Há 50 anos, Fla quebrava tabu contra o Botafogo e adotava Urubu como símbolo

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Há certos jogos aparentemente corriqueiros, de meio de campeonato, sobre os quais a história despenca aos ombros, como se deslocassem ligeiramente o eixo da terra, mudassem o rumo das coisas. A vitória do Flamengo por 2 a 1 sobre o Botafogo pelo returno do Campeonato Carioca de 1969, ocorrida há exatos 50 anos, em 1º de junho daquele ano, é um desses casos: tornou-se um épico instantâneo, de desdobramentos irreversíveis.

Em parte por livrar os rubro-negros de um carma: foi o fim de um jejum de vitórias que já durava quatro anos contra os alvinegros pela competição, durante os quais o time perdera quase todos os confrontos. Mas sobretudo por ter sido ao mesmo tempo prenunciado e abençoado pelo voo de um urubu – a ave, de verdade – sobre o velho Maracanã, fazendo com que o clube e sua torcida subvertessem o apelido racista a eles imbuído, tornando-o seu símbolo.

PRÓLOGO: HISTÓRIA SOCIAL RUBRO-NEGRA

Dizem alguns historiadores que a transformação do Flamengo em um clube de massa se deu apenas na década de 1930, quando da contratação de ídolos populares negros como Domingos da Guia, Fausto dos Santos e Leônidas da Silva, associada ao início das transmissões radiofônicas. Outros vão buscar a origem da popularidade do clube nos bate-bolas da Praia do Russel, em campo aberto, à vista de todos, assim que nele o futebol foi admitido, em 1911.

O certo é que, na metade do século XX, o Flamengo já detinha – no mínimo – a maior torcida da cidade do Rio de Janeiro, e com predominância nas classes média e baixa. Era o que apontava, por exemplo, a pesquisa levada a cabo pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e publicada pelo Jornal dos Sports no último dia do ano de 1954. O clube rubro-negro liderava com folga em praticamente todas as categorias estabelecidas.

A rigor, só perdia em duas: entre o nível socioeconômico denominado “classe A”, de pessoas ricas, e entre os que tinham ensino superior como grau máximo de instrução. Em ambos os casos para o Fluminense. De resto, era uma lavada: era o mais popular nas classes B e C em renda, entre homens e mulheres na divisão por sexo e ainda entre os que tinham até o ensino secundário, ou somente o primário ou nenhum curso completo. Era, pois, o time da massa.

Naturalmente, por ser uma força de caráter popular (precisamente nesse sentido de povo, de massa) e pela inveja que tal superioridade numérica despertava, a torcida do Flamengo era alvo de várias gozações preconceituosas em relação a classe social e cor da pele. Botafoguenses (esses em especial), tricolores, americanos e até os vascaínos – que sempre se gabaram de uma pretensa “inclusão” – se referiam ao rubro-negro por um apelido: “Urubu”.

O Flamengo tinha então o marinheiro Popeye, famoso personagem de desenhos animados, como mascote. Além de aludir às origens do clube no remo, também transmitia a ideia de resiliência: o Rubro-Negro era o clube que, quando todos imaginavam estar derrotado, na lona, fora do páreo, ressurgia tirando da mística de sua camisa e de sua torcida seu espinafre fortificante (tal qual o personagem) para dar a volta por cima. Era o embrião do “deixou chegar…”.

A ideia de adaptar o personagem criado na década de 1920 pelo cartunista norte-americano Elzie Crisler Segar ao Flamengo, na época costumeiramente referido na imprensa como o “clube da força de vontade”, partiu do chargista argentino Lorenzo Mollas, radicado no Rio e que desenhava para jornais cariocas. Foi Popeye, por exemplo, o símbolo do primeiro tricampeonato carioca do clube, em 1942/43/44, contado na primeira página do Jornal dos Sports.

Porém, depois de um certo tempo começou a parecer estranho um marinheiro norte-americano simbolizar um clube brasileiríssimo como o Flamengo, de espírito irreverente desde sua fundação e que havia inspirado de sambas a personagens de programas humorísticos do rádio. Quem começou a fazer diferente foi o cartunista mineiro Henfil, rubro-negro fanático, em suas tirinhas de futebol publicadas no Jornal dos Sports, no apagar das luzes dos anos 1960.

Incorporando um Mollas de seu tempo, Henfil criou um personagem para representar cada um dos cinco principais clubes do Rio de então (incluindo o America). E foi corajoso ao batizar seu torcedor rubro-negro das tirinhas com o apelido pejorativo dado pelos rivais. O Urubu de Henfil reunia muitas das características dos torcedores de carne e osso e se tornara um sucesso entre os leitores flamenguistas do principal jornal esportivo da cidade.

Mas, oficialmente, a mascote rubro-negra ainda era o velho marinheiro Popeye. Não por muito tempo. Aqui, no entanto, esta história é congelada para que seja desatada a outra ponta dos acontecimentos que se uniram a ela e desaguaram naquele inesquecível 1º de junho de 1969, data redentora para os rubro-negros por vários motivos. Abrimos um parêntese na história sociológica do Mais Querido para voltar a falar de campo e bola.

O FLAMENGO DE TIM

Treinava o Fla naquele ano o paulista Elba de Pádua Lima, o Tim. Ex-atacante do Fluminense e da Seleção Brasileira na virada da década de 1930 para a de 1940, ele se convertera a treinador ao fim da carreira, assumindo o Bangu, pelo qual teria várias passagens, quase sempre com ótimos resultados para as pretensões do clube de Moça Bonita. E em 1964, de volta ao Tricolor em que atuara, conquistou o título carioca batendo justamente os alvirrubros na final.

Chamado de “El Peón” pelos argentinos quando jogava, por sua capacidade de conduzir o time dentro de campo, o técnico Tim se tornou um dos maiores estrategistas do futebol brasileiro. Não raro virava noites bolando estratégias para anular jogadas dos adversários, as quais explicava a seus jogadores utilizando uma mesa de futebol de botão. Por sua astúcia em desvendar segredos dos rivais e bolar antídotos a eles, ganhou o apelido de “Raposa”.

O Flamengo havia vencido o Campeonato Carioca em 1965 (que entrou para a história como o do IV Centenário da cidade do Rio), perdido o de 1966 numa decisão controvertida com o Bangu e depois mergulhado numa temporada medonha em 1967 e outra um pouco menos pior em 1968, quando teve o ex-jogador Válter Miraglia no comando. Para 1969, a aposta era Tim, que vinha de levar o San Lorenzo ao título do Torneio Metropolitano argentino.

Tim não era um treinador que se intrometia em vendas de jogadores (“não dirijo clube, dirijo time”, costumava dizer). Portanto, não teve participação em duas negociações polêmicas feitas pelos dirigentes rubro-negros naquele início de temporada: a saída do atacante Silva, o “Batuta”, camisa 10 e ídolo da torcida, para o Racing argentino, e a venda do jovem e promissor atacante Luís Carlos para o Vasco, concretizada em sigilo durante o Carnaval daquele ano.

Restou a ele administrar outros problemas: os laterais Murilo e Paulo Henrique mantinham o gás, mas o mesmo não se podia dizer do volante Carlinhos. O elenco contava com três estrangeiros – o goleiro argentino Rogelio Domínguez, o zagueiro uruguaio Jorge Manicera e o meia paraguaio Francisco Reyes – mas apenas dois podiam ser escalados, segundo a lei nacional. E o que fazer com o velho Garrincha, 35 anos, vivendo cada vez mais da lenda que construíra?

Enquanto procurava soluções, o treinador via a equipe oscilar naquele início de Carioca. O time estreara empatando em 1 a 1 com o Bonsucesso, equipe que se notabilizou por tirar pontos dos grandes naquele certame. Depois, venceu São Cristóvão (2 a 0), Madureira (1 a 0), Bangu (2 a 0) e Campo Grande (1 a 0), antes de perder para o Botafogo (0 a 2), ser surpreendido pelo Olaria (0 a 1 na Gávea) e parar num 0 a 0 com o Fluminense.

O Flamengo de Tim: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique (em pé); Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson (agachados).

Perto do fim do primeiro turno, ao vencer bem a Portuguesa por 4 a 1 na Ilha do Governador, o técnico podia comemorar: encontrara a escalação ideal. Firme na defesa como já vinha sendo, dinâmico e incansável no meio e enfim impetuoso e inteligente no ataque, combinando grande dose de juventude com alguns nomes rodados, em especial no setor defensivo. E enfim fazendo despontar um reforço trazido da Argentina pelo treinador: o atacante Doval.

O TIME ENGRENA

Aquele time que “deu liga” tinha no gol o experiente Domínguez, ex-Racing e Real Madrid. Nas laterais, os eternos Murilo e Paulo Henrique. No miolo de zaga, o folclórico baiano Onça tinha ao seu lado o vigoroso Guilherme, trazido do Campo Grande. No meio, Liminha e Rodrigues Neto eram dois pulmões de aço, combatendo e levando o time à frente. E no ataque, Doval se juntava a três pratas-da-casa: o goleador Dionísio, o imprevisível Fio e o habilidoso Arílson.

Repentinamente azeitada, aquela máquina estraçalhou o Vasco no jogo seguinte, pela última rodada do turno: um memorável 3 a 0, com gols de Rodrigues Neto cobrando pênalti, Liminha (num chutaço do meio da rua) e Doval. E obteve duas vitórias significativas na virada do returno: 1 a 0 no bom time do America com gol de Doval e 2 a 0 no Bonsucesso – que até ali não havia perdido para nenhum dos grandes – com Onça e Dionísio marcando.

O próximo adversário, porém, representava um trauma. Líder do certame ao lado do Fluminense e um ponto à frente do Flamengo, o Botafogo não sabia o que era perder para os rubro-negros há dois anos no geral e há quatro pelo Carioca. Aquela era a década em que o Fla, em muitos momentos tendo de contar com times apenas esforçados, sofria nas mãos e nos pés dos craques de Seleção que vestiam a camisa do Alvinegro de General Severiano.

Era o que havia acontecido no primeiro turno, quando o Botafogo venceu por 2 a 0 com gols de Jairzinho e Roberto Miranda ainda no primeiro tempo. Vitória comemorada, é claro, com gritos de “Urubu” para cima dos rubro-negros. Além disso, também doía ver vários nomes que passaram ou fizeram história na Gávea agora do lado de lá: Zagallo era o técnico. Gerson, o cérebro do meio-campo. E Paulo Cézar, que trocara a base rubro-negra pela alvinegra.

Tim também não se conformava: no jogo do turno estava certo de que preparara uma arapuca para o Botafogo, mas não contava com Jairzinho caindo agora com frequência também pelo lado esquerdo do ataque. E, para o novo embate, não teria Fio à disposição, depois do atacante ter sido vetado pelo departamento médico. Enquanto o técnico rubro-negro coçava a cabeça para bolar seus esquemas, pelos lados de General Severiano reinava a calmaria.

No Jornal do Brasil, na coluna “Na Grande Área”, Sérgio Noronha substituía interinamente o dono do espaço, o botafoguense Armando Nogueira, e, depois de comentar as prováveis dores de cabeça que Tim andava tendo, escrevia que “Zagallo, ao contrário, está tranquilo. Tem um time definido, armado, esquematizado e confiante – talvez até um pouco demais”, antes de arrematar: “Poucas vezes as coisas foram tão azuis para um time alvinegro”.

Há, porém, fatos que passam despercebidos, mas que se revelam proféticos: no treino coletivo da quinta-feira, Zagallo postou os reservas botafoguenses na retranca, como imaginava que Tim armaria o Flamengo. E os titulares perderam por 1 a 0. O treinador, no entanto, desconversava: “Em jogo tudo muda e as situações serão inteiramente diferentes”. Enquanto isso, na Gávea, o técnico rubro-negro preparava com muita conversa o substituto de Fio.

Luís Cláudio era um meia-armador de 23 anos revelado nos juvenis do Santos e que também passara pelo Racing antes de ser contratado pelo Rubro-Negro em março de 1968, após receber passe livre do clube argentino. Jogador elegante, exímio lançador, às vezes se perdia por indisciplina: em Avellaneda, brigara com o técnico e estava em litígio com o clube. Acabou indicado por Tim ao Flamengo um ano antes de o treinador chegar à Gávea.

O restante da escalação seria rigorosamente o mesmo: Domínguez, Murilo, Onça, Guilherme, Paulo Henrique, Liminha, Rodrigues Neto, Doval, Dionísio e Arílson. A surpresa de Tim só se viu, porém, dentro das quatro linhas. Mas antes de falar delas, o texto faz uma elipse e volta a falar do outro momento inesquecível daquele clássico: o dia em que a torcida subverteu o preconceito ao qual era vítima e viveu o êxtase no Maracanã antes mesmo da bola rolar.

O URUBU

Luís Otávio Vaz Pires e Romílson Meirelles eram dois jovens de uma turma rubro-negra do Leme, bairro da Zona Sul do Rio. Nos dias que antecederam o clássico, eles tiveram uma ideia: arranjar um urubu para soltar em pleno Maracanã na hora do jogo. Na véspera, foram ao depósito de lixo do Caju (próximo à Zona Portuária) e, com a ajuda de um gari também rubro-negro, apanharam o bicho arisco, depois de uma certa dificuldade.

Em depoimento ao livro “Grandes jogos do Flamengo”, de Roberto Assaf e Roger Garcia, Luís Otávio relembrou como foi o transporte da ave: “O urubu veio num DKW, enrolado numa bandeira, bicando todo mundo. Ele dormiu na portaria do meu prédio. No domingo, fomos cedo para o Maracanã (…). Entramos com o bicho dentro do bandeirão gritando ‘Mengo! Mengo! Mengo!’, não houve problema”, contou o torcedor.

Com uma bandeira rubro-negra amarrada às patas, o urubu foi solto pelos torcedores minutos antes dos times entrarem em campo. Em princípio, a ave hesitou. Mas logo partiu para sobrevoar o estádio lotado, que recebeu quase 150 mil pagantes naquela tarde de domingo – e com a torcida do Flamengo em maior número, é claro. Depois de um rasante de tirar o fôlego, o bicho foi ovacionado. Em êxtase, a massa flamenga gritava: “É urubu! É urubu!”.

Foi um sensacional abre-alas para o que se assistiria em campo. Logo o Fla subiu ao gramado com a escalação já citada. Em seguida, foi a vez do Botafogo e seus craques: Ubirajara Mota, Moreira, Zé Carlos, Leônidas, Valtencir, Carlos Roberto, Gerson, Rogério, Roberto Miranda, Jairzinho e Paulo Cézar Lima, o Caju. A arbitragem era de Armando Marques, nome que rendeu preocupação na Gávea, diante de seu histórico de decisões polêmicas contra os rubro-negros.

O Flamengo, porém, logo se mostrou taticamente ajustado o suficiente para não se preocupar com o árbitro. Depois da surpresa dos torcedores, soltando o urubu em pleno Maracanã, haveria outra, a de Tim para os alvinegros: um time muito bem postado em campo, atento à marcação e à cobertura dos espaços, com uma determinação e um espírito de luta que lembravam os velhos tempos do Flamengo-Popeye, e sobretudo muita inteligência nas ações.

O JOGO

As orientações começavam com uma alteração inusitada: Luís Cláudio jogaria sim na vaga de Fio, mas não como ponta-de-lança e sim como uma espécie de lateral-direito. Sua missão era colar em Paulo Cézar e, quando tivesse a bola, postar-se na linha do meio-campo e quebrar a defesa alvinegra com seus passes longos. Sabendo que a principal arma dos alvinegros também eram os lançamentos de Gerson para Jairzinho e Roberto, Tim se precaveu.

O lateral-direito “oficial”, Murilo, foi deslocado para o miolo de zaga, sacrificando sua vocação ofensiva pela tarefa de conter Jairzinho. Enquanto isso, a missão de parar o raçudo Roberto Miranda ficava com Guilherme, zagueiro “de briga” assim como o atacante alvinegro. Atrás da dupla de zaga, o beque-central Onça era recuado para o posto de líbero, então uma novidade no futebol brasileiro, ficando como uma última barreira a ser transposta.

Pelo lado esquerdo da defesa, Paulo Henrique teria seu embate com Rogério e apoiaria sempre que a brecha aparecesse. Já no meio-campo, Liminha e Rodrigues Neto formariam uma barreira para tentar bloquear os lançamentos de Gerson. O primeiro era especialmente encarregado de colar no Canhota. Já o segundo acompanharia Carlos Roberto mais de longe, até para ter sua própria liberdade para se movimentar e apoiar o ataque.

No ataque, o tridente era formado por Doval pela direita (travando duelo com Valtencir no qual sairia como vencedor por larga vantagem), Dionísio pelo centro (sempre oportunista, mas sem se afobar) e Arílson pela esquerda, desdobrando-se entre ajudar o meio e cair por aquele flanco. E apesar de um susto logo no começo do jogo, com Jairzinho acertando a trave, o Fla se mostrou superior durante todo o jogo e não demorou a abrir o placar.

Logo aos nove minutos, Doval recebeu de Luís Cláudio, ganhou de Valtencir, foi ao fundo e cruzou. Dionísio recebeu, dominou, fez que chutaria com a direita, livrou-se de Leônidas e bateu de canhota. O goleiro Ubirajara deu rebote, e Arílson entrou para estufar as redes. O Botafogo tentou reagir, mas o Fla não deu refresco: Liminha colava em Gerson, Luís Cláudio em Paulo Cézar, Murilo em Jairzinho, Guilherme dava duro em Roberto, Paulo Henrique anulava Rogério.

E para desesperar ainda mais os alvinegros, o Fla ampliou aos 23 minutos: Rodrigues Neto – apontado o melhor em campo por unanimidade pela crônica – escapou pelo meio, desceu pela esquerda e cruzou. Após furada monumental de Valtencir, Doval não perdoou e fuzilou Ubirajara. Neste instante, em êxtase, a torcida rubro-negra começou a cantar sua versão para o samba-enredo do Salgueiro “Bahia de Todos os Deuses”, vencedor do Carnaval daquele ano.

Atordoado, vendo o Flamengo encurtar os espaços de seu time e levar perigo especialmente pelo lado esquerdo de sua defesa, Zagallo tentou um antídoto para o Botafogo na etapa final. Paulo Cézar foi deslocado para o meio, fugindo da marcação de Luís Cláudio e abrindo o corredor para o apoio de Valtencir, na tentativa de confundir a marcação cerrada rubro-negra. Mas a equipe de Tim não se abalou e manteve o mesmo posicionamento.

Luís Cláudio continuava como um lateral-direito, agora tomando conta de Valtencir. Nas costas do ala alvinegro, Doval tinha ainda mais espaço para fazer a festa nos contra-ataques. Enquanto isso Paulo Cézar era mais um a parar no intenso bloqueio formado pelo meio-campo rubro-negro. Numa única tentativa acertada, no entanto, surgiu o lance que acrescentou dramaticidade ao jogo: o Caju lançou Jairzinho, que foi derrubado por Domínguez na área.

O próprio Paulo Cézar bateu e converteu a cobrança. Eram sete minutos do segundo tempo. O Botafogo então se lançou ainda mais ao ataque, mas o Fla mostrava uma calma e uma resiliência surpreendentes. Domínguez acalmava a defesa, Luís Cláudio ditava o ritmo, Rodrigues Neto se desdobrava, Doval era ameaça constante. Os papeis estavam invertidos em relação ao histórico recente do confronto. Eram os alvinegros que davam murro em ponta de faca.

O relógio andava, e o Fla se segurava, encaixotando o Botafogo, e às vezes, levando até mais perigo. Como no lance já depois dos 40 minutos em que Ubirajara, depois de driblado por Dionísio, agarrou o atacante pelo calção dentro da área, num pênalti claro para os rubro-negros solenemente ignorado por Armando Marques. Nada, porém, tiraria a vitória épica do Flamengo naquele dia. O urubu pousara na sorte do Botafogo.

A comemoração foi uma verdadeira catarse: sob uma lua descomunal que pairava sobre o Maracanã, homens choravam e riam ao mesmo tempo. Um torcedor rubro-negro, sentindo-se ele próprio um pássaro, pulou de uma altura de seis metros da arquibancada. Fraturou a perna e quebrou alguns dentes, mas estava feliz. O estoque de cerveja acabou nos bares da cidade, desde as biroscas do Irajá até os restaurantes grã-finos de Ipanema.

Antes do jogo, ao chegar ao Maracanã, o folclórico chefe de torcida alvinegro Tarzã provocava: “Se o homem ainda não conseguiu chegar à Lua, como um urubu vai pisar na estrela?”. Dali a menos de dois meses, em 21 de julho, o astronauta norte-americano Neil Armstrong caminharia sobre o solo lunar. Mas antes, naquele 1º de junho, o urubu já havia feito mais que pisar na estrela. Havia conduzido o Flamengo, sob o olhar de seu povo, a uma vitória eterna.

FICHA TÉCNICA

FLAMENGO 2 x 1 BOTAFOGO

Estádio do Maracanã (Rio de Janeiro)
Domingo, 1º de junho de 1969
Campeonato Carioca – segundo turno, terceira rodada
Público: 149.191 pagantes
Árbitro: Armando Marques.

Gols: Arílson (1-0) aos nove e Doval (2-0) aos 23 minutos do primeiro tempo; Paulo Cézar, de pênalti (2-1) aos sete minutos do segundo tempo.

Flamengo: Domínguez – Murilo, Onça, Guilherme e Paulo Henrique – Liminha e Rodrigues Neto – Doval, Dionísio, Luís Cláudio e Arílson. Técnico: Elba de Pádua Lima, “Tim”.

Botafogo: Ubirajara Mota – Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir – Carlos Roberto e Gérson – Rogério, Roberto Miranda, Jairzinho e Paulo Cézar. Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo.

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Há 70 anos, Flamengo dava lição de futebol inesquecível aos ingleses do Arsenal

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O time que bateu o Arsenal. Em pé: Biguá, Bria, Beto, Job, García e Juvenal. Agachados: Luisinho, Gringo, Durval, Jair Rosa Pinto e Esquerdinha.

Campeão mundial em cima do Liverpool, o Flamengo tem em sua história outra famosa vitória sobre uma equipe inglesa. Há exatos 70 anos, em 29 de maio de 1949, os rubro-negros batiam o badalado Arsenal por um inapelável 3 a 1, no amistoso em São Januário que fez parte da excursão do time londrino pelo Brasil. Com atuação magistral do meia Jair Rosa Pinto, foi uma lição de futebol, um momento de brilho perene dentro de uma época difícil do clube.

O período que se sucedeu à Segunda Guerra Mundial marcou um momento em que as distâncias no mundo foram encurtadas, o que também se refletiu no futebol. Com a evolução da aviação civil, os jogos internacionais entre clubes e seleções se tornaram mais frequentes, tanto dentro dos continentes quanto até mesmo cruzando o Atlântico. E a escolha do Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 1950 atiçou a curiosidade europeia sobre a bola jogada aqui.

Nesta época, a virada da década de 1940 para a de 1950, era comum receber a visita de equipes como o Malmö sueco ou o Rapid Viena austríaco. Mas quem mais recebia atenção e admiração eram mesmo os clubes ingleses, que voltavam a atuar no país após algumas décadas. Então fora da Fifa, a Inglaterra se colocava à margem da Copa do Mundo, o que só aumentava a mitificação em torno do jogo que vinha sendo praticado por seus inventores.

OS GUNNERS ENTRE NÓS

O primeiro a vir foi o Southampton, na época um clube da segunda divisão inglesa, em meados de 1948. No ano seguinte foi a vez dos londrinos do Arsenal, equipe de mais fama e prestígio e com melhores credenciais. Havia vencido seu sexto título inglês na temporada 1947/48, com sete pontos de vantagem para o segundo colocado Manchester United, e na campanha seguinte terminara na quinta colocação (a taça foi levantada pelo Portsmouth).

