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O time do Flamengo na final contra o Vasco. Em pé: Leandro, Zé Carlos, Aldair, Jorginho, Andrade e Guto. Agachados: Bebeto, Adílio, Aílton, Vinícius e Marquinho.

O time do Flamengo na final contra o Vasco. Em pé: Leandro, Zé Carlos, Aldair, Jorginho, Andrade e Guto. Agachados: Bebeto, Adílio, Aílton, Vinícius e Marquinho.

Cantarele, Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Sócrates e Zico; Bebeto, Chiquinho e Adílio. No papel, um timaço. Em tese, este seria o Flamengo que disputaria aquele Campeonato Carioca de 1986, tentando reconquistar o título o qual vinha batendo na trave nos quatro anos anteriores. Foi esta escalação, aliás, a que entrou em campo na primeira partida, em goleada arrasadora por 4 a 1 sobre o tricampeão Fluminense, contada aqui. Porém, após inúmeros percalços, especialmente as lesões e convocações para a Copa do Mundo do México (que interrompeu o Estadual), seria um outro Flamengo, bem diferente – e bastante rejuvenescido -, o que chegaria enfim ao caneco em decisão diante do Vasco, naquele 10 de agosto de 1986.

O pontapé inicial do Carioca de 1986 veio no domingo, 16 de fevereiro, véspera da apresentação dos jogadores da Seleção Brasileira convocados na sexta-feira anterior pelo técnico Telê Santana. Todos os chamados desfalcariam suas equipes durante o longo processo de preparação para o Mundial do México, até pelo menos a divulgação da lista final dos 22 que iriam à Copa, em maio. De cara, Flamengo e Fluminense foram os maiores prejudicados. O Rubro-Negro perdeu sua dupla de zaga (Leandro e Mozer), além dos armadores Zico e Sócrates. Já o tricolor ficou sem o goleiro Paulo Victor e o lateral-esquerdo Branco – além de, um pouco depois, perder o paraguaio Romerito para a seleção de seu país.

Entre as outras quatro forças, o grande favorito não só a fazer frente à dupla Fla-Flu, mas também ao título, era o Vasco. Sem nenhum convocado, poderia contar integralmente com seus bons jogadores, como os goleiros Paulo Sérgio e Acácio, o lateral Paulo Roberto, o zagueiro Donato, o volante Vítor, além das revelações Lira e Mazinho e de seu intimidador quarteto de frente, formado por Mauricinho, Geovani, Roberto Dinamite e um jovem de 20 anos cotado como provável sensação do campeonato: Romário. Dos demais, o Botafogo vinha afundado em crise técnica aparentemente sem fim (havia terminado a Taça Rio, no fim do ano anterior, na décima colocação entre 12 clubes); o America mostrava uma equipe pouco mais que aguerrida; e o Bangu, grande destaque carioca em 1985, vivia o anticlímax após a grande temporada, com seus principais jogadores em má fase, o técnico Moisés contestado, além da disputa paralela – e aborrecida – da Taça Libertadores.

Mesmo desfalcado de seus jogadores da Seleção, o Fla manteve o nível da goleada sobre o Fluminense da estreia na partida seguinte, um categórico 4 a 0 sobre a Portuguesa na Ilha do Governador (estádio onde o Fla havia tropeçado em suas duas últimas visitas, em 1982 e 1985). No lugar de Leandro e Mozer, estavam os novatos Guto e Zé Carlos II. No meio, em vez de Zico e Sócrates, havia agora Valtinho (filho de Silva, o Batuta, craque e ídolo rubro-negro dos anos 60) e o loirinho Júlio César Barbosa criando e combatendo. E na frente havia Bebeto, que marcou duas vezes (uma delas de pênalti sofrido por ele mesmo), com Chiquinho e Valtinho completando o marcador.

O jovem time rubro-negro comemora a vitória sobre o Botafogo.

O jovem time rubro-negro comemora a vitória sobre o Botafogo.

