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Biguá, o primeiro da esquerda para a direita, e seus companheiros da linha média rubro-negra da década de 40, Bria e Jayme de Almeida.

Biguá, o primeiro da esquerda para a direita, e seus companheiros da linha média rubro-negra da década de 40, Bria e Jayme de Almeida.

As enciclopédias de aves registram uma espécie bastante comum encontrada na América Latina, vivendo às margens de grandes rios e encostas marítimas, de pele de tonalidade escura, bastante ligeira ao mergulhar nas águas em busca de peixes e que, quando da incubação, possui dois penachos na cabeça. A esses pássaros dão o nome de biguá.

Baixinho (1,62 metro, dizem os registros), rápido, de pele bem morena como um índio e ostentando um ligeiro topete para o alto, o garoto Moacir Cordeiro logo recebeu o nome do pássaro como apelido quando se profissionalizou como jogador de futebol no Savóia, clube curitibano fundado por italianos e com elenco composto majoritariamente por atletas de pele muito clara.

biguá - editadaNascido na cidade de Iraty, sul do Paraná, em 22 de março de 1921, Biguá começou a jogar nos juvenis do Atlético-PR, mas dentro de pouco tempo já estava no Savóia, clube que logo seria rebatizado Água Verde, depois Pinheiros e que, em 1989, se uniria ao Colorado para fundar o Paraná Clube.

Aos 20 anos, trazido para o futebol carioca por um militar da Aeronáutica, Biguá bateu primeiro à porta do America e foi prontamente rejeitado, pelo porte e pela altura. Para a sorte do Flamengo, veio aportar na Gávea, com sucesso quase instantâneo. Estreou no time de cima em 26 de outubro de 1941, no lugar do então titular Jocelyno, na vitória por 2 a 0 diante do Madureira no alçapão de Conselheiro Galvão. A boa atuação na partida, já na reta final do Campeonato Carioca daquele ano, indicava que Biguá (ou o índio, como o apelidou Ary Barroso) seria uma das grandes revelações da temporada seguinte.

sport illustrado 16-10-1941 - cortada

Os novos flamengos: Flávio Costa (ao centro) e seus novos “recrutas” da Gávea. Biguá está à esquerda do treinador. Jayme de Almeida é o primeiro do topo. (Esporte Ilustrado, outubro de 1941)

A “SENSAÇÃO” DE 42

E não deu outra: em março de 42, o Flamengo vai a São Paulo disputar o torneio Quinela de Ouro. Não conquista o título, mas volta invicto, com uma vitória e três empates. E Biguá assombra a crônica esportiva paulista. Além da extrema desenvoltura nos desarmes e bloqueios de cruzamentos dos pontas-esquerdas que enfrentava e da rapidez com que ganhava as jogadas e se mandava para o ataque (coisa rara para os laterais da época), o jogador chamava a atenção pela raça.

Não foram poucas as vezes em que se viu Biguá terminar uma partida com a camisa rubro-negra empapada de suor, de lama ou de sangue. Era de uma dedicação admirável nos jogos. Para ele, era como se a partida da vez, diante de qualquer adversário, fosse sua última. Biguá era todo valentia, todo coração. Com esses predicados, mais que rapidamente tornou-se ídolo absoluto da torcida do Flamengo. E respeitado pelos dos outros clubes.

Como registrou, em abril de 1942, a revista Esporte Ilustrado, uma das principais do Brasil à época, quando da estreia do Flamengo no Carioca daquele ano, em goleada de 6 a 0 sobre o Canto do Rio no estádio das Laranjeiras:

“O quadro social do Fluminense torceu para o Canto do Rio, mas bateu palmas para Biguá. E si os tricolores bateram palmas ao ‘bugrezinho’, calculem agora, vocês, o contentamento da torcida rubro-negra ao vê-lo correr como uma flecha, ajudando o Domingos, marcando Vadinho e ainda shootando ao arco com uma força tremenda. (…) E as expressões choviam de todos os lados: ‘O índio é infernal!’, ‘Que garoto atrevido!’, ‘E ainda falam em Jocelyno!’, ‘Sim, senhor, os cronistas de São Paulo disseram uma verdade!’… Antes que a pelota chegasse ao flanco direito do campo do Flamengo, já se gritava em côro: ‘Biguá! Biguá! Biguá!'”.

