Benítez, goleador paraguaio de raça e valentia no ataque do segundo tri carioca

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Os paraguaios têm uma longa história de sucesso no Flamengo. Além do técnico Manuel Fleitas Solich, o “Feiticeiro” mestre da tática e revelador de talentos por trás do tricampeonato carioca de 1953-54-55, alguns de seus compatriotas marcaram época em vermelho e preto, cada qual ao seu estilo. Modesto Bria, volante do tri anterior, nos anos 1940, tinha a disciplina tática como principal trunfo. Francisco Reyes, volante convertido em zagueiro dos anos 60 e 70, conciliava a garra com uma técnica fenomenal para a posição. Sinforiano García, por sua vez, era um goleiro arrojado, espetacular.

E houve ainda Jorge Benítez, ponta-de-lança que atuou pelo Fla entre 1952 e 1956 – brilhando especialmente nos três primeiros anos de sua passagem – e que se destacava pela raça, pelo ímpeto, pela valentia com que enfrentava os zagueiros e pelo faro de gols. Eternizado como o artilheiro do Campeonato Carioca de 1953, o que deu início ao histórico segundo tri, o atacante completaria 90 anos neste domingo.

O INÍCIO

Nascido na cidade de Yaguarón, localizada a 48 km de Assunção, em 23 de abril de 1947, Jorge Duílio Benítez Candía começou a bater bola dos sete para os oito anos de idade. Na infância e começo da adolescência, dividia com a bola o tempo para os estudos e também para as viagens à capital guarani com o pai, comerciante. Até decidir se dedicar exclusivamente ao futebol, iniciando a carreira no Deportivo de sua cidade natal, passando logo em seguida ao Nacional de Assunção. Aos 19 anos, logo depois de se profissionalizar, já integrava o elenco que conquistou o título paraguaio de 1946 – o sexto da história do clube e o último até 2009.

Em 1949, o Brasil sediaria o Campeonato Sul-Americano de seleções, antecessor da atual Copa América, pela primeira vez desde 1922 – ano em que também havia conquistado a competição pela última vez. Havia o interesse de utilizar a organização como um laboratório para a Copa do Mundo que seria realizada no país no ano seguinte. Diante da negativa da Argentina em participar do Sul-Americano e do envio pelos uruguaios de uma equipe experimental, havia também a expectativa de uma conquista brasileira de maneira fácil, sem sobressaltos.

BRILHANDO NA SELEÇÃO PARAGUAIA

Quando a bola começou a rolar, no entanto, uma equipe começou a chamar a atenção: o Paraguai dirigido por um nome que futuramente seria muito familiar aos ouvidos rubro-negros: um certo Manuel Fleitas Solich (aliás, também revelado pelo Nacional de Assunção). E além de Benítez, que tinha então sua primeira oportunidade como titular da meia-esquerda na ofensiva guarani, o time contava com outro nome que brilharia envergando o “CRF” no peito: o goleiro Sinforiano García.

Na estreia o Paraguai bateu a Colômbia por 3 a 0 no Pacaembu, com Benítez marcando o segundo gol. Quatro dias depois, passaria pelo Equador pelo placar mínimo em São Januário. No mesmo estádio, três dias depois, faria 3 a 1 nos peruanos. No dia 20 viria o primeiro revés: derrota por 2 a 1 para os uruguaios num jogo em que Benítez teve de ser substituído no intervalo. Mas ele voltaria a entrar em campo e marcar no jogo seguinte, um convincente 4 a 2 contra o Chile, outra equipe que se candidatava ao posto de surpresa do certame, uma semana depois no Pacaembu.

No sexto jogo da competição disputada em pontos corridos, Benítez faria história: em 30 de abril, jogando novamente em São Januário, os paraguaios goleariam os bolivianos por 7 a 0, e o atacante balançaria as redes quatro vezes, marcando o primeiro, o terceiro, o quarto e o sétimo gols e estabelecendo o recorde que perdura até hoje de jogador a marcar mais vezes pela Albiroja em um único jogo.

A tabela da última rodada marcava o confronto contra os brasileiros, donos da casa, outra vez em São Januário. Ao time de Flávio Costa bastava o empate para a conquista do título. E, a se julgar pelas exibições anteriores daquele escrete de Zizinho, Jair Rosa Pinto, Ademir de Menezes, Tesourinha e outros craques, havia a possibilidade até de vitória tranquila por goleada.

A confiança se confirmava aos 33 minutos quando Tesourinha finalmente conseguiu vencer García, cumprindo exibição magistral no gol paraguaio. O Brasil dominava as ações, mas esbarrava nos milagres do arqueiro guarani. Mas, para o espanto geral, Ávalos empatou aos 30 da etapa final. E a seis minutos do fim do jogo, Benítez recebeu de Arce, avançou com a bola, percebeu a saída de Barbosa e tocou por cobertura sobre o goleiro brasileiro, decretando a surpreendente virada paraguaia, silenciando São Januário.

A vitória dos guaranis por 2 a 1 obrigou a realização de um jogo extra contra o Brasil, que desta vez não perdoou e goleou por 7 a 0, confirmando o favoritismo e levantando a taça. Mas o desempenho dos paraguaios ao longo da competição encheu os olhos da crônica e dos grandes clubes sul-americanos. O Flamengo não demorou para trazer García. E embora o clube rubro-negro tenha se encantado também com Benítez, o ponta-de-lança era fortemente assediado pelo Boca Juniors.

NA ARGENTINA, ALTOS E BAIXOS NUM BOCA EM CRISE

No Boca Juniors de 1951, Benítez é o penúltimo agachado.

Para o jogador, a transferência para Buenos Aires representava um risco por dois motivos: primeiro porque, na época, transferir-se para uma equipe do exterior praticamente significava abrir mão de defender a seleção de seu país, mesmo que o clube em questão fosse de país vizinho. Além do mais, havia a chance iminente de disputar no ano seguinte a Copa do Mundo no Brasil.

O segundo motivo era a profunda crise técnica atravessada pelo Boca naquela temporada. O clube xeneíse vivia o pior momento de sua história e esteve seriamente ameaçado de rebaixamento, salvando-se por um ponto ao fim do campeonato. Por fim, Benítez acabaria aceitando a proposta, mesmo com uma cláusula no contrato pela qual se responsabilizava por jogar mesmo com os problemas cardíacos diagnosticados em seu exame médico. Estreou durante o torneio, no dia 3 de julho, disputou ao todo 11 partidas, marcando apenas um gol, curiosamente na vitória por 2 a 0 no clássico diante do River Plate.

No ano seguinte, embora o atacante ainda tivesse dificuldades para se firmar entre os titulares, para o clube as coisas melhoraram, terminando a liga na segunda colocação após três partidas desempate contra o Independiente (nas quais Benítez marcaria em duas). Mas o melhor desempenho do paraguaio viria na terceira temporada, a de 1951, quando terminou como o artilheiro boquense no Campeonato Argentino, anotando 12 gols em 22 partidas.

Naquele mesmo ano, Benítez voltaria ao Brasil para defender o Boca num amistoso contra o Flamengo no Maracanã, em 15 de novembro, como parte das comemorações do aniversário rubro-negro. Causaria boa impressão e marcaria um dos gols do time argentino no empate em 2 a 2. No começo de 1952, após disputar alguns amistosos pelo Boca na Bolívia, Chile e Paraguai, ganhou férias. Foi quando dirigentes do Flamengo, que já vinham observando o atacante, viajaram à Argentina para tentar contratá-lo.

 A CHEGADA AO FLAMENGO

Em princípio, o Boca relutava em liberá-lo. Considerava-o “intransferível”. Mas o cartola rubro-negro Chico Abreu conseguiu dobrar os dirigentes boquenses, acenando com 500 mil pesos em dinheiro (grande quantia para a época), mais a realização de um amistoso entre os dois clubes no Maracanã. Acordo fechado, Benítez desembarcaria no Rio em 27 de março de 1952, assinando contrato no dia seguinte na Gávea.

Benítez recebe o abraço do presidente Gilberto Cardoso nos vestiários.

E no dia 29 já estrearia pelo Rubro-Negro, na última partida do clube pelo Torneio Rio-São Paulo de 1952, contra o Palmeiras no Maracanã. O Fla não tinha mais nenhuma pretensão no campeonato e havia feito campanha fraca, em que pesaram os muitos desfalques por lesão e o time ainda em formação. E Benítez se apresentava fora de forma, devido a uma inatividade de cerca de 30 dias. Mesmo assim, conseguiu atrair grande público ao estádio e teve atuação destacada, marcando o gol da vitória por 2 a 1.

Depois de encerrada a participação no torneio, Benítez disputou pelo Flamengo alguns jogos no Nordeste e em seguida voltou a excursionar pela América do Sul, numa série de 11 partidas feitas pelo Fla no Peru, Colômbia e Equador, entre maio e julho. Nestes jogos, o novo reforço rubro-negro marcou expressivos nove gols, ajudando a consolidar a fama de artilheiro. Em agosto teria início o Campeonato Carioca. Se o Fla não era o favorito ao título, pelo menos já podia se credenciar a campanhas melhores do que as que havia feito no fim da década de 40.

Na estreia, marcou o gol da vitória de virada por 2 a 1 diante do Bonsucesso. Anotaria ainda nos triunfos contra o Botafogo, o Fluminense e o Bangu, além de balançar as redes quatro vezes na goleada de 9 a 0 sobre o São Cristóvão. Mas na derrota para o Vasco por 1 a 0 no returno, sofreu estiramento após levar uma entrada dura do truculento zagueiro cruzmaltino Eli do Amparo e foi afastado do restante do campeonato. Encerrou sua participação naquele Carioca de 1952 com a boa soma de 12 gols em 14 jogos, quatro a menos que o artilheiro do time, o centroavante Adãozinho.

A lesão deixou Benítez – goleador do Fla naquela temporada corrida, com 27 gols em 32 jogos – fora de ação por vários meses. Sem ele, o Fla ainda conseguiu bons resultados e terminou o Carioca na segunda colocação, empatado com o Fluminense, mas distante do campeão Vasco. Apesar de já contar com boa parte da equipe que se tornaria hegemônica no futebol carioca pelo triênio seguinte, ainda faltava algo.

Na virada do ano, antes mesmo do fim do Carioca, o técnico Flávio Costa deixou o clube, recebendo proposta para voltar ao Vasco. Enquanto o ex-capitão rubro-negro Jayme de Almeida tomava conta do time interinamente, o presidente Gilberto Cardoso ia a Lima, capital peruana, contratar um velho conhecido de Benítez: o treinador Manuel Fleitas Solich, que havia acabado de levar a seleção paraguaia ao tão esperado – e ainda assim surpreendente – título sul-americano derrotando duas vezes o Brasil. Para o mandatário rubro-negro, Don Fleitas era o nome ideal para pôr em prática a revolução na equipe do Flamengo.

ARTILHEIRO DO CARIOCA

Benítez era nome de confiança para o treinador para seu ataque ideal no Flamengo. Voltou aos poucos, conforme recuperava-se da lesão, durante o Torneio Rio-São Paulo. E no Carioca, iniciado a 12 de julho, já estava de novo pronto para retornar ao time titular. No começo, mesmo marcando nas vitórias sobre o Madureira e o Olaria, recebeu críticas da imprensa. Diziam os jornais que ele não parecia adaptado ao estilo de jogo rubro-negro e destoava na linha de frente.

Somente na quarta rodada, quando o paraguaio anotou todos os gols na vitória por 4 a 0 diante do Bonsucesso, é que as críticas começaram a silenciar e todos começaram a entender como suas qualidades podiam se encaixar naquele ataque. Benítez era um jogador valente, raçudo, sem medo de beques violentos e muito oportunista. E tinha uma jogada mortal: a infiltração rápida na defesa adversária no espaço criado pelo recuo do centroavante (Índio ou às vezes Evaristo). Em outras palavras, era o típico ponta-de-lança.

Benítez, o 10 rubro-negro, em disputa aérea contra a zaga do São Cristóvão em Figueira de Melo

Somando tais características aos dribles de Joel, ao futebol filigranado de Rubens, à inteligência de Índio e à experiência e regularidade de Esquerdinha, os rubro-negros tinham uma linha formada por jogadores complementares, levando a máquina de Solich a funcionar a todo vapor.

Após um período de baixa na metade final do primeiro turno (quando marcou apenas uma vez em sete jogos), Benítez voltou à sua rotina de goleador, marcando em praticamente todos os jogos dali até o fim da campanha. Terminou a fase inicial do campeonato – a de pontos corridos em turno e returno – com 17 gols, vários deles cruciais para a conquista desta etapa pelo Flamengo, como o da vitória apertada sobre o Canto do Rio por 2 a 1. Os rubro-negros já estavam garantidos numa eventual decisão do campeonato, enfrentando o vencedor do turno extra, disputado entre os seis melhores times da fase anterior.

Havia, porém, um rival de peso na briga pela artilharia do campeonato: o ponta-direita Garrincha, revelação botafoguense, que já havia marcado 20 na soma dos turnos. O time alvinegro terminara a primeira fase na segunda colocação, um ponto atrás do Fla, e contava com seu camisa 7 para desequilibrar na disputa pelo título. Mas quem desequilibrou foi Benítez.

No primeiro jogo do Fla no terceiro turno, o paraguaio teve exibição memorável de raça, inteligência e dedicação pelos 90 minutos, e abriu o caminho para a vitória por 2 a 1 sobre o Fluminense, marcando logo aos 14 minutos: Joel centrou a bola sobre a área, Índio saltou com Castilho e Pinheiro, e a bola sobrou para Benítez bater de virada.

Cabeceando sob os olhares do zagueiro Joel, do America.

No jogo seguinte, contra o America, outra vez Benitez foi crucial para a vitória, participando do primeiro gol e marcando o segundo: no que abriu a contagem, vindo quando o Fla começava a reverter o domínio americano a etapa inicial, o atacante escorou de cabeça um cruzamento de Índio, e a bola resvalou no meia americano João Carlos antes de vencer o goleiro Osni. No segundo, já na etapa final, Rubens fez grande jogada individual e serviu na corrida para o paraguaio tocar na saída do arqueiro rubro, definindo o placar.

Veio o terceiro jogo do hexagonal, contra o Bangu, e lá estava Benítez sendo decisivo, abrindo o marcador logo aos oito minutos, numa jogada rápida e incisiva, bem a seu feitio – e ao do Flamengo de Solich: Rubens passou a Joel e este lançou o paraguaio na corrida. A vitória por 2 a 0 deixou o Flamengo com a mão na taça por antecipação, na condição de vencedor de todas as etapas do campeonato. Para isso, bastava vencer o Vasco no jogo do dia 10 de janeiro, no Maracanã.

E Benítez, assim como toda a equipe rubro-negra, mais uma vez brilhou. O avante paraguaio participou de todos os gols do Fla na inapelável goleada de 4 a 1. Aos 12 minutos, fez jogada de triangulação com Índio e Esquerdinha, antes de o ponteiro abrir o placar com um chute forte. Aos 32, ganhou na raça a jogada do zagueiro vascaíno Haroldo e fez a assistência para Índio marcar o segundo. No último minuto da etapa inicial, cravou o terceiro gol, num chute da intermediária que surpreendeu Osvaldo Baliza. Na etapa final, depois de Ademir descontar, o próprio Benítez jogava a pá de cal sobre as pretensões cruzmaltinas, recebendo desmarcado um passe de Índio e chutando forte para fechar a goleada, aos 44 minutos, e selar a conquista do título carioca que encerrava um jejum de nove anos.

A arrancada goleadora no turno final, além de decisiva para o título rubro-negro, fez Benítez ultrapassar Garrincha na corrida pela artilharia – sem os gols do ponteiro, o Botafogo não venceu uma partida sequer na fase – terminando a competição com 22 tentos. Havia sido também um dos três únicos jogadores rubro-negros (ao lado de Dequinha e Jordan) a participar integralmente da campanha vitoriosa. Seria ainda o primeiro jogador estrangeiro não britânico a se sagrar o artilheiro do Carioca na história (feito mais tarde igualado pelo argentino Doval).

O time campeão de 1953. Em pé: Garcia, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha.

OS ÚLTIMOS MOMENTOS COMO TITULAR

Em abril, o Flamengo partiria em excursão europeia, jogando na Itália, Alemanha Ocidental, Hungria e Áustria. Benítez participaria de apenas metade dela, por ter se lesionado no oitavo jogo, contra um combinado da região de Ludwigshafen. Mas se destacaria em vários dos jogos em que esteve em campo. A começar pela estreia, no estádio San Siro de Milão, contra um combinado formado por jogadores de Milan e Internazionale que incluía os astros estrangeiros dessas equipes, como os suecos Nordhal e Skoglund e o húngaro Istvan Nyers. No empate em 2 a 2, Benítez marcou ambos os gols rubro-negros.

Outras grandes atuações viriam na goleada sobre o húngaro Kiniszi (mais tarde renomeado Ferencváros) por 5 a 0 em Budapeste, no empate em 2 a 2 com o fortíssimo Rapid Viena (superando a violência dos austríacos e a arbitragem caseira) e a outra igualdade pelo mesmo placar diante do Stuttgart alemão. Em cada um destes três jogos, o ponta-de-lança paraguaio também balançou as redes duas vezes.

Mas a lesão sofrida na Alemanha o tirou da equipe por cerca de dois meses, e mais uma vez o atacante só participou das últimas rodadas do Torneio Rio-São Paulo. No Campeonato Carioca, mesmo chegando para a disputa com o cartaz de goleador da edição anterior, teve que enfrentar uma nova realidade no Flamengo: alguns grandes jogadores vinham em ascensão e pediam passagem na equipe.

Um deles era Evaristo, jogador de grande técnica e inteligência e que podia atuar em praticamente todas as posições do ataque. Outro era um mirrado garoto alagoano que seria seu substituto no time titular quando o paraguaio se lesionou na semana do clássico diante do Vasco pelo primeiro turno, em 17 de outubro: um certo Dida. A lesão tirou Benítez de ação até a virada do ano, retornando apenas na oitava rodada do returno, num empate em 1 a 1 com o America. Para mostrar que estava vivo na briga por um lugar no time, o paraguaio marcou o gol rubro-negro no jogo.

O ponta-de-lança conseguiria se manter entre os titulares dali até o fim do torneio. Voltaria a marcar contra o America na vitória por 3 a 2 no terceiro turno e depois contra o Bangu, na goleada de 5 a 1 na última rodada, quando o Fla já recebia as faixas de bicampeão. Foi o jogador que atuou mais vezes em sua posição (15 jogos), mas no cômputo geral de partidas, ficou atrás de Evaristo, que teve suas 20 atuações distribuídas entre a meia-direita, o comando do ataque, a ponta-de-lança e até a ponta-esquerda. Mesmo não sendo mais titular absoluto, o paraguaio contribuiu com uma satisfatória e importante cota de gols, nove ao todo, sendo três na complicada partida de estreia, 4 a 3 sobre o Canto do Rio.

Benítez posa com o vascaíno Pinga antes do duelo decisivo de 1954 para a capa da revista Esporte Ilustrado.

Após o jogo contra o Bangu, em 27 de fevereiro de 1955, Benítez ficaria mais de um ano afastado da equipe, retornando apenas no jogo das faixas do tricampeonato carioca, contra o Internacional no Maracanã, em 15 de abril de 1956. Além de sofrer com as constantes lesões, vinha sendo preterido dentro do elenco pelo técnico Fleitas Solich, que passou a apostar mais em Evaristo e Dida para a posição. Assim, o atacante paraguaio não disputou uma partida sequer da campanha do terceiro título consecutivo. Jogaria apenas mais um punhado de amistosos e deixaria o clube em junho de 1956, negociado com o Náutico, encerrando sua passagem pela Gávea com a expressiva marca de 76 gols em 114 partidas.

Depois de duas boas temporadas em Pernambuco, retornaria à Argentina defendendo o Almagro e o Deportivo Morón, encerrando a carreira – aparentemente, segundo os registros – em 1960, aos 33 anos. Além das atuações marcantes pela raça e impetuosidade defendendo o Flamengo, Benítez deixou marcas importantes em sua passagem pelo clube, entre elas a de ser até meados dos anos 70 o maior goleador estrangeiro da história rubro-negra, sendo superado por Doval somente no último ano do ídolo argentino na Gávea. Ainda hoje o paraguaio se mantém firme na segunda colocação, à frente de outros gringos com muitos gols pelo Fla, como Valido e Petkovic (ambos, é bom lembrar, com bem mais partidas disputadas que ele).

A incrível história de Germano, talento rubro-negro de apogeu e queda precoces

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Quando se fala sobre Germano, ponta-esquerda revelado pelo Fla no começo dos anos 60 e que depois defenderia também o Milan e o Palmeiras, o que mais se lembra é o rumoroso relacionamento que teve com uma jovem condessa italiana e o fato de ser irmão mais velho do folclórico jogador rubro-negro Fio Maravilha (a quem levou para a Gávea, junto com outro irmão, o ponta-de-lança Michila). Poucas vezes a carreira do jogador, que completaria 75 anos neste sábado, é comentada ou analisada com profundidade, pelo que ele foi e também pelo que poderia ter sido.

Germano foi uma das principais revelações da base rubro-negra e, sem exagero, do futebol brasileiro no início dos anos 60. Muito veloz, habilidoso e de chute forte com as duas pernas, era tido como o futuro da ponta-esquerda do clube e da Seleção. Em sua ascensão meteórica, esteve perto de disputar a Copa do Mundo de 1962 e acabou vendido em negociação milionária para o Milan pouco depois de completar 20 anos de idade. Mas os caminhos da bola e da vida às vezes enganam, como a história do ponteiro conta.

DE CONSELHEIRO PENA À GÁVEA

Nascido na cidade mineira de Conselheiro Pena em 25 de março de 1942, filho de seu Waldemiro e de dona Maria, José Germano de Salles era louco por bola (e pelo Flamengo) desde criança. Na adolescência, jogava sempre suas peladas enquanto não estava ajudando o pai no ofício de bombeiro hidráulico. Um dia, em meados de 1958, um amigo da família que viria a morar no Rio levou Germano para tentar a sorte no Rubro-Negro. Aprovado por Modesto Bria na peneira do clube, o garoto passou a morar na Gávea e receber Cr$ 1.500 por mês como ajuda de custo.

