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Moacir, habilidosomeia rubro-negro, em foto publicada na contracapa da última edição da revista Esporte Ilustrado, em dezembro de 1956.

Moacir, habilidoso meia rubro-negro, em foto publicada na contracapa da última edição da revista Esporte Ilustrado, em dezembro de 1956.

Um dos quatro jogadores do Flamengo a conquistarem pela Seleção Brasileira a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, o meia Moacir Claudino Pinto completa 80 anos de idade nesta quarta-feira. Jogador de muita técnica, perito nos dribles curtos e cortes secos nos adversários, preciso nos passes e lançamentos, e que também auxiliava na marcação quando necessário, ajudou a dar prosseguimento a uma longa linhagem de camisas 8 rubro-negros que aliavam elegância e malícia, como Zizinho, Rubens (o Doutor Rúbis) e os posteriores Geraldo Assoviador e Adílio. Hoje, porém, Moacir não costuma ser muito lembrado pelos torcedores e até pela imprensa na hora de listar os grandes jogadores que passaram pelo clube, ao contrário de Joel, Dida e Zagallo, companheiros presentes àquele Mundial.

Existem algumas explicações possíveis. A primeira é que, apesar de ter sido quase sempre titular, sua passagem pelo time profissional do Flamengo durou pouco mais de quatro anos, de novembro de 1956 a março de 1961, relativamente curta para aqueles tempos em que os jogadores costumavam permanecer o dobro do tempo, ou até mais. Deixou a sensação de ter explodido precocemente e, em vista disso, ter encerrado seu ciclo na Gávea mais cedo do que deveria, antes que pudesse se eternizar no coração e na memória da maioria dos torcedores. Outro agravante é a falta de títulos marcantes neste período, especialmente no Carioca, já que o meia esteve na equipe bem no meio do jejum na competição que durou entre o tricampeonato encerrado em 1955 e a conquista de 1963 – o que é uma meia verdade, como explicaremos mais adiante.

NA INFÂNCIA, O DRAMA DO ABANDONO

Na época em que jogou, no entanto, era um ídolo do povo rubro-negro, que vibrava com seu futebol moleque. E essa idolatria, juntamente com o carinho que recebia da massa, ajudava a esquecer um histórico de rejeição. Tudo começou aos seis anos de idade, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde nasceu e passou a primeira parte da infância, numa casa modesta com o pai ferroviário, a mãe e os oito irmãos. Como o próprio Moacir lembrou em depoimento recente: “Meu pai me deu um dinheiro e mandou jogar no bicho. Fui jogar uma peladinha e deixei o dinheiro embaixo de uma pedra. Eram seis da tarde. Depois, fui procurar o dinheiro, mas o campo era cheio de pedras e eu não encontrei”. Aflito, já temia o que o aguardava. “Meu pai me deu uma tremenda surra. Aí me trancou com as galinhas, uma noite terrivelmente fria”, relembra.

Tomou então a decisão que mudaria radicalmente sua vida, não sem deixar sequelas futuras: fugiu de casa, acabando por parar na delegacia. Aguardou por três dias que algum parente viesse busca-lo, e nada. Dado como abandonado, foi levado a um orfanato de Osasco, onde passou o restante da infância e a adolescência. A categoria que demonstrava nas peladas que jogava na instituição fez do diretor do orfanato seu grande admirador, além de impulsionador de sua carreira: era amigo do então presidente rubro-negro Gilberto Cardoso, conseguiu convencê-lo a levar o garoto ao Rio de Janeiro para um teste na Gávea. Aprovado, passou a morar na concentração do clube, pelo qual fez todo o processo de base. Era 1954. Apesar do porte físico franzino e da baixa estatura (1,63m) sua habilidade assombrosa com a bola se destacava. Dois anos depois, além de arrebentar nos juvenis, ajudou o clube a conquistar o título da categoria aspirantes, encerrando hegemonia do Fluminense.

