Há 60 anos, um golaço genial do pequeno Babá decidia Fla-Flu dramático

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Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Time rubro-negro que venceu o clássico do dia 16 de setembro de 1956. Em pé: Chamorro, Pavão, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá, o autor do gol.

Fazia muito calor no Maracanã na tarde de 16 de setembro de 1956, incomum para a época do ano. Naquele domingo, quem levou jornais para se abanar e tentar amenizar um pouco a temperatura no estádio lotado poderia também ler nas páginas do noticiário sobre a crise política internacional que tinha como pivô o Egito, após a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser, tomando das empresas britânicas e francesas o controle da circulação de embarcações na região.

Ou que, nos Estados Unidos, o presidente Dwight Eisenhower se preparava para mais um embate eleitoral contra o candidato democrata Adlai Stevenson, enquanto a juventude do país se rendia a uma nova febre: o rock ‘n’ roll.

Ou – mais provável, em vista do interesse – sobre os últimos ajustes para o primeiro Fla-Flu válido pelo Campeonato Carioca de 1956. Nele, o time da Gávea, atual tricampeão carioca e dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, buscava a vitória para não se distanciar da briga pela liderança contra Vasco e America. Paralelamente, o clube discutia a situação do meia Rubens, o Doutor Rúbis, ídolo da torcida em outras campanhas e que agora, em baixa, vinha de lesão e tinha proposta para se transferir ao Belenenses, de Portugal.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Torcida rubro-negra no Maracanã.

Além de Rubens, o time rubro-negro sofria com outras baixas importantes: Índio, Dida e Zagallo – metade do setor ofensivo – estavam vetados para o clássico, o que obrigaria o treinador a escalar o garoto Duca na meia-direita, deslocando o craque Evaristo para o centro do ataque e fazendo entrar Paulinho como ponta-de-lança e o miúdo Babá na extrema esquerda.

Já o Tricolor, comandado pelo ex-atacante rubro-negro Sylvio Pirillo, havia começado mal o torneio, mas seguia em franca recuperação e vinha completo. Tinha no ponta-direita Telê seu grande organizador de jogadas e em Waldo seu goleador, além da força de Pinheiro na zaga e dos milagres de Castilho – titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suíça, dois anos antes – no gol.

Na tarde quente de domingo, de Maracanã lotado e renda fabulosa (acima de Cr$ 1,6 milhão, superando em mais de dez vezes a soma de Botafogo x Bangu, no mesmo estádio na noite anterior), o Fla entra em campo com o argentino Chamorro no gol; Tomires pelo lado direito da defesa, Pavão de central, Jadir recuando da linha média para fazer a quarta zaga e Jordan na lateral-esquerda. Dequinha é o centromédio, articulando as jogadas com Duca pela meia-direita. Na frente, alinhavam Joel, Evaristo, Paulinho e Babá.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

Joel e Evaristo pressionam Castilho.

No primeiro tempo, o time de Fleitas Solich é mais incisivo. Ataca principalmente pelo seu lado direito, aproveitando o dia ruim do médio-esquerdo tricolor Paulo. Esbarra, porém, no miolo de zaga adversário e em um Castilho que intercepta qualquer tentativa de cruzamento, pelo alto ou pelo chão. Do outro lado, a retaguarda do Fla não dá trégua ao ataque tricolor, mantendo sua área fora de maiores perigos. São 45 minutos em que as defesas sobrepujam os ataques.

Na etapa final, entretanto, quando o Fluminense passa a controlar as ações é que o jogo toma jeito de épico, honra a lenda do clássico. Primeiro Joel leva uma pancada na cabeça (provocando um princípio de traumatismo, afirmaria depois o médico rubro-negro Paulo São Tiago), mas continua em campo.

Depois vem o pênalti de Pavão em Waldo, apontado por Amílcar Ferreira. Da defesa vem Pinheiro, dono de um verdadeiro coice, cobrador de tiros indefensáveis da marca da cal. Chamorro prepara-se no gol, o zagueiro tricolor prepara a cobrança no canto esquerdo, enche o pé… e a bola explode no pé da trave.

Poucos minutos depois, o Flamengo se vê novamente em apuros: Dequinha, capitão do time e o homem que bloqueia a entrada da área e distribui o jogo da equipe, sofre violenta distensão muscular num choque casual com um adversário e precisa deixar o campo. Não há substituições, o time fica com dez. Para suprir sua ausência, o Fla precisa ser ainda mais coletivo do que o de costume.

Chamorro voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

Chamorro, o arqueiro argentino do Fla, voa para resgatar a bola que escapou na disputa entre Waldo e Pavão na área.

A pressão do Fluminense é imensa, insustentável. O gol tricolor amadurece a cada ataque. Parece inexorável. Numa escapada, Léo entra na área cara a cara com Chamorro, e o argentino opera um milagre. A bola sobra para Tomires (sofrendo com uma antiga distensão desde o primeiro minuto), que despacha com um chutão para a frente. A bola viaja. Pinheiro e Evaristo pulam juntos, mas não alcançam a cabeçada. Jair Santana, o último jogador da defesa tricolor, parece que vai fazer o domínio, mas a bola bate em sua cabeça e foge do alcance.

E sobra para Babá, na linha do meio-campo. Do alto de seu 1,54 metro de altura, o ponteiro rubro-negro recolhe, levanta a cabeça e olha para o latifúndio que tem à sua frente.

E então parte veloz e obstinadamente em direção ao campo adversário…

…Passando da intermediária, vê Castilho, o paredão do Tricolor e da Seleção, saindo do gol, e prepara-se para encher o pé…

Última Hora, Missão 1145-56

…Mas em vez da bomba, vem de improviso um leve toque, que encobre o arqueiro com um lençol magnífico…

Última Hora, Missão 1145-56

…E mansamente a bola quica e segue seu caminho em direção às redes…

Última Hora, Missão 1145-56

…Para se aninhar no fundo da meta tricolor…

Última Hora, Missão 1145-56

…Enquanto Babá e seus companheiros vibram, e o Maracanã vem abaixo…

Última Hora, Missão 1145-56

…E ao resignado Pinheiro, só resta buscar a bola para a nova saída.

Última Hora, Missão 1145-56

Mário Braga Gadelha, 22 anos de idade, cearense de Aracati que chegara há dois anos ao Rio de Janeiro para defender o Flamengo, enlouquece a massa. Aos 41 minutos do segundo tempo, remando contra a maré, o Rubro-Negro marca o único gol da partida. Crava a estaca no peito tricolor, que nos últimos minutos não consegue mais articular sequer uma jogada perigosa de ataque para tentar o empate. A vitória, dramática e improvável, é do Flamengo, graças ao pequenino Babá.

Última Hora, 17 de setembro de 1956

Nos vestiários, enquanto levava alguns pontos no couro cabeludo, em decorrência da pancada que sofrera em campo, o ponta Joel lembrava que o Flamengo vinha se acostumando a ganhar com 10, referindo-se também ao triunfo com um jogador a menos (Evaristo fora expulso) diante do Bangu, duas rodadas antes. Agora, exibindo raça, dedicação e futebol coletivo, o Fla voltava a vencer.

Mas o desgaste pagará seu preço ao final, e o Flamengo, extenuado, oscilará muito ao longo da competição, perdendo pontos bobos que impedirão o tetracampeonato. Ainda que colha outros resultados memoráveis no caminho – incluindo mais uma vitória de 1 a 0 sobre o Flu no returno.

Naquela tarde quente de 16 de setembro, porém, o velho Maracanã ganhou um gol para a história, que quem viu não se esquece. Um dia em que a malícia de um Davi venceu a imponência de um Golias da meta. Na manhã seguinte, o menino Babá era a manchete.

FLAMENGO 1 x 0 FLUMINENSE

Maracanã, domingo, 16 de setembro de 1956.
Campeonato Carioca – 8ª rodada.
Renda: Cr$ 1.670.197,80.
Árbitro: Amílcar Ferreira
Gol: Babá, aos 41 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Chamorro; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Duca, Evaristo, Paulinho e Babá. Técnico: Fleitas Solich.

Fluminense: Castilho; Cacá e Pinheiro; Jair Santana, Clóvis e Paulo; Telê, Léo, Waldo, Jair Francisco e Escurinho. Técnico: Sylvio Pirillo.

As fotos maravilhosas que ilustram o texto são do acervo fotográfico do extinto jornal carioca Última Hora, atualmente preservado pelo Arquivo do Estado de São Paulo.

A jogada do gol de Babá desenhada pela revista Esporte Ilustrado.

A vez da nova geração: Há 30 anos, garotos davam ao Fla o título carioca de 1986

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O time do Flamengo na final contra o Vasco. Em pé: Leandro, Zé Carlos, Aldair, Jorginho, Andrade e Guto. Agachados: Bebeto, Adílio, Aílton, Vinícius e Marquinho.

O time do Flamengo na final contra o Vasco. Em pé: Leandro, Zé Carlos, Aldair, Jorginho, Andrade e Guto. Agachados: Bebeto, Adílio, Aílton, Vinícius e Marquinho.

Cantarele, Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Sócrates e Zico; Bebeto, Chiquinho e Adílio. No papel, um timaço. Em tese, este seria o Flamengo que disputaria aquele Campeonato Carioca de 1986, tentando reconquistar o título o qual vinha batendo na trave nos quatro anos anteriores. Foi esta escalação, aliás, a que entrou em campo na primeira partida, em goleada arrasadora por 4 a 1 sobre o tricampeão Fluminense, contada aqui. Porém, após inúmeros percalços, especialmente as lesões e convocações para a Copa do Mundo do México (que interrompeu o Estadual), seria um outro Flamengo, bem diferente – e bastante rejuvenescido -, o que chegaria enfim ao caneco em decisão diante do Vasco, naquele 10 de agosto de 1986.

O pontapé inicial do Carioca de 1986 veio no domingo, 16 de fevereiro, véspera da apresentação dos jogadores da Seleção Brasileira convocados na sexta-feira anterior pelo técnico Telê Santana. Todos os chamados desfalcariam suas equipes durante o longo processo de preparação para o Mundial do México, até pelo menos a divulgação da lista final dos 22 que iriam à Copa, em maio. De cara, Flamengo e Fluminense foram os maiores prejudicados. O Rubro-Negro perdeu sua dupla de zaga (Leandro e Mozer), além dos armadores Zico e Sócrates. Já o tricolor ficou sem o goleiro Paulo Victor e o lateral-esquerdo Branco – além de, um pouco depois, perder o paraguaio Romerito para a seleção de seu país.

Entre as outras quatro forças, o grande favorito não só a fazer frente à dupla Fla-Flu, mas também ao título, era o Vasco. Sem nenhum convocado, poderia contar integralmente com seus bons jogadores, como os goleiros Paulo Sérgio e Acácio, o lateral Paulo Roberto, o zagueiro Donato, o volante Vítor, além das revelações Lira e Mazinho e de seu intimidador quarteto de frente, formado por Mauricinho, Geovani, Roberto Dinamite e um jovem de 20 anos cotado como provável sensação do campeonato: Romário. Dos demais, o Botafogo vinha afundado em crise técnica aparentemente sem fim (havia terminado a Taça Rio, no fim do ano anterior, na décima colocação entre 12 clubes); o America mostrava uma equipe pouco mais que aguerrida; e o Bangu, grande destaque carioca em 1985, vivia o anticlímax após a grande temporada, com seus principais jogadores em má fase, o técnico Moisés contestado, além da disputa paralela – e aborrecida – da Taça Libertadores.

Mesmo desfalcado de seus jogadores da Seleção, o Fla manteve o nível da goleada sobre o Fluminense da estreia na partida seguinte, um categórico 4 a 0 sobre a Portuguesa na Ilha do Governador (estádio onde o Fla havia tropeçado em suas duas últimas visitas, em 1982 e 1985). No lugar de Leandro e Mozer, estavam os novatos Guto e Zé Carlos II. No meio, em vez de Zico e Sócrates, havia agora Valtinho (filho de Silva, o Batuta, craque e ídolo rubro-negro dos anos 60) e o loirinho Júlio César Barbosa criando e combatendo. E na frente havia Bebeto, que marcou duas vezes (uma delas de pênalti sofrido por ele mesmo), com Chiquinho e Valtinho completando o marcador.

O jovem time rubro-negro comemora a vitória sobre o Botafogo.

O jovem time rubro-negro comemora a vitória sobre o Botafogo.

Pela terceira rodada, outra grande atuação em mais uma vitória num clássico, agora diante do Botafogo. Chiquinho abriu o placar logo no início e Bebeto completou ainda no primeiro tempo. Com grandes atuações nas três partidas, o baianinho credenciava-se cada vez mais a ser o grande nome da equipe e a se firmar como um grande jogador do futebol brasileiro. Naquela tarde no Maracanã, havia feito jogada genial ao driblar o goleiro alvinegro Luís Carlos com uma ginga de corpo exatamente como Pelé havia feito com o uruguaio Mazurkiewicz na Copa de 1970. Mas o lance acabou anulado injustamente, antes que o jovem rubro-negro pudesse tocar para as redes, por um impedimento mal marcado.

Na partida contra o Mesquita, pela quarta rodada, a lista de desfalques aumentou: Adílio sofreu entorse no joelho esquerdo. Ficaria fora de ação pelo resto da Taça Guanabara e o início da Taça Rio. Naquela partida, disputada no estádio Caio Martins e vencida pelo Fla por 3 a 1, entraria em seu lugar um ponta-esquerda da base, estreando no time profissional aos 18 anos de idade, chamado Zinho. Foi também naquele jogo que outro jovem recém-promovido dos juniores atuaria pela primeira vez como titular do Fla num jogo oficial: o quarto-zagueiro baiano Aldair, de 20 anos.

