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Pirillo

“Nem Jesus Cristo, se voltasse à Terra, poderia substituir Leônidas”

Foi o que disse Ary Barroso, sempre ponderado, no começo daquele 1941, o último ano em que o Diamante Negro integraria o elenco do Flamengo, às voltas com uma lesão crônica no joelho direito, envolvido em frequentes trocas de acusações com o presidente do clube, Gustavo de Carvalho, e obrigado ainda a cumprir pena de detenção após ser condenado pela Justiça Militar por falsificar seu certificado de reservista.

Na impossibilidade de contar com o Nazareno vestindo a camisa rubro-negra no lugar de Leônidas, Gustavo de Carvalho teve de ir à caça de reforços para o ataque e encontrou o que procurava não na Galileia, mas um pouco mais a oeste, em Montevidéu: um valente centroavante gaúcho, que vinha se destacando há dois anos no Peñarol (curiosamente onde Leônidas também já havia atuado). Seu nome era Sylvio Pirillo.

Nascido em 26 de julho de 1916 (completaria 99 anos no último domingo, portanto), Pirillo começou a jogar futebol ainda garoto no Americano de Porto Alegre, sua cidade natal, antes de passar ao Internacional, já uma das forças locais. No Colorado, cumpriu com louvor a missão de substituir o centroavante Mancuso, um dos maiores ídolos do futebol gaúcho. E acabou despertando o interesse dos carboneros uruguaios.

No final de abril de 1941, Pirillo desembarcava, juntamente com o zagueiro Barradas (outro reforço gaúcho vindo do futebol uruguaio, mas de menor sucesso), no aeroporto Santos Dumont sob desconfiança da torcida e especialmente de um rubro-negro muito peculiar: Ary Barroso, a voz do futebol na Rádio Nacional, e tiete de primeira fila de Leônidas, ainda o maior ídolo do futebol brasileiro.

Depois de alguns dias perdidos na definição da contratação, afinal acertada em 20 contos de réis, Pirillo treinou pela primeira vez na Gávea com os novos companheiros no dia 29 de abril. Mesmo fora de forma, mostrou faro de artilheiro, marcando cinco gols.

Linha de frente do Flamengo contra o Madureira, na tarde de estreia de Pirillo, em 1941. Da esquerda para a direita: Sá, Zizinho, Pirillo, Nandinho e Jarbas.

Linha de frente do Fla contra o Madureira, na tarde de estreia de Pirillo, em 1941. Da esquerda para a direita: Sá, Zizinho, Pirillo, Nandinho e Jarbas.

“CADÊ OS GOLS”? CALMA, QUE ELES VIRÃO

A estreia do novo center-forward rubro-negro viria no dia 4 de maio, na rodada de abertura do Campeonato Carioca, diante do Madureira, na Gávea: vitória por 5×2, com três gols de Pirillo. Seriam cinco (e 7×2), não fossem dois anulados erradamente pelo árbitro Guilherme Gomes. No segundo jogo, contra o Bonsucesso no mesmo estádio, o segundo triunfo: 4×2, um gol de Pirillo. Mas bastou um 0x0 no clássico diante do America em Campos Salles na terceira rodada para o mundo cair-lhe em cima.

“Onde está o homem do gol invisível?”, repetiam cruelmente os torcedores, fãs de Leônidas, na saída do estádio após o jogo. Como respondeu Pirillo? Com gols. Um no Fla-Flu seguinte, logo aos dois minutos de jogo, na vitória por 3×1 nas Laranjeiras; dois nos 3×1 no Vasco; dois nos 4×0 no São Cristóvão. Sobre este jogo, a revista O Globo Sportivo registrou um comentário curioso vindo dos locutores de rádio que indica bem a fogueira na qual o gaúcho havia entrado, e a solução que encontrou para sair dela:

Ao nosso lado, os “speakers” irradiavam o jogo fazendo comentários sobre as falhas de um e outro quadros.
– Incrível, caros ouvintes – disse um – Pirillo acaba de perder mais um tento certo. Assim não é possível o Flamengo ganhar.
Passam-se dois minutos e o mesmo Pirillo entra espetacularmente numa bola, enviando-a às redes, para repetir o feito minutos depois.
– Caros ouvintes – volve o locutor – decididamente assim é que o Flamengo pode ganhar.

