Figueiredo: Quando a tragédia nos ares foi o luto em vermelho e preto

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A tragédia aérea da última terça-feira, que vitimou praticamente toda a delegação da Chapecoense (jogadores, comissão técnica e dirigentes), além de profissionais da imprensa, a caminho de Medellín, na Colômbia, chocou não só o futebol brasileiro como o do mundo inteiro e provocou gestos emocionados até mesmo de torcedores do Atlético Nacional, adversário do clube catarinense na então iminente decisão da Copa Sul-Americana.

O acidente também evocou traumas de outros clubes que sofreram perdas humanas irreparáveis em desastres semelhantes. O presidente do Torino, clube que perdeu todo o seu elenco multicampeão italiano na colisão da aeronave que transportava sua delegação contra a capela de Superga, em Turim, em 1949, prontificou-se até a acertar um jogo amistoso em compadecimento à dor da Chape. No Brasil, o Flamengo – um dos primeiros clubes a se pronunciar, lamentar o ocorrido e oferecer apoio ao time catarinense nas redes sociais – já viveu seu luto particular pelas mesmas causas: a morte do zagueiro Figueiredo, jovem promissor que fez parte do elenco mais vitorioso da história rubro-negra.

A dor

figueiredo-1980Na manhã de sábado, 22 de dezembro de 1984, o Rio de Janeiro acordou lendo na primeira página dos jornais – em meio a notícias sobre a sucessão presidencial após a última eleição indireta do regime militar e as novidades a caminho do primeiro Rock In Rio, a ser realizado no mês seguinte – uma nota sobre o desaparecimento do zagueiro Figueiredo, do Flamengo. O monomotor em que viajava do Rio para a Bahia, ao lado do piloto, de uma amiga e de Niltinho, irmão do atacante Bebeto, sumira dos radares. E uma testemunha, um lavrador de Cachoeiras de Macacu, então distrito de Nova Friburgo, vira uma pequena aeronave se chocar contra o Pico da Caledônia.

As buscas duraram dois dias, dificultadas pelas chuvas e a forte neblina no local. Mas logo os responsáveis do Parasar e do corpo de bombeiros já desenganaram a família, os amigos, os colegas de clube e os torcedores. O corpo do jogador foi trazido para o Rio na tarde do domingo, 23. E rapidamente o velório foi seguido do enterro no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Entre os presentes, Zico lembrava que o zagueiro “encarnava a fibra rubro-negra. Para ele, treino era jogo”. Já o técnico Zagallo, muito abalado, não se conformava com a decisão do jogador de realizar a longa viagem num avião tão pequeno. Mas foi Andrade quem se lembrou do mais triste: Figueiredo foi enterrado no dia de seu aniversário. Completaria 24 anos naquele domingo.

O início da carreira

Nascido na capital paulista, Cláudio Figueiredo Diz era filho do espanhol Antonio Lago Diz e de Suzana Figueiredo. Depois de passar pela base do Palmeiras e do Nacional paulistano, chegou ao Flamengo em 1978, para atuar nos juvenis, sendo contemporâneo do zagueiro Mozer, do volante Vítor, dos centroavantes Anselmo e Ronaldo Marques, do ponta Édson e de outros jogadores revelados pela sempre prolífica fábrica rubro-negra de talentos daquele tempo. Integrou seleções cariocas e brasileiras da categoria. Chegou a fazer uma precoce aparição no time de cima, em abril de 1979, numa goleada sobre o Fluminense de Friburgo pelo Campeonato Carioca Especial. Seria a primeira de suas 152 partidas vestindo o manto rubro-negro.

Em 1980, com Rondinelli, preparando-se para substituir o "Deus da Raça".

Em 1980, com Rondinelli, preparando-se para substituir o “Deus da Raça” na zaga central rubro-negra.

No fim de junho de 1980, ainda nos juniores, despertou a atenção de um visitante ilustre após atuar numa vitória rubro-negra sobre o Botafogo por 2 a 0 na Gávea pelo Estadual da categoria: o veterano técnico franco-argentino Helenio Herrera, que dirigia o Barcelona e vinha ao Brasil para observar jogadores (no Flamengo, depois de saber que Zico era inegociável, sondou Tita e Nunes). Herrera gostou muito do zagueiro, mas a negociação não passou do interesse, já que o Fla também não tinha a intenção de vender seu jovem talento.

As qualidades que impressionaram o velho Herrera começavam pela excelente impulsão – apesar da baixa estatura (1,77 metro) – conquistada à base de muito treinamento com colete de peso. Além disso, Figueiredo era um zagueiro inteligente, com boa leitura do jogo e do adversário, muito bom nas antecipações e com facilidade de se adaptar ao estilo do atacante que teria pela frente. Era também um marcador duro até nos treinos, mas nunca desleal. Era mais garra, ímpeto, vontade de vencer do que violência pura e simples.

Promovido em definitivo ao elenco principal em 1981, era a quinta opção para o setor: o elenco ainda contava com Luís Pereira (trazido a peso de ouro do Atlético de Madrid em meados do ano anterior), Rondinelli, Marinho e Mozer (este, já há alguns meses entre os profissionais).

No começo de junho, porém, o Flamengo vivia processo de renovação de sua zaga. Luís Pereira já tinha deixado a Gávea para retornar ao Palmeiras, onde fez seu nome. Rondinelli vivia seus últimos meses no clube antes de receber boa proposta do Corinthians e sair em agosto. Havia o retorno de Manguito, que havia embarcado rumo ao Al Nassr, da Arábia Saudita, após o Brasileiro de 1980, e agora estava de volta, mas sem contrato e acima do peso.

Foi quando o técnico Dino Sani resolveu relacionar mais o jovem Figueiredo, utilizando-o a princípio durante os jogos e depois como volante, num curto período em que Andrade e Vítor estiveram lesionados. No jogo contra o Olimpia, no Maracanã, pela Libertadores, enfim começou jogando em sua posição. E daí em diante virou figura frequente na escalação do time (agora dirigido por Paulo César Carpegiani). Chegou inclusive a disputar como titular nada menos que dez dos 14 jogos da campanha vitoriosa na Libertadores – número inferior apenas ao de Mozer entre os zagueiros –, além de outros dois vindo do banco. E participou também desde o início de jogos importantes do Fla no período, como a histórica goleada de 6 a 0 sobre o Botafogo pelo Campeonato Carioca.

Flamengo x Cobreloa em Santiago

Nas três grandes decisões daquele fim de ano, porém, ele quase não esteve em campo. Depois de enfrentar o Cobreloa no Maracanã e em Santiago, um estiramento no músculo adutor o tirou do terceiro jogo, em Montevidéu. No jogo do título carioca, a vitória de 2 a 1 sobre o Vasco, Figueiredo entrou em campo apenas no fim do jogo, no lugar de Junior. E em Tóquio, contra o Liverpool, acabou assistindo do banco a conquista do título mundial, devido ao mesmo problema no adutor. De marcante, além da comemoração com os companheiros, apenas a tatuagem no braço direito (um golfinho) que fez durante a escala em Los Angeles, junto com Leandro e Mozer.

A primeira grande decisão

No ano seguinte, Carpegiani decide manter de início a dupla de zaga das decisões. Nas primeiras fases do Brasileiro de 1982, Figueiredo faz apenas uma partida – e joga mal. Escalado de improviso na lateral-direita contra o Atlético-MG no Maracanã, é expulso ainda no primeiro tempo após uma falta em Reinaldo. Mesmo assim, o Fla (que perdia por 1 a 0) vira o jogo com um a menos e vence por 2 a 1. Mas quando Mozer se lesiona na partida de ida das quartas de final contra o Santos no Maracanã (outra vitória rubro-negra de virada por 2 a 1) e fica de fora do resto da competição, Figueiredo ganha sua grande chance.

A grande atuação na partida de volta – empate em 1 a 1 no Morumbi – credencia o jovem zagueiro de 21 anos a permanecer no time. O Jornal do Brasil avaliou assim seu jogo: “Teve uma atuação seguríssima e foi, logo depois de seu companheiro de zaga Marinho, o melhor do time”. Na semifinal, contra o Guarani, mais duas grandes atuações, anulando Careca completamente, tanto no Maracanã quanto no Brinco de Ouro. No jogo da volta, em Campinas, sofreu inclusive um pênalti claro não marcado pelo árbitro, numa raríssima projeção ao ataque.

Nos jogos finais contra o Grêmio voltou a ter grandes atuações, crescendo a cada jogo, até a partida irretocável no terceiro e último jogo, no Olímpico. E o mesmo JB o apontou como o melhor da zaga, superior até a Marinho: “Irrepreensível nas disputas altas ou rasteiras, não perdeu um lance”.

O time rubro-negro da decisão do Brasileiro de 1982. Figueiredo é o terceiro em pé, da esquerda para a direita, ao lado do goleiro Raul.

O time rubro-negro da decisão do Brasileiro de 1982. Figueiredo é o terceiro em pé, da esquerda para a direita, ao lado do goleiro Raul.

Em agosto, no entanto, uma torção no tornozelo o tirou do time por um mês, propiciando o retorno de Mozer, já recuperado de sua lesão. Mas os papeis se invertem no começo do mês seguinte, quando Mozer se lesiona em um amistoso em Fortaleza, e Figueiredo retorna à zaga a partir da vitória sobre o America por 3 a 2, pela Taça Guanabara, permanecendo até o fim do ano, atuando em 19 das 22 partidas da equipe no período.

Chega 1983, e Mozer e Marinho voltam a estar em alta. Tanto que ambos ganham uma chance na Seleção Brasileira do novo técnico Carlos Alberto Parreira. Mas novamente Figueiredo arranja um jeito de sair na foto de campeão. Entra em campo 21 vezes (17 como titular) nas 32 partidas oficiais do Flamengo naquele primeiro semestre, entre Campeonato Brasileiro e Taça Libertadores. E na final do Brasileiro, nos 3 a 0 impostos ao Santos no Maracanã, lá estava ele substituindo Mozer no time titular e cumprindo atuação cinco estrelas, pela avaliação do Jornal do Brasil. Anulou o centroavante Serginho Chulapa a ponto de o camisa 9 santista se irritar após o fim do jogo e agredir jornalistas à beira do campo.

O melhor momento

Entretanto, logo após o fim do Brasileiro, voltaria ao banco de reservas. O que o ajudaria, porém, a passar quase incólume pela crise técnica (e até administrativa) na qual o clube mergulharia após a saída de Zico. Sua sorte – e a do Flamengo – começaria a virar com a chegada do técnico Cláudio Garcia, na virada da Taça Guanabara para a Taça Rio. Durante a passagem do novo comandante, entre o fim de setembro de 1983 e o de maio de 1984, viraria titular absoluto. Disputaria, sempre desde o início, nada menos que 41 das 46 partidas do Flamengo sob a direção do treinador. A ponto de Marinho, outrora dono da posição, ser negociado com o Atlético-MG.

Nesse período, Figueiredo fez grande dupla com Mozer, mais ou menos delineando a velha ideia de “beque central” e “quarto zagueiro”. Enquanto seu companheiro de miolo de zaga vivia talvez seu melhor momento no Flamengo, física e tecnicamente exuberante, dando-se ao luxo de sair jogando como se fosse um meia, em espetaculares arrancadas para o ataque, e de ser um dos cobradores de falta daquela equipe, Figueiredo era seu contraponto: raramente se aventurava à frente (menos até do que Marinho), mas se mostrava impecável nas tarefas defensivas, perfeito pelo alto, firme e preciso nos desarmes e inteligente na antecipação. Era como se Mozer fosse o zagueiro “louco” e Figueiredo, o sério.

Figueiredo capa Placar 1983Fora dos gramados, o jogador teve uma experiência inusitada nessa mesma época. Em todo o país, vivia-se o tempo das manifestações populares pelo retorno das eleições diretas para a Presidência da República e o chamado movimento “Diretas Já”. Os torcedores rubro-negros (que já haviam criado a torcida Flanistia, em 1979) não poderiam ficar de fora: um grupo fundou, no início de 1984, a torcida Fla-Diretas e escolheu – pela ironia envolvendo os sobrenomes do jogador e do presidente militar João Baptista de Oliveira Figueiredo – o zagueiro como padrinho (ao lado do ex-mandatário rubro-negro Márcio Braga e da atriz Christiane Torloni). Convencido pelo ponta Lico, seu companheiro do Fla e interessado em política, o jovem central rubro-negro acabou topando.

Em meados de 1984, no entanto, uma combinação de fatores acabaria por encerrar sua grande fase. Primeiro veio a demissão de Cláudio Garcia – apesar da campanha irretocável na primeira fase da Libertadores – pouco depois da eliminação nas quartas de final do Brasileiro, após uma derrota desastrosa para o Corinthians no Morumbi. O veterano Zagallo entraria em seu lugar. Depois, uma sequência de lesões: teve afundamento do malar e fratura da mandíbula num choque sofrido em amistoso contra o Treze, em Campina Grande (PB), e logo após retornar, quebrou o punho na partida em que o Fla venceu o Grêmio por 3 a 1 no Maracanã pela fase semifinal da Libertadores.

Na despedida, um presente do acaso

figueiredo-84Quando finalmente se livrou das lesões, Figueiredo encontrou a defesa rubro-negra já inteiramente reconfigurada por Zagallo. Contratado do America para suprir a saída de Junior para o Torino, o jovem Jorginho se firmava, mas não na lateral-esquerda (onde o garoto Adalberto, da base rubro-negra, crescia a olhos vistos) e sim na direita. Enquanto isso, daquela posição, Leandro finalmente tinha atendido seu desejo de passar definitivamente para a zaga central – por conta dos velhos problemas nos joelhos, era impossível continuar apoiando o ataque com a mesma frequência e qualidade. E Mozer, ainda irretocável, era o dono da quarta-zaga.

Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto formariam, assim, a linha defensiva rubro-negra para aquele segundo semestre de 1984. Figueiredo teria poucas oportunidades de jogar. Entraria em campo apenas quatro vezes pelo Campeonato Carioca, sendo duas como titular. A última delas, no entanto, seria marcante – apesar da derrota para o Fluminense por 2 a 1, na última rodada da Taça Rio.

Naquele dia, Figueiredo ficaria mais uma vez no banco. Mas o destino teria outros planos: Tita sentiu lesão e não passou no teste físico no vestiário, minutos antes de o time entrar em campo. Zagallo então, decidiu deslocar Leandro como meia-armador. E Figueiredo entrou na zaga – com a camisa de Tita. E aí deu-se a incrível coincidência, como uma espécie de homenagem, antes que qualquer pessoa e que o próprio zagueiro soubesse do que aconteceria dali a algumas semanas. No último jogo de sua vida, Figueiredo entrou em campo no Maracanã vestindo a lendária camisa 10 rubro-negra.

(Relembre aqui a matéria do Globo Esporte sobre a última homenagem a Figueiredo em dezembro de 1984)

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Há 60 anos, Fla arrasava São Cristóvão na maior goleada da história do Maracanã

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Em suas mais de seis décadas de existência, o Maracanã presenciou inúmeras goleadas. Entre clubes e seleções, equipes grandes e pequenas, cariocas e de fora do Rio, brasileiras e estrangeiras, em clássicos, decisões e amistosos. Mas nenhuma das registradas até hoje foi mais dilatada que a imposta pelo Flamengo há exatos 60 anos, empilhando uma dúzia de bolas nas redes do São Cristóvão na tarde de 27 de outubro de 1956, em partida válida pelo Campeonato Carioca daquele ano. Uma dúzia lembra feira. E o que se viu naquele dia foram gols rubro-negros a granel: 12 a 2, placar superlativo nunca ultrapassado no velho (e no novo) maior estádio do mundo.

Curiosamente, não era a primeira vez naquele ano em que o Flamengo marcava uma dúzia de gols numa partida. No dia 7 de junho, durante excursão à Europa, o time rubro-negro havia aplicado um 12 a 1 diante do Brann, da cidade de Bergen, na Noruega (com quatro gols de Henrique, além de Paulinho, Babá, Evaristo e Rubens com dois cada). Mas, àquela altura, o futebol no país escandinavo atravessava um estágio de completo amadorismo.

Evaristo, capitão do Fla na partida, troca flâmulas com seu colega do São Cristóvão.

O atacante Evaristo, capitão do Flamengo na partida, troca flâmulas com seu colega Benedito, do São Cristóvão.

Além disso, em que pese a frequência com que goleadas retumbantes eram impostas no futebol daquela época, em razão da diferença de nível técnico entre grandes e pequenos, um placar tão dilatado não era, absolutamente, algo esperado para aquele confronto. Principalmente porque o São Cristóvão, após um começo ruim, vinha se creditando a sensação, ou o “fantasma” do campeonato, como se dizia na época – apelido bem apropriado, aliás, para uma equipe de uniforme inteiramente branco.

O clube alvo retornava de uma bem-sucedida excursão à Turquia quando, no dia 14 de outubro, em seu estadinho de Figueira de Melo, recebera o Bangu pela abertura do returno do Campeonato Carioca. Tendo Zizinho como principal estrela, além de grandes jogadores como Zózimo, Nívio, Calazans e Décio Esteves, o Alvirrubro era o favorito, mesmo jogando fora de casa. Mas perdeu por 1 a 0, gol de Nonô.

Uma semana depois, na segunda rodada do returno, foi a vez do America – na ocasião, nada menos que o líder do campeonato ao lado do Vasco – levar Pompeia, Canário (ponta que depois defenderia o Real Madrid), Leônidas “da Selva”, Alarcón, Ferreira e seus outros craques ao estádio do São Cristóvão. Depois de abrir o placar com Washington e desperdiçar um pênalti, o time rubro sucumbiu à pressão e ao jogo mais intenso da equipe sancristovense, que empatou com Paulinho.

A equipe do São Cristóvão, candidata a sensação do Campeonato de 1956, posa em seu estádio de Figueira de Melo.

A equipe do São Cristóvão, candidata a sensação do Campeonato de 1956 até enfrentar o Fla, posa em seu estádio de Figueira de Melo.

A repercussão dos dois últimos resultados na imprensa e no público foi enorme. A revista Esporte Ilustrado chegou a anunciar em chamada na capa da edição de 25 de outubro, que trazia a cobertura do jogo contra o America: “Os cadetes metem mêdo”.

Dois dias depois da data da publicação, seria a vez de o time alvo enfrentar o Flamengo no Maracanã, no jogo de sábado à tarde, abrindo a terceira rodada do returno. Confiantes, repetiam a escalação das duas partidas anteriores: o jovem Rui, que havia ganhado a posição antes do jogo com o Bangu, era o goleiro. Jorge e Ivan completavam a defesa. A linha média tinha Benedito, Osmindo e Décio. E o quinteto ofensivo alinhava Paulinho, Nonô, Ademar, Neca e Olivar.

O Flamengo dirigido por Fleitas Solich também mantinha sua escalação dos dois jogos precedentes, com Ari efetivado no gol no lugar do argentino Chamorro – o que não significava, entretanto, a presença de todos os demais titulares incontestáveis: Jadir e Dequinha, peças fundamentais da defesa e do meio-campo, respectivamente, estavam fora por lesão. O clube rubro-negro buscava o tetracampeonato carioca, mas já havia perdido pontos preciosos (por exemplo, ao empatar com o Bonsucesso na abertura do returno) e ocupava apenas a terceira colocação no certame. Buscava, portanto, a reação a qualquer custo para seguir com chances.

Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagallo: a linha de ataque do Flamengo contra o São Cristóvão.

Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagallo: a linha de ataque do Flamengo que demoliu a defesa do São Cristóvão.

