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Há versões conflitantes sobre quem teria apelidado o atacante Dionísio – que completaria 70 anos neste domingo, se estivesse vivo – de Bode Atômico. Alguns apontam o lendário locutor esportivo Waldir Amaral. Outros afirmam ter sido o cartunista e rubro-negro inflamado Henfil. Há ainda quem diga que o epíteto surgiu numa crônica de Luis Reis para o jornal O Dia. Mas o fato, o certo, o concreto é que o garoto do Flamengo causou sensação em seus primeiros anos no futebol carioca, no fim dos anos 60, pela força de suas cabeçadas. Leve, subia mais que os zagueiros e pairava no ar, antes de testar com raiva.

Nascido em Corumbá, no estado do Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul), Carlos Dionísio de Brito começou no futebol aos 14 anos, e pelo outro lado do campo, como goleiro no time juvenil do Noroeste de sua cidade. Num dia, devido à falta de atacantes, acabou improvisado e não saiu mais da posição. Do Noroeste, seguiu para o Motorista, outro clube amador corumbaense, onde seria observado pelo então técnico rubro-negro Armando Renganeschi durante uma excursão do Flamengo à cidade. Era 1966. Dois meses depois já estava na Gávea, levado por um amigo da família.

Na base do Fla, começou a se destacar pelas cabeçadas fortes e precisas, aliadas a uma impulsão fora do comum, que compensava a estatura mediana (1,77 metro). No colégio, ainda no Mato Grosso, vencia competições de salto sem ter o menor preparo para a modalidade. Na Gávea, seria campeão carioca de juvenis em 1967, seu primeiro ano completo no clube, numa linha de ataque que incluía o ponta-direita Zequinha (mais tarde, do Botafogo), o ponta-de-lança Luís Carlos (depois, do Vasco) e o ponta-esquerda Arílson. Dionísio sagraria-se também o artilheiro da competição com 23 gols – 15 deles de cabeça.

Embora seu futebol não se limitasse a isso (também sabia servir os companheiros de ataque com bons passes pelo alto ou pelo chão), foi essa característica que o levou à seleção carioca que disputou o Campeonato Brasileiro de Juvenis, merecendo elogios de Zagallo, técnico da equipe: “Joga simples e seu estilo se adapta a qualquer esquema. Tem também uma garra e uma disposição de jogo impressionantes, fazendo dele um dos pontas-de-lança mais valentes do Rio. Usa a cabeça para pensar e para fazer gols, sendo um dos melhores cabeceadores que vi jogar”, disse o Velho Lobo do garoto ainda por completar 20 anos, e que estrearia no time de cima do Flamengo no Torneio Início do Campeonato Carioca daquele ano, contra o São Cristóvão.

Nos juvenis do Fla em 1967: faixa de campeão, troféu de artilheiro e cabelo cortado ao estilo “reco” de quem prestava o serviço militar.

ARTILHEIRO EM CLÁSSICOS

A primeira partida de 90 minutos viria contra o Vasco na noite de sábado, 22 de julho, pela Taça Guanabara (na época, um torneio à parte do Campeonato Carioca). E Dionísio já se destacaria de saída, apesar da derrota rubro-negra por 4 a 3. Depois de o centroavante Ademar Pantera abrir o placar para o Fla com um golaço de bicicleta, Dionísio marcaria o segundo, aos 43 minutos da etapa inicial. Após cruzamento de Zequinha, o camisa 9 matou no peito, driblou Brito e tocou na saída do goleiro Franz.

Naquele momento, porém, o Fla havia acabado de perder o zagueiro Itamar, lesionado, ficando com dez jogadores em campo, já que naquele tempo as substituições de jogadores de linha não eram permitidas em jogos oficiais de competição. Além disso, levara a campo uma equipe inexperiente, repleta de juvenis promovidos (foi também a partida de estreia do meia e futuro lateral Rodrigues Neto). O Vasco se aproveitou de ambas as coisas e empatou com dois gols relâmpago, aos 43 e 45 do primeiro tempo, virando o placar no começo da etapa final.