Aos poucos, a garotada tomaria conta da equipe. Mas para o treinador rubro-negro, não haveria nenhum problema. O mineiro Sebastião Lazaroni, de apenas 35 anos, trabalhava no clube desde meados da década de 70, como preparador físico, auxiliar técnico e, posteriormente, dirigindo as categorias de base. Conhecia bem o potencial de cada garoto daquele elenco. Naquele momento, vivia sua primeira experiência como treinador efetivo de uma equipe principal, iniciada em outubro de 1985, quando substituiu Joubert durante o Campeonato Carioca, e após uma breve passagem como interino, meses antes. Formado em Educação Física e estudioso do futebol, Lazaroni sabia ainda aliar a disciplina tática à motivação dos atletas, fazendo do Flamengo um time aguerrido, combativo, veloz, mas sem medo de atacar.

Marquinho, Guto e Valtinho encaram o Goytacaz em Campos.

Marquinho, Guto e Valtinho encaram o Goytacaz em Campos.

Com seus garotos, o Flamengo de Lazaroni seguiu no encalço do completo Vasco, com quem passou toda a Taça Guanabara se revezando na ponta da tabela, bem à frente dos demais – o Fluminense, por exemplo, havia sido goleado por Flamengo (4 a 1), Goytacaz (4 a 0 em Campos) e Botafogo (também 4 a 1, na última rodada). Mesmo sofrendo mais um desfalque, o do experiente goleiro Cantarele, lesionado em um dos joelhos durante a partida contra o Bangu. Em seu lugar entraria mais um garoto: o jovem Zé Carlos, o Zé Grandão, que não perderia mais o lugar até o fim da competição.

Na decisão da Taça Guanabara contra o Vasco, em 20 de abril, o Fla, no entanto, não levaria a melhor. Até dominaria o jogo e criaria mais oportunidades, mas em duas das raras chances que teve, Romário marcou duas vezes e deu o título aos cruzmaltinos. Nos vestiários, Lazaroni chegou a chorar, agradeceu aos jogadores e os parabenizou pelo esforço, lamentando que mereciam melhor sorte, diante do futebol apresentado. Mas não era nada. Ainda havia muito campeonato pela frente.

O começo da Taça Rio foi bastante irregular, com um empate contra o Campo Grande em Ítalo del Cima (1 a 1), nova vitória sobre o America no Maracanã (2 a 0) e derrota de virada para o Botafogo (1 a 2). Mas com a goleada de 5 a 0 sobre a Portuguesa da Ilha em Caio Martins na quarta rodada, o time voltaria a embalar, não perderia mais o gás nem mesmo com a paralisação de cerca de um mês pela disputa da Copa do Mundo, e não seria mais derrotado até o fim da competição.

O jogo contra a Portuguesa marcaria o breve retorno de Leandro, fora da Seleção, ao time Rubro-Negro. Mas sua volta definitiva viria apenas nas partidas finais. Zico também retornaria ao time após a Copa, mas entraria em campo apenas três vezes antes de nova lesão muscular. Mozer, cortado da Copa para se submeter a uma cirurgia nos joelhos, voltaria mais adiante, mas também apenas por dois jogos. Sócrates e Cantarele não entrariam mais em campo. Aquele título teria que vir mesmo dos pés dos garotos.

E havia uma boa safra surgindo. Zé Carlos se firmava no gol; Guto e Aldair combinavam a raça de um e a técnica do outro na zaga; Aílton era o pulmão do meio-campo (e às vezes também pela lateral); Valtinho fazia boas exibições no meio, armando e marcando; Vinícius ganhava confiança e a titularidade da camisa 9; Zinho aparecia bem pela ponta-esquerda; Alcindo infernizava laterais entrando durante os jogos pelo lado direito. Um pouco mais experientes, Bebeto, Jorginho e Adalberto confirmavam sua grande categoria. Júlio César Barbosa e o ponta-esquerda Marquinho (vindo do Vasco em janeiro de 1985, trocado pelo volante Vítor e o lateral Heitor) eram de grande importância pela disposição e aplicação tática. E, no centro de tudo, estava Andrade, o esteio do meio-campo.

Bebeto e Aílton na disputa com o tricolor Delei, no clássico da Taça Rio.

Bebeto e Aílton na disputa com o tricolor Delei, no clássico da Taça Rio.

Daí em diante o time embalou. Venceu o Goytacaz em Caio Martins (1 a 0) e o Mesquita na Baixada (3 a 1). Empatou com o Americano em jogo tumultuado em Campos (2 a 2). Bateu o Olaria na Rua Bariri (2 a 1) e venceu o Fla-Flu (1 a 0) mesmo perdendo Zico logo aos sete minutos – o que levou a torcida tricolor a, novamente, gritar “bichado” para o Galinho e ser calada logo depois pelo gol de Marquinho. Arrancou o empate em 1 a 1 com o Bangu no Maracanã em cabeçada de Valtinho, após sair atrás no marcador. Até chegar o clássico diante do Vasco na última rodada.

No sábado, 26 de julho, o Fluminense havia derrotado o Bangu no Maracanã por 1 a 0, alcançando a liderança temporária da Taça, um ponto à frente do Flamengo e três a mais que vascaínos e banguenses, sem chance no turno. No domingo os tricolores torceriam, portanto, pelo Vasco. Em caso de empate, Fla e Flu fariam jogo extra, decidindo o turno. Já se o Rubro-Negro vencesse, seria não só o campeão da Taça Rio como também o primeiro colocado na classificação geral, na soma dos turnos.

Bebeto, cobrando falta à la Zico, no canto direito de Paulo Sérgio, abriu o placar para o Fla. Romário empatou para o Vasco ainda no primeiro tempo, de ponta de chuteira, na pequena área, após bola alçada por Paulo Roberto. No segundo tempo, Roberto Dinamite virou para o Vasco aos 14 minutos. Mas o Fla não estava entregue. Aos 34, Alcindo tentou o cruzamento pela direita e Vitor cortou com a mão dentro da área. O árbitro marcou o pênalti para o desespero dos cruzmaltinos – que, mesmo já sem chance na Taça Rio, jogavam para eliminar de vez o Flamengo e colocar o Fluminense na decisão. Bebeto bateu e empatou o jogo. Dois minutos depois, Roberto, descontrolado, agrediu Andrade e foi expulso. Aos 39, num contra-ataque avassalador, Bebeto tocou de calcanhar para Adílio, que devolveu para a finalização do atacante. Paulo Sérgio deu rebote e Julio Cesar Barbosa não perdoou. Do outro lado, Zé Carlos ainda brilharia ao defender uma cabeçada de Mazinho, a três minutos do fim, garantindo o triunfo rubro-negro. Fla 3 a 2, campeão da Taça Rio e finalista do Estadual.

Bebeto e Aldair vibram contra o Vasco.

Bebeto e Aldair vibram contra o Vasco.

Com o Flamengo na condição de campeão da Taça Rio e também na de equipe que somou mais pontos nos dois turnos, a fase final se transformou em um “triangular de dois”, diferentemente dos quatro anos anteriores, quando três clubes chegaram para a decisão – embora os cartolas do Fluminense, dessa vez, tenham recorrido ao TJD, ao STJD e até à Justiça Comum para tentar anular a derrota por W.O sofrida pelo time ao não comparecer à partida contra o Americano, em Campos, no dia 18 de maio, quando o clube alegou que seus atletas estavam com dengue e virose respiratória. Não colou.

Agora, rubro-negros e cruzmaltinos jogariam uma melhor de quatro pontos, com o Fla tendo um de vantagem, dado pelo regulamento à melhor campanha geral. Mas a grande missão rubro-negra era parar o ataque vascaíno, disparado o mais positivo do torneio (ao todo, 50 gols, sendo 20 do artilheiro Romário). No primeiro jogo, em 3 de agosto, uma partida muito estudada, com as duas equipes sem arriscar tanto. Mas o placar só não saiu mesmo do zero porque a trave salvou Acácio numa cobrança de falta de Marquinho e porque o árbitro deixou passar um pênalti claro de Mauricinho em Adalberto.

A segunda partida, três dias depois, poderia valer o título ao Fla em caso de vitória, mas o 0 a 0 persistiu. Ficou tudo para o domingo, 10 de agosto, diante de mais de 127 mil torcedores no velho Maracanã. O time rubro-negro, que pela primeira vez no campeonato não teria Adalberto, ausente por lesão, na lateral-esquerda, entrou em campo com Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Guto e Aldair; Andrade, Aílton e Adílio; Bebeto, Vinícius e Marquinho. O Vasco de Antônio Lopes foi a campo com Acácio; Paulo Roberto, Donato, Morôni e Heitor; Vítor, Mazinho e Geovani; Mauricinho, Roberto e Romário.

Na decisão, Bebeto acaba com o Vasco.

Na decisão, Bebeto acaba com o Vasco.

Pressionado pela necessidade de vencer, o Vasco atacou mais, mas esbarrou em Zé Carlos soberano no gol. O Fla, que só partia na boa, levava perigo mais concreto. No intervalo, Antônio Lopes surpreendentemente tirou Geovani, cérebro do meio-campo vascaíno, para colocar o junior Claudinho. Era a senha: o Fla assumia de vez o controle do jogo e o gol amadurecia. Aos 28 minutos, Marquinho – onipresente em campo – ginga na frente de Paulo Roberto, tabela com Julio Cesar Barbosa, vai à linha de fundo e rola para Bebeto, livre, quase na pequena área, girar e bater para o fundo das redes.

A segunda alteração de Lopes foi ainda mais surpreendente: tirou Romário para colocar o ponta-esquerda Santos. Nem a torcida rubro-negra acreditou, saudando o treinador rival com gritos de “burro”. O castigo – e o ponto final do campeonato – veio aos 39 minutos: Julio Cesar Barbosa recebe de Andrade e bate cruzado da entrada da área. A bola quica por baixo do corpo de Acácio, que engole um frangaço, e vai para o fundo das redes novamente. Estava decretado o 22º título carioca do Flamengo, dono do craque do campeonato, Bebeto, da revelação do torneio, Aldair, e de toda uma geração valente de garotos muito bem comandados e organizados em campo por Lazaroni. Meninos rubro-negros com futebol de gente grande.

Campeões: Bebeto, Jorginho e Marquinho carregam a taça.

Os campeões de 1986: Bebeto, Vinícius (atrás), Jorginho e Marquinho carregam mais uma taça.

Quarenta anos sem Reyes, ídolo de técnica e raça na zaga e no meio-campo do Fla

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Os tempos eram difíceis para o torcedor rubro-negro naqueles fins de anos 60 e começo dos 70. O clube amargava um incômodo jejum de títulos cariocas e frequentemente cumpria campanhas medíocres recorrendo a elencos geralmente fracos. Havia porém alguns poucos motivos de orgulho para a massa admirar em campo. Um deles, provavelmente o maior, era o futebol de técnica exuberante e valentia incansável daquele paraguaio com cara e cabelo de índio. Símbolo maior de raça e categoria no meio-campo e depois, especialmente, na quarta-zaga do Flamengo em tempos pra lá de bicudos, Reyes viraria saudade no coração da torcida rubro-negra ao falecer em Assunção, capital paraguaia, há exatos 40 anos, vitimado por uma leucemia.

Nascido na mesma Assunção em 24 de julho de 1941, o garoto Francisco Santiago Reyes Villalba, ou apenas Reyes, começou a jogar no meio-campo do pequeno clube Presidente Hayes, de onde veio para o poderoso Olimpia em 1962. Pelo Decano, conquistou dois títulos paraguaios, entremeados com uma passagem pelo River Plate argentino, por empréstimo. Chegou também à seleção do Paraguai, pela qual disputou inclusive partidas das Eliminatórias das Copas do Mundo de 1962 e 1966.

Em 1965 cruzou o Atlântico, negociado com o Atlético de Madri. Na Espanha, porém, não teve muita chance, pois o clube já contava com número excessivo de jogadores estrangeiros, o que limitava sua presença a alguns amistosos. Até aparecer em seu caminho o Flamengo – que sempre manteve fortes laços com o futebol guarani, por meio de jogadores e treinadores que marcaram época (Fleitas Solich, Modesto Bria, Sinforiano García, Jorge Benítez, posteriormente Gamarra).

Reyes no Olimpia (à direita) ao lado de seu irmão Marlo, de camisa do clube Presidente Hayes, onde ambos começaram no futebol.

Reyes no Olimpia (à direita) ao lado de seu irmão Marlo, de camisa do clube Presidente Hayes, onde ambos começaram no futebol.

O começo difícil na Gávea

Naquela metade de 1967, o Flamengo excursionava pela Europa e tentava se reformular depois de fazer campanha bastante fraca no Torneio Roberto Gomes Pedrosa: o técnico argentino Armando Renganeschi, campeão carioca dois anos antes, já manifestara desejo de deixar o comando do time, e os dirigentes pretendiam trazer Oto Glória, então no Atlético de Madri, para seu lugar, além de repatriar o atacante Silva, ídolo na conquista daquele título, que não vinha tendo muita chance de jogar no Barcelona. No entanto, nenhum dos dois veio para a Gávea. O que os cartolas rubro-negros conseguiram, porém, foi o empréstimo do meia-armador paraguaio Francisco Reyes junto ao clube madrilenho para os jogos finais da excursão. Com ele, o time disputou o Troféu Ibérico, na cidade espanhola de Badajoz, perdendo para o Sporting Lisboa (1 a 2) e vencendo o Barcelona (1 a 0).

