Tags

, , , , , , , ,

O time campeão posa enfileirado no Maracanã. Da esquerda para a direita: Valdomiro, Ditão, Jaime, Silva, Nelsinho, Neves, Carlinhos, Dr. Pinkwas Fiszman (médico do clube), Almir, Paulo Henrique, Rodrigues e Murilo.

O time campeão posa enfileirado no Maracanã. Da esquerda para a direita: Valdomiro, Ditão, Jayme, Silva, Nelsinho, Neves, Carlinhos, Dr. Pinkwas Fiszman (médico do clube), Almir, Paulo Henrique, Rodrigues e Murilo.

Algumas conquistas ganham um atrativo especial pelo simbolismo do momento histórico (ou de alguma efeméride relacionada a ele) no qual foram alcançadas. Foi o caso do Campeonato Carioca de 1965, o qual o Flamengo ficou bem perto de levantar há exatos 50 anos, ao derrotar o Fluminense por 2×1. Naquele ano a cidade do Rio de Janeiro completava quatro séculos de fundação, o que valeu ao clube o título de campeão do IV Centenário da capital carioca, na época pertencente ao estado da Guanabara.

O TORNEIO

Selo comemorativo do IV Centenário de fundação do Rio de Janeiro, criado por Aloísio Magalhães. (Fonte: Revista Cliche)

Selo comemorativo do IV Centenário do Rio, com a logo criada por Aloísio Magalhães. (Fonte: Revista Cliche)

Por ocasião da data, a Federação Carioca resolveu reformular bastante o calendário do futebol no ano. Primeiro criou a Taça Guanabara, retomando a época dos “torneios-aperitivo”, comuns na década de 1940, como o Torneio Municipal, o Torneio Extra e o Torneio Relâmpago. Naquele ano de estreia, a competição foi disputada entre meados de julho e o começo de setembro pelos seis principais clubes em dois turnos (os dois últimos da etapa inicial eram eliminados da fase final), e vencida pelo Vasco, em disputa apertada com o Botafogo. O Flamengo, em reformulação, fez campanha discreta e terminou na terceira colocação.

A criação da Taça Guanabara foi possibilitada, em termos de datas, pela segunda medida da Federação: a redução de 13 para apenas oito o número de clubes participantes do Campeonato Carioca. O Canto do Rio, clube de Niterói (então capital do estado do Rio) já havia sido excluído ao final do ano anterior, tendo sua licença especial para disputar o campeonato guanabarino cassada por pressões dos demais pequenos nos bastidores, especialmente depois da invasão generalizada de campo ocorrida numa partida contra o Fluminense em Caio Martins em outubro.

Os demais a perderem lugar na elite foram São Cristóvão, Olaria, Madureira e Campo Grande, relegados a um quadrangular que fazia as vezes de segunda divisão, vencido pelos cadetes. Enquanto isso, além de Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, America e Bangu, completavam os oito na briga “pra valer” o Bonsucesso e a Portuguesa, sétimo e oitavo colocados no ano anterior, respectivamente. A intenção era a de enxugar o torneio, reduzindo o número de jogos envolvendo times pequenos, já na época considerados deficitários. Foi um campeonato de “tiro curto”, pontos corridos, 14 rodadas.

O FLAMENGO

O argentino Armando Renganeschi, treinador rubro-negro.

O argentino Armando Renganeschi, treinador rubro-negro.

Em 1965, o clube era presidido pelo comerciante Fadel Fadel, com a vice-presidência de futebol ocupada pelo carismático sueco Gunnar Goransson (representante no Brasil da Facit, empresa de máquinas para escritório), e Flávio Soares de Moura no cargo de diretor de futebol. Vivendo período de transição, o time rubro-negro não era considerado favorito no começo do campeonato, ao contrário das equipes mais bem azeitadas de Botafogo e Vasco, pelas apostas em nomes recém-chegados e tratados como incógnitas. Para o lugar do veterano Flávio Costa – no comando do time desde o início de 1962, mas que havia aceitado proposta dos portugueses do Porto durante a Taça Guanabara – veio o argentino Armando Renganeschi, 52 anos, lembrado no Rio apenas por ter sido zagueiro do Fluminense nos anos 40. Dirigia o Guarani de Campinas, após passagens por outras equipes do interior paulista e viera recomendado pelo presidente bugrino, com quem, na época, o Fla frequentemente negociava jogadores.

