Tags

, , , , , , , ,

flamengo copinha 1990 II

O time da final contra o Juventus no Pacaembu – Em pé: Fábio Augusto, Piá, Edmílson, Júnior Baiano, Tita e Adriano. Agachados: Mário Carlos, Luís Antônio, Djalminha, Fabinho e Nélio.

Era janeiro de 1990 e o Flamengo vivia seu primeiro começo de temporada depois da despedida de Zico do clube. Desorientado, em crise de identidade – apesar de contar com grandes jogadores no elenco, como Junior, Leandro (em seus últimos meses de carreira), Renato Gaúcho, Zinho e Leonardo -, o clube tentou procurar substitutos para o Galinho em Carlos Alberto Dias (que iria para o Botafogo após negociação turbulenta), no gremista Cuca e no corintiano Neto. Mas acabou trazendo mesmo para vestir a 10 o meia Edu Marangon, ex-promessa da Portuguesa, ex-Seleção Brasileira, contratado junto ao Torino da Itália, mas que ainda não havia se firmado como grande jogador. O momento do time de cima não parecia muito animador.

Mas nos juniores as apostas pareciam boas. O time, treinado por Ernesto Paulo e sob os cuidados do diretor de futebol amador Paulo Orro, terminara o ano de 1989 com dois títulos importantes: campeão carioca e do torneio Fernando Horta, passando por cima dos adversários sem cerimônias. Agora ambicionava enfim conquistar a Copa São Paulo, competição considerada o Campeonato Brasileiro da categoria.

O TORNEIO

O regulamento da primeira fase era repleto de peculiaridades: vitória normal valia dois pontos, como de praxe na época. Mas se o time vencedor marcasse três ou mais gols, ganharia três pontos. Empate só valia um ponto pra cada equipe se fosse com gols. Se terminasse em zero a zero, haveria disputa de pênaltis, e apenas o vencedor somaria um ponto. O perdedor ficaria sem nada, assim como os derrotados por qualquer placar no tempo normal.

Nesta fase, o Flamengo ficou no Grupo C, sediado em Santos, ao lado do Criciúma e de quatro clubes paulistas: Botafogo de Ribeirão Preto, Nacional da capital, Central Brasileira de Cotia e o próprio Santos. A estreia foi num sábado, dia 6 de janeiro, na Vila Belmiro, diante do Botafogo-SP. O time rubro-negro entrou em campo escalado com Adriano; Mário Carlos, Tita, Júnior Baiano e Piá (Selé); Fabinho, Marquinhos, Marcelinho e Djalminha; Paulo Nunes e Nélio.

Depois de sair atrás no marcador logo aos 15 minutos de jogo quando o zagueiro Lúcio abriu o placar de cabeça para o adversário após cobrança de escanteio, o Flamengo chegou ao empate aos 36 minutos ainda da etapa inicial e também em jogada pelo alto: Fabinho aproveitou cruzamento da esquerda e testou para garantir o primeiro ponto. Mas para a Folha de São Paulo, o grande destaque da partida foi outro meia rubro-negro:

“O personagem do jogo foi o meia-direita Marcelinho, do Flamengo. Ele tem 18 anos, ganha NCz$ 1.900,00 e seu pai é motorista da Empresa Municipal de Lixo, no Rio de Janeiro. O jogador já substituiu Zico algumas vezes no time profissional. Ele mede 1,69m, pesa 62 quilos e tem o estilo de jogo de Adílio, ex-jogador do Flamengo. Marcelinho passa pelo mesmo projeto que Zico passou para ganhar maior força muscular. Ele já engordou 11 quilos em dois anos de Flamengo”.

Para o jogo seguinte, dois dias depois, contra o Nacional, o Flamengo teria seus dois primeiros desfalques no campeonato: expulsos contra o Botafogo, Júnior Baiano e Djalminha foram substituídos por Edmílson na zaga e Luís Antônio no meio-campo, respectivamente.

Na partida disputada no estádio do Clube Atlético Portuários, o Fla dominou amplamente o primeiro tempo, mas só marcou uma vez, com Nélio, aos 32 minutos. No segundo, porém, teve que se segurar para garantir o resultado após duas novas expulsões: a do meia Marquinhos e do técnico Ernesto Paulo.

No dia 10, novamente no estádio do Portuários, o Flamengo voltou a campo para encarar o Central Brasileira, de Cotia, que havia surpreendido ao derrotar o Santos na estreia. Desta vez, porém, não houve espaço para zebra: deu Fla 2 a 0, gols de Paulo Nunes, que viveu de fato um dia especial. Além de dar a vitória ao Rubro-Negro, o atacante recebeu o anúncio de sua convocação pelo técnico Homero Cavalheiro para integrar a Seleção Brasileira de juniores que disputaria a Copa Atlântica, em Las Palmas, na Espanha. Além dele, o zagueiro Rogério e os meias Marquinhos e Marcelinho também foram chamados.

