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Adalberto, melhor em campo na goleada rubro-negra de 1985, dribla Luís Carlos para marcar mais um.

Adalberto, melhor em campo na goleada rubro-negra de 1985, dribla o goleiro Luís Carlos para marcar mais um para o Flamengo.

O número seis é bastante simbólico no clássico Flamengo x Botafogo. Representa grandes goleadas do confronto – não necessariamente as maiores, mas sem dúvida as mais marcantes. Para o clube rubro-negro, representa revanche, afirmação, superação. Nesta terça-feira, há 30 anos, o Flamengo aplicava pela última vez no Botafogo uma goleada de seis. O Flamengo Alternativo relembra agora todas as cinco oportunidades em que o Mengão sapecou meia dúzia contra o time da Estrela Solitária, através dos tempos. Há histórias muito conhecidas, partidas inesquecíveis, mas também outras menos lembradas que devem sim ser resgatadas. Porque ganhar de goleada é sempre bom. E golear um rival é melhor ainda.

BOTAFOGO 2 x 6 FLAMENGO (General Severiano, 8 de junho de 1919)

A primeira goleada de seis do Flamengo sobre o Botafogo foi sucedida por uma batalha no tapetão que provavelmente é o primeiro episódio de “chororô” alvinegro na história do clássico. Tudo começou quando o Flamengo contratou o meia-direita Candiota do futebol gaúcho. Naquele ano de 1919, havia entrado em vigor a chamada “Lei do Passe”, instituída pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que impunha a jogadores que se transferiam um período de “quarentena” de 30 dias após a homologação de sua inscrição pelo novo clube.

No dia 8 de maio, exatamente um mês antes do início do Campeonato Carioca, o Flamengo entrou com o pedido de inscrição de Candiota na CBD e na Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), a federação carioca de futebol da época. Pedido este que, pelo procedimento habitual, deveria ser aprovado no mesmo dia. Só que, atarefadas com a organização do Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), que se realizaria no Rio naquele ano, ambas as entidades deixaram o pedido do Flamengo esperando em alguma gaveta e por lá ele permaneceu algumas semanas.

Até que o clube bateu às respectivas portas reclamando do desleixo das entidades pela não regularização do jogador no prazo e exigindo um documento assinado pelos presidentes da CBD, Arnaldo Guinle, e da LMDT, Osvaldo Gomes, reconhecendo que o pedido havia sido feito em 8 de maio e que, portanto, a “quarentena” seria contada a partir daquela data. Com isso, o jogador estaria liberado para atuar na rodada de abertura do Carioca. Foi desse documento que o Flamengo se valeu para, em 8 de junho, escalar Candiota na partida contra o Botafogo em General Severiano.

Mesmo com Candiota em campo, porém, o Botafogo era considerado franco favorito, porque jogava em casa e com o time completo, enquanto o Flamengo havia acabado de perder sua histórica dupla de zaga titular Píndaro e Nery, que defendia o clube desde a fundação de seu departamento de futebol em 1912, e não poderia contar com o ponta-direita Carregal e a ala esquerda do ataque, formada pelo meia Mesquita e o ponta Junqueira.

Time rubro-negro posa para a fotografia no estádio de General Severiano antes de golear o Botafogo.

Time rubro-negro de 1919 posa para a fotografia no estádio de General Severiano antes de golear o Botafogo. (Foto: revista Careta)

Mas em campo só deu Flamengo. Depois de controlar a pressão botafoguense no início, o Rubro-Negro teve um gol, de Dias, anulado por toque de mão, depois marcou com Galvão. O Alvinegro empatou com Menezes, mas o Fla marcou de novo, pouco antes do fim do primeiro tempo com Carneiro. A etapa final foi um verdadeiro massacre, e o Flamengo não teve problemas para definir o placar em 6 a 2, com gols de Carneiro, Galvão, Candiota e Dias, descontando novamente Menezes pelo Botafogo.

No dia seguinte à goleada sofrida, surpreendentemente, o Botafogo entrou com recurso no Conselho da Liga, pleiteando a anulação da partida, alegando irregularidade na escalação de Candiota pelo Flamengo. E, surpresa maior ainda, o Conselho, em sessão realizada no dia 12, acatou o pedido por seis votos a três. Um escárnio.