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Reyes assina contrato com o Flamengo. À sua direita, sorrindo, o sueco Gunnar Goransson, dirigente do clube na época.

Mesmo sem ritmo de jogo, o gringo agradou e foi contratado em definitivo pelo alto valor de NCz$ 100 mil. Chegou ao clube em agosto, mas demorou mais de um mês para estrear, por problemas de documentação e uma gripe insistente que pegou logo ao chegar. Enquanto isso, aparecia muito bem nos treinos, como dizia a nota do Jornal do Brasil do dia 10 daquele mês: “O jogador paraguaio tem demonstrado excelentes qualidades nos coletivos e, sobretudo, noção para os lançamentos em profundidade. Reyes bate na bola com muita facilidade e tem boa colocação dentro do campo. Embora ainda não esteja em forma, Reyes já demonstrou que tem qualidades para resolver o problema de meio-campo do Flamengo”.

Reyes na capa da Revista do Esporte em outubro de 1967.Infelizmente, os problemas do time rubro-negro não se resumiam ao meio-campo. A temporada de 1967 foi uma das piores da história do Flamengo desde a adoção do profissionalismo, em 1933. Basta dizer que pela primeira vez desde aquele ano o time encerrou com mais derrotas (31) que vitórias (22). Nem mesmo a chegada em outubro do experiente Aymoré Moreira, treinador campeão do mundo com a Seleção Brasileira no Chile em 1962, ajudou a melhorar a pífia campanha do time no Campeonato Carioca. Enquanto isso, Reyes sofria em sua adaptação com uma série de problemas físicos, a saudade da esposa e do filho recém-nascido, além do preocupante estado de saúde de seu pai, recém-infartado. Houve, porém, uma grande exibição do paraguaio no primeiro Fla-Flu do campeonato, vencido pelo Rubro-Negro por 3 a 1: Reyes marcou, deu passes, lançou em profundidade, fez o segundo gol do time pouco depois do empate tricolor e, sobretudo, demonstrou toda a elegância e o dinamismo em campo que a ele atribuíam.

O ano seguinte não começou melhor para o jogador. Logo no início do ano, uma briga com Aymoré durante um treino, por uma suprema ironia: o técnico queria que Reyes atuasse como quarto-zagueiro. O jogador protestou, jogou a camisa no chão com raiva e acabou fora do time titular, até a saída do comandante, em março. Ex-médio do clube nos anos 40, Válter Miraglia assumiu o time e utilizou o paraguaio com frequência um pouco maior (inclusive como titular), mas ainda era pouco: durante todo o ano de 1968, disputou 24 partidas, mas apenas dez desde o início.

Como curiosidade, também naquele ano atuaria pela primeira vez na posição que o consagraria tempos depois, num amistoso contra o Guará, em Brasília, no dia 18 de junho. Formou uma zaga “estrangeira” ao lado do central uruguaio Manicera. O Flamengo venceu por 2 a 0. Mas, sem ser tão aproveitado, Reyes esteve perto de rumar para Moça Bonita: em setembro o Fla chegou a propor ao Bangu a troca simples do paraguaio pelo atacante alvirrubro Mário “Tilico”, mas as negociações não avançaram.

Time do Fla que disputou amistoso em Manaus contra o Nacional local, em julho de 1968. Em pé: Murilo, Onça, Marco Aurélio, Manicera, Carlinhos e Paulo Henrique. Agachados: Zélio, Reyes, Luís Carlos, Silva e Rodrigues Neto.

Time do Fla em Manaus para amistoso contra o Nacional local, julho de 1968. Em pé: Murilo, Onça, Marco Aurélio, Manicera, Carlinhos e Paulo Henrique. Agachados: Zélio, Reyes, Luís Carlos, Silva e Rodrigues Neto.

Em 1969, suas chances de atuar ficaram ainda mais reduzidas, já que o clube contratou mais dois estrangeiros – o veterano goleiro Rogelio Domínguez (ex-Racing e Real Madrid) e o atacante Narciso Horácio Doval (ex-San Lorenzo), ambos argentinos – ficando com quatro no elenco, e podendo utilizar apenas dois por vez, conforme a legislação. Assim, Reyes entrou em campo apenas sete vezes, seis delas em amistosos, e apenas duas vezes como titular. No primeiro jogo, substituiu Garrincha durante a vitória rubro-negra por 3 a 1 sobre o Robin Hood, do Suriname, em excursão ao país vizinho. Seu último jogo pelo Flamengo no ano veio no dia 6 de abril, entrando na etapa final de uma vitória por 2 a 0 sobre o Bangu, pelo Campeonato Carioca.

Vivendo o ostracismo na Gávea, treinava entre os reservas na posição que sobrasse (ora lateral, ora ponta). Quase se transferiu para o futebol mexicano. Quase foi trocado com o Vasco. Mas acabou mesmo emprestado ao Campo Grande no fim de setembro, numa leva com outros rubro-negros menos cotados. No clube da Zona Oeste, atuou ao lado de veteranos como Jair Marinho e Hélio Cruz sob o comando do técnico Gradim, e conquistou o Torneio Otávio Pinto Guimarães, disputado entre equipes menores da Guanabara e as do antigo estado do Rio de Janeiro, pré-fusão.

A volta por cima

Findado o empréstimo, o apoiador retornou ao Flamengo, mas era peça quase descartada no elenco rubro-negro para a temporada de 1970. Caso não houvesse nenhum clube interessado em sua contratação, seria devolvido ao Atlético de Madri, sem honra nem glória, como mais um estrangeiro que fracassara no clube e no futebol brasileiro – ainda que, como tantos outros, subaproveitado. Sua cotação na Gávea estava tão baixa que ele acabou incluído num time misto, formado por juvenis e reservas, que excursionaria pela Ásia fazendo amistosos no Japão e na Coreia do Sul, comandado pelo preparador físico José Roberto Francalacci.

Foi sua salvação. Ainda que os resultados obtidos pelo time misto não fossem bons, a atuação de Reyes improvisado como quarto-zagueiro recebeu muitos elogios no relatório preparado por Francalacci e pelo chefe da delegação, o ex-presidente rubro-negro Hilton Santos, que chegou às mãos do técnico do time principal, Yustrich. Bem recomendado, Reyes então acabou escalado na posição contra o Olaria, pela Taça Guanabara, no lugar de Tinho, que se recuperava de lesão. De início, fez boas atuações (apesar do lance que se tornou folclórico no jogo contra o Bangu, em que o atacante alvirrubro Dé, o Aranha, atirou uma pedra de gelo na bola para toma-la do controle do paraguaio e marcar o gol). Mas com a recuperação do antigo titular, ficou alguns jogos de fora. Até retornar, na reta final da Taça (conquistada pelo Fla), para não sair mais. No jogo do título, empate em 1 a 1 com o Fluminense, lá estava ele cumprindo grande atuação.

No segundo semestre, manteria o alto nível mesmo no desempenho irregular do Flamengo no Campeonato Carioca. E no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no qual o time faria grande campanha, seu talento apareceria para o país inteiro. Levando toda a categoria de jogador de meio-campo no passe e no trato com a bola para a zaga, e aliando-as às recém-descobertas qualidades talhadas para a nova função, Reyes teve atuações exuberantes com a camisa 6, número reservado na época para a posição. Apresentava um perfeito senso de antecipação e cobertura. Saía jogando da defesa para o meio com classe e tranquilidade, sem nunca recorrer ao chutão. Iniciava jogadas de ataque com lançamentos perfeitos. E ainda era bom no jogo aéreo. O meia-armador habilidoso virara de fato um zagueiro completo.

o craque da bola de prata 1970 - placar

O reconhecimento não tardou a chegar. Naquele ano, a recém-lançada revista Placar instituiu seu famoso troféu Bola de Prata, para premiar os melhores do Robertão em cada posição – exceto Pelé, considerado hors concours. A cada partida, os jogadores eram avaliados pela equipe da publicação e recebiam notas. O dono da melhor média final em cada uma das 11 posições era premiado. Na quarta-zaga, Reyes tinha entre seus concorrentes nomes como Luís Carlos (Corinthians), Vantuir (Atlético-MG), Leônidas (Botafogo), Roberto Dias (São Paulo), Djalma Dias (Santos), além de defensores que viviam bom momento, como o palmeirense Nélson, o tricolor Assis e o gremista Beto.

Nenhum desses, no entanto, chegou a representar sequer ameaça de tirar a Bola de Prata do paraguaio: Reyes triunfou por larga margem, com média 8,13, mais de um ponto superior ao segundo colocado (Luís Carlos, com 6,70). Para se ter uma ideia do nível de excelência do desempenho do zagueiro rubro-negro, basta dizer que apenas três jogadores, entre todos os avaliados de todos os times, superaram a nota 8 na média: Tostão (8,06), Paulo César Caju (8,12) e Reyes, o maior de todos. Infelizmente, apenas em 1973 a revista instituiria também a Bola de Ouro, troféu dado ao primeiro colocado geral. Caso ela já existisse três anos antes, a primeira teria ido parar nas mãos do paraguaio. Nas palavras da publicação: “Francisco Santiago Reyes Villalba, cara de índio, cabelos de índio, às vezes desconfiado como um índio, é o dono da área do Flamengo. Na hora do aperto êle sai com a bola dominada, começa a armar o time. Reyes é um zagueiro que não dá balão, que soma a classe de Leônidas, a valentia de Assis e o amor à camisa de Luís Carlos. Tem mais ainda, porque Reyes é um ex-volante, que sabe como atacar sempre que tem espaço à sua frente”.

reyes bola de prataE não era só Placar que tinha Reyes em alta conta: o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, incluiu o zagueiro entre seus destaques do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Uma votação feita entre jornalistas esportivos gaúchos também apontou o paraguaio como o melhor de sua posição na competição. Até mesmo Armando Nogueira, colunista do Jornal do Brasil, deixou de lado sua maldisfarçada antipatia em relação ao Flamengo para se render em elogios sempre que se referia ao jogador. Em 14 de junho de 1971, por exemplo, quando a Seleção Brasileira voltou a ser convocada após o título mundial no México, o jornalista lamentava em sua coluna a suposta escassez de merecedores de convocação para a quarta-zaga e, após apontar o corintiano Luís Carlos como talvez o mais indicado, fazia a seguinte ressalva: “Além dêle, jogando futebol em nível de scratch (seleção), naquela posição, só existe, no duro, o paraguaio Reyes, do Flamengo”. Naquele começo dos anos 70, em meio a toda a euforia pós-tricampeonato mundial do Brasil, Reyes era, sem favor algum, o melhor beque pelo lado esquerdo em atividade no país.

Dentro do próprio Flamengo o jogador já tinha seu talento plenamente reconhecido até pela velha guarda rubro-negra. Em 15 de novembro de 1971, no aniversário do clube, o Jornal do Brasil publicou uma escalação histórica ideal chamada “O Super Flamengo”, formada segundo a opinião de antigos técnicos, dirigentes e jogadores do clube. Em meio a nomes lendários como Domingos da Guia, Leônidas da Silva e Zizinho, o único a ter atuado pelo Flamengo da década de 1950 em diante presente nesse “time de todos os tempos” era Reyes.

álbum bola de prata - 1971Naquele ano, como era habitual no período, o time vivia outra fase de vacas magérrimas. Todo o bom momento vivido pela equipe no ano anterior sobre o comando rigoroso de Yustrich se esvaiu em meio às brigas do intratável treinador com astros do time, como Doval – emprestado para o Huracán argentino por ordem do técnico – e o próprio Reyes, com quem, na temporada passada, tinha vivido uma relação de cumplicidade mútua. Sabe-se lá como, Yustrich resistiu no comando do time até o fim de maio de 1971, antes de os interinos Modesto Bria (paraguaio como Reyes) e Newton Canegal prepararem o terreno para o retorno do veterano Fleitas Solich. Mas o Fla, naquele ano, era terra arrasada, com elenco esfacelado, e física e mentalmente destroçado.

Exceto Reyes, o corpo e a alma do Flamengo. Com sua raça inesgotável e seu talento exuberante, jogava pela defesa, pelo meio, pelo time. Num dia, corria para salvar gols em cima da linha e evitar derrotas depois de o adversário ter driblado goleiro e tudo, como fez nos 0 a 0 contra o Olaria e o Fluminense no Campeonato Carioca. No outro, desarmava o atacante rival em sua área, atravessava o meio-campo, driblava e lançava para um companheiro marcar um sofrido gol da vitória, como fez com Arílson na partida diante do Ceará em Fortaleza pelo Campeonato Brasileiro. Além das qualidades dentro de campo, fora dele também se destacava: um dos líderes do elenco, era bom companheiro, articulado nas entrevistas, sempre sorridente e brincalhão com todos (ganhou o apelido de “paraguaio pura simpatia”). Em meados daquele ano, o Botafogo chegou a ambicionar sua contratação. Mas nada o tiraria da Gávea naquele momento. Agora era ídolo.

Reyes (à frente) e Ubirajara, dois destaques rubro-negros no Robertão-70.

Reyes organiza a defesa rubro-negra.

