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O time do Flamengo campeão carioca de 1963 ao empatar com o Fluminense diante de quase 200 mil torcedores no Maracanã - em pé: Murilo, Marcial, Ananias, Luis Carlos Freitas, Carlinhos e Paulo Henrique; agachados: Espanhol, Nelsinho, Aírton, Geraldo José (substituiu Dida na reta final do torneio) e Osvaldo "Ponte Aérea".

Em tempos como os de hoje, em que jogadores brasileiros deixam o país para embarcar num sonho europeu cada vez mais cedo, chegando aos clubes do Velho Continente ainda nas categorias de base, cabe lembrar uma história na qual o inverso ocorreu, ainda que levado pelo acaso.

José Armando Ufarte Ventoso era um niño nascido em 17 de maio de 1941 na cidade espanhola de Pontevedra, na Galícia. Aos 14 anos, já era um adolescente quando o pai, um mecânico local, deixou o país com toda a família, atravessando o Atlântico até aportar no Rio de Janeiro, mesmo destino de tantos outros europeus na mesma época.

Apaixonado por futebol, o jovem José Armando levava jeito na ponta direita ao ingressar nos juvenis do Flamengo, no final da década de 50. Exímio driblador e rapidíssimo, o garoto seguia a melhor tradição de ponteiros de seu país, de nomes como Francisco Gento, El Supersónico, que brilhava no Real Madrid de Di Stéfano e Puskas naquela mesma época. Em 1961, outro gringo, o técnico paraguaio Fleitas Solich, lançou-o – já obviamente apelidado Espanhol – no time de cima da Gávea.

Por muito pouco o garoto de Pontevedra não fez parte do elenco rubro-negro que levantou em janeiro daquele ano o Torneio Internacional de Verão, enfrentando Vasco, São Paulo, Corinthians, os argentinos Boca Juniors e River Plate e os uruguaios Nacional e Cerro num octogonal com partidas disputadas nas capitais carioca e paulista, além de Buenos Aires e Montevidéu.

A estreia, no entanto, viria durante a campanha de outro torneio conquistado pelo clube naquele ano, o Rio-São Paulo. Espanhol entrou na equipe em 25 de março, durante a vitória de 2 a 0 sobre a Portuguesa no Maracanã, substituindo o centroavante Henrique. Quatro dias depois, fazia sua primeira partida como titular, ajudando o time a bater o America por 2 a 1.

No entanto, essa experiência não durou muito. Para a mesma posição, o Flamengo havia trazido de volta Joel, tricampeão carioca pelo clube em 1953-54-55 com o chamado “Rolo Compressor”, campeão do mundo em 1958 com a Seleção na Suécia, e repatriado após dois anos e meio na… Espanha, onde defendeu o Valencia. Para ganhar cancha, Espanhol foi cedido ao Corinthians, onde ficou até meados do ano seguinte.

Na volta ao Rio, não encontrou mais Solich, e sim Flávio Costa – outro que acumulou títulos pelo Flamengo ao longo das décadas – no comando da equipe. Reestreou na abertura do segundo turno do Carioca, vencendo o Madureira por 2 a 0 em Caio Martins, a 30 de setembro. Um detalhe chamava a atenção: para que Espanhol entrasse no time, Joel fora deslocado para a esquerda. E o novo titular da camisa 7 mostrou serviço no jogo seguinte, marcando os gols da vitória de 2 a 0 sobre o Canto do Rio, no mesmo estádio – seus primeiros como profissional vestindo a camisa rubro-negra – em 6 de outubro.

Espanhol passa por Altair na decisão de 1963.

A afirmação veio em 1963, ano que conquistou a titularidade indiscutível e que retornou a seu continente de origem numa excursão de quase dois meses e 16 jogos do Flamengo pela Europa, onde a equipe enfrentou adversários (clubes, combinados e seleções) da Romênia, Polônia, Suécia, Dinamarca, União Soviética, França, Áustria e Tchecoslováquia. E a consagração chegou no final daquele ano, com o título carioca, o qual o clube não conquistava há oito temporadas.

Naquela campanha, Espanhol disputou todas as 24 partidas e, além de inúmeros passes precisos e cruzamentos na medida para o centroavante Aírton “Beleza” (artilheiro rubro-negro na competição com 15 gols), contribuiu com outros quatro, sendo dois de importância crucial para o título: o primeiro foi o da vitória por 2 a 1 sobre o São Cristóvão, no antigo campo botafoguense de General Severiano, em 11 de setembro. Sem Aírton, expulso ainda na etapa inicial, e contra um adversário fechado para segurar o empate com um jogador a mais, coube ao ponta marcar, aos 41 minutos do segundo tempo, o tento que garantiu dois preciosos pontos ao Fla.