Munido do documento assinado pela CBD e pela LMDT que resguardava a escalação do meia gaúcho, o Flamengo recorreu ao Conselho Superior, que marcou sessão extra para a noite de 20 de junho para votar definitivamente a questão. E decidiu, por sete votos a um, que o Flamengo tinha razão, devolvendo ao clube os pontos da goleada conquistada em campo. E o Botafogo ficaria cinco anos sem derrotar o Rubro-Negro pelo Carioca.

FLAMENGO: Lapport; Telefone e Sisson; Japonês, Gallo e Dino; Geraldo, Dias, Carneiro, Candiota e Galvão.
BOTAFOGO: Abreu; Monti e Osny; Police, Carlito e Candiota; Celso, Petiot, Vadinho, Menezes e Joppert.

FLAMENGO 6 x 3 BOTAFOGO (Maracanã, 10 de janeiro de 1953)

Flamengo e Botafogo tinham poucas aspirações naquelas últimas rodadas do Campeonato Carioca de 1952, que já adentrava o ano de 1953. O Fla, desanimado após derrota azarada para o America, só poderia tentar, no máximo, o vice-campeonato. O Botafogo vinha embalado, ensaiando uma recuperação, mas também não sonhava mais com o título.

Flávio Costa tinha deixado o comando do time rubro-negro, que seria dirigido interinamente por Jayme de Almeida. As notícias do dia davam conta de que o presidente Gilberto Cardoso havia feito contato com o uruguaio Ondino Vieira para treinar a equipe, já que o preferido Fleitas Solich se recusava terminantemente a negociar se o Flamengo não enviasse um emissário para tratar pessoalmente de sua contratação a Assunção.

Para o clássico daquele sábado à tarde, Rubens estava de volta, mas havia os desfalques de Benítez, lesionado, e Esquerdinha, licenciado desde que se casou no fim do ano anterior. E ainda havia problemas sérios na defesa, com vários jogadores lesionados e Pavão suspenso. No lugar de Esquerdinha, entraria um jovem ponta dos aspirantes chamado Zagalo.

Mesmo caído, Índio chuta para marcar o quarto do Flamengo (Foto: Esporte Ilustrado)

Mesmo caído, Índio chuta para marcar o quarto (Foto: Esporte Ilustrado)

O Botafogo abriu o placar logo aos quatro minutos, com Zezinho. Mas nos vinte minutos seguintes o Fla marcou quatro vezes: Índio cobrando falta; Adãozinho escorando de cabeça um cruzamento de Zagalo; Índio de novo, chutando mesmo caído; e novamente Índio, após passe de Adãozinho. Geraldo descontou para o alvinegro perto do fim da primeira etapa.

No segundo tempo, o lateral-esquerdo rubro-negro Beto sofreu distensão em um músculo de uma das coxas e passou a fazer número no ataque (substituições não eram permitidas), enquanto Índio era recuado do ataque para sua posição. Mesmo lesionado, Beto marcou o quinto gol do Flamengo, escorando de primeira uma cobrança de falta de Joel. Depois, Rubens cobrou pênalti sofrido por ele mesmo e fez o sexto. A dois minutos do fim, Paraguaio descontou de novo para o Botafogo. Foi uma boa mostra do poderio do elenco rubro-negro que, meses mais tarde, finalmente comandado por Fleitas Solich, iniciaria seu domínio no futebol carioca.

FLAMENGO: Garcia; Leone e Cido; Jadir, Dequinha e Beto; Joel, Rubens, Adãozinho, Índio e Zagalo. Técnico: Jayme de Almeida.
BOTAFOGO: Oswaldo; Gerson e Floriano; Araty, Ruarinho e Juvenal; Paraguaio, Geraldo, Bravo, Zezinho e Braguinha. Técnico: Martim Silveira.

FLAMENGO 6 x 2 BOTAFOGO (Maracanã, 25 de outubro de 1959)

Garrincha, Nilton Santos, Amarildo, Quarentinha, Paulinho Valentim, João Saldanha. Todos eles nomes históricos do Botafogo e do futebol brasileiro. Verdadeiras bandeiras do clube alvinegro. Símbolos de uma época dourada do clube da Estrela Solitária. Todos eles estavam em campo (ou no banco, no caso de Saldanha) naquele 25 de outubro de 1959, na partida contra o Flamengo, pela terceira rodada do returno do Campeonato Carioca.