Rapidamente saltou da categoria infanto-juvenil para a juvenil, chegando à de aspirantes em janeiro de 1960 e sendo logo depois integrado ao elenco principal, treinado na época pelo mesmo Modesto Bria que o admitira no clube. Na base, foi companheiro de um jogador que explodiria no Flamengo e faria história no futebol carioca e brasileiro: o meia Gerson, ao lado de quem formou em seleções cariocas de juvenis e também na equipe brasileira medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Chicago em 1959 e na pré-olímpica para os Jogos de Roma.

Linha de ataque da seleção carioca de juvenis, 1960: Germano é o último da esquerda para a direita, formando com os companheiros rubro-negros Gerson (o segundo) e Beirute (o terceiro). Foto: Revista do Esporte.

Sua estreia no time de cima aconteceu enquanto ele ainda era juvenil, a três dias do Natal de 1959, entrando aos 10 minutos do segundo tempo num amistoso contra o River Plate no Maracanã, vencido pelo Rubro-Negro por 2 a 1. No primeiro semestre de 1960, aos poucos ganharia mais oportunidades, entrando em três partidas do Torneio Rio-São Paulo, disputando amistosos pelo Brasil e participando da segunda metade da excursão europeia do Fla em meados daquele ano.

Profissionalizado em julho, aguardou pacientemente uma chance no time – que agora tinha o retorno de Fleitas Solich no comando, após passagem do paraguaio pelo Real Madrid – durante a principal competição da temporada, o Campeonato Carioca. E ela veio na última rodada do primeiro turno, na partida contra o Bonsucesso. Mesmo com o resultado ruim (empate em 2 a 2 no estádio rubro-anil de Teixeira de Castro), Germano se destacou, marcando o segundo gol do Flamengo num chute poderoso de pé direito.

O bom arremate com os dois pés era uma das características pelas quais o ponteiro chamou a atenção (“Desde que comecei a jogar futebol venho caprichando com as duas pernas”, disse em entrevista ao jornal Última Hora). Germano se mostrava também mais ofensivo que o pequenino Babá, então dono da posição. A boa exibição contra o Bonsucesso fez com que o garoto fosse mantido entre os titulares. Apenas uma vez, até o fim do campeonato, ele passaria à reserva, ficando como “regra três” (como eram chamados os suplentes) no Fla-Flu do returno.

Por ironia, seria exatamente neste Fla-Flu do dia 20 de novembro, no qual entraria no intervalo, que Germano faria uma de suas primeiras exibições mais marcantes com a camisa rubro-negra. Líder do campeonato naquele momento, o Tricolor abrira o placar logo aos dois minutos com Waldo e fora o senhor das ações na primeira etapa, apesar de o Fla ter chegado ao empate aos 42 minutos com Henrique.

Mas com Germano em campo, a história foi outra: o ponta (que entrou no lugar de Luís Carlos, vestindo a camisa 14) deu mais agressividade ao ataque rubro-negro, que partiu para a virada com gols de Moacir aos 18 e do próprio Germano, num chute da entrada da área que surpreendeu Castilho, quatro minutos depois. O Fla derrubava o último invicto do campeonato e dava ainda uma mãozinha ao America, que acabaria campeão.

NO RIO-SÃO PAULO, A PRIMEIRA CONQUISTA COMO TITULAR

O ano seguinte começaria com a disputa do prestigioso Torneio Octogonal de Verão, pelo qual o Fla enfrentaria Vasco, São Paulo, Corinthians, os argentinos River Plate e Boca Juniors e os uruguaios Nacional e Cerro – numa história já contada aqui. Mas Germano pouco participou daquela campanha, jogando apenas contra os cruzmaltinos, em virtude de ter sido convocado para prestar o serviço militar. De volta no começo de março, no entanto, compensaria a ausência com atuações brilhantes no Torneio Rio-São Paulo.

Nos primeiros seis jogos que disputou naquela competição, Germano foi titular em apenas dois – as vitórias sobre o Palmeiras no Pacaembu por 3 a 2 e sobre a Portuguesa no Maracanã por 2 a 0. Mas em 2 de abril, ao vencer por 2 a 1 o Vasco (time que Germano já confessara que adorava derrotar), o garoto conquistou de vez a posição.

Na ponta-esquerda do Fla de 1961. Em pé: Joubert, Ari, Bolero, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Joel, Gerson, Henrique, Dida e Germano.

No turno final, o Fla fez campanha memorável: estreou batendo o Palmeiras no Maracanã por 3 a 1, com o segundo gol marcado em chute de Germano que Dida desviou para as redes. Depois, foi ao Pacaembu e goleou o Santos por 5 a 1 – vingando-se de derrota humilhante aplicada pelo Peixe no jogo da fase de classificação no Rio. Por fim, bateu o Corinthians por 2 a 0 no Maracanã, no dia 23 de abril, levantando um título que surpreendeu até sua própria torcida.

Em julho, foi divulgado o interesse do Bologna e do Milan sobre Gerson e Germano, este considerado pelos italianos um “excelente jogador, rápido e de chute muito forte”. Nenhuma das negociações chegou a avançar. Primeiro, o meia recusou ambas as propostas. Depois, o presidente interino rubro-negro Fadel Fadel conseguiu demover os milanistas, maiores interessados no ponta, quanto ao desejo de contratá-lo pelo fato de ele ainda estar cumprindo obrigações relativas ao serviço militar e, portanto, não poderia deixar o país. Mesmo desfeitas as conversas, o clube rossonero continuou de olho no garoto de Conselheiro Pena.

O expediente no Exército que inviabilizou sua venda ao Milan também o tirou da equipe por boa parte do Campeonato Carioca, no segundo semestre. Além disso, Babá se recuperara de um estiramento na coxa e de novo era o titular da ponta-esquerda. Por isso, no torneio do Rio daquele ano Germano disputou apenas quatro partidas, marcando os dois gols do Flamengo em um empate com o Bangu no Maracanã, em 16 de dezembro.

Mas no começo de 1962 o Flamengo passou por mudanças. Mantido na presidência do clube, agora em caráter definitivo após ter vencido as eleições, Fadel Fadel demitiu o técnico Fleitas Solich no meio de uma excursão da equipe a Costa Rica e México e contratou o veterano Flávio Costa. Pouco depois da temporada mexicana, Babá recebeu proposta da UNAM e acabaria negociado. Germano também chegou a ser sondado, mas foi considerado “imprescindível” pelos dirigentes rubro-negros.

O ponta ficou para a campanha do Torneio Rio-São Paulo, no qual o Fla tentaria o bicampeonato. Na primeira fase da competição, cariocas e paulistas ficaram em grupos diferentes, com disputas apenas locais, classificando-se os dois primeiros para o quadrangular final. Nesta etapa, o Fla brilhou, derrotando o Fluminense (1 a 0), empatando com o Vasco (1 a 1) e com o America (0 a 0) em jogo interrompido pela chuva e reiniciado no dia seguinte e encerrando a campanha com uma bela vitória sobre o Botafogo por 3 a 2, com Germano marcando o terceiro gol após jogada de Dida.

Antes do quadrangular final, porém, o Flamengo sofreu sério desfalque com a lesão de Gerson, que torceu o joelho num treino e teve que passar por cirurgia para extrair os meniscos, ficando vários meses de fora da equipe e perdendo a chance de disputar a Copa do Mundo do Chile. Sem ele, o Fla perdeu para Palmeiras e Botafogo (embora tenha feito boas partidas) e, na última rodada, empatou com o São Paulo no Pacaembu em 2 a 2.

Nesta partida contra o Tricolor paulista, disputada em 17 de março, Germano fez mais um gol, o primeiro do Fla no jogo, numa de suas especialidades, acertando um belo chute de fora da área. O que não se sabia então é que aquela seria a última partida do ponta pelo Rubro-Negro. Germano estava a oito dias de completar 20 anos de idade.

NA SELEÇÃO, PERTO DO SONHO DA COPA

Dois dias depois do jogo com o São Paulo, Germano foi incluído, juntamente com Carlinhos, na lista dos 41 pré-convocados para a Seleção Brasileira na fase de preparação para a Copa do Mundo do Chile. Indicado pelo preparador físico Paulo Amaral, era uma das esperanças de renovação em relação ao grupo de jogadores que disputara o Mundial da Suécia e estava agora quatro anos envelhecido.

Ao lado de Carlinhos, outro rubro-negro pré-convocado pela Seleção para a Copa do Mundo do Chile. Foto: Revista do Esporte.

Ironicamente, Germano teve que lidar com o “fogo amigo” do presidente rubro-negro Fadel Fadel, que no mesmo dia da divulgação da lista chegou a pedir dispensa dos dois jogadores do clube, alegando que nenhum deles tinha chance de figurar na lista final de 22 e que precisaria de ambos na excursão europeia para a qual o clube embarcaria dali a alguns dias. No dia seguinte, no entanto, os próprios jogadores o convenceram de que queriam ficar na Seleção, e o pedido acabou esquecido.

A presença de Germano no escrete canarinho foi defendida pelo supervisor da Seleção, Carlos Nascimento, que acreditava não ser tão fácil encontrar jogadores para aquela posição no país, e que o jovem rubro-negro poderia ser muito útil ao Brasil “por sua mocidade e pela forma física e técnica que ostenta”. De fato, Germano teve participação muito boa durante a preparação em Nova Friburgo e Campos do Jordão. Chegou a marcar o gol da vitória dos reservas sobre os titulares num dos coletivos. E entrou em campo em dois amistosos contra Portugal.

Os dois jogos foram disputados na primeira quinzena de maio de 1962, o primeiro no Pacaembu e o segundo no Maracanã. Em ambos, Germano entrou no decorrer do jogo, substituindo Zagallo e Pepe, respectivamente. Agradou e recebeu elogios, dando velocidade e ofensividade ao ataque brasileiro em duas difíceis vitórias do time de Aimoré Moreira por 2 a 1 e 1 a 0.

No entanto, depois de superar duas listas de cortes, Germano acabou dispensado na terceira (a última antes do embarque para o Chile), divulgada em 17 de maio. Junto com ele, também estavam fora da Copa o goleiro Valdir (Palmeiras), os zagueiros Calvet (Santos) e Djalma Dias (America), além dos laterais Joel e Rildo e do atacante Quarentinha (Botafogo).

Ao comentar os cortes, a Revista do Esporte avaliou assim o desligamento de Germano da Seleção para a Copa: “Impressionou nos treinos e em alguns amistosos. Porém, à última hora, quando sua permanência no escrete era tida como certa, foi posto à margem. Alegação: inexperiência”. Para a posição, iriam ao Chile os mesmos convocados para o Mundial da Suécia, Zagallo e Pepe, então com 30 e 27 anos, respectivamente.

NO MILAN, QUEBRANDO BARREIRAS E ENFRENTANDO TABUS

Germano se conformou, apesar de não esperar o corte. Apenas disse que era muito novo e poderia esperar outras oportunidades. Mas não houve tempo nem de se lamentar. Em 18 de maio, dia seguinte à dispensa, Germano se reuniu com Fadel Fadel e representantes do Milan, acertando todos os detalhes da transferência e as bases do contrato com o clube italiano, onde já atuavam os brasileiros Dino Sani e Mazzola (Altafini para os torcedores de lá).

A venda de Germano ao Milan foi a maior negociação do futebol brasileiro de então. O clube italiano pagou US$ 180 mil, cerca de Cr$ 65 milhões (para efeito de comparação, Babá fora vendido ao futebol mexicano meses antes por seis milhões de cruzeiros), com luvas de Cr$ 14 milhões para o jovem ponta-esquerda, que ainda receberia um ótimo salário, gratificações, além de casa, carro e comida pagos pelo clube. A transferência também quebrou barreiras: Germano foi o primeiro jogador negro a defender um clube italiano.

Sua estreia pelo Milan veio na vitória sobre o Parma, fora de casa, pela Copa da Itália. Atuaria ainda em duas partidas pela Série A, marcando duas vezes no empate em 3 a 3 diante do Venezia no San Siro. E participaria também da campanha do primeiro título milanista na Copa dos Campeões da Europa, sendo titular da ponta-esquerda nas vitórias sobre o Union Sportive de Luxemburgo (8 a 0, com dois gols seus) e o Ipswich inglês (3 a 0).

Tudo isso entre setembro e novembro, quando acabaria emprestado ao Genoa para ganhar experiência. No clube rossoblu  – pelo qual jogaria 12 vezes, marcando dois gols – teria como companheiro de ataque outro brasileiro e futuro ídolo rubro-negro, o atacante Almir Pernambuquinho.

Em meados de 1963, sua vida e carreira tomariam outro rumo insuspeitado, quando o ponteiro conheceu a jovem condessa Giovanna Agusta, filha de um rico industrial dono de uma fábrica de helicópteros em Milão. O namoro entre o jogador de futebol brasileiro negro e a nobre italiana branca ganhou as manchetes em tom de escândalo, especialmente diante da recusa completa da família de Giovanna em aceitá-lo, por um indisfarçável preconceito racial.

Germano e a condessa Giovanna Agusta, em foto publicada pela revista “O Cruzeiro” em março de 1967.

Além disso, Germano lutava para se ambientar e encontrar seu espaço. Profissionalizado há pouco mais de três anos, o garoto do interior mineiro já vivia em um universo completamente diferente, numa das cidades mais industrializadas e cosmopolitas da Europa, de inverno rigoroso, em um clube extremamente rico, austero e exigente. Tudo isso, é bom lembrar, numa época bem diferente da de hoje, tanto em termos de globalização do jogo quanto da preparação de um jovem jogador para sair do Brasil e defender um clube estrangeiro. Isso tudo potencializado pelo fato de ser o único negro do elenco, e um dos raros no futebol da Bota naquela época.

TURBULÊNCIAS NA VIDA E NA CARREIRA

Afastado temporariamente da bola por uma combinação de lesões constantes, falta de oportunidades e o tumultuado romance, passou toda a temporada 1963/64 sem entrar em campo. Chegou a ser sondado pelo Santos e pelo Boca Juniors no início de 1964, fez mais uma partida pelo Milan em setembro, contra o Racing Strasbourg francês pela extinta Copa das Feiras (antecessora da atual Liga Europa), e acabaria enfim retornando ao Brasil em fevereiro de 1965, emprestado ao Palmeiras, em parte por pressão da família Agusta.

Chegou ao Brasil um tanto gordo, devido ao longo período de inatividade. No Alviverde ficou na maior parte do tempo na reserva de Rinaldo, mas fez um número razoável de partidas. Conquistou mais um Torneio Rio-São Paulo, foi vice-campeão paulista naquele mesmo ano e fez sua terceira e última partida pela Seleção Brasileira, contra o Uruguai na inauguração do Mineirão, em 7 de setembro, quando o Brasil foi representado inteiramente por jogadores do Palmeiras. Marcou inclusive o terceiro gol na vitória por 3 a 0.

Ficou no Parque Antártica até meados de 1966, quando o Milan (e os pais da condessa) arranjou um novo empréstimo, desta vez para o Standard Liège belga. Em Liège, Germano e Giovanna finalmente se casariam, e o ponta disputaria duas temporadas pelo clube (1966/67 e 1967/68), vencendo a Copa da Bélgica na primeira e participando da Recopa europeia em ambas.

Germano na ponta-esquerda do Standard Liège em 1967.

Sem se firmar como titular, Germano foi perdendo o gosto pelo jogo. Em 1970, dois anos depois de disputar sua última partida pelo Standard, voltava ao Brasil, desiludido com o casamento e com o futebol. Separado de Giovanna e com a carreira de jogador precocemente encerrada (tinha então apenas 28 anos), voltou a morar em Conselheiro Pena, onde ganhou uma fazenda em acordo com seu ex-sogro. Enquanto isso, naquele mesmo ano, seu irmão mais novo, Fio, vivia o auge no Flamengo como ídolo do povo.

Germano se casaria novamente, teria outros filhos (além da que teve com Giovanna) e viveria como fazendeiro em sua cidade natal até falecer vitimado por um infarto em 1º de outubro de 1997, aos 55 anos. Experimentara as diversas faces da carreira de jogador sempre de modo muito breve, muito rápido. Tão rápido quanto ele era em suas escapadas pela ponta-esquerda vestindo a 11 rubro-negra no Maracanã.

Libertadores 1984: Quando o Fla esteve a um passo do segundo título continental

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João Paulo e Adílio disputam a bola com os venezuelanos da Universidad Los Andes, adversária do Flamengo na Libertadores de 1984.

A uma semana da estreia do Flamengo na Copa Libertadores da América de 2017 a torcida rubro-negra começa a renovar a esperança e a expectativa de ver novamente o clube triunfando na principal competição sul-americana. A reconquista do torneio é uma obsessão do Fla e seus torcedores desde a vitória sobre o Cobreloa na decisão de 1981, que levou a taça pela primeira (e até hoje única) vez para a Gávea, especialmente por uma questão de reafirmação de sua força dentro do futebol do continente.

Sendo assim, entre torcedores, costuma-se lamentar muito a derrota para o Peñarol no Maracanã (1 a 0) na fase semifinal da Libertadores de 1982 como o fim do sonho do bicampeonato continental e a maior chance que o Flamengo teve de conquistar mais uma vez a competição. Mas foi na edição de dois anos depois, bem menos lembrada, que o clube esteve de fato mais perto, a um passo da decisão do torneio. E é essa a história que o Flamengo Alternativo relembra agora.

EM 1983, UM ANO DE MUDANÇAS

A história daquela participação começa no Brasileiro de 1983. Naquele tempo, o Brasil tinha dois representantes garantidos no torneio continental – o campeão e o vice nacionais. Sem contar, é claro, o caso de algum clube do país ser o atual campeão sul-americano, como foi o Grêmio naquele mesmo ano. O Fla carimbou o passaporte para sua quarta participação consecutiva no torneio ao passar pelo Atlético-PR nas semifinais da Taça de Ouro (nome do Brasileiro na época), antes de vencer o Santos na decisão.

Entre a conquista do Brasileiro, em maio de 1983, e a estreia na Libertadores, em fevereiro do ano seguinte, muita coisa mudou. O Fla viveu meses turbulentos. Zico foi vendido à Udinese italiana, o time entrou em assustador declínio técnico e fez péssima campanha na Taça Guanabara, Carlos Alberto Torres foi demitido do comando da equipe e o presidente Dunshee de Abranches renunciou ao cargo após uma derrota para o Botafogo, tudo isso antes do fim de setembro, quando uma verdadeira faxina começaria.

O ex-vice de Finanças Eduardo Mota assumiu interinamente a presidência, convocando eleições, vencidas por George Helal. Para o posto de treinador chegou Cláudio Garcia, que havia acabado de levar o Fluminense ao título do primeiro turno do Estadual. E o elenco sofreu grandes reformulações: com o dinheiro da venda de Zico em caixa, o Fla foi às compras e trouxe o centroavante Edmar (Cruzeiro), o ponta Lúcio (Guarani), o meia Cléo (Palmeiras), o centroavante Cláudio Adão (Benfica, em sua segunda passagem pelo clube), além dos jovens Heitor (lateral-direito da Ponte Preta) e Guto (zagueiro do XV de Jaú), ambos campeões mundiais com a Seleção sub-20 meses antes.

1983-ataque-iiMas a maior negociação foi desfazer a troca por empréstimo com o Grêmio que trouxe Baltazar para a Gávea e levou Tita para Porto Alegre. O ex-ponta-direita do Fla agora retornava para vestir a camisa 10 no lugar de Zico, o que sempre tinha sido seu sonho. Jogando com esse número, ele havia sido fundamental na conquista da Libertadores daquele ano pelo Tricolor gaúcho. Já o Artilheiro de Deus, que nunca chegara a convencer no Flamengo, acabaria vendido pelo Grêmio ao Palmeiras – com o Fla emprestando dinheiro ao clube paulista para concretizar a negociação.

A equipe então se recupera ao longo da Taça Rio, conquistada em jogo extra contra o Bangu – que havia goleado o Fla por 6 a 2 na Taça Guanabara. O título estadual não vem, mas a confiança já está de volta. Tanto que, para o ano seguinte, as contratações são apenas pontuais. As duas principais são o experiente goleiro argentino Ubaldo Fillol, vindo do Argentinos Juniors, e o ponta-esquerda João Paulo, ex-Santos.

O ELENCO

Fillol já era contratação concretizada desde setembro de 1983. Vinha para o lugar de Raul, que se aposentara em dezembro aos 39 anos. Havia ainda a expectativa que preenchesse a lacuna não só de um grande goleiro, mas também como o grande ídolo do clube, deixada com a saída de Zico. Goleiro de longa experiência internacional, com participação em três Copas do Mundo e o título na de 1978, além de titular do River Plate por vários anos, era seguro sob as traves, exímio defensor de pênaltis, mas também gostava de jogar com os pés, antecipando a tendência mundial atual.

João Paulo, por sua vez, era sonho antigo do clube – que apesar de ter obtido sucesso com um esquema de jogo em que meias-armadores jogavam pelas extremas, volta e meia sondava pontas autênticos. Carioca, o jogador deixara a cidade pouco depois de se profissionalizar no São Cristóvão para integrar o time santista dos “Meninos da Vila”, campeões paulistas de 1978. Passara pela Seleção e fora o melhor jogador de seu clube na derrota para o Fla na decisão do Brasileiro de 1983. Assim, custaria a bagatela de Cr$ 350 milhões, mais o passe do volante Lino (que já estava na Vila Belmiro emprestado).

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Fillol e João Paulo, os grandes (e caros) reforços de 1984.

Além deles, havia o retorno de Nunes, após empréstimo ao Botafogo, a recuperação de Lico após cirurgia no joelho, a promoção definitiva dos ex-juvenis Bebeto, Bigu Adalberto e Zé Carlos (que mais adiante na carreira acrescentaria o “II” ao nome) ao elenco principal, além de uma contratação de menor impacto, a do jovem ponta-direita Toninho Cajuru, do Botafogo-SP.

Por outro lado, Cléo e Cláudio Adão não haviam aprovado em suas passagens no ano anterior e não permaneceriam. Também deixaram a Gávea outros jogadores que integravam o elenco há alguns anos, mas nunca se firmaram, como o centroavante Ronaldo Marques (Botafogo-SP), o meia-atacante Peu (Santa Cruz) e o ponta-esquerda Édson (Colorado-PR), além do empréstimo do jovem meia Adílson Heleno ao Operário-MS. E o meia Julio César, lançado por Carlos Alberto Torres no Brasileiro anterior, era emprestado ao Grêmio.

