda, diante do São Paulo no Pacaembu pelo Torneio Rio-São Paulo.

Os últimos momentos em vermelho e preto

Na campanha do tri, o atacante teria participação reduzida em relação às anteriores devido a uma lesão de ligamentos em um dos joelhos, ficando de fora por mais de dois meses. O problema também o tiraria mais tarde da melhor-de-três decisiva contra o America. Ainda assim, atuando em apenas 18 dos 30 jogos do time, anotaria expressivos 11 gols, num momento em que o ataque rubro-negro assistia à afirmação de novos nomes como Paulinho e Dida.

Por vários motivos, o Flamengo não chegaria ao tetra em 1956. Perdeu alguns jogos fáceis por excesso de confiança. Em outros, foi prejudicado pela arbitragem. Mas sobretudo o elenco sentiu o desgaste provocado pela exaustiva campanha do tri: foram inúmeras as perdas por lesão de jogadores fundamentais para a equipe, como o zagueiro Jadir e o médio Dequinha. E mesmo Índio andou afastado por muitos jogos no primeiro turno da competição.

Pouco depois de retornar, porém, o atacante viveu fase espetacular. A começar pelos quatro gols marcados na absurda vitória de 12 a 2 sobre o São Cristóvão, em 27 de outubro, a maior goleada da história do Maracanã. No jogo seguinte, contra o Vasco, anotou um golaço que deu ao Fla uma dramática vitória por 1 a 0 aos 43 minutos da etapa final, chutando de virada, quase um voleio, reacendendo as esperanças da torcida naquela metade de returno.

Nos vestiários, após o jogo, Índio falava à Manchete Esportiva: “Sabem? Joguei mal. Mas prometi que ia botar uma naquele cantinho. Achava que era a coisa mais justa do mundo a gente ganhar e com um gol só, que chegava um. Por isso não há como duvidar do marcador. E tem mais uma: ela entrou direitinho na gaveta da esquerda. Valeu dois pontinhos e é o que interessa”, disse o atacante, autor de um “gol mágico” nas palavras de Nelson Rodrigues.

Encarando os vascaínos Paulinho e Bellini.

Dali até o fim do certame, ele ainda anotaria três contra a Portuguesa, dois contra o Bangu de seu ídolo Zizinho, outros dois contra o Olaria, marcaria o único gol na vitória no Fla-Flu do returno e deixaria outro nas redes do Canto do Rio, passando em branco apenas contra o America e o Botafogo. Seriam 14 gols em nove jogos – desempenho insuficiente, porém, para impedir o fim do sonho do tetra. E o título premiaria a regularidade do Vasco de Martim Francisco.

No entanto, o bom desempenho de Índio naquele Carioca o levaria de volta à Seleção no começo do ano seguinte, quando o novo técnico Oswaldo Brandão levou o atacante ao Campeonato Sul-Americano de 1957, disputado no Peru entre março e abril. Reserva de um ataque que contava com os também rubro-negros Joel e Evaristo, mais Didi, Zizinho e Pepe, o paraibano entrou em quatro dos seis jogos do Brasil, marcando um gol nos 7 a 1 sobre o Equador.

As Eliminatórias de 1957

O título ficaria com os argentinos, mas Brandão seguiria à frente do escrete para as Eliminatórias da Copa do Mundo da Suécia. Com a desistência da Venezuela, o Brasil teria somente o Peru como adversário no Grupo 1, em jogos marcados para Lima no dia 13 de abril e para o Maracanã, na volta, no dia 21. Com a despedida de Zizinho da Seleção, Índio herdaria seu lugar no time titular, voltando a formar dupla de área com Evaristo, seu colega de Flamengo.

Os dois grandes destaques daquela seleção inca fariam carreira no futebol europeu. Um era o ponteiro Juan Seminario, que mais tarde defenderia Sporting de Lisboa, Zaragoza, Fiorentina e Barcelona. Outro era Victor Benítez, zagueiro e volante vigoroso que logo seguiria para o Boca Juniors e, de lá, para a Itália, onde passaria por Milan, Inter, Roma e outros clubes menores. Naqueles duelos de 1957, seria ele o encarregado de marcar Índio.