Fim do jejum estadual e os últimos anos na Gávea

Em 1972, o Flamengo se aprumaria, montando um grande elenco para enfim sair da fila no Campeonato Carioca. Com Doval de volta da Argentina, Zanata retornando após fraturar a perna, os reforços do extraclasse Paulo César Caju, do volante Zé Mário e do goleiro Renato, além da recuperação técnica de jogadores como Arílson, Caio e Rodrigues Neto, o time agora treinado por Zagallo largou muito bem na temporada, conquistando logo de saída o Torneio Internacional de Verão, contra Benfica (no qual Fio marcou o gol que o tornou o Maravilha) e Vasco; e o Torneio do Povo, no qual o rubro-negro superou Bahia, Corinthians, Atlético-MG e Internacional para arrebatar o título – com Reyes ostentando a braçadeira de capitão.

Para o paraguaio, no entanto, foi o primeiro ano marcado por problemas físicos frequentes, embora demonstrasse a velha categoria habitual. Reyes esteve sempre soberbo nos jogos de ambas as competições – na vitória sobre o Corinthians no Pacaembu por 2 a 1 pelo Torneio do Povo, o Jornal do Brasil descreveu assim sua atuação: “Excelente. Dominou todas as jogadas de ataque pelo seu lado e apoiou com muita categoria”.

Mas na metade do primeiro turno do Campeonato Carioca, durante a partida contra o Botafogo, sofreu um pisão de Roberto Miranda num lance casual que provocou uma inflamação no tendão de Aquiles do pé direito, tirando-o de ação por cerca de três meses. Assim, não participou da goleada de 5 a 2 aplicada sobre o Fluminense que deu ao Fla mais um título da Taça Guanabara – disputada pela primeira vez como uma etapa do campeonato do Rio de Janeiro. Reyes voltaria ao time apenas na reta final da competição, ajudando o Rubro-Negro a superar o Vasco de Tostão, Silva e Roberto Dinamite e o Fluminense de Gerson no triangular decisivo e levantar seu primeiro título estadual desde 1965.

O time da decisão carioca de 1972. Em pé: Renato, Chiquinho, Moreira, Reyes, Liminha e Vanderlei. Agachados: Rogério, Zé Mário, Caio, Doval e Paulo César Caju.

O time da decisão carioca de 1972. Em pé: Renato, Chiquinho, Moreira, Reyes, Liminha e Vanderlei. Agachados: Rogério, Zé Mário, Caio, Doval e Paulo César Caju.

Na decisão do Carioca, porém, mais problemas: Reyes teve de deixar o gramado ainda durante a partida, sofrendo um princípio de estiramento na coxa esquerda, que o deixaria de fora por pouco mais de um mês. A rotina de lesões e o calendário massacrante o permitiram disputar apenas oito das 28 partidas do Flamengo no Campeonato Brasileiro. Após a derrota para o América-MG no Mineirão, em 11 de novembro, as dores no tendão do pé direito voltaram a incomodá-lo, e ele desfalcaria o time não só pelo resto do torneio como também por todo o Carioca do ano seguinte.

Ficou ao todo nove meses e cinco dias parado, período em que chegou a engessar o pé direito quatro vezes. Era triste ficar encostado, longe da bola: mesmo sem condições, aparecia frequentemente para treinar e precisava ser dissuadido pela comissão técnica. Para piorar, a lesão levou ao aparecimento de outros problemas: em agosto de 1973, chegou a ser relacionado para a partida contra o Bonsucesso, pelo terceiro turno do Carioca, sem importância para o Fla (já classificado para a fase final), mas crucial para o ânimo de Reyes. Mas no dia do jogo apareceu no clube com a mão direita muito inchada e foi vetado. Voltou somente contra o Comercial de Campo Grande, já na rodada de abertura do Campeonato Brasileiro, no dia 26 daquele mês. O Fla venceu por 1 a 0 e Reyes teve grande atuação, compensando com técnica a falta de ritmo de jogo.

reyes 02Mais uma vez, porém, as lesões impediram participação maior do paraguaio na campanha: Reyes entrou em campo 14 vezes (12 como titular), ou seja, metade das 28 partidas cumpridas pelo Fla naquele Brasileiro, e não conseguiu evitar a decepcionante eliminação precoce do clube – que não conseguiu ficar entre os 20 melhores nos turnos de classificação. Sem ele, a defesa rubro-negra ficava preocupantemente vulnerável. O zagueiro, no entanto, manteve atuações dignas até sua última partida pelo Rubro-Negro, uma vitória de 3 a 2 sobre o America, a derradeira do time na competição, em 15 de dezembro de 1973. Quatro dias depois, teria ainda a honra de atuar como quarto-zagueiro no time de estrangeiros que enfrentou a Seleção Brasileira no jogo que marcaria a despedida definitiva de Garrincha do futebol. Novamente teve atuação segura, apesar da derrota do combinado por 2 a 1.

No começo do ano seguinte, em 14 de janeiro, o Flamengo concedia o passe livre ao jogador, que tinha proposta do Olimpia e pretendia voltar a seu país e encerrar a carreira por lá. Havia a expectativa de voltar à seleção paraguaia, mas acabou não se concretizando. Antes de partir, ganhou um jogo de despedida. No dia 18, o Flamengo fez um amistoso contra o Zeljeznicar, da Iugoslávia, no Maracanã, vencendo por 3 a 1 com dois gols de Zico e um de Arílson. Reyes deu o pontapé inicial e uma volta olímpica pelo gramado, saudado pelos torcedores. Recebeu duas placas de prata e, chorando, afirmou: “Deixar o Brasil é uma coisa que sinto muito, mas saber que não vou mais usar esta camisa, ouvir os gritos desta torcida doerá muito mais ainda”. Ao contrário do que era praxe em jogos assim, quando a renda da partida fica para o homenageado, Reyes abriu mão do dinheiro, deixando-o para o clube “fazer o que quiser”.

No Olimpia, o penúltimo agachado: campeão paraguaio em 1975, o último ano da carreira.

No Olimpia, o penúltimo agachado: campeão paraguaio em 1975, o último ano da carreira.

Em outubro de 1975, uma notícia causou comoção no meio esportivo carioca: Reyes tinha sido diagnosticado com leucemia, uma espécie de câncer no sangue, e teria apenas mais dois ou três meses de vida. Trazido pelos dirigentes rubro-negros para o Rio, ficou sob tratamento no Hospital dos Servidores do Estado. Quando melhorou, voltou para Assunção, mas lá teve nova recaída, da qual não se recuperou. Faleceu na capital paraguaia na madrugada de 31 de julho de 1976, aos recém-completados 35 anos.

No dia seguinte, no Fla-Flu válido pelo terceiro turno do Campeonato Carioca daquele ano, foi respeitado um emocionante minuto de silêncio em sua memória. A torcida se despediu de quem nunca se esqueceria. Em seu país, é lembrado até hoje não só pelo Olimpia, onde marcou época, como também pelo Presidente Hayes – neste, com a honra de batizar uma das arquibancadas do estádio do pequeno clube de Assunção.

Em 1982, numa eleição promovida pela revista Placar entre jornalistas, ex-jogadores e personalidades rubro-negras, Reyes formou com Domingos da Guia a dupla de zagueiros do maior Flamengo de todos os tempos (a exemplo da mesma enquete realizada pelo Jornal do Brasil 11 anos antes). Muitos que o viram jogar ainda o colocam entre os melhores. E sentem saudade de ver aquele indiozinho sorridente, mas lutador em campo, limpar a jogada na área rubro-negra e sair com a bola colada ao pé, levando o Mengo à frente.

Reyes com seus filhos Marcos e Gustavo.

Reyes com seus filhos Marco e Gustavo.

Um século de Manto Sagrado: A história do primeiro jogo da camisa rubro-negra

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O zagueiro Píndaro, o "Gigante de Pedra", bicampeão carioca nos anos 1910, veste o primeiro modelo da camisa rubro-negra listrada do futebol do Flamengo

O zagueiro Píndaro, o “Gigante de Pedra”, bicampeão carioca nos anos 1910, veste o primeiro modelo da camisa rubro-negra em listras horizontais do futebol do Flamengo

No dia 4 de junho de 1916, há exatos 100 anos, o Flamengo enfim passou a ser um só. O time de futebol adentrou o campo do estádio da Rua Paissandu para enfrentar a Associação Athletica São Bento paulistana com uma novidade: vestiria agora, enfim, uma camisa com o mesmo desenho da do remo, esporte fundador do clube. Derrubando preconceitos e objeções internas, os jogadores levariam o Manto Sagrado, com as listras vermelhas e pretas na horizontal do jeito que conhecemos hoje, ao lugar que era seu por direito: os gramados nos quais o clube construiria boa parte de sua grandeza e arrebataria dezenas de milhões de torcedores.

A EVOLUÇÃO DO UNIFORME RUBRO-NEGRO

Para começo de conversa, vale explicar que o Flamengo, nascido grupo (depois clube) de regatas lá em 1895, era azul e ouro, aurianil em vez de rubro-negro. Mas as cores acabaram descartadas um ano depois, assim que se notou que a salinidade da água da Baía da Guanabara fazia o uniforme desbotar com facilidade. E no ano seguinte, adotou-se enfim o rubro-negro, mantido na configuração de linhas horizontais do desenho anterior. No fim de 1911, quando o Flamengo criou sua seção de esportes terrestres, para abrigar os jogadores dissidentes do time de futebol do Fluminense, a modalidade não era a mais popular no Rio, nem no país, apesar de emergente. Perdia em preferência e em destaque para o remo e o turfe. Não era, inclusive, muito bem vista pelos remadores rubro-negros, que vincularam a aceitação dos ex-tricolores à utilização por eles de um outro uniforme, que não o habitual com listras vermelhas e pretas horizontais da vestimenta do remo, e de outro escudo, que não o da âncora com as pás de remo entrelaçadas.

O time de 1912, o primeiro do futebol rubro-negro, com a camisa "Papagaio de Vintém", tida como azarada.

O time de 1912, o primeiro do futebol rubro-negro, com a camisa “Papagaio de Vintém”, tida como azarada.

Por esta razão, o primeiro time de futebol rubro-negro, que entrou em campo em maio de 1912 para enfrentar o Mangueira, vestiu a camisa quadriculada, conhecida como Papagaio-de-vintém, por sua semelhança com o desenho das pipas baratas que os moleques empinavam nas brincadeiras infantis. Mas este fardamento inicial não trouxe resultado e, por superstição, acabou deixado de lado. Surgiu então, em meados de 1913, um novo, quase igual ao do remo, mas com finas listras brancas intercaladas entre as rubro-negras, que ganhou o apelido de Cobra-coral. Com esta camisa, o Fla levantou seus primeiros títulos, os campeonatos cariocas de 1914 e 1915, este invicto.

Chega 1916, e o Flamengo inicia o ano com o mesmo uniforme. Até que, temporada adentro, alguém notou que a configuração da camisa do futebol rubro-negro lembra demais a da bandeira da Alemanha, país que liderava a chamada tríplice aliança, lutando contra a Entente formada pelo Império Britânico, França, Rússia, Estados Unidos, Portugal e uma série de outros países, nas batalhas do que posteriormente seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial. Até aquele momento, o Brasil ainda não havia declarado guerra aos alemães (só o faria no ano seguinte). Mas os frequentes protestos de rua no Rio de Janeiro contra a Alemanha (chamada de “Inimiga de todos os povos”) naquele ano e, talvez, a participação do Reino Unido – país de origem de alguns atletas do time rubro-negro, aliás dado comum no futebol carioca do período – juntamente com a recente adesão dos portugueses à Entente tenham colaborado para a ideia da necessidade de aposentar a camisa com as impopulares listras brancas.

O time campeão de 1914 vestido com a camisa "Cobra Coral", com finas listras brancas entre as rubro-negras.

O time campeão de 1914 vestido com a camisa “Cobra Coral”, com finas listras brancas entre as rubro-negras.

ENFIM, (QUASE) IGUAL AO REMO

Desta vez, portanto, ficou difícil para os remadores manterem a segregação do uniforme dentro do clube. Até porque o futebol crescia absurdamente em popularidade, e o time rubro-negro já se mostrara vencedor. A permissão veio, somente mantida a restrição quanto ao escudo. Naquele ano de 1916 em que tentaria o tricampeonato da cidade, o Flamengo já realizara pioneira excursão ao Pará, iniciada no fim de dezembro do ano anterior, e já disputara com o fardamento antigo três partidas pelo Carioca, vencendo o Andarahy por 4 a 0, o Fluminense por 4 a 1 e perdendo para o Bangu no campo adversário da Rua Ferrer por 4 a 2. A ocasião de estreia do uniforme que permanece até hoje viria num dia festivo: além da nova camisa, o clube promoveria a inauguração oficial de seu estádio da Rua Paissandu, no qual já mandava seus jogos desde o final de outubro do ano anterior.

O adversário seria o time da Associação Athletica São Bento, campeão paulista de 1914, logo no ano de sua fundação, e considerado uma das potências da capital bandeirante (não confundir, portanto, com o clube de Sorocaba, existente até hoje). A equipe azul e branca não repetira a boa temporada em 1915, mas já estreara com um resultado expressivo no torneio estadual daquele ano, goleando por 5 a 3 a Associação Athletica das Palmeiras, campeã de 1915 e outra força da época (novamente, nada tem a ver com o atual Palmeiras). O principal nome do São Bento era o centromédio Lagreca, da Seleção Brasileira, além do center-forward Dias (outro do scratch, como se chamava a Seleção na época) e do ponta-esquerda Hopkins. Tal consciência da força do time levava a previsões ousadas e com arroubos de otimismo para a partida, como aconteceu com um cronista paulistano, que chegara a escrever prevendo uma derrota vergonhosa para o Flamengo, e que só por uma infelicidade o São Bento perderia o jogo.

Foto do Jornal do Brasil publicada no dia seguinte da partida, o primeiro registro do futebol do Flamengo vestido com a camisa que seria eternizada.

