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Em suas mais de seis décadas de existência, o Maracanã presenciou inúmeras goleadas. Entre clubes e seleções, equipes grandes e pequenas, cariocas e de fora do Rio, brasileiras e estrangeiras, em clássicos, decisões e amistosos. Mas nenhuma das registradas até hoje foi mais dilatada que a imposta pelo Flamengo há exatos 60 anos, empilhando uma dúzia de bolas nas redes do São Cristóvão na tarde de 27 de outubro de 1956, em partida válida pelo Campeonato Carioca daquele ano. Uma dúzia lembra feira. E o que se viu naquele dia foram gols rubro-negros a granel: 12 a 2, placar superlativo nunca ultrapassado no velho (e no novo) maior estádio do mundo.

Curiosamente, não era a primeira vez naquele ano em que o Flamengo marcava uma dúzia de gols numa partida. No dia 7 de junho, durante excursão à Europa, o time rubro-negro havia aplicado um 12 a 1 diante do Brann, da cidade de Bergen, na Noruega (com quatro gols de Henrique, além de Paulinho, Babá, Evaristo e Rubens com dois cada). Mas, àquela altura, o futebol no país escandinavo atravessava um estágio de completo amadorismo.

Evaristo, capitão do Fla na partida, troca flâmulas com seu colega do São Cristóvão.

O atacante Evaristo, capitão do Flamengo na partida, troca flâmulas com seu colega Benedito, do São Cristóvão.

Além disso, em que pese a frequência com que goleadas retumbantes eram impostas no futebol daquela época, em razão da diferença de nível técnico entre grandes e pequenos, um placar tão dilatado não era, absolutamente, algo esperado para aquele confronto. Principalmente porque o São Cristóvão, após um começo ruim, vinha se creditando a sensação, ou o “fantasma” do campeonato, como se dizia na época – apelido bem apropriado, aliás, para uma equipe de uniforme inteiramente branco.

O clube alvo retornava de uma bem-sucedida excursão à Turquia quando, no dia 14 de outubro, em seu estadinho de Figueira de Melo, recebera o Bangu pela abertura do returno do Campeonato Carioca. Tendo Zizinho como principal estrela, além de grandes jogadores como Zózimo, Nívio, Calazans e Décio Esteves, o Alvirrubro era o favorito, mesmo jogando fora de casa. Mas perdeu por 1 a 0, gol de Nonô.

Uma semana depois, na segunda rodada do returno, foi a vez do America – na ocasião, nada menos que o líder do campeonato ao lado do Vasco – levar Pompeia, Canário (ponta que depois defenderia o Real Madrid), Leônidas “da Selva”, Alarcón, Ferreira e seus outros craques ao estádio do São Cristóvão. Depois de abrir o placar com Washington e desperdiçar um pênalti, o time rubro sucumbiu à pressão e ao jogo mais intenso da equipe sancristovense, que empatou com Paulinho.

A equipe do São Cristóvão, candidata a sensação do Campeonato de 1956, posa em seu estádio de Figueira de Melo.

A equipe do São Cristóvão, candidata a sensação do Campeonato de 1956 até enfrentar o Fla, posa em seu estádio de Figueira de Melo.

A repercussão dos dois últimos resultados na imprensa e no público foi enorme. A revista Esporte Ilustrado chegou a anunciar em chamada na capa da edição de 25 de outubro, que trazia a cobertura do jogo contra o America: “Os cadetes metem mêdo”.

Dois dias depois da data da publicação, seria a vez de o time alvo enfrentar o Flamengo no Maracanã, no jogo de sábado à tarde, abrindo a terceira rodada do returno. Confiantes, repetiam a escalação das duas partidas anteriores: o jovem Rui, que havia ganhado a posição antes do jogo com o Bangu, era o goleiro. Jorge e Ivan completavam a defesa. A linha média tinha Benedito, Osmindo e Décio. E o quinteto ofensivo alinhava Paulinho, Nonô, Ademar, Neca e Olivar.

O Flamengo dirigido por Fleitas Solich também mantinha sua escalação dos dois jogos precedentes, com Ari efetivado no gol no lugar do argentino Chamorro – o que não significava, entretanto, a presença de todos os demais titulares incontestáveis: Jadir e Dequinha, peças fundamentais da defesa e do meio-campo, respectivamente, estavam fora por lesão. O clube rubro-negro buscava o tetracampeonato carioca, mas já havia perdido pontos preciosos (por exemplo, ao empatar com o Bonsucesso na abertura do returno) e ocupava apenas a terceira colocação no certame. Buscava, portanto, a reação a qualquer custo para seguir com chances.

Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagallo: a linha de ataque do Flamengo contra o São Cristóvão.

Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagallo: a linha de ataque do Flamengo que demoliu a defesa do São Cristóvão.

Às 15h15 foi dado o pontapé inicial. Mal se arvorou o São Cristóvão no ataque, e logo em seguida o Flamengo abriu a contagem. Evaristo invadiu a área e bateu forte. Décio bloqueou, mas a bola sobrou para Índio chutar por elevação, encobrindo Rui. Enquanto buscava o couro no fundo das redes, o arqueiro cadete mal imaginava que repetiria tantas vezes o gesto naquela tarde. “Do jogo propriamente dito, só há a registrar-se os ‘goals’”, desculpou-se a Esporte Ilustrado aos leitores por ver sua crônica do jogo quase reduzida à mera descrição dos tentos.