Com o Estádio Nacional de Lima abarrotado de torcedores empurrando a seleção peruana, o Brasil sofreu com a pressão inicial dos donos da casa, que abriram a contagem em gol de Alberto Terry e foram em vantagem para o intervalo. Na volta, logo aos dois minutos, viria o empate: Bellini cobrou falta no meio-campo com um chutão para a frente. A defesa peruana falhou na rebatida e Índio esticou a perna para encobrir o goleiro Asca.

“Agitado, mas trabalhador. Não deu trégua aos adversários. O ‘goal’ foi um justo prêmio à sua determinação”, avaliou o Jornal dos Sports, dando nota 8 à atuação do centroavante rubro-negro. Seu tento deixou o Brasil dependendo apenas de uma vitória simples no Maracanã para carimbar o passaporte para a Suécia. E ela viria pelo placar mínimo, na histórica falta cobrada por Didi logo aos dez minutos de jogo – e que teve origem numa jogada de Índio.

Na Seleção que derrotou o Peru no Maracanã em 1957.

“Eles [os peruanos] chegaram no Maracanã e jogaram a mesma coisa que jogaram no campo deles. Encurralando a gente lá dentro, não é possível. Aí eu peguei uma bola: ‘Tem que ser agora!’. Parti para cima do Benítez e dei um jogo de corpo nele, não é? Dei um drible nele, mas ele me deu um pontapé, me derrubou, aí foi falta ali, na entrada da área. Eu até peguei a bola para bater, mas o Didi falou assim: ‘Deixa comigo, Pantera’”, relembrou Índio em 2011.

Após seu segundo e derradeiro ciclo na Seleção, Índio voltaria ao Flamengo, pelo qual disputaria cinco partidas válidas pelo Torneio Rio-São Paulo de 1957, balançando as redes duas vezes: uma na goleada de 4 a 1 sobre o Botafogo e outra na vitória de 3 a 2 sobre o Palmeiras. Seriam seus únicos jogos e gols pelo clube naquela temporada. E a partida contra o Alviverde seria também a última de suas 218 em vermelho e preto, com 144 gols marcados.

A carreira pós-Flamengo

Brandão deixou o comando da Seleção após as Eliminatórias, mas não ficou sem o futebol de Índio: retornando ao Corinthians, fez com que o clube pagasse Cr$ 1,5 milhão ao Flamengo pelo atacante no início de julho de 1957, para a irritação de Fleitas Solich. No lugar do paraibano, o “Feiticeiro” efetivaria o jovem centroavante Henrique Frade, outro que entraria para a história rubro-negra como um dos maiores goleadores do clube em todos os tempos.

O agora ex-rubro-negro ficaria por dois anos no Parque São Jorge, deixando o clube paulista em meados de 1959 ao ser negociado com o Espanyol, de Barcelona. Índio se tornaria o primeiro negro a defender a equipe catalã e conquistaria a torcida com seus gols e estilo aguerrido. Após cinco temporadas nos Pericos, ele teria passagens curtas pelo pequeno Sanjoanense, da segunda divisão portuguesa, e pelo America, pendurando as chuteiras em 1965.

Mesmo após deixar os gramados, Índio não se distanciaria do esporte: trabalharia como professor de Educação Física em escolas da Zona Norte e da Baixada Fluminense, em escolinhas de futebol e também em projetos sociais, até se aposentar. Um de seus filhos, Frank, também chegou a ter rápida passagem pelo time profissional do Flamengo durante o Campeonato Brasileiro de 1986, atuando como lateral-direito e usando o mesmo apelido do pai.

Em 2013, num evento na Gávea, Índio reencontraria velhos companheiros do tri, como Paulinho, Evaristo e Zagallo e ainda protagonizaria momento emocionante ao rever o amigo Esquerdinha, um dos veteranos daquele esquadrão, e que faleceria pouco tempo depois. Neste domingo, foi a vez de se despedir do maior goleador daquele tricampeonato histórico, o velho Índio arisco e raçudo, que faleceu de causas ainda desconhecidas.

Índio foi homenageado pelo clube em 2013.

Jadir, 90 anos: O vigoroso “tanque” da defesa rubro-negra no segundo Tri carioca

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Símbolo de vigor e valentia na defesa do Flamengo ao longo dos anos 1950, Jadir completaria 90 anos nesta quinta-feira. O jogador chegou à Gávea como médio defensivo e transformou-se no quarto-zagueiro que seria um dos pilares da retaguarda do lendário time tricampeão carioca em 1953-54-55 sob o comando do paraguaio Fleitas Solich. Sua tenacidade o fez superar duas graves lesões para marcar seu nome entre os dez jogadores que mais vestiram o Manto Sagrado na história, com 498 partidas em exatamente uma década de clube.