Foto do Jornal do Brasil publicada no dia seguinte da partida, o primeiro registro do futebol do Flamengo vestido com a camisa eternizada.

O DIA DA ESTREIA

Se a imprensa de lá alfinetava, entre os clubes o clima era de cordialidade. A delegação do time beneditino chegou ao Rio de trem, pelo noturno de luxo, às 8h15 da manhã do dia do jogo, sendo recebida na Estação Central do Brasil por dirigentes e representantes rubro-negros e partindo de lá em cortejo de automóveis até a sede rubro-negra no casarão da Praia do Flamengo. Visitou as instalações e foi homenageada pelos sócios do clube. Após o almoço, foi levada a um passeio pela cidade, retornando ao hotel em que se hospedou e se concentrou para a partida, marcada para o meio da tarde. Depois do jogo haveria um banquete, antes de a comitiva tomar o trem de volta para a capital paulista.

Às 15h42, após uma preliminar entre os segundos quadros (reservas) rubro-negros e os do Botafogo encerrada com empate em 2 a 2, a bola rolou para Flamengo x São Bento. Os donos da casa foram a campo com o goleiro Cazuza; os backs Antonico e Nery; Curiol, Sydney Pullen e Galo na linha média; e Arnaldo, Gumercindo, Reid, Borgerth e Riemer no ataque. Já os visitantes alinharam Orlando; Zacharias e Burgos; Buker, Lagreca e Moraes; Damaso, Cesar, Dias, Irineu e Hopkins. Assim que Affonso de Castro apitou o início a partida, o Flamengo passou a pressionar o São Bento, que tentava escapar nos contra-ataques. Mas os rubro-negros tiveram amplo domínio das ações em toda a primeira etapa, e já abriram o placar aos quatro minutos, quando o center-half (hoje, volante) inglês Sydney Pullen driblou Lagreca e os dois defensores paulistas e chutou inapelavelmente para vencer Orlando.

Mesmo em vantagem, o Flamengo seguiu pressionando: criou inúmeras situações de gol, acertou a trave, teve um gol de Arnaldo anulado por impedimento, até que Sydney Pullen, um monstro em campo na defesa e no ataque, deu belo passe a Gumercindo, que bateu cruzado e ampliou a contagem. Sob a baliza do São Bento, o arqueiro Orlando vai fazendo o que pode para impedir a goleada. Chega a bloquear quatro chances consecutivas do Flamengo. E numa escapada, o time paulista descontou quando Hopkins desceu pela esquerda, chutou forte, Cazuza deu rebote e Dias escorou. O primeiro tempo terminou com o Fla na frente por 2 a 1.

Na etapa final, a tônica da partida se manteve até os 27 minutos, quando, na meia direita, Gumercindo passou a Arnaldo e este lançou Borgerth. O meia-esquerda passou a Riemer, que chutou forte e ampliou de novo a contagem. Daí em diante, o time do Fla fez o tempo passar até o apito final. A vitória inaugurou em grande estilo o novo estádio e a nova camisa, além de servir como uma resposta ao tal cronista paulistano que apostava num triunfo categórico do São Bento. Mas o Manto rubro-negro não teve impacto maior a médio prazo: o campeão carioca daquele ano seria o America, e o Fla teria que se contentar com uma quarta colocação, modesta perto do que vinha obtendo desde 1912.

Primeira página do jornal O Imparcial, um dos principais do Rio de Janeiro no começo do século XX, destacando o duelo interestadual.

Primeira página do jornal O Imparcial, um dos principais do Rio de Janeiro no começo do século XX, destacando o duelo interestadual.

De fato, somente em 1920 o time levantaria sua primeira taça do Carioca com a nova camisa – mas com estilo, de maneira invicta –, emendando um bicampeonato no ano seguinte. E com o passar dos anos, foi formando sua lenda. Em 1927, por exemplo, na conquista de um dos títulos mais improváveis da história do clube, com um time quase improvisado formado de última hora por veteranos semiaposentados, ex-juvenis e reservas, além de outros trazidos de times menores a toque de caixa para compensar os que tinham saído, surgiu a mística da “camisa que jogava sozinha”, revisitada em incontáveis momentos nestes 100 anos de história.

Embora através dos tempos tenha sido quase sempre muito bem vestida por jogadores que primavam pela técnica refinada, a camisa rubro-negra se tornou símbolo de raça, de bravura, de luta contra o impossível. É também um componente identitário, aglutinador de uma torcida gigantesca, e que se espalhou pelo Brasil inteiro, e até pelo mundo. É um Manto Sagrado, uma segunda pele, o símbolo de uma nação.

Os 80 anos de Moacir, campeão do mundo e herdeiro de uma linhagem rubro-negra

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Moacir, habilidosomeia rubro-negro, em foto publicada na contracapa da última edição da revista Esporte Ilustrado, em dezembro de 1956.

Moacir, habilidoso meia rubro-negro, em foto publicada na contracapa da última edição da revista Esporte Ilustrado, em dezembro de 1956.

Um dos quatro jogadores do Flamengo a conquistarem pela Seleção Brasileira a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, o meia Moacir Claudino Pinto completa 80 anos de idade nesta quarta-feira. Jogador de muita técnica, perito nos dribles curtos e cortes secos nos adversários, preciso nos passes e lançamentos, e que também auxiliava na marcação quando necessário, ajudou a dar prosseguimento a uma longa linhagem de camisas 8 rubro-negros que aliavam elegância e malícia, como Zizinho, Rubens (o Doutor Rúbis) e os posteriores Geraldo Assoviador e Adílio. Hoje, porém, Moacir não costuma ser muito lembrado pelos torcedores e até pela imprensa na hora de listar os grandes jogadores que passaram pelo clube, ao contrário de Joel, Dida e Zagallo, companheiros presentes àquele Mundial.

Existem algumas explicações possíveis. A primeira é que, apesar de ter sido quase sempre titular, sua passagem pelo time profissional do Flamengo durou pouco mais de quatro anos, de novembro de 1956 a março de 1961, relativamente curta para aqueles tempos em que os jogadores costumavam permanecer o dobro do tempo, ou até mais. Deixou a sensação de ter explodido precocemente e, em vista disso, ter encerrado seu ciclo na Gávea mais cedo do que deveria, antes que pudesse se eternizar no coração e na memória da maioria dos torcedores. Outro agravante é a falta de títulos marcantes neste período, especialmente no Carioca, já que o meia esteve na equipe bem no meio do jejum na competição que durou entre o tricampeonato encerrado em 1955 e a conquista de 1963 – o que é uma meia verdade, como explicaremos mais adiante.

NA INFÂNCIA, O DRAMA DO ABANDONO

Na época em que jogou, no entanto, era um ídolo do povo rubro-negro, que vibrava com seu futebol moleque. E essa idolatria, juntamente com o carinho que recebia da massa, ajudava a esquecer um histórico de rejeição. Tudo começou aos seis anos de idade, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde nasceu e passou a primeira parte da infância, numa casa modesta com o pai ferroviário, a mãe e os oito irmãos. Como o próprio Moacir lembrou em depoimento recente: “Meu pai me deu um dinheiro e mandou jogar no bicho. Fui jogar uma peladinha e deixei o dinheiro embaixo de uma pedra. Eram seis da tarde. Depois, fui procurar o dinheiro, mas o campo era cheio de pedras e eu não encontrei”. Aflito, já temia o que o aguardava. “Meu pai me deu uma tremenda surra. Aí me trancou com as galinhas, uma noite terrivelmente fria”, relembra.

Tomou então a decisão que mudaria radicalmente sua vida, não sem deixar sequelas futuras: fugiu de casa, acabando por parar na delegacia. Aguardou por três dias que algum parente viesse busca-lo, e nada. Dado como abandonado, foi levado a um orfanato de Osasco, onde passou o restante da infância e a adolescência. A categoria que demonstrava nas peladas que jogava na instituição fez do diretor do orfanato seu grande admirador, além de impulsionador de sua carreira: era amigo do então presidente rubro-negro Gilberto Cardoso, conseguiu convencê-lo a levar o garoto ao Rio de Janeiro para um teste na Gávea. Aprovado, passou a morar na concentração do clube, pelo qual fez todo o processo de base. Era 1954. Apesar do porte físico franzino e da baixa estatura (1,63m) sua habilidade assombrosa com a bola se destacava. Dois anos depois, além de arrebentar nos juvenis, ajudou o clube a conquistar o título da categoria aspirantes, encerrando hegemonia do Fluminense.

Moacir é cumprimentado no vestiário rubro-negro no Maracanã, em 1959. Ao seu lado, Jordan. E ao fundo, Dequinha. (Foto: Acervo Última Hora)

Moacir é cumprimentado no vestiário rubro-negro no Maracanã, em 1959. Ao seu lado, Jordan. E ao fundo, Dequinha. (Foto: Acervo Última Hora)

NOVO TALENTO DA GÁVEA

Também naquele ano, em 24 de novembro, faria sua estreia pelo time profissional do Flamengo, que tentava o tetracampeonato carioca, mas não vinha em situação muito favorável naquela reta final, acumulando tropeços. Naquele dia, o Fla não teria Evaristo, e o técnico Fleitas Solich recorreu então ao garoto habilidoso dos aspirantes para vestir a 10 contra o Bangu no Maracanã. Moacir não só não se intimidou como teve uma atuação de encher os olhos, digna de veterano. Marcou um golaço, o terceiro na vitória por 3 a 1, passando por Décio e Zózimo antes de trocar de pé para chutar forte e estufar as redes de Nadinho. Foi tão bem em seu primeiro jogo que acabou nomeado para a seleção da rodada da revista Esporte Ilustrado e do jornal Correio da Manhã. Em 9 de novembro, disputaria seu segundo e último jogo naquele ano, um Fla-Flu vencido pelos rubro-negros por 1 a 0. O time acabou não conseguindo alcançar o Vasco, que ficou com a taça, mas ganhou um talento notável em seu meio-campo.

Time do Flamengo no jogo de estreia de Moacir, contra o Bangu, em novembro de 1956. Em pé: Tomires, Ari, Pavão, Milton Copolilo, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Moacir e Zagallo.

Time do Flamengo no jogo de estreia de Moacir, contra o Bangu, em novembro de 1956. Em pé: Tomires, Ari, Pavão, Milton Copolilo, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Moacir e Zagallo.

Então chega 1957, a primeira das quatro temporadas completas em que Moacir seria titular do Rubro-Negro. E já começaria brilhando, com dois gols na vitória por 5 a 3 sobre os suecos do AIK, em amistoso que abriu a temporada internacional no Maracanã. Mas os visitantes mais ilustres daquele começo de ano seriam os húngaros do Honved, trazendo Puskas, Kocsis, Czibor e todos os seus demais craques. No primeiro jogo do desafio, o Flamengo surpreendeu: mesmo com nada menos que seis desfalques – não jogaram Jadir, Dequinha, Jordan (a linha média inteira), Joel, Índio e Zagallo – entre lesionados e atletas cedidos à seleção carioca, arrasou os atônitos húngaros vencendo por 6 a 4.

Coube a Moacir abrir o placar aos 24 minutos do primeiro tempo pegando o rebote de uma cobrança de falta de Paulinho que desviou na barreira e acertou a trave. Para o jornal Última Hora, o meia foi “o dono da cancha”, o grande responsável pelo Flamengo ter dominado o setor, fator fundamental para a grande vitória naquele primeiro confronto. Ao avaliar individualmente as atuações, Albert Laurence deu nota 9 ao jovem talento, concluindo: “Moacir confirmou que é um jogador completo, de grande futuro, realmente. Mostrou coisas realmente excepcionais no domínio e entrega da bola”.

Nas semanas seguintes, Moacir voltaria a enfrentar o Honved cinco vezes, quatro pelo Flamengo (perdendo no Pacaembu e no Maracanã, mas vencendo e empatando em partidas disputadas em Caracas, na Venezuela) e uma pelo combinado Flamengo-Botafogo no Maracanã, entrando no lugar de Dida e fazendo uma assistência para Evaristo marcar o último gol na vitória por 6 a 2. Suas atuações nestas partidas – em seus oito primeiros jogos pelo Fla, já havia anotado seis gols – chamaram tanto a atenção que o técnico da seleção carioca, o ex-centroavante Sylvio Pirillo, fazia questão de contar com o jovem para as partidas decisivas do Campeonato Brasileiro de Seleções, contra os paulistas, mas acabou não sendo cedido. Outra Seleção, a Brasileira, o aguardaria para breve.

A primeira convocação para o time da CBD viria em junho, depois das grandes atuações do meia no Torneio Rio-São Paulo no mês anterior. Contra o Santos, em 5 de maio, Moacir ofuscou um jovem de 16 anos que debutaria naquele dia no Maracanã – um certo Pelé – com assistências para três gols da vitória rubro-negra por 4 a 0. No último, mesmo marcado por três adversários, deu passe milimétrico por elevação para Joel fechar a goleada. Naquele torneio, o Fla não levaria o título, ficando na segunda colocação empatado com o Vasco e atrás do invicto Fluminense, mas a equipe – e Moacir – teria outras atuações destacadas, como nas goleadas de 4 a 0 sobre o Corinthians em pleno Pacaembu e 4 a 1 sobre o Botafogo.

