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Gaúcho

“Oh, que beleza! Mais um golaço do Gaúcho de cabeça!”. Naquele início dos anos 90, bola aérea no ataque rubro-negro era gol quase sempre certo, graças em grande parte ao centroavante Luís Carlos Tóffoli, o Gaúcho, falecido nesta quinta-feira aos 52 anos, em São Paulo. Artilheiro irreverente, imbatível no jogo aéreo pela excelente impulsão e posicionamento perfeito, mas também raçudo, brigador e de chute forte, foi ídolo incondicional da torcida rubro-negra, que vibrava quando ele balançava as redes e se divertia com suas provocações aos rivais e comemorações inspiradas.

O INÍCIO

O jovem Gaúcho, aos 18 anos, no Fla em 1982.

O jovem Gaúcho, aos 18 anos, no Fla em 1982.

Muitos não sabem, mas Gaúcho – nascido em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, em 7 de março de 1964 – defendeu o Flamengo ainda nas categorias de base, descoberto no Goiânia pelo olheiro rubro-negro Gilson Aguiar, o Mineiro, e trazido para a Gávea em maio de 1982. Chegou como zagueiro, mas logo foi passado para o ataque, fazendo a função de ponta-direita e, posteriormente, centroavante. Nos juniores, formou uma linha atacante com Bebeto, Gilmar Popoca e o atacante Vinícius. Em agosto daquele ano, chegou a figurar numa reportagem da revista Placar sobre a busca pelo “novo Zico” nas categorias inferiores do clube. Além dele, apareciam na matéria os meias Gilmar Popoca, Élder, Wallace (filho de Silva, o Batuta, ídolo do Fla nos anos 60) e Adílson Heleno, o ponta Zinho, além dos atacantes Afrânio e China, que sumiriam na poeira.

Um pouco antes, em 6 de junho de 1982, havia feito sua estreia entre os profissionais, substituindo Lico numa vitória de 2 a 0 sobre a Desportiva, num amistoso em Cariacica. E apenas em outubro de 1984 voltaria a ter chance no time de cima, substituindo Edmar num empate em 1 a 1 com o Olaria na Rua Bariri pela Taça Rio. Assim, com pouco espaço no elenco, no começo de 1985 acabou envolvido em uma troca com o XV de Piracicaba, que levou o atacante e outras três promessas da base do Fla, além de cerca de Cr$ 65 milhões, para o interior paulista em troca do semidesconhecido lateral Carlúcio, que notoriamente não vingou na Gávea.

Depois de rodar por vários clubes brasileiros e até pelo Yomiuri (depois Verdy Kawasaki) num Japão pré-Zico, Gaúcho esteve para entrar para a história do Fla como carrasco. Em outubro de 1988, era o camisa 9 do Palmeiras num duelo contra o Rubro-Negro no Maracanã pelo segundo turno do Campeonato Brasileiro. Durante a partida, teve que ir para o gol substituindo Zetti, que havia fraturado a perna. Empatado em 1 a 1 nos 90 minutos, o jogo foi para os pênaltis, como previa o regulamento. E Gaúcho defendeu as cobranças de Aldair e Zinho, dando a vitória aos paulistas.

O MUNDO DÁ VOLTAS

gaúchoMas os caminhos da bola trataram de prover a devida reparação a essa história, e com folga. Preterido no Alviverde, quase foi parar no Fluminense, mas acabou acertando com o Flamengo, por empréstimo de um ano no valor de US$ 100 mil, em janeiro de 1990. Curiosamente, para o primeiro Fla irremediavelmente sem Zico, aposentado no fim do ano anterior. A estreia – ou melhor, reestreia – veio em 11 de fevereiro, contra a Cabofriense na Gávea. O Fla venceu por 3 a 1 e Gaúcho marcou o segundo gol. “Levando-se em conta o mau condicionamento físico, até que jogou bem, marcando um gol e sempre aparecendo na área”, avaliou o Jornal do Brasil. E depois do primeiro, desembestou a fazer gols, 14 ao todo naquele Estadual (para se ter uma ideia, os goleadores do campeão Botafogo foram o atacante Donizete e o lateral Paulo Roberto, com cinco cada). Se a campanha rubro-negra esteve bem longe de ser comemorada, na artilharia não houve discussão, graças também às grandes tabelinhas na área com o conterrâneo Renato Gaúcho, de quem se tornou grande amigo até o fim da vida.