O COMEÇO EM SÃO PAULO

Paulistano nascido e criado no bairro do Jaçanã, Jadir Egídio de Souza teve a bola – de meia que fosse – como companheira desde criança. Mesmo quando começou a trabalhar na adolescência, exercendo os mais variados ofícios (foi tecelão, gráfico, feirante, mecânico, pintor e marceneiro), arrumava um jeito de atuar pelos times de empresas das quais foi funcionário, como os Diários Associados. Até que surgiu a chance da carreira de jogador profissional.

Como “medo de dar vexame”, como ele mesmo se lembrou em entrevista, Jadir recusou proposta para um teste no antigo São Paulo Railway, o SPR (atual Nacional, da capital paulista), mas seguiu se destacando na várzea, chegando a ser convocado para a seleção paulista de amadores. Logo chegaram convites para testes no Juventus e no São Paulo. Por essa época, ele já trocara a ponta-esquerda dos tempos de garoto pela posição de centromédio, atual volante.

Até que uma nova proposta – esta, sim, irrecusável – deu o pontapé inicial definitivo na carreira de jogador profissional. Os dirigentes do Atlético Brasil Clube, um pequeno clube da cidade de Paraguaçu Paulista, queriam contratá-lo oferecendo, além do salário de Cr$ 4 mil, um emprego na Prefeitura da cidade e uma casa para morar. Numa coincidência do destino, o Atlético Brasil tinha como uniforme camisas rubro-negras idênticas à do Flamengo.

Preparando-se para mais um jogo no vestiário do Maracanã.

Mesmo paulistano, Jadir era admirador confesso do Flamengo e em especial de um velho ídolo e capitão rubro-negro, o médio-esquerdo Jayme de Almeida. Já em Paraguaçu, ele conheceria em seu primeiro clube profissional um certo Antônio Mendes, cujo irmão tinha ligações na Gávea. Até que um dia, ele receberia um telegrama de Mendes: o clube carioca procurava um médio para o lugar do veterano Bria, cuja aposentadoria já se aproximava.

UMA NOVA HISTÓRIA EM VERMELHO E PRETO

Era fim do ano de 1951 quando Jadir tomou uma condução para a então capital do país e bateu à porta do Flamengo. Levado à concentração rubro-negra, foi apresentado ao técnico Flávio Costa e aguardou sua chance. Depois de impressionar num treino com os juvenis, acabou contratado e escalado num time misto rubro-negro que disputaria o Torneio Municipal, competição de certo prestígio na década anterior, mas agora prestes a ser descartada.

Nesta equipe que mesclava reservas com juvenis, ele chegou a jogar com alguns futuros colegas do time de cima rubro-negro, como Índio e Zagallo. O Fla chegaria à decisão daquela que seria a última edição do torneio, mas cairia para o America por 1 a 0, com o gol saindo já numa segunda prorrogação, após 133 minutos de bola rolando. Em seguida, seria disputado o Torneio Início, outra competição tradicional do futebol brasileiro até os anos 60.

Disputado todo em um dia, o torneio reunia os clubes do Campeonato Carioca jogando partidas de 30 minutos, com o desempate vindo em séries de pênaltis. Naquela altura, muitos clubes já utilizavam equipes mistas para o certame, como fez o Fla, que aproveitou quase todo o time do Torneio Municipal, incluindo alguns outros nomes, entre os quais o do lateral-esquerdo Jordan, que se tornaria grande parceiro de Jadir na equipe principal.

No Maracanã, Flamengo bateu o Oriente (clube que disputava o campeonato do Departamento Autônomo, espécie de segundona do Carioca na época) e o Botafogo por 2 a 0, decidindo o título com o Vasco naquela tarde de 10 de agosto de 1952. E os rubro-negros venceriam por 1 a 0, gol de Jadir, levantando o bicampeonato do torneio, o qual conquistavam pela quinta vez na história. Para o novato paulistano, as portas do time principal se abriam.

Recém-chegado ao Flamengo, em foto da revista O Cruzeiro.