Ao longo do primeiro semestre o elenco também passou por reformulações. Deixaram o clube alguns destaques do título carioca de dois anos antes, como o goleiro Marcial, o centroavante Aírton Beleza (ambos para o Corinthians) e o zagueiro Ananias (negociado com o Vasco). O ponta-de-lança Berico, que havia vindo do Guarani no ano anterior cercado de expectativa – chegara a ser tratado como “novo Pelé” – recebia proposta do El Oro, do México e partia sem deixar saudade. Enquanto isso, o veterano Evaristo de Macedo, que voltara ao Fla em meados de 1964, vivia os últimos momentos de sua carreira de jogador, participando de amistosos e desfilando sua categoria entre os aspirantes. Os principais reforços vinham do futebol paulista: os pontas-de-lança Silva, trocado por Aírton depois de renegado e humilhado pelo técnico Oswaldo Brandão no Parque São Jorge, e Almir, jogador experiente, rodado, campeão carioca em 1958 com o Vasco e mundial em 1963 com o Santos, de onde vinha para a Gávea.

Assim, o elenco que entrou em campo nos 14 jogos do campeonato começava pelo goleiro paranaense Valdomiro, com Marco Aurélio na reserva. A linha de quatro defensores, que atuou em todas as partidas, tinha Murilo e Paulo Henrique –  ambos em excelente forma física e técnica – nas laterais e Jayme Valente e Ditão na zaga. Jayme, que dividia seu tempo entre os treinos e jogos pelo Flamengo e a faculdade de Jornalismo que cursava, era mais técnico, enquanto Ditão jogava duro e não costumava brincar em serviço. No meio, o Violino Carlinhos exibiu sua classe a partir da terceira rodada, enquanto na outra vaga revezavam-se Nelsinho – mais recuado, incansável, combativo, mas também bom lançador – e Fefeu – que encostava mais no ataque, como meia de ligação, além de muito bom na bola parada.

A ponta direita era a posição em que houve mais variação de nomes: Paulo Alves (também conhecido como Paulo “Choco”) atuava mais recuado, como um armador, e foi titular em sete partidas; também atuaram Clair, promessa da base; Neves, que acabaria marcando um gol importante contra o Fluminense; Carlos Alberto, habilidoso mas com frequentes problemas de lesão; e Amauri, que seria negociado com o Porto após a primeira rodada. Almir, o Pernambuquinho, era raça, coração e talento vestindo a camisa 9. Nem sempre esteve na melhor forma física e não marcou muitos gols, mas cavou espaços e perturbou as defesas. O garoto César (que mais tarde se transformaria no Maluco, ídolo do Palmeiras) era outra revelação da base e substituiu Almir em alguns jogos. Ponta-de-lança nos juvenis, João Daniel também jogou com a 9 do time de cima, inclusive na partida decisiva contra o Fluminense.

Linha de ataque do Flamengo campeão nos juvenis. Da esquerda para a direita: Clair, Juarez, João Daniel, César e Rodrigues.

Linha de ataque do Flamengo campeão nos juvenis. Da esquerda para a direita: Clair, Juarez, João Daniel, César e Rodrigues.

Já a 10 foi vestida durante toda a campanha por Silva. Em fase esplendorosa, aliando simplicidade e elegância, força e técnica, perfeito nas cabeçadas e no controle de bola (como em seu clássico domínio no peito), o Batuta foi fundamental, além de artilheiro do time (sete gols – TODOS decisivos) e eleito quase por unanimidade entre a crônica o craque do campeonato (apenas O Globo preferiu o lateral rubro-negro Murilo). Suas atuações mereceram inclusive crônica arrebatada de Nelson Rodrigues. E se Silva foi o dono da 10, a 11 foi muito bem envergada durante todo o torneio pelo jovem Rodrigues, 19 anos, mais um promovido do time campeão carioca nos juvenis. Marinheiro do 1º Distrito Naval, na Praça XV, o ponta-esquerda arisco e driblador conciliava o serviço com os treinos na Gávea. Apontado como a revelação do torneio, acima inclusive do botafoguense Afonsinho, foi uma das armas secretas do time de Armando Renganeschi.

Desde seus primeiros jogos no comando do clube, o treinador argentino deixou bem clara sua estratégia: o time atuava com a defesa e o meio-campo bem avançados, sufocando o adversário no próprio campo e permitindo o apoio constante dos laterais Murilo e Paulo Henrique (que, além de excelentes na marcação e na recuperação, ainda tinham fôlego para apoiar com decisão e talento), e o setor ofensivo girando em deslocamentos e trocas de posições incessantes, no qual Almir, camisa 10 de origem como Silva, jogava mais adiantado, enquanto o Batuta recuava para buscar jogo.