Às 15h15 foi dado o pontapé inicial. Mal se arvorou o São Cristóvão no ataque, e logo em seguida o Flamengo abriu a contagem. Evaristo invadiu a área e bateu forte. Décio bloqueou, mas a bola sobrou para Índio chutar por elevação, encobrindo Rui. Enquanto buscava o couro no fundo das redes, o arqueiro cadete mal imaginava que repetiria tantas vezes o gesto naquela tarde. “Do jogo propriamente dito, só há a registrar-se os ‘goals’”, desculpou-se a Esporte Ilustrado aos leitores por ver sua crônica do jogo quase reduzida à mera descrição dos tentos.

No primeiro tempo, porém, o escore foi até modesto da parte do Flamengo: só aos 18 minutos as redes alvas balançariam novamente. Joel desceu pela ponta direita e centrou. Evaristo, na pequena área, arrematou de calcanhar. Aos 31, o centromédio Luís Roberto, substituto de Dequinha, apanhou uma bola espanada por Jorge e bateu de fora da área. E cinco minutos depois, Evaristo recebeu de Índio para marcar o quarto.

Luís Roberto, médio rubro-negro e autor de um dos gols.

O médio Luís Roberto, autor de um dos gols.

Com a goleada já decretada, imaginava-se que o São Cristóvão se fecharia na defesa durante a segunda etapa para se poupar de algo pior. Não foi, porém, o que aconteceu. A equipe alva retornou com o mesmo desprendimento defensivo, por assim dizer, e tentando se lançar ao ataque. E veio então a enxurrada de gols rubro-negros. Logo aos sete minutos, Índio foi lançado por Joel e marcou o quinto. Dois minutos depois, o próprio Joel aproveitou o rebote de Rui e fez o sexto. E aos 16, Índio anotou mais um, o sétimo, após assistência de Evaristo.

Na tentativa de salvar um pouco a honra, o São Cristóvão descontou aos 17, depois de Nonô disputar a bola com o goleiro rubro-negro Ari. E após Evaristo fazer o oitavo gol do Flamengo no minuto seguinte, descontou pela segunda vez com Neca, cobrando pênalti de Tomires em Nonô. Mas o Flamengo cavaria mais fundo: aos 32, Paulinho recebeu de Índio e lançou o centroavante na corrida para fuzilar Rui.

Desestabilizada, a defesa sancristovense conseguiu falhar até em cobrança de tiro de meta: Evaristo recolheu o chute torto de Ivan e bateu para as redes, marcando o décimo. Paulinho, aos 41, e Joel, aos 45, completariam a dúzia de tentos rubro-negros. E foi isso: com o escore de DOZE a dois a favor do Flamengo, nem houve nova saída. O lendário Mário Vianna, árbitro da partida – e ironicamente torcedor confesso do São Cristóvão – pôs ponto final num massacre que até hoje o estádio não viu igual.

Evaristo marca um de seus quatro gols em foto da Esporte Ilustrado.

Evaristo marca um de seus quatro gols em foto da “Esporte Ilustrado”.

A contagem daquela tarde superava e muito o placar mais dilatado registrado até então nos pouco mais de seis anos de existência do Maior do Mundo: a vitória do Brasil sobre a Suécia por 7 a 1 na Copa do Mundo de 1950. E pelas próximas décadas, a batelada de gols daquele Flamengo x São Cristóvão seguiu inalcançável. Duas goleadas por 9 a 0 – do Fluminense sobre o Goytacaz em 1976 e depois do mesmo Flamengo sobre a Portuguesa da Ilha do Governador em 1978 – foram o mais perto que se chegou na velha configuração do estádio.

Até acontecer em 2013, já com o Maracanã transformado em arena, o insólito duelo entre a poderosa seleção da Espanha, campeã mundial, e a modesta equipe do Taiti, em partida válida pela Copa das Confederações da FIFA. A Roja até conseguiu igualar a margem de gols, vencendo por 10 a 0. Mas não chegou à dúzia de bolas na rede proporcionada pelo ataque rubro-negro quase 57 anos antes.

O Flamengo, como já lembramos no post sobre o épico Fla-Flu do primeiro turno daquele campeonato de 1956, não chegaria ao tetra, perdendo pontos fundamentais aqui e ali. Mas naquele 27 de outubro escreveu com muitos gols uma página não só de sua própria história, mas também do velho templo do futebol carioca. Um dia em que o garoto do placar do Maracanã trabalhou bem mais do que o de costume.

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Maracanã, sábado, 27 de outubro de 1956.
Campeonato Carioca – 14ª rodada (terceira do returno).
Renda: Cr$ 327.587,40.
Árbitro: Mario Vianna.
Gols: Índio aos três (1-0), Evaristo aos 18 (2-0), Luís Roberto aos 31 (3-0), Evaristo aos 36 (4-0) do primeiro tempo. Índio aos sete (5-0), Joel aos nove (6-0), Índio aos 16 (7-0), Nonô aos 17 (7-1), Evaristo aos 18 (8-1), Neca de pênalti aos 22 (8-2), Índio aos 32 (9-2), Evaristo aos 38 (10-2), Paulinho aos 41 (11-2), Joel aos 45 (12-2) do segundo tempo.

Flamengo: Ari; Tomires e Pavão; Milton Copolilo, Luís Roberto e Jordan; Joel, Paulinho, Índio, Evaristo e Zagalo. Técnico: Fleitas Solich.

São Cristóvão: Rui; Jorge e Ivan; Benedito, Osmindo e Décio; Paulinho, Nonô, Ademar, Neca e Olivar. Técnico: Índio.

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25 anos sem Doval, ídolo argentino de raça, malícia e talento em vermelho e preto

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doval-fla-1-novaO verão de 1972 em Ipanema se tornaria um marco para a história e a cultura (e a contracultura) da cidade do Rio de Janeiro. Por linhas para lá de tortas, é verdade. Aconteceu que a prefeitura decidiu dividir ao meio a faixa de areia da praia para as escavações necessárias à construção de um emissário submarino, a tubulação de saneamento do bairro da Zona Sul carioca. E para sustentar e firmar essa tubulação foi erguido um monstrengo gigantesco de madeira e ferro apontando bem para dentro do mar: era o chamado “píer” de Ipanema.

A construção do píer provocou duas alterações naturais consideráveis no local: primeiro, a estrutura de madeira sob as águas formava ondas perfeitas para o surfe; e segundo, a areia retirada do local da obra e espalhada para os lados provocou a formação de dunas artificiais. E por trás daquelas dunas – apelidadas “do Barato”, ou “da Gal”, em homenagem à cantora Gal Costa, que vivia por lá – fez-se uma pequena revolução comportamental: em meio a uma fauna de artistas, músicos, jornalistas, poetas, intelectuais, hippies e surfistas, muita música foi composta, grupos de teatro foram criados, modas foram lançadas, gírias se espalharam. Aquela estação seria eternizada como o “Verão do Píer”.

Aquele verão em Ipanema marcaria também o retorno ao Rio de um dos mais famosos frequentadores daquela faixa de areia: o argentino Narciso Horácio Doval, 28 anos completos naquele mês de janeiro, atacante que voltava a integrar o elenco do Flamengo após passagem por empréstimo pelo Huracán de sua terra natal. Daquele período em diante, Doval viveria seus anos mais intensos no futebol carioca, consolidando-se como grande ídolo da massa e verdadeiro personagem da Zona Sul da cidade.

O começo em Boedo e os “Carasucias”

Antes, é claro, muita bola já havia rolado, no Rio e em Buenos Aires. O começo de tudo foi precisamente em Palermo, bairro nobre onde nascera e fora criado, e onde costumava se destacar nas peladas. Chamou a atenção do San Lorenzo, passando às categorias de base do clube e estreando entre os profissionais em 1962, no momento em que o clube de Boedo revelava um ataque demolidor. Alinhavam “El Loco” Doval na ponta-direita, Fernando Areán, Héctor “Bambino” Veira, Victorio Casa e Roberto “Oveja” Telch. Todos com idades entre 17 e 22 anos.

doval-san-lorenzo-2Prontamente apelidados “Los Carasucias” (ou “os cara-sujas”, expressão da época equivalente a “moleques”), jogavam um futebol de técnica refinada combinada à malícia própria da juventude. Os títulos, no entanto, não vieram num primeiro momento. Mas Doval teria seu talento reconhecido em 1967, ano de sua primeira (e, logo se saberia, a única) convocação para a seleção argentina, em agosto daquele ano, para um amistoso contra o Chile em Santiago.

No entanto, o atacante cairia em desgraça num incidente até hoje mal explicado: explodiu contra ele a acusação de ter assediado uma aeromoça durante um voo com o elenco sanlorencista – alguns diriam com a própria seleção. Comenta-se que Doval teria assumido a culpa para livrar a cara de um colega casado do elenco. A punição inicial de um mês de suspensão acabaria passando a dez, depois de Doval se envolver em uma polêmica com o interventor da AFA, enquanto tentava provar sua inocência. Ironicamente, acabaria de fora de toda a campanha do título invicto do clube no Campeonato Metropolitano, quando Los Carasucias acabaram convertidos em Los Matadores.

O “Gringo” aporta na Gávea

doval-chega-1969Treinava aquele San Lorenzo campeão de maneira irretocável o brasileiro Elba de Pádua Lima, o Tim, “El Peón” para os argentinos. Excelente organizador tático e raposa velha do futebol, o técnico deixaria Boedo para retornar ao Brasil assinando com o Flamengo para a temporada 1969. Mesmo com as vagas de estrangeiros do elenco rubro-negro já preenchidas pelo zagueiro uruguaio Manicera e o volante paraguaio Reyes, Tim recomendou outros reforços sul-americanos ao chegar, entre eles Doval. Mas as negociações com “El Loco” só seriam retomadas em abril. No dia 11 daquele mês, o atacante assinaria com o Flamengo.

O jovem Flamengo de Tim vinha oscilando naquele início de Campeonato Carioca, mas pouco depois da entrada de Doval, engatou uma boa sequência de resultados, como um espetacular 3 a 0 diante do Vasco, que o colocaram na briga pelo título contra o Fluminense e o Botafogo. Contra o time de General Severiano, aliás, Doval teria atuação destacada (inclusive marcando o segundo gol) na memorável vitória do Fla por 2 a 1, encerrando um jejum de quatro anos sem derrotar o Alvinegro pelo Estadual. Aquela partida também entrou para a história por um fato curioso: antes do jogo, um grupo de torcedores rubro-negros levara um urubu ao Maracanã, soltando a ave minutos antes da entrada das equipes. O bicho sobrevoou o estádio para o delírio da torcida, encerrando ali a conotação pejorativa do termo pelo qual os torcedores do Flamengo, em sua maioria negros e pobres, costumavam ser chamados pelos rivais.

O time rubro-negro treinado por Tim no Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

O time rubro-negro treinado por Tim no Campeonato Carioca de 1969. Em pé: Murilo, Domínguez, Rodrigues Neto, Onça, Guilherme e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Fio, Dionísio e Arílson.

Aquele time rubro-negro, entretanto, não conquistaria o Carioca, parando diante dos tricolores em um Fla-Flu épico pela penúltima rodada. O Fluminense venceu por 3 a 2, e o caneco tomou o rumo das Laranjeiras. Embora já tivesse conquistado a torcida rubro-negra com inúmeras provas de sua categoria e raça, e contasse com um entusiasta de seu futebol no comando da equipe, Doval veria sua presença entre os titulares tornar-se mais intermitente até o fim daquele ano, já que Tim em vários momentos precisava recorrer aos demais estrangeiros do elenco. E diante da má campanha na Taça Guanabara (na época, um torneio à parte do Estadual) e no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o velho treinador deixaria o clube ao fim daquele ano.

Com Yustrich, atritos frequentes e empréstimo ao Huracán

Se o entendimento entre Doval e Tim era excelente desde os tempos de Boedo, com o novo treinador rubro-negro a história seria completamente diferente: Dorival Knippel, o Yustrich. Homem com fama de truculento, intransigente, centralizador, disciplinador, passional e até agressivo, era para os cartolas do Fla o nome ideal para colocar “na linha” um elenco jovem e tido como um tanto indolente. Com seu esquema apelidado de “cavadinha”, que consistia nos lançamentos em profundidade feitos pelos pontas, além de incessante marcação por pressão na saída de bola do adversário, o time começou o ano de 1970 atropelando: na conquista do Torneio Internacional de Verão, um quadrangular disputado em fevereiro no Rio de Janeiro, o Fla goleou a seleção da Romênia (4 a 1), o Independiente argentino (6 a 1) e bateu o Vasco por 2 a 0 para ficar com o título. Doval balançou as redes três vezes nas duas primeiras partidas.

Mas logo no início da Taça Guanabara – mais uma vez disputada como torneio à parte, e durante todo o primeiro semestre – os atritos entre o técnico e o atacante desatariam. Doval reclamava que o esquema o transformava num lateral, resumindo-se a cumprir funções táticas de maneira burocrática, quando o que queria na verdade era jogar solto, para desenvolver melhor seu futebol intuitivo. E, para piorar, era frequentemente substituído por Yustrich durante os jogos, dando lugar a jogadores bem menos brilhantes, mas mais disciplinados. Assim, o Gringo oscilou durante a longa disputa do torneio, entrando e saindo do time, mas afinal ajudando na conquista do título, após empate em 1 a 1 com o Fluminense em 31 de maio daquele ano.

No segundo semestre, após a Copa do México, viria o Estadual. Foi aí que a tensão chegou a seu primeiro auge: “Yustrich está matando meu futebol”, vociferou o argentino em entrevista à Placar. E a perseguição do treinador, segundo ele, extrapolava o campo: “Yustrich se mete na vida de todo mundo. Eu sei que ele não gosta do meu cabelo, das minhas roupas coloridas e do meu carro cor de laranja. E ninguém pode namorar”, escancarou. Sacado do time, Doval viu o Flamengo estagnar no Carioca após um bom começo e terminar apenas na quinta colocação. Um breve momento de trégua com Yustrich veio durante o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, quando, diferentemente dos anos anteriores, o Rubro-Negro cumpriu excelente campanha, brigando até o fim pela classificação, mas acabando de fora do quadrangular final após uma derrota para o Corinthians no Pacaembu na última partida, perdendo a vaga no saldo de gols.

No fim de março de 1971, como já se recusasse deliberadamente a obedecer às ordens do treinador – que o tachara de “doente mental” pelo jeito considerado indisciplinado –, Doval pediu para ser negociado e acabou emprestado ao Huracán, que montava um bom time, até o fim daquele ano.

Os melhores anos

doval-placar-1Com o fim do empréstimo, Doval retorna ao Flamengo e assina novo contrato em 17 de janeiro de 1972, realizando um sonho: com o dinheiro das luvas, compra um apartamento na rua Visconde de Pirajá, próximo à praça General Osório, em Ipanema. Agora oficialmente morador do bairro, estava completamente integrado à vizinhança. Esbanjando carisma e irreverência, era o argentino mais carioca de todos. Saía dos treinos na Gávea direto para a praia, onde jogava vôlei (e uma nova modalidade recém-criada, o futevôlei), bebia seu chope no tradicional bar Veloso, corria com os amigos Marcos e Paulo Sérgio Valle – os irmãos compositores de “Samba de Verão”, sucesso internacional, e outras canções clássicas da música popular brasileira – e aproveitava para dedicar-se a sua outra grande paixão: as mulheres.

doval-ipanema-2Loiro, olhos azuis e agora novamente de cabelos compridos e esvoaçantes (já que se livrara de Yustrich), Doval fazia o tipo galã. O ponto da praia em que ele e os irmãos Valle – o apelidado Trio Colírio – se encontravam recebia um séquito de garotas de toda a Zona Sul, fãs e tietes do atacante argentino. Emérito paquerador e sedutor incorrigível, Doval estava em casa: “Gosto muito de duas coisas nesse mundo: mulheres e praia. Sou louco por uma praia e gosto, mas gosto mesmo, de mulheres”, confessava à revista Placar.

Feliz por estar de volta a tudo o que amava, Doval só poderia retribuir em campo. Começaria naquele ano a fase em que se converteria definitivamente em ídolo, amado pela torcida do Flamengo e respeitado pelas adversárias, admirado pelos companheiros e temido pelos zagueiros. Era um atacante de muita qualidade técnica, mas era pela raça, garra e valentia que se destacava. Poderia jogar aberto pela ponta-direita ou dentro da área, onde preferia, como centroavante ou ponta-de-lança. Nunca se omitia. Não raro, deixava o campo com a camisa ensanguentada. Apanhava dos beques, mas batia de volta. Prendia a bola na frente, segurava a defesa. Catimbava e cavava faltas, mostrando que aprendera bem seu ofício em Boedo. E quando balançava as redes, corria em direção à geral do Maracanã, para receber o carinho da massa.

doval-fla-2O bom elenco reunido pelo Flamengo naquele ano também ajudou na recuperação de seu futebol. Agora treinado por Zagallo, o clube da Gávea havia se reforçado com o meia-atacante Paulo César Caju (contratado do Botafogo), o goleiro Renato (ex-Atlético-MG) e o volante Zé Mário (vindo do Bonsucesso). Além disso, a classe e a segurança de Reyes na zaga, a afirmação de jogadores como Liminha, Arílson e Rodrigues Neto, a recuperação física de Zanata e a boa fase de Caio eram notícias animadoras.

Assim, o time que já havia levantado outro Torneio Internacional de Verão (este, contra o Benfica – no jogo do gol de placa e de música de Fio “Maravilha” – e o Vasco), contou agora com atuações espetaculares do “Diabo Loiro” para conquistar também o Torneio do Povo, derrotando o Corinthians no Pacaembu, o Bahia na Fonte Nova, o Atlético-MG no Maracanã e empatando com o Internacional, também no Rio.

Em seguida viriam os títulos da Taça Guanabara – disputada pela primeira vez como o turno de abertura do Estadual e vencida com goleada de 5 a 2 sobre o Fluminense – e, já em setembro, do Campeonato Carioca, novamente com vitória sobre o Tricolor, desta vez por 2 a 1. Coube a Doval a abertura do placar, subindo mais que toda a defesa do Flu para marcar de cabeça. Aquele seria o 16º gol do argentino na competição, o que lhe daria a inédita artilharia do torneio.

Em 1973, é promovido de vez ao elenco profissional do Flamengo um garoto que Zagallo havia deixado quase todo o ano anterior na equipe de juvenis para completar sua formação. Um jovem chamado Zico, que será por vezes escalado como meia-armador, mas na maior parte do tempo passará a temporada como reserva imediato de Doval, tanto na ponta-direita quanto na ponta-de-lança. Enquanto isso, o Gringo mantinha a grande fase, agora tendo Dario, o Dadá Maravilha, como parceiro pelo centro do ataque numa tabelinha que virou música. No entanto, uma torção em um dos joelhos o tirou das partidas finais do Campeonato Carioca, conquistado pelo Fluminense. No fim do ano, porém, teria a honra de participar do jogo de despedida de Garrincha – com quem convivera brevemente quando o ponta defendeu o Flamengo, em fim de carreira em 1969. Naquele 19 de dezembro, Doval fez parte do combinado estrangeiro que enfrentou uma Seleção Brasileira reforçada pelo velho Mané.

doval-placar-2Uma verdadeira novela para a renovação de seu contrato com o Flamengo, firmada somente em 6 de abril, deixou Doval inativo pelos três primeiros meses do ano de 1974. Essa dificuldade e uma distensão na coxa direita sofrida no jogo contra o Grêmio no Maracanã pelo Campeonato Brasileiro impediram uma participação maior do argentino na boa campanha rubro-negra naquele torneio. Nas dez partidas em que esteve em campo, no entanto, teve boas atuações fazendo dupla de frente com Zico e marcou cinco gols. Mas aquele rejuvenescido Flamengo dirigido por Joubert prometia. E no Campeonato Carioca, no segundo semestre, já com Doval totalmente recuperado, a equipe embalou rumo ao título. O “Diabo Loiro” ficou de fora de apenas quatro das 27 partidas do Flamengo (coincidentemente, uma delas foi justamente a decisão contra o Vasco) e marcou dez gols, tornando-se o vice-artilheiro da equipe, atrás apenas de Zico, a grande revelação do futebol brasileiro naquele ano.