Assim, os 25 jogadores inscritos pelo Flamengo para a primeira fase da Libertadores seriam os goleiros Fillol, Abelha (que chegara ao clube após se destacar pela Ferroviária-SP no Brasileiro anterior) e Hugo; os laterais Leandro, Junior, Heitor e Adalberto; os zagueiros Figueiredo, Mozer, Marinho, Guto e Zé Carlos; os meias Andrade, Adílio, Tita, Vitor, Bigu e Élder; e os atacantes Lúcio, Edmar, João Paulo, Bebeto, Toninho Cajuru, Nunes e Lico.

OS PRIMEIROS ADVERSÁRIOS

A primeira fase da competição sul-americana seria disputada em paralelo ao Campeonato Brasileiro, entre fevereiro e maio. Incluído no Grupo 3, o Flamengo teria como rivais o Santos e os colombianos América de Cali e Atlético Junior, de Barranquilla. O time paulista já era um velho conhecido e tinha como novidade o goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez. Além dele, o ponto alto da equipe era o quadrado do meio-campo, formado por Dema, Lino, Paulo Isidoro e Pita, que criavam as jogadas para os gols de Serginho Chulapa.

Já os colombianos tinham equipes competitivas. O América, por exemplo, reuniu um dos melhores elencos do futebol colombiano e sul-americano daquela década, sagrando-se pentacampeão nacional entre 1982 e 1986. Chegaria ainda a três decisões consecutivas da Libertadores (em 1985, 1986 e 1987), além das semifinais em 1980 e 1983.

A equipe contava com o ídolo nacional Willington Ortiz (maior jogador surgido no país até então) e a revelação local Anthony De Ávila ao lado de reforços estrangeiros como o goleiro argentino Julio Cesar Falcioni, os paraguaios Gerardo González Aquino e Juan Manuel Battaglia e os peruanos César Cueto e Guillermo La Rosa (que disputaram a Copa de 1982).

O Atlético Junior, vice-campeão colombiano de 1983, tinha como principal destaque o atacante Alex Didi Valderrama, primo mais velho do meia Carlos Alberto Valderrama que disputaria as Copas de 1990, 1994 e 1998. Entre os demais nomes, havia também dois argentinos: o meia Carlos Ischia e o zagueiro Edgardo Patón Bauza (ele mesmo, o atual técnico da seleção Albiceleste).

placar-como-um-campeao-mundialA campanha rubro-negra na primeira fase daquela Libertadores foi irretocável, a melhor da história do clube na competição, superando a de 2007 no saldo de gols. E teve início de maneira espetacular no dia 11 de fevereiro, diante do Santos no Maracanã. O Fla saiu na frente aos 33 minutos: João Paulo puxou contra-ataque rápido pelo meio e foi calçado por Lino perto da meia-lua. Tita cobrou a falta na barreira, Adílio apanhou a sobra de cabeça e centrou. Depois de resvalar na defesa santista, Mozer apareceu como elemento-surpresa e pegou de primeira, enchendo o pé. Fla 1 a 0.

No segundo tempo viria a goleada: aos 11, numa saída malfeita do time santista, Mozer se antecipou a Serginho na intermediária e desceu pela esquerda tal qual um ponta. No bico da área, fintou Toninho Oliveira e disparou um petardo indefensável. Golaço. Lino descontaria para o Santos aos 28, mas o Fla seguiria imparável.

Aos 34, Lico (que entrara no lugar de João Paulo) limpou três jogadores santistas com um só toque e bateu rasteiro da entrada da área no canto de Rodolfo Rodríguez. O quarto gol rubro-negro viria aos 38: Nunes, na meia-esquerda, abre para Adílio na ponta e o camisa 8 joga na linha de fundo para Lico, que cruza, encontrando Tita sozinho na área para desferir uma cabeçada inapelável. Fla 4 a 1, fora o baile.

No outro jogo de abertura da chave, o América de Cali derrotava em casa o Atlético Junior por 2 a 0. A Colômbia, aliás, seria a próxima parada para o Fla na Libertadores no fim de março, jogando no dia 27 (terça-feira) contra o América em Cali e dois dias depois em Barranquilla contra o Junior. Duas partidas difíceis.

BONS RESULTADOS NA COLÔMBIA

Contra o América, um jogo muito travado, “pegado”, no qual o adversário tentava ameaçar em jogadas de velocidade nas costas do setor defensivo rubro-negro. Precavido, o técnico Cláudio Garcia alterou o time em relação ao jogo com o Santos, tirando os pontas e escalando Bigu ao lado de Andrade como uma dupla de volantes, tendo à frente uma linha com Lico pela direita, Tita centralizado e Adílio pela esquerda, com Nunes sozinho mais à frente.

Aos 22, o Fla abriria o placar depois que Leandro tabelou com Tita e bateu rasteiro, da entrada da área, para vencer Falcioni. Mas três minutos depois, Penagos empataria de cabeça após escanteio. O Fla teria ainda pelo menos três chances claras de gol com Lico, Andrade e Nunes (este, acertando a trave). E ainda perderia Leandro, lesionado após levar um pontapé de González Aquino ainda no primeiro tempo, e Nunes, expulso após revidar uma entrada do mesmo jogador. Eram duas baixas para o jogo seguinte.

Contra o Atlético Junior, o Flamengo entrou em campo com Adalberto na lateral-esquerda e Junior na direita, no lugar de Leandro. Na frente, Edmar ganhou a vaga de Nunes, suspenso. Mas aos 30 minutos, antes de o placar ser movimentado, Cláudio Garcia já mudara completamente o esquema: Adalberto dera lugar ao ponta João Paulo, com Junior voltando para a esquerda e Bigu entrando na lateral-direita.

E o primeiro gol rubro-negro saiu três minutos depois: Adílio passou para Edmar, que entrava livre pelo meio da defesa. O atacante driblou o goleiro Pogany e tocou para o gol vazio. Aos 38, no entanto, Junior falhou e Fillol foi obrigado a cometer pênalti em Barrios. Galván bateu e empatou. No segundo tempo, o Fla passaria novamente à frente aos 33, quando Edmar driblou seu marcador e foi à linha de fundo cruzando para o gol de Tita. No último minuto, porém, a vitória esteve ameaçada: Figueiredo cometeu pênalti, dando aos colombianos a chance da nova igualdade. Mas Fillol – que fez partida excepcional – pulou no canto certo e defendeu a nova cobrança de Galván.

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Edmar, artilheiro do Fla na primeira fase, encara o Atlético Junior.

Os resultados obtidos na Colômbia deixaram o Fla em excelente situação na tabela. E ela ficaria melhor ainda depois do perde-e-ganha registrado nos outros jogos disputados no começo de abril: o Santos venceu o Atlético Junior por 3 a 0 em Barranquilla, mas perdeu para o América em Cali por 1 a 0. No novo duelo entre os colombianos, por sua vez, o Junior se recuperou goleando o América por 4 a 1, embolando a situação dos três adversários do Flamengo.

GOLEADAS CONFIRMAM VAGA

O Rubro-Negro estaria de volta a campo pela competição no dia 20 de abril contra o Santos no Morumbi. Numa Sexta-Feira Santa, o Fla deu mais um chocolate na equipe paulista: 5 a 0, com gols de Bebeto, Mozer, Edmar e dois de Tita (um deles convertendo pênalti sofrido por Andrade). Foi tamanho baile em campo que só restou aos desnorteados jogadores do Peixe apelar para a violência, com o volante Dema e o zagueiro Toninho Carlos expulsos por pontapés. A história completa daquele jogo já foi contada aqui neste post.

Uma semana depois, o América de Cali também derrotaria o Santos, mas na Vila Belmiro (1 a 0), antes de ir ao Rio enfrentar o Flamengo. Naquela altura, os dois clubes ponteavam a classificação, ambos com sete pontos, mas enquanto os colombianos fariam no Maracanã seu último jogo na primeira fase, o Fla ainda receberia o Atlético Junior. De modo que mesmo o empate deixaria os rubro-negros em situação bastante confortável.

Ainda no primeiro tempo, porém, a vitória já estava encaminhada. O primeiro gol veio em jogada bem tramada, iniciada por Élder pelo lado direito e passando por Junior, Edmar e Bebeto até chegar a Adílio, que bateu cruzado da entrada da área. Depois seria a vez de Bebeto ampliar escorando cruzamento de Adílio, após escapada do meia pela ponta direita. O terceiro gol veio aos 41 minutos. Élder recebeu na intermediária e carregou com muita categoria até a entrada da área, quando passou a Edmar na esquerda. O centroavante fintou o lateral e foi à linha de fundo, cruzando para o próprio Élder concluir para as redes.

Na etapa final, o America descontou aos 20, em chute forte do peruano Cueto da meia-lua. Mas o Fla voltou a ampliar quando Bebeto ganhou do lateral, desceu pela ponta direita e cruzou. Tita fez o corta-luz e Edmar tocou para o gol. No fim, Cueto deu números finais ao placar em outro chute de fora da área, mas desta vez tendo a ajuda do goleiro Abelha, substituto de Fillol.

A boa vitória por 4 a 2 diante do principal adversário garantia a classificação do Flamengo para a fase semifinal da Libertadores. Uma semana depois, na última partida da primeira fase, nova vitória tranquila no Maracanã, desta vez sobre o Atlético Junior, de Barranquilla, por 3 a 1. O destaque do jogo foi Edmar, autor dos três gols rubro-negros.

No primeiro, o centroavante recebeu passe de Élder por trás da defesa colombiana, driblou o goleiro e tocou para as redes. No segundo, depois do empate do adversário, apanhou uma sobra de bola na marca do pênalti e desferiu um belo chute que entrou no ângulo de Pogany. E no terceiro, escorou de cabeça um cruzamento de Adílio da direita. Com esse resultado, o Fla fechava a primeira etapa do torneio com cinco vitórias e um empate nas seis partidas disputadas. Marcara expressivos 19 gols (média de mais de três por jogo) e sofrera seis.

O CALDEIRÃO POLÍTICO FERVE

Apesar da brilhante campanha, o ambiente no clube naqueles dias não era nada bom. Entre um jogo e o outro contra os colombianos no Maracanã, o Flamengo foi eliminado de maneira até surpreendente nas quartas de final do Brasileiro, goleado pelo Corinthians por 4 a 1 no Morumbi, depois de ter vencido por 2 a 0 no Rio no jogo de ida. E a desclassificação, considerada precoce e desastrosa, recolocou em pauta velhas divergências internas entre dirigentes.

Logo após a queda diante do Corinthians, o técnico Cláudio Garcia e o supervisor Roberto Seabra colocaram os cargos à disposição. Seabra foi demitido pelo presidente George Helal, mas o ex-mandatário Márcio Braga interveio, e a decisão foi reconsiderada. Foi o bastante para que o diretor de futebol Paulo Orro e o procurador geral do clube Michel Assef renunciassem a seus postos. Assef também queria a saída do vice-presidente Gilberto Cardoso Filho, que, por sua vez, vinha pressionando desde dezembro (com a perda do Estadual) pela demissão de Seabra.

zagallo-e-bebeto-apresentacao-do-treinador-29-maio-84O fim das contas, o supervisor saiu mesmo, e mais tarde seria a vez de Cláudio Garcia, que entregou o cargo, e de Gilberto Cardoso Filho. Assef e Orro foram mantidos, apesar de os jogadores se manifestarem favoráveis à saída de ambos. Para o comando do time, a lista de candidatos incluía Mário Travaglini e Jorge Vieira, mas o posto acabou ficando mesmo com o favorito Zagallo, apresentado em 29 de maio.

TRANSFERÊNCIAS, PARTE DOIS

Outra movimentação que não parou durante todo esse período foi a de transferências. Em 19 de abril, ainda com o Brasileiro e a primeira fase da competição continental em pleno andamento, o Flamengo negociou Marinho e Vitor – ambos sem espaço no time de Cláudio Garcia – com o Atlético-MG. O zagueiro foi vendido, enquanto o volante foi trocado por empréstimo até o fim do ano pelo jovem atacante Marcus Vinícius, de 20 anos.

Mais tarde, outra negociação impactaria a equipe de maneira mais profunda. Em 15 de junho o lateral-esquerdo Junior encerrava seu primeiro ciclo no clube ao ser negociado com o Torino, da Itália, por fabulosos Cr$ 1,8 bilhão. Enquanto isso, no mesmo dia, chegava à Gávea o também lateral Jorginho, do America, trocado pelo ponta Lúcio mais Cr$ 200 milhões. O novo reforço, no entanto, não poderia ser escalado pela Libertadores (diferentemente de Marcus Vinícius), já que as inscrições estavam encerradas.

Além das transferências concretizadas, muita conversa e especulação rolou naquele período. Entre elas, a que rendeu conversas mais extensas envolveu o Internacional, que desde o início do ano expressava interesse em ter Nunes. A proposta discutida por mais tempo seria a da vinda do zagueiro Mauro Galvão e do ponta-esquerda Mário Sérgio (que voltaria à Gávea 14 anos depois de ter sido revelado pelo Fla) enquanto o centroavante rubro-negro iria para o Inter, juntamente com os mesmos Marinho e Vitor negociados depois com o Atlético-MG. Mas a que ficou mais perto de ser concluída foi a troca simples por empréstimo de Nunes por Galvão, que chegou a vir ao Rio e acertar salários com o Flamengo.

Havia ainda na mesa do presidente George Helal uma proposta por Nunes do pequeno Como, recém-promovido à Série A italiana, mas as negociações não foram adiante. E em julho, o clube tentaria trazer o centroavante Reinaldo, envolvendo-o numa troca por Adílio, sem sucesso.

AS SEMIFINAIS

A bola só voltou a rolar pela Libertadores no fim de junho. Nas semifinais, o Flamengo foi incluído no Grupo 2, ao lado do velho conhecido Grêmio – atual campeão sul-americano e que, por isso, já entrou diretamente naquela fase – e da surpresa venezuelana Universidad Los Andes (mais conhecida como ULA), da cidade de Mérida, que se classificou após vencer o peruano Sporting Cristal num jogo extra que decidiu o Grupo 5 da primeira etapa. No time da ULA, o destaque era um brasileiro, o desconhecido ponta-esquerda Itamar, ex-Madureira.

Para a primeira partida contra o Grêmio, na noite de terça-feira, 26 de junho, os problemas no setor defensivo eram muitos. A começar pela lateral direita, onde não só Leandro como também seu reserva imediato Heitor estavam lesionados. O jeito foi improvisar, deslocando o volante Bigu. Na esquerda, a venda de Junior forçaria a efetivação do jovem Adalberto. E para ambos os lados, havia a ausência do recém-contratado Jorginho, que não pôde mesmo ser inscrito na competição. No miolo da defesa, Figueiredo era outra baixa por lesão. Sem poder deslocar Leandro pelo mesmo motivo, outro jovem – Guto – acabou escalado ao lado de Mozer.

Mas a escalação da defesa seria apenas a primeira infelicidade da partida. Haveria ainda a inexplicável decisão de entrar com camisas de mangas curtas numa gélida noite de inverno em Porto Alegre, com temperatura na casa dos três graus. Haveria também a falta de sorte de Edmar, lesionado no joelho ainda na metade da primeira etapa e substituído por Marcus Vinícius – baixando ainda mais a média de idade da equipe num jogo em que experiência contava muito.

Com tudo isso pesando contra o Flamengo, o Grêmio não teve dificuldades para golear: Osvaldo abriu o placar logo aos cinco minutos, Tita chegou a dar esperanças aos rubro-negros empatando aos 11, mas Fillol falhou no gol de Caio, o segundo gremista aos 23, e daí em diante tudo rolou ladeira abaixo. O mesmo Osvaldo fez o terceiro pouco antes do fim do primeiro tempo, Renato Gaúcho ampliou na etapa final, e Tarciso – aproveitando um presente de Bigu – marcou o quinto, encobrindo o arqueiro argentino. A desastrosa estreia nesta fase só não trouxe maiores consequências porque, num primeiro momento, o saldo de gols não decidia a vaga.

Mesmo assim, a derrota deixava o Flamengo quase na obrigação de vencer seus três jogos que restavam (os dois contra a ULA e a partida contra o Grêmio no Maracanã), de preferência pela maior diferença de gols possível. A missão até que começou bem-sucedida: na sexta-feira, a vitória fácil por 3 a 0 diante da ULA em Caracas ajudou a aliviar o saldo negativo da estreia. Improvisado como centroavante, Tita abriu o placar cobrando pênalti de Sánchez em Élder. Na etapa final, Andrade foi à linha de fundo e cruzou para a cabeçada de João Paulo – um raro gol do ponteiro em sua passagem pela Gávea. Depois, Tita bateu outro pênalti (este de Álvarez em Adalberto) e fechou a contagem.

A semana seguinte também trouxe resultados que melhoraram o cenário para o Flamengo. Na terça, o Grêmio foi à Venezuela e venceu a ULA por um gol a menos que o Fla havia feito, 2 a 0. E na sexta, no Maracanã, o Fla conseguiu vitória fundamental sobre os gaúchos para seguir sonhando com a classificação. Nem mesmo a perda de Figueiredo com uma fratura no pulso logo aos dez minutos baixou o ânimo rubro-negro. Heitor entrou na lateral, Leandro passou para a zaga e o time passou a encurralar os gremistas, buscando devolver a goleada sofrida em Porto Alegre.

E esteve bem perto disso. Aos 24 minutos, Andrade recebeu de Tita na intermediária e soltou a bomba na gaveta de João Marcos, abrindo o placar. Perto do fim do primeiro tempo, Mozer cobrou falta de longe e o goleiro gremista deu rebote, que Élder foi buscar na linha de fundo. O meia cruzou para a cabeçada de Bebeto, livre no meio da zaga de grandalhões do Tricolor gaúcho, ampliando o marcador. Na volta para a etapa final, logo aos 10 minutos, o Fla abriu 3 a 0 quando Adílio lançou João Paulo em velocidade, e o ponta esperou a saída de João Marcos para servir a Bebeto no meio da área. Depois de desperdiçar outras chances em contra-ataques, o Fla acabou levando o gol de honra gremista, marcado por Guilherme, após escanteio.

O fiel da balança agora seria a ULA. Mas o Flamengo entraria em desvantagem: com apenas um gol de saldo, contra três do Grêmio, precisaria vencer os venezuelanos por três gols a mais que o Grêmio faria numa eventual vitória diante da ULA em Porto Alegre para ter a vantagem do empate no jogo extra contra os gaúchos que decidiria o grupo. Na terça seguinte, os tricolores aplicariam um sonoro 6 a 1 diante dos venezuelanos. Por mais fraca que fosse a equipe da Universidad Los Andes, a missão rubro-negra era muito complicada.

A partida contra a ULA no Maracanã chega a lembrar as várias histórias trágicas de jogos recentes do Flamengo em competições sul-americanas, tanto pela atuação da equipe quanto pelo desenrolar do jogo. Ciente de que precisava golear, o time entrou nervoso em campo. O drama aumentaria quando, inacreditavelmente, a ULA abriria o placar com o brasileiro Itamar, de cabeça após escanteio, logo aos 13 minutos. E o desespero tomou conta.

Com o time venezuelano fechado na defesa, o Flamengo errava o que podia e o que não podia. Todos os cruzamentos pousavam nas mãos de Baena (curiosamente homônimo do primeiro arqueiro da história rubro-negra, lá em 1912). Quando a equipe conseguia criar alguma chance, o goleiro venezuelano aparecia para operar alguns milagres. Para um time que precisava ganhar de oito, o Fla foi para o intervalo perdendo de 1 a 0 em casa.

Na volta, logo aos três minutos, Tita empatou também de cabeça. Agora, mais importante que golear era simplesmente vencer para evitar a eliminação num vexame inacreditável, mesmo que depois fosse preciso encarar o Grêmio em desvantagem. E a vitória só veio a seis minutos do fim do jogo, num gol redentor de Adílio, também de cabeça. ULA? Ufa!

A UM GOL DA FINAL

O jogo desempate veio dali a uma semana, numa noite de quinta-feira, no Estádio do Pacaembu. No domingo anterior, o Flamengo finalmente estreara no Campeonato Estadual derrotando o Botafogo por 1 a 0, gol de Nunes. E o centroavante, reintegrado ao elenco depois de ser descartado por Zagallo, agora era tido como a arma secreta do treinador para o jogo extra.

No Pacaembu com bom público (pouco mais de 53 mil torcedores), o Fla foi melhor durante todo o tempo normal, apesar de nem sempre jogar certo. Com o Grêmio atuando fechado, com a vantagem do empate em 120 minutos debaixo do braço, as melhores chances foram rubro-negras, com Bebeto no primeiro tempo e com Adílio, Nunes e Andrade no segundo. Mas de um modo geral, foi um jogo muito truncado, tenso, faltoso.

A prorrogação foi toda do Flamengo que, no entanto, atacava mais na base da bola alçada, o que facilitava o trabalho da defesa gremista, mais alta e mais forte fisicamente. Mesmo assim, ainda houve duas chances claras de gol com Tita, o melhor jogador em campo: uma parando no goleiro João Marcos (verdadeiro paredão no gol gaúcho naquele dia) e outra salva em cima da linha por De León. Mas o empate sem gols prevaleceu, e o Grêmio avançou para enfrentar o Independiente na decisão – a qual perderia, derrotado em pleno Olímpico por 1 a 0 no jogo de ida e parando num 0 a 0 em Avellaneda na partida de volta.

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Nunes briga pela bola com Baidek e De León no nervoso jogo desempate contra o Grêmio no Pacaembu.

BALANÇO FINAL

Mesmo enfrentando diversas turbulências nos bastidores, troca de treinador e o desmantelamento do elenco ao longo do torneio, a campanha de 1984 merece ser lembrada pelos números muito bons que teve: oito vitórias nos 11 jogos, contra apenas dois empates e uma derrota. Foram 28 gols marcados – dos quais oito por Tita, que se sagraria o artilheiro da competição – e 13 sofridos.

Naquela noite de 19 de julho de 1984 (que já era madrugada do dia 20 quando a partida terminou) no Pacaembu, o Flamengo ficou a um gol, a uma vitória de jogar sua segunda decisão da Libertadores. Nunca mais chegaria tão perto da final do torneio. No máximo, alcançaria as quartas de final nas duas participações seguintes, em 1991 e 1993, e posteriormente em 2010.

A esperança da torcida para 2017 é, claro, voltar a subir ao topo da América. Mas chegar longe no torneio, como fez em 1984 (e não vem fazendo nas últimas participações), já vai ter ajudado enormemente na recuperação da autoestima do Flamengo como força em termos continentais.