No mesmo estádio, seis meses mais tarde, o médio-direito (posição equivalente à atual lateral direita) entrava de vez para a história do Flamengo ao conquistar o título carioca após empate em 1 a 1 com o Fluminense. Com uma campanha memorável (20 vitórias – 15 delas em sequência na reta final -, cinco empates e apenas duas derrotas), o time rubro-negro treinado por Flávio Costa dava a partida para levantar o primeiro tri carioca de sua história.

Terminado o campeonato, Biguá voltou a São Paulo com o Flamengo para impressionar um pouco mais a crítica bandeirante: no duelo dos campeões estaduais de 42, o Flamengo bateu o Palmeiras em pleno Pacaembu por 2 a 1. Depois fez 4 a 2 no Corinthians e encerrou o giro com um empate em 3 a 3 diante do São Paulo.

biguá - esporte ilustrado 29-10-1942 - editada

Veio, viu e venceu: em seu primeiro ano completo no clube, a popularidade de Biguá junto à torcida já é absoluta, atesta a Esporte Ilustrado.

EM 43, O BICAMPEONATO

No ano seguinte veio o bicampeonato carioca. E a campanha rubro-negra foi ainda mais hegemônica: 11 vitórias, seis empates e apenas uma derrota, para o America, curiosamente na única partida em que Biguá não esteve em campo. Outro dado digno de nota daquele torneio foi a chegada do centromédio (ou volante, nos termos de hoje) paraguaio Modesto Bria, a cinco rodadas do fim da competição. Estava enfim formada a fabulosa linha média Biguá-Bria-Jayme de Almeida, histórica, das maiores do futebol brasileiro em todos os tempos.

O título de 43 veio com duas “lavadas”: na penúltima rodada foram os 6 a 2 diante de um fortíssimo Vasco, de Djalma, Isaías, Ademir, Lelé e Chico, embrião do time que viria a ser conhecido como “Expresso da Vitória”. Na última, quando precisava apenas do empate, o Flamengo aplicou um 5 a 0 no Bangu, para não deixar dúvidas de seu domínio no futebol carioca. Biguá jogou ambas as partidas.

Contra o vascaíno Chico, aliás, Biguá fez duelos históricos no futebol carioca, que eram acompanhados com entusiasmo até mesmo por torcedores de outros clubes. E eram sempre destaque nos jornais. “Hoje tem Chico x Biguá” era manchete recorrente em dia de Flamengo x Vasco. O ponteiro vascaíno rememorou: “Eu tinha um drible certo e muita arrancada. Era fácil meu marcador ficar caído no chão. Mas a recuperação de Biguá era tão fantástica que, quando via, ele estava de novo na minha frente. Parecia de elástico”.

O rico futebol paulista bem que tentou por fim ao duelo. No final de 1943, o zagueiro Domingos da Guia, que tinha acabado de sair bicampeão da Gávea rumo ao Corinthians, recomendou a contratação de Biguá pelo clube bandeirante. Alfredo Trindade, presidente corintiano, veio ao Rio e fez uma proposta fabulosa ao jogador: pagava o dobro do que o lateral ganhava no Flamengo, mais um apartamento em São Paulo. Biguá escutou, ponderou e lançou uma pergunta que valeu por uma resposta definitiva: “Mas e quando o Corinthians jogar contra o Flamengo? Como é que eu fico?”. Fim de papo.

Biguá ficou e foi tricampeão carioca, marcando inclusive seu primeiro gol em partidas oficiais de competição pelo clube, ao abrir o placar numa goleada de 4 a 1 sobre o Botafogo no primeiro turno. Mas o campeonato de 44 foi o mais difícil dos três. Os rivais – o Vasco, em especial – estavam mais fortes. E o Fla teve de enfrentar uma série de dificuldades, dentro e fora de campo. Perdeu jogadores antes e durante o torneio, suportou humilhações, quase não pôde jogar mais em seu estádio e ainda precisou escalar, na partida decisiva contra os cruzmaltinos na Gávea, jogadores sem a menor condição física de atuarem. Mas foi campeão na raça, bem ao estilo Biguá.