Naquele tempo, o esquema tático predominante no futebol carioca ainda era o WM, criado pelos ingleses no fim dos anos 20 e aqui adaptado por Flávio Costa na chamada “diagonal”. Era, em números, uma espécie de 3-2-2-3, com três zagueiros (dois laterais e um central), dois médios (de função semelhante aos volantes atuais), dois meias armadores e três atacantes (dois pontas e um centroavante). Os dois médios do Flamengo eram Bria e Dequinha.

O potiguar Dequinha era jovem (23 anos), chegara à Gávea há pouco mais de dois anos, e era tido como um nome para os próximos anos na equipe. O paraguaio Bria, por outro lado, já tinha seus 30 anos, idade em que então um jogador de futebol entrava no ocaso da carreira. O veterano atuara nos três primeiros jogos do Flamengo no Carioca, mas estava nitidamente fora de forma. Foi quando Flávio Costa decidiu sacá-lo do time para a entrada de Jadir.

O novato estrearia no clássico diante do Botafogo, em 13 de setembro, e seria um dos destaques na vitória por 3 a 2 ao tornar o time rubro-negro mais robusto na marcação. Jadir então seguiria entre os titulares até o fim do campeonato, no qual o Flamengo terminaria empatado na segunda colocação com o Fluminense. E seria apontado como uma grata revelação da temporada, num Flamengo que se reformulava sob o comando de Flávio Costa.

O PRIMEIRO GRANDE TÍTULO, A PRIMEIRA SÉRIA LESÃO

O treinador, porém, deixaria a Gávea na virada do ano, seguindo para o Vasco, repetindo o que havia feito em 1947. Após uma passagem de Jayme de Almeida, ídolo de garoto de Jadir, pelo comando do time interinamente, o presidente Gilberto Cardoso viajou até Buenos Aires, para acertar com o paraguaio Manuel Fleitas Solich, que vinha de levar a seleção de seu país a um inédito título do Campeonato Sul-Americano, atual Copa América.

Jadir seria mantido na equipe com Solich, que começaria a implementar novidades táticas no time. Uma delas envolvia o posicionamento do paulistano, que passou de vez a fazer a função de zagueiro – um quarto­-zagueiro – ao lado do central Pavão, no 4-2-4 introduzido pelo técnico paraguaio na Gávea. Porém, essa novidade só seria notada quando Jadir teve de deixar o time, após fraturar a perna numa dividida com o reserva Cido, num treino em setembro.

Jadir e a perna fraturada que o tirou do campeonato de 1953.

A grave lesão tiraria Jadir do resto da temporada. Para o seu lugar, Solich mandou buscar Servílio, zagueiro do XV de Jaú, evidenciando que o Flamengo havia deixado de lado o WM. Antes de ficar de fora, porém, Jadir já deixara sua grande contribuição na campanha do título carioca de 1953, marcando com um chute de longe, aos 40 minutos da etapa final, o único gol da suada vitória sobre uma retrancada Portuguesa dirigida por Zoulo Rabelo no Maracanã.

Recuperado da fratura, o quarto-zagueiro voltaria ao time em fevereiro de 1954, em tempo de viajar para sua primeira excursão internacional pelo clube. O Flamengo que rodou pela Europa entre abril e maio não teve três de seus craques – Dequinha, Rubens e Índio –, convocados para a Seleção para a Copa do Mundo da Suíça. Jadir teve então a chance de voltar a jogar de centromédio e ostentar a braçadeira de capitão por algumas partidas.

UM TANQUE NA DEFESA RUBRO-NEGRA

Uma delas foi o empate em 2 a 2 com o combinado Milan-Internazionale no San Siro. Naquela excursão, o time ainda goleou o Kinizsi (nome de então do Ferencvaros) por 5 a 0 em Budapeste e o Werder Bremen por 4 a 1 na Alemanha Ocidental. Ao retornar, com Jadir de novo dono da quarta-zaga, o clube começou a caminhada para o bi estadual, garantido com uma rodada de antecedência ao bater o Vasco por 2 a 1, já em 12 de fevereiro de 1955.

Embora não tenha participado do jogo do título, Jadir foi titular indiscutível durante a campanha, atuando em 22 das 27 partidas. Seu estilo de jogo sério, implacável na marcação, mas leal e com ótimo senso de cobertura, tornavam-no um duro obstáculo para os atacantes. E, apesar de medir apenas 1,75 metro (sete centímetros mais baixo que Servílio, com quem disputava posição), era forte no jogo aéreo graças à ótima impulsão e preservava a boa mobilidade.

