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O time que goleou o Fluminense por 4 a 1 na estreia do Estadual de 1986 - em pé: Leandro, Cantarelli, Mozer, Andrade, Jorginho e Adalberto; agachados: Bebeto, Sócrates, Chiquinho, Zico e Adílio.

Durante o último Mundial Sub-20 – conquistado neste domingo pela Seleção Brasileira, com os rubro-negros Negueba, Galhardo, César e Frauches – um dos jogadores mais comentados foi o atacante Rodrigo Machado, da seleção da Espanha. Autor de três gols no torneio (inclusive um contra o Brasil), a jovem atração da Fúria tem estreitos laços com o Flamengo. Carioca e flamenguista declarado, Rodrigo é filho de Adalberto, ex-lateral-esquerdo do time da Gávea nos anos 80.

Desde que surgiu nas categorias de base do Flamengo, Adalberto foi apontado como sucessor natural de Júnior. Campeão carioca juvenil em 1981, tinha a mesma vocação para o apoio ao ataque, mas sem descuidar da defesa. No entanto, a promessa não se concretizou: seguidas lesões e fraturas o fizeram abandonar a carreira de jogador com apenas 24 anos de idade, apenas seis depois de estrear no time de cima do Fla, num empate sem gols com o Guarani no Brinco de Ouro, em Campinas, pelo Brasileiro de 1983.

Campeão com as Seleções Brasileiras de base

Lançado no time de cima pelo preparador físico Cléber Camerino, que comandava a equipe interinamente, Adalberto vinha com cartaz de campeão sul-americano de juniores pela Seleção Brasileira (título conquistado em fevereiro daquele ano) e impressionou. No jogo seguinte, uma goleada de 5 a 1 sobre o Corinthians no Maracanã, na estreia do novo treinador Carlos Alberto Torres, Adalberto entrou durante a partida substituindo Leandro, com Júnior deslocado para a direita.

A Seleção Brasileira de Juniores, campeã mundial em 83, no México - em pé: Adalberto, Hugo, Heitor, Régis, Guto, Dunga, Brigatti e Boni; agachados: Demétrio, Bebeto, Mauricinho, Geovani, Gilmar "Popoca", Paulinho, Marinho Rã e Aloísio.

No meio daquele ano, a promessa rubro-negra fez parte do elenco canarinho que levantou o título mundial de juniores no México (e meses depois, a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos, em Caracas). Além dele, o Flamengo cedeu o goleiro Hugo, o meia Gilmar “Popoca” e o atacante Bebeto. Daquela Seleção, outros três jogadores também viriam para a Gávea: o lateral Heitor e o zagueiro Guto – vindos, respectivamente, da Ponte Preta e do XV de Jaú – chegariam ainda em 83. Já o lateral Jorginho seria contratado em meados de 84, junto ao America.

Enquanto Júnior seguia intocável como dono da posição no Flamengo, Adalberto era trabalhado no clube para sucedê-lo. Entrava pouco na equipe, mas fazia boas apresentações. Tanto que já em março de 84 faria seu primeiro gol pelo time, abrindo a contagem numa vitória de 3 a 0 sobre o Brasil de Pelotas no Maracanã, pelo Brasileiro. “Substituiu Júnior com sobras”, avalizou a revista Placar. O caminho para uma grande carreira parecia pavimentado.

Antes, no começo do ano, Adalberto fora titular absoluto da Seleção pré-olímpica que carimbou o passaporte para os Jogos de Los Angeles, mas acabou de fora do torneio principal por não ter sido cedido pelo Flamengo.

Em junho, com a venda do Capacete acertada com os italianos do Torino, chegava a hora de o Dal, como era chamado pelos companheiros, ser titular da camisa 5 na reformulada defesa rubro-negra, em que Jorginho vinha do America para ocupar a lateral direita, enquanto Leandro passava à zaga central, fazendo dupla com Mozer.

O time que venceu o Fluminense na última rodada do primeiro turno do Estadual de 84 e conquistou a Taça Guanabara - em pé: Leandro, Mozer, Jorginho, Andrade, Adalberto e Fillol; agachados: Bebeto, Élder, Nunes, Tita e Adílio.

