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O argentino Fillol consola o uruguaio Rodolfo Rodríguez, inconformado com o banho de bola do Flamengo sobre o Santos em pleno Morumbi.

Foi numa Sexta-Feira Santa. Como o habitual no outono (20 de abril) paulistano, era um dia nublado, com possibilidade de pancadas de chuva no fim da tarde. Mais ou menos na hora em que Santos e Flamengo entrariam em campo no Morumbi para decidir suas vidas naquela Taça Libertadores da América de 1984. Só que a garoa prometida não aconteceu. Em seu lugar, veio outra chuva. De gols rubro-negros.

Dali a cinco dias seria votada a Emenda Dante de Oliveira, que propunha a volta das eleições diretas para a Presidência da República, depois de 20 anos de regime militar. Naquela tarde nublada no Morumbi – que recebeu um bom público, com vantagem para os torcedores rubro-negros, senão em número, certamente em empolgação – uma faixa em verde e amarelo se destacava entre o mar de vermelho e preto na galera do Flamengo: pedia “Diretas Já!”.

Aquele seria o segundo de três confrontos (dois pelo Brasileiro, um pela Libertadores) com o alvinegro praiano no espaço de uma semana. No jogo de ida da primeira fase da competição continental, o Fla já havia aplicado um 4 a 1 no Maracanã. Além daquela sequência de jogos, a frequência anual com que as duas equipes se deparavam nos Campeonatos Brasileiros (os cariocas eliminaram o Peixe em 1980 e 1982, e levantaram o título em cima do mesmo time em 1983) servia para alimentar uma rivalidade, pelo menos pelos lados da Vila Belmiro. O Santos queria ganhar a todo custo.

Treinado desde setembro de 83 por Cláudio Garcia, o Flamengo não contava mais com Zico em suas fileiras. O Galinho já fazia chover em sua primeira temporada na Udinese italiana. Mas além de manter craques do quilate de Júnior, Leandro, Mozer, Andrade e Tita (além de Adílio e Nunes, que não estiveram em campo), o time da Gávea trouxera bons reforços desde a chegada do técnico: o centroavante Edmar (ex-Cruzeiro), mais jovem, leve, habilidoso e brigador, era uma boa opção ao João Danado; para as pontas, havia os dribladores Lúcio (ex-Guarani) e João Paulo (ex-Santos); e no gol, nada menos que o argentino Fillol, campeão do mundo com a seleção argentina em 1978, considerado ainda na época um dos maiores do planeta.

Ao som de um samba de Beth Carvalho rolando nos auto-falantes do Morumbi, e rodeado por crianças, o time rubro-negro entra em campo com a numeração fixa nas camisas, como mandava o regulamento do torneio, e posa para a foto oficial: Leandro, Figueiredo, Mozer, Andrade, Júnior e Fillol em pé. Bebeto, Bigu, Edmar, Tita e João Paulo agachados.

Há ainda uma novidade no Manto Sagrado em relação ao último duelo contra o Santos: o patrocínio da Lubrax não vem mais inserido num retângulo amarelo – de gosto duvidoso para alguns -, mas em letras brancas numa das listras pretas da camisa. Já o arqueiro rubro-negro veste um lindo uniforme todo azul, com um número um em algarismos romanos na frente e nas costas.

O Santos, em crise, joga nesta partida suas últimas fichas para seguir na competição continental, mas tem um elenco partido. Duas de suas maiores estrelas, o centroavante Serginho Chulapa e o meia Paulo Isidoro, estão afastadas por desentendimento com a diretoria. Além disso, não há técnico. O ex-meia do clube Chico Formiga fora demitido ao longo da semana, e o ex-atacante Del Vecchio assume interinamente o cargo tentando um milagre.

O jogo

O Flamengo dá a saida e logo sofre duas faltas em sequência. A tentativa de truncar o jogo é uma das propostas santistas para a partida. A outra é a manjadíssima tática de usar velocidade nas costas dos ofensivos laterais rubro-negros. E esta até que dá certo por um tempo: o time começa sufocando os visitantes, caindo pelas extremas aproveitando a rapidez do ponta Gersinho pela direita e do lateral Paulo Róbson pela esquerda. O resultado é que, aos sete minutos, o alvinegro praiano cria a primeira grande chance do jogo: Pita recebe de Gérson, dribla Figueiredo, entra na área, dá um corte seco em Mozer e tenta encobrir Fillol, mas o goleiro portenho defende com uma mão só.