No primeiro tempo, porém, o escore foi até modesto da parte do Flamengo: só aos 18 minutos as redes alvas balançariam novamente. Joel desceu pela ponta direita e centrou. Evaristo, na pequena área, arrematou de calcanhar. Aos 31, o centromédio Luís Roberto, substituto de Dequinha, apanhou uma bola espanada por Jorge e bateu de fora da área. E cinco minutos depois, Evaristo recebeu de Índio para marcar o quarto.

Luís Roberto, médio rubro-negro e autor de um dos gols.

O médio Luís Roberto, autor de um dos gols.

Com a goleada já decretada, imaginava-se que o São Cristóvão se fecharia na defesa durante a segunda etapa para se poupar de algo pior. Não foi, porém, o que aconteceu. A equipe alva retornou com o mesmo desprendimento defensivo, por assim dizer, e tentando se lançar ao ataque. E veio então a enxurrada de gols rubro-negros. Logo aos sete minutos, Índio foi lançado por Joel e marcou o quinto. Dois minutos depois, o próprio Joel aproveitou o rebote de Rui e fez o sexto. E aos 16, Índio anotou mais um, o sétimo, após assistência de Evaristo.

Na tentativa de salvar um pouco a honra, o São Cristóvão descontou aos 17, depois de Nonô disputar a bola com o goleiro rubro-negro Ari. E após Evaristo fazer o oitavo gol do Flamengo no minuto seguinte, descontou pela segunda vez com Neca, cobrando pênalti de Tomires em Nonô. Mas o Flamengo cavaria mais fundo: aos 32, Paulinho recebeu de Índio e lançou o centroavante na corrida para fuzilar Rui.

Desestabilizada, a defesa sancristovense conseguiu falhar até em cobrança de tiro de meta: Evaristo recolheu o chute torto de Ivan e bateu para as redes, marcando o décimo. Paulinho, aos 41, e Joel, aos 45, completariam a dúzia de tentos rubro-negros. E foi isso: com o escore de DOZE a dois a favor do Flamengo, nem houve nova saída. O lendário Mário Vianna, árbitro da partida – e ironicamente torcedor confesso do São Cristóvão – pôs ponto final num massacre que até hoje o estádio não viu igual.

Evaristo marca um de seus quatro gols em foto da Esporte Ilustrado.

Evaristo marca um de seus quatro gols em foto da “Esporte Ilustrado”.

A contagem daquela tarde superava e muito o placar mais dilatado registrado até então nos pouco mais de seis anos de existência do Maior do Mundo: a vitória do Brasil sobre a Suécia por 7 a 1 na Copa do Mundo de 1950. E pelas próximas décadas, a batelada de gols daquele Flamengo x São Cristóvão seguiu inalcançável. Duas goleadas por 9 a 0 – do Fluminense sobre o Goytacaz em 1976 e depois do mesmo Flamengo sobre a Portuguesa da Ilha do Governador em 1978 – foram o mais perto que se chegou na velha configuração do estádio.

Até acontecer em 2013, já com o Maracanã transformado em arena, o insólito duelo entre a poderosa seleção da Espanha, campeã mundial, e a modesta equipe do Taiti, em partida válida pela Copa das Confederações da FIFA. A Roja até conseguiu igualar a margem de gols, vencendo por 10 a 0. Mas não chegou à dúzia de bolas na rede proporcionada pelo ataque rubro-negro quase 57 anos antes.

O Flamengo, como já lembramos no post sobre o épico Fla-Flu do primeiro turno daquele campeonato de 1956, não chegaria ao tetra, perdendo pontos fundamentais aqui e ali. Mas naquele 27 de outubro escreveu com muitos gols uma página não só de sua própria história, mas também do velho templo do futebol carioca. Um dia em que o garoto do placar do Maracanã trabalhou bem mais do que o de costume.

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Maracanã, sábado, 27 de outubro de 1956.
Campeonato Carioca – 14ª rodada (terceira do returno).
Renda: Cr$ 327.587,40.
Árbitro: Mario Vianna.
Gols: Índio aos três (1-0), Evaristo aos 18 (2-0), Luís Roberto aos 31 (3-0), Evaristo aos 36 (4-0) do primeiro tempo. Índio aos sete (5-0), Joel aos nove (6-0), Índio aos 16 (7-0), Nonô aos 17 (7-1), Evaristo aos 18 (8-1), Neca de pênalti aos 22 (8-2), Índio aos 32 (9-2), Evaristo aos 38 (10-2), Paulinho aos 41 (11-2), Joel aos 45 (12-2) do segundo tempo.

Flamengo: Ari; Tomires e Pavão; Milton Copolilo, Luís Roberto e Jordan; Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagalo. Técnico: Fleitas Solich.

São Cristóvão: Rui; Jorge e Ivan; Benedito, Osmindo e Décio; Paulinho, Nonô, Ademar, Neca e Olivar. Técnico: Índio.

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