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jaime de carvalho - com faixaHá um clima diferente no estádio das Laranjeiras nesta tarde de 11 de outubro de 1942 na qual o Fluminense recebe o Flamengo, que tem desafio decisivo para a conquista do título de campeão carioca do ano. Além da habitual multidão que acompanha a partida em seus trajes de domingo – e em se tratando do local, o rigor na vestimenta é um pouco mais nítido – e que aplaude e grita seus “uuuh” nos lances perigosos, há um grupo curioso. Estão uniformizados, vestindo camisas nas cores vermelha e preta, similares às do Flamengo, mas não são jogadores do clube. À frente, carregam um estandarte de proporções significativas no qual se lê “Avante Flamengo!”. E, sobretudo, fazem um barulho infernal com seus instrumentos de sopro e percussão.

A partida termina empatada em 1 a 1, resultado que em campo dá o título ao Flamengo (ainda há de se aguardar a definição de um recurso judicial do Botafogo). Os jogadores estouram champanhe e comemoram no gramado. Mas a curiosidade geral fica mesmo por conta daquela bandinha nunca antes vista num estádio de futebol do Rio de Janeiro – aliás, nenhuma outra antes havia sido. Nos cafés, nos bares, nos corsos, os desfiles de torcedores em automóveis pelas ruas comemorando títulos e grandes vitórias, até havia música eventualmente. Mas dentro do estádio, era a primeira vez. Num misto de intrigado e indignado com a desafinação do grupo, Ary Barroso, o popularíssimo locutor da Rádio Nacional, a maior do Brasil, proclamaria depois em seu programa: “Mas isso não é uma banda nem aqui nem no caixa-prego. Isso aí é uma charanga!”. Pronto: estava estreada, notada e batizada a Charanga Rubro-Negra. Fundada e comandada por Jaime de Carvalho, que viria a falecer em 4 de maio de 1976, há exatos 40 anos.

Conta a história que, em 1927, chegou ao Rio de Janeiro um jovem chamado Jaime Rodrigues de Carvalho, baiano de Salvador, nascido em 9 de dezembro de 1911 (tinha 15 para 16 anos, portanto). Aportara na cidade vindo em um “ita”, velho navio a vapor da Companhia Nacional de Navegação Costeira que fazia transporte de cargas e passageiros do norte ao sul do Brasil. E, num domingo, foi prontamente foi levado a um jogo do Fluminense, no estádio das Laranjeiras. Gostou do que viu e, já que não tinha então preferências clubísticas na capital da República, adotou o tricolor. Dias depois, resolveu então conhecer a requintada sede do clube, mas foi barrado. No mais elitista dos grandes clubes cariocas, não haveria mesmo hipótese de aquele garoto recém-chegado do nordeste transitar pelas mesmas áreas reservadas aos sócios aristocratas.

Cabisbaixo, sem saber muito bem o que fazer para passar o tempo até a hora de apanhar a condução para voltar ao subúrbio onde morava, num instinto atravessou a Rua Guanabara (hoje Pinheiro Machado). Do outro lado, quase em frente, havia outro estádio: o da Rua Paissandu, onde jogava e treinava o Flamengo. Encontrou o portão aberto e entrou. Simples assim. Debruçou-se sobre a mureta que separava o gramado da arquibancada de madeira e ali ficou, acompanhando o “apronto” (como se chamava o treino na época) dos jogadores. Sentiu-se em casa e foi ficando, ficando. Acompanhou toda a reta final da campanha épica por meio da qual um Flamengo que começara o torneio com elenco esfacelado ganharia o título, contra todas as possibilidades. Era o ano em que se criou a mística rubro-negra da “camisa que joga sozinha”. Aí não teve mais jeito, o garoto Jaime virou o mais vibrante flamenguista nas vitórias e o mais abatido nas derrotas.

A Charanga saúda o Flamengo bicampeão carioca em 1943, em foto da revista Esporte Ilustrado.

A Charanga saúda o Flamengo bicampeão carioca em 1943, em foto da revista Esporte Ilustrado.