Dionísio, porém, ainda daria uma sobrevida ao Fla marcando pela segunda vez, outra vez recebendo passe de Zequinha pelo alto e dominando no peito antes de fuzilar para as redes. Mas aos 33 minutos, Brito cobraria pênalti de Amorim em Nei para dar números finais ao jogo. Mas o garoto de Corumbá, novo candidato a dono da camisa 9 rubro-negra, deixou ótima impressão, aplaudido pela torcida ao fim do jogo.

Duas semanas depois, Dionísio voltaria a balançar as redes pelo time profissional do Fla, mais uma vez em um clássico. O Fla não tinha mais chances de conquistar a Taça Guanabara, mas bateu o Fluminense por 2 a 1 de virada, com grande atuação de sua garotada. O Flu foi para o intervalo vencendo com gol de pênalti de Rinaldo, mas na etapa final, numa jogada que lembrou a campanha do título de juvenis, Luís Carlos passou por vários adversários e entregou a Dionísio, que chutou forte para empatar. Minutos depois, a virada chegaria num incrível gol olímpico de Rodrigues Neto.

Assim como o início do ano, o segundo semestre de 1967 também foi muito ruim para o Flamengo, que cumpriu uma de suas piores campanhas no Campeonato Carioca. Mas Dionísio teve ótimo desempenho individual, mesmo entrando e saindo de um time bagunçado, que ainda trocaria mais uma vez de treinador, com o experiente Aimoré Moreira assumindo o posto de Modesto Bria.

Até o fim daquela temporada, o centroavante entraria em campo 16 vezes pelo Fla, marcando oito gols. E mais significativo ainda: seis deles em clássicos, incluindo em seus três primeiros Fla-Flus (além da já citada vitória por 2 a 1 pela Taça Guanabara, o Fla ainda venceria por 3 a 1 e 4 a 1 no Carioca, sempre com gols do garoto de Corumbá).

A LUTA POR UM LUGAR NO ATAQUE

A ascensão de Dionísio, entretanto, seria freada no início de 1968. A má temporada no ano anterior provocou diversas mudanças no elenco, entre elas o retorno do ídolo Silva, recomprado ao Barcelona, após empréstimo dos catalães ao Santos no segundo semestre. Houve também a volta de César, após o fim da troca por empréstimo por Ademar com o Palmeiras. Diante da excelente temporada de 1967 da antiga promessa rubro-negra com a camisa do Alviverde, a expectativa era a de que ele e o Batuta formassem a nova dupla de frente da equipe, indicando que Dionísio precisaria novamente brigar por seu espaço.

Em março, houve também a convocação para a Seleção Brasileira que disputaria o torneio pré-olímpico na Colômbia, no qual o atacante começou como titular da equipe, abrindo o caminho para a vitória por 3 a 0 sobre a Venezuela na estreia, balançando as redes após enfileirar vários adversários. Porém, uma lesão no jogo contra o Uruguai na primeira fase tiraria o garoto das partidas seguintes.

Assim, Dionísio só vestiria a camisa do Fla pela primeira vez naquele ano em 20 de abril, curiosamente contra o mesmo Fluminense que enfrentara em seu jogo anterior, em 16 de dezembro. E, para variar, balançou as redes pela quarta vez em quatro Fla-Flus disputados, mesmo entrando apenas no fim do jogo, substituindo César. O tento saiu aos 43 minutos do segundo tempo, na cobrança de um pênalti cometido por Valtinho em Rodrigues Neto, e decretou o placar final de 4 a 2 para os rubro-negros.

Era a sétima partida invicta dos rubro-negros no Fla-Flu, com cinco vitórias e dois empates, numa sequência que vinha desde outubro de 1966. Era também o quarto triunfo seguido do Flamengo no clássico, todos eles com gols de Dionísio. A série chegaria a nove jogos invictos e seis vitórias consecutivas até agosto de 1968, e só seria encerrada em outubro, quando o gol de mão de Wilton – que entraria para a história como um dos maiores erros de arbitragem da história do clássico – daria a vitória aos tricolores por 1 a 0 no duelo válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

CONTRA O VASCO, DE LETRA

Além dos Fla-Flus, Dionísio também marcou uma quantidade expressiva de gols diante de outro rival rubro-negro: o Vasco. E o mais marcante deles viria algumas duas semanas depois de seu retorno, em clássico disputado no feriado de 1º de maio, pela última rodada do turno do Campeonato Carioca, cuja história já foi contada aqui neste post. Os cruzmaltinos vinham embalados, líderes absolutos do certame naquela altura com 10 vitórias em 10 jogos, enquanto o Fla cumpria trajetória de altos e baixos naquela primeira parte da competição. A expectativa pelo clássico provocou a quebra do recorde de renda do ano até ali.

