Fachada da sede da Praia do Flamengo, a primeira do clube

Fachada da sede da Praia do Flamengo, a primeira do clube, em foto publicada em 1938 pela revista O Cruzeiro.

O pessoal costuma rir quando eu falo isso, mas a verdade é que minha data de nascimento na certidão e nos outros documentos é de mentira. Eu tô por aí há mais de uma centena de anos, aceitem vocês ou não. Lembro bem, eu era molequinho lá na praia onde hoje tem o Aterro no final de mil oitocentos e qualquer coisa, acompanhando as regatas de domingo. De longe, a gente ficava vendo os barcos se perderem mar adentro e depois voltarem, triunfantes. E tinha um pessoal que remava vestido de vermelho e preto que empolgava mesmo. Tudo estudante que morava ali numa república no casarão 22 da praia.

Depois, já maior um pouco, fui ver um bate-bola ali na praça do Russel, na Glória. Era esse mesmo pessoal que remava de vermelho e preto. A criançada ficava rodeando o gramado, aparando os chutes que saíam, devolvendo a bola pros jogadores. Eu tava lá. Eu era um desses moleques. Vi também a festa que foi quando ganharam seu primeiro título da cidade. E no ano seguinte mais outro, com direito a campo novo, lá na Rua Paissandu. E tome festa. Aliás, festa desses caras era sempre mais animada, era uma alegria muito grande.

Nessa época, futebol já era o grande barato da cidade. Mas os de vermelho e preto ganhavam em tudo e não queriam nem saber: venciam na bola, no remo, e daí pra frente em qualquer esporte que inventassem: basquete, atletismo, natação, vôlei, judô, esgrima, xadrez, até na porrinha eu já vi ganhar. E ganhavam até sem jogador. Quando a cartolagem lá da liga suspendeu o time do campeonato do Rio e depois voltou atrás, os caras de vermelho e preto tiveram que sair catando gente por aí pra botar em campo: “ei, você aí! joga bola? então serve!”. Cataram, botaram em campo e não é que serviu mesmo? Foram campeões. Dizem que era mandinga da camisa, aquele vermelho e preto junto, sei lá. Só sei que quem vestia arrebentava até todo arrebentado, igual aquele menino Moderato, cheio de ponto de cirurgia no apêndice e fazendo miséria contra o Vasco.

Mas miséria mesmo fizeram Leônidas e Domingos. Um no ataque, o outro lá na retaguarda. Até os plânctons lá da Lagoa emergiam pra ver e aplaudir o que esses caras faziam no estádio novo que os caras de vermelho e preto levantaram. E os vermelho e preto cresceram e se espalharam, parecia epidemia. Mas também, com tanto craque junto, era de se esperar: Zizinho, o menino lá de Niterói; Valido, argentino apaixonado por esse clube; Pirillo, gaúcho valente e brigão; Biguá, que veio lá do Paraná mas era tão vermelho e preto quanto o maior de todos eles; Jayme de Almeida, um diplomata de fino trato da bola. E Seu Flávio Costa dando as cartas.

Aí, como se o campo da Lagoa já não fosse suficiente, levantaram um Maracanã pros vermelho e preto darem espetáculo. O comandante agora era um gringo, Don Fleitas Solich. Com ele o time sempre tinha quinze, dezesseis titulares porque era tanto menino bom chegando ao mesmo tempo que só assim. Era Evaristo, Dida, Joel, Zagalo, Henrique, Paulinho, Jordan, depois Moacir, Germano, Gerson, Carlinhos… vou até parar por aqui. Nesse Maracanã, os caras entravam sempre com Dequinha à frente, bola debaixo do braço, tímido toda vida fora de campo, dono do time dentro dele. E era muita classe. Doutor Rubens então, meu Deus! Esse parecia que jogava com a bola amarrada no cadarço da chuteira, ninguém tirava, só ele, quando queria deixar os companheiros na cara do gol. Esses caras do vermelho e preto eram mesmo um Rolo Compressor.

Veio 1963, e eu tava lá no Maracanã tomado de gente, vendo o Marcial fazer A Defesa Impossível. Depois vi Silva Batuta matar no peito e fuzilar o Fluminense, e a gente era campeão do Quarto Centenário do Rio. Vi Almir, o Pernambuquinho muito louco, arrastando a cara na lama pra botar a bola na rede do Bangu. Vi Fio, o imprevisível. Vi Doval, argentino cabeludo, malandro carioquíssimo e sensacional, botando pra quebrar em outro título com nome pomposo: Campeão do Sesquicentenário da Independência. E vi estrear um garoto lá de Quintino, que eu vou até pular uma linha pra falar.

Zico era o nome dele. Com ele, nunca faltou nada. Título de tudo quanto é tamanho? Teve. Golaço de tudo quanto é jeito? Teve. Goleada humilhante em cima de rival? Teve. Retrospecto desfavorável revertido? Teve. Os vermelho e preto (bem) falados no mundo inteiro? Teve. E ainda teve uma série de outros gênios da bola que cresceram juntos, mais outros monstros que chegaram e ocuparam seu lugar na história do clube. Nem dá pra dizer que não tinha pra ninguém porque, na verdade, nunca teve pra ninguém. Mas ali, com aquela rapaziada, era tipo ganhar na loteria toda semana. Chegaram ao topo do mundo – o que era mais do que justo porque no mundo todo tinha gente do vermelho e preto. O time era Raul, Leandro, Marinho, Mozer, Junior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes e Lico, mas também teve Toninho, Rondinelli com sua santa cabeçada pra cima do Leão, Carpegiani, Cláudio Adão, Júlio César (entortador de beque que nem aquele paranormal da televisão fazia com garfo), uma pá de gente sensacional.

Tive muitas alegrias. Vi Renato Gaúcho entortar o Galo e Bebeto chegar antes do Taffarel. Vi o Vovô Garoto Junior renascendo com outra fornada de moleques bons de bola. Vi muita testada brilhante do Gaúcho. Vi Sávio, Romário, Adriano, vi outro gringo fenomenal chamado Petkovic, vindo de uma improvável Sérvia, desafiando a lei da gravidade. E também chorei às vezes. Chorei por Nonô, chorei por Castillo, chorei por Gilberto Cardoso, chorei por Reyes, chorei por Geraldo, chorei por Figueiredo. Mas logo lembrava deles fazendo gols, dando passes, levantando taças e sorria de novo. Tristeza com esse pessoal de vermelho e preto sempre é curta.

E aí, depois de eu contar isso tudo, vocês vêm e me perguntam por que é que eu torço pro Flamengo. Torcer? Torcer não, meus camaradas. Depois de 120 anos a gente não torce mais, a gente É. Eu SOU Flamengo. Sou de ser mesmo. Sou um pedaço dessa instituição gigantesca e maravilhosa que o pessoal do vermelho e preto fundou lá no casarão 22 da Praia. E eu sei e vi porque eu tava lá.

Parabéns, Flamengo, pelos 120 anos de luta, emoções e alegrias a todos os seus milhões de torcedores.

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