* * *

Time-base da primeira fase (fevereiro-maio de 1984): Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer e Junior; Andrade, Bigu e Tita; Lico (ou Lúcio ou Bebeto), Edmar e Adílio. Técnico: Cláudio Garcia. Artilheiro na fase: Edmar (6 gols).

Time-base da fase semifinal (junho-julho de 1984): Fillol; Leandro, Guto, Mozer e Adalberto; Andrade, Élder e Adílio; Bebeto, Tita e João Paulo. Técnico: Zagallo. Artilheiro na fase: Tita (4 gols).

Time-base na competição: Fillol, Leandro, Figueiredo, Mozer e Junior (ou Adalberto); Andrade, Adílio e Tita; Bebeto, Edmar (ou Bigu ou Élder) e João Paulo. Artilheiro na competição: Tita (8 gols)

Mágicos Rubro-Negros: Há 60 anos, Fla desbancava o lendário Honvéd de Puskás

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O rubro-negro Evaristo exibe a taça a ser disputada entre o Flamengo e o Honvéd de Puskás (à esquerda). Entre eles, atrás do húngaro, está o árbitro Mário Vianna.

O rubro-negro Evaristo exibe a taça a ser disputada entre o Fla e o Honvéd. Atrás de Puskás (à esquerda), entre eles, está o árbitro Mário Vianna.

Os cerca de 120 mil torcedores presentes ao Maracanã naquela noite de sábado, 19 de janeiro de 1957 – há exatos 60 anos – assistiram a uma das páginas mais memoráveis do futebol do Flamengo, bem como a um momento histórico da trajetória repleta de feitos grandiosos do futebol brasileiro. Naquela ocasião, em exibição primorosa, o time rubro-negro venceu o lendário esquadrão húngaro do Honvéd, o time mais famoso do mundo na época, no qual brilhava, entre outros astros, o meia-esquerda Ferenc Puskás, pelo elástico placar de 6 a 4 na primeira de uma série de partidas da equipe magiar no Brasil, a convite do próprio clube da Gávea.

A iniciativa de trazer o respeitado time do Honvéd já era uma vitória por si só quando concretizada na assinatura do contrato para os jogos. Mas ganhou ares de batalha diplomática internacional quando o Fla precisou sobrepujar a resistência de dirigentes húngaros em meio a um conturbado contexto político naquele país, e até a ameaça de punição por parte da Fifa. Felizmente para o público brasileiro, o Flamengo conseguiu seu objetivo, trouxe Puskás e cia para o Maracanã e conquistou um triunfo memorável para sua história e a do futebol brasileiro, um ano e meio antes da conquista de sua primeira Copa do Mundo na Suécia.

O CAMPEÃO ANDARILHO

Cinco vezes campeão húngaro entre 1949 e 1955, o Honvéd formava a base dos Mágicos Magiares, a fabulosa seleção da Hungria que encantou o mundo na Copa de 1954, embora não tivesse conquistado a taça. Em meados de 1956, depois de já ter enfrentado vários dos principais clubes europeus em amistosos lendários, o clube se via às vésperas de disputar pela primeira vez a recém-criada Copa dos Campeões europeia. A estreia, todavia, acabou cercada pelo caos, fruto da delicada situação política vivida na Hungria.

Em outubro daquele ano, estudantes húngaros saíram às ruas pedindo reformas dentro do regime socialista instaurado no país após a Segunda Guerra Mundial. Mas no dia 23, o barril de pólvora estourou. Cerca de 20 mil manifestantes se reuniram para o lançamento de um manifesto elaborado pela união local dos escritores, e a tentativa de invasão da Rádio Budapeste terminou em repressão pela polícia estatal e mortes. A revolta se espalhou entre a população e, no dia seguinte, tanques soviéticos entraram em Budapeste.

Durante os dias mais violentos, surgiu mesmo a notícia de que o craque maior do país, Ferenc Puskás havia morrido, o que não passava de um rumor. Em meio a um breve período de trégua, a equipe pôde deixar a Hungria a salvo. Em 1º de novembro, o primeiro-ministro Imre Nagy, o vice-ministro dos esportes Gustav Sebes e a federação magiar concederam permissão oficial para que a equipe excursionasse pelo exterior até o dia 31 de março do ano seguinte.

A fabulosa seleção húngara que marcou época na primeira metade dos anos 50.

O fabuloso esquadrão húngaro que marcou época na primeira metade dos anos 50 e encantou na Copa do Mundo da Suíça, em 1954.

O elenco então viajou para enfrentar o Athletic Bilbao, adversário das oitavas de final da Copa dos Campeões. Mas com a notícia da retomada dos conflitos – encerrados no dia 10 de novembro deixando milhares de mortos, além da prisão de Imre Nagy, deposto pelo novo governo de János Kádár, aliado dos soviéticos –, a equipe jogou desconcentrada e abatida, perdendo por 3 a 2.

Diante da permissão especial, mesmo com as transformações no poder, o Honvéd seguiu excursionando pela Europa, disputando amistosos na Espanha, na Itália e em Portugal. Bateu Milan e Barcelona, além de empatar por 5 a 5 com um combinado de Madri formado por jogadores de Real e Atlético. No entanto, acabariam eliminados da Copa dos Campeões, ao empatarem em 3 a 3 com o Athletic Bilbao no campo neutro de Bruxelas. A potência húngara tinha agora futuro incerto.

A NEGOCIAÇÃO DA VINDA

conheceremosA ideia do Flamengo de trazer o Honvéd ao Brasil começou a ser desenhada no fim de 1956, quando do planejamento da pré-temporada seguinte. O clube havia convidado o AIK da Suécia para um amistoso no Maracanã abrindo a temporada internacional do estádio. Para aumentar o potencial de renda, pensou em organizar um torneio com outros clubes do exterior, até que surgiu, por meio dos mesmos agentes que trariam os suecos, a possibilidade de receber o famoso time do Honvéd para partidas no Rio de Janeiro.

O primeiro contato foi feito em Bruxelas entre o agente Osvaldo Corckus e Emil Osterreicher, secretário-geral do clube húngaro. Emil trocou vários telegramas com o presidente do Flamengo, José Alves de Morais e, com tudo acertado, o contrato para a excursão brasileira do Honvéd foi assinado em Amsterdã no dia 29 de dezembro. O clube carioca havia declinado uma oferta de excursionar pela América do Sul para trazer os magiares ao Brasil e não poupou esforços financeiros na divulgação da temporada e no pagamento de passagens de ida e volta Rio-Milão-Rio.

O presidente rubro-negro José Alves de Morais

O presidente rubro-negro José Alves de Morais.

Até ali, havia apenas um impasse: a data do primeiro jogo. O Flamengo queria fazer a primeira partida no Maracanã no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da capital carioca – e na época, ainda a do país, sede do Distrito Federal. A Confederação Brasileira de Futebol (CBD), no entanto, já havia marcado para a mesma data e local a partida entre as seleções carioca e paraense, pelo Campeonato Brasileiro, e não abria mão da data. O calendário estipulou inicialmente que o Honvéd enfrentaria a seleção carioca no dia 16, e em seguida o Flamengo no dia 23 e o Vasco no dia 27.

ENQUANTO ISSO, NA HUNGRIA

O novo governo da Hungria só veio a interferir na vida do Honvéd dez dias depois da desclassificação na Copa dos Campeões. Afinal, não foi só o poder central que passou por mudanças naquelas semanas, com a posse de János Kádar como primeiro-ministro. A chefia da Federação também foi inteiramente destituída, passada ao comando de novos dirigentes interinos. Foram eles que, em 30 de dezembro de 1956, decidiram em reunião extraordinária proibir todos os jogos do Honvéd em outros países.

Os jogadores, que se encontravam em Casablanca (Marrocos), vindos de Paris, fecharam questão em não acatar a ordem do novo comando da Federação e prosseguir com sua excursão – ainda que alguns integrantes manifestassem a intenção de retornar ao país ao fim da viagem. Emil Osterreicher, por sua vez, afirmou que a Federação não tinha o direito de cancelar os jogos, já que os contratos haviam sido assinados e ratificados. E confirmou que a próxima parada seria na Itália, onde os jogadores descansariam, encontrariam suas famílias e jogariam mais algumas partidas, antes de cruzar o Atlântico rumo à América do Sul.

A Federação Húngara logo enviou telegrama à Fifa, lembrando sua nova orientação de proibir o Honvéd de disputar partidas no exterior. O motivo alegado foi o “cansaço” dos jogadores após os jogos que já haviam feito. Mas tratava-se de uma tentativa de impedir que se concretizasse a intenção de parte da delegação de não retornar mais ao país. A entidade maior do futebol não declarava posição. Apenas transmitia a suas filiadas a decisão da Federação Húngara. O Artigo 9º do Regulamento da Fifa previa a suspensão de três meses a um ano para o clube que disputasse partidas internacionais sem permissão das federações nacionais.

A REAÇÃO NO BRASIL

No Brasil, a CBD, presidida por Sílvio Pacheco, embora considerasse louváveis a intenção e o esforço do Flamengo, tinha dois temores: que uma eventual punição da Fifa aos clubes envolvidos respingasse em outros e até na Seleção Brasileira, podendo resultar na expulsão do Brasil das Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, e que a vinda dos húngaros ofuscasse o Brasileiro de Seleções, que começaria a ser realizado naquele mês. Mesmo assim, enviou à Fifa um pedido do Flamengo para que a Federação Húngara reconsiderasse a decisão, o que foi negado pela entidade magiar.

federacao-hungara-irredutivelVasco e Santos, que inicialmente manifestaram interesse em enfrentar os húngaros, acabaram demovidos de suas intenções pelas respectivas federações. Havia também, de ambas as partes, o temor de punições por parte da Fifa. Por outro lado, o clube cruzmaltino, entretanto, também divulgou nota expressando simpatia à causa defendida pelo Flamengo, que no dia 7 de janeiro enviou à delegação húngara as passagens para o Rio, confirmando o desejo de receber o Honvéd.

A Federação Paulista, que previa pena de suspensão de 100 a 365 dias aos seus filiados, caso descumprissem sua ordem, chegou a enviar circular, assinada por seu presidente Mendonça Falcão, na qual proibia qualquer exibição do Honvéd na capital ou no estado de São Paulo.

Na verdade, até a Fifa temia: bastante impopular no continente americano, evitava um envolvimento mais profundo e taxativo no caso com receio de que essa atitude motivasse uma insurreição liderada não só pelos brasileiros, como também por argentinos, uruguaios e colombianos – todos partidários do Flamengo e interessados na vinda do Honvéd – que poderia rachar a entidade. Assim, agia apenas como um garoto de recados, transmitindo de uma parte a outra as decisões tomadas.

bloco-sul-americanoA imprensa brasileira (em sua maior parte favorável à vinda do Honvéd, ao qual se referiu como “o time proibido”) seguiu atentamente o andamento do caso. Alguns cronistas chegaram a contestar a legitimidade da nova diretoria da Federação Húngara, colocada no poder após a destituição da anterior pelo regime de Kádar, para tomar a atitude de proibir a excursão dos craques magiares. Em sua coluna no Jornal do Brasil, o poeta Manuel Bandeira, pernambucano radicado no Rio e um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, escrevia cerrando fileiras com o Flamengo:

“Já fui muitas vezes interrogado por jornalistas ou amigos que queriam saber “qual era meu club”, isto é, porque club de foot-ball eu torcia. Respondi sempre que não tinha nenhuma preferência: torcia pelo conjunto que estivesse jogando melhor ou mais limpamente. Mas fui notando que esta minha disponibilidade escandalizava um pouco e acabei me definindo vagamente pelo Flamengo. ‘Por que?’, interrogou ainda um repórter mais minucioso. ‘Porque acho o nome bonito e é o club do Zé Lins (nota: o escritor paraibano e rubro-negro honorário José Lins do Rego)’. Bem, agora, meus amigos e meus inimigos, sou do Flamengo e rasgado, depois da atitude por êle assumida no caso da equipe húngara”.

ENFIM, O DESENLACE

A questão passou então ao Conselho Nacional do Desporto (CND), que se eximiu de analisa-la por não julgar ser de sua alçada. Entrou em cena a primeira-dama Sarah Kubitschek, que intercedeu junto ao Ministério das Relações Exteriores, o qual autorizou o consulado brasileiro em Milão a conceder o visto de entrada no Brasil à delegação do Honvéd. Os húngaros viriam mesmo.

Puskas atende à imprensa no aeroporto do Galeão.

Puskás atende à imprensa no aeroporto do Galeão.

Sem ter meios de fazer valer seu veto à excursão, restou à Federação Húngara uma medida um tanto extremada: decidiu pela eliminação de todos os integrantes da delegação e os proibiu de usar o nome “Honvéd” nas partidas que disputasse, ao que Emil Osterreicher rebateu: “Não reconhecemos a Federação Húngara de Futebol se esta, por sua vez, não nos reconhecer como o clube Honvéd. Rechaçamos totalmente a decisão parcial determinada por motivos políticos”.

A delegação húngara – os jogadores, o secretário Emil Osterreicher e os treinadores János Kalmár e Bela Guttmann (ex-treinador do clube, convidado para participar da viagem depois de se encontrar com os jogadores em Viena, cidade onde fez carreira como atleta e viva na época), além de um diretor – desembarcou no Galeão no dia 14 de janeiro e teve recepção digna de astros internacionais, diante da multidão que a aguardava.

De lá, partiram para o Hotel Glória, na época um dos mais luxuosos e de maior prestígio do Rio, onde ficariam hospedados. Durante a estadia no Rio, Puskás, Kocsis, Sandor e Budai ainda seriam entrevistados pelo jornalista Luiz Mendes (o lendário “comentarista da palavra fácil”) e o ex-craque Ademir de Menezes para um programa esportivo da TV Rio. E vários jogadores do elenco participariam de animadas peladas na praia de Copacabana.

Da seleção húngara de 1954, entre os que defendiam o Honvéd, vieram o goleiro Gyula Grosics (que na época já havia trocado o clube pelo Tatabanya), o centromédio József Bozsik, e o quarteto de atacantes formado por László Budai, Sándor Kocsis, Ferenc Puskás e Zoltán Czibor. Outros jogadores do Honved que viajaram foram os goleiros Faragó e Garamvolgyi, os zagueiros Rakoczi, Dudas, Banyai e Bagoly e o médio Antal Kotász.

O elenco foi ainda reforçado por jogadores de outros clubes, que resolveram se juntar aos dissidentes. Além de Grosics, também viajaram o zagueiro Mihály Lantos, o ponteiro Károly Sándor, o meia-esquerda Szolnok (todos do Vörös Lobogó, o nome do MTK na época), além de atletas mais jovens, surgidos após o Mundial suíço, como o médio Szabo (do Kinizsi, como era chamado o Ferncváros) e o médio-direito Toroczik. Por fim, também fez parte do grupo o veterano atacante Ferenc Szusza (do Ujpest Dozsa), maior jogador surgido no país antes da geração de ouro.

Os húngaros posam no Maracanã.

Os húngaros posam no Maracanã.

Durante os treinos no estádio da Gávea, novamente acompanhados por uma multidão, os húngaros impressionaram não só pela qualidade técnica como pela potência e precisão de seus chutes – apenas cerca de 25% não atingiam a direção do gol. O calor do verão carioca era forte, mas havia a expectativa de que a aclimatação fosse feita nos dias que antecediam o primeiro jogo, contra o Flamengo no dia 19.

A ESTREIA

Se a temperatura era um problema para os húngaros, o Flamengo, dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, também tinha os seus. Nada menos que quatro titulares desfalcariam a equipe por servirem à seleção carioca naquele mesmo instante: o centromédio Dequinha, os pontas Joel e Zagallo e o centroavante Índio estavam de fora do grande confronto com os húngaros. Além deles, por problemas físicos, o zagueiro Jadir (este afastado há vários meses) e o lateral-esquerdo Jordan também preocupavam. E o ponta-de-lança Dida era dúvida, mas tinha maiores chances de participar.

Solich foi buscar na base alguns dos substitutos: Milton Copolilo entraria na quarta-zaga ao lado de Pavão e Luiz Roberto seria o médio-volante. O ex-banguense Édson ocuparia a lateral-esquerda. No ataque, com o deslocamento de Paulinho da meia para a ponta-direita no lugar de Joel, outro garoto dos aspirantes, Moacir, vestiria a camisa 8. Evaristo seria o centroavante, curiosamente jogando à húngara, recuando até o meio-campo para buscar jogo e abrindo espaço no ataque para as infiltrações de outro jovem, o centroavante Henrique, escalado na ponta-de-lança. Na ponta canhota, no lugar de Zagallo, estava confirmado o miúdo Babá.

O time rubro-negro do primeiro confronto no Maracanã. Em pé: Pavão, Tomires, Ari, Milton Copoliilo, Luiz Roberto e Édson. Agachados: Paulinho, Moacir, Evaristo, Henrique e Babá.

O time rubro-negro do primeiro confronto no Maracanã. Em pé: Pavão, Tomires, Ari, Milton Copolilo, Luiz Roberto e Édson. Agachados: Paulinho, Moacir, Evaristo, Henrique e Babá.

A juventude do time rubro-negro, no entanto, acabou ajudando: se a equipe já praticava um futebol de velocidade e intensidade com seus titulares, a disposição e o fôlego dos garotos que entraram foram de grande valia no primeiro confronto. No dia 19 de janeiro, com o presidente Juscelino Kubitschek nas tribunas do Maracanã e quase 120 mil pagantes no estádio, Flamengo e Honvéd pisaram o gramado para abrir a temporada brasileira de Puskás e cia. O árbitro seria Mário Vianna. E o Ponto Frio, cadeia de lojas de eletrodomésticos, ofereceu uma taça ao vencedor da partida. Foi o acontecimento esportivo do ano.

O começo do time carioca foi arrasador: aos 24 minutos Paulinho bate falta na trave e Moacir apanha o rebote para abrir o placar. Quatro minutos depois, Evaristo recebe de Moacir e serve de primeira para Henrique, descendo pelo lado direito, bater cruzado e rasteiro. Mais quatro minutos e vem o terceiro gol: Kotasz bate lateral para Lantos, que tenta driblar Evaristo e perde a bola. O camisa 9 rubro-negro invade a área e enche o pé. No fim do primeiro tempo o Honvéd desconta com Kocsis, recebendo cobrança de falta rápida de Puskás, limpando a jogada e tirando do goleiro Ari.

O Flamengo voltou com Dida no lugar de Henrique, mas o ritmo intenso não caiu: logo aos nove minutos o garoto alagoano sofre pênalti do goleiro Faragó (substituto de Grosics no intervalo). Paulinho cobra e amplia. Aos 25, em nova falha de Lantos, Evaristo toma a bola e passa de calcanhar a Dida, que avança e bate para marcar o quinto. O Honvéd desconta logo na saída de bola, com Budai se aproveitando da indecisão entre Milton e Ari. Mas Evaristo volta a ampliar (6 a 2) dois minutos mais tarde em jogada individual, descendo pela ponta direita, invadindo a área e disparando um petardo que explode na trave de Faragó e entra.

O Honvéd ainda descontaria mais duas vezes. A primeira logo no minuto seguinte – o jogo era lá e cá – depois que Bozsik lança Kocsis, e este tabela com Puskás e vê o Major Galopante chutar forte. O último gol da tarde sai de pênalti, após falta de Pavão sobre a linha da área, que Puskás converte. Nos vestiários, os húngaros aceitaram o resultado e se recusaram a minimizar a derrota: “Não temos justificativas. Perdemos porque o adversário foi sempre melhor. Jogou com alma, com técnica e com objetividade. O Flamengo foi monstruoso e nós, sinceramente, só temos a admirar sua bela vitória. Um triunfo insofismável”, disse o chefe da delegação, Emil Osterreicher.

Moacir vai às redes, abrindo o placar para o Fla no primeiro jogo.

Moacir vai às redes, abrindo o placar para o Fla no primeiro jogo.

Na noite de quarta-feira, dia 23, veio a partida contra o Botafogo – aliado de última hora do Fla, já com os húngaros no Rio. Ao contrário dos rubro-negros, os botafoguenses fizeram questão de trazer seus jogadores da seleção carioca (Pampolini, Didi, Nilton Santos e Garrincha), o que inclusive gerou atrito com a Federação Metropolitana de Futebol (que comandava o futebol do Rio na época). Mesmo completo, porém, o time alvinegro não resistiu ao Honvéd. Encontrando no Botafogo um adversário ligeiramente mais técnico, mas praticante de um jogo mais lento, cadenciado e menos direto e objetivo que o do Flamengo, a equipe magiar não teve dificuldades para vencer por 4 a 2.

OS HÚNGAROS EM SÃO PAULO

O terceiro jogo seria a revanche do Honvéd contra o Flamengo, marcada para o sábado à noite no Pacaembu. Apesar da proibição da Federação Paulista de Futebol de que a equipe húngara atuasse na capital paulista, os dirigentes do Flamengo pensaram numa estratégia bastante engenhosa para levar o time de Puskás ao público de São Paulo: trataram do caso diretamente com o prefeito Wladimir de Toledo Piza e pediram a cessão do estádio municipal, concedida sem maiores problemas. Para não envolver a FPF, não haveria cobrança de ingressos: o jogo seria realizado com portões abertos.

Disposto a desfazer a má impressão da derrota no primeiro confronto, o Honvéd teve grande atuação. Puskás abriu o placar cobrando pênalti aos 13 minutos. Moacir empatou para o Fla no minuto seguinte e de novo Puskás em nova penalidade recolocou os húngaros na frente aos 40. Na etapa final, logo de início, o Honvéd marcou quatro vezes em dez minutos: Budai aos 3, Puskás aos 9 e 10 e Sandor aos 13. O Fla reagiu no final para diminuir o placar e evitar a goleada, marcando com Evaristo aos 24, Dida aos 36 e novamente Evaristo aos 44. Estavam devolvidos os 6 a 4 do Maracanã.

Ari tenta bloquear o chute forte de Puskás.

Ari tenta bloquear o chute forte de Puskás.

No quarto jogo da excursão – terceiro contra o Flamengo – os húngaros voltariam a vencer, num resultado que surpreendeu até o próprio Puskás, dado o amplo domínio das ações por parte dos rubro-negros. A maior precisão nas finalizações, no entanto, deu a vitória ao Honvéd por 3 a 2: Budai e Sandor abriram dois gols de vantagem no início do primeiro tempo, Henrique e Evaristo empataram antes do intervalo, mas Szusza, cobrando falta, marcaria o terceiro para os magiares na etapa final.