Em campo, o Vasco saiu na frente logo no início com gol de Bianchini em bola que o goleiro rubro-negro Marco Aurélio soltou. Empurrado pela torcida, o Fla reagiu e empatou numa cobrança de falta do meio da rua do zagueiro Onça ainda na etapa inicial. Mas o melhor, o gol da virada, ficou para o segundo tempo: recebendo cruzamento rasteiro da direita, Dionísio (que entrara no time titular na vaga do lesionado César) completou de letra para o fundo das redes. Uma pintura para encerrar a série vitoriosa dos rivais.

O retorno de César, no entanto, empurrou Dionísio de volta para a reserva. Mas não por muito tempo: ao fim do Estadual, o atacante niteroiense voltaria para o Palmeiras, agora contratado em definitivo, e por lá se tornaria ídolo, campeão e artilheiro, ganhando ainda o apelido “Maluco”. Enquanto isso, o garoto de Corumbá conquistava a posição a partir do início do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em setembro. Também teria início ali a melhor fase de sua carreira – embora nem sempre o time rubro-negro correspondesse.

GOLEADOR RUBRO-NEGRO NO ROBERTÃO

O time que bateu o Corinthians por 1 a 0 pelo Robertão de 1968 num Morumbi ainda em obras. Em pé: o massagista Luiz Luz, João Carlos, Onça, Guilherme, Carlinhos, Marco Aurélio e Paulo Henrique. Agachados: Valdir, Liminha, Dionísio, Silva e Rodrigues Neto.

O Fla fez campanha muito fraca em três das quatro edições do Robertão – a exceção foi a última, em 1970, quando terminou empatado na quinta colocação com o Internacional e brigou até o último jogo por uma vaga no quadrangular final. Em 1968, o clube venceu apenas duas de suas 16 partidas, marcando apenas 10 gols.

Os dois triunfos – contra o Cruzeiro de Tostão no Maracanã e o Corinthians de Rivelino no Morumbi – vieram em vitórias por 1 a 0, gol de Dionísio. No primeiro, em que os rubro-negros encerraram invencibilidade de mais de 30 jogos dos mineiros (a última derrota havia sido para o próprio Flamengo por 5 a 1 em amistoso em março), o centroavante escorou cruzamento da esquerda de Rodrigues Neto.

O centroavante marcou ainda nos empates com o Bangu (1 a 1) e a Portuguesa (3 a 3) no Maracanã e com o Atlético-PR (1 a 1) em Curitiba. Acrescentando o gol de honra na derrota por 2 a 1 para o Bahia em Salvador, chegamos à soma final de seis tentos: ou seja, 60% dos gols rubro-negros na competição saíram de seus pés – ou de sua cabeça.

1969, O MELHOR ANO DA CARREIRA

O bom desempenho individual no Robertão seria um prenúncio de sua melhor temporada vestindo a camisa rubro-negra, no ano seguinte. O Flamengo passava por mais algumas reformulações: Válter Miraglia cedia o posto de treinador a Tim, velha raposa do futebol, que retornava ao Brasil após dirigir o San Lorenzo.

O novo técnico empreendia ainda um trabalho de rejuvenescimento da equipe: Garrincha, que chegara ao clube já em fim de carreira em novembro do ano anterior, ficaria na Gávea apenas até abril, disputando apenas 20 partidas, em sua maioria amistosos. Outro jogador rodado que deixava o clube era o ídolo Silva, o Batuta, que faria o caminho inverso de Tim, aportando no Racing argentino. Enquanto isso, no meio-campo, Carlinhos preparava silenciosamente sua retirada dos gramados.

Se na defesa a experiência preponderava (o argentino Rogelio Domínguez no gol, os eternos Murilo e Paulo Henrique nas laterais e Onça e Guilherme – ou o uruguaio Manicera – no miolo de zaga), do meio para a frente a juventude dava o tom: o novo Flamengo teria o motorzinho Liminha na cabeça da área, atuando ao lado do curinga Rodrigues Neto, falso ponta-esquerda na temporada anterior.

