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Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Fazia muito calor no Maracanã na tarde de 16 de setembro de 1956, incomum para a época do ano. Naquele domingo, quem levou jornais para se abanar e tentar amenizar um pouco a temperatura no estádio lotado poderia também ler nas páginas do noticiário sobre a crise política internacional que tinha como pivô o Egito, após a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser, tomando das empresas britânicas e francesas o controle da circulação de embarcações na região.

Ou que, nos Estados Unidos, o presidente Dwight Eisenhower se preparava para mais um embate eleitoral contra o candidato democrata Adlai Stevenson, enquanto a juventude do país se rendia a uma nova febre: o rock ‘n’ roll.

Ou – mais provável, em vista do interesse – sobre os últimos ajustes para o primeiro Fla-Flu válido pelo Campeonato Carioca de 1956. Nele, o time da Gávea, atual tricampeão carioca e dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, buscava a vitória para não se distanciar da briga pela liderança contra Vasco e America. Paralelamente, o clube discutia a situação do meia Rubens, o Doutor Rúbis, ídolo da torcida em outras campanhas e que agora, em baixa, vinha de lesão e tinha proposta para se transferir ao Belenenses, de Portugal.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Além de Rubens, o time rubro-negro sofria com outras baixas importantes: Índio, Dida e Zagallo – metade do setor ofensivo – estavam vetados para o clássico, o que obrigaria o treinador a escalar o garoto Duca na meia-direita, deslocando o craque Evaristo para o centro do ataque e fazendo entrar Paulinho como ponta-de-lança e o miúdo Babá na extrema esquerda.

Já o Tricolor, comandado pelo ex-atacante rubro-negro Sylvio Pirillo, havia começado mal o torneio, mas seguia em franca recuperação e vinha completo. Tinha no ponta-direita Telê seu grande organizador de jogadas e em Waldo seu goleador, além da força de Pinheiro na zaga e dos milagres de Castilho – titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suíça, dois anos antes – no gol.

Na tarde quente de domingo, de Maracanã lotado e renda fabulosa (acima de Cr$ 1,6 milhão, superando em mais de dez vezes a soma de Botafogo x Bangu, no mesmo estádio na noite anterior), o Fla entra em campo com o argentino Chamorro no gol; Tomires pelo lado direito da defesa, Pavão de central, Jadir recuando da linha média para fazer a quarta zaga e Jordan na lateral-esquerda. Dequinha é o centromédio, articulando as jogadas com Duca pela meia-direita. Na frente, alinhavam Joel, Evaristo, Paulinho e Babá.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

No primeiro tempo, o time de Fleitas Solich é mais incisivo. Ataca principalmente pelo seu lado direito, aproveitando o dia ruim do médio-esquerdo tricolor Paulo. Esbarra, porém, no miolo de zaga adversário e em um Castilho que intercepta qualquer tentativa de cruzamento, pelo alto ou pelo chão. Do outro lado, a retaguarda do Fla não dá trégua ao ataque tricolor, mantendo sua área fora de maiores perigos. São 45 minutos em que as defesas sobrepujam os ataques.

Na etapa final, entretanto, quando o Fluminense passa a controlar as ações é que o jogo toma jeito de épico, honra a lenda do clássico. Primeiro Joel leva uma pancada na cabeça (provocando um princípio de traumatismo, afirmaria depois o médico rubro-negro Paulo São Tiago), mas continua em campo.

Depois vem o pênalti de Pavão em Waldo, apontado por Amílcar Ferreira. Da defesa vem Pinheiro, dono de um verdadeiro coice, cobrador de tiros indefensáveis da marca da cal. Chamorro prepara-se no gol, o zagueiro tricolor prepara a cobrança no canto esquerdo, enche o pé… e a bola explode no pé da trave.

Poucos minutos depois, o Flamengo se vê novamente em apuros: Dequinha, capitão do time e o homem que bloqueia a entrada da área e distribui o jogo da equipe, sofre violenta distensão muscular num choque casual com um adversário e precisa deixar o campo. Não há substituições, o time fica com dez. Para suprir sua ausência, o Fla precisa ser ainda mais coletivo do que o de costume.

