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Quando se fala sobre Germano, ponta-esquerda revelado pelo Fla no começo dos anos 60 e que depois defenderia também o Milan e o Palmeiras, o que mais se lembra é o rumoroso relacionamento que teve com uma jovem condessa italiana e o fato de ser irmão mais velho do folclórico jogador rubro-negro Fio Maravilha (a quem levou para a Gávea, junto com outro irmão, o ponta-de-lança Michila). Poucas vezes a carreira do jogador, que completaria 75 anos neste sábado, é comentada ou analisada com profundidade, pelo que ele foi e também pelo que poderia ter sido.

Germano foi uma das principais revelações da base rubro-negra e, sem exagero, do futebol brasileiro no início dos anos 60. Muito veloz, habilidoso e de chute forte com as duas pernas, era tido como o futuro da ponta-esquerda do clube e da Seleção. Em sua ascensão meteórica, esteve perto de disputar a Copa do Mundo de 1962 e acabou vendido em negociação milionária para o Milan pouco depois de completar 20 anos de idade. Mas os caminhos da bola e da vida às vezes enganam, como a história do ponteiro conta.

DE CONSELHEIRO PENA À GÁVEA

Nascido na cidade mineira de Conselheiro Pena em 25 de março de 1942, filho de seu Waldemiro e de dona Maria, José Germano de Salles era louco por bola (e pelo Flamengo) desde criança. Na adolescência, jogava sempre suas peladas enquanto não estava ajudando o pai no ofício de bombeiro hidráulico. Um dia, em meados de 1958, um amigo da família que viria a morar no Rio levou Germano para tentar a sorte no Rubro-Negro. Aprovado por Modesto Bria na peneira do clube, o garoto passou a morar na Gávea e receber Cr$ 1.500 por mês como ajuda de custo.

Rapidamente saltou da categoria infanto-juvenil para a juvenil, chegando à de aspirantes em janeiro de 1960 e sendo logo depois integrado ao elenco principal, treinado na época pelo mesmo Modesto Bria que o admitira no clube. Na base, foi companheiro de um jogador que explodiria no Flamengo e faria história no futebol carioca e brasileiro: o meia Gerson, ao lado de quem formou em seleções cariocas de juvenis e também na equipe brasileira medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Chicago em 1959 e na pré-olímpica para os Jogos de Roma.

Linha de ataque da seleção carioca de juvenis, 1960: Germano é o último da esquerda para a direita, formando com os companheiros rubro-negros Gerson (o segundo) e Beirute (o terceiro). Foto: Revista do Esporte.

Sua estreia no time de cima aconteceu enquanto ele ainda era juvenil, a três dias do Natal de 1959, entrando aos 10 minutos do segundo tempo num amistoso contra o River Plate no Maracanã, vencido pelo Rubro-Negro por 2 a 1. No primeiro semestre de 1960, aos poucos ganharia mais oportunidades, entrando em três partidas do Torneio Rio-São Paulo, disputando amistosos pelo Brasil e participando da segunda metade da excursão europeia do Fla em meados daquele ano.

Profissionalizado em julho, aguardou pacientemente uma chance no time – que agora tinha o retorno de Fleitas Solich no comando, após passagem do paraguaio pelo Real Madrid – durante a principal competição da temporada, o Campeonato Carioca. E ela veio na última rodada do primeiro turno, na partida contra o Bonsucesso. Mesmo com o resultado ruim (empate em 2 a 2 no estádio rubro-anil de Teixeira de Castro), Germano se destacou, marcando o segundo gol do Flamengo num chute poderoso de pé direito.

O bom arremate com os dois pés era uma das características pelas quais o ponteiro chamou a atenção (“Desde que comecei a jogar futebol venho caprichando com as duas pernas”, disse em entrevista ao jornal Última Hora). Germano se mostrava também mais ofensivo que o pequenino Babá, então dono da posição. A boa exibição contra o Bonsucesso fez com que o garoto fosse mantido entre os titulares. Apenas uma vez, até o fim do campeonato, ele passaria à reserva, ficando como “regra três” (como eram chamados os suplentes) no Fla-Flu do returno.

Por ironia, seria exatamente neste Fla-Flu do dia 20 de novembro, no qual entraria no intervalo, que Germano faria uma de suas primeiras exibições mais marcantes com a camisa rubro-negra. Líder do campeonato naquele momento, o Tricolor abrira o placar logo aos dois minutos com Waldo e fora o senhor das ações na primeira etapa, apesar de o Fla ter chegado ao empate aos 42 minutos com Henrique.