Pela terceira rodada, outra grande atuação em mais uma vitória num clássico, agora diante do Botafogo. Chiquinho abriu o placar logo no início e Bebeto completou ainda no primeiro tempo. Com grandes atuações nas três partidas, o baianinho credenciava-se cada vez mais a ser o grande nome da equipe e a se firmar como um grande jogador do futebol brasileiro. Naquela tarde no Maracanã, havia feito jogada genial ao driblar o goleiro alvinegro Luís Carlos com uma ginga de corpo exatamente como Pelé havia feito com o uruguaio Mazurkiewicz na Copa de 1970. Mas o lance acabou anulado injustamente, antes que o jovem rubro-negro pudesse tocar para as redes, por um impedimento mal marcado.

Na partida contra o Mesquita, pela quarta rodada, a lista de desfalques aumentou: Adílio sofreu entorse no joelho esquerdo. Ficaria fora de ação pelo resto da Taça Guanabara e o início da Taça Rio. Naquela partida, disputada no estádio Caio Martins e vencida pelo Fla por 3 a 1, entraria em seu lugar um ponta-esquerda da base, estreando no time profissional aos 18 anos de idade, chamado Zinho. Foi também naquele jogo que outro jovem recém-promovido dos juniores atuaria pela primeira vez como titular do Fla num jogo oficial: o quarto-zagueiro baiano Aldair, de 20 anos.

Aos poucos, a garotada tomaria conta da equipe. Mas para o treinador rubro-negro, não haveria nenhum problema. O mineiro Sebastião Lazaroni, de apenas 35 anos, trabalhava no clube desde meados da década de 70, como preparador físico, auxiliar técnico e, posteriormente, dirigindo as categorias de base. Conhecia bem o potencial de cada garoto daquele elenco. Naquele momento, vivia sua primeira experiência como treinador efetivo de uma equipe principal, iniciada em outubro de 1985, quando substituiu Joubert durante o Campeonato Carioca, e após uma breve passagem como interino, meses antes. Formado em Educação Física e estudioso do futebol, Lazaroni sabia ainda aliar a disciplina tática à motivação dos atletas, fazendo do Flamengo um time aguerrido, combativo, veloz, mas sem medo de atacar.

Marquinho, Guto e Valtinho encaram o Goytacaz em Campos.

Marquinho, Guto e Valtinho encaram o Goytacaz em Campos.

Com seus garotos, o Flamengo de Lazaroni seguiu no encalço do completo Vasco, com quem passou toda a Taça Guanabara se revezando na ponta da tabela, bem à frente dos demais – o Fluminense, por exemplo, havia sido goleado por Flamengo (4 a 1), Goytacaz (4 a 0 em Campos) e Botafogo (também 4 a 1, na última rodada). Mesmo sofrendo mais um desfalque, o do experiente goleiro Cantarele, lesionado em um dos joelhos durante a partida contra o Bangu. Em seu lugar entraria mais um garoto: o jovem Zé Carlos, o Zé Grandão, que não perderia mais o lugar até o fim da competição.

Na decisão da Taça Guanabara contra o Vasco, em 20 de abril, o Fla, no entanto, não levaria a melhor. Até dominaria o jogo e criaria mais oportunidades, mas em duas das raras chances que teve, Romário marcou duas vezes e deu o título aos cruzmaltinos. Nos vestiários, Lazaroni chegou a chorar, agradeceu aos jogadores e os parabenizou pelo esforço, lamentando que mereciam melhor sorte, diante do futebol apresentado. Mas não era nada. Ainda havia muito campeonato pela frente.

O começo da Taça Rio foi bastante irregular, com um empate contra o Campo Grande em Ítalo del Cima (1 a 1), nova vitória sobre o America no Maracanã (2 a 0) e derrota de virada para o Botafogo (1 a 2). Mas com a goleada de 5 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha em Caio Martins na quarta rodada, o time voltaria a embalar, não perderia mais o gás nem mesmo com a paralisação de cerca de um mês pela disputa da Copa do Mundo, e não seria mais derrotado até o fim da competição.