A vinda do Arsenal ao Brasil, a convite do Botafogo, ficou acertada no fim de março. Em princípio, seriam apenas três partidas, todas no Rio, enfrentando os alvinegros, o Vasco (que cederia o estádio de São Januário) e um terceiro clube, Flamengo ou Fluminense. O contrato foi assinado em 22 de abril, com os ingleses (que haviam recusado propostas de outros países) recebendo 48 mil libras de garantia. A delegação viajaria de avião, dividida em dois voos.

Conforme as conversas foram se encaminhando, as datas no Rio aumentaram para quatro (agora Fla e Flu enfrentariam os londrinos), sendo incluídos jogos em São Paulo, contra o Trio de Ferro da capital paulista. A primeira parte da delegação do Arsenal chegou ao Rio no dia 10 de maio, e a segunda no dia 12. Entre aqueles dois dias, a Seleção Brasileira venceu o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), também disputado na capital carioca.

Entre os destaques do escrete campeão dirigido por Flávio Costa, dois rubro-negros: os meias Zizinho e Jair Rosa Pinto. O primeiro, porém, não enfrentaria o Arsenal: precisaria operar de uma apendicite logo após o Sul-Americano, desfalcando o Fla por cerca de um mês. No time paraguaio, que havia obtido um excelente vice-campeonato, o grande nome havia sido o arrojado goleiro Sinforiano García, do Cerro Porteño, e cobiçado pelo Flamengo.

O MOMENTO DO FLAMENGO

García havia sido feito partida excepcional na surpreendente vitória do Paraguai – dirigido por outro nome que mais tarde faria história na Gávea, Manuel Fleitas Solich – sobre o Brasil em pleno estádio de São Januário por 2 a 1, resultado que forçou um jogo extra para decidir o título. E mesmo na goleada aplicada pelos favoritos brasileiros na revanche (7 a 0), ele salvara sua equipe de uma derrota ainda maior. Era apontado como o melhor arqueiro do torneio.

Entre o pedido inicial de valor equivalente a 300 mil cruzeiros do Cerro Porteño pelo passe do goleiro, a viagem do dirigente rubro-negro Francisco Abreu a Assunção para tratar da negociação e a chegada de García à Gávea, passaram-se menos de duas semanas. O paraguaio aportava a tempo de enfrentar o Arsenal e com a missão de solucionar os problemas no gol rubro-negro vindos desde a saída do veterano Jurandyr, titular do tri carioca em 1942-43-44.

O paraguaio García, estreante daquela tarde, faria história no Fla.

Titular entre 1945 e 1948, Luiz Borracha alternara grandes momentos com falhas clamorosas e acabou sendo negociado com o Bangu em março de 1949. O reserva Doly foi promovido, mas também não mostrou estar preparado, sofrendo muitos gols nos amistosos de pré-temporada disputados pelo Flamengo (especialmente numa vitória por 6 a 5 diante dos alvirrubros). García, por outro lado, chegava com a experiência de 20 partidas pela seleção de seu país.

O Flamengo também tinha outras novidades para a temporada 1949, na qual tentaria reverter o acentuado declínio técnico em que vinha desde a conquista do tri carioca. Um era o zagueiro Juvenal, vindo do Cruzeiro de Porto Alegre e já cotado para a Seleção. Outro seria um nome que se estabeleceria no time por muitos anos e no início da década seguinte se tornaria seu capitão: o ponteiro Esquerdinha, vindo do Olaria junto com o médio Válter.

O detalhe curioso sobre aquela equipe rubro-negra dizia respeito a seu comandante, que havia feito fama e se tornaria uma lenda como treinador… de basquete: tratava-se do paraibano Togo Renan Soares, o Kanela, técnico do time do Flamengo que conquistaria 12 das 13 edições do campeonato carioca da modalidade entre 1948 e 1960 e que levaria a seleção brasileira de bola ao cesto ao bicampeonato mundial em 1959 e 1963.

Kanela vinha dirigindo o time do Flamengo desde as últimas rodadas do campeonato carioca de 1948, quando substituíra o demitido José Ferreira Lemos, o “Juca da Praia”, ex-jogador e dirigente do Botafogo, ex-árbitro da liga carioca e ex-técnico do America e do Bangu. Naquela temporada de 1949, o Fla havia disputado somente amistosos contra os adversários mais variados, obtendo 12 vitórias, três empates e apenas uma derrota, um bom retrospecto.

COMEÇA A EXCURSÃO

O time do Arsenal posa antes de enfrentar o Flamengo.

A estreia do Arsenal em gramados brasileiros não poderia ter sido melhor para os ingleses: no domingo, 15 de maio, os Gunners golearam o Fluminense de Castilho, Carlyle e Orlando “Pingo de Ouro” por 5 a 1 em São Januário. Seria a vitória mais enfática conquistada pelos londrinos na excursão. Em seguida, o time viajaria à capital paulista, onde empataria com o Palmeiras em 1 a 1 na quarta e venceria o Corinthians por 2 a 0 no domingo jogando no Pacaembu.

A primeira derrota dos londrinos viria na outra quarta-feira, num jogo noturno – algo ao qual os ingleses não estavam acostumados, já que os refletores só chegariam à maioria dos estádios britânicos apenas na década seguinte – contra o Vasco, que embora contasse com um grande time, precisou jogar em seu limite e contar com uma boa dose de sorte (algumas bolas dos Gunners acertaram a trave de Barbosa no segundo tempo) para vencer por 1 a 0.

Querendo recuperar seu prestígio, os ingleses entraram em campo mordidos para enfrentar o Flamengo no domingo seguinte, dia 29. Tom Whittaker, técnico dos Gunners, só fez uma troca no time em relação ao jogo com o Vasco, dando chance ao novato centroavante Peter Goring no lugar de Ronnie Rooke (que deixaria o clube após a excursão). De resto, era a mesma equipe, cujos destaques eram o goleiro George Swindin e o ponta-direita Ian McPherson.

OS RUBRO-NEGROS SE ARMAM

O Flamengo, por sua vez, promovia a estreia de García no gol. E, de acordo com o esquema WM comum na época (uma espécie de 3-2-2-3), a linha de defesa trazia Juvenal no miolo de zaga, com o veterano Biguá – um dos remanescentes do time tricampeão carioca – na lateral-direita e o novato Job, promovido da base, pelo lado esquerdo. No meio, outro veterano, o paraguaio Bria, fazia dupla com Beto, que ganhava o lugar do antigo capitão Jayme de Almeida.

A linha ofensiva trazia dois pontas-de-lança: o sergipano Gringo, de apenas 22 anos, e Jair Rosa Pinto, o craque Jajá de Barra Mansa, referência técnica daquele time, especialmente na ausência de Zizinho. Revelado pelo Madureira no fim da década de 30, clube pelo qual chegou à Seleção Brasileira, transferiu-se para o Vasco em 1943 junto com os companheiros de ataque Lelé e Isaías. Quatro anos depois, aportava na Gávea como reforço de peso.

No desenho tático do Jornal dos Sports, os dois times no sistema WM.

Nas pontas, o gaúcho Luisinho, outro vindo do Cruzeiro de Porto Alegre (e que mais tarde faria história no Internacional) atuava pela direita, enquanto o já citado Esquerdinha atuava na outra faixa. Pelo meio, no comando do ataque, jogava Durval, centroavante trazido do Madureira no início de 1948 e que marcou impressionantes 123 gols em 131 jogos pelo Flamengo, mas acabou esquecido por ter atuado num período ruim do clube.

O JOGO

A prova de que o Arsenal jogaria para reabilitar seu prestígio diante do público carioca (e brasileiro) veio com a abertura do placar contra o Flamengo logo aos 50 segundos de jogo. Pouco depois do apito inicial, o médio Macaulay abriu na direita para Logie, que cruzou alto. Goring, sozinho, cabeceou sem defesa para García. A impressão era a de que uma nova goleada inglesa, semelhante à aplicada diante do Fluminense, consumaria-se em São Januário.

O estádio abarrotado de gente, entretanto, não demoraria a comemorar um gol rubro-negro. Depois de se desencontrar por um tempo após sofrer o gol de saída, o Flamengo teve uma falta do zagueiro Smith em Durval marcada a seu favor aos oito minutos, a uma certa distância da grande área. O goleirão Swindin armou a barreira, sete homenzarrões do Arsenal, jogou o boné para dentro do gol e firmou a vista, à espreita do chute do mirrado Jair Rosa Pinto.

A cobrança saiu forte, com curva, contornando a barreira pelo lado direito. Mas quando se esperava que ela viesse para as mãos do arqueiro dos Gunners, era surpreendentemente fez outra curva, tomando o rumo das redes enquanto Swindin, estático, preparando-se para o salto que não daria, apenas observava. Enquanto os vascaínos das sociais de São Januário se calavam, a torcida rubro-negra que abarrotara o estádio era a imagem do êxtase.

Os gols do jogo desenhados nas páginas da revista Esporte Ilustrado.

Foi a vez do Arsenal se desarvorar e perder a tranquilidade que não recuperaria mais ao longo da partida. E a virada rubro-negra chegaria no início da etapa final, depois de Jair Rosa Pinto fazer um carnaval na defesa inglesa: driblou Daniels e Barnes, antes de chutar forte, sem chances para Swindin. Foi a senha para o time londrino perder também a esportividade: logo, o meia Bryan Jones deu um carrinho em García após o goleiro fazer uma defesa.

Prontamente a confusão se instaurou: Biguá revidou de imediato, a guarda civil entrou em campo distribuindo golpes de cassetete e a briga só acabou cinco minutos depois, com a chegada da Polícia Especial e a retirada de Jones de campo, substituído. As trocas de jogadores durante a partida, aliás, foram outro sinal da desorganização do Arsenal naquela tarde: Tom Whittaker quase não havia mexido no time nos outros jogos. Neste, fez cinco mudanças.

Na metade do segundo tempo, os ingleses tentaram empatar na base do abafa. Foi então que García, recuperado da entrada de Jones, praticou algumas defesas espetaculares, como num chute à queima-roupa de Lishman. O Flamengo descansa alguns titulares: o veterano Jayme de Almeida entra no lugar de Beto para retomar o controle do meio-campo, o impetuoso atacante Bodinho entra na ponta-direita, enquanto Luís Rosa substitui Gringo.

García, com suas defesas arrojadas, foi um dos destaques da vitória.

E aos 35, depois de ter tido um pênalti de Barnes em Esquerdinha ignorado por Mário Vianna, o Fla fechou o placar num contragolpe: Luís Rosa lançou Durval, que arrancou e teve calma para chutar forte, de peito de pé, e vencer Swindin, decretando o triunfo histórico, a derrota mais contundente e categórica imposta aos ingleses em sua visita ao Brasil, a “apoteose gloriosa do futebol nacional”, como publicou a revista Esporte Ilustrado em sua crônica da partida.

DEPOIS DA GRANDE VITÓRIA

O Arsenal ainda faria mais duas partidas antes de encerrar a excursão: empataria em 2 a 2 com o Botafogo, campeão carioca no ano anterior, num jogo considerado tecnicamente fraco pelos observadores. E voltaria à capital paulista para ser derrotado pelo São Paulo por 1 a 0, antes de regressar a Londres. Na temporada que se seguiria, os Gunners venceriam a prestigiosa Copa da Inglaterra, batendo o Liverpool por 2 a 0 no estádio de Wembley.

O renascimento rubro-negro que se julgou acontecer com o triunfo sobre os ingleses, porém, durou pouco. O Flamengo novamente andou longe de brigar pelo título carioca, terminando em terceiro lugar. O próprio Jair Rosa Pinto teve vida curta no clube dali em diante: atuaria apenas mais oito vezes antes de deixar a Gávea em agosto daquele ano, vilanizado pela torcida após uma rumorosa derrota de virada para o Vasco. Seguiria para o Palmeiras.

Os rubro-negros só retomariam a hegemonia do futebol carioca a partir de 1953, com a chegada do técnico paraguaio Fleitas Solich, que levaria o clube a mais um tricampeonato, tendo García e Esquerdinha como remanescentes. Aquela vitória sobre o Arsenal, porém, permanece como uma glória indiscutível na história do clube, um momento em que o Flamengo manteve sua legenda de triunfos épicos mesmo durante um de seus períodos mais difíceis.

FICHA TÉCNICA

FLAMENGO 3 x 1 ARSENAL

Estádio de São Januário (Rio de Janeiro).
Domingo, 29 de maio de 1949
Amistoso
Público: 25.899 pagantes
Árbitro: Mário Vianna.

Gols: Peter Goring (0-1) aos 50 segundos, Jair Rosa Pinto (1-1) aos oito minutos do primeiro tempo; Jair Rosa Pinto (2-1) aos oito e Durval (3-1) aos 35 minutos do segundo tempo.

Flamengo: García – Biguá, Juvenal e Job – Bria e Beto (Jayme de Almeida) – Luisinho (Bodinho), Gringo (Luís Rosa), Durval, Jair Rosa Pinto e Esquerdinha. Técnico: Togo Renan Soares, “Kanela”.

Arsenal: Swindin – Barnes, Daniel e Smith (Wade) – Macaulay (Jones) e Forbes – McPherson (Rooke), Logie (Lewis), Goring, Lishman e Vallance (Fields). Técnico: Tom Whittaker.

Há 40 anos, Flamengo se sagrava primeiro campeão carioca invicto na era Maracanã

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Parte do elenco rubro-negro campeão do primeiro estadual disputado em 1979. Em pé: Nélson, Cantarele, Rondinelli, Manguito, Toninho, Carpegiani, Júnior, Raul e Andrade. Agachados: Reinaldo, Adílio, Cláudio Adão, Zico, Tita, Luizinho das Arábias e Júlio Cesar.

Muitas histórias – algumas controversas, outras puramente fantasiosas – cercam os dois campeonatos estaduais disputados no mesmo ano de 1979 no Rio de Janeiro e conquistados pelo Flamengo. A campanha, porém, foi incontestável, assim como a superioridade demonstrada pelo time rubro-negro sobre os adversários. O primeiro desses dois títulos (o bi carioca, que viraria tri dali a alguns meses) foi levantado há exatos 40 anos, num 29 de abril.

Como dizem os jornalistas Mauro Beting e André Rocha em seu livro “1981”, “o Flamengo aprendeu a vencer e ainda ser obrigado a discutir títulos que, futebolisticamente, não se discutem”. De qualquer modo, contamos aqui tanto as histórias de bastidores que aconteceram antes do pontapé inicial da competição quanto a saga da conquista rubro-negra, levando os dois turnos de forma invicta, dispensando as finais, comprovando a força daquele esquadrão.

A ORIGEM DA CONFUSÃO

Protelada por alguns anos, a fusão futebolística dos antigos estados do Rio de Janeiro (que compreendia o interior do atual) e da Guanabara (que se limitava à cidade do Rio de Janeiro) foi exigida pela Confederação Brasileira de Desportos em agosto de 1978, três anos depois de os dois terem se unido nos âmbitos político e administrativo. Dessa forma, os Campeonatos Carioca e Fluminense daquele ano – que se tornariam, de certa forma, os últimos da história – sofreriam alterações visando à criação do primeiro Campeonato Estadual.

Primeiro, estabeleceu-se que Americano, Goytacaz e Volta Redonda, os três clubes do interior que haviam disputado como convidados as duas edições anteriores do Carioca, estavam excluídos do torneio de 1978, o qual seria jogado somente pelos 12 clubes da cidade do Rio. Em paralelo, e incluindo do trio supracitado, desenrolaria-se o Campeonato Fluminense, reunindo seis clubes do interior. Pelo que foi acertado antes da bola rolar, os seis primeiros do Carioca e os quatro melhores do Fluminense formariam os 10 do Estadual.

O Flamengo levanta a taça do Carioca de 1978.

Acontece que, como era comum naquela época, bastou os dois torneios se iniciarem para que as pressões e especulações tomassem conta dos bastidores. Enquanto o Flamengo caminhava célere para conquistar o Campeonato Carioca, vencendo os dois turnos – o segundo, arrematado com o gol histórico de Rondinelli contra o Vasco – sem a necessidade de finais, os clubes pequenos (notadamente os que não haviam conquistado em campo uma das vagas para o Estadual) começaram a se mobilizar para virar a mesa.

A MESA É VIRADA

Uma semana depois da vitória rubro-negra sobre o Vasco que decidiu o Carioca, a Federação convocou um Conselho Arbitral para decidir como seria o tal Campeonato Estadual, a ser jogado a partir de fevereiro de 1979. Foi quando os pequenos, liderados pelo America (na época ainda um clube de certa força) e beneficiados pelo voto unitário, derrotaram o outro bloco formado por Flamengo, Fluminense, Vasco e alguns pequenos – e que acabou prejudicado pelas estranhas abstenções do Botafogo e do Goytacaz, campeão fluminense.

A proposta dos pequenos era absurda: rasgava o que fora acordado no início, desrespeitando o caráter classificatório dos dois campeonatos disputados em 1978, e determinava um inviável torneio com 18 clubes em três turnos – ou seja: TODO MUNDO entraria, os 12 do Campeonato Carioca mais os seis do Campeonato Fluminense. Contra isso, protestava, por exemplo, o presidente do São Cristóvão (que obtivera um ótimo sexto lugar no Carioca), ao afirmar após o Arbitral: “De que adianta ter se classificado se agora todo mundo quer entrar?”.

Paralelamente, o Flamengo também recebia críticas de parte da imprensa porque alguns de seus dirigentes, incluindo seu representante na Federação, tentavam fazer com que este primeiro Estadual valesse pela temporada de 1979, e não pela de 1978. Eram acusados de, supostamente, temer colocar “em risco” o título carioca recém-conquistado. Num ponto, porém, os cartolas rubro-negros tinham certa dose de razão: afinal era um tanto esdrúxulo que um torneio disputado todo ao longo de 1979 valesse por um título do ano anterior.

De mais a mais, não havia o que pôr “em risco”: o caneco levantado em 1978 era incontestável, ratificado no boletim oficial da Federação (publicado um dia após o jogo contra o Vasco) e tudo. O Flamengo havia sido o campeão carioca daquele ano, ponto. O primeiro Estadual, valesse pela temporada que fosse, não anularia aquele fato, nem passaria por cima dele. “Pouco importa se vai valer por 1978 ou 1979”, afirmou na época o presidente rubro-negro Márcio Braga.

Mas a discussão prosseguiria após a virada do ano, em novas reuniões do Arbitral, até a CBD se manifestar, anunciando seu calendário. A entidade nacional bateu o martelo pelo torneio com 10 clubes, conforme previa o estatuto da nova Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ), o que teve de ser acatado pelos pequenos. Estes, porém, não se dão por completamente vencidos e contam agora com o surpreendente apoio do Fluminense.

Os pequenos defendem o novo Estadual valendo ainda por 1978, algo que contraria não só o Flamengo, como o Vasco e alguns outros clubes. Havia, porém, uma brecha: como a CBD marcou em seu calendário o início do Brasileirão de 1979 apenas para outubro, havia uma lacuna enorme a ser preenchida. A solução partiu de uma ideia do então presidente vascaíno, Agathyrno da Silva Gomes: dois campeonatos numa mesma temporada.

O Estadual com 10 clubes seria transformado no chamado “Campeonato Especial”, reunindo os seis vindos do Carioca (Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, America e São Cristóvão) e os quatro oriundos do torneio do interior (Goytacaz, Americano, Volta Redonda e o estreante Fluminense de Nova Friburgo). Em seguida, viria o certame ambicionado pelos clubes menores, com 18 equipes dividido em três turnos, a ser jogado entre maio e outubro. Em nova reunião, a proposta é aprovada por unanimidade, e a paz é feita.

HORA DA BOLA ROLAR

E assim como o Vasco havia sido apontado como favorito à conquista do bicampeonato antes do início do torneio de 1978, agora era a vez do Flamengo ser (como diz seu hino) o mais cotado ao seu bi particular no primeiro dos dois torneios estaduais previstos para aquele ano. O gol de Rondinelli havia tirado um grande peso das costas da equipe, que agora estava bem azeitada e segura de seu potencial. O time de Cláudio Coutinho estava voando.

O elenco rubro-negro não foi tão alterado para 1979. O veterano zagueiro Moisés, sem espaço, seguiu para o Fluminense, enquanto alguns atletas que haviam chegado por empréstimo e que não conseguiram se firmar (como Marcinho, Tião, Eli Carlos e Alberto Leguelé) também deixaram a Gávea. Foi também o fim da longa carreira do lateral-esquerdo Vanderlei Luxemburgo no clube que o revelou. Por outro lado, apenas dois jogadores foram contratados.

Reinaldo, ponta-direita vindo do America, brilha contra o ex-clube.

Um deles era o ponta-direita Reinaldo, veloz e driblador, que se destacara no America nos dois anos anteriores e havia sido trazido como opção de um especialista na posição. Outro era o centroavante Luizinho (o popular “das Arábias”), da Portuguesa da Ilha do Governador, que se celebrizara ao marcar quatro gols na forte defesa do Vasco nos dois confrontos entre os clubes no Carioca do ano anterior. Chegava, inicialmente, para a reserva de Cláudio Adão.

Mas havia outras novidades, entre os jogadores prata-da-casa que retornavam de empréstimos. Dois deles em especial: o volante Andrade, que atuara por dois anos no futebol venezuelano, jogando inclusive mais adiantado, como ponta-de-lança, e revelando um insuspeitado faro de gol, e o ponta-esquerda Júlio César, que havia passado pelo America e pelo Remo, e estava de volta para exibir seu futebol moleque, de drible abusado e cruzamentos precisos.

Vindo de uma excursão de pré-temporada pela Bahia, o Fla estreou no Carioca somente no dia 8 de fevereiro, quando Fluminense e Botafogo já haviam jogado e vencido suas duas primeiras partidas – o que obrigou os rubro-negros a se manterem sempre afiados e à espera de tropeços dos rivais. Na primeira partida, mesmo desfalcado de Toninho, Carpegiani e Zico, o time bateu o Volta Redonda no Maracanã por 2 a 0, gols de Cláudio Adão e Reinaldo.

Na segunda rodada, um jogo marcante contra um bom time do America, que fora um rival duro de ser derrotado no ano anterior. O primeiro gol na vitória por 4 a 0, anotado pelo ponta Reinaldo, entrou para a história do Maracanã: era o primeiro a ser anunciado no moderno placar eletrônico do estádio, inaugurado naquela partida. Na etapa final, Adílio ampliaria antes de Zico deixar duas cobranças precisas de falta nas redes do goleiro País, fechando a goleada.

Depois foi a vez de encarar a estrada: em Nova Friburgo, no estádio Eduardo Guinle, o Fla bateu o Fluminense local por 5 a 1, dois gols de Cláudio Adão, dois de Zico e um de Júnior, com Spinelli diminuindo para os locais. Na partida seguinte, contra o Goytacaz em Campos, o time venceria por 1 a 0 com um gol histórico: depois de receber passe de Cláudio Adão, Zico marcaria seu gol de número 245 pelo clube, superando a marca de Dida. A dias de completar 26 anos, o camisa 10 se tornava o maior artilheiro do Flamengo.

Os cinco últimos jogos do turno seriam no Maracanã, incluindo três clássicos. No primeiro deles, contra o Vasco, empate em 1 a 1 com Zico marcando numa cabeçada que encobriu o goleiro Leão. Três dias depois, o time bateu o São Cristóvão por 2 a 0 (mais dois gols de Zico) e alcançou a liderança do turno, agora com o número de jogos igualado entre os principais postulantes. No domingo seguinte, seria a vez de outro clássico, o Fla-Flu.