Já crescido, tornou-se funcionário público e conheceu Laura, portuguesa de nascimento mas tão ferrenha rubro-negra quanto ele. Casaram-se e passaram a ir juntos aos jogos do Flamengo. Certo dia, na reta final daquele acirrado campeonato de 1942, sentiram a necessidade de um impulso mais vigoroso vindo das arquibancadas para empurrar o time. Uma empurrão extra, um sopro de vitalidade e um toque marcial para comandar o tropel vermelho e preto rumo às vitórias. Reuniram um grupo de amigos, cerca de 20 pessoas, alguns deles instrumentistas, e rumaram para o estádio. “O Flamengo precisava mais do que nunca de incentivo. A partida era em casa de inimigo. Então tivemos a ideia de fazer uma faixa que dizia: Avante, Flamengo! Foi o primeiro sucesso”, relembrou Dona Laura em depoimento. “Hoje você encontra em qualquer loja bandeiras prontas. Mas naquela época tínhamos que comprar peças inteiras de flanela, em preto e vermelho. O metro custava 500 réis”.

Torcedor uniformizado, bandeiras do clube, banda de música no estádio, nada disso existia no futebol carioca antes da Charanga de Jaime de Carvalho. O terceiro item, entretanto, enfrentou rejeição no começo: gente da crônica esportiva andou chiando, alegando que a música atrapalhava a concentração dos jogadores. A dos jogadores adversários, a bem da verdade: num jogo contra o São Cristóvão, em 1943, a banda se posicionou atrás do gol defendido pelo arqueiro cadete e mandou ver. O Flamengo goleou por 4 a 0 e o infeliz goleiro saiu de sua área para reclamar com o árbitro dos instrumentistas que tocavam sem parar. O clube alvo chegou a levar o protesto à Federação, pedindo a anulação da partida, mas presidente da entidade, Vargas Netto, não viu motivo para tamanha revolta: era manifestação espontânea das arquibancadas.

Outro jogo contra o São Cristóvão, este no estádio de Figueira de Melo pelo mesmo campeonato de 1943, não saiu da memória de Jaime enquanto viveu, mas por motivos bem mais tristes: logo aos 13 minutos, o Flamengo abriu o placar com Vevé, e na euforia da comemoração, parte das velhas arquibancadas de madeira não resistiu e veio abaixo, deixando mais de 200 feridos. “Acalmei muita gente, a Charanga parou de tocar, os músicos atendendo pessoas machucadas. Houve duas ou três mortes, muitos ferimentos. Jogo suspenso e depois concluído no campo do Vasco. Emoções, emoções fortes”, relembrou o fundador em depoimento à revista Grandes Clubes Brasileiros.

Nos anos 40 e 50, antes de partir para os estádios espalhados pela cidade, a concentração da Charanga se dava quase sempre na Galeria Cruzeiro, no Largo da Carioca, centro do Rio (onde hoje se localiza o Edifício Avenida Central). Ali perto havia o terminal de bondes popularmente conhecido como “Tabuleiro da Baiana”, de onde a turma partia para seu destino. O grupo inclusive pedia aos jornais que divulgassem os detalhes na véspera dos jogos para que mais torcedores e até instrumentistas o acompanhassem. Mas a preparação começava na noite anterior, na casa dos fundadores, com dona Laura botando o feijão no fogo para preparar a alimentação da tropa.

Embora a Charanga tenha sido considerada durante muito tempo a primeira torcida organizada do Brasil, há quem conteste. Alguns cruzmaltinos afirmam, sem conseguir evidenciar, que a Torcida Organizada do Vasco (TOV) surgira também em 1942, mas meses antes da Charanga, embora só tenha sido oficialmente instituída em 1944. Na capital paulista, os torcedores do São Paulo citam como precursor o Grêmio Sampaulino, criado em 1939 e pouco tempo depois rebatizado Torcida Uniformizada do São Paulo (Tusp) – ainda que para fazer parte dele fosse necessário ser também sócio do São Paulo. E mesmo na história do Flamengo há um movimento que precede todos esses em pelo menos uma década: a Ala Flamenga, criada em 1927 por um grupo de 21 estudantes (curiosamente, em sua maioria mulheres) do colégio Atheneu Luso Carioca.

Jaime de Carvalho comanda a Charanga em foto de 1953 publicada na revista Careta.

De bandeira na mão, Jaime de Carvalho comanda a Charanga em foto de 1953 publicada na revista Careta.

