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Zico se prepara para estufar as redes tricolores e abrir a goleada.

Zico se prepara para estufar as redes tricolores e abrir a goleada.

“Jogador por jogador é uma covardia. O Fluminense esmaga. O ataque do Flamengo só tem Zico”, avalia um torcedor após o alto-falante do Maracanã anunciar as escalações. “Dá até medo ouvir isso”, diz outro, rubro-negro, no mesmo instante, em outro ponto do estádio. De fato, o Tricolor ostenta um elenco estelar nessa tarde de domingo, 7 de março de 1976. Mesmo desfalcado de Rivelino, com febre, é franco favorito para o clássico. Do outro lado, embora invicto há 16 jogos e tendo enfrentado em amistosos equipes como São Paulo, Corinthians, Internacional e Grêmio (duas vezes), o Rubro-Negro é considerado tecnicamente inferior, ainda que despontem alguns jovens bons de bola. A expectativa é de uma grande exibição da “Máquina” das Laranjeiras, com o time da Gávea servindo de sparring. Em tese.

Há no entanto um jogador no elenco rubro-negro disposto não só a equilibrar a balança do favoritismo como também chamar para si o protagonismo do clássico. É Zico, 23 anos completados na quarta-feira anterior, 3 de março. Credenciais para isso não lhe faltam: vencedor da Bola de Ouro da revista Placar como melhor jogador do Campeonato Brasileiro de 1974; artilheiro do Campeonato Carioca de 1975, com expressivos 30 gols (marca que não era alcançada no certame do Rio desde 1949); 1975 - zico-reidorioconvocado pelo técnico Oswaldo Brandão, estreia enfim na Seleção Brasileira em fevereiro de 1976 de maneira brilhante: marcando o gol da vitória nos triunfos sobre o Uruguai em Montevidéu e a Argentina em Buenos Aires, em partidas pela Copa do Atlântico. Vira “el fenómeno” para os vizinhos. E aqui no Brasil, para o cronista tricolor Nelson Rodrigues em sua coluna no jornal O Globo, vira “o melhor jogador do mundo”.

Após dois meses e meio fechado para reparos, o velho Estádio Mário Filho reabre com um Fla-Flu repleto de novidades. Ao contrário dos últimos anos, aquele início de temporada é bastante movimentado: o Fluminense, presidido pelo histriônico jurista Francisco Horta, promove várias trocas de jogadores entre quatro dos principais clubes cariocas (o America foi sondado em algumas negociações, mas acabou não participando). Ainda em 19 de dezembro de 1975, após um jantar de Horta com o presidente rubro-negro Hélio Maurício, é anunciada a troca três-por-três entre os dois clubes, na qual os tricolores levam ampla vantagem técnica. O goleiro Renato, o lateral Rodrigues Neto e o atacante Doval (os dois primeiros com passagem pela Seleção e o último, ídolo da torcida do Fla) tomam o rumo das Laranjeiras, enquanto o goleiro Roberto, o lateral Toninho e o ponta-esquerda Zé Roberto seguem para a Gávea.

Mais tarde, a troca envolve tricolores e alvinegros: o Flu cede o ponta Mário Sérgio, o atacante Manfrini e paga mais Cr$ 500 mil ao Botafogo pelo também ponta Dirceu. E por fim, a negociação com o Vasco leva para São Januário o lateral-esquerdo Marco Antônio, o volante Zé Mário e o zagueiro Abel (este por empréstimo de um ano com preço do passe fixado) em troca do beque central Miguel, além de Cr$ 1 milhão em dinheiro. Além das trocas, o Tricolor traz de volta, depois de 12 anos, o lateral-direito Carlos Alberto Torres, revelado pelo clube e contratado a princípio para atuar na zaga. Os reforços vão se juntar à base do ano anterior, que conta com astros de primeira grandeza como Rivelino e Paulo César Caju, o veterano arqueiro Félix, o ponta “Búfalo” Gil e bons jovens como o zagueiro Edinho e os meias Carlos Alberto Pintinho, Cléber e Erivelto.