Mas com Germano em campo, a história foi outra: o ponta (que entrou no lugar de Luís Carlos, vestindo a camisa 14) deu mais agressividade ao ataque rubro-negro, que partiu para a virada com gols de Moacir aos 18 e do próprio Germano, num chute da entrada da área que surpreendeu Castilho, quatro minutos depois. O Fla derrubava o último invicto do campeonato e dava ainda uma mãozinha ao America, que acabaria campeão.

NO RIO-SÃO PAULO, A PRIMEIRA CONQUISTA COMO TITULAR

O ano seguinte começaria com a disputa do prestigioso Torneio Octogonal de Verão, pelo qual o Fla enfrentaria Vasco, São Paulo, Corinthians, os argentinos River Plate e Boca Juniors e os uruguaios Nacional e Cerro – numa história já contada aqui. Mas Germano pouco participou daquela campanha, jogando apenas contra os cruzmaltinos, em virtude de ter sido convocado para prestar o serviço militar. De volta no começo de março, no entanto, compensaria a ausência com atuações brilhantes no Torneio Rio-São Paulo.

Nos primeiros seis jogos que disputou naquela competição, Germano foi titular em apenas dois – as vitórias sobre o Palmeiras no Pacaembu por 3 a 2 e sobre a Portuguesa no Maracanã por 2 a 0. Mas em 2 de abril, ao vencer por 2 a 1 o Vasco (time que Germano já confessara que adorava derrotar), o garoto conquistou de vez a posição.

Na ponta-esquerda do Fla de 1961. Em pé: Joubert, Ari, Bolero, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Joel, Gerson, Henrique, Dida e Germano.

No turno final, o Fla fez campanha memorável: estreou batendo o Palmeiras no Maracanã por 3 a 1, com o segundo gol marcado em chute de Germano que Dida desviou para as redes. Depois, foi ao Pacaembu e goleou o Santos por 5 a 1 – vingando-se de derrota humilhante aplicada pelo Peixe no jogo da fase de classificação no Rio. Por fim, bateu o Corinthians por 2 a 0 no Maracanã, no dia 23 de abril, levantando um título que surpreendeu até sua própria torcida.

Em julho, foi divulgado o interesse do Bologna e do Milan sobre Gerson e Germano, este considerado pelos italianos um “excelente jogador, rápido e de chute muito forte”. Nenhuma das negociações chegou a avançar. Primeiro, o meia recusou ambas as propostas. Depois, o presidente interino rubro-negro Fadel Fadel conseguiu demover os milanistas, maiores interessados no ponta, quanto ao desejo de contratá-lo pelo fato de ele ainda estar cumprindo obrigações relativas ao serviço militar e, portanto, não poderia deixar o país. Mesmo desfeitas as conversas, o clube rossonero continuou de olho no garoto de Conselheiro Pena.

O expediente no Exército que inviabilizou sua venda ao Milan também o tirou da equipe por boa parte do Campeonato Carioca, no segundo semestre. Além disso, Babá se recuperara de um estiramento na coxa e de novo era o titular da ponta-esquerda. Por isso, no torneio do Rio daquele ano Germano disputou apenas quatro partidas, marcando os dois gols do Flamengo em um empate com o Bangu no Maracanã, em 16 de dezembro.

Mas no começo de 1962 o Flamengo passou por mudanças. Mantido na presidência do clube, agora em caráter definitivo após ter vencido as eleições, Fadel Fadel demitiu o técnico Fleitas Solich no meio de uma excursão da equipe a Costa Rica e México e contratou o veterano Flávio Costa. Pouco depois da temporada mexicana, Babá recebeu proposta da UNAM e acabaria negociado. Germano também chegou a ser sondado, mas foi considerado “imprescindível” pelos dirigentes rubro-negros.

O ponta ficou para a campanha do Torneio Rio-São Paulo, no qual o Fla tentaria o bicampeonato. Na primeira fase da competição, cariocas e paulistas ficaram em grupos diferentes, com disputas apenas locais, classificando-se os dois primeiros para o quadrangular final. Nesta etapa, o Fla brilhou, derrotando o Fluminense (1 a 0), empatando com o Vasco (1 a 1) e com o America (0 a 0) em jogo interrompido pela chuva e reiniciado no dia seguinte e encerrando a campanha com uma bela vitória sobre o Botafogo por 3 a 2, com Germano marcando o terceiro gol após jogada de Dida.

Antes do quadrangular final, porém, o Flamengo sofreu sério desfalque com a lesão de Gerson, que torceu o joelho num treino e teve que passar por cirurgia para extrair os meniscos, ficando vários meses de fora da equipe e perdendo a chance de disputar a Copa do Mundo do Chile. Sem ele, o Fla perdeu para Palmeiras e Botafogo (embora tenha feito boas partidas) e, na última rodada, empatou com o São Paulo no Pacaembu em 2 a 2.