Vale lembrar que o elenco rubro-negro passava por grande reformulação: Evaristo havia acabado de ser negociado com o Barcelona; Paulinho saíra para o Palmeiras; Índio faria suas últimas partidas pelo clube naquele torneio, transferindo-se em seguida para o Corinthians; e o ex-ídolo Rubens, definitivamente em baixa com Fleitas Solich, seria emprestado ao Santa Cruz e não voltaria a defender o Fla. Para os lugares destes e de outros craques, o treinador paraguaio contava com Moacir, intocável como meia-armador, e outros jovens recrutados dos aspirantes, como o centroavante Henrique, o curinga do ataque Luís Carlos, o zagueiro Milton Copolilo e o lateral-direito Joubert, além de finalmente firmar Dida como titular e dono da camisa 10.

ESTREIA NA SELEÇÃO

Pouco menos de oito meses depois de estrear no profissional do Flamengo, Moacir já fazia sua primeira partida pelo Brasil, em 11 de junho, contra Portugal no Maracanã. Sylvio Pirillo, agora treinador da Seleção Brasileira, não desperdiçou a segunda oportunidade que teve de contar com ele, convocando-o para um time experimental, com vários estreantes, para testar as novidades depois de o escrete canarinho ter carimbado o passaporte para a Copa da Suécia em abril. O garoto entrou no lugar do santista Pagão – outro que debutava, e que saiu contundido – e melhorou a equipe, trabalhando ao lado de Zito e Didi e dando mais consistência defensiva e ofensiva ao meio-campo brasileiro, e contribuindo na vitória por 2 a 1.

O time do Fla que enfrentou o Combinado Vasco-Santos em 1957. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

O time do Fla que enfrentou o Combinado Vasco-Santos em 1957. Em pé: Joubert, Pavão, Ari, Jadir, Dequinha e Jordan. Agachados: Luís Carlos, Moacir, Henrique, Dida e Zagallo.

Cedido à Seleção, Moacir ficou de fora da estreia do Flamengo no Torneio Internacional do Morumbi – organizado pelo São Paulo para arrecadar fundos para a construção de seu estádio – contra os iugoslavos do Dínamo de Zagreb. Mas estaria de volta, e marcando dois gols, na segunda partida, uma vitória fácil sobre os portugueses do Belenenses por 3 a 1. No último jogo da chave, em partida tensa contra um combinado Vasco-Santos (com sete santistas entre os titulares), um momento de antologia: com passe magistral de calcanhar pelo ar, fez a assistência para Dida abrir o placar para o Fla no empate em 1 a 1. Primeiro colocado da chave carioca, o Flamengo avançou para o quadrangular final, derrotando de saída e com facilidade o Corinthians por 3 a 1 no Pacaembu, largando na frente, diante do empate entre o São Paulo e o Combinado. Mas, dois dias depois, o Tricolor paulista anunciava o cancelamento do torneio, alegando rendas baixas e prejuízo, e reteria para si a taça, ignorando a condição do Flamengo de líder do turno final quando do encerramento.

Em setembro, Moacir integrou o time rubro-negro que vai à Espanha, convidado para atuar nos festejos de inauguração do estádio Camp Nou, do Barcelona. No dia 25 daquele mês, o Flamengo goleou o Burnley, na época uma das potências do futebol inglês, por 4 a 0, e o estilo de jogo moderno, habilidoso e envolvente dos brasileiros encantou a crônica da Catalunha. No Carioca, o Flamengo começou muito bem, com 13 vitórias nas primeiras 16 rodadas, e brigou cabeça-a-cabeça com Botafogo e Fluminense pelo título. Mas nas seis últimas rodadas (a partir de meados de novembro) começou a patinar: venceu apenas o Vasco (repetindo os 4 a 1 aplicados no primeiro turno), empatou quatro vezes e perdeu para o Fluminense, terminando o torneio com apenas duas derrotas – ambas para o Tricolor – mas na terceira colocação.

No primeiro semestre de 1958, o Flamengo virou a página e voltou a jogar o fino da bola. O time colhia resultados espetaculares e parecia que jogava de novo como uma máquina, o Rolo Compressor dos tempos do tricampeonato. O time reformulado ao longo de 1957 estava pronto: Fernando (ex-Bangu) no gol; Joubert e Jordan eram sobriedade e eficiência nas laterais; Pavão e Jadir esbanjavam força do miolo de zaga; Dequinha e Moacir, exuberantes, comandavam o jogo da meia-cancha; e Joel, Henrique, Dida e Zagallo formavam o ataque demolidor. A primeira demonstração de que aquele onze não estava para brincadeiras veio em 31 de janeiro, com uma vitória histórica e categórica sobre o Boca Juniors por 4 a 2 em plena Bombonera. Moacir marcou duas vezes, Zagallo e Dida completaram o placar.

No começo do Torneio Rio-São Paulo não foi diferente: estreou com grande vitória de 3 a 2 sobre o São Paulo na capital paulista, seguida por um 4 a 2 diante da Portuguesa no Maracanã e um épico 3 a 2 de virada (perdia por 2 a 0) para o Santos de Pelé no Pacaembu. Após uma derrota apertada para o America, o time se recuperou massacrando em sequência o Botafogo (4 a 0) e o Palmeiras (6 a 2). Contra o Alvinegro, Moacir fez partida de almanaque: ajudou Dequinha a anular Didi, movimentou-se incessantemente, acertou passes e lançamentos e ainda apareceu no ataque para chutar ao gol. Já sobre a partida contra o Alviverde, o novo técnico da Seleção Brasileira, Vicente Feola, que assistiu ao jogo das tribunas, comentou: “Este time do Flamengo é mesmo impressionante. Vi-o contra o Botafogo e agora. Sempre o mesmo. Muito bom em suas manobras e quase perfeito no estado físico. É uma equipe que mete até medo aos adversários”. No fim, tratou ainda de destacar um jogador em especial: “Como está jogando o Moacir!”.

Na reta final, o Fla venceu o Fluminense por 1 a 0, gol de Jordan, em jogo bastante equilibrado. Dois dias depois, empatou com o Vasco – com quem dividia a liderança – em 1 a 1, já mostrando sinais de cansaço. No último jogo, diante do Corinthians no Pacaembu, nada deu certo. Enfrentando um time Alvinegro bastante violento, desleal e inflamado pela torcida, além da complacência do árbitro, o Flamengo sofreu um gol na metade do primeiro tempo e perdeu Jadir por lesão logo aos 34 minutos. Seu substituto, o jovem aspirante Sergio, acabaria marcando contra o segundo gol corintiano. E Bataglia fecharia o placar aos 42, antes que uma verdadeira batalha campal tomasse conta do gramado, inclusive com policiais agredindo jogadores rubro-negros. O caminho, então, ficou livre para o Vasco levantar o troféu, quatro dias depois, ao golear a Portuguesa.

NA LISTA DA COPA

Na Seleção, em 1958.

Na Seleção, em 1958.

Mesmo sem a taça, a força da equipe do Flamengo ficou comprovada na lista prévia de 40 nomes para a Copa do Mundo de 1958, divulgada pela imprensa no final de março. Além de Moacir, que impressionara Feola, outros cinco rubro-negros constavam: Pavão, Jadir, Dequinha, Joel e Dida. Somente o São Paulo, clube onde o técnico da Seleção passara a maior parte de sua carreira, teve número maior (sete) de pré-convocados. Durante a primeira fase da preparação, em Poços de Caldas, o meia rubro-negro atraía cada vez mais admiradores e era o grande destaque dos treinamentos, mesmo atuando entre os reservas. Não foram poucas as vezes em que os suplentes derrotaram os titulares com participação irretocável do garoto da Gávea. Assim como não foram poucos os observadores que sugeriram sua inclusão entre os titulares no lugar de Didi.

Embora tivesse inclusive o técnico da Seleção como um de seus maiores admiradores, o meia rubro-negro se mantinha modesto, fazendo seu jogo simples e objetivo: “A grande verdade é que por enquanto estou apenas pensando em garantir a minha vaga para a Suécia. Não penso muito além disso, pois considero todos os elementos convocados como dignos de figurarem como titulares. Para ser sincero comigo mesmo, devo dizer que nem pensei em ser convocado para a Copa do Mundo. É verdade que sempre tive confiança em mim mesmo. Sabia que não faria feio se merecesse a honra”, disse à Última Hora.

Conta-se que foram nessas circunstâncias que Didi teria cunhado a célebre frase “treino é treino, jogo é jogo” para justificar sua permanência entre os titulares. Mas não é absurdo afirmar que o incômodo com a situação e a ameaça do ascendente Moacir forçaram o meia-armador alvinegro jogar tudo e mais um pouco na Suécia. Se não chegou a entrar em campo nos gramados suecos – naquele tempo não eram permitidas as substituições em jogos oficiais de competições da Fifa – o jovem rubro-negro foi um grande “motivador”, por assim dizer, das atuações memoráveis de Didi no Mundial.

Nas semanas que antecederam o embarque para o Mundial, Moacir foi um dos destaques da Seleção na goleada de 4 a 0 sobre a Bulgária no Maracanã, no penúltimo amistoso em terras brasileiras. Marcou dois gols e ajudou a furar o ferrolho búlgaro, num dia em que a linha atacante do escrete era praticamente toda rubro-negra: além dele, Joel, Dida e Zagallo compunham o quinteto, com o palmeirense Mazzola como “infiltrado”. Na Suécia, Moacir também esteve perto de um lugar no time, é verdade, na partida contra a Inglaterra, atuando na meia-esquerda, já que nem Dida nem Pelé estavam em boas condições físicas. Mas quem acabou deslocado para a função foi o Mazzola, entrando Vavá no comando do ataque. Mesmo assim, voltaria campeão do mundo.

O ataque quase integralmente rubro-negro da Seleção no amistoso contra a Bulgária em 1958: Joel, Moacir, o palmeirense Mazzola, Dida e Zagallo.

O ataque quase integralmente rubro-negro da Seleção no amistoso contra a Bulgária em 1958: Joel, Moacir, o palmeirense Mazzola, Dida e Zagallo.

O PRIMEIRO TÍTULO NO FLA: HEXAGONAL DE LIMA

Moacir sofreu críticas da imprensa por ter mostrado uma queda acentuada de rendimento na extensa fase final do Campeonato Carioca de 1958, em dois triangulares contra Vasco e Botafogo (os cruzmaltinos ficaram com a taça). No entanto, ainda naquele mesmo mês de janeiro de 1959 em que deixaria escapar sua maior chance de levantar o título do Rio de Janeiro, o meia se reabilitaria com grandes atuações no Torneio Hexagonal de Lima, no Peru, no qual acabaria enfrentando dois clubes sul-americanos os quais defenderia mais tarde, o Peñarol e o River Plate. O time rubro-negro estreou com derrota para os uruguaios por 2 a 0, mas Moacir foi aclamado como o melhor em campo. Em seguida, contribuiu com uma assistência na vitória de 2 a 0 sobre o Universitário peruano.

O jogo seguinte já colocaria o Flamengo na liderança do torneio: em apenas 22 minutos de jogo, vencia o Colo Colo por 4 a 0, com Moacir marcando o segundo. Na etapa final, os chilenos reagiram marcando duas vezes, mas a vitória não esteve nunca ameaçada. As credenciais rubro-negras seriam plenamente confirmadas na partida seguinte, uma goleada de 4 a 1 sobre o River Plate, em outra atuação exuberante de Moacir e de toda a equipe. Faltava o Alianza, diante de um estádio lotado de torcedores do time local. No primeiro tempo, entretanto, o Flamengo atuou bem abaixo do que vinha fazendo e saiu perdendo por 2 a 0. Na etapa final, logo aos nove minutos, sofreu o terceiro. Mas, já no minuto seguinte, iniciou uma reação incrível, marcando quatro vezes em oito minutos para vencer por 4 a 3 e levantar o título do torneio sul-americano, o primeiro troféu conquistado por Moacir no time de cima do Fla.

No restante da temporada, porém, o time se contentou com momentos esparsos de brilho, em algumas grandes vitórias com os 7 a 2 sobre o America e os 5 a 1 diante do Corinthians no Pacaembu, pelo Rio-São Paulo; os 6 a 2 sobre o Botafogo no Carioca (única vitória rubro-negra nos clássicos daquela competição); e os 3 a 0 sobre o forte Spartak Moscou, em amistoso no Maracanã.

Uma formação do Flamengo durante o Carioca de 1960. Em pé: Joubert, Ari, o paraguaio Monín, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Othon, Moacir, Henrique, Gerson e Babá.

Uma formação do Flamengo durante o Carioca de 1960. Em pé: Joubert, Ari, o paraguaio Monín, Jadir, Carlinhos e Jordan. Agachados: Othon, Moacir, Henrique, Gerson e Babá.

FLA SE RENOVA, MAS MOACIR AINDA BRILHA

A temporada de 1960 foi outra bastante opaca do time rubro-negro, de um modo geral. Comandado no primeiro semestre pelo paraguaio Modesto Bria, centromédio do time do primeiro tri, e posteriormente por Fleitas Solich, de volta após a experiência no Real Madrid, o Flamengo não chegou a brigar seriamente por nenhum dos títulos que disputou. Havia, no entanto, uma nova safra de talentos que surgia, e três nomes mereciam destaque: o volante Carlinhos, legítimo sucessor de Dequinha na classe e na liderança; o ponta Germano, negro arisco e driblador; e o meia Gerson, de qualidade técnica indiscutível e que provocaria uma disputa de posições no time titular, já que poderia atuar tanto de meia-armador no lugar de Moacir quanto de ponta-de-lança na função de Dida. Ainda naquele ano, o meia faria sua sétima e última partida pela Seleção (a única depois da Copa da Suécia), na goleada de 5 a 1 sobre a Argentina pela Taça do Atlântico, no Maracanã. Mas entrou nos 15 minutos finais e não teve tempo para mostrar jogo.