Observado por Vanderlei, Paulinho e Tadeu, o técnico gaúcho Carlos Froner comanda treino na Gávea em fevereiro de 1976.

Observado por Vanderlei, Paulinho e Tadeu, o técnico gaúcho Carlos Froner comanda treino na Gávea em fevereiro de 1976.

O Fla-Flu, marcado para 7 de março, Dia do Cronista Esportivo, vale a Taça Nelson Rodrigues e também é bastante comentado. Doval, jogando pela primeira vez contra o clube que o fez ídolo no Rio de Janeiro, promete “pelo menos dois gols”. Seria a vingança do atacante após um desentendimento com o técnico rubro-negro, o gaúcho Carlos Froner – ainda que o argentino se recuse a tocar no nome do treinador. Do outro lado está o agora rubro-negro Toninho, lateral de potência física invejável, muito bom no apoio pelas pontas até a linha de fundo, mas a quem o técnico tricolor Didi insistia teimosamente em fazer com que atuasse fechando pelo meio no apoio, o que matava sua característica de fôlego e explosão. Na semifinal do Brasileiro do ano anterior, Toninho atuara – mal – fazendo a função que o treinador queria e acabaria culpado por ele da derrota e da eliminação diante do Internacional. Para Didi, Toninho tinha “bloqueio mental”.

O mundo dá voltas, e naquele 7 de março Didi é o demissionário técnico do Fluminense, que já anunciou outro ex-craque, Jair Rosa Pinto, para o posto. O velho Jajá de Barra Mansa assiste ao jogo das cabines do Maracanã. Além dele, outros quase 88 mil torcedores, animados com aquele aperitivo de luxo para a temporada, comparecem ao Maior do Mundo. O Tricolor leva a campo, orgulhoso, os três ex-rubro-negros que levou na troca: Renato no gol, Rodrigues Neto na lateral direita (o ex-juvenil Carlinhos ocupa o lado esquerdo) e Doval no comando do ataque. Já o técnico rubro-negro Carlos Froner, como que para evidenciar a desvantagem sofrida na negociação, escala apenas Toninho entre os titulares. Roberto fica no banco, na reserva do prata-da-casa Cantarele, e Zé Roberto, voltando de lesão, nem é relacionado.

Mas não demora muito e a suposta inferioridade técnica do Flamengo é plenamente superada com organização tática, defesa bem postada, muita luta e a atuação deslumbrante de seu camisa 10, comandando as ações. Aos 14 minutos, Paulinho desce pela direita, centra, Renato não segura, e a bola – que procura o craque – pousa aos pés de Zico para o chute forte do garoto de Quintino, estufando a rede e abrindo o placar. 1 a 0, assim termina o primeiro tempo, placar modesto diante do banho de bola rubro-negro.

zico 1976 - primeiro gol

Após o intervalo, logo no início surge a chance do empate tricolor quando Merica toca a bola com a mão dentro da área. Pênalti apontado pelo árbitro Aírton Vieira de Morais, o Sansão. Carlos Alberto Torres bate e iguala o placar. Mas o 1 a 1 é ilusório. Até que vem uma falta para o Fla na intermediária tricolor aos 20 minutos. Barreira armada, empurra daqui, catimba dali e Zico, responsável pela cobrança, apenas olha. Dá dois passos. E a bola sobrevoa as cabeças tricolores, faz uma curva inesperada e indescritível e vai morrer bem no ângulo de Renato. 2 a 1.