Moacir é cumprimentado no vestiário rubro-negro no Maracanã, em 1959. Ao seu lado, Jordan. E ao fundo, Dequinha. (Foto: Acervo Última Hora)

Moacir é cumprimentado no vestiário rubro-negro no Maracanã, em 1959. Ao seu lado, Jordan. E ao fundo, Dequinha. (Foto: Acervo Última Hora)

NOVO TALENTO DA GÁVEA

Também naquele ano, em 24 de novembro, faria sua estreia pelo time profissional do Flamengo, que tentava o tetracampeonato carioca, mas não vinha em situação muito favorável naquela reta final, acumulando tropeços. Naquele dia, o Fla não teria Evaristo, e o técnico Fleitas Solich recorreu então ao garoto habilidoso dos aspirantes para vestir a 10 contra o Bangu no Maracanã. Moacir não só não se intimidou como teve uma atuação de encher os olhos, digna de veterano. Marcou um golaço, o terceiro na vitória por 3 a 1, passando por Décio e Zózimo antes de trocar de pé para chutar forte e estufar as redes de Nadinho. Foi tão bem em seu primeiro jogo que acabou nomeado para a seleção da rodada da revista Esporte Ilustrado e do jornal Correio da Manhã. Em 9 de novembro, disputaria seu segundo e último jogo naquele ano, um Fla-Flu vencido pelos rubro-negros por 1 a 0. O time acabou não conseguindo alcançar o Vasco, que ficou com a taça, mas ganhou um talento notável em seu meio-campo.

Time do Flamengo no jogo de estreia de Moacir, contra o Bangu, em novembro de 1956. Em pé: Tomires, Ari, Pavão, Milton Copolilo, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Moacir e Zagallo.

Time do Flamengo no jogo de estreia de Moacir, contra o Bangu, em novembro de 1956. Em pé: Tomires, Ari, Pavão, Milton Copolilo, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Moacir e Zagallo.

Então chega 1957, a primeira das quatro temporadas completas em que Moacir seria titular do Rubro-Negro. E já começaria brilhando, com dois gols na vitória por 5 a 3 sobre os suecos do AIK, em amistoso que abriu a temporada internacional no Maracanã. Mas os visitantes mais ilustres daquele começo de ano seriam os húngaros do Honved, trazendo Puskas, Kocsis, Czibor e todos os seus demais craques. No primeiro jogo do desafio, o Flamengo surpreendeu: mesmo com nada menos que seis desfalques – não jogaram Jadir, Dequinha, Jordan (a linha média inteira), Joel, Índio e Zagallo – entre lesionados e atletas cedidos à seleção carioca, arrasou os atônitos húngaros vencendo por 6 a 4.

Coube a Moacir abrir o placar aos 24 minutos do primeiro tempo pegando o rebote de uma cobrança de falta de Paulinho que desviou na barreira e acertou a trave. Para o jornal Última Hora, o meia foi “o dono da cancha”, o grande responsável pelo Flamengo ter dominado o setor, fator fundamental para a grande vitória naquele primeiro confronto. Ao avaliar individualmente as atuações, Albert Laurence deu nota 9 ao jovem talento, concluindo: “Moacir confirmou que é um jogador completo, de grande futuro, realmente. Mostrou coisas realmente excepcionais no domínio e entrega da bola”.

Nas semanas seguintes, Moacir voltaria a enfrentar o Honved cinco vezes, quatro pelo Flamengo (perdendo no Pacaembu e no Maracanã, mas vencendo e empatando em partidas disputadas em Caracas, na Venezuela) e uma pelo combinado Flamengo-Botafogo no Maracanã, entrando no lugar de Dida e fazendo uma assistência para Evaristo marcar o último gol na vitória por 6 a 2. Suas atuações nestas partidas – em seus oito primeiros jogos pelo Fla, já havia anotado seis gols – chamaram tanto a atenção que o técnico da seleção carioca, o ex-centroavante Sylvio Pirillo, fazia questão de contar com o jovem para as partidas decisivas do Campeonato Brasileiro de Seleções, contra os paulistas, mas acabou não sendo cedido. Outra Seleção, a Brasileira, o aguardaria para breve.