Na frente, o ataque começava por uma promessa de ídolo, importada pelo novo técnico de seu ex-clube: o ponta-direita Doval, raçudo e técnico. Fio, ponta-direita no ano anterior, era remanejado para a ponta-de-lança, fazendo dupla com Dionísio no comando do ataque. E outro garoto campeão nos juvenis em 1966, o ponta-esquerda Arílson, era efetivado entre os titulares.

O Flamengo oscilou muito no começo do Campeonato Carioca, perdendo pontos que fariam falta mais adiante, mas engatou uma excelente sequência a partir do fim do primeiro turno que o colocou de vez no páreo pelo título. Dionísio não balançou as redes nas duas maiores exibições do time naquele certame: os categóricos 3 a 0 diante do Vasco na última rodada do turno (marcaram Rodrigues Neto, Liminha e Doval) e o histórico 2 a 1 no Botafogo no qual o voo de um urubu trazido por torcedores antes de a bola rolar anunciou o fim de um jejum de quatro anos sem vencer os alvinegros pela competição, fazendo com que o bicho fosse definitivamente adotado como mascote do clube (Arílson e Doval fizeram os gols naquela tarde).

O bom time do Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: o massagista Luiz Luz, Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

Porém era nos jogos renhidos, contra os retrancados times pequenos, que o centroavante garantia pontos preciosos para o Fla. Foi o Bode Atômico, por exemplo, quem garantiu a vitória de 1 a 0 sobre o Campo Grande na Gávea e o empate em 1 a 1 contra o Bonsucesso (chamado da época de “fantasma” dos grandes, dada a resiliência de seu esquema com cinco zagueiros) no turno. Foi ele também quem abriu o placar nos 2 a 0 diante de um Bangu traiçoeiro e arrematou, marcando o segundo gol, as vitórias pelo mesmo placar contra o São Cristóvão no turno e novamente o Bonsucesso e a Portuguesa no returno. Foi ele também quem, a 12 minutos do fim, manteve as esperanças do Fla na reta final cabeceando com raiva o gol do empate em 1 a 1 no clássico com o Vasco.

No jogo seguinte a este empate contra o Vasco Dionísio também marcou. Era a partida da penúltima rodada do returno diante do Fluminense. Para os tricolores, a vitória valeria o título antecipado. O Fla precisava vencer para levar a decisão para a rodada derradeira. O time das Laranjeiras abriu 1 a 0 com Wilton, e o Fla igualou com um golaço de Liminha, recebendo passe de cabeça de Dionísio. Três minutos depois, viria o lance decisivo para o desenrolar do jogo: Cláudio, em posição duvidosa, recolocaria o Flu na frente, e então o goleiro rubro-negro Domínguez sairia de seu gol e correria até o meio-campo para reclamar com o árbitro Armando Marques, que o expulsaria numa decisão até hoje envolta em controvérsia.

Com o ponteiro Arílson sacrificado para a entrada do goleiro reserva Sídnei, o Fla precisava reunir forças para reagir pelos mais de 50 minutos de jogo que restavam. E Dionísio ofereceu um alento, marcando o segundo gol rubro-negro com uma cabeçada no ângulo de Félix aos 16 minutos da etapa final. Mas a pouco mais de 10 para o fim da partida, num momento em que a pressão rubro-negra, mesmo com um jogador a menos, era quase esmagadora, o Flu encaixou um contragolpe e marcou o gol da vitória com Flávio.

Mesmo sem o título, Dionísio pôde comemorar sua afirmação como goleador, com 10 tentos anotados (cinco deles de cabeça) em 18 jogos no Carioca.  O bom momento seguiria pela Taça Guanabara, disputada após o Estadual. No mês de julho, o centroavante marcou em todas as cinco partidas disputadas pelo Fla. Balançou as redes de Campo Grande (dois gols de cabeça na vitória por 3 a 2), Botafogo (1 a 1, de cabeça), Bonsucesso (1 a 1, de cabeça), Bangu (um gol na derrota por 3 a 2) e Fluminense (o gol da vitória de virada por 2 a 1), sagrando-se o artilheiro da competição.