Os primeiros canecos vestindo a camisa rubro-negra vieram em agosto, bem longe do Rio e do Brasil: no dia 6, o Fla retornou a Tóquio, o sagrado palco do título mundial interclubes, e levantou a Copa Sharp, arrasando o bom time espanhol da Real Sociedad por 7 a 0. Gaúcho fez três, Renato outros dois, Bujica e Bobô completaram a goleada. Já no dia 12, o time faturou a Copa Marlboro no piso sintético do Giants Stadium, em Nova Jersey (EUA), vencendo o Alianza Lima peruano por 1 a 0, gol do centroavante. Mais tarde, naquele primeiro ano como titular do Flamengo, o goleador contribuiria com cinco gols para a campanha do primeiro título da Copa do Brasil na história do clube, o que lhe valeria também a artilharia do torneio. Ao todo, na temporada, o camisa 9 balançou as redes expressivas 38 vezes.

O camisa 9 encara a defesa da Real Sociedad em Tóquio.

O camisa 9 encara a defesa da Real Sociedad em Tóquio.

1991, O ANO DA CONSAGRAÇÃO

Contratado em definitivo no fim de dezembro, Gaúcho não reeditaria em 1991, entretanto, a dupla com Renato, negociado com o Botafogo no começo daquele ano após extensas tratativas. Seria agora a principal figura do ataque rubro-negro, rodeado pelos talentosos garotos campeões da Copa São Paulo no ano anterior e que se juntariam ao elenco ao longo do ano – os apelidados Gaúcho’s Boys. Se pelo Brasileiro atuaria apenas dez vezes, marcando quatro gols, o desempenho na Libertadores foi melhor. Balançou as redes seis vezes: uma contra o Corinthians no Pacaembu (2 a 0 Fla), duas contra o Nacional uruguaio no Maracanã (4 a 0 Fla), três na vitória contra o Deportivo Táchira na Venezuela pelas oitavas de final (3 a 2 Fla), mais uma no jogo de volta no Maracanã (5 a 0 Fla) e outra na vitória de 2 a 1 sobre o Boca Juniors no Rio, pelas quartas de final.

O título continental não veio, com a eliminação diante dos xeneizes com derrota na Bombonera, numa partida com arbitragem caseira do uruguaio Ernesto Filippi (marcou pênalti discutível contra o Fla logo no início, inverteu faltas, invalidou um gol de Marquinhos e expulsou Wilson Gottardo e o próprio Gaúcho por reclamação – o pacote completo). Mas o centroavante saiu por cima, artilheiro da competição com seus oito gols. Curiosamente, logo depois teria passagem relâmpago pelo próprio Boca, emprestado pelo Flamengo para disputar apenas os dois jogos da decisão do Campeonato Argentino, o qual o clube azul e amarelo perderia nos pênaltis para o Newell’s Old Boys.

Retornando ao Fla, daria prosseguimento a sua grande temporada pelo segundo semestre, com o título da edição inaugural da Copa Rio – na qual marcou um dos gols na decisão contra o Americano (3 a 0 Fla) – e a consagração definitiva no Estadual. Agora dirigido pelo mestre Carlinhos, o Violino, o centroavante fez grande dupla de frente com o garoto Paulo Nunes, além de ser permanentemente municiado com ótimos lançamentos de Junior, Marcelinho, Marquinhos, Djalminha e Nélio, e sobretudo os cruzamentos na medida dos laterais Charles Guerreiro e Piá.

o artilheiro cabeçaArtilheiro fanfarrão e falastrão, Gaúcho era do estilo que gostava de antecipar seus feitos: em setembro de 1991, o Flamengo vinha de um jejum de oito partidas sem vencer o Botafogo pelo Campeonato Estadual. “Pode ter certeza de que isso acaba no domingo”, anunciou. Dito e feito. O camisa 9 marcou o gol da vitória por 2 a 1, em jogo pela Taça Guanabara. Também costumava batizar seus tentos: na Taça Rio daquele ano marcou contra o São Cristóvão o “gol asa-delta”, dias depois de saltar da rampa da Pedra Bonita, em São Conrado, Zona Sul carioca. E foi um dos primeiros a lançar mão das coreografias – como o trenzinho e o “aí eu vou pra galera”, uma referência ao personagem Seu Boneco, do humorístico Escolinha do Professor Raimundo – para comemorar os gols, que marcariam o futebol brasileiro a partir daquela década.