A primeira convocação para o time da CBD viria em junho, depois das grandes atuações do meia no Torneio Rio-São Paulo no mês anterior. Contra o Santos, em 5 de maio, Moacir ofuscou um jovem de 16 anos que debutaria naquele dia no Maracanã – um certo Pelé – com assistências para três gols da vitória rubro-negra por 4 a 0. No último, mesmo marcado por três adversários, deu passe milimétrico por elevação para Joel fechar a goleada. Naquele torneio, o Fla não levaria o título, ficando na segunda colocação empatado com o Vasco e atrás do invicto Fluminense, mas a equipe – e Moacir – teria outras atuações destacadas, como nas goleadas de 4 a 0 sobre o Corinthians em pleno Pacaembu e 4 a 1 sobre o Botafogo.

Vale lembrar que o elenco rubro-negro passava por grande reformulação: Evaristo havia acabado de ser negociado com o Barcelona; Paulinho saíra para o Palmeiras; Índio faria suas últimas partidas pelo clube naquele torneio, transferindo-se em seguida para o Corinthians; e o ex-ídolo Rubens, definitivamente em baixa com Fleitas Solich, seria emprestado ao Santa Cruz e não voltaria a defender o Fla. Para os lugares destes e de outros craques, o treinador paraguaio contava com Moacir, intocável como meia-armador, e outros jovens recrutados dos aspirantes, como o centroavante Henrique, o curinga do ataque Luís Carlos, o zagueiro Milton Copolilo e o lateral-direito Joubert, além de finalmente firmar Dida como titular e dono da camisa 10.

ESTREIA NA SELEÇÃO

Pouco menos de oito meses depois de estrear no profissional do Flamengo, Moacir já fazia sua primeira partida pelo Brasil, em 11 de junho, contra Portugal no Maracanã. Sylvio Pirillo, agora treinador da Seleção Brasileira, não desperdiçou a segunda oportunidade que teve de contar com ele, convocando-o para um time experimental, com vários estreantes, para testar as novidades depois de o escrete canarinho ter carimbado o passaporte para a Copa da Suécia em abril. O garoto entrou no lugar do santista Pagão – outro que debutava, e que saiu contundido – e melhorou a equipe, trabalhando ao lado de Zito e Didi e dando mais consistência defensiva e ofensiva ao meio-campo brasileiro, e contribuindo na vitória por 2 a 1.

O time do Fla que enfrentou o Combinado Vasco-Santos em 1957. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

O time do Fla que enfrentou o Combinado Vasco-Santos em 1957. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

Cedido à Seleção, Moacir ficou de fora da estreia do Flamengo no Torneio Internacional do Morumbi – organizado pelo São Paulo para arrecadar fundos para a construção de seu estádio – contra os iugoslavos do Dínamo de Zagreb. Mas estaria de volta, e marcando dois gols, na segunda partida, uma vitória fácil sobre os portugueses do Belenenses por 3 a 1. No último jogo da chave, em partida tensa contra um combinado Vasco-Santos (com sete santistas entre os titulares), um momento de antologia: com passe magistral de calcanhar pelo ar, fez a assistência para Dida abrir o placar para o Fla no empate em 1 a 1. Primeiro colocado da chave carioca, o Flamengo avançou para o quadrangular final, derrotando de saída e com facilidade o Corinthians por 3 a 1 no Pacaembu, largando na frente, diante do empate entre o São Paulo e o Combinado. Mas, dois dias depois, o Tricolor paulista anunciava o cancelamento do torneio, alegando rendas baixas e prejuízo, e reteria para si a taça, ignorando a condição do Flamengo de líder do turno final quando do encerramento.