A CAMPANHA

Em desvantagem na preparação e no entrosamento em relação a vascaínos e botafoguenses, restava ao Flamengo procurar somar como fosse todos os pontos possíveis logo de saída, enquanto a equipe ganhava “liga” ao longo da competição. E assim aconteceu. Na noite de sábado, 11 de setembro, o rubro-negro abriu o torneio vencendo o America por 2×1, gols de Fefeu cobrando pênalti e Silva de cabeça, antes de Miro descontar para os tijucanos. E na rodada seguinte, em General Severiano, bateu a Portuguesa por 2×0, gols de Paulo Henrique e Fefeu (novamente de pênalti), um em cada tempo, para seguir na liderança ao lado de Botafogo e Bangu. O primeiro ponto perdido veio justamente diante dos banguenses, num empate sem gols disputado sob forte calor no Maracanã, com ambas as equipes desperdiçando boas chances, apesar do desgaste físico.

Na quarta rodada viria o duelo com o Vasco, que, surpreendentemente, fazia campanha irregular até ali. O Flamengo foi amplamente superior no primeiro tempo: aos 16 minutos, Silva acertou a trave de Gainete; aos 28, Rodrigues Marinheiro (que infernizava o lateral Joel) foi à linha de fundo, cruzou para trás e Fefeu arrematou com violência, abrindo o placar; e aos 32, Paulo Choco ainda perdeu um gol incrível, cabeceando sozinho. Aos 43, porém, Mário foi lançado por Oldair num contragolpe e tocou por baixo de Valdomiro para empatar a partida. A igualdade injusta, no entanto, não resistiu ao começo da etapa final: Silva arrancou da intermediária em jogada individual e chutou forte para colocar de novo o Fla na frente logo aos cinco minutos. Depois, sem fôlego, restou ao Vasco assistir ao toque de bola rubro-negro.

Especialista na bola parada, Fefeu foi o vice-artilheiro rubro-negro na campanha, com seis gols. (Foto: GazetaPress)

Especialista na bola parada, Fefeu foi o vice-artilheiro rubro-negro na campanha, com seis gols. (Foto: GazetaPress)

Uma semana depois, com uma tranquila vitória de 3×0 sobre o Bonsucesso, três gols de Fefeu em jogadas de bola parada (o meia agora chegava a seis tentos em cinco partidas), o Flamengo aproveitava o tropeço dos adversários para assumir a liderança isolada e ainda podia se poupar para o Fla-Flu da rodada seguinte. No clássico, entretanto, veio o segundo empate em 0x0, novamente disputado sob calor inclemente (as altas temperaturas foram frequentes durante todo o período do campeonato, prejudicando o andamento das partidas). Apesar de ambas as equipes se portarem de maneira defensiva, cada time dominou um tempo. Mas o Fla ficou em desvantagem numérica na etapa final, ao perder Fefeu com luxação na clavícula, após ser derrubado por Joaquinzinho, em falta não marcada pelo árbitro Frederico Lopes, que também não viu Carlinhos ser derrubado na área tricolor pelo goleiro Edson.

SILVA, DEMOLINDO O BOTAFOGO

Na última rodada do turno, entretanto, não houve quem pudesse impedir uma vitória categórica rubro-negra sobre o Botafogo por 2×0. Com total controle do jogo no meio-campo em que Carlinhos e Nelsinho se revezavam para anular Gerson e Paulo Henrique tomava conta de Jairzinho pelo lado esquerdo da defesa, o Flamengo bombardeou o gol de Manga, que evitou pelo menos três chances claras. Não pôde evitar, porém, o primeiro tento do time de Renganeschi aos 35 minutos. Silva aproveitou a indecisão entre Rildo e o goleiro alvinegro, tomou a bola e tocou antes da chegada do arqueiro.

No meio da etapa final, o Flamengo perdeu o goleiro Marco Aurélio lesionado durante uma defesa difícil numa escapada botafoguense. Foi substituído por Valdomiro (na época apenas os goleiros podiam ser trocados) e deixou o gramado capengando até a lateral do campo, apoiado no ombro de Silva. O Batuta deu-lhe um beijo na testa e disse: “Não se preocupe que vamos ganhar esse bicho. Se bobearem, meto outro gol”. Dito e feito. Aos 42, Nelsinho sofreu falta de Mura a poucos passos da linha da grande área. O camisa 10 rubro-negro cobrou a falta enchendo o pé, fazendo a bola passar ao lado da barreira e morrer quase no ângulo da meta alvinegra. Em sua coluna na Última Hora, o ex-craque vascaíno Ademir Menezes analisava o desempenho dos jogadores e a vitória do Fla, líder isolado ao fim do primeiro turno, sob o título “‘Olé’ rubro-negro”.