O outro foi o segundo na vitória por 3 a 1 sobre o Bangu, um dos adversários diretos na briga pelo título, em 24 de novembro no Maracanã, a quatro rodadas do fim do campeonato. Graças a essas jogadas, o Mengo pôde chegar à decisão precisando só empatar com o Fluminense, o outro grande aspirante à taça. E o Supersónico da Gávea esteve em campo em um jogo histórico. Os 194.603 espectadores presentes ao estádio naquele 15 de dezembro de 1963 viram um Flamengo heroico, que, em uma atuação espetacular do goleiro Marcial, segurou o ímpeto tricolor, garantiu o 0 a 0 e deu a volta olímpica.

O meia Nelson ergue o Troféu Naranja, em Valencia.

O ano seguinte seria o último de Espanhol na Gávea. Em maio, após terminar o Rio-São Paulo na quarta colocação, o Flamengo partiu para nova excursão ao exterior, dessa vez iniciada no continente africano. O time jogou na Costa do Marfim e em Gana; foi ao Oriente Médio enfrentar a seleção do Líbano; e finamente chegou à Europa, onde jogou na Itália (empate com o Milan no San Siro), nas Alemanhas Ocidental e Oriental, na Espanha e na União Soviética.

E foi em sua própria terra que Espanhol levantou seu último caneco pelo Fla. Em Valencia, os rubro-negros disputaram o tradicional Troféu Naranja, ao lado dos donos da casa e do Nacional do Uruguai, e que terminou em um tríplice empate. No primeiro jogo, o Valencia fez 4 a 2 nos uruguaios. No segundo, o Flamengo estreou perdendo para o Nacional por 1 a 0. Mas no terceiro, se recuperou batendo os valencianos por 3 a 1, com o ponteiro direito marcando o terceiro gol, depois de Aírton e Paulo Alves terem aberto a vantagem. O ex-atacante do Fluminense Waldo descontou.

Como critério de desempate foi adotado o “goal average”, a divisão dos tentos marcados pelos sofridos, bastante semelhante ao saldo de gols. E o Fla levou a taça e deu a volta olímpica pelo gramado do estádio Mestalla graças ao gol de Espanhol contra os donos da casa, mas acabou perdendo o atacante. A atuação chamou a atenção dos olheiros do Atlético de Madri, e o time da Gávea não pôde recusar a proposta dos colchoneros. No dia 8 de julho de 1964, o jogador fez a última de suas 105 partidas pelo clube que o revelou, uma vitória de 3 a 2 sobre a seleção da Ucrânia – na época, um estado ainda parte da União Soviética.

E Espanhol virou Ufarte. Jogou dez anos pelo clube madrilenho, atuando 323 vezes. Conquistou três Campeonatos (1966, 1970 e 1973) e duas Copas (1965 e 1972) nacionais, e fez parte do elenco que chegou à decisão da Copa dos Campeões da Europa em 1974, contra o Bayern de Munique. Fez ainda mais: chegou enfim a defender a seleção de seu país em 16 partidas entre 1965 e 1972, e vestiu a camisa 7 da Fúria no Mundial de 1966, na Inglaterra, competição a qual, aliás, foi crucial para a classificação da equipe, ao marcar o único gol da vitória sobre a Irlanda, em Paris, no jogo desempate pelas Eliminatórias.

Em entrevista à revista Placar em 1973, Espanhol revelou que sonhava em vestir novamente – pelo menos por uma vez – a camisa rubro-negra no Maracanã. Entretanto, acabou pendurando as chuteiras no Racing Santander três anos depois. Passou então a integrar a comissão técnica das divisões inferiores do Atlético. Em 2004, após a eliminação precoce da seleção espanhola na Eurocopa, seu ex-companheiro de clube Luis Aragonés assumiu o comando da Fúria. Ufarte era seu braço direito. Juntos, levaram a equipe ao segundo título continental de sua história em 2008. O primeiro havia sido conquistado em junho de 1964, semanas antes de Espanhol deixar o Fla.

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Em janeiro de 2008, Espanhol esteve no Brasil e aproveitou para visitar a Granja Comary, em Teresópolis, onde o Flamengo fazia pré-temporada. O ex-jogador contou histórias de seu período no clube, tirou fotos e foi presenteado com uma camisa rubro-negra personalizada.

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Um ano antes de ser contratado pelo Atlético de Madri, Espanhol já havia sido alvo do interesse do rival, o Real Madrid. Durante a excursão rubro-negra de 1963, dirigentes merengues chegaram a se encontrar com os cariocas para acertar a negociação, mas o clube blanco não pôde adquirir seu passe por um motivo insólito: como não defendeu nenhum clube de seu país nas categorias de base, o ponta era considerado estrangeiro segundo as próprias legislações da Federação Espanhola. Como o Real já contava com outros dois “gringos” – o ex-ídolo rubro-negro Evaristo de Macedo e o meia francês Lucien Muller – Ufarte acabou mesmo voltando ao Brasil com a delegação do Flamengo.

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