Aquele foi o campeonato que consagrou a chamada “linha média” formada por Jadir, Dequinha e Jordan, que na verdade já atuava junta desde 1952 e, na prática, não constituía exatamente uma linha – Jadir era zagueiro, Dequinha era volante e Jordan, o lateral-esquerdo. Mas naquele tempo os jornais ainda publicavam as escalações dos times armados no velho esquema 2-3-5, sem acompanhar nas fichas técnicas a evolução tática do jogo por aqui.

A lendária “linha média”, com Dequinha e Jordan.

De qualquer forma, o termo já era difundido, fazendo com que as “linhas médias” mais famosas do país fossem recitadas pelos torcedores e eternizadas na história do futebol brasileiro. No caso do trio rubro-negro, ele serviu até mesmo para apelidar o Monumento aos Pracinhas, construído no Aterro da Glória na década de 1950. O soldado, o marinheiro e o aviador esculpidos em pedra eram chamados popularmente de “Jadir, Dequinha e Jordan”.

Jadir também foi nome certo na defesa rubro-negra no tri, atuando em 28 das 30 partidas. Das duas que ficou de fora, uma delas, no entanto, seria a terceira da melhor de três decisiva contra o America, por uma opção surpreendente de Fleitas Solich. O Flamengo havia vencido o primeiro jogo por 1 a 0 com gol de Evaristo no último minuto e perdido a segunda por espantosos 5 a 1. O treinador paraguaio resolveu mexer no time para o jogo de 4 de abril de 1956.

O TRI E A MÁGOA

Para deter o ataque aéreo americano com o grandalhão Leônidas “da Selva”, Solich preferiu escalar Servílio no lugar do quarto-zagueiro titular. Além disso, o treinador também mexeu no ataque, tirando Paulinho, o artilheiro do campeonato, para escalar o garoto Dida, que acabaria fazendo os quatro gols na vitória rubro-negra por 4 a 1. Conta-se que Jadir teria chorado ao saber que havia sido sacado da equipe na concentração rubro-negra.

O certo é que a mágoa perdurou, como revelou o jogador à Manchete Esportiva pouco mais de um ano após a partida: “Fiquei desapontado quando ‘seu’ Solich bateu-me à porta do quarto, horas antes de enfrentarmos o America, e disse-me frontalmente: ‘Jadir, hoje você não vai jogar. Escalei Servílio. Não que eu esteja desconfiado de qualquer coisa, são planos táticos que o afastam da peleja decisiva’. Aquilo para mim foi um jato de água fria”, revelou.

Uma das formações do time do tri, em 1955.

No jogo de entrega das faixas do tri – um amistoso com o Internacional no Maracanã vencido pelos rubro-negros também por 4 a 1 – Jadir já estava de volta ao time. E seguiria nele para o certame de 1956. Neste, porém, ele sofreria sua segunda lesão grave na perna direita, rompendo os ligamentos do joelho no empate em 1 a 1 com o Vasco no primeiro turno. O Fla, que já jogava com Dequinha fazendo número em campo, acabou o jogo com nove.

Jadir faria apenas seis partidas naquele torneio. Seria, assim como Dequinha em várias ocasiões, uma das baixas importantes que se uniram ao conjunto de fatores pelos quais o Fla não levantou o tetra. O zagueiro voltaria aos gramados no fim de março de 1957. E aquela temporada, se não voltaria a trazer o título carioca ao clube, seria recompensadora para o jogador por demonstrar enfim o reconhecimento nacional às suas qualidades.

NA VOLTA POR CIMA, A VEZ NA SELEÇÃO

Um dos destaques do Flamengo na boa campanha rubro-negra no Torneio Rio-São Paulo daquele ano, Jadir enfrentaria pela primeira vez um jogador que mais tarde o apontaria como seu melhor marcador: Pelé, que fez sua estreia no Maracanã justamente contra o Flamengo, numa goleada do time carioca por 4 a 0, em 5 de maio. Embora o menino santista de apenas 16 anos tenha sido elogiado pela imprensa, o beque do Fla esteve soberano em campo.