SELEÇÃO

Em reconhecimento às três grandes temporadas que fez com o Flamengo, Biguá chegou à Seleção Brasileira em 1945 e disputou o Campeonato Sul-Americano, atual Copa América, juntamente com uma constelação de craques do nosso futebol. Inclusive os rubro-negros. Na linha média, formava com seu companheiro de clube Jayme de Almeida e, na impossibilidade de convocação do paraguaio Bria, este era substituído pelo são-paulino Ruy ou pelo americano (e futuro vascaíno) Danilo Alvim.

Biguá, Danilo Alvim (do America e futuro Vasco) e Jayme, linha média da seleção carioca e brasileira em 1945.

Biguá, Danilo Alvim (do America e futuro Vasco) e Jayme, linha média da seleção carioca e brasileira em 1945.

O Brasil venceu todas as partidas menos uma, perdida por 3 a 1 para a Argentina, que ficou com o título. Mas Biguá teve atuação irrepreensível, anulando o lendário ponta-esquerda platino Félix Loustau, do River Plate, que diria, em entrevista de 1946: “(Biguá) Foi meu melhor marcador. Jogava duro sim, mas comigo sempre foi muito leal”.

Um grave problema ósseo em um dos calcanhares tirou o lateral rubro-negro do Campeonato Sul-Americano do ano seguinte e, segundo os médicos, poderia encerrar sua carreira. Mas seis meses depois, lá estava o miúdo gigante da lateral de volta aos gramados, com a eficiência e a valentia de sempre.

Nos próximos anos, não mais participaria jogando de nenhuma conquista pelo clube, mas estaria presente em algumas grandes partidas do Flamengo no período, como a vitória categórica sobre o Arsenal inglês em 1949, a excursão rubro-negra à Europa (Suécia, Dinamarca, França e Portugal) em 1951 e o triunfo que pôs fim aos seis anos de jejum de vitórias sobre o Vasco, no mesmo ano. Jogaria ainda na ponta-direita e depois como zagueiro também pelo lado direito, perto do fim da carreira.

O que nunca mudou foi a garra, a vontade com que defendia as cores rubro-negras e o que o tornava totalmente identificado com a torcida. “Ídolo foi o Biguá”, disse seu ex-companheiro Bria, em entrevista de 1988. Foram 388 partidas e sete gols pelo clube. Até o surgimento de outro lateral de alma incontestavelmente rubro-negra – Leandro, no final dos anos 70 -, o índio era considerado por unanimidade, e com inteira justiça, o maior da posição da história do Flamengo.

A DESPEDIDA

Sem as chuteiras, Biguá conclui a volta olímpica pelo gramado do Maracanã em sua despedida, em janeiro de 1954.

Sem as chuteiras, Biguá conclui a volta olímpica pelo gramado do Maracanã em sua despedida, em janeiro de 1954.

Em 20 de janeiro de 1954, o Flamengo adentrou o gramado do Maracanã para enfrentar o Botafogo, em jogo pela última rodada do terceiro turno do Campeonato Carioca de 1953. O título já estava garantido, mas mesmo assim o Rubro-Negro venceu por 1 a 0, gol do meia Rubens, o “Doutor Rúbis”.

Além da cerimônia da entrega das faixas, uma outra, mais sentida, emocionou o maior palco do futebol brasileiro: Biguá, 32 anos, subiu as escadas que levavam ao gramado com o time, chutou uma bola para a geral, deu uma volta olímpica sob aplausos calorosos, descalçou as chuteiras e as entregou a um garoto do time juvenil, um volante promissor chamado Carlinhos (que repetiria o gesto em 1970 com outro garoto dos juvenis, chamado Zico). Na hora de descer para os vestiários, encontrou o dirigente alvinegro Carlito Rocha, que o abraçou e comentou: “Pena que no futebol haja poucos iguais a você”.

De fato. Biguá – que faleceu em 9 de janeiro de 1989, aos 67 anos – era de um tempo que não volta mais.

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