Nesta partida contra o Tricolor paulista, disputada em 17 de março, Germano fez mais um gol, o primeiro do Fla no jogo, numa de suas especialidades, acertando um belo chute de fora da área. O que não se sabia então é que aquela seria a última partida do ponta pelo Rubro-Negro. Germano estava a oito dias de completar 20 anos de idade.

NA SELEÇÃO, PERTO DO SONHO DA COPA

Dois dias depois do jogo com o São Paulo, Germano foi incluído, juntamente com Carlinhos, na lista dos 41 pré-convocados para a Seleção Brasileira na fase de preparação para a Copa do Mundo do Chile. Indicado pelo preparador físico Paulo Amaral, era uma das esperanças de renovação em relação ao grupo de jogadores que disputara o Mundial da Suécia e estava agora quatro anos envelhecido.

Ao lado de Carlinhos, outro rubro-negro pré-convocado pela Seleção para a Copa do Mundo do Chile. Foto: Revista do Esporte.

Ironicamente, Germano teve que lidar com o “fogo amigo” do presidente rubro-negro Fadel Fadel, que no mesmo dia da divulgação da lista chegou a pedir dispensa dos dois jogadores do clube, alegando que nenhum deles tinha chance de figurar na lista final de 22 e que precisaria de ambos na excursão europeia para a qual o clube embarcaria dali a alguns dias. No dia seguinte, no entanto, os próprios jogadores o convenceram de que queriam ficar na Seleção, e o pedido acabou esquecido.

A presença de Germano no escrete canarinho foi defendida pelo supervisor da Seleção, Carlos Nascimento, que acreditava não ser tão fácil encontrar jogadores para aquela posição no país, e que o jovem rubro-negro poderia ser muito útil ao Brasil “por sua mocidade e pela forma física e técnica que ostenta”. De fato, Germano teve participação muito boa durante a preparação em Nova Friburgo e Campos do Jordão. Chegou a marcar o gol da vitória dos reservas sobre os titulares num dos coletivos. E entrou em campo em dois amistosos contra Portugal.

Os dois jogos foram disputados na primeira quinzena de maio de 1962, o primeiro no Pacaembu e o segundo no Maracanã. Em ambos, Germano entrou no decorrer do jogo, substituindo Zagallo e Pepe, respectivamente. Agradou e recebeu elogios, dando velocidade e ofensividade ao ataque brasileiro em duas difíceis vitórias do time de Aimoré Moreira por 2 a 1 e 1 a 0.

No entanto, depois de superar duas listas de cortes, Germano acabou dispensado na terceira (a última antes do embarque para o Chile), divulgada em 17 de maio. Junto com ele, também estavam fora da Copa o goleiro Valdir (Palmeiras), os zagueiros Calvet (Santos) e Djalma Dias (America), além dos laterais Joel e Rildo e do atacante Quarentinha (Botafogo).

Ao comentar os cortes, a Revista do Esporte avaliou assim o desligamento de Germano da Seleção para a Copa: “Impressionou nos treinos e em alguns amistosos. Porém, à última hora, quando sua permanência no escrete era tida como certa, foi posto à margem. Alegação: inexperiência”. Para a posição, iriam ao Chile os mesmos convocados para o Mundial da Suécia, Zagallo e Pepe, então com 30 e 27 anos, respectivamente.

NO MILAN, QUEBRANDO BARREIRAS E ENFRENTANDO TABUS

Germano se conformou, apesar de não esperar o corte. Apenas disse que era muito novo e poderia esperar outras oportunidades. Mas não houve tempo nem de se lamentar. Em 18 de maio, dia seguinte à dispensa, Germano se reuniu com Fadel Fadel e representantes do Milan, acertando todos os detalhes da transferência e as bases do contrato com o clube italiano, onde já atuavam os brasileiros Dino Sani e Mazzola (Altafini para os torcedores de lá).

A venda de Germano ao Milan foi a maior negociação do futebol brasileiro de então. O clube italiano pagou US$ 180 mil, cerca de Cr$ 65 milhões (para efeito de comparação, Babá fora vendido ao futebol mexicano meses antes por seis milhões de cruzeiros), com luvas de Cr$ 14 milhões para o jovem ponta-esquerda, que ainda receberia um ótimo salário, gratificações, além de casa, carro e comida pagos pelo clube. A transferência também quebrou barreiras: Germano foi o primeiro jogador negro a defender um clube italiano.