O jogo contra a Portuguesa marcaria o breve retorno de Leandro, fora da Seleção, ao time Rubro-Negro. Mas sua volta definitiva viria apenas nas partidas finais. Zico também retornaria ao time após a Copa, mas entraria em campo apenas três vezes antes de nova lesão muscular. Mozer, cortado da Copa para se submeter a uma cirurgia nos joelhos, voltaria mais adiante, mas também apenas por dois jogos. Sócrates e Cantarele não entrariam mais em campo. Aquele título teria que vir mesmo dos pés dos garotos.

E havia uma boa safra surgindo. Zé Carlos se firmava no gol; Guto e Aldair combinavam a raça de um e a técnica do outro na zaga; Aílton era o pulmão do meio-campo (e às vezes também pela lateral); Valtinho fazia boas exibições no meio, armando e marcando; Vinícius ganhava confiança e a titularidade da camisa 9; Zinho aparecia bem pela ponta-esquerda; Alcindo infernizava laterais entrando durante os jogos pelo lado direito. Um pouco mais experientes, Bebeto, Jorginho e Adalberto confirmavam sua grande categoria. Júlio César Barbosa e o ponta-esquerda Marquinho (vindo do Vasco em janeiro de 1985, trocado pelo volante Vítor e o lateral Heitor) eram de grande importância pela disposição e aplicação tática. E, no centro de tudo, estava Andrade, o esteio do meio-campo.

Bebeto e Aílton na disputa com o tricolor Delei, no clássico da Taça Rio.

Bebeto e Aílton na disputa com o tricolor Delei, no clássico da Taça Rio.

Daí em diante o time embalou. Venceu o Goytacaz em Caio Martins (1 a 0) e o Mesquita na Baixada (3 a 1). Empatou com o Americano em jogo tumultuado em Campos (2 a 2). Bateu o Olaria na Rua Bariri (2 a 1) e venceu o Fla-Flu (1 a 0) mesmo perdendo Zico logo aos sete minutos – o que levou a torcida tricolor a, novamente, gritar “bichado” para o Galinho e ser calada logo depois pelo gol de Marquinho. Arrancou o empate em 1 a 1 com o Bangu no Maracanã em cabeçada de Valtinho, após sair atrás no marcador. Até chegar o clássico diante do Vasco na última rodada.

No sábado, 26 de julho, o Fluminense havia derrotado o Bangu no Maracanã por 1 a 0, alcançando a liderança temporária da Taça, um ponto à frente do Flamengo e três a mais que vascaínos e banguenses, sem chance no turno. No domingo os tricolores torceriam, portanto, pelo Vasco. Em caso de empate, Fla e Flu fariam jogo extra, decidindo o turno. Já se o Rubro-Negro vencesse, seria não só o campeão da Taça Rio como também o primeiro colocado na classificação geral, na soma dos turnos.

Bebeto, cobrando falta à la Zico, no canto direito de Paulo Sérgio, abriu o placar para o Fla. Romário empatou para o Vasco ainda no primeiro tempo, de ponta de chuteira, na pequena área, após bola alçada por Paulo Roberto. No segundo tempo, Roberto Dinamite virou para o Vasco aos 14 minutos. Mas o Fla não estava entregue. Aos 34, Alcindo tentou o cruzamento pela direita e Vitor cortou com a mão dentro da área. O árbitro marcou o pênalti para o desespero dos cruzmaltinos – que, mesmo já sem chance na Taça Rio, jogavam para eliminar de vez o Flamengo e colocar o Fluminense na decisão. Bebeto bateu e empatou o jogo. Dois minutos depois, Roberto, descontrolado, agrediu Andrade e foi expulso. Aos 39, num contra-ataque avassalador, Bebeto tocou de calcanhar para Adílio, que devolveu para a finalização do atacante. Paulo Sérgio deu rebote e Julio Cesar Barbosa não perdoou. Do outro lado, Zé Carlos ainda brilharia ao defender uma cabeçada de Mazinho, a três minutos do fim, garantindo o triunfo rubro-negro. Fla 3 a 2, campeão da Taça Rio e finalista do Estadual.