Mas o pioneirismo de Jaime de Carvalho – e de Dona Laura, seu braço direito – é reconhecido até pelos rivais: o próprio Vasco chegou a homenageá-lo com o título de Chefe dos Chefes de Torcida, em cerimônia oficial e festiva em São Januário. Depois dele é que viriam outros populares comandantes da massa no futebol do Rio (como a vascaína Dulce Rosalina, o tricolor Paulista e o botafoguense Tarzã). As torcidas dos outros clubes, que vieram depois, também se beneficiaram do reconhecimento do meio do futebol ao líder da Charanga: foi ele quem comandou as negociações para que algumas salas do Maracanã fossem postas à disposição de todas elas para que guardassem suas bandeiras e instrumentos musicais, e que incluíam ainda uma pequena oficina, para reparos dos materiais. “Chego cedo porque preciso varrer a sala, tirar o pó dos troféus, sacudir bandeiras, pendurar faixas nas grades da arquibancada, preparar os instrumentos. Só depois disso tudo, vou sentar na arquibancada e esperar o jogo”, assim descrevia Dona Laura, líder do grupo após a morte do marido e também já falecida (em outubro de 2009), sua rotina no antigo maior estádio do mundo.

Além de fazer história no Flamengo, a Charanga também apoiou a Seleção Brasileira por várias décadas. Começou na Copa Rio Branco de 1947, conquistada pelo escrete contra os uruguaios após um empate no Pacaembu e uma vitória em São Januário. Na véspera desta segunda partida, Jaime de Carvalho chegou a divulgar pelos jornais as orientações para a torcida brasileira quanto aos cânticos e à resposta do público aos toques da banda. Mas o momento de consagração veio na partida contra a Espanha, pela Copa do Mundo de 1950, já no Maracanã. Foi a Charanga quem puxou “Touradas de Madri”, marchinha do compositor Braguinha entoada a plenos pulmões pelas quase 200 mil pessoas presentes ao estádio durante a goleada brasileira por 6 a 1, em um dos momentos mais memoráveis e uma das vitórias mais avassaladoras do Brasil em Copas do Mundo. Daí em diante, Jaime de Carvalho também viajaria para os Mundiais de 1954, 1962 e 1974 (além de Eliminatórias e Campeonatos Sul-Americanos) para comandar a torcida brasileira.

O repertório foi incorporando marchinhas, temas carnavalescos, hinos, e até standards do jazz conforme músicos mais novos iam entrando. E a torcida também virou, ela própria, música: a marchinha “Charanga do Flamengo”, de Felisberto e Fernando Martins. Foi ainda citada no popularíssimo “Samba Rubro-Negro”, de Wilson Batista, aquele que, depois de dizer “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã”, também decretava: “Pode chover, pode o sol me queimar / Eu vou pra ver a Charanga do Jaime tocar”. E a Charanga tocava sem parar um instante. Era um dos preceitos básicos, apoiar até o fim, em qualquer circunstância. O outro era que seus acompanhantes jamais poderiam proferir palavras ou expressões consideradas de baixo calão a quem quer que fosse, juiz, adversário, torcedor rival, treinador ou jogador do clube.

Jaime de Carvalho, entre a bandeira rubro-negra e o arranjo de flores, na festa de entrega das faixas do time tricampeão carioca. Maracanã, abril de 1956. (Foto: Acervo Última Hora)

Em meados dos anos 60, o estresse dos jogos fez com que Jaime começasse a pagar pela dedicação com a própria saúde, sofrendo com quadro de pressão alta e diabetes. Se retirou por um tempo, passando o comando a Dona Laura e ao então fiel escudeiro Ernesto Escovino, na mesma época em que começavam a surgir novas torcidas rubro-negras, oriundas de dissidências da Charanga. Recebeu diversas homenagens e títulos de honra no início da década seguinte, quando retornou às arquibancadas. Mas, acometido por um câncer, foi internado no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto teve forças, enviava quase diariamente mensagens aos torcedores pelo jornais com lemas do clube, como “O Flamengo ensina a amar o Brasil sobre todas as coisas”, ou “Onde encontrares um flamengo, encontrarás um amigo”. Jaime faleceu em 4 de maio de 1976 – ano particularmente doloroso para o clube em termos de perdas humanas – e foi sepultado vestindo o Manto.

Ofuscada pelos novos grupos de torcedores, de diferentes filosofias, a Charanga caiu no ostracismo pelo fim dos anos 1980, participando apenas de eventos na sede da Gávea, até ser resgatada pelo clube em 2008, um ano antes da morte de Dona Laura. Seu legado, porém, está em toda bandinha presente em qualquer canto de estádio do Brasil, que deve não só o nome como sua existência ao grupo de Jaime de Carvalho. E em todo rubro-negro (ou torcedor de qualquer clube) que sai às ruas com a camisa de seu time em dia de jogo ou não. Com sua vibração alegre, perene e furiosa, a Charanga fez história no futebol brasileiro.

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