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Zico Fla-Flu 1986

O Camisa 10 da Gávea parte para celebrar seu primeiro gol da tarde. Faria outros dois na memorável goleada rubro-negra.

Zico é o maior artilheiro da história dos Fla-Flus, com 19 gols marcados, um a mais que o também rubro-negro Pirillo e cinco a mais que Hércules, o goleador tricolor do clássico. Em meados de 1985, quando retornou ao Flamengo após duas temporadas na Udinese italiana, já havia balançado as redes do rival 14 vezes. Também já havia comandado grandes goleadas e exibições memoráveis rubro-negras no clássico: os 4 a 1 de 1976, os 4 a 0 de 1978, os 3 a 0 da tarde de 1982 em que um torcedor adversário invadiu o gramado do Maracanã para implorá-lo clemência, quando o placar dilatado já se anunciava com menos de meia hora de partida. Ainda assim, quando o camisa 10 da Gávea pisou o gramado do estádio naquele extremamente ensolarado domingo de 16 de fevereiro de 1986, pela rodada de abertura do Campeonato Carioca, a torcida adversária se julgou no direito de espezinhá-lo, de diminuí-lo, de decretá-lo acabado. Do lado direito das cabines de rádio, onde a torcida tricolor se aboletara, partiu o grito: “Bichado! Bichado!”.

A bem da verdade, o termo já havia sido proferido no ano anterior pelo ex-presidente rubro-negro Antônio Augusto Dunshee de Abranches, numa tentativa de justificar a venda do jogador para a Itália concretizada em maio de 1983. “Ele (Zico) estava bichado, a verdade é essa. Zico jamais será o mesmo. Ele era o arco e a flecha. Armava e voava para finalizar. Agora, no máximo, poderá armar”, disse Dunshee, o homem que fez-se fotografar enxugando supostas lágrimas na camisa 10 rubro-negra quando do anúncio da venda – e acabou flagrado sorrindo de orelha a orelha no instante seguinte por algum fotógrafo mais atento.

zico 1985Zico, também é verdade, não voltou ao Brasil nas melhores condições físicas após o período na Itália. O desleixo da comissão técnica da Udinese com sua preparação alarmou o então responsável pelo cargo na Seleção, o gaúcho Gilberto Tim: “Estão acabando com você. Volte para o Brasil”, aconselhou Tim, em encontro com o Galinho em Roma. Para piorar, em 29 de agosto de 1985, numa partida pela segunda rodada da Taça Guanabara, o meia sofreu a infame e covarde voadora do lateral banguense Márcio Nunes, que provocou nada menos que cinco lesões, entre elas o rompimento do ligamento cruzado do joelho esquerdo. Pouco menos de um mês depois, foi escalado no sacrifício no Fla-Flu daquele turno, que terminaria 0 a 0, mas com a péssima – e óbvia – notícia do agravamento da lesão. Zico precisaria ser operado.

PONTOS DE INTERROGAÇÃO

Nos quatro meses e meio que se seguiram, Zico virou uma incógnita no futebol. Teria condições físicas de voltar a jogar? E como seu jogo estaria, do ponto de vista técnico, depois de operado? Feita a elipse, voltamos àquela tarde de 16 de fevereiro de 1986, dia seguinte à convocação do grupo de 29 jogadores escolhidos por Telê Santana para a preparação visando à Copa do México. Em campo no Maracanã, seis selecionados: Leandro, Mozer, Sócrates – que estrearia oficialmente como rubro-negro – e Zico pelo lado do Flamengo; o goleiro Paulo Vitor e o lateral Branco pelo lado do Fluminense. Havia ainda os anteriormente cotados, mas que acabaram ficando de fora da lista e tinham no clássico uma vitrine para tentarem uma última cartada, aproveitando-se de um ou outro corte: os rubro-negros Andrade, Adílio e Bebeto e os tricolores Ricardo Gomes, Jandir e Tato. Por fim, o Flu também contava com Romerito, nome certo do Paraguai no Mundial.

O primeiro a entrar em campo é o Fluminense, tricampeão carioca nos três anos em que Zico esteve ausente do Flamengo (por motivos de Udinese e Márcio Nunes), e em cujo vestiário uma faixa exulta: “Feliz 1986, ano do tetra”. Sem contrato, o meia Delei e o centroavante Washington são os desfalques, mas todos os selecionáveis estão em campo. Em seguida vem o Rubro-Negro, com o camisa 10 puxando a fila do Fla na subida do túnel. E os gritos tricolores disparam: “Bichado! Bichado!”. Bola rolando, e em sua primeira participação, o Galinho ajuda Bebeto a desarmar Romerito no rebote de uma cobrança de falta do Flu e ligar um bom contra-ataque com Sócrates.