Em setembro, Moacir integrou o time rubro-negro que vai à Espanha, convidado para atuar nos festejos de inauguração do estádio Camp Nou, do Barcelona. No dia 25 daquele mês, o Flamengo goleou o Burnley, na época uma das potências do futebol inglês, por 4 a 0, e o estilo de jogo moderno, habilidoso e envolvente dos brasileiros encantou a crônica da Catalunha. No Carioca, o Flamengo começou muito bem, com 13 vitórias nas primeiras 16 rodadas, e brigou cabeça-a-cabeça com Botafogo e Fluminense pelo título. Mas nas seis últimas rodadas (a partir de meados de novembro) começou a patinar: venceu apenas o Vasco (repetindo os 4 a 1 aplicados no primeiro turno), empatou quatro vezes e perdeu para o Fluminense, terminando o torneio com apenas duas derrotas – ambas para o Tricolor – mas na terceira colocação.

No primeiro semestre de 1958, o Flamengo virou a página e voltou a jogar o fino da bola. O time colhia resultados espetaculares e parecia que jogava de novo como uma máquina, o Rolo Compressor dos tempos do tricampeonato. O time reformulado ao longo de 1957 estava pronto: Fernando (ex-Bangu) no gol; Joubert e Jordan eram sobriedade e eficiência nas laterais; Pavão e Jadir esbanjavam força do miolo de zaga; Dequinha e Moacir, exuberantes, comandavam o jogo da meia-cancha; e Joel, Henrique, Dida e Zagallo formavam o ataque demolidor. A primeira demonstração de que aquele onze não estava para brincadeiras veio em 31 de janeiro, com uma vitória histórica e categórica sobre o Boca Juniors por 4 a 2 em plena Bombonera. Moacir marcou duas vezes, Zagallo e Dida completaram o placar.

No começo do Torneio Rio-São Paulo não foi diferente: estreou com grande vitória de 3 a 2 sobre o São Paulo na capital paulista, seguida por um 4 a 2 diante da Portuguesa no Maracanã e um épico 3 a 2 de virada (perdia por 2 a 0) para o Santos de Pelé no Pacaembu. Após uma derrota apertada para o America, o time se recuperou massacrando em sequência o Botafogo (4 a 0) e o Palmeiras (6 a 2). Contra o Alvinegro, Moacir fez partida de almanaque: ajudou Dequinha a anular Didi, movimentou-se incessantemente, acertou passes e lançamentos e ainda apareceu no ataque para chutar ao gol. Já sobre a partida contra o Alviverde, o novo técnico da Seleção Brasileira, Vicente Feola, que assistiu ao jogo das tribunas, comentou: “Este time do Flamengo é mesmo impressionante. Vi-o contra o Botafogo e agora. Sempre o mesmo. Muito bom em suas manobras e quase perfeito no estado físico. É uma equipe que mete até medo aos adversários”. No fim, tratou ainda de destacar um jogador em especial: “Como está jogando o Moacir!”.

Na reta final, o Fla venceu o Fluminense por 1 a 0, gol de Jordan, em jogo bastante equilibrado. Dois dias depois, empatou com o Vasco – com quem dividia a liderança – em 1 a 1, já mostrando sinais de cansaço. No último jogo, diante do Corinthians no Pacaembu, nada deu certo. Enfrentando um time Alvinegro bastante violento, desleal e inflamado pela torcida, além da complacência do árbitro, o Flamengo sofreu um gol na metade do primeiro tempo e perdeu Jadir por lesão logo aos 34 minutos. Seu substituto, o jovem aspirante Sergio, acabaria marcando contra o segundo gol corintiano. E Bataglia fecharia o placar aos 42, antes que uma verdadeira batalha campal tomasse conta do gramado, inclusive com policiais agredindo jogadores rubro-negros. O caminho, então, ficou livre para o Vasco levantar o troféu, quatro dias depois, ao golear a Portuguesa.

NA LISTA DA COPA

Na Seleção, em 1958.

Na Seleção, em 1958.