Embora tenha saído na frente com gol de Zico, o Flamengo não cumpriu boa atuação e chegou a ser dominado. Rondinelli desviou contra as próprias redes um chute de Mário, e o clássico ficou no 1 a 1. Mas a constatação era a de que o time, mesmo ainda em início de temporada, mostrava sinais de desgaste físico pelo calendário massacrante: além do Estadual, viajava constantemente para disputar inúmeros amistosos – antes da partida contra o Flu de Friburgo, fora de casa, por exemplo, estivera se exibindo em Uberaba (MG) e Vitória (ES).

Fla-Flu do primeiro turno: Carpegiani e Manguito tomam conta do então tricolor Nunes, enquanto Zico observa.

Outro reflexo desse desgaste era a fase ruim do centroavante Cláudio Adão, que se sagrara um dos artilheiros do Carioca do ano anterior, mas perdera a reta final daquele torneio por lesão, da qual se recuperara fisicamente, mas não psicologicamente. E as vaias da torcida se tornavam mais frequentes. Foi quando Cláudio Coutinho, depois de muito relutar, acabou lançando seu reserva, Luizinho, contra o Americano, na penúltima rodada do turno.

O Fla saiu atrás com um gol de Té, mas o novo titular se mostrou decisivo anotou três na goleada por 6 a 1, em que Zico marcou dois e Andrade fez o outro. O volante era outro nome que aos poucos ganhava presença no time, assim como um certo lateral que se profissionalizara no início daquele ano, depois de ter participado do elenco já no ano anterior: um jovem chamado Leandro, que por vezes substituía Toninho, revezando com o uruguaio Ramírez.

Entre o jogo contra o Alvinegro campista, numa quarta-feira, e o duelo contra o Botafogo que decidiria o primeiro turno no domingo, mais amistoso: na sexta, o Fla foi a Brasília enfrentar e vencer o Corinthians por 2 a 0. Enquanto isso, no sábado, o Vasco batia o Fluminense por 1 a 0 e deixava os rubro-negros dependendo apenas de um empate diante dos botafoguenses no dia seguinte para confirmarem a conquista do primeiro turno.

Mesmo jogando dia sim, dia não, o Flamengo mostrou um vigor físico impressionante no primeiro tempo do clássico da última rodada, massacrando o Botafogo e abrindo logo 3 a 0. Zico marca o primeiro logo aos três, Carpegiani amplia aos 21 após receber do Galinho e, aos 40, Luizinho faz o terceiro enchendo o pé depois de receber passe de Júnior. O primeiro tempo já poderia ter terminado em goleada, se tantas chances não fossem desperdiçadas. Na etapa final, o time tocou a bola, poupando energias.

No gol de Zico, que abriu o placar, um detalhe de sagacidade do camisa 10 rubro-negro. Na zaga do Botafogo naquele dia jogava um garoto chamado Celso, substituto à última hora do veterano Renê (ex-Vasco), que havia sido afastado pela diretoria. Num lance, poucos minutos antes do gol, Celso havia perdido sua chuteira numa dividida e havia sido alertado pelo árbitro de que, se tocasse a bola com aquele pé, cometeria falta, como manda a regra.

A jogada seguiu e, enquanto o Fla retomava a bola e seguia para o ataque com Julio César e Tita, Zico foi para cima do jovem zagueiro alvinegro e pediu a bola. Sabendo que não poderia ser combatido, teria liberdade para girar e chutar para o gol. Foi o que fez: de costas para o gol, recebeu passe de Tita e gingou sobre o marcador, que não teve outra escolha senão assistir ao Galinho girar e encher o pé direito para fuzilar o goleiro.

ATROPELANDO NO RETURNO

Com o primeiro turno conquistado, o Fla entrou no segundo embalado: atropelou o São Cristóvão por 6 a 1 e o Goytacaz por 7 a 1 nos dois primeiros jogos, ambos no Maracanã. Neste segundo, Zico voltou a fazer história, ao balançar as redes do Alvianil campista nada menos do que seis vezes e se tornar o jogador a marcar mais vezes num mesmo jogo na história do estádio, recorde o qual ainda detém. Até ali, nas 10 partidas que havia participado na campanha, já havia anotado 21 gols.

Entre o empate em 1 a 1 com o America na terceira rodada (o primeiro jogo em que Zico atuou e não marcou naquele campeonato) e a vitória suada de 1 a 0 sobre o Volta Redonda no Raulino de Oliveira, o Flamengo disputou um amistoso histórico, que teve sua arrecadação revertida às vítimas de enchentes que assolaram o interior do país, especialmente Minas Gerais. A partida contra o Atlético-MG, em 6 de abril, teria ainda um convidado especial: Pelé, vestindo pela primeira e única vez a 10 rubro-negra.

Mais de 140 mil pessoas foram ao Maracanã naquela noite de sexta-feira e, além de assistirem aos 45 minutos em que Atleta do Século atuou pelo Flamengo ao lado de Zico (que vestiu a 9), também viram a partida infernal do ponteiro Julio César, que desmoralizou a defesa atleticana com dribles e jogadas de efeito na goleada por 5 a 1. O time mineiro abriu o placar com Marcelo, mas não resistiu ao Fla, que virou com três gols de Zico, um de Luizinho e outro de Cláudio Adão.

Na quinta rodada, numa quarta-feira, o Flamengo foi a Campos e bateu o Americano por 2 a 1, mantendo-se na ponta do returno. Posição ainda mais assegurada com a vitória sobre o Vasco, de virada, por 2 a 1 na rodada seguinte. Depois de Roberto abrir o placar para os cruzmaltinos no início da etapa final, o Fla empatou num gol antológico, uma “tabelinha de cabeça”, aos 19 minutos. Toninho ganhou a jogada na raça pela direita e cruzou alto. Carpegiani escorou para Luizinho, que ajeitou para Zico, que testou para as redes – tudo pelo alto.

Cinco minutos depois, veio a virada, quando Adílio apanhou o rebote de uma defesa de Leão para tocar rasteiro para as redes. O resultado colocou o Flamengo folgado na liderança, quatro pontos à frente de Vasco e Fluminense, ainda que com um jogo a mais. E a vantagem foi mantida com a vitória por 4 a 0 sobre o Fluminense de Friburgo no Maracanã. Porém, ainda haveria alguns clássicos, cujos resultados poderiam reequilibrar a disputa.

O primeiro seria o Fla-Flu de 22 de abril. Os tricolores começaram atacando e abriram a contagem logo aos cinco minutos com Fumanchu. A partir daí, porém, só deu Flamengo. Quando Cláudio Adão, que havia entrado no lugar de Luizinho, empatou o jogo aos 25 minutos da etapa final, os rubro-negros já faziam por merecer até a vitória, que acabou não vindo. Mesmo assim, o empate em 1 a 1 ainda deixou o Fla muito perto da taça, acabando com as chances do Vasco e mantendo apenas o próprio Flu com (remotas) possibilidades matemáticas.

CAMPEÃO INVICTO

O gol de empate também serviu para reabilitar a confiança de Cláudio Adão, que não balançava as redes no Maracanã pelo campeonato desde a rodada de abertura, em fevereiro. Seis dias após o Fla-Flu, os tricolores deram adeus de vez ao campeonato empatando em 0 a 0 com o Vasco e entregando a taça de bandeja ao Fla, que encararia o Botafogo na última rodada. A única questão pendente era se os rubro-negros levantariam o título de maneira invicta.

O Botafogo veio fechado, esperando surpreender nos contra-ataques, e o Flamengo teve um certo trabalho para abrir a contagem, o que só aconteceu aos 32 minutos numa bola de Adílio para Zico, que encheu o pé. Os alvinegros empataram num cruzamento do ponta Clóvis que Gil escorou de cabeça. Mas o Fla retomou a vantagem ainda na primeira etapa novamente com Zico, após um confuso bate-e-rebate na área botafoguense.

Na etapa final, o ex-rubro-negro Luisinho Lemos aproveitou falha do zagueiro Nelson e empatou de novo. Mas a igualdade acabou persistindo e a invencibilidade foi mantida. Com 13 vitórias e apenas cinco empates em seus 18 jogos, o Flamengo se tornava o primeiro clube a se sagrar campeão carioca sem sofrer derrotas na era Maracanã. E ainda teve Zico e seus absurdos 26 gols marcados em 17 partidas como artilheiro disparado do torneio.

E mais ainda viria pela frente…

Os 90 anos de Dequinha, o elegante capitão do segundo tri carioca rubro-negro

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Jogador de estilo clássico, elegante, e de técnica refinada, o volante Dequinha, que completaria 90 anos nesta terça-feira, marcou época no Flamengo por exatamente uma década e foi um dos símbolos maiores do timaço tricampeão carioca em 1953/54/55. Embora tímido e calado fora dos gramados, o potiguar foi também o grande capitão da equipe em duas daquelas conquistas e se fez muito respeitado inclusive pelos rivais. E ainda se tornou referência de estilo na posição para o clube, tendo herdeiros como Carlinhos “Violino” e Andrade.

AS ORIGENS

“Comecei a jogar futebol logo que aprendi a andar, creio”, relembrou Dequinha em seu perfil para a série “Ídolos do Futebol Brasileiro” publicada pela revista Manchete nos anos 50. Nascido José Mendonça dos Santos na cidade potiguar de Mossoró em 19 de março de 1929, quando garoto chegou a trabalhar como torneiro mecânico, ajudando seu pai, mas logo seria incentivado pelo mesmo a tentar carreira no futebol, ao perceber o talento do filho com a bola nas peladas locais. Em 1945, já jogava na base do Atlético de sua cidade natal.

No ano seguinte, passaria ao rival Potiguar e de lá seguiria para Natal, onde defenderia o ABC, clube em se profissionalizaria e conquistaria um título estadual. Mas logo chamaria a atenção do América do Recife, na época ainda um clube de certa força no futebol pernambucano, que o trouxe em 1949. No começo do ano seguinte, já era convocado para o escrete estadual que participaria do Campeonato Brasileiro de Seleções, no qual se destacaria.

Ponta-esquerda no início da carreira em Mossoró, logo seria adaptado na posição em que se consagraria: a de centromédio, o atual volante. Nesta função, seu futebol técnico e disciplinado chamaria a atenção do Flamengo, mas os torcedores e dirigentes do América relutavam em deixar Dequinha sair. Acontece, porém, que o presidente do clube, Rubem Moreira, era rubro-negro fanático e acabou aceitando a proposta e liberando o jogador.

A CHEGADA A UM FLAMENGO EM TURBULÊNCIA

Aos 21 anos, Dequinha chegou ao Flamengo, então dirigido por Gentil Cardoso, em meados de 1950 para fazer testes. Agradou e foi contratado em junho. Uma lesão, porém, adiou sua estreia até 17 de setembro, quando esteve entre os titulares – embora fora de posição, deslocado para a meia-esquerda – no empate em 2 a 2 com o America pelo Campeonato Carioca, quando a equipe já era dirigida pelo português Cândido de Oliveira.

Naquele ano, o clube viveu a pior temporada de seu prolongado declínio após o tricampeonato carioca conquistado em 1942-43-44. Após vender o ídolo Zizinho (um dos últimos remanescentes do time do tri) ao Bangu e passar por várias trocas de treinadores, com jogadores também entrando e saindo a todo momento, terminou o Carioca apenas na sétima colocação. Muito havia de ser mudado, mas alguns nomes já apontavam para o futuro.

Dequinha era um deles. Introvertido, sofreu um pouco para se adaptar no início, em meio ao momento conturbado do clube e aos problemas físicos. Mas já dava mostras de seu talento. No ano seguinte, com o novo presidente Gilberto Cardoso empossado e o técnico Flávio Costa de volta após comandar o Vasco (e a Seleção), o Flamengo começou aos poucos a se reerguer. E o começo da recuperação do orgulho veio em sua primeira excursão europeia.

Entre maio e junho de 1951, o Flamengo fez dez jogos no Velho Continente, atuando na Suécia, Dinamarca, França e Portugal. Venceu os dez. Destaque para os dois triunfos diante do Malmö (1 a 0 e 2 a 0), as goleadas sobre o AIK (6 a 1) e o Racing Paris (5 a 1) e a vitória categórica sobre o Belenenses, então um dos times mais fortes de Portugal (3 a 0). Dequinha começou como reserva, mas ganhou a posição e se tornou o grande destaque da viagem.

A afirmação viria no Campeonato Carioca daquele ano, quando o potiguar ganhou de vez uma vaga no time titular, fazendo a dupla de médios com o paraguaio Modesto Bria, um dos veteranos do último título carioca. Seu futebol técnico e disciplinado atraía cada vez mais a atenção dos cronistas. E o Flamengo fez campanha bem superior à do ano anterior, inclusive quebrando um longo jejum de vitórias sobre o Vasco (derrotado, aliás, nos dois turnos).

A REVOLUÇÃO COM SOLICH

No ano seguinte, o Fla fez campanha ainda melhor, terminando na segunda colocação ao lado do Fluminense. Mas o grande salto seria dado em 1953, com a chegada do técnico paraguaio Manuel Fleitas Solich, que havia acabado de levar a seleção de seu país a um inédito título sul-americano, derrotando duas vezes o Brasil. Aproveitando a base deixada por Flávio Costa (que retornou ao Vasco), Solich faria alterações táticas que revolucionariam o futebol rubro-negro.

Na Gávea, o treinador seria um dos introdutores do 4-2-4 no futebol carioca e brasileiro, cinco anos antes de a Seleção apresentar o esquema para o mundo na Copa da Suécia. E no Flamengo, Dequinha exercia papel fundamental nesse sistema, operando com muita eficiência toda a ligação da defesa com o ataque. Desafogava a retaguarda rubro-negra e iniciava as jogadas ofensivas de uma equipe que, naquele tempo, primava pela objetividade e intensidade.

Jadir, Dequinha e Jordan na Gávea: histórica “linha média” rubro-negra.

Na época, os jornais ainda imprimiam as escalações no velho sistema 2-3-5, ou “pirâmide”, um equívoco que criava as famosas “linhas médias” de jogadores nas equipes, mas que na verdade não representava o real posicionamento deles em campo. Em todo caso, esse processo acabou por popularizar – até eternizar – o trio rubro-negro formado por Jadir, Dequinha e Jordan, embora o centromédio atuasse mais próximo de outro ídolo do time, o meia Rubens.

SÍMBOLO DE ELEGÂNCIA

Dequinha e Rubens formaram uma das maiores duplas de meio-campo da história do Flamengo. O potiguar era a classe e o paulistano, a malícia. Ambos muito técnicos. Embora combativo, o centromédio jogava um futebol limpo e disciplinado, desarmava com maestria e sem recorrer a pontapés (Didi chegou a aponta-lo várias vezes como seu melhor marcador). E ao apoiar, distribuía a bola com extrema precisão nos passes e lançamentos.

No livro “Nação Rubro-Negra”, o escritor paraibano Edilberto Coutinho relembra a classe do domínio de bola do meia. “Quem viu, não esquece. Fernando Calazans descreve com propriedade: ‘Seus pés tocavam só de leve o gramado, como que para não magoá-lo’. A bola vinha alta, arremessada com força pelo goleiro em tiro de meta; Dequinha erguia o pé à altura da cabeça, amortecia a bola como se fosse com a mão e a trazia, submissa, murcha, ao chão, juntinha ao outro pé. Quantas vezes o Maracanã encantado não viu esse lance?”.

Edilberto também relembra um lance de efeito do qual o meia se utilizava não para humilhar o oponente, mas como simples recurso técnico: os lençóis (ou chapéus): “Outra marca registrada de Dequinha. Conseguia manobrar a bola de um lado para o outro, cobrindo a vítima, sem deixar a bola tocar no chão. Assim Dequinha será sempre lembrado: o artista, o atleta das belas expressões corporais, o estilista, digno de figurar numa galeria de grandes virtuoses”.

Carlinhos, o “Violino”, que antes de ser treinador várias vezes campeão com o clube, também foi referência rubro-negra de futebol elegante na posição ao longo dos anos 60, relembrou com reverência aquele que foi seu mestre: “Foi o jogador em que me espelhei. Ele jogava bonito e a bola não fugia de seus pés. Tive um bom instrutor”. Mais adiante, a tradição seria retomada com Andrade, a partir do fim dos anos 70 e por quase toda a década seguinte.

Os capitães Dequinha, do Flamengo, e Pinga, do Vasco, cumprimentam-se antes de mais um clássico.

Homem tímido, educado e quieto, embora se portasse fora de campo com a mesma elegância exibida nos jogos, Dequinha era um líder em campo – ainda que de outro estilo, sem gritar, às vezes orientando mais com gestos e exemplos do que com palavras. Feito capitão do time a partir de 1954, quando o veterano ponta Esquerdinha foi barrado por Solich para dar lugar ao jovem Zagallo, Dequinha entrava em campo sempre com a bola debaixo do braço.

Além de tudo isso, Dequinha era o nordestino capitão de um Flamengo repleto de nordestinos no elenco. Além dele, potiguar, o elenco abrigava o centroavante paraibano Índio; o ponta-esquerda cearense Babá; o meia-direita Duca e o zagueiro Cido, ambos pernambucanos; além de um trio de alagoanos formado pelo lateral-direito Tomires, o ponta-de-lança Dida e o ponta-esquerda Zagallo (este, no entanto, criado no Rio de Janeiro desde pequeno).

AS PASSAGENS PELA SELEÇÃO

Naquele mesmo ano, após as ótimas exibições no Carioca, Dequinha chegaria à Seleção, com vista à Copa do Mundo da Suíça. Analisando os convocados, o jornalista David Nasser assim o definiu na revista O Cruzeiro: “Emérito passador. Ótimo controlador de bola. Estranhou o sistema de Zezé Moreira, possivelmente, mas suas qualidades o recomendam para reaparecer em qualquer emergência. Para jogos mais leves é um centromédio ideal”.

Embora integrasse os 22 da lista final, o médio fez apenas uma partida pelo Brasil naquele ciclo, um amistoso contra o Millonários colombiano no Maracanã, vencido por 2 a 0. No Mundial suíço, acabou preterido por Brandãozinho, da Portuguesa, jogador menos técnico que ele, mas de maior vigor físico. No entanto, as portas da Seleção continuariam abertas a Dequinha, que retornaria a vestir a camisa canarinho nos dois anos seguintes.

Dequinha, o penúltimo em pé a partir da esquerda, na Seleção em 1955.

Em 1955, ele atuaria nas partidas contra Chile e Paraguai, ambas no Maracanã, válidas pelas taças Bernardo O’Higgins e Oswaldo Cruz, respectivamente. E no ano seguinte, seria titular em cinco das sete partidas da excursão europeia na qual o escrete comandado por Flávio Costa colheu exibições e resultados irregulares. Com isso, volante rubro-negro totalizaria sete jogos oficiais e um não-oficial vestindo a camisa da Seleção.

INTOCÁVEL NO TRI

O tricampeonato carioca dos rubro-negros teve suas peculiaridades. O regulamento previa uma primeira etapa com os 12 clubes se enfrentando em turno e returno e pontos corridos, na qual o vencedor se classificaria para as finais, e outra com um turno extra, disputado apenas pelos seis melhores colocados da fase anterior, com pontuação zerada e apontando o outro finalista. Este formato vigorou única e exclusivamente por aqueles três anos.

Nos dois primeiros títulos, não houve necessidade de finais. O Flamengo venceu todas as etapas e se sagrou campeão direto, com uma rodada de antecipação em ambos. Nos 54 jogos das duas campanhas somadas, o time de Fleitas Solich obteve 41 vitórias, nove empates e apenas quatro derrotas, além de chegar a acumular uma série invicta de 34 jogos entre um torneio e outro. Já no terceiro, jogando no limite, o time venceu a etapa inicial, mas caiu de rendimento no turno extra, vencido pelo America. O título seria decidido numa melhor de três.

O time que goleou o Fluminense por 6 a 1 na extensa campanha do tri.

Foi um campeonato extenso, iniciado em agosto de 1955 e encerrado apenas em abril de 1956. Contando as finais, seriam 30 partidas disputadas. E no meio da campanha, ainda houve o luto: em novembro, o presidente Gilberto Cardoso falecera de infarto após assistir ao time de basquete rubro-negro vencer o Sírio Libanês com uma cesta no último segundo numa das partidas decisivas do Carioca da modalidade. O título no futebol seria a ele dedicado.

O time venceu o primeiro jogo pelo placar mínimo, gol de Evaristo. No segundo, com os rubros em dia de graça, foi goleado por 5 a 1 num resultado que surpreendeu a cidade. Mas na terceira e decisiva partida, deu o troco vencendo por 4 a 1 (mesmo placar que havia aplicado ao rival no returno), com Dida anotando os quatro. A Dequinha, além da honra de ostentar a braçadeira nos dois últimos títulos, coube outro destaque: ele foi o único, em todo o elenco, a disputar todos os 84 jogos da campanha do tri. Um fenômeno de regularidade.

Em algumas partidas, Dequinha veio a ser mais do que um jogador eficiente e o dono do meio-campo. Ele foi decisivo. Contra o Botafogo, pela quinta rodada do primeiro turno do campeonato de 1955, foi dele o gol espetacular da vitória por 1 a 0, no fim de uma partida em que o Flamengo havia ficado com dez devido à lesão do centroavante Índio logo aos 13 minutos de jogo. Um gol de sem-pulo, que valeu ponto precioso para o desfecho da primeira etapa.

“A coroa de louros pertence a Dequinha. Dentro da sua sobriedade costumeira, de repente, vendo as coisas escuras e as trincheiras alvinegras cobertas, achou de resolver a questão por si. Aí chutou. Determinadamente, Obstinadamente na direção do arco. A pelota saiu como uma bala. Numa fração de segundo, metade do estádio ficou de pé, tomada pela justa alucinação”, escreveu o renomado cronista Geraldo Romualdo da Silva para o Jornal dos Sports.

OS ÚLTIMOS ANOS

O tetra carioca não viria em 1956, com o time ainda sofrendo da extenuante maratona do tri e mostrando certa autossuficiência. Mas as lesões também atrapalharam. A de Dequinha, ausente em momento crucial do primeiro turno, fez um Flamengo desorientado perder pontos que seriam decisivos na briga com o Vasco, que se sagraria o campeão – embora os rubro-negros tenham somado uma vitória e um empate em seus dois jogos diante dos cruzmaltinos.

O time rubro-negro de 1959, que fez boa campanha no Torneio Rio-São Paulo, posa no Pacaembu antes de enfrentar o Corinthians.

O Flamengo também esteve perto do título em 1957 e 1958 – neste, após os dois triangulares finais com Botafogo e Vasco, que seriam eternizados como o chamado “supersupercampeonato”. Também fez campanha muito boa no Torneio Rio-São Paulo em ambos os anos e conquistou, no início de 1959, o prestigioso Torneio Hexagonal de Lima enfrentando na capital peruana o River Plate, o Peñarol, o Colo Colo e os locais Alianza e Universitário.

Infelizmente, o ano de 1959 também foi marcado pela tristeza. Em setembro, durante um treino na Gávea, um choque numa dividida com o centroavante Henrique Frade provocou gravíssima fratura em sua perna esquerda. A previsão inicial era de inatividade por nove meses. Mas mesmo depois de voltar aos treinos, a confiança em sua plena recuperação não era a mesma, até porque seu substituto, o jovem Carlinhos, promovido dos juvenis, já se firmara.

Sentindo que não poderia mais oferecer ao clube o que se esperava dele, Dequinha pediu rescisão do contrato que recentemente renovara e cogitou pendurar as chuteiras. Era início de 1961. Porém, um convite do ex-colega de Flamengo Marinho Rodrigues levou o potiguar a treinar no Botafogo. Embora bem recebido (afinal, sempre fora um jogador admirado até pelos rivais), sua passagem por General Severiano foi rápida, atuando apenas nos aspirantes.

