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Diante de sua torcida, o Flamengo entra em campo contra o Vasco, em foto da revista Manchete de 18 de maio de 1968. À frente, Rodrigues Neto e Luis Carlos (parcialmente encoberto). Em seguida, vêm Carlinhos e Onça.

Naquele mês de maio de 1968, o mundo fervilhava aqui e lá fora em protestos, revoluções, motins. Em Paris, uma revolta dos estudantes contra a intransigência do governo do general Charles de Gaulle cresceu e tomou proporções nacionais, irrompendo numa greve geral que uniu classes, raças e sexos, clamando por liberdade. Nos EUA, mergulhados na Guerra do Vietnã, ainda ecoava o assassinato do líder negro Martin Luther King, ocorrido no mês anterior. No Brasil, o regime militar recrudescia, no que desaguaria na decretação do AI-5, em dezembro.

Mas, parafraseando Chico Buarque, aqui na Terra também se jogava futebol, e no Rio de Janeiro especificamente as massas batiam ponto todo domingo no Maracanã. Aquele primeiro de maio, entretanto, caiu numa quarta-feira. Porém o feriado do Dia do Trabalho ajudou a arrastar 155 098 pessoas ao estádio para acompanhar o Clássico dos Milhões (apelido mui justificado) entre Flamengo e Vasco, válido pela última rodada do primeiro turno do Campeonato Carioca, e que quebrou o recorde de renda do ano no país.

O Vasco: 100% de aproveitamento

Mais embalado, impossível, o time cruzmaltino. Havia vencido todos os seus dez jogos disputados até então na competição. Passou incólume, sem perder um ponto sequer, por America, Madureira, Campo Grande, Bonsucesso, Bangu, Portuguesa da Ilha, São Cristóvão, Fluminense, Olaria e Botafogo. No time dirigido por Paulinho de Almeida (ex-lateral do clube), brilhava o centroavante Nei, o “artilheiro da cidade”, como era chamado pela imprensa. Dez gols nos últimos cinco jogos, 12 em todo o campeonato até então.

Além dele, também se destacavam o zagueiro Brito, futuro tricampeão do mundo; a dupla de meio-campo formada pelo mineiro Buglê e o uruguaio Danilo Menezes; o ponteiro-direito Nado, vindo do Náutico e que, dois anos antes, quando defendia o clube pernambucano, havia sido relacionado entre os 44 pré-convocados para a Copa de 66; e o ponta-de-lança Bianchini, que fez história no Bangu e teve boas passagens por Botafogo e Flamengo. O desfalque era Fontana, zagueiro que fazia duríssima e temível dupla com Brito. Expulso contra o Fluminense na oitava rodada, o beque cumpria suspensão.

O Flamengo: um time em busca de regularidade

Já o Flamengo fazia campanha um pouco menos regular. Goleara o Fluminense por 4 a 2, mas perdera para o Madureira, numa autêntica zebra. Acumulara sete vitórias, um empate e duas derrotas, o que o colocava na terceira posição na classificação geral, atrás de Vasco e Botafogo. No entanto, tinha um craque e goleador de respeito vestindo a camisa 10: Silva, o “Batuta”, autor de 11 gols até então, apenas um a menos que Nei.

O time dirigido por Válter Miraglia, ex-meia do clube nos anos 40, entrou em campo com Marco Aurélio no gol. Nas laterais, os eternos Murilo e Paulo Henrique. Na zaga, o folclórico baiano Onça era o beque central, tendo a seu lado na quarta zaga o uruguaio Jorge Carlos Manicera, da seleção de seu país, e grande contratação do clube para aquele ano. No meio, o veterano Carlinhos, o “Violino”, exibia a velha classe de sempre, auxiliado por um jovem Liminha, o “Motorzinho da Gávea”. Na frente, além de Silva, três garotos com a missão de municiarem e serem municiados pelo craque do time: Luís Carlos era o ponta-direita, Dionísio jogava pelo meio, e o futuro lateral Rodrigues Neto caía pela esquerda, um pouco mais recuado.

O desfalque era César Lemos, camisa 9 promissor, cria do clube, que voltara de empréstimo ao Palmeiras, onde conquistara no ano anterior o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, mas que teve que deixar de vez a Gávea com destino ao Parque Antárctica para fazer história no futebol brasileiro como César “Maluco”.

O jogo

Em campo, as coisas não começaram bem para o Fla. Logo aos seis minutos, Nei tomou a bola das mãos de Marco Aurélio e Bianchini abriu o placar para o Vasco. Com o melhor ataque (24 gols pró) e a melhor defesa (5 gols sofridos) da competição, o time de São Januário parecia se encaminhar para mais uma tranquila vitória. Parecia que, naquele primeiro turno, os cruzmaltinos fariam barba, cabelo e bigode.