Manchete do jornal Última Hora após a vitória diante do Botafogo.

Manchete do jornal Última Hora após a vitória diante do Botafogo.

Se a vitória sobre o Botafogo foi simbolizada pela categoria de Silva, o triunfo seguinte, diante do America na abertura do returno, teve a cara de Almir. Com um jogador a menos desde o primeiro tempo, e perdendo por 1×0, o Fla foi todo raça e coração para virar a partida e seguir sua caminhada rumo ao título. O time rubro fazia campanha decepcionante e ainda não tinha vencido na competição. Na verdade, ainda não havia saído vitorioso de uma partida oficial sequer no ano. Mas parecia que naquela noite de quarta-feira, 3 de novembro, sua sorte mudaria quando logo aos dois minutos Zezinho abriu o placar. Aos 19, mais um indício de que agora chegaria sua vez veio através da expulsão de Ditão. Mas o Pernambuquinho entrou em cena impondo o ritmo do jogo, movimentando-se pelo ataque e empatando a partida ainda na primeira etapa, aos 35 minutos. Na etapa final, o Fla com um a menos encurralava o America. E aos 30 minutos, veio a virada em jogada de Paulo Choco que o zagueiro Alemão ajudou a empurrar para as próprias redes.

BANGU, A MAIOR AMEAÇA

A liderança foi mantida na rodada seguinte com a vitória de 1×0 sobre a Portuguesa no Maracanã, gol de Almir de cabeça após cruzamento de Rodrigues da linha de fundo, enfim vencendo o goleiro luso Devito, verdadeiro paredão impedindo uma goleada. Mas a invencibilidade acabaria no domingo seguinte, no tira-teima contra o Bangu, agora o principal adversário rubro-negro. No primeiro tempo, os alvirrubros marcariam com Parada, depois que Paulo Borges recebeu em posição no mínimo duvidosa e cruzou. O gol desarticulou o Fla, que ainda sofreria mais dois gols de Paulo Borges (um deles, o terceiro, muito bonito) em contra-ataques. O time treinado por Zizinho ficaria a um ponto ganho atrás do rubro-negro na classificação, com um jogo a menos (a partida contra o Vasco pela oitava rodada, num meio de semana, fora adiada em virtude da participação cruzmaltina na Taça Brasil), e portanto assumiria a outra liderança, a por pontos perdidos.

Depois de liderar o campeonato de 1963 até a antepenúltima rodada, mas acabar apenas em terceiro, e de perder o título de 1964 em dois jogos extras contra o Fluminense, o Bangu acreditava que 1965 seria enfim seu ano de glória. Acontece que o triunfo alvirrubro sobre o Flamengo motivou comemorações antes da hora: o time, a comissão técnica e os dirigentes resolveram celebrar a vitória na casa de praia do diretor de futebol Castor de Andrade em Ibicuí, perto de Mangaratiba, litoral sul do Rio. No dia 20, em jogo isolado, o time da Zona Oeste perdia de 1×0 para o Vasco, e o Flamengo voltaria a liderar tanto por pontos ganhos quanto por perdidos. E agora seria a vez de os cruzmaltinos encararem os rubro-negros, que vinham de maratona de amistosos pelo Mato Grosso, aproveitando o recesso do campeonato.

Silva, o Batuta, fez sete gols decisivos ao longo da campanha: honrou a 10.

Silva, o Batuta, fez sete gols decisivos ao longo da campanha: honrou a 10.

Numa partida muito disputada, com as defesas prevalecendo inteiramente sobre os ataques (com destaque especial para Murilo de um lado e Brito do outro), foi a malícia de Silva quem decidiu a vitória rubro-negra. Um chutaço da intermediária aos 27 minutos da etapa final, explodindo no canto das redes do surpreso e estático goleiro Gainete. Ou, nas palavras de Nelson Rodrigues no Jornal dos Sports: “Foi um tiro mortífero, tão inapelável, que o goleiro não esboçou um gesto, não exalou um suspiro, não piscou um olho. A bola já saíra dos pés de Silva com a predestinação das redes. O gol foi trabalho dele, intuição dele, imaginação dele”. Inconsoláveis com a derrota que encerraria definitivamente suas chances de título, os jogadores vascaínos ensaiaram uma reclamação ao verem o bandeirinha Antônio Viug apontar impedimento de João Daniel no lance do gol – de maneira absolutamente equivocada, já que jogada fora toda de Silva. Mas acabaram aceitando o resultado.