Dequinha, já no Campo Grande, posa ao lado de seu sucessor, Carlinhos.

Em janeiro do ano seguinte, seguiria para o pequeno Campo Grande, que recrutara alguns veteranos como o goleiro Barbosa (ex-Vasco e Seleção) e o meia Décio Esteves (ex-Bangu) para sua campanha de estreia no Campeonato Carioca. Na primeira partida, o time surpreenderia ao bater o Botafogo (detentor do título e que chegaria ao bi no fim do ano) por 1 a 0 no Maracanã, mas o restante da campanha foi um tanto irregular, ainda que bom para um debutante.

Em 1963, por fim, Dequinha retornaria ao América do Recife após 12 anos no futebol carioca, dividindo brevemente os postos de jogador e técnico, antes de se retirar de vez dos gramados com festa na capital pernambucana. Iniciaria ali uma carreira de 30 anos como treinador, na qual passaria por clubes de vários estados brasileiros, especialmente os nordestinos. Aposentado, morreu de cirrose hepática em Aracaju no dia 30 de julho de 1997, aos 68 anos.

LENDA RUBRO-NEGRA

Na galeria de ídolos rubro-negros, porém, Dequinha é imortal. Nas duas primeiras votações feitas pela revista “Placar” para apontar o Flamengo de todos os tempos, em 1982 e 1994, Dequinha marca presença, superando Andrade, Carlinhos e Bria. Em seu tempo, foi homenageado em músicas como o famoso “Samba Rubro-Negro”, de Wilson Batista (“O Mais Querido / Tem Rubens, Dequinha e Pavão / Eu já rezei pra São Jorge / Pro Mengo ser campeão”).

Nas notas de edição do livro “Flamengo é Puro Amor”, do escritor paraibano e rubro-negro José Lins do Rego, o jornalista Marcos de Castro relembra uma história curiosa: nos primeiros anos após sua inauguração, em meados dos anos 1950, o Monumento aos Pracinhas, no Aterro da Glória, no Rio, recebeu um apelido diferente: o soldado, o marinheiro e o aviador esculpidos em pedra eram chamados popularmente de “Jadir, Dequinha e Jordan”.

Em julho de 1975, ele voltou a vestir a camisa do clube no Maracanã, num jogo de veteranos dos (até ali) dois tris cariocas rubro-negros, reencontrando velhos companheiros na preliminar de um amistoso em que o Fla dos garotos Zico, Júnior e Geraldo derrotou a Juventus de Zoff, Scirea, Gentile e Causio por 2 a 1. Naquele encontro do Flamengo com sua história, mais de uma geração de torcedores teve a chance de matar as saudades ou de conhecer para não mais esquecer a categoria de um dos jogadores mais elegantes da história do clube.

Leandro, 60 anos: mestre da lateral, ídolo (e torcedor) gigante do Flamengo

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Telê Santana afirmou inúmeras vezes que Leandro foi o melhor lateral-direito que viu jogar. Flávio Costa o comparava a Domingos da Guia pela precisão no posicionamento e pela técnica fora do comum para limpar a jogada e iniciar os ataques. Falcão, companheiro na Copa de 1982, revelou que todos naquele time eram fãs do lateral e consideravam-no o mais habilidoso daquele elenco repleto de craques. Maior jogador da posição na história do Flamengo e um gigante do futebol brasileiro, o “Peixe Frito” completa 60 anos neste domingo.

Nascido em Cabo Frio, na Região dos Lagos do estado do Rio, José Leandro de Souza Ferreira se fez rubro-negro ainda na infância, quando acompanhava o pai, fanático pelo Fla, com o ouvido colado no rádio escutando a voz trovejante de Jorge Curi nas transmissões esportivas. E mais tarde, quando percorriam os mais de 150 km que separam a cidade litorânea do Maracanã. Enquanto isso, jogava suas peladas em campo, salão ou praia, aprimorando sua habilidade.

Mas até ali não passava por sua cabeça ser jogador de futebol, pular das arquibancadas e cair direto de camisa rubro-negra, calção, meias e chuteira dentro do gramado do então Maior do Mundo. Leandro queria apenas prestar vestibular para Educação Física e, depois de formado, abrir uma academia de ginástica. Foi para isso que, nos idos de 1976, deixou Cabo Frio e veio morar no Rio com um primo, matriculando-se num curso pré-vestibular.

DAS ARQUIBANCADAS PARA O CAMPO

Apesar da arrebatadora paixão rubro-negra, foi o acaso quem deu o pontapé inicial em sua carreira de jogador. Num dia, entrou com o primo num ônibus com destino à praia do Leblon. O ponto final calhou de ser bem em frente à sede do clube, na Gávea. O primo, rubro-negro como ele, lançou o desafio: “Já que estamos aqui, por que você não tenta fazer um teste no Flamengo?”. Leandro topou. Depois de dois treinos, foi aprovado.

Dois anos depois, já estreava no time principal entrando durante um amistoso contra o America em Caio Martins. Naquela primeira metade da temporada de 1978, integraria o elenco de juvenis comandado por Américo Faria, tendo ainda esporádicas participações no time de cima. Em uma delas, atuaria pela primeira vez como titular do Flamengo, num empate em 1 a 1 com o Palmeiras no Maracanã pelo Campeonato Brasileiro, no dia 5 de julho.

O Fla tinha o desfalque de Júnior, lesionado, o que levou o técnico Joubert (ocupando o lugar do licenciado Cláudio Coutinho) a remanejar o uruguaio Ramírez para a esquerda e lançar o garoto de Cabo Frio na direita. Leandro tinha como missão marcar o veloz ponta-esquerda Nei. No fim do jogo, era Nei quem tentava tomar conta de Leandro. A atuação de segurança impressionante fez com que o jovem de 19 anos fosse eleito o melhor da partida.

Quando Cláudio Coutinho reassumiu o comando do time, em agosto, Leandro foi aproveitado mais vezes no time de cima, embora ainda fosse juvenil. O treinador se mostrava encantado com a naturalidade do futebol do lateral que via nos treinos. Na conquista do Carioca daquele ano, ele atuou em seis partidas, quatro delas como titular (incluindo a goleada histórica de 9 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha no Maracanã, pelo segundo turno).

A temporada seguinte começou com Leandro profissionalizado, integrado em definitivo ao elenco e bastante utilizado entre os titulares. E em várias posições: nas suas três primeiras partidas pelo Campeonato Carioca Especial, jogou de lateral-esquerdo, volante e, por fim, lateral-direito. Além de sua qualidade técnica que se revelava a cada dia, sua versatilidade tinha origem em uma incomum habilidade com ambos os pés, trazida das peladas de Cabo Frio, nas quais ele se proibia de utilizar a perna natural, a direita, para passes e chutes.

OS PRIMEIROS PROBLEMAS FÍSICOS

Daqueles tempos em sua cidade natal, Leandro também trouxe um problema que atravessaria toda a sua carreira: uma lesão em um dos joelhos nunca plenamente curada e agravada por uma marca congênita, as pernas arqueadas, que forçavam as articulações. Todo esse quadro clínico o levou a ser operado para a retirada dos meniscos pela primeira vez com apenas 20 anos. E o deixou de fora dos gramados por mais de cinco meses, prejudicando sua ascensão.

Voltou em setembro, já em meio à disputa do Campeonato Estadual, o segundo daquele confuso ano. Atuou cinco vezes, sendo três como titular, e sempre como lateral. E num dos dois em que entrou, vestindo a camisa 13, marcou seu primeiro gol com a camisa rubro-negra, um tento muito bonito, limpando a marcação e encobrindo o goleiro, que arredondou no último minuto a vitória por 3 a 0 diante da Portuguesa da Ilha no Maracanã.

Em 1979, com Tita e Andrade.

A mística de só ter atuado por um clube quase foi quebrada no início do ano seguinte: em março, o técnico Ênio Andrade, do Internacional, pediu seu empréstimo ao Flamengo. Leandro foi a Porto Alegre, acertou as bases e participou de exames físicos. Tudo parecia encaminhado, até que o médico do clube gaúcho pediu nova bateria de testes para reavaliá-lo. Notou algum problema e recomendou que o negócio fosse desfeito. “Ele me fez um bem danado, porque eu pude voltar ao Flamengo e seguir minha carreira”, comentaria o lateral anos mais tarde.

O problema era que, diante do inesperado fiasco da transferência, Leandro estava sem contrato e, portanto, sem poder ser inscrito no Brasileiro. Acabou não participando da primeira conquista nacional do clube, disputando apenas eventuais amistosos naquele período. Com a venda do titular Toninho para o futebol árabe após o título brasileiro, parecia que Leandro surgiria com força para ganhar a vaga no time, mas uma fratura no pé esquerdo adiou os planos.

O então reserva imediato de Toninho, Carlos Alberto (ex-Joinville) assumiu a camisa 2 e manteve a titularidade em parte do Estadual. Mas no returno, Leandro foi lançado no Fla-Flu da segunda rodada e dali em diante tomou conta da posição, chegando a marcar um gol no último jogo do time, uma vitória por 4 a 3 sobre o Volta Redonda no Raulino de Oliveira. Terminou bem o ano, embora o Flamengo vivesse momento turbulento no elenco e na comissão técnica.

E seguiria conquistando seu espaço no elenco no início de 1981, na primeira fase do Brasileirão. Até que em 28 de fevereiro, um sábado de Carnaval, sofreu um grave acidente automobilístico em Cabo Frio que o afastou dos gramados por vários meses. Mais uma vez, via ser contida sua afirmação como titular, como num verdadeiro teste de paciência. Leandro voltaria aos treinos apenas no início de maio, mas a titularidade só seria recuperada no mês seguinte, quando o Fla deu uma pausa no Estadual para participar de um torneio em Nápoles.

As duas exibições brilhantes do time nas goleadas sobre o Avellino (5 a 1) e o Napoli (5 a 0) em pleno estádio San Paolo serviram para colocar o Flamengo de vez nos eixos para acumular troféus naquele segundo semestre. E sempre contando com a categoria de Leandro entre os titulares, fosse da lateral-direita (sua posição preferida), ou da zaga, ou até mesmo do meio-campo, onde chegou a atuar de maneira esporádica como volante e meia-direita.

O time da final do Carioca de 1981. Em pé: Raul, Mozer, Marinho, Nei Dias, Júnior e Andrade. Agachados: Lico, Leandro, Nunes, Zico e Adílio.

ENFIM, A AFIRMAÇÃO

Para quem tanto esperou, lutou e sofreu para vingar na carreira de jogador profissional como Leandro, o segundo semestre de 1981 foi redentor. Dono absoluto da lateral-direita no clube, era a hora de chegar à Seleção de Telê. Desde que assumira o cargo, em 1980, o técnico já escalara Nelinho (Cruzeiro), Getúlio (São Paulo), Edevaldo (Fluminense, depois Inter) e Perivaldo (Botafogo), sem se impressionar com nenhum deles. E resolveu dar uma chance ao garoto do Flamengo no amistoso com a Bulgária no Olímpico, no fim de outubro.

Coroada com um belo gol (o terceiro nos 3 a 0 para o Brasil, fuzilando o goleiro Donev após lançamento de Sócrates), a atuação de Leandro foi tão convincente que Telê decidiu ali mesmo pela titularidade do lateral na Copa. O Jornal do Brasil avaliou assim sua estreia: “Um dos grandes valores do jogo. Pela primeira vez escalado desde o início, mostrou iniciativa, talento e categoria para continuar absoluto na posição. Marcou um bonito gol”.

Um mês depois, conquistaria com o Flamengo a Taça Libertadores da América, tendo atuação crucial no terceiro jogo contra o Cobreloa, em Montevidéu. Os rubro-negros tinham o desfalque de Lico, atingido por um defensor chileno com uma pedra que perfurou sua pálpebra no jogo de Santiago, três dias antes, e quase não puderam contar com Adílio, que abrira o supercílio na mesma partida após ser agredido dentro da área com uma cotovelada do zagueiro Mario Soto.

O técnico Paulo César Carpegiani decidiu então deslocar Leandro para o meio-campo, formando dupla de volantes com Andrade, e passando o recuperado Adílio para a ponta-esquerda, com a entrada de Nei Dias na lateral. Porém, no fim do primeiro tempo, irritado com a violência do Cobreloa, Andrade revidou agressão de Jiménez em Júnior e foi expulso. Assim, em toda a etapa final, Leandro se desdobrou para cobrir sozinho a defesa e ainda se lançar ao ataque.

Duas semanas depois, Leandro estava novamente escalado no meio-campo – agora como um meia-direita – na decisão do Estadual contra o Vasco, participando da jogada que culminou no segundo gol rubro-negro na vitória por 2 a 1 e levantando sua segunda taça naquele fim de ano. E em 13 de dezembro, viria a conquista do Mundial Interclubes em Tóquio, com os 3 a 0 diante do Liverpool, nos quais Leandro praticamente nem precisou se esforçar para conter o tímido ataque os Reds e ainda pôde se lançar à frente esporadicamente.

Contra o Cobreloa: fazendo múltiplas funções.

Após o apito final, enquanto beijava a taça, o lateral tinha sua cabeça estava em outro lugar, bem distante de Tóquio: “Da explosão de sentimentos que eu tive ali na hora ao ver as bandeiras do Flamengo, era realmente aqui. Era no Brasil mesmo, era o povão, era a torcida do Flamengo, aquele sentimento que eu tinha como torcedor de arquibancada e saber da alegria que eles estavam sentindo aqui”, lembrou no documentário “1981 – O Ano Rubro-Negro”.

CAMPEÃO DO BRASIL E TITULAR DA SELEÇÃO

No ano seguinte, depois de ter sido eleito em janeiro a revelação de 1981 pela imprensa esportiva gaúcha e também por uma eleição promovida pelo jornal O Estado de São Paulo, Leandro ajudou o Flamengo a “unificar” seus títulos ao conquistar também o Brasileiro de 1982. Em abril, o clube era o atual detentor de todos os títulos principais que disputara, da Taça Guanabara ao Mundial. Na conquista da Taça de Ouro, o lateral só ficou de fora de um jogo e balançou as redes duas vezes – curiosamente, ambas em jogos no Recife.

Na primeira fase, um golaço em chute de perna esquerda que parou no ângulo do goleiro Jairo contra o Náutico no Arruda, numa virada espetacular do Fla, que perdia por 3 a 1 e terminou vencendo por 4 a 3. Depois, um golaço de cobertura no goleiro País contra o Sport na Ilha do Retiro na partida de volta das oitavas de final, num jogo em que o que o lateral teve ainda um outro gol equivocadamente anulado por impedimento.

Na final contra o Grêmio, houve ainda um episódio anedótico que se tornou célebre. No terceiro jogo, no Olímpico, o Fla abriu o placar logo aos dez minutos com gol de Nunes e os gaúchos passaram a pressionar em busca do empate que levaria a decisão à prorrogação. Diante do intenso “abafa” gremista, a reposição de bola do goleiro Raul com chutões fazia os ataques dos donos da casa se sucederem, o que irritava o lateral.

“Manda aqui, Raul!”, pedia Leandro com insistência. “Mas você tá marcado!”, retrucava o goleiro. O diálogo foi travado inúmeras vezes, até que Raul também perdeu a paciência e jogou para o lateral uma bola complicada, quicando no gramado. Apertado por dois gremistas, Leandro livrou-se de Odair com um chapéu e tirou o outro com um drible, numa jogada de extrema categoria, antes de descer pela ponta em lance que quase resultou em gol. Ao voltar, não perdeu a chance de tirar onda com o goleiro: “Velho, eu jogo pra caralho!”.

No mesmo dia, veio a confirmação da convocação para a Copa. Mas Leandro não chegou a viver bom momento na Espanha. Desgastado pela maratona do Brasileirão, ele foi ainda o jogador mais sacrificado pelo desenho tático de Telê. Sem a presença de um ponta, Leandro foi sozinho todo o lado direito do time, tendo de ir e voltar entre a defesa e o ataque sem alguém para dialogar. Telê havia previsto um rodízio dos meias por ali, mas que não aconteceu na prática.

De notável, apenas os dois ótimos cruzamentos para os dois tentos de Zico – um deles, numa belíssima quase-bicicleta – que abriram a goleada por 4 a 0 sobre a Nova Zelândia. Cansado e abatido com a derrota para a Itália, só voltou aos gramados mais de um mês após o Mundial, com outra maratona pela frente: o Flamengo tentava o bi Estadual e da Libertadores, além de disputar amistosos no Brasil e no exterior, num calendário quase enlouquecedor.

Em 1983, mais um título brasileiro com grande atuação na final.

DE NOVO CAMPEÃO BRASILEIRO NUM FLA RENASCIDO

O fim daquele ano, porém, seria um completo anticlímax: visivelmente esgotado fisicamente, o time perdeu a chance de avançar novamente à final da Libertadores e foi derrotado pelo Vasco na decisão do Estadual. Para agravar a crise, houve ainda a morte do supervisor Domingo Bosco, homem fundamental para aparar arestas internas, e os desentendimentos entre o técnico Paulo César Carpegiani e jogadores como Tita e Nunes se tornaram públicos.

A crise seguiu até a metade do Brasileiro de 1983. Mas o Fla ressurgiria após a chegada de Carlos Alberto Torres para comandar o time e voltaria à decisão do torneio contra o Santos. Derrotado no Morumbi na partida de ida por 2 a 1, deu a volta por cima no Maracanã em grande atuação coletiva diante do maior público da história da competição: precisando vencer por dois gols de diferença para evitar uma prorrogação, aplicou um sonoro 3 a 0.

Leandro teve excelente atuação, coroada com a marcação do segundo gol, ainda na etapa inicial, escorando de cabeça uma cobrança de falta de Zico de forma inapelável, bem no canto do goleiro Marolla, aos 39 minutos. Mas não só: também conteve o perigoso ponteiro-esquerdo santista João Paulo e, pouco tempo depois de balançar as redes, ainda acertou o travessão com uma bomba de pé esquerdo de fora da área.

Ao longo da carreira, porém, Leandro se acostumou a enfrentar a cada novo êxito uma nova provação. O homem de quem o acaso fez jogador profissional e que ostentava formação um tanto diferente da maioria dos outros atletas também possuía uma sensibilidade distinta quando confrontado com certas situações. No fim de 1983, Leandro enfrentava problemas pessoais e decidiu pedir pela primeira vez sua dispensa da Seleção, que disputava a Copa América.

Casado há pouco tempo com sua namorada da adolescência e tendo recentemente se tornado pai pela primeira vez, Leandro vivia momento emocional turbulento em parte pela cobrança da esposa para que passasse mais tempo em casa, algo um tanto incompatível com a atribulada rotina de jogador, e em parte pelo fato de que as duas famílias não se davam. O divórcio doloroso o levou a fazer sessões de análise, pedir a dispensa do time de Carlos Alberto Parreira e mesmo cogitar abandonar o futebol, decisão felizmente revertida.

A TRANSIÇÃO DEFINITIVA PARA A ZAGA

Em meados do ano seguinte, Leandro passaria por nova transformação, agora dentro de campo. Em junho, o Flamengo negociara Júnior com o Torino e contratara para seu lugar o ascendente Jorginho, do America. No entanto, o técnico Zagallo, que voltava à Gávea após uma década, tinha outros planos: vendo o garoto Adalberto, dos juniores, pedindo passagem na lateral-esquerda, decidiu deslocar Jorginho para a direita (posição em que também atuava) e Leandro para a zaga central ao lado de Mozer, com o antigo titular Figueiredo indo para o banco.

A medida também tinha como objetivo poupar o lado físico de Leandro, cujos joelhos já não aguentavam mais o vai e vem da função de ala. De todo modo, ele continuou esbanjando talento na nova posição: perfeito nas antecipações, vigoroso no combate, seguro no jogo aéreo e com toda a sua técnica natural para limpar a área e sair jogando. Por tudo isso, voltou a ser premiado com a Bola de Prata, agora como melhor zagueiro central do Brasileirão de 1985.

Com o retorno de Telê Santana ao comando da Seleção, Leandro também voltou, após ter ficado de fora nos meses em que Evaristo de Macedo esteve à frente do time. O dilema, no entanto, era sua posição: Leandro pediu para disputar posição na zaga, mas o treinador o convenceu a seguir na lateral. De início, saiu-se muito bem nas Eliminatórias e ainda marcou seu segundo gol pelo Brasil num amistoso contra o Chile no Beira Rio, vencido por 3 a 1.

O gol de Leandro foi uma pintura: recebendo a bola de Cerezo na meia direita, avançou por dentro, limpou o marcador e disparou uma bomba de pé esquerdo, estufando as redes chilenas. Mas no fim daquele ano, ele marcaria outro ainda mais memorável, no Fla-Flu que abriu o triangular final do Estadual. Aos 44 minutos do segundo tempo, os rubro-negros perdiam por 1 a 0 quando o meia Gilmar Popoca foi derrubado perto da área. Andrade, num último recurso, levantou a bola para a área, mas o centroavante tricolor Washington afastou.

A bola voltou pingando da área do Flu até a intermediaria. Procurava Leandro. Após o terceiro quique, o camisa 3 encheu o pé, o foguete triscou o travessão de Paulo Victor e quicou dentro do gol, às costas do atarantado goleiro tricolor. O Maracanã explodiu. Zico, que assistia ao jogo das cabines de rádio, comemorou insanamente, esmurrando o vidro. Ao seu lado, Jorge Curi, o mesmo locutor que Leandro ouvia com seu pai em Cabo Frio, narraria o último gol no clássico em sua vida. Dali a 12 dias, faleceria num acidente de automóvel.

A POLÊMICA ANTES DA COPA DE 1986

No ano seguinte, durante a preparação para a Copa do México, uma polêmica que marcaria sua carreira. Após duas semanas de clausura na Toca da Raposa, o técnico Telê Santana deu algumas horas de folga aos atletas num domingo. Leandro, que nem pensava em sair, acabou persuadido, ao ver a concentração rapidamente se esvaziar. Os jogadores foram a um bar, de onde seguiram para um churrasco na casa do ponteiro Éder e, de lá, para uma boate. Quando deu o horário de retorno, alguns jogadores voltaram, mas Leandro decidiu ficar, assim como Renato Gaúcho.

Os dois beberam até mais tarde e chegaram à concentração às duas da manhã. Tentaram pular o muro, aproveitando toda a “estrutura” com escadas e cadeiras que alguns jogadores haviam preparado para que não fossem delatados, mas não conseguiram e decidiram entrar pela porta da frente. Um dos seguranças viu e denunciou a dupla à comissão técnica. Furioso, Telê decidiu cortá-los, mas foi persuadido pelos demais jogadores.

Em meio ao escândalo, que naturalmente ganhou as páginas dos jornais, gerou todo tipo de comentários e deixou o ambiente na concentração (que já não era agradável) ainda mais pesado, Leandro começou a amadurecer uma decisão, que ganhou ainda mais motivação ao se saber que, na lista final da Copa, ele havia sido incluído, mas Renato não. No dia do embarque, para que não houvesse tempo de ser demovido, renunciou à convocação.

Com a Seleção nas Eliminatórias para a Copa de 1986.

A decisão de não embarcar era alimentada por uma soma de razões: Leandro (assim como outros jogadores) percebia que Telê Santana havia mudado em relação a 1982: de rigoroso, tornara-se intransigente, quase impossível de dialogar. E sentia que o técnico não gostava de Renato e que havia encontrado no caso da Toca da Raposa um pretexto para se livrar do ponteiro, algo que o defensor considerou “uma sacanagem” com o gremista.