Outro jogador que surgiu como sensação em 1974 acabaria indo parar na Gávea em abril do ano seguinte: o centroavante Luisinho Lemos, do America, artilheiro do Carioca com 20 gols (um a mais que Zico) e que já havia feito outros 15 no Brasileiro (superado em apenas um pelo vascaíno Roberto Dinamite). Em tese, o trio parecia irresistível. Na prática, no entanto, não foi bem assim. Doval, contra sua vontade, acabaria deslocado para a ponta-direita para abrir espaço para o recém-contratado no comando do ataque.

Resultado: insatisfeito em jogar numa posição que não favorecia seu estilo de jogo, de brigar entre os beques, o Gringo não rendia o mesmo da temporada anterior, exceto em ocasiões esporádicas quando retornava ao centro do ataque. E pior: ansioso para mostrar a que tinha vindo, Luisinho se afobava nas finalizações. Só Zico manteve o nível, marcando espantosos 30 gols no Carioca, o novo recorde do torneio na Era Maracanã. Mas o Fla tropeçou em momentos decisivos, não venceu nenhum dos turnos e ficou fora das finais, irremediavelmente. Sem conseguir dar padrão ao trio, Joubert acabaria demitido no início do Brasileiro.

doval-1975Virando a casaca

O novo técnico rubro-negro, o gaúcho Carlos Froner, não melhoraria a situação de Doval no time. Mantido na ponta, o atacante acabou lesionando o pé num jogo do Brasileiro e teve recuperação demorada, voltando aos poucos, apenas nos últimos jogos. E ao fim daquele ano viria a negociação que sacudiu o futebol carioca. Pelo menos desde maio de 1975 já se especulava sobre o interesse do Fluminense em Doval. Em outubro, já se falava na possibilidade de troca por empréstimo ou em definitivo de Doval pelo ponta-esquerda tricolor Zé Roberto.

Aos 31, quase 32 anos, o Gringo era considerado velho pelos dirigentes rubro-negros – mas seguia como ídolo maior da torcida, no mínimo em igualdade com o ascendente e prata da casa Zico. E em 19 de dezembro, após jantar entre os presidentes Hélio Maurício, do Fla, e Francisco Horta, do Flu, a troca três por três era acertada: Doval mais o goleiro Renato e o lateral-esquerdo Rodrigues Neto iriam para as Laranjeiras, enquanto o goleiro Roberto, o lateral-direito Toninho e o já sondado Zé Roberto seguiriam para a Gávea.

A princípio, naquele momento, ambas as torcidas reprovaram as trocas. Os tricolores reclamavam da idade avançada dos jogadores vindos do Rubro-Negro, especialmente em comparação com os que saíam. Já os flamenguistas protestavam afirmando que haviam cedido seu maior ídolo e dois jogadores com passagem pela Seleção a troco de outros que, embora tratados como promessas, nunca chegaram a se firmar nas Laranjeiras – a exceção era Toninho. O tempo mostraria que a torcida do Flamengo era a que tinha razão em seu protesto.

Doval jogaria por três anos no Fluminense, retornando ao San Lorenzo – então passando por uma de suas piores fases – em 1979, e em seguida encerraria sua carreira atuando no incipiente futebol dos Estados Unidos. Depois de pendurar as chuteiras, voltou a viver em seu país, mas sempre manteve contato com o Rio de Janeiro e com o Flamengo, inclusive indicando jogadores argentinos e observando adversários. Em 9 de outubro de 1991, o time rubro-negro foi a Buenos Aires enfrentar o Estudiantes pela extinta Supercopa, em partida realizada no estádio do Huracán. Antes do jogo, vencido pelo Fla por 2 a 0, Doval visitou a delegação, abraçou velhos conhecidos, reafirmou sua paixão pelo clube e contou histórias. Três dias depois, conquistava em campo, defendendo o Flamengo, um torneio de futebol de masters realizado na capital argentina. Saindo da comemoração do título numa boate portenha, sofreu um ataque cardíaco e morreu. Tinha 47 anos.

Seu nome, entretanto, já estava eternizado na história do futebol e da cidade do Rio de Janeiro. É até hoje, por exemplo, o maior goleador estrangeiro do Flamengo, com 94 gols. O “argentino mais carioca”, que chegou a se naturalizar brasileiro em 1976, apesar de sempre arranhar um portunhol nas entrevistas e no dia a dia, virou lenda do Maracanã, ídolo da galera rubro-negra e personagem de Ipanema. Falecido há exatos 25 anos, está vivo na memória dos amigos, em suas histórias impagáveis, e na dos torcedores, pela bola cheia de raça e técnica.

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O curioso Torneio Aberto de 1936, título quase esquecido com Domingos e Leônidas

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Time do Flamengo no empate em 2 a 2 com o Fluminense pelo Torneio Aberto. Em pé: Sá, Alfredo, Médio, Domingos da Guia, Jarbas, Marin e Engel. Agachados: Fausto, Oto, Leônidas e Yustrich.

Time do Flamengo no empate em 2 a 2 com o Fluminense pelo Torneio Aberto. Em pé: Sá, Alfredo, Médio, Domingos da Guia, Jarbas, Marin e Engel. Agachados: Fausto, Oto, Leônidas e Yustrich.

Conquistado há exatos 80 anos pelo Flamengo, o Torneio Aberto foi uma competição cuja história é bem pouco lembrada ao longo das décadas seguintes. No entanto, ele simboliza um momento decisivo do futebol carioca e do Flamengo em especial. Criado na esteira da adoção do profissionalismo, foi a primeira conquista de dois jogadores lendários da história rubro-negra: nada menos que Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Se ambos são hoje considerados peças-chave na popularização estratosférica pela qual o clube passou naquela década, naturalmente esta conquista, vinda com vitória sobre o Fluminense no estádio das Laranjeiras, tem ao menos um pouco de participação nesse feito.

O contexto da época: amadorismo x profissionalismo

A década de 1930 é marcada pela introdução do profissionalismo no futebol brasileiro, bem como pela disputa entre os defensores do novo regime e os resistentes do amadorismo. O ano de 1933 marca a ruptura no Rio de Janeiro, quando alguns dos principais clubes (entre eles Flamengo, Fluminense, Vasco e America) deixam a Associação Metropolitana de Esportes Athléticos (AMEA, entidade que organizava o Campeonato Carioca) para criarem a Liga Carioca de Football (LCF). Entre aquele ano e o de 1936, o Rio teve dois campeonatos, organizados por federações diferentes.

Essa dissidência refletia o que também acontecia num âmbito mais amplo. No mesmo ano da cisão no Rio, os clubes brasileiros que adotaram o profissionalismo também romperam com a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, antecessora da atual CBF) e criaram a Federação Brasileira de Football (FBF), a entidade nacional que regulamentaria o novo regime remunerado no país.

Em 1936, apenas seis clubes disputam o Campeonato Carioca organizado pela LCF: o Flamengo, o Fluminense, o America (o atual campeão), o Bonsucesso, a Associação Atlética Portuguesa (na época ainda não sediada na Ilha do Governador, mas na extinta Praça Onze, no centro da cidade) e o Jequiá (esse sim da Ilha), substituto do Modesto, de Quintino, que participara no ano anterior. Havia ainda a chamada “subliga”, espécie de torneio de acesso disputado por equipes interessadas em aderir ao profissionalismo.

O torneio

O ponta-esquerda Jarbas, pioneiro no Fla e um dos goleadores da campanha do Torneio Aberto.

O ponta Jarbas, pioneiro no Fla: um dos goleadores da campanha do título.

O calendário, portanto, era bem curto. O número de jogos do Campeonato Carioca (15 para cada clube, em três turnos) era insuficiente para sustentar o regime profissional. E diante da necessidade de manter os times sempre em atividade para obter a renda que pagaria os salários dos jogadores, a LCF decidiu criar outras competições para movimentar seus filiados. Uma delas foi o Torneio Extra, iniciado em 1934. Outra foi o Torneio Aberto – que, como o próprio nome indica, não se limitava aos participantes do Campeonato Carioca da entidade. Qualquer equipe, profissional ou amadora, de dentro ou fora da cidade do Rio de Janeiro, poderia se inscrever.

A primeira edição foi disputada em 1935 e contou com a participação de 23 equipes, a maioria da cidade do Rio (então capital federal), mas também de Niterói, Petrópolis e Nova Iguaçu. Nesse primeiro torneio, o Flamengo chegou a turno final, mas perdeu para o America e viu a taça – além de uma gorda premiação em dinheiro – ficar com o Fluminense.

O regulamento, mantido para a edição seguinte, era simples: As equipes disputavam várias etapas em partidas eliminatórias, no estilo mata-mata, com os vencedores avançando e os perdedores caindo em uma repescagem. Ao final, duas equipes do chamado “grupo dos vencedores” e outras duas vindas dessa repescagem formariam o quadrangular final. Todos os jogos eram disputados em campo neutro, em três estádios: o do Fluminense, nas Laranjeiras; o do America, em Campos Sales; e o do Bonsucesso, em Teixeira de Castro.

O momento do clube

Naqueles meados de anos 30, o Flamengo também vivia um momento crucial em vários âmbitos. Esportivamente, vivia um jejum de títulos no Campeonato Carioca (a última conquista viera em 1927), embora tivesse levantado o troféu do Torneio Extra de 1934. Administrativamente, sob a presidência de José Bastos Padilha, o clube expandia seu quadro de sócios, enquanto a construção do novo estádio da Gávea seguia a todo vapor. E socialmente, o Fla preparava o terreno para se consolidar como um clube de massa, ao abrir definitivamente suas portas aos jogadores negros, como o pioneiro Jarbas, Roberto, Fausto dos Santos (a “Maravilha Negra”), Waldemar de Brito e dois que chegariam em meados daquele ano de 1936: Domingos da Guia e Leônidas da Silva.

Treinado pelo jovem Flávio Costa, ex-jogador do clube e que completaria 30 anos durante o torneio, aquele Flamengo de 1936 tinha entre seus principais valores o goleiro Yustrich (futuro treinador rubro-negro), os médios Fausto e Alemão – este, vencedor no ano anterior de um concurso organizado pelo Jornal dos Sports e patrocinado pelas balas Favoritas para eleger o jogador mais popular do Rio de Janeiro, numa das primeiras mostras do poder de mobilização da torcida rubro-negra –, os rápidos pontas Sá e Jarbas, além do talentoso meia-esquerda alemão Fritz Engel e do goleador Alfredo. A estes, na reta final, se juntariam Domingos da Guia e Leônidas.

Leônidas, Fausto e Domingos: o trio de astros negros que revolucionaria o Flamengo.

Leônidas, Fausto e Domingos: o trio de astros negros que revolucionaria o Flamengo, em foto do “Diário de Notícias”.

A campanha

Ao todo, nada menos que 47 equipes participaram da segunda edição do Torneio Aberto, com pontapé inicial no dia 29 de março. O Flamengo estreou mais tarde, em 7 de abril, contra o Modesto, a quem já havia enfrentado no Campeonato Carioca do ano anterior, vencendo os três confrontos. O clube de Quintino (bairro onde, mais tarde, nasceria Zico) tinha inclusive o uniforme bastante parecido com o do Fla (camisas vermelhas com uma listra preta na altura do peito), mas em campo só deu um rubro-negro: no primeiro tempo, o Flamengo já vencia por 4 a 0, com dois gols do ponta-esquerda Jarbas, um do centroavante Alfredo e outro do meia-direita Caldeira. Na etapa final, Jarbas e Alfredo marcaram cada um mais uma vez para fechar a contagem.

O segundo adversário do Fla, no dia 29 do mesmo mês, foi o Villa Joppert, clube amador do bairro de Bonsucesso. O jogo, assim como o anterior, foi disputado no estádio do America, na rua Campos Sales. O primeiro tempo terminou com vitória rubro-negra um tanto apertada: 2 a 0, gols de Sá e Alfredo. Mas na etapa final, se o Villa Joppert chegou por duas vezes a balançar as redes do goleiro Yustrich, sua defesa ofereceu bem menos resistência. Jarbas marcou duas vezes, Engel outras duas, o ponta-direita Sá fez mais um e Alfredo anotou outros dois para arredondar o massacre do Flamengo em 9 a 2.

Na terceira fase, o Rubro-Negro enfrentou o Bandeirantes, do bairro de Jacarepaguá e que, assim como o Modesto, disputava a subliga da LCF. A partida foi realizada no dia 2 de julho nas Laranjeiras. Nova goleada, dessa vez por 8 a 2, com destaque para Alfredo, autor de cinco gols. Caldeira (dois) e Engel completaram o escore. Três dias depois, o Fla voltou ao estádio tricolor para enfrentar o Engenho de Dentro, campeão da subliga em 1935, e o adversário mais duro até ali. Os “Fantasmas” – apelido da equipe alvianil – venderam caro a derrota por 2 a 0, gols de Jarbas, sendo o primeiro de pênalti na primeira etapa e o segundo já na fase final da partida.

Na quinta eliminatória, última etapa antes do quadrangular final, o Flamengo enfrentou o Bonsucesso e voltou a ter dificuldades. Após um primeiro tempo sem gols, o veterano Gradim abriu o placar para a equipe da Leopoldina. O alemão Engel empatou de pênalti, antes de perder a chance de virar o placar ao desperdiçar outra penalidade. O jogo foi então para uma prorrogação de 20 minutos, decidida no último deles, de maneira dramática, graças a um gol de Alfredo para o Flamengo.

Somente em 16 de agosto, exatamente um mês depois de garantir a classificação, o Flamengo faria sua primeira partida pelo quadrangular decisivo contra o Fluminense, o outro clube vindo do grupo dos vencedores (Bonsucesso e America, derrotados por Fla e Flu na quinta fase, acabaram vencendo a repescagem e avançando às finais). O jogo disputado nas Laranjeiras marcou a estreia de Domingos da Guia na equipe rubro-negra, além da primeira partida oficial de Leônidas pelo clube, depois de dois amistosos.

Domingos sentiu lesão e teve que deixar o campo com apenas dez minutos de jogo, substituído por Carlos Alves. Mesmo sem ele, o Fla teve raça para correr por duas vezes atrás do resultado: Sobral abriu o placar para os tricolores aos 25 minutos, com Jarbas empatando para os rubro-negros logo em seguida. Na etapa final, Hércules voltou a colocar o Flu em vantagem aos 15 minutos, mas o artilheiro Alfredo voltou a igualar para o Fla, a sete minutos do fim.

No dia 29, novamente jogando nas Laranjeiras, o Flamengo enfrentou o America, que havia goleado o Bonsucesso por 6 a 2 na primeira rodada. E aí sim Leônidas brilhou, marcando os dois gols rubro-negros, um em cada tempo, antes de Aírton descontar para os rubros. Com a vitória, o Fla chegava à liderança do quadrangular junto com o forte time do Fluminense (de Batatais, Machado, Romeu e Hércules), ambos com três pontos.

A decisão

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Na última rodada, tricolores e rubros jogaram um dia antes e ficaram no empate em 1 a 1, deixando o Flamengo precisando de uma vitória simples contra o Bonsucesso para conquistar o título. Mas o resultado esperado não veio: o Fla abriu o placar com Alfredo, aos 23 minutos e parecia que confirmaria o título. Porém, a dois minutos do fim do jogo, Alfinete empatou para o time da Leopoldina, decretando um resultado que obrigaria rubro-negros e tricolores a jogarem uma decisão extra pela taça.

No dia 13 de setembro, Flamengo e Fluminense entraram em campo nas Laranjeiras pelo primeiro jogo das finais, e a igualdade foi mantida. Hércules abriu o placar para os tricolores logo no começo da segunda etapa, mas Jarbas deixou tudo igual aos 25 minutos, mantendo as esperanças rubro-negras. A segunda partida da decisão viria uma semana depois, no mesmo local. Em caso de empate no tempo normal – na época, dividido em duas etapas de 40 minutos -, uma prorrogação seria jogada para definir o vencedor. Caso não fosse apontado, o título seria dividido.

Sá, autor do gol do título.

O ponta Sá, autor do gol do título.

Mas nem mesmo a prorrogação se fez necessária. Mesmo com o desfalque do meia Engel, o Flamengo dominou as ações no primeiro tempo e abriu o placar numa arrancada do ponta-direita Sá, logo aos três minutos da etapa final. Depois, conduziu o jogo com lucidez e tranquilidade até o fim, com Domingos controlando os avanços tricolores e Leônidas, do outro lado, mostrando-se um tormento constante para a retaguarda adversária. Ao final, a vitória por 1 a 0 diante de um estádio das Laranjeiras lotado, com público superior aos 17 mil torcedores e renda de mais de 75 contos de réis, fabulosa para a época.

O Torneio Aberto seria novamente disputado no ano seguinte – desta vez com a participação inclusive de equipes mineiras como o Atlético e o Siderúrgica (de Sabará) – sem, no entanto, ser concluído, uma vez que durante sua realização houve a chamada “pacificação” no futebol carioca, com a fusão das duas ligas existentes. Ao longo da história, acabou – como aconteceu com diversos outros torneios de vida curta – praticamente esquecido nas listas de grandes conquistas dos clubes.

Para o Flamengo, porém, o título valeu para marcar a chegada de dois craques que ajudariam a construir sua história, contribuindo decisivamente para o crescimento assombroso de sua popularidade – vale lembrar que este mesmo ano de 1936 marca ainda o início das transmissões da Rádio Nacional, grande difusora do futebol carioca Brasil afora. Três anos depois, com a equipe reforçada ainda mais, viria o fim do maior jejum do clube na história do Campeonato Carioca, fazendo a torcida rubro-negra explodir pelo Rio de Janeiro e por todo o país. Mas essa já é outra (grande) história.

Ficha da final:
FLAMENGO 1 x 0 FLUMINENSE

Estádio das Laranjeiras (Rio de Janeiro), domingo, 20 de setembro de 1936.
Torneio Aberto – final (2º jogo).
Renda: 75:804$300 (setenta e cinco contos, oitocentos e quatro mil e trezentos réis).
Público:17.393.
Árbitro: Casemiro Santa Maria
Gol: Sá, aos três minutos do segundo tempo.

Flamengo: Yustrich; Domingos da Guia e Marin; Médio, Fausto e Oto; Sá, Leônidas, Alfredo, Caldeira e Jarbas. Técnico: Flávio Costa.

Fluminense: Batatais; Guimarães e Machado; Marcial, Brant e Orozimbo; Sobral, Russo, Romeu, Raul e Hércules. Técnico: Hector Cabelli.

O Jornal do Brasil repercute a decisão.

O Jornal do Brasil repercute a decisão.

Há 60 anos, um golaço genial do pequeno Babá decidia Fla-Flu dramático

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Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Fazia muito calor no Maracanã na tarde de 16 de setembro de 1956, incomum para a época do ano. Naquele domingo, quem levou jornais para se abanar e tentar amenizar um pouco a temperatura no estádio lotado poderia também ler nas páginas do noticiário sobre a crise política internacional que tinha como pivô o Egito, após a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser, tomando das empresas britânicas e francesas o controle da circulação de embarcações na região.