Mesmo sem a taça, a força da equipe do Flamengo ficou comprovada na lista prévia de 40 nomes para a Copa do Mundo de 1958, divulgada pela imprensa no final de março. Além de Moacir, que impressionara Feola, outros cinco rubro-negros constavam: Pavão, Jadir, Dequinha, Joel e Dida. Somente o São Paulo, clube onde o técnico da Seleção passara a maior parte de sua carreira, teve número maior (sete) de pré-convocados. Durante a primeira fase da preparação, em Poços de Caldas, o meia rubro-negro atraía cada vez mais admiradores e era o grande destaque dos treinamentos, mesmo atuando entre os reservas. Não foram poucas as vezes em que os suplentes derrotaram os titulares com participação irretocável do garoto da Gávea. Assim como não foram poucos os observadores que sugeriram sua inclusão entre os titulares no lugar de Didi.

Embora tivesse inclusive o técnico da Seleção como um de seus maiores admiradores, o meia rubro-negro se mantinha modesto, fazendo seu jogo simples e objetivo: “A grande verdade é que por enquanto estou apenas pensando em garantir a minha vaga para a Suécia. Não penso muito além disso, pois considero todos os elementos convocados como dignos de figurarem como titulares. Para ser sincero comigo mesmo, devo dizer que nem pensei em ser convocado para a Copa do Mundo. É verdade que sempre tive confiança em mim mesmo. Sabia que não faria feio se merecesse a honra”, disse à Última Hora.

Conta-se que foram nessas circunstâncias que Didi teria cunhado a célebre frase “treino é treino, jogo é jogo” para justificar sua permanência entre os titulares. Mas não é absurdo afirmar que o incômodo com a situação e a ameaça do ascendente Moacir forçaram o meia-armador alvinegro jogar tudo e mais um pouco na Suécia. Se não chegou a entrar em campo nos gramados suecos – naquele tempo não eram permitidas as substituições em jogos oficiais de competições da Fifa – o jovem rubro-negro foi um grande “motivador”, por assim dizer, das atuações memoráveis de Didi no Mundial.

Nas semanas que antecederam o embarque para o Mundial, Moacir foi um dos destaques da Seleção na goleada de 4 a 0 sobre a Bulgária no Maracanã, no penúltimo amistoso em terras brasileiras. Marcou dois gols e ajudou a furar o ferrolho búlgaro, num dia em que a linha atacante do escrete era praticamente toda rubro-negra: além dele, Joel, Dida e Zagallo compunham o quinteto, com o palmeirense Mazzola como “infiltrado”. Na Suécia, Moacir também esteve perto de um lugar no time, é verdade, na partida contra a Inglaterra, atuando na meia-esquerda, já que nem Dida nem Pelé estavam em boas condições físicas. Mas quem acabou deslocado para a função foi o Mazzola, entrando Vavá no comando do ataque. Mesmo assim, voltaria campeão do mundo.

O ataque quase integralmente rubro-negro da Seleção no amistoso contra a Bulgária em 1958: Joel, Moacir, o palmeirense Mazzola, Dida e Zagallo.

O ataque quase integralmente rubro-negro da Seleção no amistoso contra a Bulgária em 1958: Joel, Moacir, o palmeirense Mazzola, Dida e Zagallo.

O PRIMEIRO TÍTULO NO FLA: HEXAGONAL DE LIMA

Moacir sofreu críticas da imprensa por ter mostrado uma queda acentuada de rendimento na extensa fase final do Campeonato Carioca de 1958, em dois triangulares contra Vasco e Botafogo (os cruzmaltinos ficaram com a taça). No entanto, ainda naquele mesmo mês de janeiro de 1959 em que deixaria escapar sua maior chance de levantar o título do Rio de Janeiro, o meia se reabilitaria com grandes atuações no Torneio Hexagonal de Lima, no Peru, no qual acabaria enfrentando dois clubes sul-americanos os quais defenderia mais tarde, o Peñarol e o River Plate. O time rubro-negro estreou com derrota para os uruguaios por 2 a 0, mas Moacir foi aclamado como o melhor em campo. Em seguida, contribuiu com uma assistência na vitória de 2 a 0 sobre o Universitário peruano.