Pelo Flamengo, duas das grandes atuações do meia naquela temporada vieram em raros jogos nos quais o time se mostrou coeso, bem equilibrado entre os setores e organizado em campo. Coincidentemente, aconteceram em clássicos vencidos de virada pelo placar de 3 a 1. O primeiro deles contra o Botafogo, em 24 de março, pelo Rio-São Paulo. A Última Hora rasgou elogios a Moacir, autor do terceiro gol rubro-negro. Para o jornal, o meia foi “sempre grande figura”, “a mola mestra, com desembaraço e eficiência”, “inteligente e astuto, brilhando, provando que é craque de fato”. Albert Laurence, outra vez encarregado de avaliar as atuações, apontou o jogador como o melhor em campo: “teve uma atuação estupenda, evoluindo com elegância, clarividência e acerto, marcando um belíssimo gol”. O segundo triunfo foi o do Fla-Flu do returno do Carioca, em 20 de novembro, e quebrou longa série invicta do Tricolor no campeonato. Novamente formando um trio de meio-campo com Carlinhos e Gerson, Moacir comandou uma grande reação, marcando ainda um belo gol, o segundo do time. Sobre esta exibição, Laurence escreveu: “Moacir também demonstrou que quando está em boa condição física, continua sendo um dos melhores meias-armadores do país”.

O Torneio Octogonal Internacional de Verão disputado em janeiro de 1961 no Rio, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu, e que teve sua história contada aqui, foi a segunda conquista de Moacir pelo Flamengo. O meia começou a competição como reserva, para o desgosto da maioria dos torcedores (uma nota na Última Hora dizia: “A torcida do Flamengo não se conforma, vendo o meia Moacir na reserva. Contra o São Paulo, quando foi anunciado que Moacir substituiria Luís Carlos, houve grande euforia entre os rubro-negros”), mas contribuía muito quando entrava. Já no primeiro jogo marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians no Pacaembu. E na quarta rodada, no 1 a 0 sobre o River Plate em Buenos Aires, era enfim titular. Jogou até na ponta-direita, improvisado, como contra o Nacional em Montevidéu, mas foi muito importante no título.

Em seguida viria o Torneio Rio-São Paulo, que seria a terceira conquista –a única oficial – do armador na Gávea. Porém sua participação ficou restrita à estreia, na boa vitória sobre o São Paulo por 2 a 1 no Pacaembu, na qual entrou no lugar de Henrique e teria boa atuação. Era peça importante do elenco e parecia que seria bem mais utilizado na campanha, mas um ato considerado de indisciplina teria desfecho dramático. Depois da partida, o Flamengo permaneceu na capital paulista, onde enfrentaria o Palmeiras na quarta-feira. Na noite de segunda, porém, os jogadores ganharam do técnico Fleitas Solich cinco horas de folga. Convidados pelo futuro rubro-negro Almir Pernambuquinho, na época jogador do Corinthians, Moacir e outros três jogadores do Flamengo comemoraram a vitória do dia anterior no apartamento do atacante corintiano com bate-papo, som alto, mulheres e bebida alcoólica – esta última, algo que o treinador paraguaio sabidamente não tolerava em hipótese alguma. Na reapresentação, houve atrito sério. E a corda arrebentou para Moacir, imediatamente negociado com o River Plate – por Cr$ 7 milhões (mais Cr$ 2 milhões de luvas) – e, assim como os demais, multado em 40% do salário. O que se comentava na época era que o Solich tinha a intenção de passar um “pente fino” no elenco, o que em temporadas anteriores já havia provocado a saída de alguns ídolos do clube.

Moacir no River, na capa da revista argentina El Grafico de 31 de maio de 1961.

Moacir no River, na capa da revista argentina El Grafico de 31 de maio de 1961.

No River, Moacir jogaria até o fim daquele ano e não conquistaria títulos, mas seria sempre lembrado por um gol de falta antológico, batido quase da linha de fundo, num clássico diante do Boca Juniors. Viraria ainda título de conto (“El Ocho era Moacyr”) do escritor Roberto Fontanarrosa. Seguiria para o Peñarol no ano seguinte, pelo qual conquistaria o Campeonato Uruguaio e jogaria a final da Libertadores, perdendo para o Santos. De lá, separou-se da esposa e dos dois filhos e rumou para o Equador, onde defenderia o Everest e o Barcelona de Guayaquil. Ainda passaria pelo futebol peruano, defendendo o Carlos A. Manucci, antes de retornar ao país anterior, no qual trabalharia como técnico. Durante décadas, perdeu contato com os familiares – o qual só foi retomar em 2008, quando veio ao Brasil para um reencontro emocionado com o filho mais novo.

A vida no Equador – onde novamente se casou, foi pai e reside até hoje – também não tem sido fácil, enfrentando graves dificuldades financeiras e problemas de saúde. Mas nunca esqueceu o Flamengo, o qual visitou em 2012: “Joguei em muitos times e países, mas o Flamengo é o único que eu gosto no mundo”, costuma repetir. Ou mais ainda: para ele, o Flamengo foi sua primeira experiência verdadeira de família.

Quarenta anos sem Jaime de Carvalho, criador da pioneira Charanga Rubro-Negra

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jaime de carvalho - com faixaHá um clima diferente no estádio das Laranjeiras nesta tarde de 11 de outubro de 1942 na qual o Fluminense recebe o Flamengo, que tem desafio decisivo para a conquista do título de campeão carioca do ano. Além da habitual multidão que acompanha a partida em seus trajes de domingo – e em se tratando do local, o rigor na vestimenta é um pouco mais nítido – e que aplaude e grita seus “uuuh” nos lances perigosos, há um grupo curioso. Estão uniformizados, vestindo camisas nas cores vermelha e preta, similares às do Flamengo, mas não são jogadores do clube. À frente, carregam um estandarte de proporções significativas no qual se lê “Avante Flamengo!”. E, sobretudo, fazem um barulho infernal com seus instrumentos de sopro e percussão.

A partida termina empatada em 1 a 1, resultado que em campo dá o título ao Flamengo (ainda há de se aguardar a definição de um recurso judicial do Botafogo). Os jogadores estouram champanhe e comemoram no gramado. Mas a curiosidade geral fica mesmo por conta daquela bandinha nunca antes vista num estádio de futebol do Rio de Janeiro – aliás, nenhuma outra antes havia sido. Nos cafés, nos bares, nos corsos, os desfiles de torcedores em automóveis pelas ruas comemorando títulos e grandes vitórias, até havia música eventualmente. Mas dentro do estádio, era a primeira vez. Num misto de intrigado e indignado com a desafinação do grupo, Ary Barroso, o popularíssimo locutor da Rádio Nacional, a maior do Brasil, proclamaria depois em seu programa: “Mas isso não é uma banda nem aqui nem no caixa-prego. Isso aí é uma charanga!”. Pronto: estava estreada, notada e batizada a Charanga Rubro-Negra. Fundada e comandada por Jaime de Carvalho, que viria a falecer em 4 de maio de 1976, há exatos 40 anos.

Conta a história que, em 1927, chegou ao Rio de Janeiro um jovem chamado Jaime Rodrigues de Carvalho, baiano de Salvador, nascido em 9 de dezembro de 1911 (tinha 15 para 16 anos, portanto). Aportara na cidade vindo em um “ita”, velho navio a vapor da Companhia Nacional de Navegação Costeira que fazia transporte de cargas e passageiros do norte ao sul do Brasil. E, num domingo, foi prontamente foi levado a um jogo do Fluminense, no estádio das Laranjeiras. Gostou do que viu e, já que não tinha então preferências clubísticas na capital da República, adotou o tricolor. Dias depois, resolveu então conhecer a requintada sede do clube, mas foi barrado. No mais elitista dos grandes clubes cariocas, não haveria mesmo hipótese de aquele garoto recém-chegado do nordeste transitar pelas mesmas áreas reservadas aos sócios aristocratas.

Cabisbaixo, sem saber muito bem o que fazer para passar o tempo até a hora de apanhar a condução para voltar ao subúrbio onde morava, num instinto atravessou a Rua Guanabara (hoje Pinheiro Machado). Do outro lado, quase em frente, havia outro estádio: o da Rua Paissandu, onde jogava e treinava o Flamengo. Encontrou o portão aberto e entrou. Simples assim. Debruçou-se sobre a mureta que separava o gramado da arquibancada de madeira e ali ficou, acompanhando o “apronto” (como se chamava o treino na época) dos jogadores. Sentiu-se em casa e foi ficando, ficando. Acompanhou toda a reta final da campanha épica por meio da qual um Flamengo que começara o torneio com elenco esfacelado ganharia o título, contra todas as possibilidades. Era o ano em que se criou a mística rubro-negra da “camisa que joga sozinha”. Aí não teve mais jeito, o garoto Jaime virou o mais vibrante flamenguista nas vitórias e o mais abatido nas derrotas.

A Charanga saúda o Flamengo bicampeão carioca em 1943, em foto da revista Esporte Ilustrado.

A Charanga saúda o Flamengo bicampeão carioca em 1943, em foto da revista Esporte Ilustrado.

Já crescido, tornou-se funcionário público e conheceu Laura, portuguesa de nascimento mas tão ferrenha rubro-negra quanto ele. Casaram-se e passaram a ir juntos aos jogos do Flamengo. Certo dia, na reta final daquele acirrado campeonato de 1942, sentiram a necessidade de um impulso mais vigoroso vindo das arquibancadas para empurrar o time. Uma empurrão extra, um sopro de vitalidade e um toque marcial para comandar o tropel vermelho e preto rumo às vitórias. Reuniram um grupo de amigos, cerca de 20 pessoas, alguns deles instrumentistas, e rumaram para o estádio. “O Flamengo precisava mais do que nunca de incentivo. A partida era em casa de inimigo. Então tivemos a ideia de fazer uma faixa que dizia: Avante, Flamengo! Foi o primeiro sucesso”, relembrou Dona Laura em depoimento. “Hoje você encontra em qualquer loja bandeiras prontas. Mas naquela época tínhamos que comprar peças inteiras de flanela, em preto e vermelho. O metro custava 500 réis”.

Torcedor uniformizado, bandeiras do clube, banda de música no estádio, nada disso existia no futebol carioca antes da Charanga de Jaime de Carvalho. O terceiro item, entretanto, enfrentou rejeição no começo: gente da crônica esportiva andou chiando, alegando que a música atrapalhava a concentração dos jogadores. A dos jogadores adversários, a bem da verdade: num jogo contra o São Cristóvão, em 1943, a banda se posicionou atrás do gol defendido pelo arqueiro cadete e mandou ver. O Flamengo goleou por 4 a 0 e o infeliz goleiro saiu de sua área para reclamar com o árbitro dos instrumentistas que tocavam sem parar. O clube alvo chegou a levar o protesto à Federação, pedindo a anulação da partida, mas presidente da entidade, Vargas Netto, não viu motivo para tamanha revolta: era manifestação espontânea das arquibancadas.

Outro jogo contra o São Cristóvão, este no estádio de Figueira de Melo pelo mesmo campeonato de 1943, não saiu da memória de Jaime enquanto viveu, mas por motivos bem mais tristes: logo aos 13 minutos, o Flamengo abriu o placar com Vevé, e na euforia da comemoração, parte das velhas arquibancadas de madeira não resistiu e veio abaixo, deixando mais de 200 feridos. “Acalmei muita gente, a Charanga parou de tocar, os músicos atendendo pessoas machucadas. Houve duas ou três mortes, muitos ferimentos. Jogo suspenso e depois concluído no campo do Vasco. Emoções, emoções fortes”, relembrou o fundador em depoimento à revista Grandes Clubes Brasileiros.

Nos anos 40 e 50, antes de partir para os estádios espalhados pela cidade, a concentração da Charanga se dava quase sempre na Galeria Cruzeiro, no Largo da Carioca, centro do Rio (onde hoje se localiza o Edifício Avenida Central). Ali perto havia o terminal de bondes popularmente conhecido como “Tabuleiro da Baiana”, de onde a turma partia para seu destino. O grupo inclusive pedia aos jornais que divulgassem os detalhes na véspera dos jogos para que mais torcedores e até instrumentistas o acompanhassem. Mas a preparação começava na noite anterior, na casa dos fundadores, com dona Laura botando o feijão no fogo para preparar a alimentação da tropa.

Embora a Charanga tenha sido considerada durante muito tempo a primeira torcida organizada do Brasil, há quem conteste. Alguns cruzmaltinos afirmam, sem conseguir evidenciar, que a Torcida Organizada do Vasco (TOV) surgira também em 1942, mas meses antes da Charanga, embora só tenha sido oficialmente instituída em 1944. Na capital paulista, os torcedores do São Paulo citam como precursor o Grêmio Sampaulino, criado em 1939 e pouco tempo depois rebatizado Torcida Uniformizada do São Paulo (Tusp) – ainda que para fazer parte dele fosse necessário ser também sócio do São Paulo. E mesmo na história do Flamengo há um movimento que precede todos esses em pelo menos uma década: a Ala Flamenga, criada em 1927 por um grupo de 21 estudantes (curiosamente, em sua maioria mulheres) do colégio Atheneu Luso Carioca.

Jaime de Carvalho comanda a Charanga em foto de 1953 publicada na revista Careta.

De bandeira na mão, Jaime de Carvalho comanda a Charanga em foto de 1953 publicada na revista Careta.