No dia seguinte ao confronto, um fato curioso chegou ao noticiário: os jogadores do Honvéd comemoraram a vitória até altas horas em uma festa no apartamento de um húngaro naturalizado brasileiro na rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, ao som do rock ‘n’ roll.

COMBINADO BOTA-FLA LAVA A ALMA

No dia 7 de fevereiro, o último jogo dos húngaros no Brasil, diante de um combinado Flamengo-Botafogo. Como os jogadores do Fla a serviço da seleção carioca ainda estavam de fora, a defesa do time foi formada em sua maioria por atletas alvinegros, com apenas o zagueiro central Pavão de rubro-negro, além do lateral Tomires, que entrou no decorrer do jogo.

No ataque, porém, a presença de jogadores do Flamengo era maior: Paulinho na ponta-direita, Evaristo como centroavante e Dida na ponta-de-lança, com Didi na meia-direita e Garrincha na ponta-esquerda completando o time inicial. Durante o jogo, Dida seria substituído por Moacir e Paulinho daria lugar ao botafoguense Cañete, com Garrincha retornando à direita.

Na despedida dos húngaros, a exibição dos brasileiros – assim como tinha sido a do Flamengo no primeiro jogo – foi de lavar a alma. O primeiro gol, aos 22 minutos, começou em jogada de Paulinho, passando a Evaristo, que cruzou. A bola chegou a Garrincha na esquerda, e o ponta, na linha de fundo, cortou para dentro e bateu entre o goleiro e dois zagueiros. O empate do Honvéd, aos 35, também veio em jogada fabulosa: Budai lançou Puskás e este passou rasteiro a Kocsis. O centroavante entrou na área, deu um drible desconcertante em Nilton Santos e chutou forte vencendo Amaury.

Três minutos depois, Dida recebeu lançamento de Paulinho e soltou um petardo da entrada da área para recolocar o Combinado em vantagem. Houve ainda na primeira etapa a chance de ampliar o marcador numa penalidade, desperdiçada por Didi. Mas o meia se reabilitaria logo no primeiro minuto da etapa final com um lançamento para Evaristo, que acabou encobrindo o goleiro Faragó, numa saída errada. O centroavante acompanhou a trajetória da bola até a linha de fundo, viu o goleiro voltar e driblou-o, caminhando com a bola até o gol vazio.

Aos 16, após escanteio cobrado com efeito, à meia altura, por Didi, dois zagueiros do Honvéd furam a cabeçada e a bola sobra para Dida escorar. É o quarto gol. O Honvéd desconta com Puskás cobrando pênalti de Amaury em Budai aos 30. Mas um novo pênalti, desta vez a favor do Combinado, vem após toque de mão de Kotasz em jogada individual de Dida. A cobrança de Didi é perfeita, 5 a 2. O sexto e último gol vem já nos descontos, numa linha de passe: Garrincha para Didi, Didi para Moacir, Moacir para Evaristo, que invade a área, passa por dois zagueiros e pelo goleiro Faragó e toca para as redes diante de um Maracanã em êxtase.

combinado-6x2-baileOs húngaros não pouparam elogios: “Foi excelente a exibição do combinado”, disse Puskás após o jogo. Emil Osterreicher, por sua vez, declarou-se surpreso com o alto nível técnico da partida: “Sempre soube, por informação e por ter visto na Europa, ser (o brasileiro) um grande futebol. Mas nunca pensei que fosse tão bom assim como mostrou hoje esse combinado Botafogo-Flamengo”, afirmou ao jornal carioca Última Hora, antes de definir o balanço da temporada no Brasil como “ótimo, melhor do que se previa”.

APÓS A VISITA

Na noite de 12 de fevereiro os húngaros embarcavam no Galeão, deixando o Rio rumo a Caracas, na Venezuela, onde fariam mais dois amistosos contra o Flamengo. No primeiro jogo, dia 16, vitória rubro-negra por 5 a 3: Moacir abriu o placar, Puskás empatou, o Fla marcou mais três vezes com Evaristo (dois) e Dida, antes de Budai descontar. Evaristo voltou a ampliar o placar e novamente Budai deu números finais ao jogo.

No segundo, dia 19, empate em 1 a 1, com nada menos que cinco bolas rubro-negras acertando a trave húngara. Marcaram Puskás para o Honvéd e Evaristo para o Flamengo. No balanço final dos cinco jogos entre o time carioca e os magiares, duas vitórias para cada lado e um empate. Puskás balançou as redes oito vezes. Evaristo, nove.

Evaristo, o artilheiro dos confrontos Fla x Honvéd.

Evaristo, o artilheiro dos confrontos Fla x Honvéd.

Depois desses jogos, O Honvéd partiria para Viena, onde se dissolveria. Alguns jogadores retornaram a Budapeste, mas vários dos principais astros da equipe aceitaram propostas de clubes da Europa Ocidental – mesmo que tivessem de cumprir uma suspensão de um ano, de acordo com a legislação da Fifa. Kocsis e Czibor logo acertaram com o Barcelona (onde reencontrariam o brasileiro Evaristo, negociado pelo Flamengo com o clube catalão). Puskás, depois de flertar com a Inter de Milão, teve como destino o Real Madrid.

Da comissão técnica húngara, Bela Guttmann logo aceitaria proposta do São Paulo, permanecendo no Brasil e trabalhando ao lado do futuro técnico da Seleção Brasileira Vicente Feola. O treinador János Kálmár seria sondado pelo America, mas preferiria migrar para a Áustria, onde dirigiria o Wacker de Viena – ainda naquele ano, entretanto, os rubros contratariam outro técnico húngaro, Gyula Mandi. Emil Osterreicher, por sua vez, seria convidado pelo presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu, para exercer no clube merengue o posto de secretário-geral, o qual aceitaria.

No começo de maio, para dar uma satisfação à Fifa, a CBD puniu Flamengo e Botafogo de maneira protocolar: suspendeu ambos por 45 dias no âmbito internacional, após o fim do Torneio Rio-São Paulo (ou seja, ficariam proibidos de excursionar ao exterior neste período). A punição não durou muito. No dia 8 daquele mês, a entidade nacional recebeu ofício da Federação Húngara endereçado ao presidente da Federação Metropolitana, no qual se lia:

“Os membros da equipe que fizeram uma excursão pela América do Sul retornaram à Hungria. Nossos jogadores foram punidos e não poderão jogar até uma determinada data. Da nossa parte, o assunto está encerrado. (…) Agradecemos vosso empenho e zelo, e temos a certeza que de vossa parte tudo foi feito para impedir a temporada. Rogamos esquecer esse caso e ficamos satisfeitos que nem o Botafogo e nem o Flamengo sejam punidos por essa razão”.

A CBD se decidiu então pelo indulto aos clubes. Apesar dos grandes resultados contra os húngaros, o Fla teria um ano de reestruturação: com a saída de Paulinho para o Palmeiras em abril e de Evaristo para o Barcelona e de Índio para o Corinthians após defenderem o Brasil nas Eliminatórias, um novo ataque precisava ser formado. Foi quando Solich efetivou de vez Moacir, Henrique e Dida para as posições centrais da linha ofensiva, em outra formação clássica.

fla-1957-cropMas esta já é outra história. O que ficou de lição daqueles intensos dias de janeiro e fevereiro no Maracanã (e no Pacaembu) era a de que o Flamengo havia mostrado que sim, o brasileiro podia jogar de igual para igual com as mais decantadas potências europeias. E vencer.

Há 50 anos, um europeu de ouro vestia rubro-negro: Flórián Albert

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Cercado por vascaínos, Albert pula para cabecear em seu primeiro jogo pelo Flamengo, na Gávea

A notícia correu pelas redações dos jornais chegando logo aos olhos e ouvidos dos torcedores naquele início de setembro de 1966: Flórián Albert, atacante da seleção da Hungria que menos de dois meses antes se destacara na Copa do Mundo da Inglaterra, viria jogar no Flamengo emprestado por seu clube, o Ferencváros, e pela federação húngara.

A expectativa de ver vestindo rubro-negro o jogador que destroçara a Seleção Brasileira de Vicente Feola nos gramados ingleses logo tomou conta da cidade. E seria enfim concretizada na tarde de 15 de janeiro do ano seguinte – há exatos 50 anos – em um amistoso contra o Vasco na Gávea.

Albert, que no fim daquele ano receberia o prêmio Bola de Ouro, da revista francesa France Football, como o melhor jogador da Europa (o mesmo concedido ao português Cristiano Ronaldo no fim do ano passado), seria o primeiro detentor do troféu a atuar, ainda que somente em partidas amistosas, por um clube brasileiro. Uma experiência da qual o húngaro nunca se esqueceu e que o Flamengo Alternativo conta agora.

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Flórián Albert e sua “Ballon D’Or”.

OS GRINGOS DE GORANSSON

A vinda de Albert vinha sendo negociada há alguns meses pelo diretor de futebol rubro-negro, o sueco Gunnar Goransson – um representante no Brasil da Facit (empresa de seu país que fabricava máquinas de escrever e outros utensílios de escritório) que se apaixonara pelo Flamengo e passara a integrar a diretoria do clube. Não era, no entanto, o primeiro astro europeu trazido por Goransson para visitar o clube e treinar nele: no ano anterior, o lendário goleiro soviético Lev Yashin – outro ganhador da Bola de Ouro, em 1963 – passara alguns dias na Gávea, treinando e trocando experiências.

No mesmo ano em que Yashin ganhou o prêmio da France Football, aportou na Gávea outro jogador trazido por Goransson, o veloz e driblador ponta-direita Roger Magnusson, seu compatriota, de apenas 18 anos, para um estágio no clube. Mais tarde, depois de passar também pelo Colônia alemão e pela Juventus italiana, o jovem faria história no Olympique de Marselha, onde ganharia o apelido de “Garrincha sueco”. E naquele mesmo segundo semestre de 1966 em que negociava a vinda de Albert, o dirigente traria também outros dois compatriotas seus: o defensor Kurt Axelsson (que mais tarde disputaria a Copa do Mundo de 1970) e o ponta-esquerda Roland “Rimbo” Lundblad.

Inicialmente, chegou-se a cogitar a liberação de Albert ao Flamengo por sete meses, a partir de meados de outubro de 1966. Mas, mais tarde, a federação húngara – que chegara a voltar atrás e vetar a viagem – decidiu limitá-la a apenas um mês, após a virada do ano. O jogador estaria liberado para treinar com o elenco rubro-negro e atuar em amistosos pelo clube, e o empréstimo seria gratuito já que, pelo regime socialista, Albert era futebolista amador.

Ao Flamengo, caberia apenas arcar com as despesas de hospedagem do jogador e de sua esposa, a atriz Irén Bársony. Em troca da permissão, Albert escreveria para a imprensa húngara suas impressões sobre o futebol e os métodos de treinamento brasileiros assim que retornasse – o que o atacante tiraria de letra: sua profissão de carteira era o jornalismo. Colaborava, inclusive, com a agência de notícias húngara MTI.

ALBERT: ESTRELA MAIOR DE UMA NOVA GERAÇÃO HÚNGARA

albert-selecaoPelo Ferencváros, Flórián Albert já tinha conquistado duas vezes a liga húngara e se consagrado o artilheiro do campeonato nacional por três vezes. Também seria fundamental para levantar o título da Copa das Feiras – competição antecessora da Copa da Uefa e da atual Liga Europa – em 1965, deixando pelo caminho potências como Roma, Athletic Bilbao e Manchester United, antes de derrotar a Juventus na decisão por 1 a 0, mesmo jogando apenas uma partida, e no estádio do adversário, em Turim. No ano seguinte, seria o artilheiro da Copa dos Campeões ao lado do português Eusébio com sete gols marcados, além de eleito o melhor jogador húngaro da temporada.

Já pela seleção da Hungria, Albert despontou no time medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960. Marcou cinco gols naquele torneio, incluindo dois na goleada de 7 a 0 sobre a França. Brilhou também em sua primeira Copa do Mundo, no Chile em 1962, quando marcou quatro gols e terminou entre os artilheiros da competição, além de ser eleito a revelação do Mundial com apenas 21 anos de idade.

Depois de disputar a Eurocopa de 1964 e ser incluído na seleção do torneio, voltaria a se destacar numa Copa do Mundo dois anos depois, na Inglaterra. Comandou em campo a vitória da Hungria sobre o Brasil por 3 a 1, na primeira derrota brasileira em um Mundial após o bicampeonato 1958/1962. Aparecendo às vezes na armação do meio-campo, às vezes na área para finalizar, seria um tormento constante para a atarantada defesa da Seleção, juntamente com seus companheiros como o velocíssimo ponta János Farkas e o goleador Ferenc Bene. Naturalmente, ganhou o respeito da imprensa e da torcida brasileiras.

E esse respeito era recíproco, de acordo com as declarações de Albert à imprensa de seu país antes de embarcar para o Brasil: “Se os brasileiros estão interessados em mim, estou ainda mais interessado em estudar seu futebol”, afirmou. Nascido em um país sem saída para o mar, Albert manifestou ainda outro interesse em relação à escola brasileira do esporte: “Também quero ver os meninos jogando futebol nas praias do Rio, centro do talento futebolístico do Brasil”.

A CHEGADA DE UM FÃ DO RUBRO-NEGRO

Albert desembarcou em voo da Air France no Galeão por volta das 22h do dia 7 de janeiro, acompanhado da esposa. No dia 9 foi apresentado ao clube, aos dirigentes e à dupla sueca Kurt Axelsson e “Rimbo” Lundblad. Após bater bola com os dois no gramado da Gávea por cerca de 15 minutos, atendeu à imprensa e revelou ser um sonho defender o Flamengo, o qual conhecera e do qual se tornara um grande admirador em 1954, quando o esquadrão de Evaristo, Joel, Jadir, Pavão e Zagallo, comandado por Fleitas Solich, esteve em Budapeste e goleou por 5 a 0 o Kinizsi, nome do Ferencváros naquele período, com o garoto Florian assistindo a tudo nas arquibancadas.

albert-no-flamengo-diario-do-paranaTambém posou com a camisa 9 do clube para os fotógrafos, e comentou a última Copa do Mundo, lamentando que o futebol técnico de brasileiros e húngaros tivesse sido sobrepujado pelo jogo de mais força física de ingleses e alemães, mas prevendo melhor sorte para o Brasil no Mundial do México, dali a três anos. Também lamentou não estar em sua melhor forma física, já que não atuava há quase três meses, desde o fim da temporada em seu país, e reclamou um pouco do forte calor do alto verão carioca. Curiosamente, porém, recusou um guaraná que lhe foi servido, surpreendendo ao dizer que preferia uma boa cerveja para se refrescar.

No dia seguinte, data da reapresentação do elenco no retorno das férias, teve contato com os demais jogadores – entre eles o lateral-esquerdo Paulo Henrique, adversário na Copa – e participou de atividades físicas. Durante o período em que esteve na Gávea, Albert se empenhou tanto em todas as sessões de treinamento das quais tomou parte que mal teve disposição para atender aos compromissos sociais aos quais fora convidado.

Albert e o lateral rubro-negro Paulo Henrique.

Albert e o lateral rubro-negro Paulo Henrique.

Na sexta-feira, após exercício puxado, compareceu só a uma homenagem que receberia na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), por meio de seu presidente João Havelange. Cansado, acabou “dando bolo” na Estação Primeira de Mangueira, que também preparara uma recepção ao húngaro em sua quadra. Albert acabou representado por sua esposa, que, também ex-bailarina, arriscou um tanto desajeitadamente alguns passos de samba.

Treinando duro para enfrentar o Vasco.

Treinando duro para enfrentar o Vasco.

EM CAMPO

Para mostrar Albert aos torcedores cariocas, o Flamengo acertou com o Vasco a realização de dois amistosos: o primeiro na Gávea no dia 15 e o segundo que acabou sendo realizado no estádio botafoguense de General Severiano no dia 19. Apesar de ser colocada em disputa uma taça – batizada Rivadávia Correia Meyer em homenagem a um dirigente do Botafogo, em retribuição à cessão do estádio do clube para a segunda partida –, o ambiente antes, durante e depois dos jogos fez jus inteiramente ao termo “amistoso”, transcorrendo em total clima de cordialidade entre os clubes, o que talvez pareça hoje difícil de acreditar.

No domingo, 15 de janeiro, às 16h30, as duas equipes entraram em campo sob a arbitragem de Arnaldo César Coelho. O time do Fla, dirigido pelo argentino Armando Renganeschi, ainda mantinha boa parte do setor defensivo das últimas duas temporadas: Murilo, Ditão, Jaime e Paulo Henrique continuavam formando o quarteto da retaguarda, com o capitão Carlinhos de primeiro volante. No gol, Marco Aurélio ganhava uma chance no lugar do antigo titular Valdomiro.

O Fla da estreia. Em pé: Murilo, Jaime, Ditão, Marco Aurélio, Carlinhos e Paulo Henrique. Agachados: Denis, Pedrinho, Albert, César e Osvaldo.

Do meio para a frente, as alterações eram muitas. O paranaense Pedrinho entrava como meia-armador, substituindo Nelsinho, sem condições físicas. Na frente, o ex-juvenil Denis (que voltava de empréstimo ao Danubio uruguaio) começava na ponta-direita, o campineiro Osvaldo Ponte Aérea entrava na esquerda e, pelo meio, substituindo a dupla Almir-Silva, que marcou época entre os torcedores do Fla (o Pernambuquinho cumpria suspensão após o tumulto da decisão do Campeonato Carioca do ano anterior contra o Bangu, enquanto o Batuta tinha sido negociado com o Barcelona), apareciam Albert e um jovem que surgia como promessa da base rubro-negra chamado César (o futuro Maluco do Palmeiras, irmão de Caio Cambalhota e Luisinho Lemos).

O Vasco, por sua vez, tinha como atração maior um antigo ídolo rubro-negro, Zizinho, que estreava como técnico da equipe. Reunia também alguns bons jogadores, como Oldair, Bianchini, Ananias, Nado, Adílson (irmão de Almir) e o uruguaio Danilo Meneses. Havia ainda a previsão de mais novidades, já que os dois clubes acordaram um número ilimitado de substituições.

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Albert acerta a trave em “peixinho” espetacular.

Apesar do forte calor, Albert logo disse ao que viera, criando a jogada do gol de abertura do placar aos 31 minutos de jogo, após tabelar com Osvaldo e iludir a defesa vascaína, antes de servir com um passe espetacular o paranaense Pedrinho, que não desperdiçou. Na etapa final, César fez grande jogada driblando três marcadores e sofrendo pênalti, convertido por Osvaldo aos 12 minutos. A torcida presente em bom número à Gávea aplaudiu o bom futebol mostrado pela equipe, e em especial pelo craque húngaro, que chegara a acertar uma bola na trave em cabeçada.

No dia seguinte à primeira partida, Albert foi homenageado mais uma vez, em coquetel na embaixada da Hungria, ao qual compareceu juntamente com Gunnar Goransson, representando o Flamengo. Na véspera do segundo jogo, o atacante fez um treino leve junto com todo o elenco, após o qual expressou sua profunda gratidão ao Flamengo pela acolhida e pela experiência. Havia dúvidas sobre se participaria da partida inteira, já que esta seria realizada à noite, e ele já tinha voo marcado naquela madrugada seguinte. Nesse caso, um jovem atacante chamado Fio, recém-promovido dos juvenis, já estava de prontidão para substituí-lo.

No treino, com o zagueiro Luís Carlos Freitas logo à frente.

No treino, com o zagueiro Luís Carlos Freitas logo à frente.

Na quinta, 19 de janeiro, Flamengo e Vasco voltaram a campo, agora em General Severiano, em jogo iniciado às 21h. No time do Fla, a única alteração era a entrada do gaúcho Luís Carlos Freitas no lugar de Ditão na zaga. Em uma partida com nível técnico e inspiração inferiores aos do primeiro encontro, o Vasco abriu o placar aos 27 minutos: Bianchini lançou Adílson na área, e o atacante foi derrubado por Murilo. Pênalti que Oldair converteu. Na etapa final, o momento de maior emoção veio aos 30 minutos, quando Albert deixou o campo ovacionado pelo público presente, sendo substituído por Fio.

De lá, partiu direto para o Galeão, onde a esposa o esperava. Apenas no aeroporto soube que o Vasco havia marcado o segundo gol, aos 42 minutos, por meio do ponta-esquerda Morais em posição muito contestada pela defesa do Flamengo. Com a igualdade nos placares (uma vitória de 2 a 0 para cada lado), a taça foi – de comum acordo entre rubro-negros e cruzmaltinos – oferecida ao Botafogo. Era, afinal, o que menos importava. O húngaro agradeceu mais uma vez a oportunidade e declarou que suas quase duas semanas passadas na cidade foram “inesquecíveis”.

Do Rio, embarcou para Lisboa, onde participaria de um amistoso em benefício do zagueiro português Vicente – que, logo após participar da Copa da Inglaterra meses antes, sofrera um acidente e perdera a visão de um dos olhos. A partida também contou com a presença de Pelé. De lá, fez escala em Paris e Viena antes de retornar a Budapeste e ao seu Ferencváros. E, como prometido, publicou suas impressões dos dias de Rio e Flamengo na revista húngara Labdarúgás.

albert-capa-de-revista-hungaraNO RETORNO À EUROPA, A CONSAGRAÇÃO DA ‘BOLA DE OURO’

Ao retornar à Europa, Albert viveria uma grande temporada. Apesar de eliminado da Copa das Feiras ainda nas oitavas de final diante do Eintracht Frankfurt alemão, em partidas disputadas no fim de fevereiro, o atacante terminaria como o artilheiro da competição, com oito gols. Em junho, reencontraria o Flamengo, agora como adversário, defendendo um combinado Vasas-Ferencváros num amistoso em Budapeste. E em novembro, conquistou a liga de seu país e foi eleito o melhor jogador húngaro da temporada.

albert-deixa-o-campoMas um prêmio ainda maior o aguardava: no fim do ano, em 22 de dezembro, Albert seria eleito o melhor jogador europeu de 1967, recebendo a Bola de Ouro da revista francesa France Football. Na soma da votação, que contou com a participação de jornalistas esportivos de 24 países do Velho Continente, o húngaro recebeu 68 pontos, superando por larga margem os 40 do inglês Bobby Charlton, ganhador no ano anterior. Entre outros nomes superados por Albert estavam os alemães Franz Beckenbauer e Gerd Müller, o português Eusébio, o norte-irlandês George Best e o italiano Sandro Mazzola.