Ou que, nos Estados Unidos, o presidente Dwight Eisenhower se preparava para mais um embate eleitoral contra o candidato democrata Adlai Stevenson, enquanto a juventude do país se rendia a uma nova febre: o rock ‘n’ roll.

Ou – mais provável, em vista do interesse – sobre os últimos ajustes para o primeiro Fla-Flu válido pelo Campeonato Carioca de 1956. Nele, o time da Gávea, atual tricampeão carioca e dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, buscava a vitória para não se distanciar da briga pela liderança contra Vasco e America. Paralelamente, o clube discutia a situação do meia Rubens, o Doutor Rúbis, ídolo da torcida em outras campanhas e que agora, em baixa, vinha de lesão e tinha proposta para se transferir ao Belenenses, de Portugal.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Além de Rubens, o time rubro-negro sofria com outras baixas importantes: Índio, Dida e Zagallo – metade do setor ofensivo – estavam vetados para o clássico, o que obrigaria o treinador a escalar o garoto Duca na meia-direita, deslocando o craque Evaristo para o centro do ataque e fazendo entrar Paulinho como ponta-de-lança e o miúdo Babá na extrema esquerda.

Já o Tricolor, comandado pelo ex-atacante rubro-negro Sylvio Pirillo, havia começado mal o torneio, mas seguia em franca recuperação e vinha completo. Tinha no ponta-direita Telê seu grande organizador de jogadas e em Waldo seu goleador, além da força de Pinheiro na zaga e dos milagres de Castilho – titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suíça, dois anos antes – no gol.

Na tarde quente de domingo, de Maracanã lotado e renda fabulosa (acima de Cr$ 1,6 milhão, superando em mais de dez vezes a soma de Botafogo x Bangu, no mesmo estádio na noite anterior), o Fla entra em campo com o argentino Chamorro no gol; Tomires pelo lado direito da defesa, Pavão de central, Jadir recuando da linha média para fazer a quarta zaga e Jordan na lateral-esquerda. Dequinha é o centromédio, articulando as jogadas com Duca pela meia-direita. Na frente, alinhavam Joel, Evaristo, Paulinho e Babá.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

No primeiro tempo, o time de Fleitas Solich é mais incisivo. Ataca principalmente pelo seu lado direito, aproveitando o dia ruim do médio-esquerdo tricolor Paulo. Esbarra, porém, no miolo de zaga adversário e em um Castilho que intercepta qualquer tentativa de cruzamento, pelo alto ou pelo chão. Do outro lado, a retaguarda do Fla não dá trégua ao ataque tricolor, mantendo sua área fora de maiores perigos. São 45 minutos em que as defesas sobrepujam os ataques.

Na etapa final, entretanto, quando o Fluminense passa a controlar as ações é que o jogo toma jeito de épico, honra a lenda do clássico. Primeiro Joel leva uma pancada na cabeça (provocando um princípio de traumatismo, afirmaria depois o médico rubro-negro Paulo São Tiago), mas continua em campo.

Depois vem o pênalti de Pavão em Waldo, apontado por Amílcar Ferreira. Da defesa vem Pinheiro, dono de um verdadeiro coice, cobrador de tiros indefensáveis da marca da cal. Chamorro prepara-se no gol, o zagueiro tricolor prepara a cobrança no canto esquerdo, enche o pé… e a bola explode no pé da trave.

Poucos minutos depois, o Flamengo se vê novamente em apuros: Dequinha, capitão do time e o homem que bloqueia a entrada da área e distribui o jogo da equipe, sofre violenta distensão muscular num choque casual com um adversário e precisa deixar o campo. Não há substituições, o time fica com dez. Para suprir sua ausência, o Fla precisa ser ainda mais coletivo do que o de costume.

Chamorro voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

Chamorro, o arqueiro argentino do Fla, voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

A pressão do Fluminense é imensa, insustentável. O gol tricolor amadurece a cada ataque. Parece inexorável. Numa escapada, Léo entra na área cara a cara com Chamorro, e o argentino opera um milagre. A bola sobra para Tomires (sofrendo com uma antiga distensão desde o primeiro minuto), que despacha com um chutão para a frente. A bola viaja. Pinheiro e Evaristo pulam juntos, mas não alcançam a cabeçada. Jair Santana, o último jogador da defesa tricolor, parece que vai fazer o domínio, mas a bola bate em sua cabeça e foge do alcance.

E sobra para Babá, na linha do meio-campo. Do alto de seu 1,54 metro de altura, o ponteiro rubro-negro recolhe, levanta a cabeça e olha para o latifúndio que tem à sua frente.

E então parte veloz e obstinadamente em direção ao campo adversário…

…Passando da intermediária, vê Castilho, o paredão do Tricolor e da Seleção, saindo do gol, e prepara-se para encher o pé…

Última Hora, Missão 1145-56

…Mas em vez da bomba, vem de improviso um leve toque, que encobre o arqueiro com um lençol magnífico…

Última Hora, Missão 1145-56

…E mansamente a bola quica e segue seu caminho em direção às redes…

Última Hora, Missão 1145-56

…Para se aninhar no fundo da meta tricolor…

Última Hora, Missão 1145-56

…Enquanto Babá e seus companheiros vibram, e o Maracanã vem abaixo…

Última Hora, Missão 1145-56

…E ao resignado Pinheiro, só resta buscar a bola para a nova saída.

Última Hora, Missão 1145-56

Mário Braga Gadelha, 22 anos de idade, cearense de Aracati que chegara há dois anos ao Rio de Janeiro para defender o Flamengo, enlouquece a massa. Aos 41 minutos do segundo tempo, remando contra a maré, o Rubro-Negro marca o único gol da partida. Crava a estaca no peito tricolor, que nos últimos minutos não consegue mais articular sequer uma jogada perigosa de ataque para tentar o empate. A vitória, dramática e improvável, é do Flamengo, graças ao pequenino Babá.

Última Hora, 17 de setembro de 1956

Nos vestiários, enquanto levava alguns pontos no couro cabeludo, em decorrência da pancada que sofrera em campo, o ponta Joel lembrava que o Flamengo vinha se acostumando a ganhar com 10, referindo-se também ao triunfo com um jogador a menos (Evaristo fora expulso) diante do Bangu, duas rodadas antes. Agora, exibindo raça, dedicação e futebol coletivo, o Fla voltava a vencer.

Mas o desgaste pagará seu preço ao final, e o Flamengo, extenuado, oscilará muito ao longo da competição, perdendo pontos bobos que impedirão o tetracampeonato. Ainda que colha outros resultados memoráveis no caminho – incluindo mais uma vitória de 1 a 0 sobre o Flu no returno.

Naquela tarde quente de 16 de setembro, porém, o velho Maracanã ganhou um gol para a história, que quem viu não se esquece. Um dia em que a malícia de um Davi venceu a imponência de um Golias da meta. Na manhã seguinte, o menino Babá era a manchete.

FLAMENGO 1 x 0 FLUMINENSE

Maracanã, domingo, 16 de setembro de 1956.
Campeonato Carioca – 8ª rodada.
Renda: Cr$ 1.670.197,80.
Árbitro: Amílcar Ferreira
Gol: Babá, aos 41 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá. Técnico: Fleitas Solich.

Fluminense: Castilho; Cacá e Pinheiro; Jair Santana, Clóvis e Paulo; Telê, Léo, Waldo, Jair Francisco e Escurinho. Técnico: Sylvio Pirillo.

As fotos maravilhosas que ilustram o texto são do acervo fotográfico do extinto jornal carioca Última Hora, atualmente preservado pelo Arquivo do Estado de São Paulo.

A jogada do gol de Babá desenhada pela revista Esporte Ilustrado.

A vez da nova geração: Há 30 anos, garotos davam ao Fla o título carioca de 1986

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O time do Flamengo na final contra o Vasco. Em pé: Leandro, Zé Carlos, Aldair, Jorginho, Andrade e Guto. Agachados: Bebeto, Adílio, Aílton, Vinícius e Marquinho.

O time do Flamengo na final contra o Vasco. Em pé: Leandro, Zé Carlos, Aldair, Jorginho, Andrade e Guto. Agachados: Bebeto, Adílio, Aílton, Vinícius e Marquinho.

Cantarele, Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Sócrates e Zico; Bebeto, Chiquinho e Adílio. No papel, um timaço. Em tese, este seria o Flamengo que disputaria aquele Campeonato Carioca de 1986, tentando reconquistar o título o qual vinha batendo na trave nos quatro anos anteriores. Foi esta escalação, aliás, a que entrou em campo na primeira partida, em goleada arrasadora por 4 a 1 sobre o tricampeão Fluminense, contada aqui. Porém, após inúmeros percalços, especialmente as lesões e convocações para a Copa do Mundo do México (que interrompeu o Estadual), seria um outro Flamengo, bem diferente – e bastante rejuvenescido -, o que chegaria enfim ao caneco em decisão diante do Vasco, naquele 10 de agosto de 1986.

O pontapé inicial do Carioca de 1986 veio no domingo, 16 de fevereiro, véspera da apresentação dos jogadores da Seleção Brasileira convocados na sexta-feira anterior pelo técnico Telê Santana. Todos os chamados desfalcariam suas equipes durante o longo processo de preparação para o Mundial do México, até pelo menos a divulgação da lista final dos 22 que iriam à Copa, em maio. De cara, Flamengo e Fluminense foram os maiores prejudicados. O Rubro-Negro perdeu sua dupla de zaga (Leandro e Mozer), além dos armadores Zico e Sócrates. Já o tricolor ficou sem o goleiro Paulo Victor e o lateral-esquerdo Branco – além de, um pouco depois, perder o paraguaio Romerito para a seleção de seu país.

Entre as outras quatro forças, o grande favorito não só a fazer frente à dupla Fla-Flu, mas também ao título, era o Vasco. Sem nenhum convocado, poderia contar integralmente com seus bons jogadores, como os goleiros Paulo Sérgio e Acácio, o lateral Paulo Roberto, o zagueiro Donato, o volante Vítor, além das revelações Lira e Mazinho e de seu intimidador quarteto de frente, formado por Mauricinho, Geovani, Roberto Dinamite e um jovem de 20 anos cotado como provável sensação do campeonato: Romário. Dos demais, o Botafogo vinha afundado em crise técnica aparentemente sem fim (havia terminado a Taça Rio, no fim do ano anterior, na décima colocação entre 12 clubes); o America mostrava uma equipe pouco mais que aguerrida; e o Bangu, grande destaque carioca em 1985, vivia o anticlímax após a grande temporada, com seus principais jogadores em má fase, o técnico Moisés contestado, além da disputa paralela – e aborrecida – da Taça Libertadores.

Mesmo desfalcado de seus jogadores da Seleção, o Fla manteve o nível da goleada sobre o Fluminense da estreia na partida seguinte, um categórico 4 a 0 sobre a Portuguesa na Ilha do Governador (estádio onde o Fla havia tropeçado em suas duas últimas visitas, em 1982 e 1985). No lugar de Leandro e Mozer, estavam os novatos Guto e Zé Carlos II. No meio, em vez de Zico e Sócrates, havia agora Valtinho (filho de Silva, o Batuta, craque e ídolo rubro-negro dos anos 60) e o loirinho Júlio César Barbosa criando e combatendo. E na frente havia Bebeto, que marcou duas vezes (uma delas de pênalti sofrido por ele mesmo), com Chiquinho e Valtinho completando o marcador.

O jovem time rubro-negro comemora a vitória sobre o Botafogo.

O jovem time rubro-negro comemora a vitória sobre o Botafogo.

Pela terceira rodada, outra grande atuação em mais uma vitória num clássico, agora diante do Botafogo. Chiquinho abriu o placar logo no início e Bebeto completou ainda no primeiro tempo. Com grandes atuações nas três partidas, o baianinho credenciava-se cada vez mais a ser o grande nome da equipe e a se firmar como um grande jogador do futebol brasileiro. Naquela tarde no Maracanã, havia feito jogada genial ao driblar o goleiro alvinegro Luís Carlos com uma ginga de corpo exatamente como Pelé havia feito com o uruguaio Mazurkiewicz na Copa de 1970. Mas o lance acabou anulado injustamente, antes que o jovem rubro-negro pudesse tocar para as redes, por um impedimento mal marcado.

Na partida contra o Mesquita, pela quarta rodada, a lista de desfalques aumentou: Adílio sofreu entorse no joelho esquerdo. Ficaria fora de ação pelo resto da Taça Guanabara e o início da Taça Rio. Naquela partida, disputada no estádio Caio Martins e vencida pelo Fla por 3 a 1, entraria em seu lugar um ponta-esquerda da base, estreando no time profissional aos 18 anos de idade, chamado Zinho. Foi também naquele jogo que outro jovem recém-promovido dos juniores atuaria pela primeira vez como titular do Fla num jogo oficial: o quarto-zagueiro baiano Aldair, de 20 anos.

Aos poucos, a garotada tomaria conta da equipe. Mas para o treinador rubro-negro, não haveria nenhum problema. O mineiro Sebastião Lazaroni, de apenas 35 anos, trabalhava no clube desde meados da década de 70, como preparador físico, auxiliar técnico e, posteriormente, dirigindo as categorias de base. Conhecia bem o potencial de cada garoto daquele elenco. Naquele momento, vivia sua primeira experiência como treinador efetivo de uma equipe principal, iniciada em outubro de 1985, quando substituiu Joubert durante o Campeonato Carioca, e após uma breve passagem como interino, meses antes. Formado em Educação Física e estudioso do futebol, Lazaroni sabia ainda aliar a disciplina tática à motivação dos atletas, fazendo do Flamengo um time aguerrido, combativo, veloz, mas sem medo de atacar.

Marquinho, Guto e Valtinho encaram o Goytacaz em Campos.

Marquinho, Guto e Valtinho encaram o Goytacaz em Campos.

Com seus garotos, o Flamengo de Lazaroni seguiu no encalço do completo Vasco, com quem passou toda a Taça Guanabara se revezando na ponta da tabela, bem à frente dos demais – o Fluminense, por exemplo, havia sido goleado por Flamengo (4 a 1), Goytacaz (4 a 0 em Campos) e Botafogo (também 4 a 1, na última rodada). Mesmo sofrendo mais um desfalque, o do experiente goleiro Cantarele, lesionado em um dos joelhos durante a partida contra o Bangu. Em seu lugar entraria mais um garoto: o jovem Zé Carlos, o Zé Grandão, que não perderia mais o lugar até o fim da competição.

Na decisão da Taça Guanabara contra o Vasco, em 20 de abril, o Fla, no entanto, não levaria a melhor. Até dominaria o jogo e criaria mais oportunidades, mas em duas das raras chances que teve, Romário marcou duas vezes e deu o título aos cruzmaltinos. Nos vestiários, Lazaroni chegou a chorar, agradeceu aos jogadores e os parabenizou pelo esforço, lamentando que mereciam melhor sorte, diante do futebol apresentado. Mas não era nada. Ainda havia muito campeonato pela frente.

O começo da Taça Rio foi bastante irregular, com um empate contra o Campo Grande em Ítalo del Cima (1 a 1), nova vitória sobre o America no Maracanã (2 a 0) e derrota de virada para o Botafogo (1 a 2). Mas com a goleada de 5 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha em Caio Martins na quarta rodada, o time voltaria a embalar, não perderia mais o gás nem mesmo com a paralisação de cerca de um mês pela disputa da Copa do Mundo, e não seria mais derrotado até o fim da competição.

O jogo contra a Portuguesa marcaria o breve retorno de Leandro, fora da Seleção, ao time Rubro-Negro. Mas sua volta definitiva viria apenas nas partidas finais. Zico também retornaria ao time após a Copa, mas entraria em campo apenas três vezes antes de nova lesão muscular. Mozer, cortado da Copa para se submeter a uma cirurgia nos joelhos, voltaria mais adiante, mas também apenas por dois jogos. Sócrates e Cantarele não entrariam mais em campo. Aquele título teria que vir mesmo dos pés dos garotos.

E havia uma boa safra surgindo. Zé Carlos se firmava no gol; Guto e Aldair combinavam a raça de um e a técnica do outro na zaga; Aílton era o pulmão do meio-campo (e às vezes também pela lateral); Valtinho fazia boas exibições no meio, armando e marcando; Vinícius ganhava confiança e a titularidade da camisa 9; Zinho aparecia bem pela ponta-esquerda; Alcindo infernizava laterais entrando durante os jogos pelo lado direito. Um pouco mais experientes, Bebeto, Jorginho e Adalberto confirmavam sua grande categoria. Júlio César Barbosa e o ponta-esquerda Marquinho (vindo do Vasco em janeiro de 1985, trocado pelo volante Vítor e o lateral Heitor) eram de grande importância pela disposição e aplicação tática. E, no centro de tudo, estava Andrade, o esteio do meio-campo.

Bebeto e Aílton na disputa com o tricolor Delei, no clássico da Taça Rio.

Bebeto e Aílton na disputa com o tricolor Delei, no clássico da Taça Rio.

Daí em diante o time embalou. Venceu o Goytacaz em Caio Martins (1 a 0) e o Mesquita na Baixada (3 a 1). Empatou com o Americano em jogo tumultuado em Campos (2 a 2). Bateu o Olaria na Rua Bariri (2 a 1) e venceu o Fla-Flu (1 a 0) mesmo perdendo Zico logo aos sete minutos – o que levou a torcida tricolor a, novamente, gritar “bichado” para o Galinho e ser calada logo depois pelo gol de Marquinho. Arrancou o empate em 1 a 1 com o Bangu no Maracanã em cabeçada de Valtinho, após sair atrás no marcador. Até chegar o clássico diante do Vasco na última rodada.

No sábado, 26 de julho, o Fluminense havia derrotado o Bangu no Maracanã por 1 a 0, alcançando a liderança temporária da Taça, um ponto à frente do Flamengo e três a mais que vascaínos e banguenses, sem chance no turno. No domingo os tricolores torceriam, portanto, pelo Vasco. Em caso de empate, Fla e Flu fariam jogo extra, decidindo o turno. Já se o Rubro-Negro vencesse, seria não só o campeão da Taça Rio como também o primeiro colocado na classificação geral, na soma dos turnos.

Bebeto, cobrando falta à la Zico, no canto direito de Paulo Sérgio, abriu o placar para o Fla. Romário empatou para o Vasco ainda no primeiro tempo, de ponta de chuteira, na pequena área, após bola alçada por Paulo Roberto. No segundo tempo, Roberto Dinamite virou para o Vasco aos 14 minutos. Mas o Fla não estava entregue. Aos 34, Alcindo tentou o cruzamento pela direita e Vitor cortou com a mão dentro da área. O árbitro marcou o pênalti para o desespero dos cruzmaltinos – que, mesmo já sem chance na Taça Rio, jogavam para eliminar de vez o Flamengo e colocar o Fluminense na decisão. Bebeto bateu e empatou o jogo. Dois minutos depois, Roberto, descontrolado, agrediu Andrade e foi expulso. Aos 39, num contra-ataque avassalador, Bebeto tocou de calcanhar para Adílio, que devolveu para a finalização do atacante. Paulo Sérgio deu rebote e Julio Cesar Barbosa não perdoou. Do outro lado, Zé Carlos ainda brilharia ao defender uma cabeçada de Mazinho, a três minutos do fim, garantindo o triunfo rubro-negro. Fla 3 a 2, campeão da Taça Rio e finalista do Estadual.

Bebeto e Aldair vibram contra o Vasco.

Bebeto e Aldair vibram contra o Vasco.