Desorganizado, o Fluminense vai todo à frente, deixando apenas três jogadores na retaguarda. No buraco entre o setor defensivo e o meio-campo tricolor, Zico e Geraldo deitam e rolam, trocando passes, lances de efeito e abrindo as jogadas pelas pontas (por onde descem com liberdade não só Paulinho e Luís Paulo, como também os laterais Toninho e Junior). Rendido pelas tramas do ataque rubro-negro, Carlos Alberto Torres comete pênalti no 10 rubro-negro aos 22, mas Sansão deixa passar. Não faz mal. Três minutos depois, Caio Cambalhota, o substituto de Paulinho na ponta direita, avança pelo setor, tenta o passe para Zico, a bola estoura na coxa do Capita no meio do caminho, mas sobra à feição do Galinho, que dispara um petardo. 3 a 1.

zico 1976 - terceiro gol

E tinha mais. Aos 35, o Fla troca passes. Bola de pé em pé, passando por quase todos jogadores. Na entrada da área, chega aos pés de Geraldo. E com um sutil e magistral toque de calcanhar, o Assoviador deixa Zico na cara do gol. É caixa. 4 a 1. O Flamengo então passa a administrar o resultado, mas o Galinho dá bronca e quer jogo. No fim, quase faz mais um. Mas de qualquer maneira, já está na história. Com a sacolada desse 7 de março de 1976, o jogador torna-se o primeiro – e até hoje único – jogador a marcar quatro vezes num Fla-Flu na Era Maracanã. E ainda iguala o recorde histórico do clássico, empatando com os quatro marcados por Pirillo em junho de 1945 e pelo tricolor Simões em janeiro de 1949. Após o jogo, nos vestiários, o Galinho e os jogadores do Fla recebem a visita do cantor rubro-negro Jorge Ben, que mostra a canção que acabara de compor: “É falta na entrada da área / Adivinha quem vai bater? / É o camisa 10 da Gávea”…

zicovardiaNo dia seguinte, o Jornal dos Sports resume a atuação do craque numa manchete até hoje lembrada na primeira página: “Mengo tocou o Rolo, a galera cantou: – Enguiçou a Máquina, Doutor Horta? QUE ZICOVARDIA, PÔ!”.

Ao longo daquele ano, o time do Fluminense vai se ajeitar e conquistar o bicampeonato carioca – sem derrotar o Flamengo nenhuma vez, é bom que se diga, a exemplo do ano anterior – antes de cair nas semifinais do Brasileiro nos pênaltis diante do Corinthians em pleno Maracanã. Mas será um grande time de fôlego curto, e já em 1977, embora mantenha muitas de suas estrelas, estará em franca decadência.

Ao contrário do Flamengo, que logo a seguir iniciará o período mais vitorioso de sua história, levantando todos os títulos que a paparicada Máquina Tricolor não chegou nem perto de conquistar. Ao contrário de Toninho, o do “bloqueio mental”, que se destacará como um lateral-ponta na Gávea, disputará a Copa do Mundo de 1978 pelo Brasil, será convocado para uma Seleção do Mundo que enfrenta a Argentina em Buenos Aires em junho de 1979 e levantará o título brasileiro com o Fla no ano seguinte. E ao contrário de Zico, que naquele 7 de março de 1976 deu início a uma longa série de humilhações impostas ao clube das Laranjeiras. Zico em Fla-Flu era até covardia.

FLAMENGO 4 X 1 FLUMINENSE

Maracanã (Rio de Janeiro), domingo, 7 de março de 1976
Taça Nelson Rodrigues (amistoso)
Público pagante: 87.529 – Renda: Cr$ 1.576.143
Árbitro: Aírton Vieira de Morais
Cartão amarelo: Paulo César Caju

Gols: Zico aos 14 (1-0) do primeiro tempo. Carlos Alberto Torres, de pênalti, aos 8 (1-1), Zico aos 20 (2-1), 25 (3-1) e 35 (4-1) do segundo tempo.

Flamengo: Cantarele; Toninho (Vanderlei), Rondinelli, Jaime e Junior; Merica, Geraldo e Zico; Paulinho (Caio), Luisinho Lemos (Tadeu) e Luís Paulo. Técnico: Carlos Froner.

Fluminense: Renato; Rodrigues Neto, Carlos Alberto Torres, Edinho e Carlinhos; Carlos Alberto Pintinho, Cléber e Erivelto; Gil, Doval e Paulo César Caju. Técnico: Didi.

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