Sua estreia pelo Milan veio na vitória sobre o Parma, fora de casa, pela Copa da Itália. Atuaria ainda em duas partidas pela Série A, marcando duas vezes no empate em 3 a 3 diante do Venezia no San Siro. E participaria também da campanha do primeiro título milanista na Copa dos Campeões da Europa, sendo titular da ponta-esquerda nas vitórias sobre o Union Sportive de Luxemburgo (8 a 0, com dois gols seus) e o Ipswich inglês (3 a 0).

Tudo isso entre setembro e novembro, quando acabaria emprestado ao Genoa para ganhar experiência. No clube rossoblu  – pelo qual jogaria 12 vezes, marcando dois gols – teria como companheiro de ataque outro brasileiro e futuro ídolo rubro-negro, o atacante Almir Pernambuquinho.

Em meados de 1963, sua vida e carreira tomariam outro rumo insuspeitado, quando o ponteiro conheceu a jovem condessa Giovanna Agusta, filha de um rico industrial dono de uma fábrica de helicópteros em Milão. O namoro entre o jogador de futebol brasileiro negro e a nobre italiana branca ganhou as manchetes em tom de escândalo, especialmente diante da recusa completa da família de Giovanna em aceitá-lo, por um indisfarçável preconceito racial.

Germano e a condessa Giovanna Agusta, em foto publicada pela revista “O Cruzeiro” em março de 1967.

Além disso, Germano lutava para se ambientar e encontrar seu espaço. Profissionalizado há pouco mais de três anos, o garoto do interior mineiro já vivia em um universo completamente diferente, numa das cidades mais industrializadas e cosmopolitas da Europa, de inverno rigoroso, em um clube extremamente rico, austero e exigente. Tudo isso, é bom lembrar, numa época bem diferente da de hoje, tanto em termos de globalização do jogo quanto da preparação de um jovem jogador para sair do Brasil e defender um clube estrangeiro. Isso tudo potencializado pelo fato de ser o único negro do elenco, e um dos raros no futebol da Bota naquela época.

TURBULÊNCIAS NA VIDA E NA CARREIRA

Afastado temporariamente da bola por uma combinação de lesões constantes, falta de oportunidades e o tumultuado romance, passou toda a temporada 1963/64 sem entrar em campo. Chegou a ser sondado pelo Santos e pelo Boca Juniors no início de 1964, fez mais uma partida pelo Milan em setembro, contra o Racing Strasbourg francês pela extinta Copa das Feiras (antecessora da atual Liga Europa), e acabaria enfim retornando ao Brasil em fevereiro de 1965, emprestado ao Palmeiras, em parte por pressão da família Agusta.

Chegou ao Brasil um tanto gordo, devido ao longo período de inatividade. No Alviverde ficou na maior parte do tempo na reserva de Rinaldo, mas fez um número razoável de partidas. Conquistou mais um Torneio Rio-São Paulo, foi vice-campeão paulista naquele mesmo ano e fez sua terceira e última partida pela Seleção Brasileira, contra o Uruguai na inauguração do Mineirão, em 7 de setembro, quando o Brasil foi representado inteiramente por jogadores do Palmeiras. Marcou inclusive o terceiro gol na vitória por 3 a 0.

Ficou no Parque Antártica até meados de 1966, quando o Milan (e os pais da condessa) arranjou um novo empréstimo, desta vez para o Standard Liège belga. Em Liège, Germano e Giovanna finalmente se casariam, e o ponta disputaria duas temporadas pelo clube (1966/67 e 1967/68), vencendo a Copa da Bélgica na primeira e participando da Recopa europeia em ambas.

Germano na ponta-esquerda do Standard Liège em 1967.

Sem se firmar como titular, Germano foi perdendo o gosto pelo jogo. Em 1970, dois anos depois de disputar sua última partida pelo Standard, voltava ao Brasil, desiludido com o casamento e com o futebol. Separado de Giovanna e com a carreira de jogador precocemente encerrada (tinha então apenas 28 anos), voltou a morar em Conselheiro Pena, onde ganhou uma fazenda em acordo com seu ex-sogro. Enquanto isso, naquele mesmo ano, seu irmão mais novo, Fio, vivia o auge no Flamengo como ídolo do povo.

Germano se casaria novamente, teria outros filhos (além da que teve com Giovanna) e viveria como fazendeiro em sua cidade natal até falecer vitimado por um infarto em 1º de outubro de 1997, aos 55 anos. Experimentara as diversas faces da carreira de jogador sempre de modo muito breve, muito rápido. Tão rápido quanto ele era em suas escapadas pela ponta-esquerda vestindo a 11 rubro-negra no Maracanã.

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