Com o Flamengo na condição de campeão da Taça Rio e também na de equipe que somou mais pontos nos dois turnos, a fase final se transformou em um “triangular de dois”, diferentemente dos quatro anos anteriores, quando três clubes chegaram para a decisão – embora os cartolas do Fluminense, dessa vez, tenham recorrido ao TJD, ao STJD e até à Justiça Comum para tentar anular a derrota por W.O sofrida pelo time ao não comparecer à partida contra o Americano, em Campos, no dia 18 de maio, quando o clube alegou que seus atletas estavam com dengue e virose respiratória. Não colou.

Agora, rubro-negros e cruzmaltinos jogariam uma melhor de quatro pontos, com o Fla tendo um de vantagem, dado pelo regulamento à melhor campanha geral. Mas a grande missão rubro-negra era parar o ataque vascaíno, disparado o mais positivo do torneio (ao todo, 50 gols, sendo 20 do artilheiro Romário). No primeiro jogo, em 3 de agosto, uma partida muito estudada, com as duas equipes sem arriscar tanto. Mas o placar só não saiu mesmo do zero porque a trave salvou Acácio numa cobrança de falta de Marquinho e porque o árbitro deixou passar um pênalti claro de Mauricinho em Adalberto.

A segunda partida, três dias depois, poderia valer o título ao Fla em caso de vitória, mas o 0 a 0 persistiu. Ficou tudo para o domingo, 10 de agosto, diante de mais de 127 mil torcedores no velho Maracanã. O time rubro-negro, que pela primeira vez no campeonato não teria Adalberto, ausente por lesão, na lateral-esquerda, entrou em campo com Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Guto e Aldair; Andrade, Aílton e Adílio; Bebeto, Vinícius e Marquinho. O Vasco de Antônio Lopes foi a campo com Acácio; Paulo Roberto, Donato, Morôni e Heitor; Vítor, Mazinho e Geovani; Mauricinho, Roberto e Romário.

Na decisão, Bebeto acaba com o Vasco.

Na decisão, Bebeto acaba com o Vasco.

Pressionado pela necessidade de vencer, o Vasco atacou mais, mas esbarrou em Zé Carlos soberano no gol. O Fla, que só partia na boa, levava perigo mais concreto. No intervalo, Antônio Lopes surpreendentemente tirou Geovani, cérebro do meio-campo vascaíno, para colocar o junior Claudinho. Era a senha: o Fla assumia de vez o controle do jogo e o gol amadurecia. Aos 28 minutos, Marquinho – onipresente em campo – ginga na frente de Paulo Roberto, tabela com Julio Cesar Barbosa, vai à linha de fundo e rola para Bebeto, livre, quase na pequena área, girar e bater para o fundo das redes.

A segunda alteração de Lopes foi ainda mais surpreendente: tirou Romário para colocar o ponta-esquerda Santos. Nem a torcida rubro-negra acreditou, saudando o treinador rival com gritos de “burro”. O castigo – e o ponto final do campeonato – veio aos 39 minutos: Julio Cesar Barbosa recebe de Andrade e bate cruzado da entrada da área. A bola quica por baixo do corpo de Acácio, que engole um frangaço, e vai para o fundo das redes novamente. Estava decretado o 22º título carioca do Flamengo, dono do craque do campeonato, Bebeto, da revelação do torneio, Aldair, e de toda uma geração valente de garotos muito bem comandados e organizados em campo por Lazaroni. Meninos rubro-negros com futebol de gente grande.

Campeões: Bebeto, Jorginho e Marquinho carregam a taça.

Os campeões de 1986: Bebeto, Vinícius (atrás), Jorginho e Marquinho carregam mais uma taça.

Quarenta anos sem Reyes, ídolo de técnica e raça na zaga e no meio-campo do Fla

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Os tempos eram difíceis para o torcedor rubro-negro naqueles fins de anos 60 e começo dos 70. O clube amargava um incômodo jejum de títulos cariocas e frequentemente cumpria campanhas medíocres recorrendo a elencos geralmente fracos. Havia porém alguns poucos motivos de orgulho para a massa admirar em campo. Um deles, provavelmente o maior, era o futebol de técnica exuberante e valentia incansável daquele paraguaio com cara e cabelo de índio. Símbolo maior de raça e categoria no meio-campo e depois, especialmente, na quarta-zaga do Flamengo em tempos pra lá de bicudos, Reyes viraria saudade no coração da torcida rubro-negra ao falecer em Assunção, capital paraguaia, há exatos 40 anos, vitimado por uma leucemia.

Nascido na mesma Assunção em 24 de julho de 1941, o garoto Francisco Santiago Reyes Villalba, ou apenas Reyes, começou a jogar no meio-campo do pequeno clube Presidente Hayes, de onde veio para o poderoso Olimpia em 1962. Pelo Decano, conquistou dois títulos paraguaios, entremeados com uma passagem pelo River Plate argentino, por empréstimo. Chegou também à seleção do Paraguai, pela qual disputou inclusive partidas das Eliminatórias das Copas do Mundo de 1962 e 1966.

Em 1965 cruzou o Atlântico, negociado com o Atlético de Madri. Na Espanha, porém, não teve muita chance, pois o clube já contava com número excessivo de jogadores estrangeiros, o que limitava sua presença a alguns amistosos. Até aparecer em seu caminho o Flamengo – que sempre manteve fortes laços com o futebol guarani, por meio de jogadores e treinadores que marcaram época (Fleitas Solich, Modesto Bria, Sinforiano García, Jorge Benítez, posteriormente Gamarra).

Reyes no Olimpia (à direita) ao lado de seu irmão Marlo, de camisa do clube Presidente Hayes, onde ambos começaram no futebol.

Reyes no Olimpia (à direita) ao lado de seu irmão Marlo, de camisa do clube Presidente Hayes, onde ambos começaram no futebol.

O começo difícil na Gávea

Naquela metade de 1967, o Flamengo excursionava pela Europa e tentava se reformular depois de fazer campanha bastante fraca no Torneio Roberto Gomes Pedrosa: o técnico argentino Armando Renganeschi, campeão carioca dois anos antes, já manifestara desejo de deixar o comando do time, e os dirigentes pretendiam trazer Oto Glória, então no Atlético de Madri, para seu lugar, além de repatriar o atacante Silva, ídolo na conquista daquele título, que não vinha tendo muita chance de jogar no Barcelona. No entanto, nenhum dos dois veio para a Gávea. O que os cartolas rubro-negros conseguiram, porém, foi o empréstimo do meia-armador paraguaio Francisco Reyes junto ao clube madrilenho para os jogos finais da excursão. Com ele, o time disputou o Troféu Ibérico, na cidade espanhola de Badajoz, perdendo para o Sporting Lisboa (1 a 2) e vencendo o Barcelona (1 a 0).

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Reyes assina contrato com o Flamengo. À sua direita, sorrindo, o sueco Gunnar Goransson, dirigente do clube na época.

Mesmo sem ritmo de jogo, o gringo agradou e foi contratado em definitivo pelo alto valor de NCz$ 100 mil. Chegou ao clube em agosto, mas demorou mais de um mês para estrear, por problemas de documentação e uma gripe insistente que pegou logo ao chegar. Enquanto isso, aparecia muito bem nos treinos, como dizia a nota do Jornal do Brasil do dia 10 daquele mês: “O jogador paraguaio tem demonstrado excelentes qualidades nos coletivos e, sobretudo, noção para os lançamentos em profundidade. Reyes bate na bola com muita facilidade e tem boa colocação dentro do campo. Embora ainda não esteja em forma, Reyes já demonstrou que tem qualidades para resolver o problema de meio-campo do Flamengo”.

Reyes na capa da Revista do Esporte em outubro de 1967.Infelizmente, os problemas do time rubro-negro não se resumiam ao meio-campo. A temporada de 1967 foi uma das piores da história do Flamengo desde a adoção do profissionalismo, em 1933. Basta dizer que pela primeira vez desde aquele ano o time encerrou com mais derrotas (31) que vitórias (22). Nem mesmo a chegada em outubro do experiente Aymoré Moreira, treinador campeão do mundo com a Seleção Brasileira no Chile em 1962, ajudou a melhorar a pífia campanha do time no Campeonato Carioca. Enquanto isso, Reyes sofria em sua adaptação com uma série de problemas físicos, a saudade da esposa e do filho recém-nascido, além do preocupante estado de saúde de seu pai, recém-infartado. Houve, porém, uma grande exibição do paraguaio no primeiro Fla-Flu do campeonato, vencido pelo Rubro-Negro por 3 a 1: Reyes marcou, deu passes, lançou em profundidade, fez o segundo gol do time pouco depois do empate tricolor e, sobretudo, demonstrou toda a elegância e o dinamismo em campo que a ele atribuíam.

O ano seguinte não começou melhor para o jogador. Logo no início do ano, uma briga com Aymoré durante um treino, por uma suprema ironia: o técnico queria que Reyes atuasse como quarto-zagueiro. O jogador protestou, jogou a camisa no chão com raiva e acabou fora do time titular, até a saída do comandante, em março. Ex-médio do clube nos anos 40, Válter Miraglia assumiu o time e utilizou o paraguaio com frequência um pouco maior (inclusive como titular), mas ainda era pouco: durante todo o ano de 1968, disputou 24 partidas, mas apenas dez desde o início.

Como curiosidade, também naquele ano atuaria pela primeira vez na posição que o consagraria tempos depois, num amistoso contra o Guará, em Brasília, no dia 18 de junho. Formou uma zaga “estrangeira” ao lado do central uruguaio Manicera. O Flamengo venceu por 2 a 0. Mas, sem ser tão aproveitado, Reyes esteve perto de rumar para Moça Bonita: em setembro o Fla chegou a propor ao Bangu a troca simples do paraguaio pelo atacante alvirrubro Mário “Tilico”, mas as negociações não avançaram.

Time do Fla que disputou amistoso em Manaus contra o Nacional local, em julho de 1968. Em pé: Murilo, Onça, Marco Aurélio, Manicera, Carlinhos e Paulo Henrique. Agachados: Zélio, Reyes, Luís Carlos, Silva e Rodrigues Neto.

Time do Fla em Manaus para amistoso contra o Nacional local, julho de 1968. Em pé: Murilo, Onça, Marco Aurélio, Manicera, Carlinhos e Paulo Henrique. Agachados: Zélio, Reyes, Luís Carlos, Silva e Rodrigues Neto.

Em 1969, suas chances de atuar ficaram ainda mais reduzidas, já que o clube contratou mais dois estrangeiros – o veterano goleiro Rogelio Domínguez (ex-Racing e Real Madrid) e o atacante Narciso Horácio Doval (ex-San Lorenzo), ambos argentinos – ficando com quatro no elenco, e podendo utilizar apenas dois por vez, conforme a legislação. Assim, Reyes entrou em campo apenas sete vezes, seis delas em amistosos, e apenas duas vezes como titular. No primeiro jogo, substituiu Garrincha durante a vitória rubro-negra por 3 a 1 sobre o Robin Hood, do Suriname, em excursão ao país vizinho. Seu último jogo pelo Flamengo no ano veio no dia 6 de abril, entrando na etapa final de uma vitória por 2 a 0 sobre o Bangu, pelo Campeonato Carioca.

Vivendo o ostracismo na Gávea, treinava entre os reservas na posição que sobrasse (ora lateral, ora ponta). Quase se transferiu para o futebol mexicano. Quase foi trocado com o Vasco. Mas acabou mesmo emprestado ao Campo Grande no fim de setembro, numa leva com outros rubro-negros menos cotados. No clube da Zona Oeste, atuou ao lado de veteranos como Jair Marinho e Hélio Cruz sob o comando do técnico Gradim, e conquistou o Torneio Otávio Pinto Guimarães, disputado entre equipes menores da Guanabara e as do antigo estado do Rio de Janeiro, pré-fusão.

A volta por cima

Findado o empréstimo, o apoiador retornou ao Flamengo, mas era peça quase descartada no elenco rubro-negro para a temporada de 1970. Caso não houvesse nenhum clube interessado em sua contratação, seria devolvido ao Atlético de Madri, sem honra nem glória, como mais um estrangeiro que fracassara no clube e no futebol brasileiro – ainda que, como tantos outros, subaproveitado. Sua cotação na Gávea estava tão baixa que ele acabou incluído num time misto, formado por juvenis e reservas, que excursionaria pela Ásia fazendo amistosos no Japão e na Coreia do Sul, comandado pelo preparador físico José Roberto Francalacci.

Foi sua salvação. Ainda que os resultados obtidos pelo time misto não fossem bons, a atuação de Reyes improvisado como quarto-zagueiro recebeu muitos elogios no relatório preparado por Francalacci e pelo chefe da delegação, o ex-presidente rubro-negro Hilton Santos, que chegou às mãos do técnico do time principal, Yustrich. Bem recomendado, Reyes então acabou escalado na posição contra o Olaria, pela Taça Guanabara, no lugar de Tinho, que se recuperava de lesão. De início, fez boas atuações (apesar do lance que se tornou folclórico no jogo contra o Bangu, em que o atacante alvirrubro Dé, o Aranha, atirou uma pedra de gelo na bola para toma-la do controle do paraguaio e marcar o gol). Mas com a recuperação do antigo titular, ficou alguns jogos de fora. Até retornar, na reta final da Taça (conquistada pelo Fla), para não sair mais. No jogo do título, empate em 1 a 1 com o Fluminense, lá estava ele cumprindo grande atuação.

No segundo semestre, manteria o alto nível mesmo no desempenho irregular do Flamengo no Campeonato Carioca. E no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no qual o time faria grande campanha, seu talento apareceria para o país inteiro. Levando toda a categoria de jogador de meio-campo no passe e no trato com a bola para a zaga, e aliando-as às recém-descobertas qualidades talhadas para a nova função, Reyes teve atuações exuberantes com a camisa 6, número reservado na época para a posição. Apresentava um perfeito senso de antecipação e cobertura. Saía jogando da defesa para o meio com classe e tranquilidade, sem nunca recorrer ao chutão. Iniciava jogadas de ataque com lançamentos perfeitos. E ainda era bom no jogo aéreo. O meia-armador habilidoso virara de fato um zagueiro completo.

o craque da bola de prata 1970 - placar

O reconhecimento não tardou a chegar. Naquele ano, a recém-lançada revista Placar instituiu seu famoso troféu Bola de Prata, para premiar os melhores do Robertão em cada posição – exceto Pelé, considerado hors concours. A cada partida, os jogadores eram avaliados pela equipe da publicação e recebiam notas. O dono da melhor média final em cada uma das 11 posições era premiado. Na quarta-zaga, Reyes tinha entre seus concorrentes nomes como Luís Carlos (Corinthians), Vantuir (Atlético-MG), Leônidas (Botafogo), Roberto Dias (São Paulo), Djalma Dias (Santos), além de defensores que viviam bom momento, como o palmeirense Nélson, o tricolor Assis e o gremista Beto.

Nenhum desses, no entanto, chegou a representar sequer ameaça de tirar a Bola de Prata do paraguaio: Reyes triunfou por larga margem, com média 8,13, mais de um ponto superior ao segundo colocado (Luís Carlos, com 6,70). Para se ter uma ideia do nível de excelência do desempenho do zagueiro rubro-negro, basta dizer que apenas três jogadores, entre todos os avaliados de todos os times, superaram a nota 8 na média: Tostão (8,06), Paulo César Caju (8,12) e Reyes, o maior de todos. Infelizmente, apenas em 1973 a revista instituiria também a Bola de Ouro, troféu dado ao primeiro colocado geral. Caso ela já existisse três anos antes, a primeira teria ido parar nas mãos do paraguaio. Nas palavras da publicação: “Francisco Santiago Reyes Villalba, cara de índio, cabelos de índio, às vezes desconfiado como um índio, é o dono da área do Flamengo. Na hora do aperto êle sai com a bola dominada, começa a armar o time. Reyes é um zagueiro que não dá balão, que soma a classe de Leônidas, a valentia de Assis e o amor à camisa de Luís Carlos. Tem mais ainda, porque Reyes é um ex-volante, que sabe como atacar sempre que tem espaço à sua frente”.

reyes bola de prataE não era só Placar que tinha Reyes em alta conta: o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, incluiu o zagueiro entre seus destaques do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Uma votação feita entre jornalistas esportivos gaúchos também apontou o paraguaio como o melhor de sua posição na competição. Até mesmo Armando Nogueira, colunista do Jornal do Brasil, deixou de lado sua maldisfarçada antipatia em relação ao Flamengo para se render em elogios sempre que se referia ao jogador. Em 14 de junho de 1971, por exemplo, quando a Seleção Brasileira voltou a ser convocada após o título mundial no México, o jornalista lamentava em sua coluna a suposta escassez de merecedores de convocação para a quarta-zaga e, após apontar o corintiano Luís Carlos como talvez o mais indicado, fazia a seguinte ressalva: “Além dêle, jogando futebol em nível de scratch (seleção), naquela posição, só existe, no duro, o paraguaio Reyes, do Flamengo”. Naquele começo dos anos 70, em meio a toda a euforia pós-tricampeonato mundial do Brasil, Reyes era, sem favor algum, o melhor beque pelo lado esquerdo em atividade no país.

Dentro do próprio Flamengo o jogador já tinha seu talento plenamente reconhecido até pela velha guarda rubro-negra. Em 15 de novembro de 1971, no aniversário do clube, o Jornal do Brasil publicou uma escalação histórica ideal chamada “O Super Flamengo”, formada segundo a opinião de antigos técnicos, dirigentes e jogadores do clube. Em meio a nomes lendários como Domingos da Guia, Leônidas da Silva e Zizinho, o único a ter atuado pelo Flamengo da década de 1950 em diante presente nesse “time de todos os tempos” era Reyes.

álbum bola de prata - 1971Naquele ano, como era habitual no período, o time vivia outra fase de vacas magérrimas. Todo o bom momento vivido pela equipe no ano anterior sobre o comando rigoroso de Yustrich se esvaiu em meio às brigas do intratável treinador com astros do time, como Doval – emprestado para o Huracán argentino por ordem do técnico – e o próprio Reyes, com quem, na temporada passada, tinha vivido uma relação de cumplicidade mútua. Sabe-se lá como, Yustrich resistiu no comando do time até o fim de maio de 1971, antes de os interinos Modesto Bria (paraguaio como Reyes) e Newton Canegal prepararem o terreno para o retorno do veterano Fleitas Solich. Mas o Fla, naquele ano, era terra arrasada, com elenco esfacelado, e física e mentalmente destroçado.

Exceto Reyes, o corpo e a alma do Flamengo. Com sua raça inesgotável e seu talento exuberante, jogava pela defesa, pelo meio, pelo time. Num dia, corria para salvar gols em cima da linha e evitar derrotas depois de o adversário ter driblado goleiro e tudo, como fez nos 0 a 0 contra o Olaria e o Fluminense no Campeonato Carioca. No outro, desarmava o atacante rival em sua área, atravessava o meio-campo, driblava e lançava para um companheiro marcar um sofrido gol da vitória, como fez com Arílson na partida diante do Ceará em Fortaleza pelo Campeonato Brasileiro. Além das qualidades dentro de campo, fora dele também se destacava: um dos líderes do elenco, era bom companheiro, articulado nas entrevistas, sempre sorridente e brincalhão com todos (ganhou o apelido de “paraguaio pura simpatia”). Em meados daquele ano, o Botafogo chegou a ambicionar sua contratação. Mas nada o tiraria da Gávea naquele momento. Agora era ídolo.

Reyes (à frente) e Ubirajara, dois destaques rubro-negros no Robertão-70.

Reyes organiza a defesa rubro-negra.