O jogo seguinte já colocaria o Flamengo na liderança do torneio: em apenas 22 minutos de jogo, vencia o Colo Colo por 4 a 0, com Moacir marcando o segundo. Na etapa final, os chilenos reagiram marcando duas vezes, mas a vitória não esteve nunca ameaçada. As credenciais rubro-negras seriam plenamente confirmadas na partida seguinte, uma goleada de 4 a 1 sobre o River Plate, em outra atuação exuberante de Moacir e de toda a equipe. Faltava o Alianza, diante de um estádio lotado de torcedores do time local. No primeiro tempo, entretanto, o Flamengo atuou bem abaixo do que vinha fazendo e saiu perdendo por 2 a 0. Na etapa final, logo aos nove minutos, sofreu o terceiro. Mas, já no minuto seguinte, iniciou uma reação incrível, marcando quatro vezes em oito minutos para vencer por 4 a 3 e levantar o título do torneio sul-americano, o primeiro troféu conquistado por Moacir no time de cima do Fla.

No restante da temporada, porém, o time se contentou com momentos esparsos de brilho, em algumas grandes vitórias com os 7 a 2 sobre o America e os 5 a 1 diante do Corinthians no Pacaembu, pelo Rio-São Paulo; os 6 a 2 sobre o Botafogo no Carioca (única vitória rubro-negra nos clássicos daquela competição); e os 3 a 0 sobre o forte Spartak Moscou, em amistoso no Maracanã.

Uma formação do Flamengo durante o Carioca de 1960. Em pé: Joubert, Ari, o paraguaio Monín, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Othon, Moacir, Henrique, Gerson e Babá.

Uma formação do Flamengo durante o Carioca de 1960. Em pé: Joubert, Ari, o paraguaio Monín, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Othon, Moacir, Henrique, Gerson e Babá.

FLA SE RENOVA, MAS MOACIR AINDA BRILHA

A temporada de 1960 foi outra bastante opaca do time rubro-negro, de um modo geral. Comandado no primeiro semestre pelo paraguaio Modesto Bria, centromédio do time do primeiro tri, e posteriormente por Fleitas Solich, de volta após a experiência no Real Madrid, o Flamengo não chegou a brigar seriamente por nenhum dos títulos que disputou. Havia, no entanto, uma nova safra de talentos que surgia, e três nomes mereciam destaque: o volante Carlinhos, legítimo sucessor de Dequinha na classe e na liderança; o ponta Germano, negro arisco e driblador; e o meia Gerson, de qualidade técnica indiscutível e que provocaria uma disputa de posições no time titular, já que poderia atuar tanto de meia-armador no lugar de Moacir quanto de ponta-de-lança na função de Dida. Ainda naquele ano, o meia faria sua sétima e última partida pela Seleção (a única depois da Copa da Suécia), na goleada de 5 a 1 sobre a Argentina pela Taça do Atlântico, no Maracanã. Mas entrou nos 15 minutos finais e não teve tempo para mostrar jogo.

Pelo Flamengo, duas das grandes atuações do meia naquela temporada vieram em raros jogos nos quais o time se mostrou coeso, bem equilibrado entre os setores e organizado em campo. Coincidentemente, aconteceram em clássicos vencidos de virada pelo placar de 3 a 1. O primeiro deles contra o Botafogo, em 24 de março, pelo Rio-São Paulo. A Última Hora rasgou elogios a Moacir, autor do terceiro gol rubro-negro. Para o jornal, o meia foi “sempre grande figura”, “a mola mestra, com desembaraço e eficiência”, “inteligente e astuto, brilhando, provando que é craque de fato”. Albert Laurence, outra vez encarregado de avaliar as atuações, apontou o jogador como o melhor em campo: “teve uma atuação estupenda, evoluindo com elegância, clarividência e acerto, marcando um belíssimo gol”. O segundo triunfo foi o do Fla-Flu do returno do Carioca, em 20 de novembro, e quebrou longa série invicta do Tricolor no campeonato. Novamente formando um trio de meio-campo com Carlinhos e Gerson, Moacir comandou uma grande reação, marcando ainda um belo gol, o segundo do time. Sobre esta exibição, Laurence escreveu: “Moacir também demonstrou que quando está em boa condição física, continua sendo um dos melhores meias-armadores do país”.