O Botafogo era líder do torneio, ao lado do Fluminense, com quem brigava cabeça a cabeça desde o início. E apostava suas fichas especialmente em Quarentinha, artilheiro disparado do Carioca, com 18 gols. Já o Flamengo não fazia uma boa temporada, vinha bem atrás na tabela e não vencera nenhum clássico naquele Carioca. No primeiro turno, inclusive, perdera para o rival por 2 a 1, com um gol discutido, em que a bola não entrou.

Mas aquele dia 25 de outubro começou favorável aos rubro-negros, que logo pela manhã venceram o Botafogo por 2 a 0 pelo campeonato de juvenis, na Gávea, gols de Norival e Germano. À tarde, na preliminar do jogo entre os times “de cima” no Maracanã, nova vitória do Flamengo pela categoria aspirantes (quebrando invencibilidade alvinegra de 54 jogos), por 1 a 0, gol de Adalberto. Com esses resultados, o Botafogo era destronado da liderança de ambos os torneios.

Nilton Santos corre, mas não consegue evitar o gol de Luís Carlos (à direita) no massacre rubro-negro em 1959.

Nilton Santos corre, mas não consegue evitar o gol de Luís Carlos (à direita) no massacre rubro-negro em 1959.

Faltava a categoria principal. E o jogo começou equilibrado, com o Botafogo abrindo o placar aos seis minutos, gol de falta de Quarentinha. Um minuto depois, o empate do Fla: Joubert cobrou falta rolando para Moacir, e este entregou para Henrique bater rasteiro. Aos 25, veio a virada rubro-negra com gol de Babá, aproveitando cruzamento da direita de Luís Carlos.

Na etapa final, o Fla deslanchou. Logo aos sete minutos, Luís Carlos recebeu lançamento de Moacir na ponta direita e cruzou para trás. Henrique, aproveitou falha da defesa alvinegra, que parou no lance, para tocar sem ser importunado. A partir daí, o Botafogo se lançou inteiramente ao ataque, ficando apenas Nilton Santos na defesa. E o Flamengo, nos contragolpes, disparou a goleada.

Amparado pelo dirigente alvinegro Otávio Pinto Guimarães (futuro presidente da Federação Carioca e da CBF), Quarentinha deixa o campo após ser expulso.

Amparado pelo dirigente alvinegro Otávio Pinto Guimarães (futuro presidente da Federação Carioca e da CBF), Quarentinha deixa o campo após ser expulso.

Aos 24, Moacir cobrou falta passando a Babá. O ponta chutou de canhota, o goleiro alvinegro Ernani pulou para o canto esquerdo, mas a bola fez a curva e entrou no outro lado. O Botafogo continuou indo todo a frente e deixando todo o espaço para Dida e Luís Carlos tabelarem, até o camisa 10 rubro-negro tocar de calcanhar para o ponta bater rasteiro e vencer Ernani de novo, aos 31. O sexto e último gol rubro-negro veio aos 37 com Dida, após receber de Henrique e entrar livre na área para tocar na saída de Ernani, que caiu sentado.

Com o 6×1 no placar, ainda houve tempo para o árbitro expulsar Joubert (bateu boca com o juiz enquanto bebia água) e Quarentinha (por um pontapé sem bola em Luís Carlos, depois de ser driblado duas vezes de maneira humilhante pelo ponta rubro-negro), e para Paulinho Valentim descontar no último minuto, deixando as coisas um pouco menos feias para o Botafogo. Um pouco menos, mas não muito. Com Garrincha dominado por Jordan, e Nilton Santos sem ter como impedir a avalanche de gols, o Flamengo deu olé, lavou a alma e destronou o Alvinegro pela terceira vez no mesmo dia.

FLAMENGO: Mauro; Joubert, Santana, Jadir e Jordan; Carlinhos e Moacir; Luís Carlos, Henrique, Dida e Babá. Técnico: Jayme de Almeida.
BOTAFOGO: Ernani; Cacá, Florindo, Ronald e Nilton Santos; Pampolini e Tião Macalé; Garrincha, Paulinho Valentim, Quarentinha e Amarildo. Técnico: João Saldanha.