Para o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Flamengo se reforçou com dois jogadores de centro de ataque vindos do Vasco: o matreiro ponta-de-lança Bianchini e o rápido Nei, este trazido já com o campeonato em andamento. Em tese, a concorrência para Dionísio aumentaria, mas ele acabaria mantido como titular em 10 dos 16 jogos.

Os rubro-negros novamente fizeram campanha fraca no torneio, e o matogrossense marcaria com menos frequência que no ano anterior: apenas três gols. Dois deles, no entanto, foram significativos por darem duas das três vitórias do time no certame e principalmente pela força dos adversários derrotados. Primeiro o Palmeiras no Maracanã, numa partida em que o Flamengo dominava, mas o empate em 1 a 1 persistia, até o centroavante escorar de cabeça uma cobrança de escanteio de Luís Cláudio para decretar o triunfo rubro-negro.

O segundo jogo decidido com gol do Bode Atômico foi a primeira partida disputada pelo Flamengo em sua história no recém-inaugurado estádio do Beira-Rio, em Porto Alegre, no dia 26 de outubro daquele ano. O Internacional era na ocasião o ponteiro do Grupo A e tinha um time difícil de ser derrotado na capital gaúcha. Abriu o placar logo aos seis minutos de jogo com o meia uruguaio Lamas, e o Fla se assustou, mas conseguiu evitar uma contagem maior até o intervalo. Na etapa final, porém, veio a virada relâmpago rubro-negra, com gols de Bianchini aos nove e Dionísio aos 10. Seria o último gol do centroavante naquele ano, no qual se sagraria o artilheiro do clube, balançando as redes 29 vezes em 58 partidas, média de um tento a cada dois jogos.

A GRANDE TEMPORADA QUE PODERIA TER SIDO (E NÃO FOI)

Considerado permissivo demais para com o elenco, Tim seria substituído no comando no início de 1970 pelo linha-dura Yustrich, o Homão, ex-goleiro do clube nos anos 30 e 40. Ao retornar à Gávea, o novo treinador elogiou Dionísio, a quem elegeu o homem ideal para finalizar sua tradicional jogada de ataque esquematizada, conhecida como “cavadinha”. E de fato o novo Flamengo – ou Mengão 70, como foi apelidado na época – começou a temporada com a pontaria afiada.

Uma das formações do Mengão-70 de Yustrich, antes do jogo contra o Vasco pelo Torneio de Verão. Em pé: Murilo, Sídnei, Washington, Tinho, Zanata e Tinteiro. Agachados: Doval, Liminha, Dionísio, Fio e Arílson.

Em fevereiro, três atuações assombrosas pelo Torneio Internacional de Verão. A primeira, um 4 a 1 contra a seleção da Romênia que enfrentaria o Brasil dali a alguns meses na Copa do México. Sob os olhares de Pelé, Jairzinho e o então técnico da Seleção João Saldanha, presentes nas tribunas do Maracanã, Dionísio marcou o terceiro gol do Fla numa verdadeira pedrada.

No jogo seguinte, massacre sobre o Independiente argentino: 6 a 1 com dois de Dionísio, mais uma assistência para Doval. Por fim, os 2 a 0 contra o velho rival Vasco garantem a taça do quadrangular e a aclamação geral. Após a conquista, escreveu o Jornal dos Sports sobre o centroavante rubro-negro: “Veste com muita propriedade a camisa do Flamengo. Além de ser um atacante perigoso nos chutes e nas cabeçadas, demonstrou uma garra elogiável. O primeiro gol, saído dos seus pés para Liminha, mostrou bem esse fato”.

Cobiçado pelo Corinthians – o técnico Dino Sani considerava-o essencial para montar o esquema ofensivo alvinegro – o Bode Atômico seguia marcando gols: dois no São Cristóvão pela Taça Guanabara, um no Grêmio na vitória rubro-negra por 2 a 1 em amistoso no Olímpico. Até chegar a partida contra a Portuguesa, também pela Taça Guanabara, no Maracanã, no dia 22 de março. O Fla venceu por 2 a 1, gols de Liminha, mas saiu preocupado com uma contusão sofrida por seu centroavante, atingido por um pontapé quando rebatia uma bola na defesa e substituído no segundo tempo. No dia seguinte viria a péssima notícia: o caso era grave, e o jogador ficaria pelo menos um mês de fora.