Em 85, a atuação inesquecível

A titularidade prosseguiu por 1985, ano em que Adalberto fez sua maior exibição com a camisa rubro-negra. No dia 24 de março, o Fla enfrentaria o Botafogo pelo Brasileiro. Vivendo melhor momento na competição, os torcedores alvinegros resolveram provocar e trouxeram toneladas de papel higiênico ao Maracanã, alegando que o Flamengo “se borrava todo” ao enfrentar o time da Estrela Solitária.

A resposta veio em campo: depois de o rival sair na frente logo aos três minutos com Elói, Adalberto tabelou com Adílio na entrada da área e tocou na saída do goleiro Luís Carlos para empatar a partida. Depois, em bela jogada de linha de fundo, serviu Chiquinho para este marcar o quarto. E perto do fim do jogo, driblou até o arqueiro alvinegro para fazer o quinto, antes de Gilmar fechar o caixão: Flamengo 6 a 1.

Ao fim do jogo, o melhor em campo – a revista Placar, novamente ela, coroou sua atuação com uma rara nota 10 e resumiu: “Perfeito” – ainda alfinetaria o esfaimado adversário às câmeras de tevê: “Papel higiênico, se sobrou, é para eles enxugarem as lágrimas de 17 anos sem título”.

Mas a maré favorável começou a virar no final daquele ano: expulso juntamente com o tricolor Leomir no nervoso Fla-Flu do triangular final do Carioca (aquele em que Leandro marcou um gol de empate antológico no último minuto), Adalberto ficou de fora do jogo seguinte, contra o Bangu. o Fla perdeu por 2 a 1 e saiu da disputa do título.

Começam as lesões graves

Em 86, veio finalmente seu primeiro título Estadual. Mas até nisso pintou o azar: Adalberto disputara como titular TODAS as partidas das Taças Guanabara e Taça Rio, além dos dois primeiros jogos da melhor-de-três contra o Vasco. Justamente no terceiro e último deles – vitória rubro-negra por 2 a 0, garantindo o caneco – ele não conseguiu superar uma lesão, e acabou substituído na lateral pelo improvisado zagueiro Aldair, então recém-saído dos juniores.

Em setembro, viveria um drama ainda maior, que começaria a minar sua curta carreira. Numa partida contra o Botafogo-PB em Caio Martins, pelo Brasileiro, Adalberto foi atingido covardemente por trás pelo ponta-direita Porto, do time paraibano, aos 43 minutos do primeiro tempo, e sofreu fratura da tíbia direita. A lesão o deixaria de fora da equipe por seis meses e obrigaria o clube a trazer, em caráter de emergência, o experiente Aírton, ex-São Paulo, Cruzeiro, America e Vasco, para cobrir a lacuna na posição.

Adalberto retornou aos gramados em março de 87, e aos poucos reconquistou a titularidade e reencontrou o bom futebol. Mas por pouco tempo: em setembro, no último amistoso antes da estreia na Copa União (a qual o Fla conquistaria), contra o Bahia na Fonte Nova, o lateral se contundiu sozinho num escanteio, e deixou o campo para não mais atuar naquele ano, nem no seguinte. Em seu lugar, entrou, irônicamente, um garoto da base de apenas 17 anos. Um certo Leonardo.

Aquele contra o Bahia foi o penúltimo jogo de Adalberto, à época com 23 anos, pelo Flamengo. O lateral tentou voltar aos gramados em abril de 89, num amistoso contra o América de Três Rios, mas não aguentou sequer atuar os 90 minutos e foi substituído por Paulo César. Terminava ali, de maneira melancólica, depois de 183 partidas e sete gols com o Manto Sagrado, uma carreira promissora.

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Homenageado pelo Flamengo, que batizou com seu nome a unidade de Ipanema das escolinhas do clube, Adalberto trabalhou ainda como coordenador das categorias de base do CFZ, antes de embarcar para a Espanha a convite do amigo e também ex-lateral Mazinho, antigo rival no Vasco. Lá ele exerceu a mesma função no Celta de Vigo, clube em que seu filho Rodrigo começou a jogar, e de onde partiu para brilhar com a camisa de outra seleção, mas com o coração na Gávea.

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