FLAMENGO 6 x 0 BOTAFOGO (Maracanã, 8 de novembro de 1981)

Aconteceu que em 1972 o Botafogo resolve entrar na brincadeira e vencer o Flamengo (desfalcado, é bom dizer, da fundamental dupla gringa Reyes e Doval) por 6×0, em partida pelo Campeonato Brasileiro no Maracanã. Foi a senha para que o Alvinegro, já vivendo seus primeiros anos de decadência após dominar o futebol carioca nos anos 60, tivesse algo ao que se apegar diante do crescimento iminente do Flamengo, ancorado numa geração vitoriosa que subiria ao time profissional nos próximos anos. Presente no Maracanã, onde disputou a preliminar dos juvenis pelo Fla, o atacante Tita se indagava: “Será que um dia eu vou ter a chance de descontar isso?”.

Durante quase nove anos, o seis alvinegro foi uma faixinha surrada, que torcedores da Estrela Solitária dependuravam no Maracanã para lembrar que, apesar de todas as vitórias e títulos empilhados pelos rubro-negros, aquele feito ainda não tinha sido equiparado. Era um fantasma. Chegou a provocar a ira da torcida do Flamengo nas duas vezes em que o time chegou perto de devolver o placar, em 1975 (4×0) e 1979 (3×0 em vinte minutos, e até o fim), e não o fez.

No começo de novembro de 1981, o Flamengo se dividia entre a disputa do terceiro turno do longo Campeonato Estadual e as fases finais da Taça Libertadores. Tinha grandes chances de conquistar ambos os títulos, o que acabou se confirmando. Mas ainda não tinha vencido o rival naquele ano. O goleiro botafoguense Paulo Sérgio, promovido a titular da meta alvinegra em meados do ano anterior, inclusive se gabava na imprensa de nunca ter perdido o clássico para Zico, em seis jogos.

Zico, Mozer, Lico, Adílio, Figueiredo e Nunes comemoram a vingança rubro-negra.

Zico, Mozer, Lico, Adílio, Figueiredo e Nunes comemoram a vingança rubro-negra.

Seis. O número estava no ar, como é que ninguém percebia? Em seu palpite da Loteria Esportiva, a revista Placar duvidava: “Embora o Flamengo, pela sua excelente campanha, seja considerado favorito, a verdade é que a rivalidade será a tônica do jogo e qualquer resultado, que não uma goleada, é possível”. O Botafogo também duvidava, mesmo precisando mais desesperadamente da vitória do que o Flamengo. E mesmo depois de afastar dois de seus jogadores por uma festinha envolvendo uma camareira do hotel da concentração, na véspera da partida. Mesmo cambaleante, o Alvinegro não perdia a pose.

Aos que duvidavam, o Flamengo começou a dar prova da superioridade incontestável de seu time logo aos seis (olha ele aí…) minutos, quando Adílio cruzou de primeira da direita e Nunes emendou. 1×0. O gol logo no início empolgou a torcida, que já partiu para o grito frequente: “Queremos seis!”. E o Flamengo esmagou um atordoado Botafogo. Zico marcou o segundo aos 27, após rebote de um chute dele mesmo. Cinco minutos depois foi a vez de Lico, recém-instituído como titular, marcar o terceiro após bonita troca de passes. O Botafogo colocava todo mundo em sua área e mesmo assim o Flamengo entrava com tranquilidade. E ainda antes do fim da primeira etapa, aos 40, Adílio, de cabeça, fez o quarto gol.

Enlouquecida, a torcida rubro-negra só tinha a revanche na cabeça. E os alvinegros já deixavam o Maracanã. Mas o segundo tempo foi um sofrimento, já que o placar não se movimentou até os trinta minutos. Muita gente já não acreditava mais no troco naquele dia. Aí Adílio desceu pela ponta-esquerda e Rocha tentou pará-lo num carrinho desembestado dentro da área. Pênalti convertido por Zico. Só faltava um, que quase veio com Zico, lançado pela direita, num chute forte que passou por Paulo Sérgio e foi para fora. Mas aí vem um parêntese.