Fim do jejum estadual e os últimos anos na Gávea

Em 1972, o Flamengo se aprumaria, montando um grande elenco para enfim sair da fila no Campeonato Carioca. Com Doval de volta da Argentina, Zanata retornando após fraturar a perna, os reforços do extraclasse Paulo César Caju, do volante Zé Mário e do goleiro Renato, além da recuperação técnica de jogadores como Arílson, Caio e Rodrigues Neto, o time agora treinado por Zagallo largou muito bem na temporada, conquistando logo de saída o Torneio Internacional de Verão, contra Benfica (no qual Fio marcou o gol que o tornou o Maravilha) e Vasco; e o Torneio do Povo, no qual o rubro-negro superou Bahia, Corinthians, Atlético-MG e Internacional para arrebatar o título – com Reyes ostentando a braçadeira de capitão.

Para o paraguaio, no entanto, foi o primeiro ano marcado por problemas físicos frequentes, embora demonstrasse a velha categoria habitual. Reyes esteve sempre soberbo nos jogos de ambas as competições – na vitória sobre o Corinthians no Pacaembu por 2 a 1 pelo Torneio do Povo, o Jornal do Brasil descreveu assim sua atuação: “Excelente. Dominou todas as jogadas de ataque pelo seu lado e apoiou com muita categoria”.

Mas na metade do primeiro turno do Campeonato Carioca, durante a partida contra o Botafogo, sofreu um pisão de Roberto Miranda num lance casual que provocou uma inflamação no tendão de Aquiles do pé direito, tirando-o de ação por cerca de três meses. Assim, não participou da goleada de 5 a 2 aplicada sobre o Fluminense que deu ao Fla mais um título da Taça Guanabara – disputada pela primeira vez como uma etapa do campeonato do Rio de Janeiro. Reyes voltaria ao time apenas na reta final da competição, ajudando o Rubro-Negro a superar o Vasco de Tostão, Silva e Roberto Dinamite e o Fluminense de Gerson no triangular decisivo e levantar seu primeiro título estadual desde 1965.

O time da decisão carioca de 1972. Em pé: Renato, Chiquinho, Moreira, Reyes, Liminha e Vanderlei. Agachados: Rogério, Zé Mário, Caio, Doval e Paulo César Caju.

O time da decisão carioca de 1972. Em pé: Renato, Chiquinho, Moreira, Reyes, Liminha e Vanderlei. Agachados: Rogério, Zé Mário, Caio, Doval e Paulo César Caju.

Na decisão do Carioca, porém, mais problemas: Reyes teve de deixar o gramado ainda durante a partida, sofrendo um princípio de estiramento na coxa esquerda, que o deixaria de fora por pouco mais de um mês. A rotina de lesões e o calendário massacrante o permitiram disputar apenas oito das 28 partidas do Flamengo no Campeonato Brasileiro. Após a derrota para o América-MG no Mineirão, em 11 de novembro, as dores no tendão do pé direito voltaram a incomodá-lo, e ele desfalcaria o time não só pelo resto do torneio como também por todo o Carioca do ano seguinte.

Ficou ao todo nove meses e cinco dias parado, período em que chegou a engessar o pé direito quatro vezes. Era triste ficar encostado, longe da bola: mesmo sem condições, aparecia frequentemente para treinar e precisava ser dissuadido pela comissão técnica. Para piorar, a lesão levou ao aparecimento de outros problemas: em agosto de 1973, chegou a ser relacionado para a partida contra o Bonsucesso, pelo terceiro turno do Carioca, sem importância para o Fla (já classificado para a fase final), mas crucial para o ânimo de Reyes. Mas no dia do jogo apareceu no clube com a mão direita muito inchada e foi vetado. Voltou somente contra o Comercial de Campo Grande, já na rodada de abertura do Campeonato Brasileiro, no dia 26 daquele mês. O Fla venceu por 1 a 0 e Reyes teve grande atuação, compensando com técnica a falta de ritmo de jogo.

reyes 02Mais uma vez, porém, as lesões impediram participação maior do paraguaio na campanha: Reyes entrou em campo 14 vezes (12 como titular), ou seja, metade das 28 partidas cumpridas pelo Fla naquele Brasileiro, e não conseguiu evitar a decepcionante eliminação precoce do clube – que não conseguiu ficar entre os 20 melhores nos turnos de classificação. Sem ele, a defesa rubro-negra ficava preocupantemente vulnerável. O zagueiro, no entanto, manteve atuações dignas até sua última partida pelo Rubro-Negro, uma vitória de 3 a 2 sobre o America, a derradeira do time na competição, em 15 de dezembro de 1973. Quatro dias depois, teria ainda a honra de atuar como quarto-zagueiro no time de estrangeiros que enfrentou a Seleção Brasileira no jogo que marcaria a despedida definitiva de Garrincha do futebol. Novamente teve atuação segura, apesar da derrota do combinado por 2 a 1.

No começo do ano seguinte, em 14 de janeiro, o Flamengo concedia o passe livre ao jogador, que tinha proposta do Olimpia e pretendia voltar a seu país e encerrar a carreira por lá. Havia a expectativa de voltar à seleção paraguaia, mas acabou não se concretizando. Antes de partir, ganhou um jogo de despedida. No dia 18, o Flamengo fez um amistoso contra o Zeljeznicar, da Iugoslávia, no Maracanã, vencendo por 3 a 1 com dois gols de Zico e um de Arílson. Reyes deu o pontapé inicial e uma volta olímpica pelo gramado, saudado pelos torcedores. Recebeu duas placas de prata e, chorando, afirmou: “Deixar o Brasil é uma coisa que sinto muito, mas saber que não vou mais usar esta camisa, ouvir os gritos desta torcida doerá muito mais ainda”. Ao contrário do que era praxe em jogos assim, quando a renda da partida fica para o homenageado, Reyes abriu mão do dinheiro, deixando-o para o clube “fazer o que quiser”.

No Olimpia, o penúltimo agachado: campeão paraguaio em 1975, o último ano da carreira.

No Olimpia, o penúltimo agachado: campeão paraguaio em 1975, o último ano da carreira.

Em outubro de 1975, uma notícia causou comoção no meio esportivo carioca: Reyes tinha sido diagnosticado com leucemia, uma espécie de câncer no sangue, e teria apenas mais dois ou três meses de vida. Trazido pelos dirigentes rubro-negros para o Rio, ficou sob tratamento no Hospital dos Servidores do Estado. Quando melhorou, voltou para Assunção, mas lá teve nova recaída, da qual não se recuperou. Faleceu na capital paraguaia na madrugada de 31 de julho de 1976, aos recém-completados 35 anos.

No dia seguinte, no Fla-Flu válido pelo terceiro turno do Campeonato Carioca daquele ano, foi respeitado um emocionante minuto de silêncio em sua memória. A torcida se despediu de quem nunca se esqueceria. Em seu país, é lembrado até hoje não só pelo Olimpia, onde marcou época, como também pelo Presidente Hayes – neste, com a honra de batizar uma das arquibancadas do estádio do pequeno clube de Assunção.

Em 1982, numa eleição promovida pela revista Placar entre jornalistas, ex-jogadores e personalidades rubro-negras, Reyes formou com Domingos da Guia a dupla de zagueiros do maior Flamengo de todos os tempos (a exemplo da mesma enquete realizada pelo Jornal do Brasil 11 anos antes). Muitos que o viram jogar ainda o colocam entre os melhores. E sentem saudade de ver aquele indiozinho sorridente, mas lutador em campo, limpar a jogada na área rubro-negra e sair com a bola colada ao pé, levando o Mengo à frente.

Reyes com seus filhos Marcos e Gustavo.

Reyes com seus filhos Marco e Gustavo.

Um século de Manto Sagrado: A história do primeiro jogo da camisa rubro-negra

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O zagueiro Píndaro, o "Gigante de Pedra", bicampeão carioca nos anos 1910, veste o primeiro modelo da camisa rubro-negra listrada do futebol do Flamengo

O zagueiro Píndaro, o “Gigante de Pedra”, bicampeão carioca nos anos 1910, veste o primeiro modelo da camisa rubro-negra em listras horizontais do futebol do Flamengo

No dia 4 de junho de 1916, há exatos 100 anos, o Flamengo enfim passou a ser um só. O time de futebol adentrou o campo do estádio da Rua Paissandu para enfrentar a Associação Athletica São Bento paulistana com uma novidade: vestiria agora, enfim, uma camisa com o mesmo desenho da do remo, esporte fundador do clube. Derrubando preconceitos e objeções internas, os jogadores levariam o Manto Sagrado, com as listras vermelhas e pretas na horizontal do jeito que conhecemos hoje, ao lugar que era seu por direito: os gramados nos quais o clube construiria boa parte de sua grandeza e arrebataria dezenas de milhões de torcedores.

A EVOLUÇÃO DO UNIFORME RUBRO-NEGRO

Para começo de conversa, vale explicar que o Flamengo, nascido grupo (depois clube) de regatas lá em 1895, era azul e ouro, aurianil em vez de rubro-negro. Mas as cores acabaram descartadas um ano depois, assim que se notou que a salinidade da água da Baía da Guanabara fazia o uniforme desbotar com facilidade. E no ano seguinte, adotou-se enfim o rubro-negro, mantido na configuração de linhas horizontais do desenho anterior. No fim de 1911, quando o Flamengo criou sua seção de esportes terrestres, para abrigar os jogadores dissidentes do time de futebol do Fluminense, a modalidade não era a mais popular no Rio, nem no país, apesar de emergente. Perdia em preferência e em destaque para o remo e o turfe. Não era, inclusive, muito bem vista pelos remadores rubro-negros, que vincularam a aceitação dos ex-tricolores à utilização por eles de um outro uniforme, que não o habitual com listras vermelhas e pretas horizontais da vestimenta do remo, e de outro escudo, que não o da âncora com as pás de remo entrelaçadas.

O time de 1912, o primeiro do futebol rubro-negro, com a camisa "Papagaio de Vintém", tida como azarada.

O time de 1912, o primeiro do futebol rubro-negro, com a camisa “Papagaio de Vintém”, tida como azarada.

Por esta razão, o primeiro time de futebol rubro-negro, que entrou em campo em maio de 1912 para enfrentar o Mangueira, vestiu a camisa quadriculada, conhecida como Papagaio-de-vintém, por sua semelhança com o desenho das pipas baratas que os moleques empinavam nas brincadeiras infantis. Mas este fardamento inicial não trouxe resultado e, por superstição, acabou deixado de lado. Surgiu então, em meados de 1913, um novo, quase igual ao do remo, mas com finas listras brancas intercaladas entre as rubro-negras, que ganhou o apelido de Cobra-coral. Com esta camisa, o Fla levantou seus primeiros títulos, os campeonatos cariocas de 1914 e 1915, este invicto.

Chega 1916, e o Flamengo inicia o ano com o mesmo uniforme. Até que, temporada adentro, alguém notou que a configuração da camisa do futebol rubro-negro lembra demais a da bandeira da Alemanha, país que liderava a chamada tríplice aliança, lutando contra a Entente formada pelo Império Britânico, França, Rússia, Estados Unidos, Portugal e uma série de outros países, nas batalhas do que posteriormente seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial. Até aquele momento, o Brasil ainda não havia declarado guerra aos alemães (só o faria no ano seguinte). Mas os frequentes protestos de rua no Rio de Janeiro contra a Alemanha (chamada de “Inimiga de todos os povos”) naquele ano e, talvez, a participação do Reino Unido – país de origem de alguns atletas do time rubro-negro, aliás dado comum no futebol carioca do período – juntamente com a recente adesão dos portugueses à Entente tenham colaborado para a ideia da necessidade de aposentar a camisa com as impopulares listras brancas.

O time campeão de 1914 vestido com a camisa "Cobra Coral", com finas listras brancas entre as rubro-negras.

O time campeão de 1914 vestido com a camisa “Cobra Coral”, com finas listras brancas entre as rubro-negras.

ENFIM, (QUASE) IGUAL AO REMO

Desta vez, portanto, ficou difícil para os remadores manterem a segregação do uniforme dentro do clube. Até porque o futebol crescia absurdamente em popularidade, e o time rubro-negro já se mostrara vencedor. A permissão veio, somente mantida a restrição quanto ao escudo. Naquele ano de 1916 em que tentaria o tricampeonato da cidade, o Flamengo já realizara pioneira excursão ao Pará, iniciada no fim de dezembro do ano anterior, e já disputara com o fardamento antigo três partidas pelo Carioca, vencendo o Andarahy por 4 a 0, o Fluminense por 4 a 1 e perdendo para o Bangu no campo adversário da Rua Ferrer por 4 a 2. A ocasião de estreia do uniforme que permanece até hoje viria num dia festivo: além da nova camisa, o clube promoveria a inauguração oficial de seu estádio da Rua Paissandu, no qual já mandava seus jogos desde o final de outubro do ano anterior.

O adversário seria o time da Associação Athletica São Bento, campeão paulista de 1914, logo no ano de sua fundação, e considerado uma das potências da capital bandeirante (não confundir, portanto, com o clube de Sorocaba, existente até hoje). A equipe azul e branca não repetira a boa temporada em 1915, mas já estreara com um resultado expressivo no torneio estadual daquele ano, goleando por 5 a 3 a Associação Athletica das Palmeiras, campeã de 1915 e outra força da época (novamente, nada tem a ver com o atual Palmeiras). O principal nome do São Bento era o centromédio Lagreca, da Seleção Brasileira, além do center-forward Dias (outro do scratch, como se chamava a Seleção na época) e do ponta-esquerda Hopkins. Tal consciência da força do time levava a previsões ousadas e com arroubos de otimismo para a partida, como aconteceu com um cronista paulistano, que chegara a escrever prevendo uma derrota vergonhosa para o Flamengo, e que só por uma infelicidade o São Bento perderia o jogo.

Foto do Jornal do Brasil publicada no dia seguinte da partida, o primeiro registro do futebol do Flamengo vestido com a camisa que seria eternizada.

Foto do Jornal do Brasil publicada no dia seguinte da partida, o primeiro registro do futebol do Flamengo vestido com a camisa eternizada.

O DIA DA ESTREIA

Se a imprensa de lá alfinetava, entre os clubes o clima era de cordialidade. A delegação do time beneditino chegou ao Rio de trem, pelo noturno de luxo, às 8h15 da manhã do dia do jogo, sendo recebida na Estação Central do Brasil por dirigentes e representantes rubro-negros e partindo de lá em cortejo de automóveis até a sede rubro-negra no casarão da Praia do Flamengo. Visitou as instalações e foi homenageada pelos sócios do clube. Após o almoço, foi levada a um passeio pela cidade, retornando ao hotel em que se hospedou e se concentrou para a partida, marcada para o meio da tarde. Depois do jogo haveria um banquete, antes de a comitiva tomar o trem de volta para a capital paulista.

Às 15h42, após uma preliminar entre os segundos quadros (reservas) rubro-negros e os do Botafogo encerrada com empate em 2 a 2, a bola rolou para Flamengo x São Bento. Os donos da casa foram a campo com o goleiro Cazuza; os backs Antonico e Nery; Curiol, Sydney Pullen e Galo na linha média; e Arnaldo, Gumercindo, Reid, Borgerth e Riemer no ataque. Já os visitantes alinharam Orlando; Zacharias e Burgos; Buker, Lagreca e Moraes; Damaso, Cesar, Dias, Irineu e Hopkins. Assim que Affonso de Castro apitou o início a partida, o Flamengo passou a pressionar o São Bento, que tentava escapar nos contra-ataques. Mas os rubro-negros tiveram amplo domínio das ações em toda a primeira etapa, e já abriram o placar aos quatro minutos, quando o center-half (hoje, volante) inglês Sydney Pullen driblou Lagreca e os dois defensores paulistas e chutou inapelavelmente para vencer Orlando.

Mesmo em vantagem, o Flamengo seguiu pressionando: criou inúmeras situações de gol, acertou a trave, teve um gol de Arnaldo anulado por impedimento, até que Sydney Pullen, um monstro em campo na defesa e no ataque, deu belo passe a Gumercindo, que bateu cruzado e ampliou a contagem. Sob a baliza do São Bento, o arqueiro Orlando vai fazendo o que pode para impedir a goleada. Chega a bloquear quatro chances consecutivas do Flamengo. E numa escapada, o time paulista descontou quando Hopkins desceu pela esquerda, chutou forte, Cazuza deu rebote e Dias escorou. O primeiro tempo terminou com o Fla na frente por 2 a 1.

Na etapa final, a tônica da partida se manteve até os 27 minutos, quando, na meia direita, Gumercindo passou a Arnaldo e este lançou Borgerth. O meia-esquerda passou a Riemer, que chutou forte e ampliou de novo a contagem. Daí em diante, o time do Fla fez o tempo passar até o apito final. A vitória inaugurou em grande estilo o novo estádio e a nova camisa, além de servir como uma resposta ao tal cronista paulistano que apostava num triunfo categórico do São Bento. Mas o Manto rubro-negro não teve impacto maior a médio prazo: o campeão carioca daquele ano seria o America, e o Fla teria que se contentar com uma quarta colocação, modesta perto do que vinha obtendo desde 1912.

Primeira página do jornal O Imparcial, um dos principais do Rio de Janeiro no começo do século XX, destacando o duelo interestadual.

Primeira página do jornal O Imparcial, um dos principais do Rio de Janeiro no começo do século XX, destacando o duelo interestadual.

De fato, somente em 1920 o time levantaria sua primeira taça do Carioca com a nova camisa – mas com estilo, de maneira invicta –, emendando um bicampeonato no ano seguinte. E com o passar dos anos, foi formando sua lenda. Em 1927, por exemplo, na conquista de um dos títulos mais improváveis da história do clube, com um time quase improvisado formado de última hora por veteranos semiaposentados, ex-juvenis e reservas, além de outros trazidos de times menores a toque de caixa para compensar os que tinham saído, surgiu a mística da “camisa que jogava sozinha”, revisitada em incontáveis momentos nestes 100 anos de história.

Embora através dos tempos tenha sido quase sempre muito bem vestida por jogadores que primavam pela técnica refinada, a camisa rubro-negra se tornou símbolo de raça, de bravura, de luta contra o impossível. É também um componente identitário, aglutinador de uma torcida gigantesca, e que se espalhou pelo Brasil inteiro, e até pelo mundo. É um Manto Sagrado, uma segunda pele, o símbolo de uma nação.

Os 80 anos de Moacir, campeão do mundo e herdeiro de uma linhagem rubro-negra

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Moacir, habilidosomeia rubro-negro, em foto publicada na contracapa da última edição da revista Esporte Ilustrado, em dezembro de 1956.

Moacir, habilidoso meia rubro-negro, em foto publicada na contracapa da última edição da revista Esporte Ilustrado, em dezembro de 1956.

Um dos quatro jogadores do Flamengo a conquistarem pela Seleção Brasileira a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, o meia Moacir Claudino Pinto completa 80 anos de idade nesta quarta-feira. Jogador de muita técnica, perito nos dribles curtos e cortes secos nos adversários, preciso nos passes e lançamentos, e que também auxiliava na marcação quando necessário, ajudou a dar prosseguimento a uma longa linhagem de camisas 8 rubro-negros que aliavam elegância e malícia, como Zizinho, Rubens (o Doutor Rúbis) e os posteriores Geraldo Assoviador e Adílio. Hoje, porém, Moacir não costuma ser muito lembrado pelos torcedores e até pela imprensa na hora de listar os grandes jogadores que passaram pelo clube, ao contrário de Joel, Dida e Zagallo, companheiros presentes àquele Mundial.