Leandro também sabia que não tinha mais pique para jogar na lateral, ainda mais num esquema igual a aquele que o havia sacrificado pelo isolamento quatro anos antes. Telê, porém, descartava totalmente escalá-lo na zaga, onde atuava no clube há dois anos. Além disso, as questões físicas se agravavam: ao examiná-lo, os médicos do Flamengo se impressionaram ao constatarem que a artrose em seus joelhos era comparável à de uma pessoa de 60 anos.

DE VOLTA AO FLA, DE NOVO CAMPEÃO

A decisão de não embarcar também significou o fim de sua carreira na Seleção. Agora, dedicando-se exclusivamente ao Flamengo, ele pôde participar da reta final do Campeonato Estadual de 1986, ajudando a equipe a superar o Vasco de Romário e Roberto Dinamite numa melhor de três decisiva: após dois empates em 0 a 0 nas duas primeiras partidas, os rubro-negros venceram a terceira por 2 a 0, e o capitão Leandro levantou a taça.

De novo campeão carioca em 1986, capitaneando um time de garotos, como Bebeto, Jorginho, Aílton e Aldair.

A temporada 1987 seria a última em que Leandro conseguiria atuar com frequência, ainda que os problemas com os joelhos provocassem dores intensas e demandassem todo um tratamento com gelo após cada jogo. Na campanha vitoriosa da Copa União, ele formaria experiente dupla de zaga com Edinho (repatriado da Udinese), atuando em 12 dos 19 jogos e colecionando algumas exibições memoráveis, como contra o Palmeiras no Maracanã e no nervoso jogo de volta das semifinais contra o Atlético no Mineirão.

No ano seguinte, depois de atuar de modo intermitente no Estadual (e nele marcar seu último gol pelo Flamengo, nos 3 a 1 sobre o Volta Redonda na Gávea) e ainda de integrar o misto rubro-negro que faturou a Copa Kirin derrotando o Bayer Leverkusen no Japão, decidiu não mais protelar e aceitou operar da artrose crônica no joelho direito. Era o início do fim. Pelas duas temporadas seguintes, pouco atuou: fez só quatro jogos em 1989 e 12 em 1990 – um deles, o da despedida de Zico do Flamengo, em fevereiro, no Maracanã.

Pouco tempo depois, era Leandro quem se despedia, aos 31 anos, concretizando algo para o qual já vinha se preparando, diante do cansaço da luta pela recuperação física. Mas sem dramas: apenas recolheu-se na sua Cabo Frio e passou a viver para a nova família e uma pousada que construiu na cidade. Longe dos holofotes, mas sem se incomodar em falar no Flamengo, e com a saudade da torcida rubro-negra sempre batendo.

“Engraçado que, às vezes, eu me pego pensando assim: ‘Será que eu joguei mesmo no Flamengo? Será que eu representei tanta coisa assim para a nossa torcida?’. Tudo aconteceu muito rápido na minha carreira e realmente foi algo fantástico. Eu amo muito o Flamengo. O diferencial é você ser um torcedor apaixonado e jogar pelo clube que torce. Você veste a camisa realmente”. E nas 415 vezes em que vestiu o manto rubro-negro, Leandro o honrou como poucos.

A comemoração emocionada do gol no Fla-Flu em 1985.

Há 60 anos, Fla levantava um prestigioso troféu sul-americano: o Hexagonal de Lima

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O Flamengo levantou há exatos 60 anos um título tão importante quanto esquecido em sua história. O Torneio Internacional de Lima, mais conhecido como Hexagonal de Lima, colocou os rubro-negros frente a frente com gigantes do futebol sul-americano na capital peruana, um ano antes da criação da Taça Libertadores da América. E os comandados de Fleitas Solich fizeram bonito, trazendo o troféu para um Rio de Janeiro em pleno Carnaval.

A campanha teve um revés logo de início, mas o Fla se recuperou e, entre outros resultados memoráveis, houve um baile histórico no poderoso River Plate e uma virada épica sobre o Alianza diante da torcida adversária. O torneio é, juntamente com o Octogonal de Verão de 1961 (história contada aqui), um dos grandes títulos sul-americanos do Flamengo antes da Libertadores e das demais competições oficiais da Conmebol. Fosse certos clubes, tentariam emplacar sua equiparação a um título continental oficial.

A PREPARAÇÃO

O torneio foi anunciado no fim de dezembro de 1958, pouco depois do Natal, como parte de uma temporada de jogos internacionais a ser realizada na virada do ano na capital peruana. Ainda impressionados com as grandes exibições do Fla em amistosos disputados Lima no início daquele ano, os cartolas logo trataram de confirmar a participação rubro-negra no certame, que também contaria com os uruguaios do Peñarol, os argentinos do River Plate e os chilenos do Colo Colo, além da dupla local Alianza e Universitario.

O Flamengo ainda disputava então a reta final do Campeonato Carioca, que se estenderia até 17 de janeiro. Ao fim dos pontos corridos houve um empate triplo entre os rubro-negros, o Vasco e o Botafogo (ainda que o Fla terminasse com os melhores ataque e defesa do certame, os números não foram considerados para o desempate), obrigando a realização de um triangular, dito “supercampeonato”, que também terminou igual. Foi preciso então um segundo triangular, o “supersupercampeonato”, encerrado com título cruzmaltino.

O ataque rubro-negro que foi base do time campeão em Lima: da direita para a esquerda, Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Babá.

Essas etapas extras decisivas provocaram, além do desgaste físico e mental dos jogadores rubro-negros, a necessidade de adiar a entrada do time no Hexagonal de Lima. O pedido de adiamento foi aceito, e o time embarcou no Galeão em 21 de janeiro, enquanto o torneio já estava em andamento na capital peruana. Com a tabela remarcada, a primeira partida do Fla, que seria contra o Universitario, passou a ser contra o fortíssimo Peñarol, campeão uruguaio, e que no ano seguinte venceria a primeira edição da Taça Libertadores da América.

TROPEÇO NA ESTREIA

A estreia, na sexta-feira, dia 23, não foi muito favorável aos rubro-negros, ainda se ressentindo do cansaço causado pela maratona da reta final do Carioca. Ainda que o time até fizesse boa partida, especialmente com Moacir no setor de criação, os uruguaios abriram o placar na etapa final com Cuccinello aos 17 minutos e confirmaram a vitória com tento de Borges aos 44. Para piorar, o volante e capitão Dequinha, esteio do meio-campo rubro-negro, lesionou-se ainda no primeiro tempo e teve que ser substituído pelo zagueiro Pavão, passando Milton Copolilo para o meio.

Para a partida seguinte, agora sim contra o Universitario, dois dias depois da estreia, o técnico rubro-negro, o paraguaio Fleitas Solich, mexeu no time. A saída de Dequinha manteve no time titular a alteração feita durante o jogo com o Peñarol, com a entrada de Pavão na zaga e a passagem para o meio-campo do jovem Milton Copolilo, jogador de grande versatilidade surgido na base rubro-negra. Além disso, Dida seria lançado desde o início na ponta de lança, deslocando Luís Carlos para o lado direito do ataque no lugar de Othon.

Um pouco mais descansado e aclimatado, e sem se intimidar com a torcida do time da casa, o Fla matou o jogo logo no primeiro tempo, com Milton Copolilo marcando o primeiro, concluindo jogada de Moacir e Babá, e depois Dida anotando o segundo, após passe de Moacir. O Colo Colo, adversário seguinte no dia 28, quarta-feira, vinha decepcionando no torneio (apanhara de 5 a 0 do Peñarol em seu jogo anterior) e pretendia reagir diante do Flamengo, contando com a experiência do goleiro Escuti e do atacante Jorge Robledo.

DOIS “BAILES” PARA SEGUIR RUMO AO TÍTULO

O azar dos chilenos foi que os rubro-negros começaram arrasadores. Em 22 minutos, Escuti já havia buscado a bola no fundo de suas redes por quatro vezes. Luís Carlos marcou aos cinco minutos, Moacir aos 10 e Babá aos 16 e 22. Na etapa final, com o Flamengo já cansado, o adversário descontou para 4 a 2 com Hormazábal e Rodriguez. Com o Fla alcançando a liderança do torneio, os jogadores teriam enfim alguns dias de descanso, voltando a campo somente dali a seis dias para enfrentar o River Plate, em jogo isolado.

Dirigidos por um nome histórico do futebol platino, José Maria Minella, os Millonarios já viviam o segundo ano do que seria seu maior jejum de todos os tempos (campeões em 1957, só voltariam a comemorar em 1975, 18 anos depois), mais ainda reuniam um punhado generoso de ótimos jogadores, remanescentes da equipe tricampeã nacional em 1955-56-57, que ficou conhecida como “La Maquinita”.

Eram os casos do goleiro Carrizo, do zagueiro Ramos Delgado (que mais tarde jogaria no Santos), o lateral Vairo, o meia De Bourgoing (que depois de defender a seleção argentina, migraria para a França, atuando pela seleção de lá na Copa de 1966), o centroavante Menéndez e o ponta Zárate. Nenhum destes craques, entretanto, conseguiu conter a atuação espetacular do Flamengo, que começou a se desenhar perto do fim do primeiro tempo.

Primeiro Luís Carlos, aos 42, e depois Henrique, aos 44, em escapadas pelas pontas e chutes cruzados, levaram os rubro-negros em vantagem para o intervalo. Na etapa final, o River ensaiou reação quando Menéndez descontou aos 16. Mas logo no reinício do jogo, Henrique passou a Moacir, que lançou Babá e este devolveu a Henrique para bater e marcar o terceiro gol rubro-negro. E aos 24, Babá fechou a goleada depois de um drible desmoralizante em Ballesteros, seu marcador, que caiu sentado.

Após a “vitória justa, insofismável e sem apelação”, que consagrou o “domínio técnico, tático e territorial” do Flamengo sobre o River Plate, segundo a crônica do Jornal dos Sports, o time enfim chegou à liderança isolada do hexagonal, com seis pontos ganhos em quatro partidas, contra cinco do Peñarol e do próprio River (que já encerrara sua participação) e quatro da dupla peruana Universitario e Alianza, além do Colo Colo, lanterna com apenas dois pontos.

A VIRADA ESPETACULAR QUE VALEU O CANECO

Na última rodada, dia 6 de fevereiro, sexta-feira de Carnaval no Rio, Peñarol e Universitario disputariam a preliminar, enquanto o Flamengo – com Dequinha de volta, mas agora desfalcado de Dida – fecharia o torneio encarando o Alianza, clube mais popular do Peru, no Estádio Nacional de Lima. O empate em 2 a 2 no jogo de abertura levou temporariamente o Peñarol aos mesmos seis pontos do Flamengo, que passou a precisar de pelo menos a igualdade diante do Alianza.

Entretanto, empurrados por sua torcida que lotou o estádio, os jogadores peruanos foram para cima e marcaram logo aos sete minutos, numa falha do goleiro Fernando. O Fla tentava reagir e dominava as ações ofensivas, mas esbarrava na firme defesa peruana. E ainda sofreria o segundo gol, pouco antes do intervalo. Na etapa final, antes dos dez minutos, o Alianza já chegava a incríveis 3 a 0, para o delírio do público local.

Talvez neste momento os deuses do futebol tenham enfim achado que o placar já era absurdo e injusto demais para o que se desenrolava dentro de campo. E decidiram virar a sorte do avesso: Manoelzinho, o reserva de Dida que quase ficou de fora da delegação que embarcou para Lima, recebeu de Babá e descontou um minuto depois do terceiro gol peruano. Mais cinco minutos e outra vez Manoelzinho balança as redes, escorando de cabeça um escanteio.

O atacante mineiro Manoelzinho, herói da vitória sobre o Alianza.

Aos 16, outra vez o pequenino Babá, jogando uma enormidade, passa a Manoelzinho, que empata o jogo e silencia o Estádio Nacional. O ataque rubro-negro troca de posição incessantemente, atordoando a defesa do Alianza. E apenas um minuto depois do empate, Manoelzinho solta uma bomba que o goleiro Bazán não consegue segurar e dá rebote. Henrique, com a valentia de sempre, surge para fuzilar de primeira, com a canhota, e completa a virada inacreditável, épica, do Flamengo.

Em menos de dez minutos, o time sai de um 3 a 0 contra para uma vantagem de 4 a 3 na casa do adversário, com estádio lotado. Ainda petrificada com a rápida reação rubro-negra, a torcida limenha apenas assiste ao Fla trocar passes e dar olé pelo resto do jogo. E ao apito final, sai do transe hipnótico para aplaudir a formidável exibição dos cariocas no segundo tempo. No meio do público estava o conceituado jornalista francês Gabriel Hanot – um dos idealizadores da Copa dos Campeões (atual Liga dos Campeões) europeia.

Hanot escreveu para o famoso diário L’Équipe suas impressões a respeito do Hexagonal. Sobre o Flamengo, comentou que embora os rubro-negros não estreassem com o pé direito, “fartaram-se de jogar com objetividade, animados por um estilo incontrolável. Apresentaram-se visivelmente cansados. Bastou, no entanto, que se refizessem, para transporem as dificuldades surgidas. É uma equipe possuidora de excepcional espírito de luta, desconcertante na sua agilidade física e mental”, destacou.

A delegação rubro-negra desembarcou no Rio no dia seguinte à decisão, um sábado de Carnaval. Junto à torcida em êxtase, os jogadores curtiram a folia como campeões.

FICHA DA CAMPANHA:

23.01.1959 – Peñarol 2 x 0 Flamengo
25.01.1959 – Universitario 0 x 2 Flamengo – gols: Milton Copolilo e Dida
28.01.1959 – Flamengo 4 x 2 Colo Colo – gols: Luís Carlos, Moacir, Babá (2)
03.02.1959 – Flamengo 4 x 1 River Plate – gols: Luís Carlos, Henrique (2), Babá
06.02.1959 – Alianza 3 x 4 Flamengo – gols: Manoelzinho (3), Henrique

TIME-BASE:

Fernando – Joubert, Pavão – Jadir, Milton Copolilo, Jordan – Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida, Babá. Técnico: Manuel Fleitas Solich. Também jogaram: Bolero, Dequinha, Othon e Manoelzinho.

As outras vezes em que Ajax e Eintracht Frankfurt cruzaram o caminho do Fla

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Zico é o alvo da defesa do Eintracht Frankfurt no amistoso disputado em junho de 1980: parado apenas com falta.

Neste ano, o Flamengo participa pela primeira vez da Florida Cup, competição amistosa realizada nos Estados Unidos que coloca frente a frente equipes brasileiras e europeias como nos antigos torneios de verão no Velho Continente. Tanto o holandês Ajax, adversário desta quinta-feira, quanto o alemão Eintracht Frankfurt, do sábado, já mediram forças com os rubro-negros em outras ocasiões, nas quais o Mengão obteve ótimos resultados. As (boas) lembranças destes confrontos são trazidas agora em detalhes pelo Flamengo Alternativo.

AJAX

A única partida contra o Ajax foi disputada pelo Torneio de Amsterdã de 1988, no dia 5 de agosto daquele ano. A competição era um quadrangular em duas rodadas e com regulamento um tanto insólito: em vez de se cruzarem numa decisão, os vencedores da primeira série de jogos enfrentavam os perdedores da segunda, sem haver, portanto, a realização de uma final direta. Em caso de empate em pontos, o saldo de gols definiria o campeão.

Deste modo, era possível (como acabou acontecendo naquele ano) que uma equipe vencesse seus dois jogos e mesmo assim ficasse sem o título, caso tivesse saldo inferior a outra na mesma situação. Além do Flamengo e do organizador Ajax, os outros dois participantes daquela edição eram o Benfica, que havia acabado de ser finalista da Copa dos Campeões da Europa, e a Sampdoria, da então multimilionária Serie A italiana.

Manchete da página de esportes do jornal holandês De Telegraaf com a vitória rubro-negra diante do Ajax em 1988.

Rival do Flamengo logo na primeira rodada, o Ajax passava por um período de reformulação, após a saída do técnico Johan Cruyff para o Barcelona em janeiro – com vários nomes assumindo interinamente antes da chegada do alemão Kurt Linder, pouco tempo antes da partida – e a subsequente derrota para o KV Mechelen belga na decisão da Recopa europeia em maio, o que impediu seu bicampeonato no torneio, depois de ter levantado a taça no ano anterior.

Mas mesmo assim contava com grandes jogadores: quatro dos titulares naquela tarde (os meias Aron Winter, Jan Wouters e Arnold Mühren, mais o ponta-direita John Van’t Schip) haviam participado da conquista da Eurocopa pela seleção da Holanda em junho. Além deles, havia ainda outros bons nomes, de extenso histórico na seleção Laranja, como por exemplo o defensor Danny Blind, o volante Wim Jonk e os pontas Bryan Roy e Rob Witschge.

O momento do Flamengo não era muito diferente: com a perda do título carioca para o Vasco, em junho, o técnico Carlinhos foi demitido. Após uma rápida passagem do interino João Carlos Costa pelo cargo, o clube acertou em meados de mês seguinte com o paulista José Cândido Sotto Mayor, o Candinho, que dirigia a Inter de Limeira e havia desenvolvido sua carreira quase toda no futebol de seu estado natal, principalmente no interior.

O elenco também sofria mudanças: o ídolo Renato Gaúcho, um dos principais jogadores na conquista da Copa União no ano anterior, havia sido negociado com a Roma. Além dele, Andrade estava próximo do mesmo destino – e naquela partida vestiria a camisa rubro-negra pela última vez após mais de uma década de história na Gávea. Entre os reforços, o principal era o experiente meia Luvanor, revelado pelo Goiás e com passagem pelo futebol italiano.

Renato Carioca divide a jogada com o veterano Arnold Mühren.

Havia ainda o trio vindo do America, formado pelo lateral-esquerdo Paulo César, o volante Delacir e o meia-armador Renato Carioca. Os dois primeiros haviam vindo primeiro por empréstimo, para a disputa da Copa Kirin (cuja história foi contada neste post), e acabaram ficando de vez. Já o terceiro, destaque do time rubro semifinalista no Brasileirão de 1986, havia chegado depois. De resto, a mesma base campeã da Copa União, à exceção de Zico, lesionado.

Assim, naquele 5 de agosto, os rubro-negros entraram em campo com Zé Carlos no gol, Jorginho e Leonardo nas laterais, Leandro e Edinho na zaga, Andrade e Delacir na proteção do meio, Luvanor na ponta de lança, auxiliado na armação pelos falsos ponteiros Renato Carioca e Zinho, com Bebeto no comando do ataque (e Renato encostando para tabelar). Um desenho tático que se assemelhava mais à equipe campeã mundial de 1981.

E o Fla começou assustando: logo no primeiro minuto, Luvanor arrancou do meio-campo fazendo fila na defesa do Ajax, mas chutou para fora. Mais tarde, aos cinco, novamente Luvanor apareceu para concluir uma jogada tramada pela ponta direita com Bebeto e Jorginho. E aos 15, Renato desceu também pela direita, entrou na área e encobriu o goleiro Menzo, mas a bola passou a centímetros da linha. O gol rubro-negro amadurecia.

Renato Carioca chuta para marcar o gol da vitória.

O Ajax exigiria boas defesas de Zé Carlos aos 16 minutos, primeiro numa cabeçada de Willems e depois numa cobrança de falta de Wouters. Mas três minutos depois, o Flamengo seria letal num contragolpe: Luvanor recuperou uma bola na defesa e entregou a Zinho, que se livrou de Blind, arrancou e, mesmo desequilibrado, fez bom passe para Renato. O meia vindo do America arriscou um chute de longe, que bateu no montinho e enganou o goleiro Menzo. Um a zero.

Renato ainda perderia a chance de ampliar dois minutos depois ao receber outro passe de Zinho no meio da defesa holandesa, mas Menzo conseguiu bloquear seu chute à queima-roupa. O jogo seguiria bastante movimentado, com chances de parte a parte. Mas o placar não seria alterado. O Flamengo sairia vitorioso do Estádio Olímpico de Amsterdã naquela primeira rodada, aberta mais cedo com a goleada da Sampdoria sobre o Benfica por 5 a 1.

Embora vencesse também os lisboetas em seu segundo jogo por 2 a 0, o Fla não ficaria com a taça, que ficaria com os italianos após baterem o anfitrião Ajax por 3 a 0 e levarem a melhor no saldo de gols, já que não houve confronto entre os vencedores Flamengo e Sampdoria. Menos mal que os rubro-negros voltariam da excursão com um caneco, o do Troféu Colombino, disputado na Espanha, vencido dali a algumas semanas.

Flamengo: Zé Carlos – Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo – Andrade, Delacir, Luvanor – Renato Carioca (Alcindo), Bebeto, Zinho.

Ajax: Menzo – Blind, Scholten, Larsson, Verkuyl – Wouters, Winter, Mühren (Jonk) – Van’t Schip, Willems, Roy (Witschge).

EINTRACHT FRANKFURT

O outro adversário na Florida Cup já cruzou o caminho rubro-negro em duas ocasiões. Embora separadas por quase três décadas, ambas as partidas tinham em comum um Flamengo vindo de momento vitorioso. Em 1954, o Fla havia levantado em janeiro o título carioca do ano anterior, três meses antes de enfrentar o Eintracht Frankfurt numa excursão à Europa. Já em 1980, o duelo aconteceu apenas seis dias depois da primeira conquista do Brasileirão.

A primeira partida foi realizada em 11 de abril de 1954. Foi o primeiro jogo do Flamengo em solo alemão e o segundo jogo de uma longa excursão à Europa que durou cerca de 40 dias e se desenrolou principalmente naquele país, mas também pela Itália (onde começou, com o Fla enfrentando um combinado Milan-Inter), Hungria e Áustria. Durante todo aquele período, o elenco teve como desfalques Dequinha, Rubens e Índio, que serviam à Seleção Brasileira.

Naquele tempo, o campeonato da Alemanha Ocidental era regionalizado, e o Eintracht, naquela temporada 1953-54, havia terminado em segundo na recém-encerrada Oberliga-Süd, atrás do Stuttgart. Classificaria-se para a fase final (nacional) do certame, a ser disputada dali a algumas semanas, mas o título ficaria com o Hannover. O principal nome daquele time dos Águias – e que estava em campo contra o Fla – era o meia-esquerda Alfred Pfaff, da seleção.

A equipe rubro-negra, por sua vez, apresentou-se bastante modificada em relação ao time-base que havia vencido o Campeonato Carioca. Além de não contar com o já citado trio da Seleção Brasileira (substituídos por Jadir, Evaristo e Zezinho), o Flamengo também não teve em campo naquele dia o goleiro paraguaio Garcia e o ponteiro Esquerdinha. O argentino Chamorro vestiu a camisa 1 enquanto o jovem Zagallo entrou no ataque.

O jogo foi prejudicado tecnicamente pelo péssimo estado do gramado do local do jogo, mas ainda assim a qualidade do toque de bola rubro-negro impressionou o público e a imprensa locais. O primeiro tempo terminou sem gols, mas no início da etapa final, aos 13 minutos, o Flamengo abriria o placar: num rápido deslocamento, a bola passou de Evaristo para Benítez e do paraguaio para Zezinho, que só empurrou para as redes.

Logo depois, no entanto, o time de Fleitas Solich começou a ceder o controle do jogo à equipe local, que criou inúmeras chances de marcar. Só acabaria concretizando, porém, já perto do último minuto, através do centroavante Richard Kress. O empate em 1 a 1 acabou sendo justo pela alternância no domínio das ações ao longo da partida.

Flamengo: Chamorro – Marinho, Pavão, Servílio, Jordan – Jadir (Tomires), Evaristo – Joel (Paulinho), Zezinho, Benítez, Zagallo (Maurício).