Notícia boa para os meninos e nem tanto para o Flamengo. Caso a equipe se classificasse – o que era bem provável – os quatro jogadores seriam desfalque certo nas fases seguintes, já que teriam que se apresentar à Seleção dali a alguns dias.

flamengo copinha 1990

Outra formação do Flamengo durante o torneio. Em pé: Mário Carlos, Rodrigo Dias, Edmílson, Júnior Baiano, Piá e Adriano. Agachados: Nélio, Willians, Luís Antônio, Djalminha e Fabinho.

Sem muito tempo para lamentar, o Flamengo voltou à Vila Belmiro no dia 12 para enfrentar o Criciúma. E logo aos 12 minutos, Djalminha abriu o marcador. Quatro minutos antes do intervalo, porém, Júnior Baiano cochilou e permitiu que o atacante Everaldo entrasse sozinho na área para empatar. Na etapa final, o Fla cansou de desperdiçar chances de gol, até que Paulo Nunes, aos 37 minutos, deu novamente a vitória – e a classificação – ao time.

Com a vaga assegurada, o Flamengo voltou a pisar o gramado da Vila Belmiro, agora diante do dono da casa, o Santos. Mas engana-se quem imaginou um jogo tranquilo. Tentando empurrar seu time, que jogava suas últimas chances de classificação, a torcida santista atirou pedras nos jogadores rubro-negros, o que paralisou a partida por 13 minutos. O lateral Mário Carlos revidou a agressão e acabou expulso. Além dele, Nélio pelo lado do Flamengo e Júlio César e França pelo lado santista também receberam cartão vermelho.

E até houve futebol, com o Flamengo jogando muito bem, mas sem sorte nas finalizações. Mas faltaram os gols. Aí, de acordo com o regulamento, o ponto seria decidido nos pênaltis. o Fla venceu por 5 a 4. O clube deixou a primeira colocação (e a vantagem de pular uma fase no mata-mata da competição) escapar para as mãos do Botafogo-SP, mas pôde comemorar o sucesso em seu pedido de protelamento da apresentação de seus convocados.

DEPOIS DA PRIMEIRA FASE

Na primeira fase eliminatória, o rival foi a Tuna Luso, do Pará, em jogo disputado no Canindé no dia 16 de janeiro. Vitória fácil por 3 a 1, com gols de Piá, Marcelinho e Djalminha. Luciano, de pênalti, descontou para os paraenses. O próximo adversário seria a dona da casa, a Portuguesa, nada menos que o time de melhor campanha e melhor ataque da fase de grupos.

Comandado pelo talentosíssimo Dener, o ataque da Lusa logo mostraria sua força, abrindo o placar com o centroavante Sinval aos 34 minutos do primeiro tempo. Mas a cinco minutos do fim da partida, o igualmente talentoso ataque rubro-negro conseguiu um empate heroico através de Marcelinho. A decisão foi para a disputa de pênaltis, e foi a vez do goleiro Adriano (titular da base depois do empréstimo de Milagres no ano anterior) brilhar: defendeu três cobranças da Portuguesa, garantindo a vitória do Flamengo – que sequer precisou bater seu último pênalti – por 3 a 2.

A fase seguinte seria disputada de maneira diferente: os seis classificados foram divididos em dois triangulares (Grupos Verde e Amarelo), com os dois primeiros colocados avançando às semifinais. O grupo do Flamengo, o Amarelo, tinha dois adversários paulistas: o Corinthians e o Juventus da Moóca, de grande tradição nas categorias de base.

E foi contra o Juventus, em seu estádio da Rua Javari, o primeiro duelo. Além de não contar mais com os convocados para a Seleção de juniores, o Flamengo também não teve o zagueiro Tita, cumprindo suspensão após ter sido expulso contra a Portuguesa.

Mesmo com campo pesado, o Flamengo começou melhor e abriu o placar com Nélio, logo aos oito minutos. Aos 39, o Juventus teve a chance do empate quando Piá derrubou Anderson na área e o árbitro apontou pênalti. Mas Adriano voltou a brilhar e defendeu a cobrança forte e rasteira de Ricardo. Um minuto depois, porém, não foi possível evitar o empate do time paulistano, com gol de Índio II. Nem a virada, logo no começo do segundo tempo, com gol de Rogério.

Depois da primeira derrota na competição, o Flamengo precisaria derrotar o Corinthians (que também perdera para o Juventus por 2 a 0) para avançar às semifinais. O duelo entre os garotos dos times mais populares de Rio e São Paulo, marcado para 25 de janeiro, dia do aniversário da capital paulista, no estádio do Pacaembu, entraria para a história da competição.

Sem Marcelinho, Marquinhos e Paulo Nunes, destaques nas fases anteriores, o meia Djalminha chamou para si a responsabilidade de decidir. E que partida o menino fez… Primeiro lançou Nélio para abrir o placar aos 15 minutos. Aos 29, bateu falta do meio da rua e o goleiro Márcio aceitou. E a três minutos do fim da primeira etapa, converteu pênalti sofrido por Fabinho para marcar o terceiro. Tudo isso só no primeiro tempo.