Os santistas dão mais um exemplo de que o jogo não será pacifico aos nove minutos. Edmar sofre falta dura de Toninho Carlos na entrada da área. Após a marcação, o volante Dema chuta a bola contra Tita, que reclama, sem entender o gesto hostil gratuito.

O Flamengo responde em seu estilo. Aos 13, Figueiredo dá um drible curto em Ronaldo, passa a Leandro, que tabela com Bebeto e dá a Edmar na direta. O centroavante acha o baianinho na área. Este passa de calcanhar para Andrade, que enche o pé e obriga Rodolfo Rodríguez a dar rebote, o qual o próprio volante apanha e cruza da linha de fundo. O baixinho João Paulo sobe mais que a zaga e cabeceia para servir Bebeto, que enche o pé para abrir o marcador.

Incendiada, a massa rubro-negra dispara o canto: “um, dois, três, o Santos é freguês!”, enquanto o time da Vila responde em contragolpe puxado por Gersinho, que lança o centroavante Gérson em profundidade, mas Fillol – que jogava sentindo o joelho esquerdo desde o lance com Pita – defende com os pés. E a torcida passa a gritar o nome do goleiro.

Aos 21, João Paulo, que começara tímido na partida, começa a se soltar. Arranca pela ponta esquerda, infernizando seu marcador Davi – um zagueiro central improvisado na lateral – e sofre falta perto da linha de fundo. Júnior levanta na área, a defesa afasta e a bola sobra na direita com Leandro, que para, olha e cruza para Mozer, de “peixinho”, botar mais um nas redes do Peixe.

E lá vai o Flamengo de novo pela esquerda, desta vez com João Paulo lançando Tita. O camisa 10 rubro-negro avança no vazio e cruza para Edmar, que recebe, gira e fuzila com veneno, mas a bomba passa riscando o travessão.

Irritado com o placar e com o toque de bola do Flamengo, o Santos apela, e o clima esquenta aos 25: numa dividida, Andrade é solado por Pita. A jogada prossegue, e Bigu dá um “rapa” no santista. Jogo parado, o camisa 6 rubro-negro mostra o joelho, lembra o lance anterior e tenta tirar satisfações. A confusão se instaura. Uma encarada aqui, um dedo na cara ali, uma troca de acusações acolá, e até os goleiros entram no bolo. Depois, ânimos serenados por enquanto, o árbitro gaúcho Carlos Rosa Martins distribui cartões aleatoriamente a Dema e ao próprio Andrade, atingido no lance.

Ainda que não fosse preciso, o volante rubro-negro prova que está em campo apenas para jogar ao fazer um desarme limpo no circulo central, a cinco minutos do intervalo. Tita apanha a sobra e passa a Bebeto, que lança. Edmar aproveita o cochilo de Toninho Carlos, toma a bola, invade a área, dribla Rodolfo Rodríguez e parte para o abraço. 3 a 0. Atônito, o banco santista ensaia uma tímida reclamação de falta no lance, como se buscasse de qualquer maneira um consolo para a humilhação que começava a se desenhar. Enquanto isso, o Fla gira a bola, ensaia botar o alvinegro na roda, e ainda leva perigo nos contragolpes: aos 44, Bebeto outra vez recebe de Tita e lança Edmar, mas desta vez o camisa 9 perde o ângulo do chute e bate por cima do gol.

Nas arquibancadas, como se fossem as do Maracanã, a torcida rubro-negra canta “vamos a la playa, ô-ô-ô-ô” – refrão do sucesso da ocasião com o grupo Righiera -, logo adaptado para “o Santos é freguês, ô-ô-ô-ô”. E assim termina o primeiro tempo.

Ao som de outro hit de então – “Desculpe o Auê”, de Rita Lee – tocado pelos auto-falantes do Morumbi, as equipes voltam a campo para a etapa final. O Santos volta com uma alteração. O técnico interino Del Vecchio tira o centroavante Ronaldo – cria da Gávea – e põe o zagueiro Fernando. E aos dez minutos de jogo, mexe de novo: sai Gérson, outro centroavante, para a entrada do ponteiro Camargo

Desmantelado taticamente, o time tem agora em campo quatro zagueiros de área e um ataque formado por dois extremas, mas sem ninguém pelo meio. Já o Fla volta com os mesmos time e estilo: toques curtos e contragolpes rápidos para se aproveitar do desespero do rival sempre que possível.