Albert encerraria a carreira em 1974, depois de ter conquistado mais um título húngaro (em 1968) e de ter participado da Eurocopa de 1972. Em 1994, seria condecorado com a ordem do mérito em seu país, mas a homenagem mais tocante viria do Ferencváros, que em 2007 rebatizou seu estádio em homenagem ao velho ídolo. Quatro anos depois, em outubro de 2011, viria a falecer em Budapeste após sofrer complicações em uma cirurgia cardíaca, aos 70 anos de idade.

Meses antes de falecer, o ex-jogador foi entrevistado em Budapeste pelo portal Globoesporte.com. Relembrou histórias e casos curiosos de sua passagem pela cidade e pela Gávea, manifestou seu carinho pelo clube (“Além da camisa do Ferencváros e da seleção da Hungria, a única outra que vesti foi a do Flamengo”) e fez questão de ressaltar sua sensação com o feito: “Sim, eu fui o primeiro Bola de Ouro a jogar no Brasil e isso me orgulha muito”.

Figueiredo: Quando a tragédia nos ares foi o luto em vermelho e preto

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A tragédia aérea da última terça-feira, que vitimou praticamente toda a delegação da Chapecoense (jogadores, comissão técnica e dirigentes), além de profissionais da imprensa, a caminho de Medellín, na Colômbia, chocou não só o futebol brasileiro como o do mundo inteiro e provocou gestos emocionados até mesmo de torcedores do Atlético Nacional, adversário do clube catarinense na então iminente decisão da Copa Sul-Americana.

O acidente também evocou traumas de outros clubes que sofreram perdas humanas irreparáveis em desastres semelhantes. O presidente do Torino, clube que perdeu todo o seu elenco multicampeão italiano na colisão da aeronave que transportava sua delegação contra a capela de Superga, em Turim, em 1949, prontificou-se até a acertar um jogo amistoso em compadecimento à dor da Chape. No Brasil, o Flamengo – um dos primeiros clubes a se pronunciar, lamentar o ocorrido e oferecer apoio ao time catarinense nas redes sociais – já viveu seu luto particular pelas mesmas causas: a morte do zagueiro Figueiredo, jovem promissor que fez parte do elenco mais vitorioso da história rubro-negra.

A dor

figueiredo-1980Na manhã de sábado, 22 de dezembro de 1984, o Rio de Janeiro acordou lendo na primeira página dos jornais – em meio a notícias sobre a sucessão presidencial após a última eleição indireta do regime militar e as novidades a caminho do primeiro Rock In Rio, a ser realizado no mês seguinte – uma nota sobre o desaparecimento do zagueiro Figueiredo, do Flamengo. O monomotor em que viajava do Rio para a Bahia, ao lado do piloto, de uma amiga e de Niltinho, irmão do atacante Bebeto, sumira dos radares. E uma testemunha, um lavrador de Cachoeiras de Macacu, então distrito de Nova Friburgo, vira uma pequena aeronave se chocar contra o Pico da Caledônia.

As buscas duraram dois dias, dificultadas pelas chuvas e a forte neblina no local. Mas logo os responsáveis do Parasar e do corpo de bombeiros já desenganaram a família, os amigos, os colegas de clube e os torcedores. O corpo do jogador foi trazido para o Rio na tarde do domingo, 23. E rapidamente o velório foi seguido do enterro no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Entre os presentes, Zico lembrava que o zagueiro “encarnava a fibra rubro-negra. Para ele, treino era jogo”. Já o técnico Zagallo, muito abalado, não se conformava com a decisão do jogador de realizar a longa viagem num avião tão pequeno. Mas foi Andrade quem se lembrou do mais triste: Figueiredo foi enterrado no dia de seu aniversário. Completaria 24 anos naquele domingo.

O início da carreira

Nascido na capital paulista, Cláudio Figueiredo Diz era filho do espanhol Antonio Lago Diz e de Suzana Figueiredo. Depois de passar pela base do Palmeiras e do Nacional paulistano, chegou ao Flamengo em 1978, para atuar nos juvenis, sendo contemporâneo do zagueiro Mozer, do volante Vítor, dos centroavantes Anselmo e Ronaldo Marques, do ponta Édson e de outros jogadores revelados pela sempre prolífica fábrica rubro-negra de talentos daquele tempo. Integrou seleções cariocas e brasileiras da categoria. Chegou a fazer uma precoce aparição no time de cima, em abril de 1979, numa goleada sobre o Fluminense de Friburgo pelo Campeonato Carioca Especial. Seria a primeira de suas 152 partidas vestindo o manto rubro-negro.

Em 1980, com Rondinelli, preparando-se para substituir o "Deus da Raça".

Em 1980, com Rondinelli, preparando-se para substituir o “Deus da Raça” na zaga central rubro-negra.

No fim de junho de 1980, ainda nos juniores, despertou a atenção de um visitante ilustre após atuar numa vitória rubro-negra sobre o Botafogo por 2 a 0 na Gávea pelo Estadual da categoria: o veterano técnico franco-argentino Helenio Herrera, que dirigia o Barcelona e vinha ao Brasil para observar jogadores (no Flamengo, depois de saber que Zico era inegociável, sondou Tita e Nunes). Herrera gostou muito do zagueiro, mas a negociação não passou do interesse, já que o Fla também não tinha a intenção de vender seu jovem talento.

As qualidades que impressionaram o velho Herrera começavam pela excelente impulsão – apesar da baixa estatura (1,77 metro) – conquistada à base de muito treinamento com colete de peso. Além disso, Figueiredo era um zagueiro inteligente, com boa leitura do jogo e do adversário, muito bom nas antecipações e com facilidade de se adaptar ao estilo do atacante que teria pela frente. Era também um marcador duro até nos treinos, mas nunca desleal. Era mais garra, ímpeto, vontade de vencer do que violência pura e simples.

Promovido em definitivo ao elenco principal em 1981, era a quinta opção para o setor: o elenco ainda contava com Luís Pereira (trazido a peso de ouro do Atlético de Madrid em meados do ano anterior), Rondinelli, Marinho e Mozer (este, já há alguns meses entre os profissionais).

No começo de junho, porém, o Flamengo vivia processo de renovação de sua zaga. Luís Pereira já tinha deixado a Gávea para retornar ao Palmeiras, onde fez seu nome. Rondinelli vivia seus últimos meses no clube antes de receber boa proposta do Corinthians e sair em agosto. Havia o retorno de Manguito, que havia embarcado rumo ao Al Nassr, da Arábia Saudita, após o Brasileiro de 1980, e agora estava de volta, mas sem contrato e acima do peso.

Foi quando o técnico Dino Sani resolveu relacionar mais o jovem Figueiredo, utilizando-o a princípio durante os jogos e depois como volante, num curto período em que Andrade e Vítor estiveram lesionados. No jogo contra o Olimpia, no Maracanã, pela Libertadores, enfim começou jogando em sua posição. E daí em diante virou figura frequente na escalação do time (agora dirigido por Paulo César Carpegiani). Chegou inclusive a disputar como titular nada menos que dez dos 14 jogos da campanha vitoriosa na Libertadores – número inferior apenas ao de Mozer entre os zagueiros –, além de outros dois vindo do banco. E participou também desde o início de jogos importantes do Fla no período, como a histórica goleada de 6 a 0 sobre o Botafogo pelo Campeonato Carioca.

Flamengo x Cobreloa em Santiago

Nas três grandes decisões daquele fim de ano, porém, ele quase não esteve em campo. Depois de enfrentar o Cobreloa no Maracanã e em Santiago, um estiramento no músculo adutor o tirou do terceiro jogo, em Montevidéu. No jogo do título carioca, a vitória de 2 a 1 sobre o Vasco, Figueiredo entrou em campo apenas no fim do jogo, no lugar de Junior. E em Tóquio, contra o Liverpool, acabou assistindo do banco a conquista do título mundial, devido ao mesmo problema no adutor. De marcante, além da comemoração com os companheiros, apenas a tatuagem no braço direito (um golfinho) que fez durante a escala em Los Angeles, junto com Leandro e Mozer.

A primeira grande decisão

No ano seguinte, Carpegiani decide manter de início a dupla de zaga das decisões. Nas primeiras fases do Brasileiro de 1982, Figueiredo faz apenas uma partida – e joga mal. Escalado de improviso na lateral-direita contra o Atlético-MG no Maracanã, é expulso ainda no primeiro tempo após uma falta em Reinaldo. Mesmo assim, o Fla (que perdia por 1 a 0) vira o jogo com um a menos e vence por 2 a 1. Mas quando Mozer se lesiona na partida de ida das quartas de final contra o Santos no Maracanã (outra vitória rubro-negra de virada por 2 a 1) e fica de fora do resto da competição, Figueiredo ganha sua grande chance.

A grande atuação na partida de volta – empate em 1 a 1 no Morumbi – credencia o jovem zagueiro de 21 anos a permanecer no time. O Jornal do Brasil avaliou assim seu jogo: “Teve uma atuação seguríssima e foi, logo depois de seu companheiro de zaga Marinho, o melhor do time”. Na semifinal, contra o Guarani, mais duas grandes atuações, anulando Careca completamente, tanto no Maracanã quanto no Brinco de Ouro. No jogo da volta, em Campinas, sofreu inclusive um pênalti claro não marcado pelo árbitro, numa raríssima projeção ao ataque.

Nos jogos finais contra o Grêmio voltou a ter grandes atuações, crescendo a cada jogo, até a partida irretocável no terceiro e último jogo, no Olímpico. E o mesmo JB o apontou como o melhor da zaga, superior até a Marinho: “Irrepreensível nas disputas altas ou rasteiras, não perdeu um lance”.

O time rubro-negro da decisão do Brasileiro de 1982. Figueiredo é o terceiro em pé, da esquerda para a direita, ao lado do goleiro Raul.

O time rubro-negro da decisão do Brasileiro de 1982. Figueiredo é o terceiro em pé, da esquerda para a direita, ao lado do goleiro Raul.

Em agosto, no entanto, uma torção no tornozelo o tirou do time por um mês, propiciando o retorno de Mozer, já recuperado de sua lesão. Mas os papeis se invertem no começo do mês seguinte, quando Mozer se lesiona em um amistoso em Fortaleza, e Figueiredo retorna à zaga a partir da vitória sobre o America por 3 a 2, pela Taça Guanabara, permanecendo até o fim do ano, atuando em 19 das 22 partidas da equipe no período.

Chega 1983, e Mozer e Marinho voltam a estar em alta. Tanto que ambos ganham uma chance na Seleção Brasileira do novo técnico Carlos Alberto Parreira. Mas novamente Figueiredo arranja um jeito de sair na foto de campeão. Entra em campo 21 vezes (17 como titular) nas 32 partidas oficiais do Flamengo naquele primeiro semestre, entre Campeonato Brasileiro e Taça Libertadores. E na final do Brasileiro, nos 3 a 0 impostos ao Santos no Maracanã, lá estava ele substituindo Mozer no time titular e cumprindo atuação cinco estrelas, pela avaliação do Jornal do Brasil. Anulou o centroavante Serginho Chulapa a ponto de o camisa 9 santista se irritar após o fim do jogo e agredir jornalistas à beira do campo.

O melhor momento

Entretanto, logo após o fim do Brasileiro, voltaria ao banco de reservas. O que o ajudaria, porém, a passar quase incólume pela crise técnica (e até administrativa) na qual o clube mergulharia após a saída de Zico. Sua sorte – e a do Flamengo – começaria a virar com a chegada do técnico Cláudio Garcia, na virada da Taça Guanabara para a Taça Rio. Durante a passagem do novo comandante, entre o fim de setembro de 1983 e o de maio de 1984, viraria titular absoluto. Disputaria, sempre desde o início, nada menos que 41 das 46 partidas do Flamengo sob a direção do treinador. A ponto de Marinho, outrora dono da posição, ser negociado com o Atlético-MG.

Nesse período, Figueiredo fez grande dupla com Mozer, mais ou menos delineando a velha ideia de “beque central” e “quarto zagueiro”. Enquanto seu companheiro de miolo de zaga vivia talvez seu melhor momento no Flamengo, física e tecnicamente exuberante, dando-se ao luxo de sair jogando como se fosse um meia, em espetaculares arrancadas para o ataque, e de ser um dos cobradores de falta daquela equipe, Figueiredo era seu contraponto: raramente se aventurava à frente (menos até do que Marinho), mas se mostrava impecável nas tarefas defensivas, perfeito pelo alto, firme e preciso nos desarmes e inteligente na antecipação. Era como se Mozer fosse o zagueiro “louco” e Figueiredo, o sério.

Figueiredo capa Placar 1983Fora dos gramados, o jogador teve uma experiência inusitada nessa mesma época. Em todo o país, vivia-se o tempo das manifestações populares pelo retorno das eleições diretas para a Presidência da República e o chamado movimento “Diretas Já”. Os torcedores rubro-negros (que já haviam criado a torcida Flanistia, em 1979) não poderiam ficar de fora: um grupo fundou, no início de 1984, a torcida Fla-Diretas e escolheu – pela ironia envolvendo os sobrenomes do jogador e do presidente militar João Baptista de Oliveira Figueiredo – o zagueiro como padrinho (ao lado do ex-mandatário rubro-negro Márcio Braga e da atriz Christiane Torloni). Convencido pelo ponta Lico, seu companheiro do Fla e interessado em política, o jovem central rubro-negro acabou topando.

Em meados de 1984, no entanto, uma combinação de fatores acabaria por encerrar sua grande fase. Primeiro veio a demissão de Cláudio Garcia – apesar da campanha irretocável na primeira fase da Libertadores – pouco depois da eliminação nas quartas de final do Brasileiro, após uma derrota desastrosa para o Corinthians no Morumbi. O veterano Zagallo entraria em seu lugar. Depois, uma sequência de lesões: teve afundamento do malar e fratura da mandíbula num choque sofrido em amistoso contra o Treze, em Campina Grande (PB), e logo após retornar, quebrou o punho na partida em que o Fla venceu o Grêmio por 3 a 1 no Maracanã pela fase semifinal da Libertadores.

Na despedida, um presente do acaso

figueiredo-84Quando finalmente se livrou das lesões, Figueiredo encontrou a defesa rubro-negra já inteiramente reconfigurada por Zagallo. Contratado do America para suprir a saída de Junior para o Torino, o jovem Jorginho se firmava, mas não na lateral-esquerda (onde o garoto Adalberto, da base rubro-negra, crescia a olhos vistos) e sim na direita. Enquanto isso, daquela posição, Leandro finalmente tinha atendido seu desejo de passar definitivamente para a zaga central – por conta dos velhos problemas nos joelhos, era impossível continuar apoiando o ataque com a mesma frequência e qualidade. E Mozer, ainda irretocável, era o dono da quarta-zaga.

Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto formariam, assim, a linha defensiva rubro-negra para aquele segundo semestre de 1984. Figueiredo teria poucas oportunidades de jogar. Entraria em campo apenas quatro vezes pelo Campeonato Carioca, sendo duas como titular. A última delas, no entanto, seria marcante – apesar da derrota para o Fluminense por 2 a 1, na última rodada da Taça Rio.

Naquele dia, Figueiredo ficaria mais uma vez no banco. Mas o destino teria outros planos: Tita sentiu lesão e não passou no teste físico no vestiário, minutos antes de o time entrar em campo. Zagallo então, decidiu deslocar Leandro como meia-armador. E Figueiredo entrou na zaga – com a camisa de Tita. E aí deu-se a incrível coincidência, como uma espécie de homenagem, antes que qualquer pessoa e que o próprio zagueiro soubesse do que aconteceria dali a algumas semanas. No último jogo de sua vida, Figueiredo entrou em campo no Maracanã vestindo a lendária camisa 10 rubro-negra.

(Relembre aqui a matéria do Globo Esporte sobre a última homenagem a Figueiredo em dezembro de 1984)

Há 60 anos, Fla arrasava São Cristóvão na maior goleada da história do Maracanã

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Em suas mais de seis décadas de existência, o Maracanã presenciou inúmeras goleadas. Entre clubes e seleções, equipes grandes e pequenas, cariocas e de fora do Rio, brasileiras e estrangeiras, em clássicos, decisões e amistosos. Mas nenhuma das registradas até hoje foi mais dilatada que a imposta pelo Flamengo há exatos 60 anos, empilhando uma dúzia de bolas nas redes do São Cristóvão na tarde de 27 de outubro de 1956, em partida válida pelo Campeonato Carioca daquele ano. Uma dúzia lembra feira. E o que se viu naquele dia foram gols rubro-negros a granel: 12 a 2, placar superlativo nunca ultrapassado no velho (e no novo) maior estádio do mundo.

Curiosamente, não era a primeira vez naquele ano em que o Flamengo marcava uma dúzia de gols numa partida. No dia 7 de junho, durante excursão à Europa, o time rubro-negro havia aplicado um 12 a 1 diante do Brann, da cidade de Bergen, na Noruega (com quatro gols de Henrique, além de Paulinho, Babá, Evaristo e Rubens com dois cada). Mas, àquela altura, o futebol no país escandinavo atravessava um estágio de completo amadorismo.

Evaristo, capitão do Fla na partida, troca flâmulas com seu colega do São Cristóvão.

O atacante Evaristo, capitão do Flamengo na partida, troca flâmulas com seu colega Benedito, do São Cristóvão.

Além disso, em que pese a frequência com que goleadas retumbantes eram impostas no futebol daquela época, em razão da diferença de nível técnico entre grandes e pequenos, um placar tão dilatado não era, absolutamente, algo esperado para aquele confronto. Principalmente porque o São Cristóvão, após um começo ruim, vinha se creditando a sensação, ou o “fantasma” do campeonato, como se dizia na época – apelido bem apropriado, aliás, para uma equipe de uniforme inteiramente branco.

O clube alvo retornava de uma bem-sucedida excursão à Turquia quando, no dia 14 de outubro, em seu estadinho de Figueira de Melo, recebera o Bangu pela abertura do returno do Campeonato Carioca. Tendo Zizinho como principal estrela, além de grandes jogadores como Zózimo, Nívio, Calazans e Décio Esteves, o Alvirrubro era o favorito, mesmo jogando fora de casa. Mas perdeu por 1 a 0, gol de Nonô.

Uma semana depois, na segunda rodada do returno, foi a vez do America – na ocasião, nada menos que o líder do campeonato ao lado do Vasco – levar Pompeia, Canário (ponta que depois defenderia o Real Madrid), Leônidas “da Selva”, Alarcón, Ferreira e seus outros craques ao estádio do São Cristóvão. Depois de abrir o placar com Washington e desperdiçar um pênalti, o time rubro sucumbiu à pressão e ao jogo mais intenso da equipe sancristovense, que empatou com Paulinho.

A equipe do São Cristóvão, candidata a sensação do Campeonato de 1956, posa em seu estádio de Figueira de Melo.

A equipe do São Cristóvão, candidata a sensação do Campeonato de 1956 até enfrentar o Fla, posa em seu estádio de Figueira de Melo.

A repercussão dos dois últimos resultados na imprensa e no público foi enorme. A revista Esporte Ilustrado chegou a anunciar em chamada na capa da edição de 25 de outubro, que trazia a cobertura do jogo contra o America: “Os cadetes metem mêdo”.

Dois dias depois da data da publicação, seria a vez de o time alvo enfrentar o Flamengo no Maracanã, no jogo de sábado à tarde, abrindo a terceira rodada do returno. Confiantes, repetiam a escalação das duas partidas anteriores: o jovem Rui, que havia ganhado a posição antes do jogo com o Bangu, era o goleiro. Jorge e Ivan completavam a defesa. A linha média tinha Benedito, Osmindo e Décio. E o quinteto ofensivo alinhava Paulinho, Nonô, Ademar, Neca e Olivar.

O Flamengo dirigido por Fleitas Solich também mantinha sua escalação dos dois jogos precedentes, com Ari efetivado no gol no lugar do argentino Chamorro – o que não significava, entretanto, a presença de todos os demais titulares incontestáveis: Jadir e Dequinha, peças fundamentais da defesa e do meio-campo, respectivamente, estavam fora por lesão. O clube rubro-negro buscava o tetracampeonato carioca, mas já havia perdido pontos preciosos (por exemplo, ao empatar com o Bonsucesso na abertura do returno) e ocupava apenas a terceira colocação no certame. Buscava, portanto, a reação a qualquer custo para seguir com chances.

Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagallo: a linha de ataque do Flamengo contra o São Cristóvão.

Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagallo: a linha de ataque do Flamengo que demoliu a defesa do São Cristóvão.

Às 15h15 foi dado o pontapé inicial. Mal se arvorou o São Cristóvão no ataque, e logo em seguida o Flamengo abriu a contagem. Evaristo invadiu a área e bateu forte. Décio bloqueou, mas a bola sobrou para Índio chutar por elevação, encobrindo Rui. Enquanto buscava o couro no fundo das redes, o arqueiro cadete mal imaginava que repetiria tantas vezes o gesto naquela tarde. “Do jogo propriamente dito, só há a registrar-se os ‘goals’”, desculpou-se a Esporte Ilustrado aos leitores por ver sua crônica do jogo quase reduzida à mera descrição dos tentos.

No primeiro tempo, porém, o escore foi até modesto da parte do Flamengo: só aos 18 minutos as redes alvas balançariam novamente. Joel desceu pela ponta direita e centrou. Evaristo, na pequena área, arrematou de calcanhar. Aos 31, o centromédio Luís Roberto, substituto de Dequinha, apanhou uma bola espanada por Jorge e bateu de fora da área. E cinco minutos depois, Evaristo recebeu de Índio para marcar o quarto.

Luís Roberto, médio rubro-negro e autor de um dos gols.

O médio Luís Roberto, autor de um dos gols.

Com a goleada já decretada, imaginava-se que o São Cristóvão se fecharia na defesa durante a segunda etapa para se poupar de algo pior. Não foi, porém, o que aconteceu. A equipe alva retornou com o mesmo desprendimento defensivo, por assim dizer, e tentando se lançar ao ataque. E veio então a enxurrada de gols rubro-negros. Logo aos sete minutos, Índio foi lançado por Joel e marcou o quinto. Dois minutos depois, o próprio Joel aproveitou o rebote de Rui e fez o sexto. E aos 16, Índio anotou mais um, o sétimo, após assistência de Evaristo.