Eintracht Frankfurt: Henig – Bechtold, Kudrass – Remlein, Wloka, Heilig – Dziwoki, Weilbächer (Krömmelbein), Kress, Pfaff, Höfer

* * * * *

O segundo jogo, pouco mais de 26 anos depois, foi a atração principal de uma grande festa que comemorava o aniversário da cidade de Frankfurt e também o título da Copa da Uefa conquistado pelo Eintracht havia cerca de duas semanas. O time alemão, no entanto, poupou alguns de seus titulares, embora levasse a campo nomes experientes como o meia-atacante Bernd Hölzenbein, campeão da Copa do Mundo de 1974 com a seleção alemã.

O Flamengo, recém-proclamado campeão brasileiro após bater o Atlético-MG, também teve problemas pela frente: embora entrasse em campo com praticamente os mesmos titulares da decisão do Brasileirão (apenas o goleiro Raul era desfalque, substituído por Cantarele), a equipe encarou longuíssima viagem de avião até a Alemanha Ocidental e, na hora do jogo, teve que driblar ainda um frio de 7 graus e um campo completamente encharcado.

Zico bate pênalti e inicia a reação do Flamengo.

Enquanto o time ainda se ambientava em campo, o Eintracht abriu o placar: aos três minutos, após um lançamento de Nickel, Nachtweih ganhou a disputa com Toninho e bateu sem chances para Cantarele. O empate do Fla também não tardou: aos 11 minutos, Zico entrou driblando na área até ser derrubado por Körbel. O próprio Galinho cobrou deslocando o goleiro Funk e igualou a contagem. O placar não voltaria a ser movimentado na primeira etapa.

Na segunda, porém, o Flamengo voltou disposto a matar o jogo: Nunes perdeu boa chance logo de saída, mas se recuperou marcando o segundo gol aos três minutos, após um belo drible em Trapp. Já no fim, aos 41, a vantagem seria aumentada quando Andrade pegou o rebote de uma confusão na área alemã e chutou forte, de longa distância, para fechar em 3 a 1 para o Flamengo, que ainda criou chances para golear antes do apito final.

Flamengo: Cantarele – Toninho, Manguito, Marinho, Júnior – Andrade, Carpegiani, Zico – Tita, Nunes, Júlio César (Adílio).

Eintracht: Funk – Trapp – Neuberger, Körbel, Ehrmantraut – Lottermann (Zick), Lorant (Peukert), Nickel, Hölzenbein (Künast) – Nachtweih, Otto.

Os 80 anos de Cláudio Coutinho, o técnico que revolucionou o futebol do Flamengo

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Propositor do estilo de jogo técnico, ofensivo e repleto de conceitos táticos inovadores que levaram o Flamengo a um tricampeonato carioca e ao seu primeiro título nacional, na virada da década de 1970 para a de 1980, Cláudio Coutinho completaria 80 anos neste sábado. O legado do treinador, no entanto, extrapola seu período no comando do clube: foi sob a inspiração de suas ideias que o time subiria outros degraus até o título mundial.

Além das fronteiras cariocas, o trabalho de Coutinho é conhecido quase só por seu período à frente da Seleção, no qual sempre recebeu críticas (em especial da imprensa) de “engessar” o estilo de jogo intuitivo brasileiro em esquemas, de tentar torna-lo “europeu” ao máximo. Até mesmo de burocratiza-lo. Mesmo o fundamental e incensado “A Pirâmide Invertida”, do inglês Jonathan Wilson, reserva pouco espaço (e algum desdém) ao técnico, citado apenas por seu trabalho na Seleção Brasileira como preparador físico e treinador.

Num momento em que tanto se comenta o atraso tático do futebol brasileiro em relação não só ao europeu como até aos vizinhos sul-americanos, é até irônico observar a imagem que ficou de um dos maiores estudiosos do futebol no país. De um treinador que observou muitas vezes “in loco” o contexto mundial do jogo e levou a cabo as ideias que extraiu dele dentro da estrutura ainda mais conservadora do esporte no país naquele momento, em que “teórico” era um epíteto não muito abonador a um treinador de futebol.

Coutinho também morreu jovem, o que o impediu de – décadas depois, com a poeira baixada, os ânimos menos exaltados e sob a luz de um outro enfoque histórico – expor seus motivos, esclarecer temas espinhosos, reconhecer equívocos e reparar injustiças. Quanto à Seleção, é claro. No caso do Flamengo, não há nada a ser explicado. Trata-se de um dos maiores treinadores rubro-negros em todos os tempos e do grande formatador do esquadrão mais vitorioso na história do clube da Gávea, onde seu prestígio sempre foi e segue intocável.

O INÍCIO

Nascido na cidade gaúcha de Dom Pedrito (próxima à fronteira uruguaia) em 5 de janeiro de 1939, mas criado no Rio de Janeiro desde os quatro anos de idade, Coutinho sempre fora apaixonado por esportes. Sua história no Flamengo, clube de seu coração, começou como jogador de vôlei, sendo tricampeão carioca da modalidade entre 1959 e 1961. Na mesma época, iniciou sua carreira militar, pela qual se graduou em Educação Física em 1965 e trabalhou seis anos como instrutor de futebol e vôlei na Escola de Educação Física do Exército.

Seu salto de projeção viria no fim da década: fluente em cinco idiomas, entre eles o francês, seria indicado como representante num congresso de medicina esportiva na França, onde conheceria Kenneth Cooper, que vinha trabalhando num método revolucionário de preparação física. Da amizade entre os dois, surgiria o convite para um estágio de um ano na NASA, onde Cooper trabalhava. De lá, Coutinho voltaria com uma vaga na comissão técnica da Seleção Brasileira de futebol, que se prepararia para a Copa do Mundo do México.

Em gramados mexicanos, o time brasileiro voaria do ponto de vista do condicionamento físico, mesmo com a temida altitude, e complementando as invejáveis qualidades técnicas de jogadores como Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e Rivelino. Coutinho, porém, não se limitava à preparação física: ainda na primeira metade dos anos 70, ao afastar-se inteiramente da carreira militar, acumularia passagens como supervisor na própria Seleção Brasileira (durante aquela Copa), no Vasco, no Botafogo e até no Olympique de Marselha e treinaria a seleção peruana.

Em 1976, receberia de última hora uma missão especial: dirigir a Seleção Brasileira olímpica nos Jogos de Montreal, depois que Zizinho se desentendera com dirigentes da CBD e deixara o cargo. O Brasil nunca havia feito bons papeis no torneio olímpico de futebol, mesmo tendo contado com bons jogadores. Desta vez, havia o goleiro Carlos (Ponte Preta), o zagueiro Edinho (Fluminense), o volante Batista (Internacional) e dois do Flamengo: o lateral-esquerdo Júnior e o ponta Júlio César “Uri Geller”.

Com Coutinho, a Seleção conseguiu seu melhor resultado até então: chegou às semifinais, mas parou nas fortes seleções do bloco socialista, que levavam o que tinham de melhor. O time perdeu para a Polônia de Lato, Deyna e Szarmach e em seguida terminou em quarto, ao também cair na decisão do bronze para a União Soviética de Oleg Blokhin. Mas o bom desempenho do time renderia frutos ao treinador dentro de pouco tempo.

Em setembro de 1976, o Flamengo havia acabado de demitir o técnico Carlos Froner, após quase um ano no cargo. Para o posto, tentou Zagallo, que não conseguiu se desvencilhar de um contrato no Kuwait. Tentou Oswaldo Brandão, técnico da Seleção principal, mas não conseguiu a liberação por parte da CBD. A entidade, porém, fez uma contraproposta: “emprestaria” ao clube, até o fim do ano, o treinador das equipes de base, Cláudio Coutinho.

Consultado pelos dirigentes rubro-negros, Júnior, que havia trabalhado com Coutinho nos Jogos Olímpicos, deu seu aval: era um treinador jovem – 37 anos – e cheio de ideias novas, ainda sem a mesma experiência de outros nomes, mas ideal para um trabalho de médio ou longo prazo. Algumas de suas ideias e conceitos, burilados por suas obcecadas leituras e observações do futebol europeu de então, eram explicadas pelo treinador em entrevista ao Jornal do Brasil, sua primeira após assumir o cargo na Gávea. Entre outras coisas, afirmava:

“É preciso que algum clube comece a atuar de uma forma mais moderna para que os outros sejam forçados a mudar. O problema é que ninguém quer ser o primeiro. Por isso passamos algum tempo estagnados. No futebol de hoje, tem que haver uma participação total, durante os 90 minutos, quase como no basquete. O jogador que chuta em gol deve ajudar imediatamente na marcação, e vice-versa. Passou a época do jogador que só ataca ou só defende”.

Coutinho estreou no comando do Flamengo em 12 de setembro, numa boa vitória de 3 a 0 sobre o Sport no Maracanã pelo Brasileirão, mesmo sem contar com Zico (lesionado) e Luisinho Lemos (suspenso). Partindo de um 4-3-3 básico, fez alterações sutis no posicionamento da defesa – com Jayme atuando na sobra, como uma espécie de líbero, enquanto Rondinelli ia para o combate – e pediu ao trio de meio-campo para se aproximar mais do ataque.

Aos poucos, graças à sua facilidade no diálogo sempre aberto com os jogadores, o time assimilaria suas ideias. Faria ótima campanha na competição (a segunda melhor na soma de todas as fases), mas ficaria de fora das semifinais por um ponto. O início promissor motivou o clube, passando por mudanças administrativas profundas, a contratá-lo em definitivo na virada do ano. Mas uma grande ironia despontava no horizonte. “Emprestado” pela Seleção ao Flamengo em 1976, o treinador logo se veria na situação inversa.

A CHEGADA À SELEÇÃO: SURPRESA, NOVIDADES E POLÊMICAS

Em 26 de fevereiro de 1977, Oswaldo Brandão anunciava sua saída do comando da Seleção, em meio a uma crise técnica – agravada pelo empate em 0 a 0 com a Colômbia em Bogotá na estreia das Eliminatórias da Copa do Mundo, considerado desastroso – e de relacionamento com os atletas. Heleno Nunes, presidente da CBD, nem titubeou: convidou imediatamente Coutinho para o posto, inicialmente em regime temporário, visando motivar os jogadores para o segundo jogo contra o adversário, no início de março, agora no Maracanã.

Coutinho com Brandão, seu antecessor na Seleção Brasileira.

A atuação na goleada de 6 a 0 sobre os colombianos, obtida com dois gols de Roberto Dinamite, dois de Marinho Chagas, um de Zico e um de Rivelino, refletiu muitas diferenças entre o estilo dos dois treinadores: o time estático, antiquado taticamente e ofensivamente hesitante de Brandão deu lugar a uma equipe de muita movimentação e troca de posições, especialmente no meio-campo, abafando a saída de bola do adversário e com bastante apoio pelos lados.

Contratado pela CBD em princípio só até o fim da primeira etapa das Eliminatórias, Coutinho mantinha seu posto no Flamengo, comandando o time também durante todo o Campeonato Carioca de 1977. O Vasco, porém, foi um adversário quase imbatível naquele torneio e, depois de conquistar o primeiro turno, levantou também o segundo – e o título de forma direta – no fim de setembro, após derrotar o Fla nos pênaltis em jogo extra.

A partir de então, passou a ser exclusivo da CBD, com Jaime Valente, ex-zagueiro rubro-negro dos anos 60, assumindo o posto em caráter definitivo na Gávea e dirigindo a equipe no Brasileiro daquele ano, que se estendeu até março de 1978. Em seguida, Jaime acabou recebendo proposta do futebol árabe, passando o cargo para outro ex-jogador rubro-negro, Joubert, que foi o responsável pela condução do time durante o turbulento Brasileiro de 1978.

Enquanto isso, Coutinho enfrentava período igualmente turbulento na Seleção, criticado por suas escolhas, por suas inovações e até por seu vocabulário. A imprensa, em especial a paulista, fazia piada de expressões como “overlapping” (que nada mais era do que a passagem do lateral no apoio pelo corredor aberto quando os pontas fechavam pelo meio), ”ponto futuro” (ou, o local onde o jogador deveria estar para receber a bola num lançamento) e “polivalente” (atribuída ao atleta versátil, capaz de executar mais de uma função em campo).

Enquanto era acusado de tolher a criatividade do futebol brasileiro com esquemas táticos e de sucumbir a pressões dos altos escalões da CBD na escalação do time, Coutinho viu a Seleção começar mal no Mundial da Argentina, mas se recuperar ao longo da competição, ainda que sem chegar a mostrar um futebol vistoso – raro naquela Copa como um todo, aliás. Só que o título ficou com os donos da casa, em meio a suspeitas.

Na última rodada da segunda fase, disputada em formato de grupos, o Brasil bateu a Polônia por 3 a 1 e aguardou o jogo da Argentina com o Peru, marcado para horas depois. A Albiceleste precisava vencer por quatro gols de diferença para avançar e, num jogo sobre o qual muito ainda se fala, goleou por 6 a 0, passando à final. Depois da vitória sobre a Itália por 2 a 1 que deu ao Brasil o terceiro lugar, um irritado Coutinho defendeu sua equipe lançando outra expressão que marcaria sua passagem pela Seleção: “Nós somos os campeões morais desta Copa”.

DEPOIS DAS CRÍTICAS, A AFIRMAÇÃO

A frase não repercutiu bem nem entre a imprensa nem entre a torcida brasileiras. Ao retornar da Copa, o treinador voltaria ao Flamengo, onde reconstruiria sua reputação. Manteve muitas de suas convicções táticas, mas reformulou algumas e abdicou de outras (como a utilização de laterais ofensivos nas pontas). Esta segunda parte de sua passagem no comando rubro-negro seria a mais bem-sucedida de sua carreira. Nela, faria história.

Das ideias táticas que fervilhavam na cabeça do treinador, algumas tinham outras modalidades como inspiração. O boxe, por exemplo. Para ele, a equipe deveria pressionar o adversário desde o início e tentar definir a partida o quanto antes, de modo a não possibilitar uma reação. “Se você acerta um soco no cara, tenta o segundo, o terceiro, para derrubar logo. Se esperar que ele se recupere, pode levar um daqui a pouco. Fez um gol, massacra para fazer outros e resolver logo o jogo”, explicou Zico no livro “1981”, de André Rocha e Mauro Beting.

O basquete também moldava a filosofia de jogo de Coutinho, que gostava de times agrupados, compactos, criativos, com as linhas de marcação alta e que trabalhassem a bola com paciência. Quando a jogada tentada por uma das pontas não se concretizava, a ordem era voltar a bola até a defesa e recomeçar a saída pelo outro lado. Nada de tentar alçar bolas na área infindavelmente a esmo. Para isso, é claro, era necessário o domínio completo dos fundamentos, algo também exigido e apurado cotidianamente pelo treinador.

“Coutinho pregava que os fundamentos do futebol tinham que ser exercitados diariamente, porque todo dia o jogador iria usá-los quando fosse tocar na bola. Não importava qual treinamento, tático, técnico ou coletivo. Em todos eles, teríamos de colocar em prática passes, chutes, cabeçada, domínio de bola, criatividade”, relembra Júnior no mesmo livro. Assim, bastou apenas uma excursão à Europa, em agosto de 1978, para que o time rubro-negro chegasse na ponta dos cascos para a disputa do Campeonato Carioca.

O Flamengo repetiu o que o Vasco havia feito no ano anterior e venceu os dois turnos, sagrando-se campeão sem a necessidade de finais. No primeiro, que valia a Taça Guanabara, liderou de ponta a ponta e faturou o caneco mesmo perdendo o Fla-Flu da última rodada. No segundo, somou dez vitórias e apenas um empate em 11 jogos, superando o Vasco na última rodada por 1 a 0, com o gol histórico de Rondinelli, encerrando quatro anos de frustrações.

O ANO DERRADEIRO NA SELEÇÃO

Coutinho também seguiu seu trabalho na Seleção em 1979. E iniciaria um processo de renovação muitas vezes esquecido ou ignorado. Em maio daquele ano, quando o escrete entrou em campo para seu primeiro jogo oficial desde a Copa, lá estava um quarteto de estreantes que se firmaria no time pelos anos seguintes: o rubro-negro Júnior, Falcão, Sócrates e Éder. O Brasil arrasou Paraguai, Uruguai e o Ajax holandês em amistosos que valeriam como preparação para a Copa América daquele ano, disputada sem sede fixa, em jogos de ida e volta e por vários meses.

No torneio sul-americano, a Seleção avançou na primeira fase num grupo em que também estava a campeã do mundo Argentina, que apresentava um novato chamado Diego Maradona, e a Bolívia, que mandou seus jogos na altitude de La Paz. No entanto, nas semifinais contra o Paraguai, o time perdeu Zico – na época fora de ação após se lesionar num jogo do Fla contra o Goytacaz pelo Carioca – e acabou eliminada.

Os guaranis avançariam à final e conquistariam a Copa América pela segunda vez em sua história. Cláudio Coutinho, por sua vez, deixaria de vez o comando da Seleção em fevereiro do ano seguinte, quando o novo presidente da recém-criada CBF, Giulite Coutinho, anunciou Telê Santana para o cargo.

TRI ESTADUAL COM O FLA

O ano de 1979, no qual ocorreria a muito protelada fusão das federações carioca e fluminense de futebol, também foi marcado pela divergência entre os clubes grandes e pequenos sobre quantas e quais equipes disputariam o estadual daquele ano, e o que levou, no fim das contas, à disputa de dois torneios num mesmo ano. Se não faltou bagunça fora de campo, também sobrou bola ao Flamengo, que levantou os dois títulos de modo inquestionável.

Com o presidente Márcio Braga, comemorando mais um título carioca.

No primeiro, denominado “Campeonato Especial”, com 10 clubes jogando turno e returno entre fevereiro e abril, o Fla repetiu o que havia feito em 1978: venceu as duas etapas e foi campeão direto, sem finais. E com um bônus: o título veio de forma invicta (o primeiro de um time carioca na era Maracanã), com 13 vitórias e cinco empates. Já o segundo, que ficou conhecido como “Estadual” e disputado entre maio e o início de novembro, foi mastodôntico.

Dividido em três turnos, contou com 18 equipes jogando o primeiro deles (que valeu a Taça Guanabara), dez no segundo (com os oito piores jogando uma repescagem em paralelo) e oito no terceiro. Novamente, o Flamengo conquistou os três turnos mesmo perdendo Zico – que então já havia marcado impressionantes 60 gols em 43 jogos, somando os dois campeonatos – por mais de um turno inteiro, com a lesão sofrida contra o Goytacaz.

Como se não bastasse o excesso de jogos nos dois torneios, a agenda do Fla também andava cheia pelos amistosos e excursões marcados para aquele período. Em uma delas, à Espanha, o time de Coutinho brilhou na conquista do Torneio Ramón de Carranza. O adversário na estreia seria o Barcelona, que acabara de vencer a Recopa europeia e contava com nomes como Asensi, Migueli e Rexach, além do goleador austríaco Hans Krankl e do talentoso meia dinamarquês Allan Simonsen.

Pelo lado do Flamengo, havia outra preocupação: o desgaste físico e psicológico. Na quinta-feira à noite, cinco atletas (Toninho, Júnior, Carpegiani, Zico e Tita), além do próprio técnico Cláudio Coutinho, estavam em Buenos Aires, onde participaram do empate em 2 a 2 com a Argentina pela Copa América. De lá, o grupo pegou um voo de 20 horas de duração até Cádiz, chegando à cidade espanhola na tarde de sábado, horas antes da estreia.

Quando a bola rolou, o cansaço foi deixado de lado e o que se viu foi um domínio completo do Flamengo, que marcou duas vezes ainda no primeiro tempo, criou chances para golear e até ensaiou um olé, antes de o Barça descontar no fim. O time de Coutinho saiu de campo aplaudido de pé e aclamado pela imprensa espanhola. No dia seguinte, com direito a gol relâmpago, abrindo o placar na saída de bola, o Fla bateu os húngaros do Ujpest por 2 a 0 e levantou a taça.

Passo seguinte para a confirmação do poderio daquela equipe, o título brasileiro teve que ser adiado. Na espremida e caótica edição de 1979, o time vinha fazendo boa campanha, mas acabou eliminado antes das semifinais pelo Palmeiras de Telê Santana, que veio ao Maracanã precisando do empate, mas saiu com algo ainda melhor, com uma goleada de 4 a 1 que ficaria atravessada nas gargantas rubro-negras. Porém, não por muito tempo.

ENTRANDO PARA A ETERNIDADE

No ano seguinte, a primeira conquista do Brasileiro finalmente chegaria e com direito a uma saborosa revanche diante de um Alviverde que repetia dez dos 11 jogadores da vitória de quatro meses antes e, por ironia, estreava o velho Oswaldo Brandão no comando. Mordido, o Fla chegou a abrir 5 a 0, antes do Palmeiras descontar duas vezes. Mas Nunes, o novo camisa 9 da equipe no lugar de Cláudio Adão, ainda deixaria o seu para fechar a goleada histórica em 6 a 2.

O Fla, que estreara no campeonato batendo o Santos no Morumbi e também já havia vencido o tricampeão Internacional no Maracanã, eliminou um ótimo time do Coritiba nas semifinais antes de decidir o título numa final épica com o Atlético Mineiro. E Nunes, trazido por indicação de Coutinho depois da tentativa malsucedida de repatriar Roberto Dinamite (então no Barcelona), seria o autor do gol que daria o pontapé inicial à escalada para conquistar o mundo.

Após o título brasileiro, o Flamengo ainda levantaria a Taça Guanabara (naquele ano, novamente disputada como um torneio à parte do Estadual) e voltaria a excursionar pela Europa, voltando com mais algumas taças, entre elas o bi do Ramón de Carranza. Mas, sucumbindo ao cansaço, à pressão para manter o ritmo de vitórias e até a uma certa dose de autossuficiência, o time perdeu o tetra carioca e entrou em crise. Estafado, Coutinho deixou o comando, seguindo para o Los Angeles Aztecs.

No primeiro semestre de 1981, o Flamengo ainda enfrentaria turbulências, comandado pelo antigo ídolo Modesto Bria e mais tarde por Dino Sani. Mas voltaria a reencontrar o caminho das conquistas com a ascensão de Paulo César Carpegiani – capitão e organizador do time nos tempos de Coutinho – ao cargo. Ainda que com alterações pontuais em nomes e na formatação do setor ofensivo, a equipe que conquistaria o mundo ao fim daquele ano preservava essencialmente a filosofia de jogo do time de Coutinho.

No fim de novembro, no desembarque da delegação rubro-negra no Rio após a conquista da Libertadores, Coutinho – que havia acabado de assinar contrato para treinar o Al Hilal, da Arábia Saudita – encontrou por acaso seus ex-comandados no aeroporto do Galeão e vaticinou: “Agora só falta o Mundial”. O treinador, porém, não chegaria a ver o time que criou alcançar o topo do planeta. Três dias depois, morreria no mar de Ipanema, aos 42 anos.

Na manhã daquele dia 27, Coutinho saíra para praticar outro de seus esportes favoritos: a pesca submarina. Havia prometido trazer um peixe para um jantar com amigos, entre eles Júnior. Mergulhava em apneia, ou seja, sem a ajuda de cilindros de oxigênio. Quando conseguiu arpoar uma garoupa, não percebeu que o ar inspirado na superfície se transformara em gás carbônico em seu corpo. Perdeu os sentidos e se afogou. Morreu sem sentir.

A notícia caiu como uma bomba entre jogadores, dirigentes e comissão técnica do Flamengo, que se preparava para disputar a decisão do Estadual contra o Vasco, a começar dentro de dois dias. Carpegiani, trazido pelo treinador à Gávea em 1977, chorou convulsivamente. Entre os jogadores, o clima era de incredulidade geral. O clube decretou luto oficial de três dias. A morte, porém, não comoveu apenas os rubro-negros, mas o futebol brasileiro como um todo.