O Torneio Octogonal Internacional de Verão disputado em janeiro de 1961 no Rio, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu, e que teve sua história contada aqui, foi a segunda conquista de Moacir pelo Flamengo. O meia começou a competição como reserva, para o desgosto da maioria dos torcedores (uma nota na Última Hora dizia: “A torcida do Flamengo não se conforma, vendo o meia Moacir na reserva. Contra o São Paulo, quando foi anunciado que Moacir substituiria Luís Carlos, houve grande euforia entre os rubro-negros”), mas contribuía muito quando entrava. Já no primeiro jogo marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians no Pacaembu. E na quarta rodada, no 1 a 0 sobre o River Plate em Buenos Aires, era enfim titular. Jogou até na ponta-direita, improvisado, como contra o Nacional em Montevidéu, mas foi muito importante no título.

Em seguida viria o Torneio Rio-São Paulo, que seria a terceira conquista –a única oficial – do armador na Gávea. Porém sua participação ficou restrita à estreia, na boa vitória sobre o São Paulo por 2 a 1 no Pacaembu, na qual entrou no lugar de Henrique e teria boa atuação. Era peça importante do elenco e parecia que seria bem mais utilizado na campanha, mas um ato considerado de indisciplina teria desfecho dramático. Depois da partida, o Flamengo permaneceu na capital paulista, onde enfrentaria o Palmeiras na quarta-feira. Na noite de segunda, porém, os jogadores ganharam do técnico Fleitas Solich cinco horas de folga. Convidados pelo futuro rubro-negro Almir Pernambuquinho, na época jogador do Corinthians, Moacir e outros três jogadores do Flamengo comemoraram a vitória do dia anterior no apartamento do atacante corintiano com bate-papo, som alto, mulheres e bebida alcoólica – esta última, algo que o treinador paraguaio sabidamente não tolerava em hipótese alguma. Na reapresentação, houve atrito sério. E a corda arrebentou para Moacir, imediatamente negociado com o River Plate – por Cr$ 7 milhões (mais Cr$ 2 milhões de luvas) – e, assim como os demais, multado em 40% do salário. O que se comentava na época era que o Solich tinha a intenção de passar um “pente fino” no elenco, o que em temporadas anteriores já havia provocado a saída de alguns ídolos do clube.

Moacir no River, na capa da revista argentina El Grafico de 31 de maio de 1961.

Moacir no River, na capa da revista argentina El Grafico de 31 de maio de 1961.

No River, Moacir jogaria até o fim daquele ano e não conquistaria títulos, mas seria sempre lembrado por um gol de falta antológico, batido quase da linha de fundo, num clássico diante do Boca Juniors. Viraria ainda título de conto (“El Ocho era Moacyr”) do escritor Roberto Fontanarrosa. Seguiria para o Peñarol no ano seguinte, pelo qual conquistaria o Campeonato Uruguaio e jogaria a final da Libertadores, perdendo para o Santos. De lá, separou-se da esposa e dos dois filhos e rumou para o Equador, onde defenderia o Everest e o Barcelona de Guayaquil. Ainda passaria pelo futebol peruano, defendendo o Carlos A. Manucci, antes de retornar ao país anterior, no qual trabalharia como técnico. Durante décadas, perdeu contato com os familiares – o qual só foi retomar em 2008, quando veio ao Brasil para um reencontro emocionado com o filho mais novo.

A vida no Equador – onde novamente se casou, foi pai e reside até hoje – também não tem sido fácil, enfrentando graves dificuldades financeiras e problemas de saúde. Mas nunca esqueceu o Flamengo, o qual visitou em 2012: “Joguei em muitos times e países, mas o Flamengo é o único que eu gosto no mundo”, costuma repetir. Ou mais ainda: para ele, o Flamengo foi sua primeira experiência verdadeira de família.

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