Existem algumas explicações possíveis. A primeira é que, apesar de ter sido quase sempre titular, sua passagem pelo time profissional do Flamengo durou pouco mais de quatro anos, de novembro de 1956 a março de 1961, relativamente curta para aqueles tempos em que os jogadores costumavam permanecer o dobro do tempo, ou até mais. Deixou a sensação de ter explodido precocemente e, em vista disso, ter encerrado seu ciclo na Gávea mais cedo do que deveria, antes que pudesse se eternizar no coração e na memória da maioria dos torcedores. Outro agravante é a falta de títulos marcantes neste período, especialmente no Carioca, já que o meia esteve na equipe bem no meio do jejum na competição que durou entre o tricampeonato encerrado em 1955 e a conquista de 1963 – o que é uma meia verdade, como explicaremos mais adiante.

NA INFÂNCIA, O DRAMA DO ABANDONO

Na época em que jogou, no entanto, era um ídolo do povo rubro-negro, que vibrava com seu futebol moleque. E essa idolatria, juntamente com o carinho que recebia da massa, ajudava a esquecer um histórico de rejeição. Tudo começou aos seis anos de idade, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde nasceu e passou a primeira parte da infância, numa casa modesta com o pai ferroviário, a mãe e os oito irmãos. Como o próprio Moacir lembrou em depoimento recente: “Meu pai me deu um dinheiro e mandou jogar no bicho. Fui jogar uma peladinha e deixei o dinheiro embaixo de uma pedra. Eram seis da tarde. Depois, fui procurar o dinheiro, mas o campo era cheio de pedras e eu não encontrei”. Aflito, já temia o que o aguardava. “Meu pai me deu uma tremenda surra. Aí me trancou com as galinhas, uma noite terrivelmente fria”, relembra.

Tomou então a decisão que mudaria radicalmente sua vida, não sem deixar sequelas futuras: fugiu de casa, acabando por parar na delegacia. Aguardou por três dias que algum parente viesse busca-lo, e nada. Dado como abandonado, foi levado a um orfanato de Osasco, onde passou o restante da infância e a adolescência. A categoria que demonstrava nas peladas que jogava na instituição fez do diretor do orfanato seu grande admirador, além de impulsionador de sua carreira: era amigo do então presidente rubro-negro Gilberto Cardoso, conseguiu convencê-lo a levar o garoto ao Rio de Janeiro para um teste na Gávea. Aprovado, passou a morar na concentração do clube, pelo qual fez todo o processo de base. Era 1954. Apesar do porte físico franzino e da baixa estatura (1,63m) sua habilidade assombrosa com a bola se destacava. Dois anos depois, além de arrebentar nos juvenis, ajudou o clube a conquistar o título da categoria aspirantes, encerrando hegemonia do Fluminense.

Moacir é cumprimentado no vestiário rubro-negro no Maracanã, em 1959. Ao seu lado, Jordan. E ao fundo, Dequinha. (Foto: Acervo Última Hora)

Moacir é cumprimentado no vestiário rubro-negro no Maracanã, em 1959. Ao seu lado, Jordan. E ao fundo, Dequinha. (Foto: Acervo Última Hora)

NOVO TALENTO DA GÁVEA

Também naquele ano, em 24 de novembro, faria sua estreia pelo time profissional do Flamengo, que tentava o tetracampeonato carioca, mas não vinha em situação muito favorável naquela reta final, acumulando tropeços. Naquele dia, o Fla não teria Evaristo, e o técnico Fleitas Solich recorreu então ao garoto habilidoso dos aspirantes para vestir a 10 contra o Bangu no Maracanã. Moacir não só não se intimidou como teve uma atuação de encher os olhos, digna de veterano. Marcou um golaço, o terceiro na vitória por 3 a 1, passando por Décio e Zózimo antes de trocar de pé para chutar forte e estufar as redes de Nadinho. Foi tão bem em seu primeiro jogo que acabou nomeado para a seleção da rodada da revista Esporte Ilustrado e do jornal Correio da Manhã. Em 9 de novembro, disputaria seu segundo e último jogo naquele ano, um Fla-Flu vencido pelos rubro-negros por 1 a 0. O time acabou não conseguindo alcançar o Vasco, que ficou com a taça, mas ganhou um talento notável em seu meio-campo.

Time do Flamengo no jogo de estreia de Moacir, contra o Bangu, em novembro de 1956. Em pé: Tomires, Ari, Pavão, Milton Copolilo, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Moacir e Zagallo.

Time do Flamengo no jogo de estreia de Moacir, contra o Bangu, em novembro de 1956. Em pé: Tomires, Ari, Pavão, Milton Copolilo, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Moacir e Zagallo.

Então chega 1957, a primeira das quatro temporadas completas em que Moacir seria titular do Rubro-Negro. E já começaria brilhando, com dois gols na vitória por 5 a 3 sobre os suecos do AIK, em amistoso que abriu a temporada internacional no Maracanã. Mas os visitantes mais ilustres daquele começo de ano seriam os húngaros do Honved, trazendo Puskas, Kocsis, Czibor e todos os seus demais craques. No primeiro jogo do desafio, o Flamengo surpreendeu: mesmo com nada menos que seis desfalques – não jogaram Jadir, Dequinha, Jordan (a linha média inteira), Joel, Índio e Zagallo – entre lesionados e atletas cedidos à seleção carioca, arrasou os atônitos húngaros vencendo por 6 a 4.

Coube a Moacir abrir o placar aos 24 minutos do primeiro tempo pegando o rebote de uma cobrança de falta de Paulinho que desviou na barreira e acertou a trave. Para o jornal Última Hora, o meia foi “o dono da cancha”, o grande responsável pelo Flamengo ter dominado o setor, fator fundamental para a grande vitória naquele primeiro confronto. Ao avaliar individualmente as atuações, Albert Laurence deu nota 9 ao jovem talento, concluindo: “Moacir confirmou que é um jogador completo, de grande futuro, realmente. Mostrou coisas realmente excepcionais no domínio e entrega da bola”.

Nas semanas seguintes, Moacir voltaria a enfrentar o Honved cinco vezes, quatro pelo Flamengo (perdendo no Pacaembu e no Maracanã, mas vencendo e empatando em partidas disputadas em Caracas, na Venezuela) e uma pelo combinado Flamengo-Botafogo no Maracanã, entrando no lugar de Dida e fazendo uma assistência para Evaristo marcar o último gol na vitória por 6 a 2. Suas atuações nestas partidas – em seus oito primeiros jogos pelo Fla, já havia anotado seis gols – chamaram tanto a atenção que o técnico da seleção carioca, o ex-centroavante Sylvio Pirillo, fazia questão de contar com o jovem para as partidas decisivas do Campeonato Brasileiro de Seleções, contra os paulistas, mas acabou não sendo cedido. Outra Seleção, a Brasileira, o aguardaria para breve.

A primeira convocação para o time da CBD viria em junho, depois das grandes atuações do meia no Torneio Rio-São Paulo no mês anterior. Contra o Santos, em 5 de maio, Moacir ofuscou um jovem de 16 anos que debutaria naquele dia no Maracanã – um certo Pelé – com assistências para três gols da vitória rubro-negra por 4 a 0. No último, mesmo marcado por três adversários, deu passe milimétrico por elevação para Joel fechar a goleada. Naquele torneio, o Fla não levaria o título, ficando na segunda colocação empatado com o Vasco e atrás do invicto Fluminense, mas a equipe – e Moacir – teria outras atuações destacadas, como nas goleadas de 4 a 0 sobre o Corinthians em pleno Pacaembu e 4 a 1 sobre o Botafogo.

Vale lembrar que o elenco rubro-negro passava por grande reformulação: Evaristo havia acabado de ser negociado com o Barcelona; Paulinho saíra para o Palmeiras; Índio faria suas últimas partidas pelo clube naquele torneio, transferindo-se em seguida para o Corinthians; e o ex-ídolo Rubens, definitivamente em baixa com Fleitas Solich, seria emprestado ao Santa Cruz e não voltaria a defender o Fla. Para os lugares destes e de outros craques, o treinador paraguaio contava com Moacir, intocável como meia-armador, e outros jovens recrutados dos aspirantes, como o centroavante Henrique, o curinga do ataque Luís Carlos, o zagueiro Milton Copolilo e o lateral-direito Joubert, além de finalmente firmar Dida como titular e dono da camisa 10.

ESTREIA NA SELEÇÃO

Pouco menos de oito meses depois de estrear no profissional do Flamengo, Moacir já fazia sua primeira partida pelo Brasil, em 11 de junho, contra Portugal no Maracanã. Sylvio Pirillo, agora treinador da Seleção Brasileira, não desperdiçou a segunda oportunidade que teve de contar com ele, convocando-o para um time experimental, com vários estreantes, para testar as novidades depois de o escrete canarinho ter carimbado o passaporte para a Copa da Suécia em abril. O garoto entrou no lugar do santista Pagão – outro que debutava, e que saiu contundido – e melhorou a equipe, trabalhando ao lado de Zito e Didi e dando mais consistência defensiva e ofensiva ao meio-campo brasileiro, e contribuindo na vitória por 2 a 1.

O time do Fla que enfrentou o Combinado Vasco-Santos em 1957. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

O time do Fla que enfrentou o Combinado Vasco-Santos em 1957. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

Cedido à Seleção, Moacir ficou de fora da estreia do Flamengo no Torneio Internacional do Morumbi – organizado pelo São Paulo para arrecadar fundos para a construção de seu estádio – contra os iugoslavos do Dínamo de Zagreb. Mas estaria de volta, e marcando dois gols, na segunda partida, uma vitória fácil sobre os portugueses do Belenenses por 3 a 1. No último jogo da chave, em partida tensa contra um combinado Vasco-Santos (com sete santistas entre os titulares), um momento de antologia: com passe magistral de calcanhar pelo ar, fez a assistência para Dida abrir o placar para o Fla no empate em 1 a 1. Primeiro colocado da chave carioca, o Flamengo avançou para o quadrangular final, derrotando de saída e com facilidade o Corinthians por 3 a 1 no Pacaembu, largando na frente, diante do empate entre o São Paulo e o Combinado. Mas, dois dias depois, o Tricolor paulista anunciava o cancelamento do torneio, alegando rendas baixas e prejuízo, e reteria para si a taça, ignorando a condição do Flamengo de líder do turno final quando do encerramento.

Em setembro, Moacir integrou o time rubro-negro que vai à Espanha, convidado para atuar nos festejos de inauguração do estádio Camp Nou, do Barcelona. No dia 25 daquele mês, o Flamengo goleou o Burnley, na época uma das potências do futebol inglês, por 4 a 0, e o estilo de jogo moderno, habilidoso e envolvente dos brasileiros encantou a crônica da Catalunha. No Carioca, o Flamengo começou muito bem, com 13 vitórias nas primeiras 16 rodadas, e brigou cabeça-a-cabeça com Botafogo e Fluminense pelo título. Mas nas seis últimas rodadas (a partir de meados de novembro) começou a patinar: venceu apenas o Vasco (repetindo os 4 a 1 aplicados no primeiro turno), empatou quatro vezes e perdeu para o Fluminense, terminando o torneio com apenas duas derrotas – ambas para o Tricolor – mas na terceira colocação.

No primeiro semestre de 1958, o Flamengo virou a página e voltou a jogar o fino da bola. O time colhia resultados espetaculares e parecia que jogava de novo como uma máquina, o Rolo Compressor dos tempos do tricampeonato. O time reformulado ao longo de 1957 estava pronto: Fernando (ex-Bangu) no gol; Joubert e Jordan eram sobriedade e eficiência nas laterais; Pavão e Jadir esbanjavam força do miolo de zaga; Dequinha e Moacir, exuberantes, comandavam o jogo da meia-cancha; e Joel, Henrique, Dida e Zagallo formavam o ataque demolidor. A primeira demonstração de que aquele onze não estava para brincadeiras veio em 31 de janeiro, com uma vitória histórica e categórica sobre o Boca Juniors por 4 a 2 em plena Bombonera. Moacir marcou duas vezes, Zagallo e Dida completaram o placar.

No começo do Torneio Rio-São Paulo não foi diferente: estreou com grande vitória de 3 a 2 sobre o São Paulo na capital paulista, seguida por um 4 a 2 diante da Portuguesa no Maracanã e um épico 3 a 2 de virada (perdia por 2 a 0) para o Santos de Pelé no Pacaembu. Após uma derrota apertada para o America, o time se recuperou massacrando em sequência o Botafogo (4 a 0) e o Palmeiras (6 a 2). Contra o Alvinegro, Moacir fez partida de almanaque: ajudou Dequinha a anular Didi, movimentou-se incessantemente, acertou passes e lançamentos e ainda apareceu no ataque para chutar ao gol. Já sobre a partida contra o Alviverde, o novo técnico da Seleção Brasileira, Vicente Feola, que assistiu ao jogo das tribunas, comentou: “Este time do Flamengo é mesmo impressionante. Vi-o contra o Botafogo e agora. Sempre o mesmo. Muito bom em suas manobras e quase perfeito no estado físico. É uma equipe que mete até medo aos adversários”. No fim, tratou ainda de destacar um jogador em especial: “Como está jogando o Moacir!”.

Na reta final, o Fla venceu o Fluminense por 1 a 0, gol de Jordan, em jogo bastante equilibrado. Dois dias depois, empatou com o Vasco – com quem dividia a liderança – em 1 a 1, já mostrando sinais de cansaço. No último jogo, diante do Corinthians no Pacaembu, nada deu certo. Enfrentando um time Alvinegro bastante violento, desleal e inflamado pela torcida, além da complacência do árbitro, o Flamengo sofreu um gol na metade do primeiro tempo e perdeu Jadir por lesão logo aos 34 minutos. Seu substituto, o jovem aspirante Sergio, acabaria marcando contra o segundo gol corintiano. E Bataglia fecharia o placar aos 42, antes que uma verdadeira batalha campal tomasse conta do gramado, inclusive com policiais agredindo jogadores rubro-negros. O caminho, então, ficou livre para o Vasco levantar o troféu, quatro dias depois, ao golear a Portuguesa.

NA LISTA DA COPA

Na Seleção, em 1958.

Na Seleção, em 1958.

Mesmo sem a taça, a força da equipe do Flamengo ficou comprovada na lista prévia de 40 nomes para a Copa do Mundo de 1958, divulgada pela imprensa no final de março. Além de Moacir, que impressionara Feola, outros cinco rubro-negros constavam: Pavão, Jadir, Dequinha, Joel e Dida. Somente o São Paulo, clube onde o técnico da Seleção passara a maior parte de sua carreira, teve número maior (sete) de pré-convocados. Durante a primeira fase da preparação, em Poços de Caldas, o meia rubro-negro atraía cada vez mais admiradores e era o grande destaque dos treinamentos, mesmo atuando entre os reservas. Não foram poucas as vezes em que os suplentes derrotaram os titulares com participação irretocável do garoto da Gávea. Assim como não foram poucos os observadores que sugeriram sua inclusão entre os titulares no lugar de Didi.

Embora tivesse inclusive o técnico da Seleção como um de seus maiores admiradores, o meia rubro-negro se mantinha modesto, fazendo seu jogo simples e objetivo: “A grande verdade é que por enquanto estou apenas pensando em garantir a minha vaga para a Suécia. Não penso muito além disso, pois considero todos os elementos convocados como dignos de figurarem como titulares. Para ser sincero comigo mesmo, devo dizer que nem pensei em ser convocado para a Copa do Mundo. É verdade que sempre tive confiança em mim mesmo. Sabia que não faria feio se merecesse a honra”, disse à Última Hora.

Conta-se que foram nessas circunstâncias que Didi teria cunhado a célebre frase “treino é treino, jogo é jogo” para justificar sua permanência entre os titulares. Mas não é absurdo afirmar que o incômodo com a situação e a ameaça do ascendente Moacir forçaram o meia-armador alvinegro jogar tudo e mais um pouco na Suécia. Se não chegou a entrar em campo nos gramados suecos – naquele tempo não eram permitidas as substituições em jogos oficiais de competições da Fifa – o jovem rubro-negro foi um grande “motivador”, por assim dizer, das atuações memoráveis de Didi no Mundial.

Nas semanas que antecederam o embarque para o Mundial, Moacir foi um dos destaques da Seleção na goleada de 4 a 0 sobre a Bulgária no Maracanã, no penúltimo amistoso em terras brasileiras. Marcou dois gols e ajudou a furar o ferrolho búlgaro, num dia em que a linha atacante do escrete era praticamente toda rubro-negra: além dele, Joel, Dida e Zagallo compunham o quinteto, com o palmeirense Mazzola como “infiltrado”. Na Suécia, Moacir também esteve perto de um lugar no time, é verdade, na partida contra a Inglaterra, atuando na meia-esquerda, já que nem Dida nem Pelé estavam em boas condições físicas. Mas quem acabou deslocado para a função foi o Mazzola, entrando Vavá no comando do ataque. Mesmo assim, voltaria campeão do mundo.

O ataque quase integralmente rubro-negro da Seleção no amistoso contra a Bulgária em 1958: Joel, Moacir, o palmeirense Mazzola, Dida e Zagallo.

O ataque quase integralmente rubro-negro da Seleção no amistoso contra a Bulgária em 1958: Joel, Moacir, o palmeirense Mazzola, Dida e Zagallo.

O PRIMEIRO TÍTULO NO FLA: HEXAGONAL DE LIMA

Moacir sofreu críticas da imprensa por ter mostrado uma queda acentuada de rendimento na extensa fase final do Campeonato Carioca de 1958, em dois triangulares contra Vasco e Botafogo (os cruzmaltinos ficaram com a taça). No entanto, ainda naquele mesmo mês de janeiro de 1959 em que deixaria escapar sua maior chance de levantar o título do Rio de Janeiro, o meia se reabilitaria com grandes atuações no Torneio Hexagonal de Lima, no Peru, no qual acabaria enfrentando dois clubes sul-americanos os quais defenderia mais tarde, o Peñarol e o River Plate. O time rubro-negro estreou com derrota para os uruguaios por 2 a 0, mas Moacir foi aclamado como o melhor em campo. Em seguida, contribuiu com uma assistência na vitória de 2 a 0 sobre o Universitário peruano.

O jogo seguinte já colocaria o Flamengo na liderança do torneio: em apenas 22 minutos de jogo, vencia o Colo Colo por 4 a 0, com Moacir marcando o segundo. Na etapa final, os chilenos reagiram marcando duas vezes, mas a vitória não esteve nunca ameaçada. As credenciais rubro-negras seriam plenamente confirmadas na partida seguinte, uma goleada de 4 a 1 sobre o River Plate, em outra atuação exuberante de Moacir e de toda a equipe. Faltava o Alianza, diante de um estádio lotado de torcedores do time local. No primeiro tempo, entretanto, o Flamengo atuou bem abaixo do que vinha fazendo e saiu perdendo por 2 a 0. Na etapa final, logo aos nove minutos, sofreu o terceiro. Mas, já no minuto seguinte, iniciou uma reação incrível, marcando quatro vezes em oito minutos para vencer por 4 a 3 e levantar o título do torneio sul-americano, o primeiro troféu conquistado por Moacir no time de cima do Fla.

No restante da temporada, porém, o time se contentou com momentos esparsos de brilho, em algumas grandes vitórias com os 7 a 2 sobre o America e os 5 a 1 diante do Corinthians no Pacaembu, pelo Rio-São Paulo; os 6 a 2 sobre o Botafogo no Carioca (única vitória rubro-negra nos clássicos daquela competição); e os 3 a 0 sobre o forte Spartak Moscou, em amistoso no Maracanã.