“Sempre recebi as maiores atenções do Coutinho. Inclusive, ele me colocou à disposição o seu arquivo sobre futebol internacional e me prestou todas as informações sobre a Seleção Brasileira, quando o substituí”, lembrou Telê Santana. Então goleiro do Grêmio, Leão comentou: “Acho que o futebol brasileiro pode ser dividido em duas etapas. Antes e depois de Cláudio Coutinho. Ele foi um treinador que viu muito além daquilo que se julga comum”.

Ao velório, realizado na antiga sede do Flamengo no Morro da Viúva, estiveram presentes colegas treinadores como Carlos Alberto Silva e Oswaldo Brandão, que viera de São Paulo especialmente para se despedir. Milhares de torcedores rubro-negros seguiram o cortejo até o cemitério do Caju, onde Coutinho foi enterrado com a bandeira do clube. A torcida que melhor o compreendeu não lhe poupou carinho e emoção na despedida.

Há 40 anos, gol de Rondinelli mudava o curso da história rubro-negra

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Após a cabeçada, Rondinelli assiste à bola tocar o fundo das redes e parte para o abraço: fim da agonia e afirmação de uma geração.

Para muitos torcedores rubro-negros, Zico incluso, aquele foi o gol do Flamengo mais arrepiante já testemunhado. A conquista também é considerada o verdadeiro “big bang” da geração mais vitoriosa do clube, que partiria dali para o topo do mundo. Reafirmou talentos, fez justiça a craques, enterrou traumas. A cabeçada do zagueiro Rondinelli, que decretou a vitória por 1 a 0 sobre o Vasco aos 42 minutos do segundo tempo e deu ao clube da Gávea o título carioca de 1978, entrou para a história do futebol brasileiro há exatos 40 anos.

Tempos de angústia

Maracanã, dezembro de 1974. Com um time repleto de garotos, o Flamengo levanta o título carioca segurando um matreiro e tarimbado Vasco (campeão brasileiro quatro meses antes) e apresenta geração promissora. No elenco, titulares durante toda a campanha ou em parte dela, estão o goleiro Cantarele, o lateral-direito Junior, os zagueiros Rondinelli e Jaime, o meia Geraldo e o ponta-de-lança Zico. Todos com idades em torno dos 20 anos.

O time campeão de 1974: equipe jovem e promissora.

Com os meninos comandados pelo técnico Joubert – ele próprio, ex-lateral criado no clube – há a expectativa de que o Flamengo já tenha um bom time para os próximos cinco, dez anos. Mas o que se segue começa a incomodar. No ano seguinte, sem ganhar nenhum dos três turnos do Carioca, o time fica afastado das finais. No Brasileiro, engrena na reta final e chega a liderar seu grupo, à frente do Internacional, faltando uma rodada para as semifinais. O adversário é o Santa Cruz no Maracanã. O time joga pelo empate. Mas perde por 3 a 1 e é desclassificado.

O ano de 1976 é ainda mais frustrante. O Flamengo decide a Taça Guanabara em jogo extra com o Vasco, mas perde nos pênaltis. No segundo turno, o título fica com o Botafogo. E o terceiro, disputado cabeça a cabeça com o Fluminense, vai para os tricolores. O Fla é o segundo na soma total de pontos. Mas fica de fora do quadrangular final. O mesmo se repete no Brasileiro. Só o Inter, futuro campeão, faz mais pontos que o Fla. Mas os rubro-negros não vão às semifinais.

Nesse mesmo ano, um outro drama calou muito mais fundo no peito dos rubro-negros, jogadores e torcedores: a morte precoce do meia Geraldo, vitimado por um choque anafilático durante uma simples cirurgia de retirada das amígdalas no fim de agosto, aos 22 anos. A perda do armador de futebol refinado, que desfilava uma classe exuberante em campo, e que chegara à Seleção antes mesmo de Zico, mergulhou tudo num luto que custaria a ser superado.

Chega 1977, e uma nova diretoria é empossada. A chapa Frente Ampla pelo Flamengo (FAF) elege o tabelião Márcio Braga como presidente do clube e inicia uma grande reformulação na gestão do futebol do clube. Valoriza a base e complementa com reforços pontuais, como o lateral Carlos Alberto Torres, o meia Paulo César Carpegiani, o ponta Osni e o centroavante Cláudio Adão, mas o time volta a viver o drama de perder um jogo decisivo nos pênaltis para o Vasco no Carioca. No Brasileiro, após bom começo, o time de novo naufraga antes das semifinais.

A campanha do Brasileiro de 1978, que vem logo a seguir, é medíocre do começo ao fim. Sem contar com Zico – preparando-se para a Copa do Mundo da Argentina com a Seleção Brasileira – durante todo o torneio, o Fla se perde em meio a um elenco inchado, mas muito desnivelado. A necessidade de parar, refletir e mudar muita coisa é urgente. Zico, às voltas com lesões, retorna com a moral em baixa da Copa do Mundo. Mas não menos que o técnico da Seleção, o gaúcho Cláudio Coutinho, também treinador licenciado do Fla.

Um treinador em busca de reconhecimento

Coutinho já contava com um bom currículo no futebol. Integrante da aclamada equipe de preparação física da Seleção campeã do mundo em 1970, era um dos maiores peritos brasileiros no assunto, inclusive com estágio na Nasa. Trabalhara ainda como supervisor no Vasco, no Botafogo e no Olympique de Marselha, dirigira a seleção peruana e também assumira, de última hora, o comando da Seleção Brasileira olímpica nos Jogos de Montreal em 1976. Logo depois do torneio, recebeu o convite para substituir o também gaúcho Carlos Froner no Flamengo.

Estudioso dos esportes, Coutinho viu no Fla um terreno interessante para experimentar suas ideias táticas. Fluente em cinco idiomas, participara de congressos no exterior e conhecera de perto muitas das novidades europeias. Embora não conquistasse títulos num primeiro momento, o estilo aplicado no Flamengo de jogo ofensivo com ideias pouco usuais no futebol brasileiro de então agradava. E ele acabaria chamado para treinar de novo na Seleção Brasileira, mas agora a principal, no lugar do veterano Oswaldo Brandão, demitido no começo de 1977.

Coutinho com Brandão, seu antecessor na Seleção: novas ideias.

Após uma breve trégua inicial, Coutinho começou a ser bombardeado pela imprensa esportiva, em especial a paulista. Era criticado por suas novidades táticas tidas como invencionice, pelo que se considerava uma falta de critério nas convocações e escalações e até por seu vocabulário. De fato, o Brasil apresentou um futebol um tanto engessado em meio a um Mundial onde o brilho, de um modo geral, andou em falta. E, para piorar, o treinador deu mostras de falta de pulso, ao acatar todo tipo de interferências em seu trabalho.

Copa do Mundo encerrada, o Flamengo iniciou sua reconstrução. Aparou arestas, enxugou o elenco, trouxe reforços pontuais – o mais expressivo deles era o experiente goleiro Raul, que então já planejava sua aposentadoria – e embarcou para a Europa, onde disputaria os prestigiosos torneios de verão no continente. Mesmo sem Zico, ainda se recuperando de um estiramento sofrido no Mundial da Argentina, cumpriu ótimas atuações e levantou o Torneio Ciutat de Palma, em Palma de Mallorca em uma atuação épica, antológica, diante do Real Madrid.

Na Europa, uma conquista encorajadora

No acanhado estádio Lluís Sitjar, o Flamengo abriu 2 a 0 no campeão espanhol ainda no primeiro tempo, com gols de Cláudio Adão e do meia-atacante Cléber. Até que o árbitro Alsocúa Sanz começou a aprontar contra o Fla. Marcou impedimentos inexistentes, inverteu faltas e, na etapa final, apitou pênalti duvidoso de Raul em Aguilar (convertido pelo próprio atacante merengue) e expulsou, por reclamação, o lateral Toninho e os atacantes Cléber e Eli Carlos, mais o técnico Cláudio Coutinho, o supervisor Domingo Bosco e todo o banco de reservas rubro-negro.

Com apenas oito homens em campo contra os 11 do Real Madrid, o Fla ainda viu o árbitro esticar o segundo tempo até os 50 minutos, prática incomum na época. No último lance, Juanito conseguiu superar Raul com um toque de cobertura. Mas Cláudio Adão surgiu para salvar o empate em cima da linha. Alsocúa Sanz apitou o fim do jogo, e o estádio inteiro, que já se virara a favor do Flamengo, aplaudiu de pé, assim como fez a imprensa espanhola. A atuação memorável dava motivos para acreditar que as coisas seriam diferentes naquele ano.

Logo a seguir começaria o Campeonato Carioca – aliás, o último realmente “carioca”. Embora a fusão dos antigos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara tivesse acontecido no início de 1975, no futebol ela ainda não havia se concretizado: havia duas federações e dois campeonatos que corriam em paralelo. Em 1976 e 1977, porém, três clubes do interior (os campistas Americano, Goytacaz e o recém-criado Volta Redonda) haviam disputado o campeonato da capital como convidados. O que não se repetiria em 1978.

O Conselho Nacional do Desporto (CND) obrigou a fusão das federações (e dos torneios). Antes disso, no entanto, seriam disputados os últimos campeonatos, que valeriam também como classificatórios para o primeiro estadual “unificado” a ser disputado em 1979. O Carioca começou então com os 12 times da capital e tinha o Vasco, atual campeão, apontado como grande favorito. Os cruzmaltinos haviam perdido o meia Zanata e o ponteiro Dirceu, vendidos ao futebol mexicano. Mas se reforçaram trazendo do Palmeiras o goleiro Leão.

Embora terminasse de desmantelar o que sobrara da Máquina bicampeã carioca em 1975 e 1976 com a venda de Rivelino ao futebol árabe, o Fluminense também havia investido alto para trazer a dupla Nunes e Fumanchu, do Santa Cruz. O Botafogo, embora em atrito constante com o ponta Paulo Cézar Caju, também tinha uma equipe de respeito. Havia ainda o America, com um bom time, azeitado e sempre perigoso. Entre os pequenos, as atenções se voltavam para o São Cristóvão, que firmara um convênio com o Cruzeiro, recebendo 12 jogadores e dividindo as rendas.

A Taça Guanabara

O time cadete, no entanto, foi presa fácil para o Flamengo logo na primeira rodada, sendo goleado por 6 a 0. Em seguida, o Fla voltou a golear, fazendo 5 a 0 no Campo Grande. Depois de bater com dificuldade o Madureira (2 a 1) e derrotar também a Portuguesa (2 a 0), o time de Coutinho teria seu primeiro clássico pela frente, diante do Vasco. Com mais de 120 mil pagantes no Maracanã, o empate em 0 a 0 persistiu, mas não tirou os rubro-negros da liderança. Depois de bater o Bangu em Moça Bonita por 3 a 0, veio a vez de enfrentar o America.

Naquele momento, o Flamengo enfrentava um pequeno, mas incômodo tabu diante dos rubros. Não os vencia desde setembro do ano anterior. Pelo Brasileiro de 1978, os dois times haviam se enfrentado três vezes, com o America vencendo as três. E a escrita acabou persistindo: o Fla esteve duas vezes à frente no placar, mas acabou cedendo o empate com dois gols do ponta Silvinho, que estenderam o jejum rubro-negro a seis jogos.

Um tranquilo 5 a 0 no Olaria foi seguido por mais um empate, 1 a 1 diante do Botafogo. E uma vitória fácil diante do Bonsucesso por 3 a 0 na penúltima rodada serviu para manter o time na ponta. O último adversário seria o Fluminense. Mas graças ao empate em 2 a 2 entre Botafogo e Vasco no dia anterior, o Fla entrou em campo no domingo podendo até perder por cinco gols de diferença para levantar a Taça Guanabara. Os tricolores marcaram duas vezes nos cinco minutos finais e venceram por 2 a 0. Mas a taça do turno foi mesmo para a Gávea.

Foi uma conquista importante: depois de oito turnos de frustrações, o time voltava a garantir vaga na decisão do Carioca. Porém, outro dado fazia ligar o alerta: o time não havia vencido nenhum clássico. E a tabela do returno já marcava, de saída, o confronto com o America. O Fla abriu o placar com gol de Zico após ótimo lançamento de Adílio, mas os rubros empataram no início da etapa final com o centroavante Mário, após confusão na área. A nove minutos do fim, Tita foi à linha de fundo, cruzou e o zagueiro Heraldo desviou contra as próprias redes, encerrando o tabu.

A goleada de 5 a 2 sobre o Campo Grande na reinauguração do estádio de Ítalo del Cima serviu para manter o time na ponta, mas a bruxa andou solta pela semana seguinte. Raul se lesionou num treino e teve de ceder o posto ao antigo titular Cantarele. Na quarta-feira, o time foi a Moça Bonita e novamente sofreu contra o Madureira, parando num empate em 2 a 2, no qual foi salvo por um gol de Junior a três minutos do fim. Agora o Vasco liderava isolado. E no fim de semana, o Fla teria novo clássico pela frente, contra o Fluminense.

Lavando a alma

A chuva insistente que caiu sobre o Rio naquele 5 de novembro afastou uma grande parcela do público do Maracanã (pouco menos de 40 mil pagantes se aventuraram). Mas também serviu para lavar a alma rubro-negra e carregar para longe as más notícias: cumprindo atuação primorosa, tanto do ponto de vista técnico (mesmo com gramado um tanto pesado) quanto do coletivo, o Flamengo engoliu o rival, sapecando uma goleada de 4 a 0, com dois gols de Zico e outros dois de Cláudio Adão, pagando com juros a derrota sofrida no primeiro turno.

Três dias depois, o time voltou a enfrentar o Bangu em Moça Bonita e venceu por 1 a 0, com gol de Tita cobrando falta no fim. As chances criadas e desperdiçadas no alçapão da Zona Oeste foram devidamente compensadas no jogo seguinte, uma acachapante goleada de 9 a 0 sobre a pobre Portuguesa da Ilha do Governador, no Maracanã. Após vencer o Bonsucesso por 2 a 0, foi a vez de encarar o Botafogo, num jogo de muitas ausências e retornos.

No dia seguinte à vitória sobre o Rubroanil da Leopoldina, o time perdeu Cláudio Adão, artilheiro disparado do campeonato com 19 gols, lesionado num treino. Por outro lado, Toninho e Adílio, ambos fora de time desde depois do Fla-Flu, estavam recuperados e jogariam. De última hora, o time perdeu também o zagueiro Nélson, fazendo voltar ao time um antigo titular que só ali estrearia no campeonato, reabilitado de um longo afastamento por lesão: Rondinelli.

Em campo, o Flamengo enfrentou um Botafogo cauteloso, com o zagueiro Renê adiantado ao meio-campo para marcar Zico e o armador Mendonça encarregado de anular Carpegiani. Mas o Fla ainda contava com Adílio, que aos 24 minutos da etapa final serviria a Zico, que se livrara da vigilância alvinegra para vencer o goleiro Zé Carlos com um leve toque, apenas o suficiente para encobrir o arqueiro de um jeito desmoralizante, e dar a vitória ao Fla.

Os rubro-negros então bateram São Cristóvão e Olaria, ambos por 2 a 0, e ficaram à espera de um tropeço do Vasco, que enfrentaria o Fluminense pela penúltima rodada, um dia depois do confronto entre rubro-negros e bariris. Mas os cruzmaltinos venceram também por 2 a 0 e, com isso, levaram a vantagem de um ponto para a rodada decisiva do returno. O empate no clássico de 3 de dezembro encaminharia a taça do turno para São Januário e provocaria uma decisão em jogo extra entre as duas equipes. Ao Flamengo, restava vencer.

Um time contra seus fantasmas

E vencer significava também superar outro tabu: em jogos válidos por competições oficiais, o Flamengo não derrotava o rival havia seis partidas, nas quais não havia sequer marcado gol. Os quatro últimos clássicos haviam terminado 0 a 0 (resultado que, naquela ocasião, favorecia ao Vasco). Ainda ecoava a lembrança amarga das derrotas nos pênaltis em 1976 e 1977. E mais do que tudo, os rubro-negros jogavam ali o futuro daquele elenco, que poderia ser desmantelado no caso de um eventual novo fracasso.

Mas assim como haviam os traumas, também havia a vontade de superar desconfianças. O desejo de Coutinho – que abandonara algumas ideias, mantivera outras e aperfeiçoara outras tantas – de ser reconhecido como estrategista brilhante que era. A vontade de Zico de recuperar seu prestígio perante o futebol brasileiro perdido na Argentina. E, mais modestamente, de Rondinelli, zagueiro de estilo raçudo e bom no jogo aéreo, pré-convocado para o Mundial no início daquele ano, mas que sofrera com lesões e buscava se recolocar como titular do time.

Sem Raul e Cláudio Adão, definitivamente fora do jogo, o time para a partida começava com Cantarele, goleiro prata-da-casa que vivera altos e baixos nos cinco anos em que integrara o elenco principal até ali. Nas laterais, os ofensivos Toninho e Junior. O primeiro, mais do que tudo um portento físico, bom marcador e apoiador vigoroso. O segundo, o lateral com técnica de meia que Coutinho se arrependera confessadamente de não ter levado para a Copa.

O time da decisão. Em pé: Rondinelli, Cantarele, Manguito, Toninho, Júnior e Carpegiani. Agachados: Marcinho, Adílio, Tita, Zico e Cléber.

Na zaga, Rondinelli fazia dupla com Manguito, trazido do Olaria para aquele campeonato, beque de técnica limitada, mas igualmente sério e duro. À frente deles, jogava Carpegiani, homem de referência não só do meio-campo como de todo o time. O carimbador de todas as bolas nas transições ofensivas. Na criação estava Adílio, que começara a despontar no fim de 1976, quando se revelara uma grata novidade, perfeito nos passes e na condução de bola.

A ausência de Cláudio Adão como homem de referência na frente levou Coutinho a escalar um trio com o prata-da-casa Tita e a dupla vinda por empréstimo do Atlético Mineiro, Marcinho e Cléber. Nenhum deles tinha posição fixa, girando por todo o setor. Tita aparecia pela direita e pelo meio, Cléber ia do centro para a esquerda e Marcinho flutuava por todo o ataque, especialmente pelas pontas. Isso fazia com que Zico se tornasse o jogador mais agudo, chegando à frente em tabelas com Adílio ou carregando a bola do meio até a área vascaína.

O Vasco, favorito apontado pela imprensa e treinado pelo veterano Orlando Fantoni, tinha Leão no gol, os experientes Orlando “Lelé” e Marco Antônio nas laterais e uma dupla de zaga também vigorosa com Abel e Gaúcho. No meio, dois volantes: o incansável Helinho, encarregado de ser a sombra de Zico, e Paulo Roberto, tendo à frente o armador Guina, tão talentoso quanto explosivo, como o principal responsável pela criação.

O trio de ataque teria o veloz e driblador ponteiro Wilsinho pela direita, o goleador Roberto Dinamite (que se igualara a Cláudio Adão e Zico na artilharia com 19 gols) pelo meio e o também experiente Ramón, ex-Santa Cruz, mais aberto pelo lado esquerdo. A surpresa era a permanência de Paulinho – artilheiro do Brasileirão daquele ano, quando substituiu Roberto – na reserva. Mas era uma boa arma para o segundo tempo à disposição de Fantoni.

A decisão

O público de pouco mais de 128 mil pagantes é considerado abaixo das expectativas, mas há uma explicação: numa época em que as rendas dos jogos tinham peso fundamental na arrecadação dos times muitos torcedores resolveram não ir por acreditarem que os dois times se poupariam para que acontecesse o jogo extra, o que proporcionaria outra casa cheia. Mesmo assim, os mais de Cr$ 6,6 milhões arrecadados batem o recorde nacional de renda, fazendo justiça mais uma vez o apelido de “Clássico dos Milhões”.

O Flamengo assustou logo aos dois minutos numa cabeçada firme de Zico defendida por Leão. Teria outras duas ótimas chances de abrir o placar no primeiro tempo aos 14 minutos num chute de Zico de fora da área, também contido pelo arqueiro vascaíno, e aos 23 numa tentativa de corte de Gaúcho, que quase marcou contra. E os rubro-negros ainda reclamaram de um pênalti não marcado, num carrinho de Helinho em Tita ao final da etapa.

Apesar de segurar os laterais e atacar mais pelo meio, o Fla era mais incisivo diante de um Vasco que procurava cozinhar o jogo, gastar tempo e tentar os contra-ataques, mas que sofria com a falta de “punch” ofensivo. No intervalo, o técnico Orlando Fantoni colocaria Paulinho, o artilheiro do Brasileirão daquele ano quando substituiu o convocado Roberto Dinamite, no lugar de Ramón, visivelmente fora de forma. E ele cria a primeira grande chance do Vasco no jogo, ao desviar na primeira trave um cruzamento de Wilsinho.

Zico se livra de Abel e parte para o ataque: só deu Fla na decisão.

Mas o Fla mantém o domínio das ações e empurra cada vez mais o Vasco para o campo defensivo. Aos 26, tem sua maior chance naquela etapa até ali, em que uma triangulação rápida na entrada da área coloca Zico frente a frente com Leão, mas o camisa 1 da Colina faz outro milagre. Mais tarde, aos 38, é a vez dos vascaínos desperdiçarem sua maior chance no jogo, surgida de um lance fortuito: bola espirrada na defesa do Fla, Roberto ganha a disputa de Rondinelli e cruza. Sozinho na área e diante de Cantarele, Paulinho erra o domínio e deixa a bola escapar.

O instante em que tudo mudou

Aos 41, Junior recebe de Manguito na meia esquerda, avança, tabela com Tita e cruza alto, procurando Zico, que avançava pela outra ponta. Aparentemente a bola sairia em lateral ou tiro de meta, mas Marco Antônio, temendo a chegada do 10 rubro-negro, prefere não arriscar e faz o corte pela linha de fundo, cedendo escanteio. Nesse lance um tanto prosaico, estamos diante do momento capital do jogo, aquele que mudará muito mais do que a história da partida.

Atrás do gol de Leão estava o fotógrafo Rubens Walter Etcheverria, o Che, uruguaio radicado no Rio e amigo dos jogadores rubro-negros, especialmente do lateral Sergio Ramírez, aquele que correra atrás de Rivelino num Brasil x Uruguai no mesmo Maracanã dois anos antes e que agora era reserva de Toninho e Junior no Fla. Quando a bola cortada por Marco Antônio parou perto de sua bolsa de trabalho e Zico apareceu para busca-la, Che entregou em mãos com um pedido apressado: “Vai lá, ainda dá! Bate logo que está acabando!”.

Zico não batia escanteios no Flamengo, tarefa mais comum aos pontas. De fato, aquele fora o único que ele cobraria em todo o jogo. Rondinelli também não estava na área. Estava no meio-campo discutindo com Carpegiani sobre se devia ou não ir ao ataque. Roberto, que costumava marcar o zagueiro rubro-negro nos escanteios, também se dispersou com a discussão e ficou onde estava. Até que Zico levantou o braço e Rondinelli pressentiu: “É agora”.

Foram cerca de dez passos largos até a área e um salto, num daqueles instantes em que o tempo parece parar, congelar. A bola passou alta por todos os outros jogadores do Flamengo que estavam na área e veio para onde Rondinelli se encontrava, entre Abel e Orlando Lelé. A cabeçada foi inapelável, no canto esquerdo. Nem que se esticasse todo Leão alcançaria. Não houve rubro-negro que segurasse mais o enorme grito contido pela tensão no Maracanã. Aos 42 minutos, enfim, num misto de alívio e êxtase, era a hora de extravasar.

