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O time da decisão do Carioca de 1974 contra o Vasco – em pé: Renato, Júnior, Jaime, Luis Carlos, Zé Mário e Rodrigues Neto; agachados: Paulinho, Geraldo, Édson, Zico e Julinho.

Na última sexta-feira, 26 de agosto, um dos episódios mais tristes da história do Flamengo completou 35 anos. Neste dia em 1976 parava de bater, durante uma prosaica cirurgia para extração de amígdalas, o coração do jovem Geraldo Cleofas Dias Alves, o Geraldo “Assoviador”, talentosíssimo meia do Flamengo, de apenas 22 anos de idade.

São poucas as referências a Geraldo encontradas hoje. Num tempo em que não havia internet, Youtube e eram raras as transmissões de partidas entre clubes na televisão, também foram poucas as imagens preservadas do meia exibindo seu futebol clássico, cadenciado, de cabeça erguida, exímio nos passes e lançamentos longos e ao mesmo tempo moleque, de drible solto e fácil. Mineiro de Barão de Cocais, Geraldo fez parte de uma linhagem de jogadores de meio-campo da qual pertenceram nomes como Didi, Ademir da Guia ou seu ídolo Paulo César Caju e que hoje já não existe.

Outro agravante foi o curto tempo de carreira (e de vida) de Geraldo como jogador profissional. Pouco mais de três anos. Tido como grande promessa dos juvenis do clube ao lado de Zico, num time em que também despontavam Cantarele, Rondinelli e Vanderlei Luxemburgo, o meia fez finalmente sua estreia no time de cima substituindo Zé Mário num amistoso contra o Goiás, na Gávea, em 24 de junho de 1973.

Ainda naquele ano, participou de alguns jogos da turbulenta campanha rubro-negra no Campeonato Brasileiro, quase sempre substituindo o experiente meia Afonsinho (ex-Botafogo, Vasco, Santos e Olaria), contratado para tentar ajudar o clube a evitar uma iminente e precoce desclassificação das fases finais da competição (o Fla terminou, na soma dos pontos das duas primeiras etapas, na 24º colocação, sem obter uma vaga entre os 20 que avançariam).

Em 1974, a titularidade num Flamengo renovado

Mas em 74 a história seria diferente. Com o técnico Zagallo concentrando esforços na preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo da Alemanha, o comando do time rubro-negro foi entregue a Joubert, ex-zagueiro do clube e ex-treinador dos juniores. O que foi decisivo para que várias “crias da Gávea” fossem lançadas ou se firmassem entre os titulares.

A garotada – que além de Geraldo e Zico incluía jogadores como o goleiro Cantarele, os zagueiros Rondinelli (que jogou como lateral-direito) e Jaime, o lateral-esquerdo Vanderlei Luxemburgo e o atacante Paulinho – fez muito bonito na primeira fase do Brasileiro: 12 vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas, segunda melhor campanha entre todos os 40 participantes, um ponto atrás do Grêmio.

Foi esse time, por exemplo – que também incluía os experientes Doval, Luis Carlos, Liminha, Rodrigues Neto, Dario, Arílson e o goleiro Renato – que obteve a única vitória do Fla sobre o Atlético-PR em Curitiba na história do Campeonato Brasileiro, um 2 a 1 no estádio Belfort Duarte (atual Couto Pereira), em 21 de abril. Geraldo estava em campo.

Problemas de contusão prejudicaram a equipe na segunda fase, quando o Fla terminou em terceiro, atrás de Cruzeiro e Palmeiras, num grupo de seis equipes onde apenas uma seguiria para o quadrangular final. Mas a equipe continuou se ajeitando e em dezembro já podia sorrir de novo: era campeã carioca.

Geraldo vestiu a camisa 8 de titular durante praticamente toda a competição. Teve atuação destacada na goleada de 4 a 1 sobre o forte time do America (recém-coroado campeão da Taça Guanabara) na abertura do segundo turno do Carioca, e na decisão contra um experiente Vasco campeão brasileiro, estava lá ao lado de Zico, novo dono da 10, para ajudar a garotada do Mengo a segurar um bravo 0 a 0 e levantar a taça.

Com o Galinho, aliás, a afinidade ultrapassava as quatro linhas. Geraldo frequentava a casa da família de Zico em Quintino e era tido pelos pais do camisa 10 como um “filho postiço”. Ou, nas palavras de seu Antunes, “meu filho marronzinho”. Outro grande amigo, talvez o maior, era o meia Carlos Alberto Pintinho, do Fluminense, que o tratava por Gera, e com quem gostava de frequentar bailes e danceterias na noite carioca, nos quais curtiam músicas como “Your Song”, de Elton John, na versão de Billy Paul, a qual o meia rubro-negro vivia assoviando – daí o apelido.

Contra o time de Pintinho, aliás, Geraldo fez grande jogada que culminou no segundo gol rubro-negro no Fla-Flu de 18 de maio de 75, válido pelo segundo turno do Carioca, mostrado no vídeo abaixo. O controle de bola, a ginga, o drible desconcertante, a dividida ganha e a triangulação perfeita com Zico e Luisinho Lemos, que tocou para as redes decretando a vitória por 2 a 1 a oito minutos do fim do jogo.

http://www.youtube.com/watch?v=RQ1zyrfIUyg

Em julho, os europeus também tiveram uma mostra de seu talento no amistoso entre Flamengo e Juventus, da Itália, no Maracanã, que terminou com vitória rubro-negra por 2 a 1. Após grande jogada individual, Geraldo deu o passe para Zico marcar o gol que definiu o placar. Em momento inspirado, era natural que fosse cogitado na Seleção Brasileira, agora comandada por Oswaldo Brandão, que buscava novos valores após o fiasco da Copa de 1974.