E o destempero emocional dos paulistas não tarda a aparecer. Aos 12 minutos, Dema acerta um pontapé por trás em Tita. O árbitro não tem dúvidas: é cartão vermelho. Além do volante, o Santos perde o diretor de futebol Clodoaldo, expulso do banco por ter ordenado a agressão. Na confusão, Bebeto ainda leva um soco do zagueiro Fernando, para a revolta dos jogadores rubro-negros, e deixa o campo sangrando nos lábios, para dar lugar a Élder.

Com um a mais, o Flamengo encurrala o Santos na defesa. Aos 23, após triangulação com Andrade e Tita, Júnior chuta colocado e obriga Rodolfo a botar para escanteio. Do lado santista, as jogadas de perigo se resumem, como na primeira etapa, às escapadas do arisco Gersinho pela direita.

Trocando passes no campo de ataque, o Flamengo chega ao quarto gol aos 25. Tita inverte o jogo para Andrade na esquerda. Com o caminho livre, o volante carrega, passa por um marcador, tabela com Élder, entra na área e é calçado por trás por Márcio. Pênalti indiscutível. Quem bate é o jogador que deu origem ao lance: Tita, camisa 10 e capitão rubro-negro, que tenta se redimir da cobrança disperdiçada na partida anterior do time, contra o America, pelo Campeonato Brasileiro. A torcida grita seu nome. O chute vai forte, rasteiro, queimando grama. Rodolfo pula no canto certo, mas para uma bomba assim não há agilidade suficiente. Agora é goleada.

Depois da agressão a Bebeto, Fernando dá outra mostra do descontrole santista ao dar uma banda em Bigu no círculo central. Dois minutos depois, o Santos se perde definitivamente quando Toninho Carlos acerta um bico em Tita e também é expulso. Com dois jogadores a mais, quatro gols de vantagem no placar e contra um rival totalmente entregue, o Flamengo tratará de cozinhar o jogo até o fim, certo? Errado. Cláudio Garcia tira o volante Andrade e põe em campo o elétrico ponta-direita Lúcio.

O golpe derradeiro começa por aquele lado. Leandro desce e sofre falta perto da linha de fundo. João Paulo levanta na área em cobrança fechada, que obriga Márcio a cortar para escanteio. Lúcio vai para a cobrança pela esquerda, Júnior e Edmar fazem o corta-luz, atraindo as atenções da defesa santista, que deixa Tita livre para bater da marca do pênalti. 5 a 0. A torcida – agora só há rubro-negros no estádio – canta o hino do clube, o time toca a bola, à espera do apito final que encerra uma atuação irretocável, uma goleada impiedosa, um massacre histórico em vermelho e preto.

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Ficha do jogo:

SANTOS 0 x 5 FLAMENGO
Taça Libertadores da América – primeira fase
Data: 20 de abril de 1984 (sexta-feira).
Local: Morumbi (São Paulo)
Público: 24.545 pessoas.
Renda: Cr$ 41.066.100,00
Árbitro: Carlos Sérgio Rosa Martins (RS), auxiliado por José Roberto Wright (RJ) e Romualdo Arppi Filho (SP).
Gols: Bebeto aos 13 (0-1); Mozer aos 21 (0-2); Edmar aos 40 do 1º tempo (0-3); Tita, de pênalti, aos 26 (0-4) e aos 36 do 2º tempo (0-5).
Cartões amarelos: Ronaldo Marques e Dema (Santos); Andrade, Bigu e Edmar (Flamengo).
Expulsões: Dema aos 12 e Toninho Carlos aos 28 do 2º tempo (ambos do Santos).

Flamengo: 1. Fillol; 2. Leandro, 3. Figueiredo, 4. Mozer e 5. Júnior; 6. Andrade (7. Lúcio), 21. Bigu e 10. Tita; 19. Bebeto (23. Élder), 9. Edmar e 11. João Paulo. Técnico: Cláudio Garcia.

Santos: 1. Rodolfo Rodríguez; 14. Davi, 2. Márcio, 6. Toninho Carlos e 3. Paulo Róbson; 5. Dema, 11. Lino e 10. Pita; 7. Gersinho, 21. Gérson (19. Camargo) e 16. Ronaldo Marques (18. Fernando). Técnico: Del Vecchio (interino).

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