No intervalo, o Botafogo fizera entrar em campo o veterano Jairzinho – 36 anos e três gols no jogo de 1972, um deles de letra -, que cumpria atuação discreta até os 37 minutos do segundo tempo. Até receber uma bola de Perivaldo, girar sobre Figueiredo e bater cruzado, rasteiro, a milímetros da trave de Raul. A milímetros de estragar a festa.

Mas se havia Perivaldo de um lado, havia Adílio do outro. Se havia Jairzinho de um lado, havia Andrade do outro. Aos 42 minutos (quanto é quatro mais dois?), o camisa 6 recebe de Zico e, como um pivô, aciona o Neguinho da Cruzada, que entrega a Lico. De Lico a bola volta a Andrade. Que passa de novo a Adílio. Que alça na área, procurando Zico. A zaga corta, e a bola volta a Andrade, o homem da gênese da jogada, que mete um balaço estufando de modo inapelável a rede de Paulo Sérgio. O Flamengo tira o seis da garganta. E a tal faixinha do Maracanã, para nunca mais.

FLAMENGO: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo César Carpegiani.

BOTAFOGO: Paulo Sérgio; Perivaldo, Gaúcho, Osvaldo e Jorge Luís; Rocha, Mendonça e Ademir Lobo; Edson (Jairzinho), Mirandinha e Ziza. Técnico: Paulinho de Almeida.

FLAMENGO 6 x 1 BOTAFOGO (Maracanã, 24 de março de 1985)

Adalberto, o melhor em campo na goleada rubro-negra de 1985, disputa a bola com Josimar.

Adalberto, o melhor em campo na goleada rubro-negra de 1985, disputa a bola com Josimar.

Esta história na verdade começa dois dias antes, na sexta-feira, 22 de março. O Globo Esporte leva ao ar uma matéria com Russão, o folclórico chefe de torcida botafoguense, e um caminhão de rolos de papel higiênico. Perguntado sobre a utilidade daquela pilha que levaria ao Maracanã para o clássico entre Flamengo e Botafogo pelo returno do Campeonato Brasileiro, ele retruca: “O negócio é seguinte. O pessoal do Flamengo, quando encontra com o Botafogo, se borra todo, né, mermão?”.

Depois de passar algumas décadas em vantagem no confronto direto contra o Flamengo, o Botafogo viu sua margem diminuir até à igualdade, com o triunfo do Fla no jogo da Taça Rio de 84. Mas no primeiro turno daquele Brasileirão de 1985, voltou a passar na frente, com uma vitória de virada, nos minutos finais, por 2×1. Agora, pelas contas alvinegras, são 71 vitórias deles contra 70 do Flamengo. E eles fazem questão de se referir ao Rubro-Negro como “freguês”.

Além disso, o Botafogo chega ao clássico embalado por duas boas vitórias, 1×0 contra o Internacional e 3×1 contra o São Paulo, e sonhando com a classificação no segundo turno. o Flamengo, campeão do primeiro turno em seu grupo e já classificado, oscila. Para encerrar, o Botafogo tem time completo, com alguns bons nomes, como o volante Alemão (da Seleção Brasileira), o experiente meia Elói e os não menos experientes atacantes Renato “Pé-Murcho” (ex-Guarani, São Paulo e reserva de Zico na Copa de 82) e Baltazar (ex-Flamengo, Grêmio e Palmeiras). Somem-se a eles jogadores em alta como o lateral Josimar, o zagueiro Leiz e os pontas Helinho e Berg.

No Flamengo, por outro lado, o técnico Zagallo quebra a cabeça para procurar substitutos para seus três grandes desfalques: Leandro na zaga, Bebeto na ponta-de-lança e Marquinho (ex-Vasco), jogador de grande importância para o equilíbrio tático da equipe, na ponta-esquerda. O jeito é lançar a garotada. O time vai a campo com nada menos que seis (opa!) jogadores de 21 anos ou menos.

Mesmo com todo esse quadro, é surreal – ainda que de certa forma compreensível – perceber que pelo menos dois terços dos quase 70 mil torcedores presentes ao Maracanã são compostos de botafoguenses. E a torcida alvinegra vai ao auge da euforia logo aos dois minutos, quando Renato fez jogada de ponta pela esquerda, foi à linha de fundo e cruzou para Elói escorar e abrir o placar. “Hoje vai ser de goleada”, pensaram.