Escalado ao lado do inexperiente e improvisado Milton Copolilo, Jadir jogou por ele e pelo colega. “Havia sempre Jadir para pôr em ordem a retaguarda, oferecendo cobertura aos companheiros, principalmente ao próprio Milton Copolilo quando abandonava a área”, escreveu Aparício Pires ao avaliar os jogadores para a coluna “Os generais da batalha”, na Última Hora. Sua atuação mereceu do jornal a nota 8, a maior do jogo. Na Manchete Esportiva, levou 9.

A plena recuperação física e técnica exibida por ele durante o Rio-São Paulo valeria a lembrança da Seleção Brasileira. Em junho, quando Sylvio Pirillo foi apontado como técnico do escrete no lugar de Osvaldo Brandão, Jadir estava entre os nomes convocados para o par de amistosos que o Brasil faria contra Portugal (um no Maracanã e outro no Pacaembu) e, no mês seguinte, voltaria a ser chamado para os confrontos contra a Argentina válidos pela Copa Roca.

Com a Seleção no Pacaembu em 1957, o sexto a partir da esquerda.

Jadir foi titular nas quatro partidas, sempre ao lado de Bellini, e teve bom desempenho. O Brasil venceu os lusos por 2 a 1 no Maracanã e 3 a 0 no Pacaembu. Contra os argentinos, a derrota por 2 a 1 no Rio (na estreia de Pelé com a camisa canarinho, entrando durante o jogo) foi compensada com a vitória por 2 a 0 em São Paulo na volta. Com os triunfos alternados, a partida seguiu para a prorrogação, e o 0 a 0 manteve a posse da taça com o Brasil.

Com cartaz de jogador de Seleção, ele seguiria intocável na zaga rubro-negra no Carioca de 1957. E voltaria a balançar as redes numa difícil vitória sobre o Olaria por 2 a 1 na Gávea, na tarde de 13 de outubro. Lesionado durante o jogo, Jadir fazia número, mancando, na ponta-esquerda. Até que a nove minutos do fim, com o placar em 1 a 1, Dida chutou forte e o goleiro Válter espalmou. No rebote, o zagueiro apareceu para empurrar na raça a bola para o fundo do gol.

O Flamengo chegou a liderar o Carioca por várias rodadas. Mas o acúmulo de empates na reta final o deixou, no fim das contas, atrás de Botafogo (campeão) e Fluminense (vice). Mesmo assim, e apesar das constantes trocas de comando na Seleção e até mesmo na CBD (João Havelange assumiria a presidência da entidade em janeiro de 1958 no lugar de Sylvio Pacheco), Jadir seguia como candidato sério a figurar entre os convocados para o Mundial da Suécia.

Prova disso foi sua inclusão na primeira lista de Vicente Feola – o novo selecionador, alçado ao cargo em março daquele ano – para as partidas contra o Paraguai pela Taça Oswaldo Cruz e os amistosos contra a Bulgária no Maracanã e Pacaembu. Eram cinco os nomes de miolo de defesa na convocação: Bellini e Mauro eram os chamados “beques centrais”, enquanto Zózimo, Jadir e o novato Orlando eram os escolhidos para a posição de quarto-zagueiro.

O zagueiro rubro-negro atuaria na última partida daquelas quatro, a vitória por 3 a 1 sobre a Bulgária no Pacaembu, no dia 18 de maio, e fez ótima partida, sendo um dos destaques do time brasileiro. Preciso na cobertura e na destruição de jogadas e iniciando bem as jogadas ofensivas a partir da defesa, fez inclusive a recuperação de bola e o passe que deu origem à jogada do gol da virada do Brasil, marcado por Pelé aos 15 minutos do segundo tempo.

Pelo Flamengo, enfrentando o Brasil de Pelé.

Uma semana antes, curiosamente, Jadir havia sido liberado para defender o Flamengo na etapa inicial de um jogo-treino contra a própria Seleção no Maracanã. Mesmo muito desfalcados, os rubro-negros venceram por 1 a 0, gol do atacante Manoelzinho. A liberação, no entanto, era um prenúncio de que ele seria um dos cortados na relação divulgada no dia seguinte à vitória sobre a Bulgária da qual participara. Zózimo e Orlando viajariam em seu lugar.

