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Placar nº 610, 29 de janeiro de 1982Neste 9 de agosto de 2011, não é só Zagallo – campeão carioca como jogador e técnico pelo Flamengo, além de campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958 como atleta rubro-negro – que comemora aniversário em idade redonda. Divide a data com ele um outro camisa 11 que, discretamente, marcou época na Gávea: o catarinense Lico, que faz hoje 60 anos.

Apesar da semelhança da camisa e da função tática, Lico – nascido Antônio Nunes em Imbituba, litoral de seu estado – diverge de Zagallo em um aspecto: ao contrário do Velho Lobo, multicampeão com a amarelinha, o catarinense é costumeiramente citado como “o único jogador do time campeão do mundo (aquele que todos nós temos na ponta da língua) a não ter jogado pela Seleção”.

De fato, Lico viveu incertezas e demorou a mostrar seu valor até mesmo dentro do próprio Flamengo, quando de sua chegada, em 1980. Os cartolas rubro-negros acreditavam estar contratando um jovem meia-armador de 20 e poucos anos, com muito futuro pela frente. Só que ele já tinha 29. E vivido uma carreira de altos e baixos.

Ídolo em Santa Catarina

Já tinha sido promessa no extinto América de Joinville, no início da década de 70; depois, emprestado ao Grêmio (reserva por seis meses em 1973); defendido os arquirrivais Figueirense e Avaí – onde jogou com Zenon (futuro Guarani e Corinthians) e Renato Sá (aquele que quebraria a invencibilidade recorde de 52 jogos do time rubro-negro em 1979). E tinha se destacado, ao lado de Alfinete, Paulo Egídio (ambos defenderiam Corinthians e Grêmio), Vágner “Bacharel” (futuro Botafogo e Palmeiras) e Nardela (ex-Grêmio, e que volta-e-meia era cogitado no Fla) no forte time do Joinville, que despontava como papão de Santa Catarina, na virada dos 70 pros 80

Até estrear pelo Flamengo, em agosto de 1980, muito longe de Imbituba, mais precisamente em Santander (Espanha), onde o time de Zico, recém-coroado campeão brasileiro, levantou o Troféu Príncipe de Astúrias e Algarve batendo os espanhóis da Real Sociedad e os búlgaros do Spartak Sofia.

Mas Lico não vingou de imediato. Fez esporádicas aparições no Campeonato Carioca daquele ano, em sua maioria vindo do banco. E voltou ao Joinville, emprestado no começo de 81. Retornou à Gávea em maio, e reestreou na abertura do Estadual, contra o Serrano, em Petrópolis (vitória rubro-negra por 2 a 0), mas entrando durante a partida.

Início no Flamengo: eterno reserva, até que…

Seguia a rotina de raríssimas partidas até 25 de outubro, quando saiu do banco para dar a vitória ao Flamengo sobre o Campo Grande no alçapão de Ítalo del Cima, aos 42 do segundo tempo. Foi então que o técnico Paulo César Carpeggiani resolveu testá-lo em outra posição: a ponta-esquerda. Na verdade, como falso ponta-esquerda, cadenciando o meio-campo, cobrindo e liberando os avanços de Júnior e Adílio por aquele lado, e aparecendo no ataque até pela direita, mas sem a obrigação de ciscar na mesma faixa de campo e buscar sempre a linha de fundo, como fazia Baroninho, ponta autêntico vindo do Palmeiras, e titular até então.

Quando entrou em campo com a camisa 11 para enfrentar o Botafogo, em 8 de novembro, pelo terceiro turno do Estadual, Lico fazia apenas sua terceira partida como titular do Fla, em pouco mais de um ano de clube. Saiu de campo com um gol e coberto de elogios. E o Flamengo, com históricos 6 a 0 impostos ao rival. Lico virou titular absoluto. Aí desandou a fazer gols naquele Carioca. E golaços, como o contra o Fluminense, na vitória por 3 a 1: tabelou com Adílio e deixou o zagueiro e capitão tricolor Edinho inapelavelmente sentado no chão com um drible, antes de encobrir o goleiro Paulo Vítor com um leve toque.

Em Tóquio, campeão do mundo

Atingido por uma pedrada no turbulento jogo contra o Cobreloa em Santiago, na segunda partida da decisão da Libertadores, Lico ficou de fora da finalíssima em Montevidéu. Mas em Tóquio, contra o Liverpool, ele estava lá para ajudar a levantar o título mundial. E seguiu acumulando conquistas e vencendo a concorrência de pontas “autênticos” que chegavam cheios de cartaz à Gávea para tomar a camisa 11, como Wilsinho (ex-Vasco), Zezé (ex-Fluminense e Guarani) e João Paulo (ex-Santos).

Só não conseguiu vencer os problemas de joelho, que o tiraram do time durante boa parte de 1983, e o fizeram encerrar a carreira no ano seguinte, após duas cirurgias. Foram 129 partidas pelo Flamengo – a última delas em 28 de julho de 1984, quando substituiu Bebeto numa goleada de 4 a 0 sobre o Olaria, pela Taça Guanabara – e 16 gols. O derradeiro – em outra goleada, 4 a 1 sobre o Santos no Maracanã, em 11 de fevereiro do mesmo ano, na abertura da Taça Libertadores – foi uma pequena obra-prima, que resume seu futebol: recebeu a rebatida de um escanteio, livrou-se de um marcador com um drible curto, passou por entre outros dois com classe, antes de chutar seco, forte e rasteiro da entrada da área. Falsamente simples e extremamente eficiente.

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Fora de campo, Lico também viveu histórias interessantes no clube. Em 1984, no auge da mobilização nacional pela volta às eleições diretas para presidente da República, um grupo de apaixonados rubro-negros liderado por um certo Cláudio Besserman Viana, vulgo Bussunda, criava uma nova torcida e tentou convencer o zagueiro Figueiredo a ser o patrono da “Fla-Diretas”. Desconfiado, o jogador, que não chegava a ser um ídolo, hesitou. Companheiro de quarto do defensor na concentração, Lico tinha bastante interesse em política e ficou sabendo do convite. E, argumentando que o gesto poderia ajudar o Brasil, conseguiu convencer o jovem jogador.

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