A MAGIA ENTRA EM CAMPO

Perto dos 11 minutos, Zico dá bom passe a Bebeto, e a jogada vai seguindo, mas o árbitro Luís Carlos Félix prefere ignorar a lei da vantagem e marcar uma infração no Galinho um pouco mais para trás, o que irrita a torcida do Fla. Zico então cobra a falta rasteira, tabelando com Adílio, recebe de volta, contorna a marcação e passa a Bebeto na entrada da área. O lateral-direito Alexandre Torres, estreante no Tricolor, faz o corte por baixo, mas a bola sobra para Adílio na esquerda. O Brown cruza à meia altura, para o mergulho de Zico num peixinho sensacional. É seu 15º gol no clássico, o 698º da carreira. Imediatamente os gritos de “bichado” silenciam.

Zico primeiro golO Flu reinicia o jogo. Alexandre Torres desce pela direita e é desarmado por Zico. Logo mais à frente o Galinho ganha no pé de ferro uma dividida com o duro volante tricolor Jandir. Dois minutos depois, faz grande lançamento para Jorginho na direita, o lateral cruza e o centroavante Chiquinho fura. Aos 19, acerta o bico do travessão de Paulo Vitor em sensacional cobrança de falta. No toque de bola rubro-negro, Zico sobressai, sem errar um lance sequer. Enquanto Sócrates – também se recuperando de lesão (uma fratura na tíbia esquerda) – tem atuação mais discreta, apenas orientando os mais jovens e jogando recuado quase como um volante ao lado de Andrade, o camisa 10 é visto dando combate, armando, desarmando, lançando, tabelando. Uma atuação impecável vai se desenhando.

Na segunda metade da etapa inicial o jogo esfria um pouco e o Fluminense ameaça em cabeçada forte de Ricardo Gomes, espalmada por Cantarele em lance de muito reflexo. Zico responde aos 32, servindo Chiquinho na entrada da área com uma bola passada pelo buraco da agulha em meio às pernas tricolores, mas o centroavante não dá sequência. Embora melhor, com mais controle do meio-campo durante o primeiro tempo, o Fla sofre o empate aos 44: Romerito escapa pela esquerda da área e é travado no carrinho por Andrade. Sem hesitar, Luís Carlos Félix apita pênalti. Leomir bate à meia altura no canto esquerdo de Cantarele, deixa tudo igual, e os tricolores vão comemorar perto da bandeirinha de escanteio com gestos e acenos de adeus para a torcida rubro-negra. Mal sabiam o que os esperava na etapa final.

SEGUNDO TEMPO

Logo aos três minutos, Adílio passa a Bebeto na linha da pequena área, mas, desequilibrado, o camisa 7 perde a chance. Aos seis, após boa troca de passes, Zico manda um chute venenoso, encaixado pelo arqueiro tricolor. Aos nove, o Galinho gira sobre Vica na área e dá um passe genial de calcanhar por entre as pernas do zagueiro tricolor para Adalberto, que bate forte, mas Paulo Vitor espalma. Aos 20, Adílio lança por elevação para Sócrates na área, a zaga tricolor corta, e a bola sobra para Bebeto. O baianinho bate rasteiro e forte, de primeira, mas Branco salva quase em cima da linha. O Flamengo encurrala o Fluminense, todo recuado em seu próprio campo.

De tanto pressionar, vem a catarse: aos 26, Andrade avança em velocidade e a um passo da linha da área – a torcida chegou a pedir pênalti – é parado com falta dupla de Vica e Renato. Zico se apresenta e a torcida rubro-negra prende a respiração. Lá vai o craque, lá vai a bola alçando voo, flutuando sobre toda a superpovoada grande área tal qual um satélite na órbita terrestre, até descair, bem ao se aproximar das traves do estático Paulo Vitor, que só pôde acompanhar com os olhos, num santo golpe de vista. Estufando as redes, bem na gaveta, o 15º gol de Zico no clássico e o de número 699 na carreira.

Sequência completa do segundo gol de ZicoDepois da pintura histórica, o Flu dá o braço a torcer: a tarde, já começo de noite, é e vai ser de Zico. O Galinho recebe boa bola de Adalberto, gira e ginga na frente de Vica e bate forte para o arqueiro tricolor espalmar. Aos 29, Chiquinho rouba a bola quase na linha do meio-campo, entrega a Sócrates e recebe de volta do Doutor um belo passe em profundidade pela ponta direita, puxando a marcação. E serve a Bebeto, que aparece como um raio, não se intimida com a presença de Vica e enche o pé num tiro cruzado. É o terceiro gol. A torcida rubro-negra explode: “Flu, Flu, Flu, vai tomar no c…”.