Eles estavam certos. Só erraram o lado. O Flamengo equilibra as ações e empata a partida aos dez, com Adalberto, que tabela com Adílio, recebe e toca sem muita força, para vencer Luís Carlos. Já senhor das ações, o Rubro-Negro vira ainda no primeiro tempo, com o ponta-direita Heyder (vindo do Náutico por empréstimo a troco de Nunes), batendo de pé esquerdo. Mesmo em menor número (pasmem!), a torcida rubro-negra já pressente que vem coisa boa por aí.

No segundo tempo, com apenas um minuto, sai o terceiro. Bola levantada na área, Chiquinho cabeceia, Adílio desvia também de cabeça e mata Luís Carlos. Botafoguenses, o túnel do Maracanã é logo ali. Mas se quiserem permanecer, fiquem à vontade para assistir ao show de Adalberto, 20 anos, em atuação de lembrar Junior. Tanto na defesa, controlando totalmente o ponta Helinho, quanto no ataque, o lateral se sai brilhantemente. Aos 13 minutos, o garoto da praia de Copacabana é lançado na ponta, passa por Cristiano como se ele não existisse, vai à linha de fundo e serve Chiquinho, jovem centroavante em busca de afirmação, para marcar o quarto gol.

O Flamengo domina amplamente o jogo. “Acha pouco e quer mais”, como diz Januário de Oliveira, que narra a partida para a TVE. Gilmar acerta um lindo sem-pulo, após cruzamento de Heyder, mas Luís Carlos segura. Adílio reclama de um pênalti de Cristiano, que o calçou e o parou com uma mão no peito. Chiquinho quase marca de carrinho ao tomar a bola em uma saída desastrosa do goleiro botafoguense. Paulo Henrique leva uma pancada desleal por trás de Antônio Carlos e tem que ser substituído por outro garoto, Adílson. Mozer bate a falta e arranca um uuuh! da torcida. Heyder perde, sozinho, um gol feito de cabeça na pequena área, após cruzamento de Adilson. O Botafogo, com suas tristes meias cinzas, é um arremedo de time. Borrou-se todo.

Até que Adalberto toca para Gilmar, que devolve lançando. O lateral dispara, dá um leve toque que faz Josimar e Cristiano baterem de cara um com o outro, entra na área, dribla Luís Carlos e marca o quinto. Um gol consagrador do melhor jogador em campo, ao lado de Adílio (o vascaíno Sérgio Cabral escreveria em sua coluna em O Globo: “Adílio ontem me lembrou Zizinho”).

No último minuto vem o fecho com chave de ouro. Andrade, o carrasco de 81, recebe de Gilmar, entra driblando na área, chuta, Luís Carlos dá o rebote e Gilmar reaparece para tocar para o barbante. Ao Botafogo, só restou agradecer por ter escapado de tomar novamente de seis com o sexto gol vindo do camisa 6 rubro-negro. Não há nem a nova saída. O jogo termina no abraço coletivo dos aniquiladores rubro-negros.

Com a goleada, o Flamengo iguala novamente o número de vitórias no confronto e abre caminho para a hegemonia que nunca mais perdeu. E o Botafogo? Fiquemos com as palavras de Adalberto ao fim do jogo: “Papel higiênico, se sobrou, é para eles enxugarem as lágrimas de 17 anos sem títulos”.

FLAMENGO: Fillol; Jorginho, Guto, Mozer e Adalberto; Andrade, Adílio e Gilmar; Heyder, Chiquinho e Paulo Henrique (Adílson Heleno). Técnico: Zagallo.

BOTAFOGO: Luís Carlos; Josimar, Cristiano, Leiz e Rufino; Ademir, Alemão e Elói; Helinho, Renato (Baltazar) e Berg (Antônio Carlos). Técnico: Abel Braga.

No vestiário Rubro-Negro, Zagallo brinca com o papelão botafoguense.

No vestiário Rubro-Negro, Zagallo brinca com o papelão (higiênico) botafoguense.

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