Veio a segunda etapa e o massacre vermelho-e-preto continuou. Logo aos cinco minutos, Djalminha bateu falta da direita e Piá desviou de cabeça. Aos dez, Wladimir descontou para o Corinthians. Mas a máquina do Fla não parou. Djalminha marcou mais TRÊS vezes: cobrando pênalti sofrido por Nélio aos 17; cabeceando quase sem ângulo uma bola cruzada da direita aos 34; e, por fim, fechando o placar com um golaço espetacular de cobertura quase do meio-campo. Uma humilhação inesquecível.

Perderam a conta? Pois foi SETE A UM para o Rubro-Negro, com cinco gols de Djalminha, que se isolou na artilharia da competição. Só para registrar, o Flamengo – que entrou com três zagueiros para explorar os contragolpes – jogou com Adriano; Mário Carlos, Edmílson, Tita, Júnior Baiano e Piá (Selé); Rodrigo Dias (Fábio Augusto), Fabinho e Djalminha; Nélio e Luis Antônio.

 

Quatro dias depois veio a semifinal diante do Internacional, primeiro colocado no Grupo Verde, à frente de São Paulo e Santo André. O jogo foi disputado em Suzano, no ABC Paulista, e o Flamengo, embalado, não tomou conhecimento dos gaúchos: jogando em contra-ataques rápidos, abriu o placar no primeiro tempo com Luis Antônio, aos 20 minutos, e depois definiu a vitória na segunda etapa, em duas cobranças de falta de Djalminha: na primeira, Fabinho escorou de cabeça aos 15; na segunda, o chute foi direto, de longe, aos 36.

E quem seria o adversário da grande final do dia 31 de janeiro no Pacaembu? De novo o Juventus, que derrotara o São Paulo por 2 a 1 na outra semifinal. Oportunidade de ouro para uma saborosa revanche, concretizada quando Djalminha serviu Júnior Baiano com um passe magnífico. O zagueirão se aventurou no ataque como um autêntico centroavante e encobriu o goleiro Alê com um lindo toque de fora da área para marcar o único gol do jogo, logo aos 28 minutos. A festa foi grande, com volta olímpica, choro, pagamento de promessa e o capitão Djalminha levantando merecidamente o troféu.

 

A partir dali, entretanto, começava uma nova história. Ernesto Paulo se despediu do comando do time para trabalhar em outros lugares. E a grande safra da base teria que mostrar seu valor no time profissional. Num primeiro momento, a diretoria preferiu contratar jogadores medianos para algumas posições mais problemáticas a lançar os garotos. E dentro do próprio grupo, uns aproveitaram melhor as oportunidades que tiveram do que outros.

Copa_São_Paulo_1990_2Ainda em 1990, Rogério, Marquinhos, Marcelinho, NélioPiá e Djalminha participaram da campanha vitoriosa na Copa do Brasil (os dois últimos como titulares). No ano seguinte, Paulo Nunes se juntou a estes na disputa do Campeonato Brasileiro e da Libertadores e, no segundo semestre, Fabinho e Júnior Baiano entraram no time nas campanhas dos títulos da Copa Rio e do Campeonato Carioca e do Campeonato Brasileiro em 1992.

Além destes, o goleiro Adriano, o meia-atacante Luís Antônio e o volante Fábio Augusto integraram o elenco de cima por alguns anos, tidos como boas promessas, mas sem conseguirem grande sequência como titulares. O último, depois de rodar por vários clubes, acabou retornando ao Flamengo em 2001.

Por outro lado, o lateral-direito Mário Carlos disputou o segundo turno (Taça Rio) do Carioca naquele 1990, sem conseguir se firmar, e acabou sumindo. E jogadores como os zagueiros Edmílson e Tita, o lateral-esquerdo Selé, o volante Rodrigo Dias e o atacante Willians disputaram apenas uns poucos amistosos e uma ou outra partida oficial, em alguns casos.

O elenco campeão da Copinha costuma ser tratado como “geração perdida”, pelo fato de praticamente todos os seus principais jogadores terem sido negociados a preço de banana (e talvez precocemente) com outros clubes brasileiros, nos quais se afirmariam definitivamente no futebol brasileiro. Há também a inescapável comparação com os jogadores formados na base ao longo dos anos 70 e que viriam a compor a mais vitoriosa geração da história do clube, campeã continental e mundial em 1981.

No entanto, há de se lembrar que muitos desses campeões em 90 foram peças importantes nos títulos rubro-negros que viriam imediatamente a seguir. Foram titulares em dois títulos nacionais (Copa do Brasil 1990 e Brasileiro 1992). E marcaram não só a primeira conquista do Flamengo na Copa São Paulo como a própria história da competição.

Anúncios