Na tentativa de salvar um pouco a honra, o São Cristóvão descontou aos 17, depois de Nonô disputar a bola com o goleiro rubro-negro Ari. E após Evaristo fazer o oitavo gol do Flamengo no minuto seguinte, descontou pela segunda vez com Neca, cobrando pênalti de Tomires em Nonô. Mas o Flamengo cavaria mais fundo: aos 32, Paulinho recebeu de Índio e lançou o centroavante na corrida para fuzilar Rui.

Desestabilizada, a defesa sancristovense conseguiu falhar até em cobrança de tiro de meta: Evaristo recolheu o chute torto de Ivan e bateu para as redes, marcando o décimo. Paulinho, aos 41, e Joel, aos 45, completariam a dúzia de tentos rubro-negros. E foi isso: com o escore de DOZE a dois a favor do Flamengo, nem houve nova saída. O lendário Mário Vianna, árbitro da partida – e ironicamente torcedor confesso do São Cristóvão – pôs ponto final num massacre que até hoje o estádio não viu igual.

Evaristo marca um de seus quatro gols em foto da Esporte Ilustrado.

Evaristo marca um de seus quatro gols em foto da “Esporte Ilustrado”.

A contagem daquela tarde superava e muito o placar mais dilatado registrado até então nos pouco mais de seis anos de existência do Maior do Mundo: a vitória do Brasil sobre a Suécia por 7 a 1 na Copa do Mundo de 1950. E pelas próximas décadas, a batelada de gols daquele Flamengo x São Cristóvão seguiu inalcançável. Duas goleadas por 9 a 0 – do Fluminense sobre o Goytacaz em 1976 e depois do mesmo Flamengo sobre a Portuguesa da Ilha do Governador em 1978 – foram o mais perto que se chegou na velha configuração do estádio.

Até acontecer em 2013, já com o Maracanã transformado em arena, o insólito duelo entre a poderosa seleção da Espanha, campeã mundial, e a modesta equipe do Taiti, em partida válida pela Copa das Confederações da FIFA. A Roja até conseguiu igualar a margem de gols, vencendo por 10 a 0. Mas não chegou à dúzia de bolas na rede proporcionada pelo ataque rubro-negro quase 57 anos antes.

O Flamengo, como já lembramos no post sobre o épico Fla-Flu do primeiro turno daquele campeonato de 1956, não chegaria ao tetra, perdendo pontos fundamentais aqui e ali. Mas naquele 27 de outubro escreveu com muitos gols uma página não só de sua própria história, mas também do velho templo do futebol carioca. Um dia em que o garoto do placar do Maracanã trabalhou bem mais do que o de costume.

FLAMENGO 12 x 2 SÃO CRISTÓVÃO

Maracanã, sábado, 27 de outubro de 1956.
Campeonato Carioca – 14ª rodada (terceira do returno).
Renda: Cr$ 327.587,40.
Árbitro: Mario Vianna.
Gols: Índio aos três (1-0), Evaristo aos 18 (2-0), Luís Roberto aos 31 (3-0), Evaristo aos 36 (4-0) do primeiro tempo. Índio aos sete (5-0), Joel aos nove (6-0), Índio aos 16 (7-0), Nonô aos 17 (7-1), Evaristo aos 18 (8-1), Neca de pênalti aos 22 (8-2), Índio aos 32 (9-2), Evaristo aos 38 (10-2), Paulinho aos 41 (11-2), Joel aos 45 (12-2) do segundo tempo.

Flamengo: Ari; Tomires e Pavão; Milton Copolilo, Luís Roberto e Jordan; Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagalo. Técnico: Fleitas Solich.

São Cristóvão: Rui; Jorge e Ivan; Benedito, Osmindo e Décio; Paulinho, Nonô, Ademar, Neca e Olivar. Técnico: Índio.

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25 anos sem Doval, ídolo argentino de raça, malícia e talento em vermelho e preto

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doval-fla-1-novaO verão de 1972 em Ipanema se tornaria um marco para a história e a cultura (e a contracultura) da cidade do Rio de Janeiro. Por linhas para lá de tortas, é verdade. Aconteceu que a prefeitura decidiu dividir ao meio a faixa de areia da praia para as escavações necessárias à construção de um emissário submarino, a tubulação de saneamento do bairro da Zona Sul carioca. E para sustentar e firmar essa tubulação foi erguido um monstrengo gigantesco de madeira e ferro apontando bem para dentro do mar: era o chamado “píer” de Ipanema.

A construção do píer provocou duas alterações naturais consideráveis no local: primeiro, a estrutura de madeira sob as águas formava ondas perfeitas para o surfe; e segundo, a areia retirada do local da obra e espalhada para os lados provocou a formação de dunas artificiais. E por trás daquelas dunas – apelidadas “do Barato”, ou “da Gal”, em homenagem à cantora Gal Costa, que vivia por lá – fez-se uma pequena revolução comportamental: em meio a uma fauna de artistas, músicos, jornalistas, poetas, intelectuais, hippies e surfistas, muita música foi composta, grupos de teatro foram criados, modas foram lançadas, gírias se espalharam. Aquela estação seria eternizada como o “Verão do Píer”.

Aquele verão em Ipanema marcaria também o retorno ao Rio de um dos mais famosos frequentadores daquela faixa de areia: o argentino Narciso Horácio Doval, 28 anos completos naquele mês de janeiro, atacante que voltava a integrar o elenco do Flamengo após passagem por empréstimo pelo Huracán de sua terra natal. Daquele período em diante, Doval viveria seus anos mais intensos no futebol carioca, consolidando-se como grande ídolo da massa e verdadeiro personagem da Zona Sul da cidade.

O começo em Boedo e os “Carasucias”

Antes, é claro, muita bola já havia rolado, no Rio e em Buenos Aires. O começo de tudo foi precisamente em Palermo, bairro nobre onde nascera e fora criado, e onde costumava se destacar nas peladas. Chamou a atenção do San Lorenzo, passando às categorias de base do clube e estreando entre os profissionais em 1962, no momento em que o clube de Boedo revelava um ataque demolidor. Alinhavam “El Loco” Doval na ponta-direita, Fernando Areán, Héctor “Bambino” Veira, Victorio Casa e Roberto “Oveja” Telch. Todos com idades entre 17 e 22 anos.

doval-san-lorenzo-2Prontamente apelidados “Los Carasucias” (ou “os cara-sujas”, expressão da época equivalente a “moleques”), jogavam um futebol de técnica refinada combinada à malícia própria da juventude. Os títulos, no entanto, não vieram num primeiro momento. Mas Doval teria seu talento reconhecido em 1967, ano de sua primeira (e, logo se saberia, a única) convocação para a seleção argentina, em agosto daquele ano, para um amistoso contra o Chile em Santiago.

No entanto, o atacante cairia em desgraça num incidente até hoje mal explicado: explodiu contra ele a acusação de ter assediado uma aeromoça durante um voo com o elenco sanlorencista – alguns diriam com a própria seleção. Comenta-se que Doval teria assumido a culpa para livrar a cara de um colega casado do elenco. A punição inicial de um mês de suspensão acabaria passando a dez, depois de Doval se envolver em uma polêmica com o interventor da AFA, enquanto tentava provar sua inocência. Ironicamente, acabaria de fora de toda a campanha do título invicto do clube no Campeonato Metropolitano, quando Los Carasucias acabaram convertidos em Los Matadores.

O “Gringo” aporta na Gávea

doval-chega-1969Treinava aquele San Lorenzo campeão de maneira irretocável o brasileiro Elba de Pádua Lima, o Tim, “El Peón” para os argentinos. Excelente organizador tático e raposa velha do futebol, o técnico deixaria Boedo para retornar ao Brasil assinando com o Flamengo para a temporada 1969. Mesmo com as vagas de estrangeiros do elenco rubro-negro já preenchidas pelo zagueiro uruguaio Manicera e o volante paraguaio Reyes, Tim recomendou outros reforços sul-americanos ao chegar, entre eles Doval. Mas as negociações com “El Loco” só seriam retomadas em abril. No dia 11 daquele mês, o atacante assinaria com o Flamengo.

O jovem Flamengo de Tim vinha oscilando naquele início de Campeonato Carioca, mas pouco depois da entrada de Doval, engatou uma boa sequência de resultados, como um espetacular 3 a 0 diante do Vasco, que o colocaram na briga pelo título contra o Fluminense e o Botafogo. Contra o time de General Severiano, aliás, Doval teria atuação destacada (inclusive marcando o segundo gol) na memorável vitória do Fla por 2 a 1, encerrando um jejum de quatro anos sem derrotar o Alvinegro pelo Estadual. Aquela partida também entrou para a história por um fato curioso: antes do jogo, um grupo de torcedores rubro-negros levara um urubu ao Maracanã, soltando a ave minutos antes da entrada das equipes. O bicho sobrevoou o estádio para o delírio da torcida, encerrando ali a conotação pejorativa do termo pelo qual os torcedores do Flamengo, em sua maioria negros e pobres, costumavam ser chamados pelos rivais.

O time rubro-negro treinado por Tim no Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

O time rubro-negro treinado por Tim no Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

Aquele time rubro-negro, entretanto, não conquistaria o Carioca, parando diante dos tricolores em um Fla-Flu épico pela penúltima rodada. O Fluminense venceu por 3 a 2, e o caneco tomou o rumo das Laranjeiras. Embora já tivesse conquistado a torcida rubro-negra com inúmeras provas de sua categoria e raça, e contasse com um entusiasta de seu futebol no comando da equipe, Doval veria sua presença entre os titulares tornar-se mais intermitente até o fim daquele ano, já que Tim em vários momentos precisava recorrer aos demais estrangeiros do elenco. E diante da má campanha na Taça Guanabara (na época, um torneio à parte do Estadual) e no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o velho treinador deixaria o clube ao fim daquele ano.

Com Yustrich, atritos frequentes e empréstimo ao Huracán

Se o entendimento entre Doval e Tim era excelente desde os tempos de Boedo, com o novo treinador rubro-negro a história seria completamente diferente: Dorival Knippel, o Yustrich. Homem com fama de truculento, intransigente, centralizador, disciplinador, passional e até agressivo, era para os cartolas do Fla o nome ideal para colocar “na linha” um elenco jovem e tido como um tanto indolente. Com seu esquema apelidado de “cavadinha”, que consistia nos lançamentos em profundidade feitos pelos pontas, além de incessante marcação por pressão na saída de bola do adversário, o time começou o ano de 1970 atropelando: na conquista do Torneio Internacional de Verão, um quadrangular disputado em fevereiro no Rio de Janeiro, o Fla goleou a seleção da Romênia (4 a 1), o Independiente argentino (6 a 1) e bateu o Vasco por 2 a 0 para ficar com o título. Doval balançou as redes três vezes nas duas primeiras partidas.

Mas logo no início da Taça Guanabara – mais uma vez disputada como torneio à parte, e durante todo o primeiro semestre – os atritos entre o técnico e o atacante desatariam. Doval reclamava que o esquema o transformava num lateral, resumindo-se a cumprir funções táticas de maneira burocrática, quando o que queria na verdade era jogar solto, para desenvolver melhor seu futebol intuitivo. E, para piorar, era frequentemente substituído por Yustrich durante os jogos, dando lugar a jogadores bem menos brilhantes, mas mais disciplinados. Assim, o Gringo oscilou durante a longa disputa do torneio, entrando e saindo do time, mas afinal ajudando na conquista do título, após empate em 1 a 1 com o Fluminense em 31 de maio daquele ano.

No segundo semestre, após a Copa do México, viria o Estadual. Foi aí que a tensão chegou a seu primeiro auge: “Yustrich está matando meu futebol”, vociferou o argentino em entrevista à Placar. E a perseguição do treinador, segundo ele, extrapolava o campo: “Yustrich se mete na vida de todo mundo. Eu sei que ele não gosta do meu cabelo, das minhas roupas coloridas e do meu carro cor de laranja. E ninguém pode namorar”, escancarou. Sacado do time, Doval viu o Flamengo estagnar no Carioca após um bom começo e terminar apenas na quinta colocação. Um breve momento de trégua com Yustrich veio durante o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, quando, diferentemente dos anos anteriores, o Rubro-Negro cumpriu excelente campanha, brigando até o fim pela classificação, mas acabando de fora do quadrangular final após uma derrota para o Corinthians no Pacaembu na última partida, perdendo a vaga no saldo de gols.

No fim de março de 1971, como já se recusasse deliberadamente a obedecer às ordens do treinador – que o tachara de “doente mental” pelo jeito considerado indisciplinado –, Doval pediu para ser negociado e acabou emprestado ao Huracán, que montava um bom time, até o fim daquele ano.

Os melhores anos

doval-placar-1Com o fim do empréstimo, Doval retorna ao Flamengo e assina novo contrato em 17 de janeiro de 1972, realizando um sonho: com o dinheiro das luvas, compra um apartamento na rua Visconde de Pirajá, próximo à praça General Osório, em Ipanema. Agora oficialmente morador do bairro, estava completamente integrado à vizinhança. Esbanjando carisma e irreverência, era o argentino mais carioca de todos. Saía dos treinos na Gávea direto para a praia, onde jogava vôlei (e uma nova modalidade recém-criada, o futevôlei), bebia seu chope no tradicional bar Veloso, corria com os amigos Marcos e Paulo Sérgio Valle – os irmãos compositores de “Samba de Verão”, sucesso internacional, e outras canções clássicas da música popular brasileira – e aproveitava para dedicar-se a sua outra grande paixão: as mulheres.

doval-ipanema-2Loiro, olhos azuis e agora novamente de cabelos compridos e esvoaçantes (já que se livrara de Yustrich), Doval fazia o tipo galã. O ponto da praia em que ele e os irmãos Valle – o apelidado Trio Colírio – se encontravam recebia um séquito de garotas de toda a Zona Sul, fãs e tietes do atacante argentino. Emérito paquerador e sedutor incorrigível, Doval estava em casa: “Gosto muito de duas coisas nesse mundo: mulheres e praia. Sou louco por uma praia e gosto, mas gosto mesmo, de mulheres”, confessava à revista Placar.

Feliz por estar de volta a tudo o que amava, Doval só poderia retribuir em campo. Começaria naquele ano a fase em que se converteria definitivamente em ídolo, amado pela torcida do Flamengo e respeitado pelas adversárias, admirado pelos companheiros e temido pelos zagueiros. Era um atacante de muita qualidade técnica, mas era pela raça, garra e valentia que se destacava. Poderia jogar aberto pela ponta-direita ou dentro da área, onde preferia, como centroavante ou ponta-de-lança. Nunca se omitia. Não raro, deixava o campo com a camisa ensanguentada. Apanhava dos beques, mas batia de volta. Prendia a bola na frente, segurava a defesa. Catimbava e cavava faltas, mostrando que aprendera bem seu ofício em Boedo. E quando balançava as redes, corria em direção à geral do Maracanã, para receber o carinho da massa.

doval-fla-2O bom elenco reunido pelo Flamengo naquele ano também ajudou na recuperação de seu futebol. Agora treinado por Zagallo, o clube da Gávea havia se reforçado com o meia-atacante Paulo César Caju (contratado do Botafogo), o goleiro Renato (ex-Atlético-MG) e o volante Zé Mário (vindo do Bonsucesso). Além disso, a classe e a segurança de Reyes na zaga, a afirmação de jogadores como Liminha, Arílson e Rodrigues Neto, a recuperação física de Zanata e a boa fase de Caio eram notícias animadoras.

Assim, o time que já havia levantado outro Torneio Internacional de Verão (este, contra o Benfica – no jogo do gol de placa e de música de Fio “Maravilha” – e o Vasco), contou agora com atuações espetaculares do “Diabo Loiro” para conquistar também o Torneio do Povo, derrotando o Corinthians no Pacaembu, o Bahia na Fonte Nova, o Atlético-MG no Maracanã e empatando com o Internacional, também no Rio.

Em seguida viriam os títulos da Taça Guanabara – disputada pela primeira vez como o turno de abertura do Estadual e vencida com goleada de 5 a 2 sobre o Fluminense – e, já em setembro, do Campeonato Carioca, novamente com vitória sobre o Tricolor, desta vez por 2 a 1. Coube a Doval a abertura do placar, subindo mais que toda a defesa do Flu para marcar de cabeça. Aquele seria o 16º gol do argentino na competição, o que lhe daria a inédita artilharia do torneio.

Em 1973, é promovido de vez ao elenco profissional do Flamengo um garoto que Zagallo havia deixado quase todo o ano anterior na equipe de juvenis para completar sua formação. Um jovem chamado Zico, que será por vezes escalado como meia-armador, mas na maior parte do tempo passará a temporada como reserva imediato de Doval, tanto na ponta-direita quanto na ponta-de-lança. Enquanto isso, o Gringo mantinha a grande fase, agora tendo Dario, o Dadá Maravilha, como parceiro pelo centro do ataque numa tabelinha que virou música. No entanto, uma torção em um dos joelhos o tirou das partidas finais do Campeonato Carioca, conquistado pelo Fluminense. No fim do ano, porém, teria a honra de participar do jogo de despedida de Garrincha – com quem convivera brevemente quando o ponta defendeu o Flamengo, em fim de carreira em 1969. Naquele 19 de dezembro, Doval fez parte do combinado estrangeiro que enfrentou uma Seleção Brasileira reforçada pelo velho Mané.

doval-placar-2Uma verdadeira novela para a renovação de seu contrato com o Flamengo, firmada somente em 6 de abril, deixou Doval inativo pelos três primeiros meses do ano de 1974. Essa dificuldade e uma distensão na coxa direita sofrida no jogo contra o Grêmio no Maracanã pelo Campeonato Brasileiro impediram uma participação maior do argentino na boa campanha rubro-negra naquele torneio. Nas dez partidas em que esteve em campo, no entanto, teve boas atuações fazendo dupla de frente com Zico e marcou cinco gols. Mas aquele rejuvenescido Flamengo dirigido por Joubert prometia. E no Campeonato Carioca, no segundo semestre, já com Doval totalmente recuperado, a equipe embalou rumo ao título. O “Diabo Loiro” ficou de fora de apenas quatro das 27 partidas do Flamengo (coincidentemente, uma delas foi justamente a decisão contra o Vasco) e marcou dez gols, tornando-se o vice-artilheiro da equipe, atrás apenas de Zico, a grande revelação do futebol brasileiro naquele ano.

Outro jogador que surgiu como sensação em 1974 acabaria indo parar na Gávea em abril do ano seguinte: o centroavante Luisinho Lemos, do America, artilheiro do Carioca com 20 gols (um a mais que Zico) e que já havia feito outros 15 no Brasileiro (superado em apenas um pelo vascaíno Roberto Dinamite). Em tese, o trio parecia irresistível. Na prática, no entanto, não foi bem assim. Doval, contra sua vontade, acabaria deslocado para a ponta-direita para abrir espaço para o recém-contratado no comando do ataque.

Resultado: insatisfeito em jogar numa posição que não favorecia seu estilo de jogo, de brigar entre os beques, o Gringo não rendia o mesmo da temporada anterior, exceto em ocasiões esporádicas quando retornava ao centro do ataque. E pior: ansioso para mostrar a que tinha vindo, Luisinho se afobava nas finalizações. Só Zico manteve o nível, marcando espantosos 30 gols no Carioca, o novo recorde do torneio na Era Maracanã. Mas o Fla tropeçou em momentos decisivos, não venceu nenhum dos turnos e ficou fora das finais, irremediavelmente. Sem conseguir dar padrão ao trio, Joubert acabaria demitido no início do Brasileiro.

doval-1975Virando a casaca

O novo técnico rubro-negro, o gaúcho Carlos Froner, não melhoraria a situação de Doval no time. Mantido na ponta, o atacante acabou lesionando o pé num jogo do Brasileiro e teve recuperação demorada, voltando aos poucos, apenas nos últimos jogos. E ao fim daquele ano viria a negociação que sacudiu o futebol carioca. Pelo menos desde maio de 1975 já se especulava sobre o interesse do Fluminense em Doval. Em outubro, já se falava na possibilidade de troca por empréstimo ou em definitivo de Doval pelo ponta-esquerda tricolor Zé Roberto.

Aos 31, quase 32 anos, o Gringo era considerado velho pelos dirigentes rubro-negros – mas seguia como ídolo maior da torcida, no mínimo em igualdade com o ascendente e prata da casa Zico. E em 19 de dezembro, após jantar entre os presidentes Hélio Maurício, do Fla, e Francisco Horta, do Flu, a troca três por três era acertada: Doval mais o goleiro Renato e o lateral-esquerdo Rodrigues Neto iriam para as Laranjeiras, enquanto o goleiro Roberto, o lateral-direito Toninho e o já sondado Zé Roberto seguiriam para a Gávea.

A princípio, naquele momento, ambas as torcidas reprovaram as trocas. Os tricolores reclamavam da idade avançada dos jogadores vindos do Rubro-Negro, especialmente em comparação com os que saíam. Já os flamenguistas protestavam afirmando que haviam cedido seu maior ídolo e dois jogadores com passagem pela Seleção a troco de outros que, embora tratados como promessas, nunca chegaram a se firmar nas Laranjeiras – a exceção era Toninho. O tempo mostraria que a torcida do Flamengo era a que tinha razão em seu protesto.

Doval jogaria por três anos no Fluminense, retornando ao San Lorenzo – então passando por uma de suas piores fases – em 1979, e em seguida encerraria sua carreira atuando no incipiente futebol dos Estados Unidos. Depois de pendurar as chuteiras, voltou a viver em seu país, mas sempre manteve contato com o Rio de Janeiro e com o Flamengo, inclusive indicando jogadores argentinos e observando adversários. Em 9 de outubro de 1991, o time rubro-negro foi a Buenos Aires enfrentar o Estudiantes pela extinta Supercopa, em partida realizada no estádio do Huracán. Antes do jogo, vencido pelo Fla por 2 a 0, Doval visitou a delegação, abraçou velhos conhecidos, reafirmou sua paixão pelo clube e contou histórias. Três dias depois, conquistava em campo, defendendo o Flamengo, um torneio de futebol de masters realizado na capital argentina. Saindo da comemoração do título numa boate portenha, sofreu um ataque cardíaco e morreu. Tinha 47 anos.