Uma formação do Flamengo durante o Carioca de 1960. Em pé: Joubert, Ari, o paraguaio Monín, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Othon, Moacir, Henrique, Gerson e Babá.

Uma formação do Flamengo durante o Carioca de 1960. Em pé: Joubert, Ari, o paraguaio Monín, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Othon, Moacir, Henrique, Gerson e Babá.

FLA SE RENOVA, MAS MOACIR AINDA BRILHA

A temporada de 1960 foi outra bastante opaca do time rubro-negro, de um modo geral. Comandado no primeiro semestre pelo paraguaio Modesto Bria, centromédio do time do primeiro tri, e posteriormente por Fleitas Solich, de volta após a experiência no Real Madrid, o Flamengo não chegou a brigar seriamente por nenhum dos títulos que disputou. Havia, no entanto, uma nova safra de talentos que surgia, e três nomes mereciam destaque: o volante Carlinhos, legítimo sucessor de Dequinha na classe e na liderança; o ponta Germano, negro arisco e driblador; e o meia Gerson, de qualidade técnica indiscutível e que provocaria uma disputa de posições no time titular, já que poderia atuar tanto de meia-armador no lugar de Moacir quanto de ponta-de-lança na função de Dida. Ainda naquele ano, o meia faria sua sétima e última partida pela Seleção (a única depois da Copa da Suécia), na goleada de 5 a 1 sobre a Argentina pela Taça do Atlântico, no Maracanã. Mas entrou nos 15 minutos finais e não teve tempo para mostrar jogo.

Pelo Flamengo, duas das grandes atuações do meia naquela temporada vieram em raros jogos nos quais o time se mostrou coeso, bem equilibrado entre os setores e organizado em campo. Coincidentemente, aconteceram em clássicos vencidos de virada pelo placar de 3 a 1. O primeiro deles contra o Botafogo, em 24 de março, pelo Rio-São Paulo. A Última Hora rasgou elogios a Moacir, autor do terceiro gol rubro-negro. Para o jornal, o meia foi “sempre grande figura”, “a mola mestra, com desembaraço e eficiência”, “inteligente e astuto, brilhando, provando que é craque de fato”. Albert Laurence, outra vez encarregado de avaliar as atuações, apontou o jogador como o melhor em campo: “teve uma atuação estupenda, evoluindo com elegância, clarividência e acerto, marcando um belíssimo gol”. O segundo triunfo foi o do Fla-Flu do returno do Carioca, em 20 de novembro, e quebrou longa série invicta do Tricolor no campeonato. Novamente formando um trio de meio-campo com Carlinhos e Gerson, Moacir comandou uma grande reação, marcando ainda um belo gol, o segundo do time. Sobre esta exibição, Laurence escreveu: “Moacir também demonstrou que quando está em boa condição física, continua sendo um dos melhores meias-armadores do país”.

O Torneio Octogonal Internacional de Verão disputado em janeiro de 1961 no Rio, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu, e que teve sua história contada aqui, foi a segunda conquista de Moacir pelo Flamengo. O meia começou a competição como reserva, para o desgosto da maioria dos torcedores (uma nota na Última Hora dizia: “A torcida do Flamengo não se conforma, vendo o meia Moacir na reserva. Contra o São Paulo, quando foi anunciado que Moacir substituiria Luís Carlos, houve grande euforia entre os rubro-negros”), mas contribuía muito quando entrava. Já no primeiro jogo marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians no Pacaembu. E na quarta rodada, no 1 a 0 sobre o River Plate em Buenos Aires, era enfim titular. Jogou até na ponta-direita, improvisado, como contra o Nacional em Montevidéu, mas foi muito importante no título.

Em seguida viria o Torneio Rio-São Paulo, que seria a terceira conquista –a única oficial – do armador na Gávea. Porém sua participação ficou restrita à estreia, na boa vitória sobre o São Paulo por 2 a 1 no Pacaembu, na qual entrou no lugar de Henrique e teria boa atuação. Era peça importante do elenco e parecia que seria bem mais utilizado na campanha, mas um ato considerado de indisciplina teria desfecho dramático. Depois da partida, o Flamengo permaneceu na capital paulista, onde enfrentaria o Palmeiras na quarta-feira. Na noite de segunda, porém, os jogadores ganharam do técnico Fleitas Solich cinco horas de folga. Convidados pelo futuro rubro-negro Almir Pernambuquinho, na época jogador do Corinthians, Moacir e outros três jogadores do Flamengo comemoraram a vitória do dia anterior no apartamento do atacante corintiano com bate-papo, som alto, mulheres e bebida alcoólica – esta última, algo que o treinador paraguaio sabidamente não tolerava em hipótese alguma. Na reapresentação, houve atrito sério. E a corda arrebentou para Moacir, imediatamente negociado com o River Plate – por Cr$ 7 milhões (mais Cr$ 2 milhões de luvas) – e, assim como os demais, multado em 40% do salário. O que se comentava na época era que o Solich tinha a intenção de passar um “pente fino” no elenco, o que em temporadas anteriores já havia provocado a saída de alguns ídolos do clube.

Moacir no River, na capa da revista argentina El Grafico de 31 de maio de 1961.

Moacir no River, na capa da revista argentina El Grafico de 31 de maio de 1961.

No River, Moacir jogaria até o fim daquele ano e não conquistaria títulos, mas seria sempre lembrado por um gol de falta antológico, batido quase da linha de fundo, num clássico diante do Boca Juniors. Viraria ainda título de conto (“El Ocho era Moacyr”) do escritor Roberto Fontanarrosa. Seguiria para o Peñarol no ano seguinte, pelo qual conquistaria o Campeonato Uruguaio e jogaria a final da Libertadores, perdendo para o Santos. De lá, separou-se da esposa e dos dois filhos e rumou para o Equador, onde defenderia o Everest e o Barcelona de Guayaquil. Ainda passaria pelo futebol peruano, defendendo o Carlos A. Manucci, antes de retornar ao país anterior, no qual trabalharia como técnico. Durante décadas, perdeu contato com os familiares – o qual só foi retomar em 2008, quando veio ao Brasil para um reencontro emocionado com o filho mais novo.

A vida no Equador – onde novamente se casou, foi pai e reside até hoje – também não tem sido fácil, enfrentando graves dificuldades financeiras e problemas de saúde. Mas nunca esqueceu o Flamengo, o qual visitou em 2012: “Joguei em muitos times e países, mas o Flamengo é o único que eu gosto no mundo”, costuma repetir. Ou mais ainda: para ele, o Flamengo foi sua primeira experiência verdadeira de família.

Quarenta anos sem Jaime de Carvalho, criador da pioneira Charanga Rubro-Negra

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jaime de carvalho - com faixaHá um clima diferente no estádio das Laranjeiras nesta tarde de 11 de outubro de 1942 na qual o Fluminense recebe o Flamengo, que tem desafio decisivo para a conquista do título de campeão carioca do ano. Além da habitual multidão que acompanha a partida em seus trajes de domingo – e em se tratando do local, o rigor na vestimenta é um pouco mais nítido – e que aplaude e grita seus “uuuh” nos lances perigosos, há um grupo curioso. Estão uniformizados, vestindo camisas nas cores vermelha e preta, similares às do Flamengo, mas não são jogadores do clube. À frente, carregam um estandarte de proporções significativas no qual se lê “Avante Flamengo!”. E, sobretudo, fazem um barulho infernal com seus instrumentos de sopro e percussão.

A partida termina empatada em 1 a 1, resultado que em campo dá o título ao Flamengo (ainda há de se aguardar a definição de um recurso judicial do Botafogo). Os jogadores estouram champanhe e comemoram no gramado. Mas a curiosidade geral fica mesmo por conta daquela bandinha nunca antes vista num estádio de futebol do Rio de Janeiro – aliás, nenhuma outra antes havia sido. Nos cafés, nos bares, nos corsos, os desfiles de torcedores em automóveis pelas ruas comemorando títulos e grandes vitórias, até havia música eventualmente. Mas dentro do estádio, era a primeira vez. Num misto de intrigado e indignado com a desafinação do grupo, Ary Barroso, o popularíssimo locutor da Rádio Nacional, a maior do Brasil, proclamaria depois em seu programa: “Mas isso não é uma banda nem aqui nem no caixa-prego. Isso aí é uma charanga!”. Pronto: estava estreada, notada e batizada a Charanga Rubro-Negra. Fundada e comandada por Jaime de Carvalho, que viria a falecer em 4 de maio de 1976, há exatos 40 anos.

Conta a história que, em 1927, chegou ao Rio de Janeiro um jovem chamado Jaime Rodrigues de Carvalho, baiano de Salvador, nascido em 9 de dezembro de 1911 (tinha 15 para 16 anos, portanto). Aportara na cidade vindo em um “ita”, velho navio a vapor da Companhia Nacional de Navegação Costeira que fazia transporte de cargas e passageiros do norte ao sul do Brasil. E, num domingo, foi prontamente foi levado a um jogo do Fluminense, no estádio das Laranjeiras. Gostou do que viu e, já que não tinha então preferências clubísticas na capital da República, adotou o tricolor. Dias depois, resolveu então conhecer a requintada sede do clube, mas foi barrado. No mais elitista dos grandes clubes cariocas, não haveria mesmo hipótese de aquele garoto recém-chegado do nordeste transitar pelas mesmas áreas reservadas aos sócios aristocratas.

Cabisbaixo, sem saber muito bem o que fazer para passar o tempo até a hora de apanhar a condução para voltar ao subúrbio onde morava, num instinto atravessou a Rua Guanabara (hoje Pinheiro Machado). Do outro lado, quase em frente, havia outro estádio: o da Rua Paissandu, onde jogava e treinava o Flamengo. Encontrou o portão aberto e entrou. Simples assim. Debruçou-se sobre a mureta que separava o gramado da arquibancada de madeira e ali ficou, acompanhando o “apronto” (como se chamava o treino na época) dos jogadores. Sentiu-se em casa e foi ficando, ficando. Acompanhou toda a reta final da campanha épica por meio da qual um Flamengo que começara o torneio com elenco esfacelado ganharia o título, contra todas as possibilidades. Era o ano em que se criou a mística rubro-negra da “camisa que joga sozinha”. Aí não teve mais jeito, o garoto Jaime virou o mais vibrante flamenguista nas vitórias e o mais abatido nas derrotas.

A Charanga saúda o Flamengo bicampeão carioca em 1943, em foto da revista Esporte Ilustrado.

A Charanga saúda o Flamengo bicampeão carioca em 1943, em foto da revista Esporte Ilustrado.

Já crescido, tornou-se funcionário público e conheceu Laura, portuguesa de nascimento mas tão ferrenha rubro-negra quanto ele. Casaram-se e passaram a ir juntos aos jogos do Flamengo. Certo dia, na reta final daquele acirrado campeonato de 1942, sentiram a necessidade de um impulso mais vigoroso vindo das arquibancadas para empurrar o time. Uma empurrão extra, um sopro de vitalidade e um toque marcial para comandar o tropel vermelho e preto rumo às vitórias. Reuniram um grupo de amigos, cerca de 20 pessoas, alguns deles instrumentistas, e rumaram para o estádio. “O Flamengo precisava mais do que nunca de incentivo. A partida era em casa de inimigo. Então tivemos a ideia de fazer uma faixa que dizia: Avante, Flamengo! Foi o primeiro sucesso”, relembrou Dona Laura em depoimento. “Hoje você encontra em qualquer loja bandeiras prontas. Mas naquela época tínhamos que comprar peças inteiras de flanela, em preto e vermelho. O metro custava 500 réis”.

Torcedor uniformizado, bandeiras do clube, banda de música no estádio, nada disso existia no futebol carioca antes da Charanga de Jaime de Carvalho. O terceiro item, entretanto, enfrentou rejeição no começo: gente da crônica esportiva andou chiando, alegando que a música atrapalhava a concentração dos jogadores. A dos jogadores adversários, a bem da verdade: num jogo contra o São Cristóvão, em 1943, a banda se posicionou atrás do gol defendido pelo arqueiro cadete e mandou ver. O Flamengo goleou por 4 a 0 e o infeliz goleiro saiu de sua área para reclamar com o árbitro dos instrumentistas que tocavam sem parar. O clube alvo chegou a levar o protesto à Federação, pedindo a anulação da partida, mas presidente da entidade, Vargas Netto, não viu motivo para tamanha revolta: era manifestação espontânea das arquibancadas.

Outro jogo contra o São Cristóvão, este no estádio de Figueira de Melo pelo mesmo campeonato de 1943, não saiu da memória de Jaime enquanto viveu, mas por motivos bem mais tristes: logo aos 13 minutos, o Flamengo abriu o placar com Vevé, e na euforia da comemoração, parte das velhas arquibancadas de madeira não resistiu e veio abaixo, deixando mais de 200 feridos. “Acalmei muita gente, a Charanga parou de tocar, os músicos atendendo pessoas machucadas. Houve duas ou três mortes, muitos ferimentos. Jogo suspenso e depois concluído no campo do Vasco. Emoções, emoções fortes”, relembrou o fundador em depoimento à revista Grandes Clubes Brasileiros.

Nos anos 40 e 50, antes de partir para os estádios espalhados pela cidade, a concentração da Charanga se dava quase sempre na Galeria Cruzeiro, no Largo da Carioca, centro do Rio (onde hoje se localiza o Edifício Avenida Central). Ali perto havia o terminal de bondes popularmente conhecido como “Tabuleiro da Baiana”, de onde a turma partia para seu destino. O grupo inclusive pedia aos jornais que divulgassem os detalhes na véspera dos jogos para que mais torcedores e até instrumentistas o acompanhassem. Mas a preparação começava na noite anterior, na casa dos fundadores, com dona Laura botando o feijão no fogo para preparar a alimentação da tropa.

Embora a Charanga tenha sido considerada durante muito tempo a primeira torcida organizada do Brasil, há quem conteste. Alguns cruzmaltinos afirmam, sem conseguir evidenciar, que a Torcida Organizada do Vasco (TOV) surgira também em 1942, mas meses antes da Charanga, embora só tenha sido oficialmente instituída em 1944. Na capital paulista, os torcedores do São Paulo citam como precursor o Grêmio Sampaulino, criado em 1939 e pouco tempo depois rebatizado Torcida Uniformizada do São Paulo (Tusp) – ainda que para fazer parte dele fosse necessário ser também sócio do São Paulo. E mesmo na história do Flamengo há um movimento que precede todos esses em pelo menos uma década: a Ala Flamenga, criada em 1927 por um grupo de 21 estudantes (curiosamente, em sua maioria mulheres) do colégio Atheneu Luso Carioca.

Jaime de Carvalho comanda a Charanga em foto de 1953 publicada na revista Careta.

De bandeira na mão, Jaime de Carvalho comanda a Charanga em foto de 1953 publicada na revista Careta.

Mas o pioneirismo de Jaime de Carvalho – e de Dona Laura, seu braço direito – é reconhecido até pelos rivais: o próprio Vasco chegou a homenageá-lo com o título de Chefe dos Chefes de Torcida, em cerimônia oficial e festiva em São Januário. Depois dele é que viriam outros populares comandantes da massa no futebol do Rio (como a vascaína Dulce Rosalina, o tricolor Paulista e o botafoguense Tarzã). As torcidas dos outros clubes, que vieram depois, também se beneficiaram do reconhecimento do meio do futebol ao líder da Charanga: foi ele quem comandou as negociações para que algumas salas do Maracanã fossem postas à disposição de todas elas para que guardassem suas bandeiras e instrumentos musicais, e que incluíam ainda uma pequena oficina, para reparos dos materiais. “Chego cedo porque preciso varrer a sala, tirar o pó dos troféus, sacudir bandeiras, pendurar faixas nas grades da arquibancada, preparar os instrumentos. Só depois disso tudo, vou sentar na arquibancada e esperar o jogo”, assim descrevia Dona Laura, líder do grupo após a morte do marido e também já falecida (em outubro de 2009), sua rotina no antigo maior estádio do mundo.

Além de fazer história no Flamengo, a Charanga também apoiou a Seleção Brasileira por várias décadas. Começou na Copa Rio Branco de 1947, conquistada pelo escrete contra os uruguaios após um empate no Pacaembu e uma vitória em São Januário. Na véspera desta segunda partida, Jaime de Carvalho chegou a divulgar pelos jornais as orientações para a torcida brasileira quanto aos cânticos e à resposta do público aos toques da banda. Mas o momento de consagração veio na partida contra a Espanha, pela Copa do Mundo de 1950, já no Maracanã. Foi a Charanga quem puxou “Touradas de Madri”, marchinha do compositor Braguinha entoada a plenos pulmões pelas quase 200 mil pessoas presentes ao estádio durante a goleada brasileira por 6 a 1, em um dos momentos mais memoráveis e uma das vitórias mais avassaladoras do Brasil em Copas do Mundo. Daí em diante, Jaime de Carvalho também viajaria para os Mundiais de 1954, 1962 e 1974 (além de Eliminatórias e Campeonatos Sul-Americanos) para comandar a torcida brasileira.

O repertório foi incorporando marchinhas, temas carnavalescos, hinos, e até standards do jazz conforme músicos mais novos iam entrando. E a torcida também virou, ela própria, música: a marchinha “Charanga do Flamengo”, de Felisberto e Fernando Martins. Foi ainda citada no popularíssimo “Samba Rubro-Negro”, de Wilson Batista, aquele que, depois de dizer “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã”, também decretava: “Pode chover, pode o sol me queimar / Eu vou pra ver a Charanga do Jaime tocar”. E a Charanga tocava sem parar um instante. Era um dos preceitos básicos, apoiar até o fim, em qualquer circunstância. O outro era que seus acompanhantes jamais poderiam proferir palavras ou expressões consideradas de baixo calão a quem quer que fosse, juiz, adversário, torcedor rival, treinador ou jogador do clube.

Jaime de Carvalho, entre a bandeira rubro-negra e o arranjo de flores, na festa de entrega das faixas do time tricampeão carioca. Maracanã, abril de 1956. (Foto: Acervo Última Hora)

Em meados dos anos 60, o estresse dos jogos fez com que Jaime começasse a pagar pela dedicação com a própria saúde, sofrendo com quadro de pressão alta e diabetes. Se retirou por um tempo, passando o comando a Dona Laura e ao então fiel escudeiro Ernesto Escovino, na mesma época em que começavam a surgir novas torcidas rubro-negras, oriundas de dissidências da Charanga. Recebeu diversas homenagens e títulos de honra no início da década seguinte, quando retornou às arquibancadas. Mas, acometido por um câncer, foi internado no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto teve forças, enviava quase diariamente mensagens aos torcedores pelo jornais com lemas do clube, como “O Flamengo ensina a amar o Brasil sobre todas as coisas”, ou “Onde encontrares um flamengo, encontrarás um amigo”. Jaime faleceu em 4 de maio de 1976 – ano particularmente doloroso para o clube em termos de perdas humanas – e foi sepultado vestindo o Manto.

Ofuscada pelos novos grupos de torcedores, de diferentes filosofias, a Charanga caiu no ostracismo pelo fim dos anos 1980, participando apenas de eventos na sede da Gávea, até ser resgatada pelo clube em 2008, um ano antes da morte de Dona Laura. Seu legado, porém, está em toda bandinha presente em qualquer canto de estádio do Brasil, que deve não só o nome como sua existência ao grupo de Jaime de Carvalho. E em todo rubro-negro (ou torcedor de qualquer clube) que sai às ruas com a camisa de seu time em dia de jogo ou não. Com sua vibração alegre, perene e furiosa, a Charanga fez história no futebol brasileiro.