Só que as barbas, cabelos e bigodes vascaínos foram logo colocados de molho aos 35 minutos. Onça, o zagueiro revelado pelo Fluminense de Feira de Santana, vindo do Bahia, e que, na falta de muito apuro técnico se fez ídolo da torcida por conta de sua raça e dedicação incondicional – bem ao estilo de vários beques que fizeram história na Gávea -, empatou a partida em cobrança de falta e incendiou a massa rubro-negra no Maracanã.

O jogo seguiu equilibrado até o fim da primeira etapa. Mas na volta do intervalo, logo aos cinco minutos, Dionísio, o substituto de César, marcou de letra o gol da virada para o delírio da galera. Mesmo sem Silva, que teve de sair de campo lesionado – contusão que o deixaria de fora de praticamente toda a reta final do campeonato -, o Fla resistiu bravamente à pressão adversária (com grandes defesas de Marco Aurélio) durante todo o resto da partida, até o apíto final de Armando Marques. Da boca do túnel, de pé engessado, Silva, o “Batuta”, rege a torcida rubro-negra.

Acabou a invencibilidade vascaína, acabou a série de vitórias. O Vascão 100% já era. E Nei, o artilheiro da cidade, não só emudeceu naquela tarde, como não voltou a marcar em todo o resto do torneio. Foi engolido por Onça.

Depois do clássico…

O turno final foi disputado pelos oito melhores times da primeira fase. Sem Silva, seu principal jogador, o Fla voltou aos dias de irregularidade. Perdeu pontos aqui e ali, e acabou saindo do páreo a duas rodadas do fim, após empatar em 2 a 2 com o mesmo Vasco.

Já os cruzmaltinos tropeçaram em empates contra um decadente Fluminense, o Bangu e o Flamengo, enquanto assistiam a uma arrancada fulminante do Botafogo (de Jairzinho, Gérson, Roberto Miranda, Paulo César Caju e do técnico Zagallo), que enfileirou vitórias desde o final do turno anterior.

Dois pontos atrás do Vasco ao fim do primeiro turno, o alvinegro da Estrela Solitária chegou à última rodada da fase final podendo empatar o confronto direto com a equipe de São Januário para levantar a taça. Venceu por 4 a 0. E o time da Colina, que não conquistava um Carioca havia dez anos, amargou mais um ano na fila e mais um vice-campeonato.

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Como curiosidade daquela rodada de 1º de maio, antes de Flamengo x Vasco, os mais de 155 mil torcedores que foram ao Maracanã viram na preliminar a vitória do Bonsucesso sobre o Olaria por 1 a 0.

Pelo time da Rua Bariri, treinado pelo ex-goleiro tricolor Castilho, estiveram em campo nomes como o zagueiro Miguel (futuro Vasco, Fluminense e Seleção Brasileira), os laterais Mura (futuro Botafogo) e Alfinete (campeão brasileiro com o Vasco em 74) e o centroavante Antunes (irmão mais velho de Zico).

Já o rubro-anil contou com o então iniciante zagueiro Moisés (futuro Vasco, Botafogo, Bangu, Corinthians, Flamengo, entre vários outros clubes), o também zagueiro Paulo Lumumba, o goleiro Jonas (futuro America) e o meia Amaro (campeão carioca com o America em 1960, e que também defendeu a Juventus, da Itália).

O autor do gol da vitória foi do atacante Paulo Mata. Aquele mesmo que em 1997, como técnico do Itaperuna, invadiu o campo e baixou as calças em protesto contra uma desastrosa arbitragem numa partida contra o Vasco.

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Ficha do Clássico dos Milhões:

Vasco 1 x 2 Flamengo
Campeonato Carioca
Data: 1º de maio de 1968
Local: Maracanã
Árbitro: Armando Marques
Público: 155.098
Renda: NCr$ 416.930,00
Gols: Bianchini (1-0) aos 6, Onça (1-1) aos 35 do 1º tempo; Dionísio (1-2) aos 5 do 2º tempo

Vasco: Pedro Paulo; Ferreira (Jorge Luís), Brito, Sérgio e Lourival; Buglê e Danilo Menezes; Nado, Nei, Bianchini e Silvinho. Técnico: Paulinho de Almeida.

Flamengo: Marco Aurélio; Murilo, Onça, Manicera e Paulo Henrique; Carlinhos e Liminha; Luís Carlos, Dionísio (Zanata), Silva (Fio), Rodrigues Neto. Técnico: Válter Miraglia.

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