Bebeto e Aldair vibram contra o Vasco.

Bebeto e Aldair vibram contra o Vasco.

Com o Flamengo na condição de campeão da Taça Rio e também na de equipe que somou mais pontos nos dois turnos, a fase final se transformou em um “triangular de dois”, diferentemente dos quatro anos anteriores, quando três clubes chegaram para a decisão – embora os cartolas do Fluminense, dessa vez, tenham recorrido ao TJD, ao STJD e até à Justiça Comum para tentar anular a derrota por W.O sofrida pelo time ao não comparecer à partida contra o Americano, em Campos, no dia 18 de maio, quando o clube alegou que seus atletas estavam com dengue e virose respiratória. Não colou.

Agora, rubro-negros e cruzmaltinos jogariam uma melhor de quatro pontos, com o Fla tendo um de vantagem, dado pelo regulamento à melhor campanha geral. Mas a grande missão rubro-negra era parar o ataque vascaíno, disparado o mais positivo do torneio (ao todo, 50 gols, sendo 20 do artilheiro Romário). No primeiro jogo, em 3 de agosto, uma partida muito estudada, com as duas equipes sem arriscar tanto. Mas o placar só não saiu mesmo do zero porque a trave salvou Acácio numa cobrança de falta de Marquinho e porque o árbitro deixou passar um pênalti claro de Mauricinho em Adalberto.

A segunda partida, três dias depois, poderia valer o título ao Fla em caso de vitória, mas o 0 a 0 persistiu. Ficou tudo para o domingo, 10 de agosto, diante de mais de 127 mil torcedores no velho Maracanã. O time rubro-negro, que pela primeira vez no campeonato não teria Adalberto, ausente por lesão, na lateral-esquerda, entrou em campo com Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Guto e Aldair; Andrade, Aílton e Adílio; Bebeto, Vinícius e Marquinho. O Vasco de Antônio Lopes foi a campo com Acácio; Paulo Roberto, Donato, Morôni e Heitor; Vítor, Mazinho e Geovani; Mauricinho, Roberto e Romário.

Na decisão, Bebeto acaba com o Vasco.

Na decisão, Bebeto acaba com o Vasco.

Pressionado pela necessidade de vencer, o Vasco atacou mais, mas esbarrou em Zé Carlos soberano no gol. O Fla, que só partia na boa, levava perigo mais concreto. No intervalo, Antônio Lopes surpreendentemente tirou Geovani, cérebro do meio-campo vascaíno, para colocar o junior Claudinho. Era a senha: o Fla assumia de vez o controle do jogo e o gol amadurecia. Aos 28 minutos, Marquinho – onipresente em campo – ginga na frente de Paulo Roberto, tabela com Julio Cesar Barbosa, vai à linha de fundo e rola para Bebeto, livre, quase na pequena área, girar e bater para o fundo das redes.

A segunda alteração de Lopes foi ainda mais surpreendente: tirou Romário para colocar o ponta-esquerda Santos. Nem a torcida rubro-negra acreditou, saudando o treinador rival com gritos de “burro”. O castigo – e o ponto final do campeonato – veio aos 39 minutos: Julio Cesar Barbosa recebe de Andrade e bate cruzado da entrada da área. A bola quica por baixo do corpo de Acácio, que engole um frangaço, e vai para o fundo das redes novamente. Estava decretado o 22º título carioca do Flamengo, dono do craque do campeonato, Bebeto, da revelação do torneio, Aldair, e de toda uma geração valente de garotos muito bem comandados e organizados em campo por Lazaroni. Meninos rubro-negros com futebol de gente grande.

Campeões: Bebeto, Jorginho e Marquinho carregam a taça.

Os campeões de 1986: Bebeto, Vinícius (atrás), Jorginho e Marquinho carregam mais uma taça.

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