Seu nome, entretanto, já estava eternizado na história do futebol e da cidade do Rio de Janeiro. É até hoje, por exemplo, o maior goleador estrangeiro do Flamengo, com 94 gols. O “argentino mais carioca”, que chegou a se naturalizar brasileiro em 1976, apesar de sempre arranhar um portunhol nas entrevistas e no dia a dia, virou lenda do Maracanã, ídolo da galera rubro-negra e personagem de Ipanema. Falecido há exatos 25 anos, está vivo na memória dos amigos, em suas histórias impagáveis, e na dos torcedores, pela bola cheia de raça e técnica.

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O curioso Torneio Aberto de 1936, título quase esquecido com Domingos e Leônidas

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Time do Flamengo no empate em 2 a 2 com o Fluminense pelo Torneio Aberto. Em pé: Sá, Alfredo, Médio, Domingos da Guia, Jarbas, Marin e Engel. Agachados: Fausto, Oto, Leônidas e Yustrich.

Time do Flamengo no empate em 2 a 2 com o Fluminense pelo Torneio Aberto. Em pé: Sá, Alfredo, Médio, Domingos da Guia, Jarbas, Marin e Engel. Agachados: Fausto, Oto, Leônidas e Yustrich.

Conquistado há exatos 80 anos pelo Flamengo, o Torneio Aberto foi uma competição cuja história é bem pouco lembrada ao longo das décadas seguintes. No entanto, ele simboliza um momento decisivo do futebol carioca e do Flamengo em especial. Criado na esteira da adoção do profissionalismo, foi a primeira conquista de dois jogadores lendários da história rubro-negra: nada menos que Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Se ambos são hoje considerados peças-chave na popularização estratosférica pela qual o clube passou naquela década, naturalmente esta conquista, vinda com vitória sobre o Fluminense no estádio das Laranjeiras, tem ao menos um pouco de participação nesse feito.

O contexto da época: amadorismo x profissionalismo

A década de 1930 é marcada pela introdução do profissionalismo no futebol brasileiro, bem como pela disputa entre os defensores do novo regime e os resistentes do amadorismo. O ano de 1933 marca a ruptura no Rio de Janeiro, quando alguns dos principais clubes (entre eles Flamengo, Fluminense, Vasco e America) deixam a Associação Metropolitana de Esportes Athléticos (AMEA, entidade que organizava o Campeonato Carioca) para criarem a Liga Carioca de Football (LCF). Entre aquele ano e o de 1936, o Rio teve dois campeonatos, organizados por federações diferentes.

Essa dissidência refletia o que também acontecia num âmbito mais amplo. No mesmo ano da cisão no Rio, os clubes brasileiros que adotaram o profissionalismo também romperam com a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, antecessora da atual CBF) e criaram a Federação Brasileira de Football (FBF), a entidade nacional que regulamentaria o novo regime remunerado no país.

Em 1936, apenas seis clubes disputam o Campeonato Carioca organizado pela LCF: o Flamengo, o Fluminense, o America (o atual campeão), o Bonsucesso, a Associação Atlética Portuguesa (na época ainda não sediada na Ilha do Governador, mas na extinta Praça Onze, no centro da cidade) e o Jequiá (esse sim da Ilha), substituto do Modesto, de Quintino, que participara no ano anterior. Havia ainda a chamada “subliga”, espécie de torneio de acesso disputado por equipes interessadas em aderir ao profissionalismo.

O torneio

O ponta-esquerda Jarbas, pioneiro no Fla e um dos goleadores da campanha do Torneio Aberto.

O ponta Jarbas, pioneiro no Fla: um dos goleadores da campanha do título.

O calendário, portanto, era bem curto. O número de jogos do Campeonato Carioca (15 para cada clube, em três turnos) era insuficiente para sustentar o regime profissional. E diante da necessidade de manter os times sempre em atividade para obter a renda que pagaria os salários dos jogadores, a LCF decidiu criar outras competições para movimentar seus filiados. Uma delas foi o Torneio Extra, iniciado em 1934. Outra foi o Torneio Aberto – que, como o próprio nome indica, não se limitava aos participantes do Campeonato Carioca da entidade. Qualquer equipe, profissional ou amadora, de dentro ou fora da cidade do Rio de Janeiro, poderia se inscrever.

A primeira edição foi disputada em 1935 e contou com a participação de 23 equipes, a maioria da cidade do Rio (então capital federal), mas também de Niterói, Petrópolis e Nova Iguaçu. Nesse primeiro torneio, o Flamengo chegou a turno final, mas perdeu para o America e viu a taça – além de uma gorda premiação em dinheiro – ficar com o Fluminense.

O regulamento, mantido para a edição seguinte, era simples: As equipes disputavam várias etapas em partidas eliminatórias, no estilo mata-mata, com os vencedores avançando e os perdedores caindo em uma repescagem. Ao final, duas equipes do chamado “grupo dos vencedores” e outras duas vindas dessa repescagem formariam o quadrangular final. Todos os jogos eram disputados em campo neutro, em três estádios: o do Fluminense, nas Laranjeiras; o do America, em Campos Sales; e o do Bonsucesso, em Teixeira de Castro.

O momento do clube

Naqueles meados de anos 30, o Flamengo também vivia um momento crucial em vários âmbitos. Esportivamente, vivia um jejum de títulos no Campeonato Carioca (a última conquista viera em 1927), embora tivesse levantado o troféu do Torneio Extra de 1934. Administrativamente, sob a presidência de José Bastos Padilha, o clube expandia seu quadro de sócios, enquanto a construção do novo estádio da Gávea seguia a todo vapor. E socialmente, o Fla preparava o terreno para se consolidar como um clube de massa, ao abrir definitivamente suas portas aos jogadores negros, como o pioneiro Jarbas, Roberto, Fausto dos Santos (a “Maravilha Negra”), Waldemar de Brito e dois que chegariam em meados daquele ano de 1936: Domingos da Guia e Leônidas da Silva.

Treinado pelo jovem Flávio Costa, ex-jogador do clube e que completaria 30 anos durante o torneio, aquele Flamengo de 1936 tinha entre seus principais valores o goleiro Yustrich (futuro treinador rubro-negro), os médios Fausto e Alemão – este, vencedor no ano anterior de um concurso organizado pelo Jornal dos Sports e patrocinado pelas balas Favoritas para eleger o jogador mais popular do Rio de Janeiro, numa das primeiras mostras do poder de mobilização da torcida rubro-negra –, os rápidos pontas Sá e Jarbas, além do talentoso meia-esquerda alemão Fritz Engel e do goleador Alfredo. A estes, na reta final, se juntariam Domingos da Guia e Leônidas.

Leônidas, Fausto e Domingos: o trio de astros negros que revolucionaria o Flamengo.

Leônidas, Fausto e Domingos: o trio de astros negros que revolucionaria o Flamengo, em foto do “Diário de Notícias”.

A campanha

Ao todo, nada menos que 47 equipes participaram da segunda edição do Torneio Aberto, com pontapé inicial no dia 29 de março. O Flamengo estreou mais tarde, em 7 de abril, contra o Modesto, a quem já havia enfrentado no Campeonato Carioca do ano anterior, vencendo os três confrontos. O clube de Quintino (bairro onde, mais tarde, nasceria Zico) tinha inclusive o uniforme bastante parecido com o do Fla (camisas vermelhas com uma listra preta na altura do peito), mas em campo só deu um rubro-negro: no primeiro tempo, o Flamengo já vencia por 4 a 0, com dois gols do ponta-esquerda Jarbas, um do centroavante Alfredo e outro do meia-direita Caldeira. Na etapa final, Jarbas e Alfredo marcaram cada um mais uma vez para fechar a contagem.

O segundo adversário do Fla, no dia 29 do mesmo mês, foi o Villa Joppert, clube amador do bairro de Bonsucesso. O jogo, assim como o anterior, foi disputado no estádio do America, na rua Campos Sales. O primeiro tempo terminou com vitória rubro-negra um tanto apertada: 2 a 0, gols de Sá e Alfredo. Mas na etapa final, se o Villa Joppert chegou por duas vezes a balançar as redes do goleiro Yustrich, sua defesa ofereceu bem menos resistência. Jarbas marcou duas vezes, Engel outras duas, o ponta-direita Sá fez mais um e Alfredo anotou outros dois para arredondar o massacre do Flamengo em 9 a 2.

Na terceira fase, o Rubro-Negro enfrentou o Bandeirantes, do bairro de Jacarepaguá e que, assim como o Modesto, disputava a subliga da LCF. A partida foi realizada no dia 2 de julho nas Laranjeiras. Nova goleada, dessa vez por 8 a 2, com destaque para Alfredo, autor de cinco gols. Caldeira (dois) e Engel completaram o escore. Três dias depois, o Fla voltou ao estádio tricolor para enfrentar o Engenho de Dentro, campeão da subliga em 1935, e o adversário mais duro até ali. Os “Fantasmas” – apelido da equipe alvianil – venderam caro a derrota por 2 a 0, gols de Jarbas, sendo o primeiro de pênalti na primeira etapa e o segundo já na fase final da partida.

Na quinta eliminatória, última etapa antes do quadrangular final, o Flamengo enfrentou o Bonsucesso e voltou a ter dificuldades. Após um primeiro tempo sem gols, o veterano Gradim abriu o placar para a equipe da Leopoldina. O alemão Engel empatou de pênalti, antes de perder a chance de virar o placar ao desperdiçar outra penalidade. O jogo foi então para uma prorrogação de 20 minutos, decidida no último deles, de maneira dramática, graças a um gol de Alfredo para o Flamengo.

Somente em 16 de agosto, exatamente um mês depois de garantir a classificação, o Flamengo faria sua primeira partida pelo quadrangular decisivo contra o Fluminense, o outro clube vindo do grupo dos vencedores (Bonsucesso e America, derrotados por Fla e Flu na quinta fase, acabaram vencendo a repescagem e avançando às finais). O jogo disputado nas Laranjeiras marcou a estreia de Domingos da Guia na equipe rubro-negra, além da primeira partida oficial de Leônidas pelo clube, depois de dois amistosos.

Domingos sentiu lesão e teve que deixar o campo com apenas dez minutos de jogo, substituído por Carlos Alves. Mesmo sem ele, o Fla teve raça para correr por duas vezes atrás do resultado: Sobral abriu o placar para os tricolores aos 25 minutos, com Jarbas empatando para os rubro-negros logo em seguida. Na etapa final, Hércules voltou a colocar o Flu em vantagem aos 15 minutos, mas o artilheiro Alfredo voltou a igualar para o Fla, a sete minutos do fim.

No dia 29, novamente jogando nas Laranjeiras, o Flamengo enfrentou o America, que havia goleado o Bonsucesso por 6 a 2 na primeira rodada. E aí sim Leônidas brilhou, marcando os dois gols rubro-negros, um em cada tempo, antes de Aírton descontar para os rubros. Com a vitória, o Fla chegava à liderança do quadrangular junto com o forte time do Fluminense (de Batatais, Machado, Romeu e Hércules), ambos com três pontos.

A decisão

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Na última rodada, tricolores e rubros jogaram um dia antes e ficaram no empate em 1 a 1, deixando o Flamengo precisando de uma vitória simples contra o Bonsucesso para conquistar o título. Mas o resultado esperado não veio: o Fla abriu o placar com Alfredo, aos 23 minutos e parecia que confirmaria o título. Porém, a dois minutos do fim do jogo, Alfinete empatou para o time da Leopoldina, decretando um resultado que obrigaria rubro-negros e tricolores a jogarem uma decisão extra pela taça.

No dia 13 de setembro, Flamengo e Fluminense entraram em campo nas Laranjeiras pelo primeiro jogo das finais, e a igualdade foi mantida. Hércules abriu o placar para os tricolores logo no começo da segunda etapa, mas Jarbas deixou tudo igual aos 25 minutos, mantendo as esperanças rubro-negras. A segunda partida da decisão viria uma semana depois, no mesmo local. Em caso de empate no tempo normal – na época, dividido em duas etapas de 40 minutos -, uma prorrogação seria jogada para definir o vencedor. Caso não fosse apontado, o título seria dividido.

Sá, autor do gol do título.

O ponta Sá, autor do gol do título.

Mas nem mesmo a prorrogação se fez necessária. Mesmo com o desfalque do meia Engel, o Flamengo dominou as ações no primeiro tempo e abriu o placar numa arrancada do ponta-direita Sá, logo aos três minutos da etapa final. Depois, conduziu o jogo com lucidez e tranquilidade até o fim, com Domingos controlando os avanços tricolores e Leônidas, do outro lado, mostrando-se um tormento constante para a retaguarda adversária. Ao final, a vitória por 1 a 0 diante de um estádio das Laranjeiras lotado, com público superior aos 17 mil torcedores e renda de mais de 75 contos de réis, fabulosa para a época.

O Torneio Aberto seria novamente disputado no ano seguinte – desta vez com a participação inclusive de equipes mineiras como o Atlético e o Siderúrgica (de Sabará) – sem, no entanto, ser concluído, uma vez que durante sua realização houve a chamada “pacificação” no futebol carioca, com a fusão das duas ligas existentes. Ao longo da história, acabou – como aconteceu com diversos outros torneios de vida curta – praticamente esquecido nas listas de grandes conquistas dos clubes.

Para o Flamengo, porém, o título valeu para marcar a chegada de dois craques que ajudariam a construir sua história, contribuindo decisivamente para o crescimento assombroso de sua popularidade – vale lembrar que este mesmo ano de 1936 marca ainda o início das transmissões da Rádio Nacional, grande difusora do futebol carioca Brasil afora. Três anos depois, com a equipe reforçada ainda mais, viria o fim do maior jejum do clube na história do Campeonato Carioca, fazendo a torcida rubro-negra explodir pelo Rio de Janeiro e por todo o país. Mas essa já é outra (grande) história.

Ficha da final:
FLAMENGO 1 x 0 FLUMINENSE

Estádio das Laranjeiras (Rio de Janeiro), domingo, 20 de setembro de 1936.
Torneio Aberto – final (2º jogo).
Renda: 75:804$300 (setenta e cinco contos, oitocentos e quatro mil e trezentos réis).
Público:17.393.
Árbitro: Casemiro Santa Maria
Gol: Sá, aos três minutos do segundo tempo.

Flamengo: Yustrich; Domingos da Guia e Marin; Médio, Fausto e Oto; Sá, Leônidas, Alfredo, Caldeira e Jarbas. Técnico: Flávio Costa.

Fluminense: Batatais; Guimarães e Machado; Marcial, Brant e Orozimbo; Sobral, Russo, Romeu, Raul e Hércules. Técnico: Hector Cabelli.

O Jornal do Brasil repercute a decisão.

O Jornal do Brasil repercute a decisão.

Há 60 anos, um golaço genial do pequeno Babá decidia Fla-Flu dramático

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Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Fazia muito calor no Maracanã na tarde de 16 de setembro de 1956, incomum para a época do ano. Naquele domingo, quem levou jornais para se abanar e tentar amenizar um pouco a temperatura no estádio lotado poderia também ler nas páginas do noticiário sobre a crise política internacional que tinha como pivô o Egito, após a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser, tomando das empresas britânicas e francesas o controle da circulação de embarcações na região.

Ou que, nos Estados Unidos, o presidente Dwight Eisenhower se preparava para mais um embate eleitoral contra o candidato democrata Adlai Stevenson, enquanto a juventude do país se rendia a uma nova febre: o rock ‘n’ roll.

Ou – mais provável, em vista do interesse – sobre os últimos ajustes para o primeiro Fla-Flu válido pelo Campeonato Carioca de 1956. Nele, o time da Gávea, atual tricampeão carioca e dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, buscava a vitória para não se distanciar da briga pela liderança contra Vasco e America. Paralelamente, o clube discutia a situação do meia Rubens, o Doutor Rúbis, ídolo da torcida em outras campanhas e que agora, em baixa, vinha de lesão e tinha proposta para se transferir ao Belenenses, de Portugal.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Além de Rubens, o time rubro-negro sofria com outras baixas importantes: Índio, Dida e Zagallo – metade do setor ofensivo – estavam vetados para o clássico, o que obrigaria o treinador a escalar o garoto Duca na meia-direita, deslocando o craque Evaristo para o centro do ataque e fazendo entrar Paulinho como ponta-de-lança e o miúdo Babá na extrema esquerda.

Já o Tricolor, comandado pelo ex-atacante rubro-negro Sylvio Pirillo, havia começado mal o torneio, mas seguia em franca recuperação e vinha completo. Tinha no ponta-direita Telê seu grande organizador de jogadas e em Waldo seu goleador, além da força de Pinheiro na zaga e dos milagres de Castilho – titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suíça, dois anos antes – no gol.

Na tarde quente de domingo, de Maracanã lotado e renda fabulosa (acima de Cr$ 1,6 milhão, superando em mais de dez vezes a soma de Botafogo x Bangu, no mesmo estádio na noite anterior), o Fla entra em campo com o argentino Chamorro no gol; Tomires pelo lado direito da defesa, Pavão de central, Jadir recuando da linha média para fazer a quarta zaga e Jordan na lateral-esquerda. Dequinha é o centromédio, articulando as jogadas com Duca pela meia-direita. Na frente, alinhavam Joel, Evaristo, Paulinho e Babá.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

No primeiro tempo, o time de Fleitas Solich é mais incisivo. Ataca principalmente pelo seu lado direito, aproveitando o dia ruim do médio-esquerdo tricolor Paulo. Esbarra, porém, no miolo de zaga adversário e em um Castilho que intercepta qualquer tentativa de cruzamento, pelo alto ou pelo chão. Do outro lado, a retaguarda do Fla não dá trégua ao ataque tricolor, mantendo sua área fora de maiores perigos. São 45 minutos em que as defesas sobrepujam os ataques.

Na etapa final, entretanto, quando o Fluminense passa a controlar as ações é que o jogo toma jeito de épico, honra a lenda do clássico. Primeiro Joel leva uma pancada na cabeça (provocando um princípio de traumatismo, afirmaria depois o médico rubro-negro Paulo São Tiago), mas continua em campo.

Depois vem o pênalti de Pavão em Waldo, apontado por Amílcar Ferreira. Da defesa vem Pinheiro, dono de um verdadeiro coice, cobrador de tiros indefensáveis da marca da cal. Chamorro prepara-se no gol, o zagueiro tricolor prepara a cobrança no canto esquerdo, enche o pé… e a bola explode no pé da trave.

Poucos minutos depois, o Flamengo se vê novamente em apuros: Dequinha, capitão do time e o homem que bloqueia a entrada da área e distribui o jogo da equipe, sofre violenta distensão muscular num choque casual com um adversário e precisa deixar o campo. Não há substituições, o time fica com dez. Para suprir sua ausência, o Fla precisa ser ainda mais coletivo do que o de costume.

Chamorro voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

Chamorro, o arqueiro argentino do Fla, voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

A pressão do Fluminense é imensa, insustentável. O gol tricolor amadurece a cada ataque. Parece inexorável. Numa escapada, Léo entra na área cara a cara com Chamorro, e o argentino opera um milagre. A bola sobra para Tomires (sofrendo com uma antiga distensão desde o primeiro minuto), que despacha com um chutão para a frente. A bola viaja. Pinheiro e Evaristo pulam juntos, mas não alcançam a cabeçada. Jair Santana, o último jogador da defesa tricolor, parece que vai fazer o domínio, mas a bola bate em sua cabeça e foge do alcance.

E sobra para Babá, na linha do meio-campo. Do alto de seu 1,54 metro de altura, o ponteiro rubro-negro recolhe, levanta a cabeça e olha para o latifúndio que tem à sua frente.

E então parte veloz e obstinadamente em direção ao campo adversário…

…Passando da intermediária, vê Castilho, o paredão do Tricolor e da Seleção, saindo do gol, e prepara-se para encher o pé…

Última Hora, Missão 1145-56

…Mas em vez da bomba, vem de improviso um leve toque, que encobre o arqueiro com um lençol magnífico…

Última Hora, Missão 1145-56

…E mansamente a bola quica e segue seu caminho em direção às redes…

Última Hora, Missão 1145-56

…Para se aninhar no fundo da meta tricolor…

Última Hora, Missão 1145-56

…Enquanto Babá e seus companheiros vibram, e o Maracanã vem abaixo…

Última Hora, Missão 1145-56

…E ao resignado Pinheiro, só resta buscar a bola para a nova saída.

Última Hora, Missão 1145-56

Mário Braga Gadelha, 22 anos de idade, cearense de Aracati que chegara há dois anos ao Rio de Janeiro para defender o Flamengo, enlouquece a massa. Aos 41 minutos do segundo tempo, remando contra a maré, o Rubro-Negro marca o único gol da partida. Crava a estaca no peito tricolor, que nos últimos minutos não consegue mais articular sequer uma jogada perigosa de ataque para tentar o empate. A vitória, dramática e improvável, é do Flamengo, graças ao pequenino Babá.

Última Hora, 17 de setembro de 1956

Nos vestiários, enquanto levava alguns pontos no couro cabeludo, em decorrência da pancada que sofrera em campo, o ponta Joel lembrava que o Flamengo vinha se acostumando a ganhar com 10, referindo-se também ao triunfo com um jogador a menos (Evaristo fora expulso) diante do Bangu, duas rodadas antes. Agora, exibindo raça, dedicação e futebol coletivo, o Fla voltava a vencer.

Mas o desgaste pagará seu preço ao final, e o Flamengo, extenuado, oscilará muito ao longo da competição, perdendo pontos bobos que impedirão o tetracampeonato. Ainda que colha outros resultados memoráveis no caminho – incluindo mais uma vitória de 1 a 0 sobre o Flu no returno.

Naquela tarde quente de 16 de setembro, porém, o velho Maracanã ganhou um gol para a história, que quem viu não se esquece. Um dia em que a malícia de um Davi venceu a imponência de um Golias da meta. Na manhã seguinte, o menino Babá era a manchete.

FLAMENGO 1 x 0 FLUMINENSE

Maracanã, domingo, 16 de setembro de 1956.
Campeonato Carioca – 8ª rodada.
Renda: Cr$ 1.670.197,80.
Árbitro: Amílcar Ferreira
Gol: Babá, aos 41 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá. Técnico: Fleitas Solich.

Fluminense: Castilho; Cacá e Pinheiro; Jair Santana, Clóvis e Paulo; Telê, Léo, Waldo, Jair Francisco e Escurinho. Técnico: Sylvio Pirillo.

As fotos maravilhosas que ilustram o texto são do acervo fotográfico do extinto jornal carioca Última Hora, atualmente preservado pelo Arquivo do Estado de São Paulo.

A jogada do gol de Babá desenhada pela revista Esporte Ilustrado.