A partida seguinte, contra o Bonsucesso novamente no Maracanã, foi mais uma disputada sob calor intenso, com ritmo lento. Bem retrancado, o time da Leopoldina resistiu até os 28 minutos, quando Silva – sempre ele – aproveitou cruzamento e cabeceou meio se abaixando para marcar o único gol. O Fla não jogou bem e deixou o campo vaiado. Mas conseguiu aumentar sua vantagem na liderança, já que o Bangu, jogando em Moça Bonita, tropeçou no America, empatando em 2×2. Uma vitória rubro-negra no Fla-Flu da penúltima rodada deixaria o time de Renganeschi com o título praticamente assegurado, mesmo após a vitória banguense por 3×0 diante de um Botafogo já eliminado na véspera do grande clássico.

CONTRA O FLA, ATÉ DESPACHO

Valia tudo para impedir o título rubro-negro. Em sua coluna no Jornal do Brasil, Armando Nogueira publicava (e lamentava) o boato de que os jogadores botafoguenses teriam facilitado a vitória banguense. Mais grotesco ainda: no dia 12 um despacho de proporções gigantescas, provavelmente encomendado por algum alvirrubro, amanheceu no portão principal do estádio da Gávea. Mais tarde, no Maracanã, ele parecia ter funcionado quando logo no início do jogo o árbitro Armando Marques anulou gol legal de João Daniel para o Fla, alegando equivocadamente que a bola defendida e solta pelo arqueiro Édson havia saído totalmente pela linha de fundo antes da conclusão do atacante rubro-negro.

Silva arranca contra a defesa do Fluminense.

Silva arranca contra a defesa do Fluminense.

Jogando no estilo típico implementado por Armando Renganeschi, sufocando o adversário, o Flamengo dominava amplamente as ações e abriu o placar aos 12 minutos, com o ponta Neves. Cedeu o empate quatro minutos depois em jogada individual de Samarone, passando como um tanque por meio da defesa rubro-negra. Mas Silva, o decisivo, deixaria novamente o Fla na frente aos 31, matando no peito magistralmente a bola levantada na área, batendo o zagueiro Valdez pelo alto e fuzilando o arqueiro tricolor. Um golaço. Depois de fazer um primeiro tempo intenso, espetacular, quando mereceu até golear, o Flamengo baixou o ritmo na etapa final, mas ainda assim teve as melhores chances. Vitória categórica, que manteve o time dois pontos à frente do Bangu após a penúltima rodada.

No fim, antes mesmo de entrar em campo o título já estava garantido. Os banguenses morreram de véspera. Assim como o Vasco havia derrotado o alvirrubro antes de cair em seguida para o Flamengo, o Fluminense fez o mesmo, apenas na ordem inversa dos acontecimentos. Com um gol de sem-pulo marcado por Evaldo logo aos dois minutos, enterrou as esperanças do time de Castor de Andrade na noite de sábado. E o domingo, 19, não foi outra coisa que não uma comemoração intensa e ruidosa. Antes do jogo o Fla já exibia as faixas de campeão, saudado pela galera rubro-negra, que cantou e festejou nas arquibancadas do Maracanã. Nem mesmo a não marcação de um pênalti claro em Almir a perturbou. A nove minutos do fim, Gerson aproveitou uma rebatida mal executada por Jayme e marcou o gol botafoguense. A torcida silenciou por um instante, mas logo voltou a celebrar o que aquele detalhe não lhe tiraria. Ao meia, ex-ídolo rubro-negro, restou um rosário de rancores a derramar pela imprensa. A massa deu de ombros. E saiu cantando sua própria versão de uma velha marcha de carnaval: “É ou não é piada de salão? / O Gerson fez o gol, Flamengo é campeão”.

RESUMO

Foi uma campanha de regularidade e eficiência: 10 vitórias, 2 empates e 2 derrotas (a segunda, quando já tinha o título confirmado). Se o ataque foi até “econômico” – ainda que o Fla tenha quase sempre apresentado mais volumeintensidade de jogo que os adversários (palavras modernas, mas que já poderiam ter sido usadas para aquele time) -, a defesa foi a menos vazada do torneio. Em menos de seis meses de trabalho Renganeschi, seu bom papo e seu esquema de jogo já haviam entrado para a história do clube. No ano seguinte Murilo, Ditão, Paulo Henrique e Silva seriam pré-convocados para a Seleção Brasileira que disputaria a Copa da Inglaterra – os dois últimos participariam do Mundial. Além de Fefeu, também pré-convocado, mas que desde janeiro de 1966 já havia sido negociado com o São Paulo.

Abaixo, um filme especial do Canal 100 com alguns gols da campanha.

flamengo com faixas 1965

Aos campeões “quatrocentões”, as faixas!

Anúncios