Na seleção, sete partidas e quatro títulos

E a convocação veio em setembro. Brandão era grande admirador de seu futebol, o qual considerava superior até ao de Zico, e deu a Geraldo a camisa 10 canarinho nos dois jogos contra o Peru, pelas semifinais da Copa América daquele ano, disputada sem sede fixa, em jogos de ida e volta.

Tendo como base uma seleção mineira, enxertada por alguns jogadores “de fora” como Geraldo, o goleiro são-paulino Valdir Peres e os vascaínos Miguel e Roberto Dinamite, o Brasil foi derrotado pela seleção de Cubillas por 3 a 1 no Mineirão, venceu por 2 a 0 em Lima (com atuação magistral do meia rubro-negro, o melhor em campo), mas acabou eliminado na infame moedinha do sorteio.

No ano seguinte, mais cinco apresentações pela camisa canarinho, três delas oficiais (Argentina em casa e fora e Paraguai no Maracanã) e duas não-oficiais (contra a Seleção Brasiliense e o UNAM do México). Contra os hermanos, duas vitórias: 2 a 1 no Monumental de Núñez (na qual jogou como centroavante) e 2 a 0 no Maracanã, em jogos pela Copa Roca; além de um 3 a 1 nos guaranis pela Taça Osvaldo Cruz. Os três jogos também valeram pela Taça do Atlântico.

Uma formação da Seleção Brasileira em 1976. Geraldo é o segundo agachado, da esquerda para a direita.

Uma formação da Seleção Brasileira em 1976. Geraldo é o segundo agachado, da esquerda para a direita.

Geraldo também fez parte do elenco que conquistou, em maio, o Torneio Bicentenário da Independência dos Estados Unidos, no qual o Brasil venceu Inglaterra, Itália e um combinado de estrelas da liga norte-americana.

Na volta ao Brasil, viveu dias de gala e de frustração. No Fla-Flu amistoso que marcaria a grande troca de jogadores envolvendo os dois clubes, em março daquele ano, teve atuação primorosa, coroada com um belíssimo passe de calcanhar para Zico marcar seu quarto gol na vitória por 4 a 1. E no primeiro clássico diante do Vasco na Taça Guanabara (vencido por 3 a 1), fez outra grande partida, com um lance marcante logo no pontapé inicial, tabelou com Zico, conduziu a bola até a linha de fundo carregando vários defensores e rolou para trás para Luisinho abrir o placar, com apenas 15 segundos de jogo, diante de mais de 170 mil torcedores no Maracanã.

Porém, na decisão da Taça Guanabara, contra o mesmo Vasco, em junho, marcou o gol de empate no tempo normal, mas desperdiçou sua cobrança na decisão por pênaltis, e os cruzmaltinos levantaram o turno. Mais tarde, seria multado pelo clube em 60% do salário ao chegar atrasado para um treino. A imprensa o acusava de falta de seriedade. Na verdade, disciplina tática não era mesmo com ele. Era difícil enquadrar o futebol alegre de Geraldo, meia arriada e camisa para fora do calção.

De garganta inflamada, Geraldo precisa operar

Terminada a participação no Carioca, o Flamengo saiu em excursão pelo Nordeste, mas Geraldo ficou no Rio. Com uma inflamação crônica de garganta, tinha cirurgia de extração de amígdalas marcada pelos médicos do clube para o dia 25 de agosto. No entanto, por motivos burocráticos, a operação acabou adiada para a manhã seguinte.

geraldoGeraldo – que, nas semanas que antecederam a intervenção médica, havia comentado estar com medo da cirurgia – reagiu mal à anestesia e teve uma parada cardíaca. Os médicos tentaram reanimá-lo, mas ele morreu poucas horas depois, vítima de choque anafilático.

Completamente arrasada, a delegação rubro-negra retornou imediatamente de Fortaleza (onde na véspera havia vencido o Ceará em amistoso por 2 a 0) para o Rio. Uma semana depois, o time estrearia no Campeonato Brasileiro recebendo o ABC de Natal. Antes de a bola rolar, Geraldo foi homenageado com um minuto de silêncio. O mais sentido da história do Maracanã.

O Flamengo após Geraldo

A morte do meia comoveu não só a torcida do Flamengo, como todo o meio do futebol no país. Em outubro, o Flamengo disputou um amistoso contra a Seleção Brasileira, organizado pelos próprios jogadores do clube e lembrado neste post. Enlutado, o time vestiu calções negros durante o Brasileiro de 76, competição na qual, mesmo sem Geraldo, fez grande campanha (14 vitórias, três empates e quatro derrotas). Mas novamente caiu antes das semifinais e terminou na quinta colocação.

Só em 1978, com a conquista do título carioca que deu o pontapé inicial para a fase mais vitoriosa do clube, é que a ferida começou a cicatrizar, ainda que continue a ser lamentada hoje, 35 anos depois.

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Jogador que participava mais da criação das jogadas do que das conclusões, Geraldo fez relativamente poucos gols com a camisa do Flamengo: apenas 13 em 169 jogos. Como destaques pode-se apontar o já citado contra o Vasco, na decisão da Taça Guanabara de 1976, e também o seu primeiro no Maracanã, cobrando falta, numa goleada de 5 a 1 sobre o Corinthians, em 17 de fevereiro de 1974.

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Vários dos irmãos de Geraldo foram jogadores de futebol, e um deles também atuou no Fla: o zagueiro Washington, famoso por ter deixado o tricampeão do mundo Brito na reserva no time comandado por Yustrich em 1970. Anos depois, Washington deixou o Brasil para atuar em Portugal, onde nasceu seu filho e também zagueiro Bruno Alves, que hoje defende a seleção lusa.

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