Chamorro voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

Chamorro, o arqueiro argentino do Fla, voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

A pressão do Fluminense é imensa, insustentável. O gol tricolor amadurece a cada ataque. Parece inexorável. Numa escapada, Léo entra na área cara a cara com Chamorro, e o argentino opera um milagre. A bola sobra para Tomires (sofrendo com uma antiga distensão desde o primeiro minuto), que despacha com um chutão para a frente. A bola viaja. Pinheiro e Evaristo pulam juntos, mas não alcançam a cabeçada. Jair Santana, o último jogador da defesa tricolor, parece que vai fazer o domínio, mas a bola bate em sua cabeça e foge do alcance.

E sobra para Babá, na linha do meio-campo. Do alto de seu 1,54 metro de altura, o ponteiro rubro-negro recolhe, levanta a cabeça e olha para o latifúndio que tem à sua frente.

E então parte veloz e obstinadamente em direção ao campo adversário…

…Passando da intermediária, vê Castilho, o paredão do Tricolor e da Seleção, saindo do gol, e prepara-se para encher o pé…

Última Hora, Missão 1145-56

…Mas em vez da bomba, vem de improviso um leve toque, que encobre o arqueiro com um lençol magnífico…

Última Hora, Missão 1145-56

…E mansamente a bola quica e segue seu caminho em direção às redes…

Última Hora, Missão 1145-56

…Para se aninhar no fundo da meta tricolor…

Última Hora, Missão 1145-56

…Enquanto Babá e seus companheiros vibram, e o Maracanã vem abaixo…

Última Hora, Missão 1145-56

…E ao resignado Pinheiro, só resta buscar a bola para a nova saída.

Última Hora, Missão 1145-56

Mário Braga Gadelha, 22 anos de idade, cearense de Aracati que chegara há dois anos ao Rio de Janeiro para defender o Flamengo, enlouquece a massa. Aos 41 minutos do segundo tempo, remando contra a maré, o Rubro-Negro marca o único gol da partida. Crava a estaca no peito tricolor, que nos últimos minutos não consegue mais articular sequer uma jogada perigosa de ataque para tentar o empate. A vitória, dramática e improvável, é do Flamengo, graças ao pequenino Babá.

Última Hora, 17 de setembro de 1956

Nos vestiários, enquanto levava alguns pontos no couro cabeludo, em decorrência da pancada que sofrera em campo, o ponta Joel lembrava que o Flamengo vinha se acostumando a ganhar com 10, referindo-se também ao triunfo com um jogador a menos (Evaristo fora expulso) diante do Bangu, duas rodadas antes. Agora, exibindo raça, dedicação e futebol coletivo, o Fla voltava a vencer.

Mas o desgaste pagará seu preço ao final, e o Flamengo, extenuado, oscilará muito ao longo da competição, perdendo pontos bobos que impedirão o tetracampeonato. Ainda que colha outros resultados memoráveis no caminho – incluindo mais uma vitória de 1 a 0 sobre o Flu no returno.

Naquela tarde quente de 16 de setembro, porém, o velho Maracanã ganhou um gol para a história, que quem viu não se esquece. Um dia em que a malícia de um Davi venceu a imponência de um Golias da meta. Na manhã seguinte, o menino Babá era a manchete.

FLAMENGO 1 x 0 FLUMINENSE

Maracanã, domingo, 16 de setembro de 1956.
Campeonato Carioca – 8ª rodada.
Renda: Cr$ 1.670.197,80.
Árbitro: Amílcar Ferreira
Gol: Babá, aos 41 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá. Técnico: Fleitas Solich.

Fluminense: Castilho; Cacá e Pinheiro; Jair Santana, Clóvis e Paulo; Telê, Léo, Waldo, Jair Francisco e Escurinho. Técnico: Sylvio Pirillo.

As fotos maravilhosas que ilustram o texto são do acervo fotográfico do extinto jornal carioca Última Hora, atualmente preservado pelo Arquivo do Estado de São Paulo.

A jogada do gol de Babá desenhada pela revista Esporte Ilustrado.

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