O fim do jogo, no entanto, demorou um pouco mais que o esperado. Guina e Zico se estranharam, e o vascaíno acertou um pontapé no rubro-negro que, furioso, só não pôde revidar por ter sido contido por companheiros e rivais. A confusão foi o estopim para uma gigantesca invasão de campo, típica do estádio naqueles tempos, e que paralisou a partida por cerca de seis minutos. Os dois jogadores acabaram expulsos. E o jogo terminou pouco depois, iniciando de vez a agora incontida festa da massa rubro-negra.

A sensação foi de se mudar o curso da história. Acabavam o tabu, o jejum, os traumas, os questionamentos. Agora definitivamente consagrado como o “Deus da Raça”, Rondinelli emulara Agustín Valido, o ponta argentino que, em 1944, marcara também de cabeça e também nos minutos finais o gol de um título dramático diante do Vasco. Só que o gol de Valido completaria um tri. E o de Rondinelli iniciaria outro, que seria seguido nos anos posteriores pelas conquistas do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial Interclubes.

Em pé: Cantarele, Cláudio Coutinho, Alberto Leguelé, Manguito, Toninho, Eli Carlos, Moisés, Júnior e Nielsen. Agachados: Nélson, Rondinelli, Ramírez, Marcinho, Adílio, Tita, Cléber, Zico e Carpegiani.

Os 90 anos do “Doutor” Rubens: De fenômeno de massa a relíquia esquecida

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Prolífico em craques, o futebol brasileiro também é cruel ao lidar com a passagem do tempo. Conforme avança, vai deixando no esquecimento um sem número de nomes tidos como mestres em seu tempo. Foi o caso de Rubens Josué da Costa, meia-armador nascido na capital paulista, mas que se fez ídolo num Flamengo que iniciava sua caminhada rumo a um histórico tricampeonato carioca em meados dos anos 1950.

No caso de Rubens, porém, há um agravante. O jogador de estilo ao mesmo tempo cerebral e malicioso, elegante e abusado, de drible curto e chute potente atingiu o patamar de verdadeiro fenômeno das massas. Mas, em pleno auge, foi tendo seu prestígio minado por problemas disciplinares e uma relação desmedida com o álcool, sendo varrido da memória do esporte dentro de pouco tempo, tornando-se uma relíquia perdida.

NA GÁVEA, UMA TRANSIÇÃO DOLOROSA

Tricampeão carioca com um esquadrão lendário treinado por Flávio Costa em 1942/43/44, o Flamengo foi aos poucos perdendo o protagonismo do futebol do então Distrito Federal a partir dali. Nos anos que se seguiram até a virada da década, aquele grande time foi envelhecendo, jogadores históricos como Jayme de Almeida, Pirillo, Perácio e Vevé se aposentaram ou deixaram o clube, Zizinho fraturou a perna duas vezes, e os nomes que chegaram, com raras exceções (como Jair Rosa Pinto, de passagem malograda), não estavam no mesmo nível dos que saíam.

Tudo culminou na desastrosa temporada de 1950, uma das piores da história do clube, na qual, além de ter perdido Zizinho de maneira tola para o Bangu, terminara em um péssimo sétimo lugar no Carioca, com dez derrotas e apenas sete vitórias em seus 20 jogos. Era necessário realizar mudanças profundas. Para isso, em janeiro de 1951, foi empossado presidente do clube o médico Gilberto Cardoso. Sua primeira providência foi trazer de volta à Gávea o técnico Flávio Costa, que saíra para o Vasco em 1947 e também vinha de dirigir a Seleção Brasileira.

Depois vieram os reforços. Para a defesa, chegou Pavão, da Portuguesa Santista, zagueiro sério e duro, verdadeiro xerife de área. Para o ataque, o clube foi buscar no Internacional o centroavante Adãozinho, o “Negrinho do Pastoreio”, reserva da Seleção na Copa de 1950. Faltava o meio-campo. E os problemas foram solucionados em setembro: o Flamengo realizava um sonho antigo e contratava o armador Rubens, então na Portuguesa paulistana, onde perdera prestígio e espaço após se incompatibilizar com o técnico Oswaldo Brandão.

UM TALENTO PROMISSOR PAULISTANO

Rubens (segundo agachado) no Ypiranga, início dos anos 50.

Rubens iniciara a carreira bem no meio do tri rubro-negro, em 1943, aos 14 anos, quando chegou ao Ypiranga, clube paulistano hoje afastado do futebol profissional, mas na época um famoso celeiro de talentos. Ao longo de sua história, o clube alvinegro revelaria nomes como o goleiro Barbosa (Vasco), o zagueiro Homero (Corinthians) e o ponta-esquerda Rodrigues (Fluminense e Palmeiras). Além de Rubens, que jogava no clube ao ser chamado para defender os paulistas no Campeonato Brasileiro de seleções, em março de 1950.

O título ficou com os cariocas, mas o futebol do jovem meia encantou a todos. Três meses depois estaria de novo no Rio, defendendo o selecionado paulista de novos no célebre jogo de inauguração do Maracanã. A Portuguesa correu na frente de todos e contratou o jogador. Mas ele ficaria pouco tempo com os rubro-verdes. Um ano depois, de tanto insistir, o Flamengo acabou pagando 625 mil cruzeiros e levando seu futebol para o Rio, identificando-o como o substituto ideal para Zizinho. Sua estreia seria em 16 de setembro de 1951, no clássico diante do Vasco, pelo primeiro turno do Campeonato Carioca daquele ano.

Desde a dramática vitória por 1 a 0 com gol do argentino Agustín Valido nos minutos finais, que dera ao clube o heroico tri carioca em 1944, o Flamengo não sabia o que era derrotar o Vasco pelo estadual. Vencera o clássico seguinte (4 a 3), válido pelo Torneio Relâmpago em abril de 1945, mas depois disso passara 20 jogos em branco, com 15 derrotas. O “Expresso da Vitória” cruzmaltino tornara-se a nova e indiscutível potência do futebol carioca naquela segunda metade dos anos 40 e início da década posterior.

A ESTREIA MEMORÁVEL EM VERMELHO E PRETO

Até a chegada de Rubens ao Flamengo. Naquela tarde de 16 de setembro, até pareceu que o Vasco, líder do campeonato com quatro vitórias em quatro jogos, manteria a escrita ao abrir o placar logo aos dez minutos com Maneca. Foi o tempo do novo reforço rubro-negro se ambientar e começar a chamar o jogo para si. Ele não participaria do gol de empate, marcado por Adãozinho escorando cruzamento do ponteiro Esquerdinha. Mas iniciaria a jogada do da virada, feito por Índio, acertaria a trave em cobrança de falta e dominaria inteiramente o meio-campo.

O time rubro-negro perfilado para a partida de estreia de Rubens (o terceiro a partir da esquerda) contra o Vasco em setembro de 1951.

Ao fim da partida, já deixava o gramado carregado pelos torcedores. O artífice do fim do jejum era o novo ídolo da massa. “Rubens fez uma estreia auspiciosa. Jogando atrás, na armação do jogo, cumpriu aí um trabalho exato, perfeitíssimo, o que mais se torna notável quando lembramos que era esta a sua segunda oportunidade entre os companheiros. A primeira foi no treino, a segunda em pleno jogo. Grande aquisição do Flamengo”, escreveu a Esporte Ilustrado.

Anos mais tarde, relembrando o futebol de Rubens, Mario Filho descreveu em um texto delicioso o estilo de jogo do meia: “Gostava de dar dribles largos. Parecia que prendia a bola com um barbante amarrado à chuteira. Porque a bola, que ele atirava para a esquerda e para a direita, voltava sempre, logo, aos pés dele. Rubens não andava como qualquer mortal. Levava um pé à frente, devagar, deixava-o pousar na calçada e, depois, trazia o outro, gingando o corpo, como se dançasse. Não era um samba (…). Era um gingar de malandro. De bamba de terreiro”.

O Flamengo não conquistou o título de 1951 (ficou com o Fluminense), mas apresentou nítida evolução em relação aos anos anteriores e voltou a bater os cruzmaltinos no returno, em outra grande exibição de Rubens, autor do segundo gol, cobrando pênalti, na vitória por 2 a 0. No ano seguinte, o time subiria mais alguns degraus e ficaria em segundo, empatado em pontos com os tricolores (o Vasco voltaria a levantar o caneco). E Rubens seria lembrado pela primeira vez para a Seleção, convocado para o Campeonato Pan-Americano, no Chile.

O PRIMEIRO TÍTULO E A CONSAGRAÇÃO

Seu auge, no entanto, seria o ano seguinte, quando enfim o Flamengo voltou a ser campeão carioca, título que lhe escapava desde 1944 – e, de quebra, iniciando outro tricampeonato. No início daquele ano, Flávio Costa havia sido recontratado pelo Vasco, deixando o time nas mãos do ex-jogador Jayme de Almeida interinamente. Com ele, o Fla conquistaria na Argentina o Torneio Quadrangular de Buenos Aires, superando Boca Juniors, San Lorenzo e o rival Botafogo, este derrotado por 3 a 0, com dois gols de Rubens.

Na volta ao Brasil, o novo treinador já tinha sido escolhido: era o paraguaio Fleitas Solich, que em janeiro levara a seleção de seu país a um surpreendente título sul-americano em Lima, no Peru, ao bater por duas vezes a Seleção Brasileira. O novo treinador, que chegaria para revolucionar o futebol no clube, e Rubens travariam uma dolorosa queda de braço, mas não de início, já que a popularidade do jogador era insuperável no futebol carioca – e em todo o país.

Havia naquele tempo um programa humorístico de enorme sucesso na Rádio Nacional carioca – cujas ondas potentes alcançavam o país inteiro – chamado “Balança Mas Não Cai”, criado pelo humorista Max Nunes, torcedor do America. Um dos quadros do programa trazia um torcedor rubro-negro, o Peladinho, e seu bordão “Mengo, tu é o maior!”. Naturalmente, Peladinho falava em Rubens o tempo todo. Ou melhor, em “Doutor Rúbis”, como o personagem chamava o meia e seu futebol refinado em sua pronúncia peculiar. E o apelido pegou.

Time campeão carioca de 1953. Em pé: García, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha.

Em 1953, o Campeonato Carioca trouxe mudanças em seu regulamento em relação aos anos anteriores. O torneio agora seria dividido em três turnos. Nos dois primeiros, os 12 clubes se enfrentariam no sistema de pontos corridos, com seu líder, ao final das 22 rodadas, garantindo presença na decisão. O terceiro seria disputado apenas pelas seis melhores equipes, apontando o outro finalista. O Flamengo, porém, nem quis saber de final e venceu todas as fases, somando 21 vitórias (e apenas duas derrotas) em 27 jogos.

Naquele torneio, ninguém jogou mais bola do que o Doutor Rúbis, aclamado pela imprensa como o craque do torneio. E olha que a concorrência era forte. Para a mesma posição de meia-armador, por exemplo, havia o banguense Zizinho, o vascaíno Ipojucan e o tricolor Didi. Contra este, aliás, o ídolo rubro-negro viveu um duelo memorável no Fla-Flu que valeu pela decisão do primeiro e segundo turnos, no dia 6 de dezembro.

COM DIDI, GRANDES DUELOS NO FLA-FLU

Um ponto à frente na tabela, o time das Laranjeiras jogava pelo empate, para a alegria de seu técnico Zezé Moreira, conhecido por montar fortes sistemas defensivos. E saiu na frente no primeiro tempo com gol de Marinho num contra-ataque, após um erro da defesa rubro-negra. O Fla ainda conseguiu o empate, que fazia jus a seu domínio das ações, ainda antes do intervalo, numa cabeçada de Índio. E logo no início da etapa final, aos dez minutos, chegaria à virada num gol de antologia de seu maestro em campo, o Doutor Rúbis.

Rubens apanhou a bola na intermediária e fez fila na defesa tricolor. Passou por Didi, Jair e Edson até disparar um petardo da entrada da área que tomou o caminho das redes sem que o goleiro Veludo pudesse esboçar reação. Mais tarde, o meia ainda sofreria pênalti claro do lateral-esquerdo Bigode, não apitado pelo árbitro Mario Vianna, mas o placar terminou mesmo em 2 a 1. Foi até pouco: “A equipe rubro-negra manteve-se 90% do jogo com o comando das ações. Deve ter ficado feliz o Fluminense, perdendo só de 2 a 1”, escreveu Luiz Mendes para a Esporte Ilustrado.

Já o jornal A Noite preferiu destacar o duelo do meio-campo: “E Didi, incumbido da ingrata tarefa de marcar Rubens e auxiliar o seu próprio ataque, acabou não fazendo nem uma coisa nem outra levando, inclusive, um ‘baile’ do meia adversário”. Dali, o Fla partiria para o terceiro turno, no qual venceria todos os jogos, a começar por outro 2 a 1 no Fluminense. Em seguida, 2 a 0 no America e no Bangu. Uma goleada de 4 a 1 sobre o Vasco de Bellini, Ademir e Pinga, levou à conquista antecipada do turno – e do campeonato, sem a necessidade de finais. No último jogo, o das faixas, 1 a 0 sobre o Botafogo de Garrincha e Nilton Santos. Gol de Rubens.

Além de coroado o melhor jogador do certame, o meia terminava como o terceiro artilheiro do Fla, com 17 gols marcados em 24 jogos, boa parte deles em cobranças de falta – uma de suas especialidades – e pênalti. Além de incontáveis assistências para o ataque mais positivo do torneio, que balançou as redes nada menos que 77 vezes em 27 partidas. Com a preparação para a Copa do Mundo da Suíça prestes a começar, era natural que se cogitasse sua convocação para o grupo que iniciaria os treinamentos e amistosos.

NA SELEÇÃO, POUCO APROVEITADO

Curiosamente, na mesma tarde de 20 de janeiro de 1954 em que o Fla recebia suas faixas de campeão antecipado e vencia o Botafogo pela última rodada do terceiro turno do Carioca, o Maracanã recebia uma grande festa. Além das homenagens aos rubro-negros e a celebração do dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) fazia ali a apresentação oficial os novos uniformes com os quais a Seleção jogaria na Suíça, com camisas em tom amarelo ouro, calções azuis e meias brancas.

O trio rubro-negro Rubens, Dequinha e Índio veste a nova “canarinho”.

Por ironia, o novo técnico do escrete seria Zezé Moreira, treinador do Fluminense contra o qual Rubens fizera grandes exibições no campeonato, e que cedera aos apelos de imprensa e torcida, convocando o meia para a fase de preparação. Em março, ao analisar os relacionados, o jornalista David Nasser escrevia na revista O Cruzeiro sobre o craque rubro-negro: “Frio, calculista, 100% driblador, bom passador, faz da bola um ioiô como diz o meu amigo [o radialista Oduvaldo] Cozzi e dono de um canhão certeiríssimo. Atualmente o melhor cobrador de penalidades. Uma arma secreta que Zezé poderá usar a qualquer momento”.

A vontade de muitos, porém, acabou quase frustrada. Embora chegasse a levar Rubens para o Mundial, Zezé só o utilizou uma vez e num amistoso, a goleada de 4 a 1 sobre o time colombiano do Millonarios, dos argentinos Néstor Rossi e Adolfo Pedernera, no Pacaembu. Defensor do clássico sistema WM (diferente do 4-2-4 já utilizado pelo Flamengo de Solich), Zezé preferia escalar Didi na meia-direita e o jovem Humberto Tozzi ou o vascaíno Pinga na esquerda. Além disso, como na época as substituições em jogos oficiais não eram permitidas, o meia não teve chance de entrar em campo na Suíça.

Na Copa, dando autógrafo a um garotinho suíço.

Mesmo assim, Doutor Rúbis voltou ao seu povo com o prestígio intacto. E foi outra vez o condutor do Flamengo em mais uma campanha vitoriosa, num campeonato que manteve o regulamento do ano anterior. O time começou arrasador. Na oitava rodada, no clássico diante do Vasco que marcaria a estreia de outro futuro ídolo rubro-negro, um garoto alagoano chamado Dida, o meia anotou um golaço em cobrança de falta, a bola sinuosa fazendo a curva ao redor de Barbosa e entrando no canto esquerdo, perto do ângulo do arqueiro.

A perícia na bola parada era outro ponto em comum entre Rubens e Didi, e a comparação entre os dois era frequente então. Sobre ambos, o ex-atacante Evaristo de Macedo, que jogou ao lado dos dois, comentou tempos mais tarde: “Ele era um jogador incrível, um doutor mesmo em matéria de futebol. Suas qualidades eram inúmeras. Protegia a bola como ninguém, driblava fácil, lançava bem e tinha um chute de uma precisão fora do comum. Na posição dele, na época, talvez nem o Didi fosse melhor, pois Rubens chegava mais na área para concluir. Era também um grande artilheiro. Acho que ele era até mais dinâmico que o Didi. Mas eram dois fenômenos”.

O BICAMPEONATO QUE VIROU SAMBA

Time contra o Vasco em 1954. Em pé: García, Pavão, Tomires, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Dida e Babá.

A equipe de Solich só foi sofrer a primeira derrota na 17ª partida – somando aquele campeonato ao anterior, o time chegou a ficar 34 jogos seguidos sem perder – e chegou à última rodada do returno com a conquista daquela fase garantida. No terceiro turno, depois de um empate com o Fluminense na estreia (3 a 3), o time venceu todos os outros jogos – 3 a 2 no America, 2 a 0 no Botafogo, 2 a 1 no Vasco e 5 a 1 no Bangu – e levantou o bicampeonato, novamente com apenas duas derrotas em 27 jogos, mas uma vitória a menos que no ano anterior (20 contra 21).

O título levou o compositor Wilson Batista, um dos gigantes da música brasileira daquele período (e de todos os tempos) e torcedor flamenguista fanático, a escrever o famoso “Samba Rubro-Negro”, no qual citava nominalmente o meia e dois outros expoentes daquela equipe e fez sucesso estrondoso no Carnaval de 1955: “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã / O Mais Querido tem Rubens, Dequinha e Pavão / Eu já rezei pra São Jorge / Pro Mengo ser campeão”.

Rubens (à direita) na concentração: sinuca com Joel, García e Jordan.

A popularidade de Rubens era tamanha que, em novembro de 1955, quando a editora Bloch lançou a histórica revista Manchete Esportiva, uma das principais publicações do país em seu tempo, o meia foi escolhido para figurar na capa da primeira edição. Vestido de toga e capelo, como um verdadeiro acadêmico, o Doutor Rúbis matava uma bola no peito sobre a legenda: “Dr. Rubens, bacharel de letras e salames” – este último termo, uma gíria da época para dribles.

“Era realmente um autêntico ídolo. A torcida o adorava. Tinha a cara do povão. Era um homem simples, sem grande cultura, mas possuía muita vivacidade e sempre fazia observações pertinentes. Ele era um jogador muito inteligente. Sua visão de jogo era impressionante e, numa fração de segundo, resolvia uma jogada e decidia a parada”, comentou o velho companheiro de clube Evaristo de Macedo. Naquele momento em que virou capa de revista, no entanto, Rubens já começava a assistir a sua carreira sair dos trilhos.

Rubens nas revistas: um ídolo popular, um símbolo daquele Fla.

O DECLÍNIO ACELERADO

Fleitas Solich não era entusiasta do futebol cadenciado, lento e filigranado dos grandes virtuoses, então quase onipresente no Brasil. Preferia o jogo veloz, intenso, objetivo, sem firulas e sobretudo coletivo. Costumava dizer que “o meio-campo é por onde a bola passa, não onde ela fica”. Gostava menos ainda de jogadores que não se esforçassem nos treinos. Mas, acima de qualquer outra coisa, tinha verdadeira ojeriza aos atletas que cultivassem hábitos considerados boêmios. Em outras palavras: detestava cigarro e bebida.

Rubens com Fleitas Solich: relação deteriorada.

Fumante de três maços de cigarro por dia e bom de copo, Rubens previsivelmente estaria na mira de Solich. E não só dele. Conta-se que, em 1954, durante as Eliminatórias, a Seleção estava em Santiago e os jogadores ganharam uma tarde de folga. Perto da hora de retornarem, Zezé Moreira conversava com Luiz Mendes no hall do hotel quando percebeu, pelo reflexo em uma vidraça, que o jogador chegara carregado pelos colegas, de tanto que bebera. O meia escapou de ser cortado, mas este teria sido um dos motivos de seu pouco espaço no time.

Outra história envolvendo Rubens era a de que, durante uma excursão do clube a Curitiba, Solich teria flagrado o jogador fumando e bebendo em um bar com torcedores, e mandado-o de volta ao Rio imediatamente. Foi a gota d’água. Na mesma época, o meia começou a sofrer de inchaço no joelho esquerdo, chegando a operar o menisco. Foi a ocasião que o treinador queria para sacá-lo do time e lançar os garotos da base que pediam passagem, como Paulinho e Duca. Na longa campanha do tri, entre agosto de 1955 e abril de 1956, Rubens fez apenas seis jogos.

NO RIVAL, TENTANDO SE REERGUER

Os médicos do clube diagnosticaram o problema crônico no joelho de Rubens como um derrame, demandando nova operação. Enquanto isso, Paulinho, seu jovem substituto, firmava-se até como goleador: sagrou-se artilheiro do time e do Carioca, com 23 gols. O Doutor Rúbis havia perdido espaço. Na temporada 1956, jogou apenas amistosos, antes de ser emprestado ao Santa Cruz. Em 1957, só fez uma partida. Marginalizado, comprou seu próprio passe e aceitou um convite para jogar no Vasco no segundo semestre.

Em São Januário, Rubens conquistou o Torneio Rio-São Paulo e o Campeonato Carioca de 1958 e ficou até o fim do ano seguinte, quando foi dispensado. Aos 31 anos de idade, voltou ao seu estado de São Paulo, assinando com a Prudentina, onde penduraria as chuteiras em 1963. Mais tarde, chegaria a trabalhar como auxiliar técnico do amigo Marinho Rodrigues, ex-companheiro de Flamengo, no Atlético Junior de Barranquilla, antes de largar de vez o futebol.

Em 1978, a Manchete Esportiva (que experimentara um renascimento na época) promoveu um encontro entre ele e outro meia talentoso que despontava no Flamengo, seu herdeiro da camisa 8, também de estilo refinado e ótima condução de bola: o jovem Adílio ouviu histórias e conselhos do velho craque. Foi uma das últimas vezes em que Rubens foi destaque na imprensa. Em 31 de maio de 1987, vitimado por um câncer pulmonar, Doutor Rúbis viraria saudade. A rotina de fumante, que lhe roubara o prestígio no Fla e a idolatria da massa rubro-negra, terminaria por lhe tirar também a vida, aos 58 anos.

LEMBRANDO O VELHO CRAQUE

A mudança de perfil do futebol brasileiro, as portas fechadas na Seleção e a súbita descida de seu pedestal de ídolo – do qual acabou destronado pela ascensão de nomes como Dida no panteão rubro-negro – fizeram de Rubens um jogador quase esquecido, do tipo o qual nos falta a dimensão histórica para entender o tamanho da paixão e da identificação dispensada a ele pela torcida naqueles anos. Mas muitos que viram o meia atuar nas tardes do Maracanã têm doces recordações de seu jogo. Como o historiador e pesquisador Ivan Soter, que também o descreveu em seu livro “Quando a bola era redonda”.

“Sim, a bola já foi protagonista. Quando ela ficava com Rubens, o doutor Rúbis, ficava feliz. Rubens tinha um elástico mágico que a prendia a seus pés. Os adversários, hipnotizados, olhavam a bola nos pés de Rubens. Parados. Rubens se mexia, todos se mexiam para o lado que Rubens tinha se mexido. Ele só esperava que alguém ousasse roubá-la. Até que um sujeito do outro time, mais desavisado, avançasse desequilibrando a natureza morta pintada no gramado. Era a hora do drible. Só então a bola saía do lugar. Para continuar nos pés de Rubens”.