E Pirillo desandou a marcar: três nos 7×0 no Bangu na Rua Ferrer; o gol solitário das vitórias sobre o America e o Vasco na Gávea; três nos 4×1 do Fla-Flu do returno; outro no empate em 1×1 com o Vasco em São Januário… Foram 39 tentos em 28 jogos, recorde ainda hoje não superado, desbancando de longe os 30 marcados por Leônidas na temporada anterior, a maior quantidade até então.

O Flamengo não foi campeão. Na última partida do turno final precisava derrotar o Fluminense na Gávea, mas o máximo que conseguiu foi o empate em 2×2, após sair em desvantagem de dois gols. Pirillo marcou os dois da igualdade. Não foi porém por falta de gols de Pirillo em clássicos que aquele Fla deixou escapar o título. O centroavante marcou 14 vezes em 14 jogos contra Fluminense, Vasco, Botafogo e America. Contra o Bangu, sexto colocado, foram nove gols em quatro partidas.

Pirillo não era tido como um grande chutador de longa distância. Mas dentro da área era infernal. Tinha técnica, força, oportunismo e raça, além de finalizar bem com os pés ou a cabeça. Não jogava para si, como Leônidas, astro brilhantemente individualista, mas era igualmente – senão mais – eficiente.

DEPOIS DO RECORDE, A CONSAGRAÇÃO

Chega 1942, e o Flamengo é outro. Leônidas é enfim vendido ao São Paulo por fabulosos 200 contos de réis (dez vezes mais que Pirillo). O time começa a incorporar de vez vários dos jovens jogadores chegados na temporada anterior, como os médios Biguá e Jayme de Almeida (que de centromédio passa à esquerda), e reforça suas fileiras com os atacantes Perácio (ex-Botafogo, vivendo um ostracismo no Canto do Rio) e Vevé, genial ponta-esquerda paraense.

Para Pirillo, o ano começa particularmente bem: convocado para a Seleção Brasileira, volta ao Uruguai para fazer cinco partidas pelo Campeonato Sul-Americano, marcando seis vezes (vice-artilheiro, atrás dos argentinos Masantonio e Moreno). Mas o título acaba com os donos da casa.

No Campeonato Carioca, o ritmo não começou tão intenso, e o Flamengo teve problemas, tropeçando seguidamente. Pirillo luxou o braço esquerdo contra o America, numa dividida forte pelo alto com o goleiro Osni, e ficou de fora algumas rodadas. Ao final do primeiro turno, tinha marcado apenas três vezes em sete partidas. No segundo, a forma foi melhorando aos poucos. Mas no terceiro é que o centroavante foi letal e decisivo, marcando mais vezes do que tinha feito até então nos dois anteriores somados.

Valido e Zizinho abraçam Pirillo após o gaúcho marcar contra o Fluminense, na última rodada do Carioca de 1942.

Valido e Zizinho abraçam Pirillo após o gaúcho marcar contra o Fluminense, na última rodada do Carioca de 1942.

Entre outros gols, deixou sua marca na goleada de 4×0 sobre o Botafogo, quebrando a longa invencibilidade do principal perseguidor pelo título; fez o da vitória de virada (2×1), a três minutos do fim, sobre o Vasco em São Januário; anotou nada menos que cinco tentos nos incríveis 8×5 sobre um forte America – travando um antológico duelo com o centroavante rubro César, que marcou quatro vezes; e para coroar a sequência de gala, fez o gol no empate em 1×1 com o Fluminense nas Laranjeiras, que valeu a vantagem final de um ponto sobre o clube de General Severiano.

Campeão e artilheiro do Flamengo no certame, não havia mais contestação para Pirillo. Podia tudo. Até mesmo se aventurar em outras áreas, como a música. Ao lado de Vevé e do meia-esquerda Nandinho, foi convidado naquele fim de ano a gravar o samba “Coisas do Destino”, do rubro-negro histórico Wilson Batista, para o próximo Carnaval.

Dizia a letra:

Ai, ai, são coisas do destino
Sou rubro-negro, meu patrão é vascaíno
Ai, ai, este emprego eu vou perder
Mas deixar de ser Flamengo, não, não pode ser

Lá no meu quarto
Tem escudo e tem retrato
De vários campeonatos
Sou Flamengo pra chuchu

Ainda me lembro
Gazeteava a escola
Só pra ver o bate-bola
Na Rua do Paissandu

Ainda naquele final de 1942, Pirillo teve a oportunidade de mostrar seu faro de gol em gramados paulistas, na série de amistosos feita pelo Flamengo no Pacaembu contra o chamado “trio de ferro” bandeirante. Fez o gol da vitória de virada sobre o Palmeiras (2×1), outros dois nos 4×2 sobre o Corinthians e, no jogo que o colocou frente a frente com Leônidas, marcou duas vezes – contra apenas uma do Diamante – no empate em 3×3 com o São Paulo.