Como reza a cartilha do goleador folclórico, também não dispensava uma provocação pelos jornais. Ou, quando confrontado, respondia em campo. Ainda em setembro daquele ano, num jogo contra o Vasco, não poupou ironia e língua afiada para criticar a violência do meia Geovani. Quando Nélio marcou o segundo gol da vitória rubro-negra por 2 a 1, aos 25 minutos do segundo tempo, o centroavante pegou a bola, correu e entregou nas mãos do armador cruzmaltino. “Quis mostrar que nós estávamos ali para jogar futebol, o que o Geovani não queria, e ainda mandei dois beijinhos para ele como forma de comemoração. Ele ficou o tempo inteiro provocando, dando tapas fora dos lances e fazendo faltas sempre muito violentas”, criticou, antes de arrematar, de sola: “Daquele tamanho não pode ficar fazendo muita gracinha. Pensa que é alguma coisa porque jogou fora do Brasil? Pra mim, foi passear. E ainda voltou para perder mais uma”, espinafrou.

gaúcho - vasco 1991Na reta final daquele Estadual, enciumado com o destaque dado a Gaúcho, o centroavante botafoguense Chicão resolveu alfinetar, chamando o rubro-negro de “cavalo paraguaio”, enquanto se comparava a um “puro sangue inglês”, que “larga depois para chegar na frente” na corrida dos goleadores. A resposta não tardou: Gaúcho marcaria o gol da vitória (1 a 0) sobre o Botafogo no jogo extra que decidiu a Taça Rio, num tirambaço da entrada da área que alijou os alvinegros da disputa pelo tri Carioca (foi o gol “beijinho, beijinho, tchau, tchau”, como definiu o centroavante em alusão ao bordão da apresentadora Xuxa). E como se não bastasse, terminou novamente na liderança da tabela de artilheiros, com 17 gols – três a mais que sua própria marca do ano anterior e quatro à frente do botafoguense. Antes daquela partida, aliás, já havia sacado outra pérola do repertório de frases. Perguntado se o Flamengo temia o rápido atacante botafoguense Valdeir, apelidado The Flash, Gaúcho cunhou um apelido para si e seu jogo aéreo letal: “Se eles têm The Flash, nós temos The Flyer (o voador)”.

ENFIM O TÍTULO BRASILEIRO

Poucos goleadores estiveram tão inspirados quanto o centroavante rubro-negro naquele ano de 1991. Terminou a temporada como artilheiro da Taça Libertadores, da Supercopa e do Campeonato Estadual (com um gol na vitória por 4 a 2 sobre o Fluminense na decisão), além de novamente ser o principal goleador rubro-negro, com 35 gols. A forma excepcional continuou pelo começo de 1992: nas cinco primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, disputado no primeiro semestre, o centroavante balançou as redes quatro vezes, duas delas em um jogaço no Maracanã contra o poderoso São Paulo de Telê Santana, atual campeão brasileiro e em vias de conquistar a Taça Libertadores. No entanto, depois do início arrasador vieram a má fase técnica e uma distensão na coxa esquerda que o tirou de ação por quase dois meses. Das 12 partidas do Fla no Brasileiro entre o fim de fevereiro e o de maio, ele disputou apenas quatro, passando em branco em todas. Chegou a desperdiçar um pênalti na derrota de 0 a 1 para o Bragantino no Maracanã.

Tudo isso foi devidamente deixado para trás na reta final da primeira fase, com uma grande atuação contra o Goiás no Maracanã, pela penúltima rodada, em 24 de maio: dois gols na vitória por 3 a 1, crucial para manter as chances de classificação rubro-negras para as semifinais. Nesta próxima fase, o camisa 9 marcou apenas uma vez, na vitória de 3 a 1 sobre o Santos, na última rodada. Mas foi fundamental: além de ter forçado o segundo gol do Flamengo – marcado contra, de cabeça, pelo volante Bernardo -, o goleador selou a classificação rubro-negra, que andara ameaçada, marcando o terceiro, no fim do jogo.