Atônito, o Fluminense resolve abrir a caixa de ferramentas. Vica entra pra rachar em Chiquinho e mais tarde dá uma rasteira no centroavante. Ao fim do jogo, Zico relataria a conversa que teve com Romerito naquele momento, com a bola parada: “Ele começou a mandar o seu time bater. Cheguei perto dele e pedi pra que não fizesse isso. Ele me respondeu que também me quebraria. É por isso que custo a acreditar que ele quebrou a perna do Pires (volante vascaíno que se lesionara gravemente numa dividida com o tricolor em 1985) sem querer”. Aos jornalistas, o paraguaio contemporizou: “Apenas pedi a meus companheiros para chegarem junto”.

Quatro minutos depois do terceiro gol, Bebeto apanha a sobra de um bumba-meu-boi entre Branco e Jorginho, avança em velocidade, deixa Vica para trás outra vez e leva um trança-pé do zagueiro dentro da área, perto da linha de fundo. Pênalti. E lá vai Zico mais uma vez vencer Paulo Vitor. É goleada, 4 a 1 Flamengo. Gol de número 16 de Zico no clássico. E o 700 da carreira. Com o placar definido, o Galinho ainda tira outras cartas da manga: num ataque tricolor, afasta o perigo da boca da área rubro-negra com uma bicicleta, que liga um contragolpe. Um minuto depois, na meia esquerda, desarma o ponteiro Edson, avança e passa a Bebeto, que faz o corta-luz para Chiquinho soltar uma bomba rasteira que dá trabalho ao arqueiro tricolor. Esmerilhando, o Flamengo toca a bola, dá olé, gasta o tempo. Quando Luís Carlos Félix apita o fim da partida, a bola está nos pés de Zico. É justo.

Trancado no vestiário após o jogo, Zico se lembra de tudo que enfrentara até aquele retorno e chora. São dez minutos de desabafo de um atleta que derrota na raça e no talento as desconfianças e os limites do próprio corpo. De um craque que nunca mais perderia para o Fluminense até o fim da carreira no Flamengo – encerrada, aliás, com mais uma goleada sobre os tricolores, 5 a 0 em Juiz de Fora, em dezembro de 1989, depois de outra vitória elástica, 4 a 0, em abril daquele ano. De um ídolo que ainda daria muitas alegrias ao povo rubro-negro, entre elas a campanha memorável na reta final da Copa União, no ano seguinte. E de um gênio que acaba de presentear seu público com uma das maiores atuações individuais que o velho Maracanã já viu. E seguramente a maior de um “bichado”. Certo, tricolores?

O time que goleou o Fluminense por 4 a 1 na estreia do Estadual de 1986 - em pé: Leandro, Cantarelli, Mozer, Andrade, Jorginho e Adalberto; agachados: Bebeto, Sócrates, Chiquinho, Zico e Adílio.

O time que goleou o Fluminense por 4 a 1 na estreia do Estadual de 1986 – em pé: Leandro, Cantarele, Mozer, Andrade, Jorginho e Adalberto; agachados: Bebeto, Sócrates, Chiquinho, Zico e Adílio.

FLAMENGO 4 x 1 FLUMINENSE

Maracanã (Rio de Janeiro), domingo, 16 de fevereiro de 1986
Campeonato Carioca – Taça Guanabara – 1ª rodada
Público: 84.303 – Renda: Cr$ 2.349.345.000
Árbitro: Luís Carlos Félix
Cartões amarelos: Ricardo Gomes, Jandir e Leomir, todos do Fluminense

Gols: Zico aos 10 (1-0); Leomir, de pênalti, aos 43 (1-1) do primeiro tempo. Zico aos 27 (2-1); Bebeto aos 29 (3-1); e Zico, de pênalti, aos 34 (4-1) do segundo tempo.

Flamengo: 1. Cantarele; 2. Jorginho, 3. Leandro, 4. Mozer, 5. Adalberto; 6. Andrade, 8. Sócrates, 10. Zico; 7. Bebeto, 9. Chiquinho, 11. Adílio. Técnico: Sebastião Lazaroni.

Fluminense: 1. Paulo Vítor; 4. Alexandre Torres (13. Renato Martins, 16’/2ºT), 3. Vica, 2. Ricardo Gomes, 6. Branco; 5. Jandir, 8. Leomir, 10. Renê; 7. Romerito, 9. Gallo (15. Edson, 31’/2ºT), 11. Tato. Técnico: Nelsinho Rosa.

Abaixo, o jogo na íntegra:

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