O diagnóstico inicial, que constatava uma lesão no tornozelo, seria logo corrigido: o problema era no joelho direito. Enquanto o departamento médico do clube batia cabeça, o atacante ficava de molho, com a perna gessada, aguardando o sinal para resolver o dilema opera-não-opera que congelava sua carreira no auge. Ficaria quatro meses inativo, retornaria contra a mesma Portuguesa, agora pelo Campeonato Carioca, marcando dois gols de cabeça, mas voltaria a sentir o joelho no jogo seguinte, um Fla-Flu. Enfim operado para a extração dos meniscos, ficaria outra vez de molho até março de 1971. E nunca mais seria o mesmo.

COM AS SEGUIDAS LESÕES, O DECLÍNIO NO FLA

Naquela temporada de 1971, ruim para todo o time rubro-negro, o centroavante disputaria 14 partidas, marcando apenas dois gols (ambos no Bonsucesso), antes de ser emprestado ao Bahia para o Campeonato Brasileiro. Na Boa Terra, pouco jogaria, não marcaria nenhum gol e seria devolvido antes do fim do contrato devido às constantes lesões.

No começo do ano seguinte, Zagallo assumiria o comando do Flamengo, que teria o elenco profundamente modificado após o fiasco da temporada anterior. Doval retornaria de um empréstimo ao Huracán, e o time apresentaria um ataque reformulado, com o argentino agora pelo meio do setor, jogando ao lado de Caio, centroavante revelado no próprio clube. Nas pontas, Rogério e Paulo César Lima, o Caju. Para Dionísio, era como estar de volta a 1968, tendo que batalhar tudo de novo em busca de um espaço na linha de frente, só que agora com o cenário agravado pela ameaça constante das lesões.

Na Gávea, com a faixa de campeão carioca de 1972, Dionísio é o segundo da fileira da frente, entre Arílson e Rodrigues Neto. Na mesma fileira seguem Doval, Zé Mário, Zico, Fio e o lateral Aloísio.

Dionísio retornaria aos poucos, entrando em algumas partidas do Torneio do Povo e depois no segundo e terceiro turnos do Carioca, no qual o Fla finalmente encerraria seu jejum de sete anos. No Brasileiro, atuaria em apenas 10 jogos (quatro como titular), mas balançaria as redes pelas últimas vezes com a camisa rubro-negra. Primeiro no clássico diante do Vasco, em 8 de outubro, recebendo lançamento de Zanata para correr e fuzilar Andrada empatando a partida, que logo o Fla viraria com gol de Arílson. E por fim, 10 dias depois, na derrota para o Coritiba por 2 a 1 na capital paranaense – de cabeça, como tinha de ser, após receber cruzamento de Rogério da ponta direita.

LONGE DA GÁVEA, RODANDO O PAÍS

Com chances ainda mais restritas após a chegada de Dario, no começo de 1973, acabaria emprestado ao Fluminense até o fim do ano. E de herói, passaria a vilão: manteria seu hábito de marcar em Fla-Flus, só que agora do outro lado. Anotaria o gol da vitória tricolor por 1 a 0 na abertura do terceiro turno do Carioca e depois, na decisão do campeonato, fecharia o placar em 4 a 2 dando a taça ao time das Laranjeiras. Em sinal de respeito à antiga casa, não comemorou nenhum dos gols. Voltaria à Gávea ao fim do empréstimo, antes de iniciar um período de cigano da bola, jogando no Sampaio Correia, Grêmio, Coritiba e Americano de Campos, onde pendurou as chuteiras no fim de 1976 ainda um tanto jovem, aos 29 anos.

Em 1983, retornaria ao Flamengo como olheiro e treinador das categorias de base (na época repletas de antigos ídolos do clube, como Carlinhos, Silva e Dida, entre outros). Exerceria a função por 30 anos, descobrindo para o clube talentos como Djalminha, Marcelinho, Paulo Nunes e Júnior Baiano. Dispensado em março de 2013, numa decisão que o magoaria profundamente, deixaria antes de sair mais um talento a ser lapidado na Gávea: um garoto chamado Vinícius Junior. Com a missão cumprida, o Bode Atômico descansaria em setembro do ano seguinte, aos 67 anos, vitimado por um infarto agudo do miocárdio enquanto dormia.

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