A decisão contra o Botafogo, favorito pela campanha que havia feito até ali e contando com a simpatia da crônica esportiva pelo estilo ofensivo, foi histórica. Até porque o Flamengo se lembrou de que estava diante de um recente freguês de caderno: agora já não perdia para o rival da Estrela Solitária há seis jogos (que chegariam a oito após a final). E Gaúcho reencontraria o velho parceiro Renato, um dos principais símbolos da boa campanha alvinegra, com quem resolveu fazer uma aposta antes da primeira partida: quem perdesse o jogo pagaria um churrasco ao vencedor.

Em campo, o Flamengo deitou e rolou. Destruiu o Botafogo ainda no primeiro tempo com gols de Junior, Nélio e Gaúcho – em lance típico, antecipando-se ao goleiro Ricardo Cruz com uma cabeçada certeira, após cruzamento preciso de Piá – em pouco menos de 40 minutos. No dia seguinte, o pagamento da aposta virou matéria no Globo Esporte e polêmica das grossas nos jornais, com a torcida botafoguense furiosa, exigindo a demissão de Renato – no que foi atendida. No jogo da volta, o Fla chegou a abrir 2 a 0, deixando o adversário empatar no fim (graças a um pênalti duvidoso de Fabinho em Valdeir, apontado por José Roberto Wright). Mas nada tirou da Gávea a segunda conquista nacional de Gaúcho pelo clube.

O OCASO DO GOLEADOR

Infelizmente a maior conquista de Gaúcho no Flamengo foi também seu último grande momento com as cores rubro-negras. No opaco Campeonato Carioca de 1992, disputado sem Maracanã, em reparos após a tragédia que matou torcedores antes da decisão do Brasileiro, o centroavante entrou em campo apenas 15 vezes, marcando só quatro gols – todos na Taça Guanabara. Para 1993, teria de volta o velho companheiro Renato, trazido pelo Fla do Cruzeiro, mas outro reforço seria o também centroavante Nílson, ex-Grêmio, Inter, Portuguesa e Corinthians. Com o clube brigando em nada menos que três frentes apenas naquele primeiro semestre (Estadual, Copa do Brasil e Libertadores ao mesmo tempo), havia a necessidade de revezamento do elenco – embora se aventasse até a possibilidade de o time, ainda dirigido por Carlinhos naquele começo de ano, entrar com dois homens de área.

Mas Gaúcho fez apenas 10 gols (sete pelo Carioca, um pela Copa do Brasil e dois pela Libertadores) nos 28 jogos em que participou (em oito deles vindo do banco). Balançou a rede vestindo rubro-negro pela última vez no dia 10 de maio, na vitória por 3 a 1 sobre o Bonsucesso, em Moça Bonita, pela Taça Rio. Em junho, fora dos planos do treinador Evaristo de Macedo – já então o terceiro do clube naquele ano hiperbólico em números e vazio em títulos – acabou negociado com o pequeno Lecce, recém-promovido à Série A italiana, que vivia seu auge técnico e financeiro na época. Mas o centroavante pouco fez por lá. Depois voltou ao Brasil e rodou por vários outros clubes, inclusive o rival Fluminense, até pendurar as chuteiras em 1996, aos 32 anos.

Depois de quase 20 anos vivendo como criador de gado no Mato Grosso, Gaúcho reapareceu no Rio em 2014. Matou a saudade da sede da Gávea, reviu velhos companheiros e ganhou homenagem do clube por seu aniversário antes de uma partida contra o Nova Iguaçu, pelo Carioca. Voltou a sentir o afeto da torcida rubro-negra e se emocionou – e a torcida se comoveu junto, revivendo os grandes saltos e voos do camisa 9 para balançar as redes dos adversários 98 vezes nas exatas 200 partidas disputadas pelo artilheiro com a camisa do Fla. Como ele mesmo se definiu em 1991, “a área é minha casa. Botou a bola lá, eu meto gol”. Agora, seu lugar passa a ser a eternidade dentro dos corações rubro-negros. Vai em paz, goleador.

Gaúcho e Charles Guerreiro erguem a taça do Brasileiro de 1992.

Gaúcho e Charles Guerreiro, dois símbolos de raça daquele Flamengo, erguem a taça do Brasileiro de 1992.

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