No Campeonato Carioca de 1943, a média de gols de Pirillo cairia, e ele seria superado na artilharia do time por Perácio. Mas nas três rodadas finais, a pontaria voltou em grande forma: três gols nos 5×1 sobre o Bonsucesso, outros dois na goleada histórica de 6×2 sobre um Vasco já base do “Expresso da Vitória”, no jogo que valeu o título antecipado, e outros dois nos 5×0 sobre o Bangu, na entrega das faixas.

Já em 1944, manteve média de um gol por jogo durante boa parte do campeonato, mas se lesionou. Quando voltou, marcou duas vezes na goleada de 6×1 sobre o Fluminense na penúltima rodada e brigou até o fim na heroica vitória diante do Vasco – o jogo do gol de Valido, que deu o tri ao Flamengo – mesmo tendo de suportar uma orquite (inflamação nos testículos, uma das dores mais agudas que um homem é capaz de aguentar).

DEPOIS DO TRI

Nos anos seguintes daquela década, o time rubro-negro foi aos poucos perdendo a consistência, vivendo de lampejos, desfalcado de jogadores importantes por lesão, enquanto outros envelheciam sem substitutos à altura. E Pirillo acompanhou este mesmo roteiro, brilhando em jogos como os 7×0 sobre o Fluminense, no Torneio Municipal de 1945 (marcando quatro vezes na maior goleada da história do clássico), mas sem ser o suficiente para fazer o time brigar pelo título.

A fabulosa linha de ataque do Flamengo em 1947. Da esquerda para a direita: Adílson, Zizinho, Pirillo, Jair Rosa Pinto e Vevé.

A fabulosa linha de ataque do Flamengo em 1947. Da esquerda para a direita: Adílson, Zizinho, Pirillo, Jair Rosa Pinto e Vevé.

Em outubro de 1947, tornou-se o primeiro jogador a atingir a marca de 200 gols pelo clube. No dia 28 de dezembro daquele ano, entraria em campo pela última vez como jogador rubro-negro, marcando duas vezes nos 4×0 sobre o Bangu, em General Severiano, encerrando sua trajetória na Gávea com 204 tentos em 237 partidas, média de expressivos 0,86 gols/jogo, que o posicionam como o quarto maior artilheiro da história do Flamengo, superado apenas posteriormente por Dida, Henrique e Zico.

Outro feito de Pirillo, este praticamente desconhecido, é o de ser o maior artilheiro do estádio da Gávea em todos os tempos, com espantosos 71 gols. Bem à frente de Zizinho (45), Perácio (35) e Romário (31), que vêm a seguir na lista.

No mesmo estádio de General Severiano em que jogaria pela última vez como rubro-negro, Pirillo daria prosseguimento à carreira, contratado pelo Botafogo para repetir o que estava longe de ser novidade em sua carreira: substituir um ídolo, no caso, Heleno de Freitas. E o gaúcho deu mais uma prova de competência ao levar o time alvinegro ao título carioca que o substituído não conseguiu, já em 1948. Mas quem era melhor?

Fiquem com a opinião de uma lenda da Estrela Solitária, Nilton Santos: “Eu achava Pirillo melhor. Tinha muita habilidade, infernizava os zagueiros com deslocamentos constantes, e era, sobretudo, um homem de rara valentia. Para decidir na técnica, sabíamos que poderíamos contar com ele; na catimba, também, e na hora da briga, nem se fala”.

Ídolo do primeiro tricampeonato do Flamengo, um dos grandes artilheiros históricos do clube, Pirillo resumiu sua passagem pela Gávea em entrevista ao jornalista Edilberto Coutinho publicada no livro Nação Rubro-Negra: “Fui leal ao Flamengo e aos companheiros. (…) Tinha prazer em ser útil ao Flamengo, e que a torcida me considerasse um jogador dedicado, que lutava, suava a camisa”.

E foi assim que ele, contra todos os prognósticos e a teimosia de alguns, marcou à sua maneira seu nome na história do Flamengo e, enquanto defendeu as cores rubro-negras, fez a torcida deixar de sentir saudade de Leônidas.

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