Comenta-se que sua dispensa não teria sido motivada por eventuais más atuações, que não chegaram a ocorrer. Mas sim por motivos táticos, que envolviam posicionamento. Orlando, que fazia dupla de zaga com Bellini no Vasco, tinha mais facilidade de atuar pelo lado esquerdo, ao passo que o rubro-negro atuava mais do lado direito, com Pavão, seu companheiro de miolo de defesa, um pouco mais recuado. Foi o que o tirou do Mundial.

O próprio Jadir, no entanto, não se queixara do corte, atribuindo-o a motivos físicos: uma lesão no joelho direito, sofrida na partida contra o Corinthians, a derradeira do Flamengo pelo Torneio Rio-São Paulo daquele ano, havia prejudicado sua forma e, portanto, em sua opinião, a escolha por Zózimo e Orlando era justa. E logo ele retornaria ao clube, juntando-se à delegação rubro-negra que excursionava pela Europa naquele momento.

AS CONQUISTAS DERRADEIRAS

Afastando o ataque dos peruanos do Universitario em Lima, 1959.

Em suas últimas temporadas no clube, ele também levantaria títulos importantes. Já em fevereiro de 1959, ele seria um esteio da defesa rubro-negra que levantou a Gran Serie Suramericana Inter Clubs, torneio também conhecido como Hexagonal de Lima e que contou ainda com River Plate, Peñarol, Colo Colo e os peruanos Alianza e Universitario. A conquista aconteceu em plena sexta-feira de Carnaval e garantiu aos torcedores um motivo a mais para festejar.

No início de 1961, ele também participaria das duas primeiras partidas da campanha do título do Torneio Octogonal de Verão, no qual o Flamengo enfrentou Corinthians, São Paulo, Vasco, River Plate, Boca Juniors e os uruguaios Nacional e Cerro. E ainda ostentaria a braçadeira de capitão herdada de Dequinha ao longo de outra campanha vitoriosa, a do Torneio Rio-São Paulo, naquela que seria sua última conquista vestindo as cores rubro-negras.

Logo depois de vencer o torneio interestadual, ele seria chamado pela última vez para a Seleção Brasileira, num amistoso contra o Paraguai no Maracanã em 29 de junho de 1961. Num time formado basicamente por jogadores de Flamengo e Palmeiras, ele teria como companheiros os rubro-negros Joel, Henrique, Dida e Babá e jogaria o primeiro tempo, sendo substituído no intervalo pelo beque palmeirense Aldemar. O Brasil venceria por 3 a 2.

Com o jovem Carlinhos, sucessor de Dequinha, e o velho amigo Jordan.

Pelo Flamengo, suas últimas partidas viriam na excursão europeia empreendida pelo clube em meados de 1962 e encerrada precocemente para o zagueiro, que retornou ao Brasil antes do esperado para tratar de uma lesão no joelho. Insatisfeito com o ambiente no clube, que desde janeiro daquele ano tinha Flávio Costa no cargo de técnico do time no lugar de Solich, Jadir pediu para ser negociado, encerrando sua trajetória de dez anos na Gávea.

Durante os meses de julho e agosto, vários possíveis destinos foram levantados, tanto de grandes clubes, quando de equipes do interior – algo que agradava a Jadir, já com 32 anos e desejando uma aposentadoria tranquila. Até que no início de setembro, sua transferência para o Cruzeiro acabou acertada. Com a voz embargada, Jadir se despediu dos antigos companheiros e da imprensa e embarcou num voo para Belo Horizonte.

Sua passagem pelo clube mineiro, porém, foi relâmpago: durou sete dias e um jogo. Assim que ele viajou a Belo Horizonte para se apresentar, começaram a ser ventilados rumores de que a transferência seria apenas um trampolim para sua contratação pelo Botafogo, o que afinal se concretizaria dali a uma semana. No Alvinegro, ele disputaria os três últimos jogos da campanha do título carioca daquele ano, deixando o clube na temporada seguinte.

Jadir ainda passaria por Fluminense-BA e Bragantino, antes de pendurar as chuteiras. Em seguida, tentaria sem sucesso a carreira de técnico e participaria de jogos de veteranos em São Paulo, onde voltara a morar. Até que um derrame cerebral sofrido na tarde de 23 de novembro de 1977 tirou-lhe a vida aos 47 anos de idade. Dos tempos de jogador, a única recordação que exibia em casa era uma foto vestido com o uniforme de seu querido Flamengo.