Mas o pioneirismo de Jaime de Carvalho – e de Dona Laura, seu braço direito – é reconhecido até pelos rivais: o próprio Vasco chegou a homenageá-lo com o título de Chefe dos Chefes de Torcida, em cerimônia oficial e festiva em São Januário. Depois dele é que viriam outros populares comandantes da massa no futebol do Rio (como a vascaína Dulce Rosalina, o tricolor Paulista e o botafoguense Tarzã). As torcidas dos outros clubes, que vieram depois, também se beneficiaram do reconhecimento do meio do futebol ao líder da Charanga: foi ele quem comandou as negociações para que algumas salas do Maracanã fossem postas à disposição de todas elas para que guardassem suas bandeiras e instrumentos musicais, e que incluíam ainda uma pequena oficina, para reparos dos materiais. “Chego cedo porque preciso varrer a sala, tirar o pó dos troféus, sacudir bandeiras, pendurar faixas nas grades da arquibancada, preparar os instrumentos. Só depois disso tudo, vou sentar na arquibancada e esperar o jogo”, assim descrevia Dona Laura, líder do grupo após a morte do marido e também já falecida (em outubro de 2009), sua rotina no antigo maior estádio do mundo.

Além de fazer história no Flamengo, a Charanga também apoiou a Seleção Brasileira por várias décadas. Começou na Copa Rio Branco de 1947, conquistada pelo escrete contra os uruguaios após um empate no Pacaembu e uma vitória em São Januário. Na véspera desta segunda partida, Jaime de Carvalho chegou a divulgar pelos jornais as orientações para a torcida brasileira quanto aos cânticos e à resposta do público aos toques da banda. Mas o momento de consagração veio na partida contra a Espanha, pela Copa do Mundo de 1950, já no Maracanã. Foi a Charanga quem puxou “Touradas de Madri”, marchinha do compositor Braguinha entoada a plenos pulmões pelas quase 200 mil pessoas presentes ao estádio durante a goleada brasileira por 6 a 1, em um dos momentos mais memoráveis e uma das vitórias mais avassaladoras do Brasil em Copas do Mundo. Daí em diante, Jaime de Carvalho também viajaria para os Mundiais de 1954, 1962 e 1974 (além de Eliminatórias e Campeonatos Sul-Americanos) para comandar a torcida brasileira.

O repertório foi incorporando marchinhas, temas carnavalescos, hinos, e até standards do jazz conforme músicos mais novos iam entrando. E a torcida também virou, ela própria, música: a marchinha “Charanga do Flamengo”, de Felisberto e Fernando Martins. Foi ainda citada no popularíssimo “Samba Rubro-Negro”, de Wilson Batista, aquele que, depois de dizer “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã”, também decretava: “Pode chover, pode o sol me queimar / Eu vou pra ver a Charanga do Jaime tocar”. E a Charanga tocava sem parar um instante. Era um dos preceitos básicos, apoiar até o fim, em qualquer circunstância. O outro era que seus acompanhantes jamais poderiam proferir palavras ou expressões consideradas de baixo calão a quem quer que fosse, juiz, adversário, torcedor rival, treinador ou jogador do clube.

Jaime de Carvalho, entre a bandeira rubro-negra e o arranjo de flores, na festa de entrega das faixas do time tricampeão carioca. Maracanã, abril de 1956. (Foto: Acervo Última Hora)

Em meados dos anos 60, o estresse dos jogos fez com que Jaime começasse a pagar pela dedicação com a própria saúde, sofrendo com quadro de pressão alta e diabetes. Se retirou por um tempo, passando o comando a Dona Laura e ao então fiel escudeiro Ernesto Escovino, na mesma época em que começavam a surgir novas torcidas rubro-negras, oriundas de dissidências da Charanga. Recebeu diversas homenagens e títulos de honra no início da década seguinte, quando retornou às arquibancadas. Mas, acometido por um câncer, foi internado no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto teve forças, enviava quase diariamente mensagens aos torcedores pelo jornais com lemas do clube, como “O Flamengo ensina a amar o Brasil sobre todas as coisas”, ou “Onde encontrares um flamengo, encontrarás um amigo”. Jaime faleceu em 4 de maio de 1976 – ano particularmente doloroso para o clube em termos de perdas humanas – e foi sepultado vestindo o Manto.

Ofuscada pelos novos grupos de torcedores, de diferentes filosofias, a Charanga caiu no ostracismo pelo fim dos anos 1980, participando apenas de eventos na sede da Gávea, até ser resgatada pelo clube em 2008, um ano antes da morte de Dona Laura. Seu legado, porém, está em toda bandinha presente em qualquer canto de estádio do Brasil, que deve não só o nome como sua existência ao grupo de Jaime de Carvalho. E em todo rubro-negro (ou torcedor de qualquer clube) que sai às ruas com a camisa de seu time em dia de jogo ou não. Com sua vibração alegre, perene e furiosa, a Charanga fez história no futebol brasileiro.

Os 60 anos do segundo tricampeonato carioca rubro-negro em dez histórias

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O time que enfrentou o Vasco em janeiro de 1956 pelo returno do campeonato de 1955, o do tri. Em pé: Pavão, Chamorro, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados:

O time que enfrentou o Vasco em janeiro de 1956 pelo returno do campeonato de 1955, o do tri. Em pé: Pavão, Chamorro, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Dida e Zagallo.

Há exatos 60 anos o Flamengo derrotava o America por 4 a 1 no Maracanã, na terceira partida da melhor de três decisiva do interminável Campeonato Carioca de 1955, que atravessou os primeiros meses do ano seguinte. Com quatro gols do garoto Dida, escalado de surpresa na decisão, o time dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich enfim colocava no peito, após longa maratona, a faixa de tricampeão. A conquista épica daqueles três campeonatos, hoje pouco lembrados, mas que deixaram marcas profundas no futebol rubro-negro, carioca e até brasileiro, será relembrada aqui em detalhes, a partir de dez histórias fundamentais para entender o que o feito representou e ainda representa para o clube.

1. O presidente Gilberto Cardoso

gilberto cardosoPoucos dirigentes viveram tão intensamente o Flamengo quanto Gilberto Cardoso. Mas só ele morreu pelo clube. Médico de profissão, viúvo, um filho pequeno (que décadas depois também seria presidente rubro-negro), deixou tudo de lado para ser Flamengo honorário. Eleito no início de 1951, encontrou o clube em grave situação financeira e com o futebol desmoralizado: havia acabado de perder Zizinho para o Bangu e terminado o Campeonato Carioca do ano anterior na sétima colocação. Em pouco tempo, recobrou o ânimo rubro-negro em todos os aspectos.

Durante sua gestão, na qual demonstrava uma dedicação ímpar a qualquer atleta rubro-negro de qualquer modalidade, o Fla viveu uma Era de Ouro. Além do tricampeonato carioca no futebol, cuja história será contada aqui, o clube comemorou um histórico decacampeonato no basquete masculino com o time dirigido pelo lendário Togo Renan Soares, o Kanela, no qual despontavam gênios como Algodão e Guguta, e que seria base do primeiro título mundial da Seleção Brasileira, em 1959. Foi ainda hegemônico no atletismo carioca, com nomes como José Telles da Conceição, medalha de bronze no salto em altura nos Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952.

E o crescimento não era observado apenas dentro dos gramados, quadras, piscinas, pistas e tatames nos quais o clube competia. O Flamengo também prosperava no setor social. Gilberto também teve a honra de inaugurar, em novembro de 1953, a nova sede rubro-negra, composta por três edifícios de 22 andares na Avenida Ruy Barbosa, no Morro da Viúva, bem em frente à enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar, no limite entre as praias do Flamengo e de Botafogo.

Tamanha dedicação, no entanto, cobrou seu preço: em 25 de novembro de 1955, sofreu um infarto dentro do ginásio do Maracanãzinho logo após a cesta de Guguta, que daria a vitória ao Flamengo no último segundo sobre o Sírio Libanês, numa das partidas da série final do Carioca de basquete. Saiu dirigindo do ginásio (que agora leva seu nome) até o pronto socorro mais próximo, onde não resistiu a outro ataque fulminante. Morreu ao lado do Padre Góes, a quem conheceremos mais adiante, e de Dom Hélder Câmara, outro religioso rubro-negro.

Sua morte chocou o clube e o esporte do Rio de Janeiro. Em sua homenagem, o time de futebol passou a usar pela primeira vez calções pretos, em sinal de luto. E o tricampeonato carioca, conquistado dali a pouco mais de quatro meses, foi a ele dedicado. Um grupo de torcedores, inclusive, saiu a pé do Maracanã, invadiu o cemitério São João Batista e enfrentou o vigia armado para acender velas e colocar uma faixa em seu túmulo. Mas a homenagem mais duradoura está até hoje na sede da Gávea: Gilberto Cardoso é o único ex-presidente do clube com direito a estátua, logo na entrada social.

O elenco posa em homenagem ao falecido presidente com a mensagem "Gilberto Cardoso: Saudades"

O elenco posa na Gávea em homenagem ao falecido presidente com a mensagem “Gilberto Cardoso: Saudades”.

2. O comandante Fleitas Solich

Escolhido por Gilberto Cardoso para substituir Flávio Costa – de saída para o Vasco – no comando do Flamengo, o paraguaio Fleitas Solich tinha credenciais que chamavam a atenção. Naquele mês de abril de 1953, havia acabado de fazer da seleção de seu país a campeã sul-americana, derrotando duas vezes o Brasil de Aymoré Moreira. Ao chegar à Gávea, recebeu o time do interino Jayme de Almeida (ex-lateral, capitão e nome histórico rubro-negro) e manteve praticamente intacta a base deixada por Flávio. Mas aos poucos foi implementando seu estilo de jogo tanto do ponto de vista tático quanto do de atitude em campo – os quais detalharemos no próximo tópico.

Solich e o auxiliar técnico Jayme de Almeida

Fleitas Solich e o auxiliar técnico Jayme de Almeida.

Para zelar pelo bom funcionamento deste esquema, entretanto, o treinador era extremamente rígido no que dizia respeito à disciplina e às condições atléticas do elenco. Não tolerava bebida e cigarro em hipótese alguma, o que o motivou a afastar alguns jogadores ao longo da campanha do tri – o meia Rubens, como veremos adiante, foi o caso mais dramático. Além disso, aos poucos foi reduzindo na equipe o espaço aos veteranos, sem tanta obediência tática e disposição física para cumprir o que o esquema de jogo exigia.

Desse modo, sobressaía uma outra grande característica de Solich: o talento fora do comum para lapidar jovens craques, num estilo semelhante ao do escocês Matt Busby, treinador que promoveu fornadas de garotos talentosos no Manchester United dos anos 1950 e 1960 (os apelidados Busby Babes). Durante toda a sua primeira passagem pela Gávea, entre 1953 e 1959, bem como nas duas posteriores (entre 1960 a 1962 e em 1971), Solich procurou sempre lançar juvenis – e quase sempre foi muito bem sucedido. Neste time do tri, além de dar sequência e confiança a jovens que já integravam o elenco (como Zagallo), promoveu a estreia na equipe de nomes como Dida, Paulinho e Babá. Mais adiante, quando o Flamengo negociou quase dois ataques inteiros, uma nova leva de talentos (Moacir, Henrique, Joubert, Luís Carlos) subiu pelas mãos do Feiticeiro. Sem falar em Carlinhos, Gerson e Germano, em sua segunda passagem. E em Zico, na terceira e última.

3. A revolução tática

Outro ponto do trabalho de Solich que deixaria marcas indeléveis não só no Flamengo, mas no futebol brasileiro como um todo, foi a série de novidades em termos táticos e de concepção de jogo. Num tempo em que imperavam a “diagonal” de Flávio Costa e a “retranca” de Zezé Moreira, na verdade apenas alterações cosméticas no velho esquema WM difundido pelo mundo pouco antes da Segunda Guerra, o treinador do Fla mostrou um novo estilo de futebol, tão diferente que ainda levaria alguns anos para ser assimilado no país. De cara, inovou no posicionamento dos jogadores, como contou o jornalista Luiz Mendes (ele mesmo, o “comentarista da palavra fácil”), escrevendo na época para a revista Esporte Ilustrado:

“A introdução do jogador Servílio no posto que Jadir deixou vago e o recuo de Marinho para beque de extrema deu consistência nova e mais segura à defesa do clube da Gávea. Aliás, o médio direito do Flamengo precisa ser meio zagueiro. Isso porque o sistema defensivo do clube rubro-negro coloca quatro homens atrás, formando uma primeira linha de defesa, dois no meio – Dequinha e Rubens – um pela esquerda e outro pela direita – ficando na frente quatro homens que sempre recebem a cooperação dos dois que ficam entre eles e os quatro da retaguarda.”

Ou seja, era um autêntico 4-2-4, o esquema que a Seleção Brasileira apresentou ao mundo na Copa do Mundo de 1958 e que, cinco anos antes, o Flamengo apresentava ao futebol carioca e brasileiro. E era tão revolucionário que desafiava até mesmo a maneira como eram escritas as escalações nos jornais, habitualmente no velho 2-3-5. Tanto que o que ficou eternizado como a “linha média” daquela equipe – Jadir (ou, na ocasião, ainda Servílio), Dequinha e Jordan – não se colocava em campo como um trio de meio-campo de fato. Tomando-se como base os titulares de 1953, a equipe tinha mais ou menos a configuração abaixo:

flamengo 1953

Outra transformação pela qual o Flamengo passou com Solich foi no estilo de jogo. Com o paraguaio no comando, o Rubro-Negro passou a exibir um futebol de forte senso coletivo, objetivo, aguerrido, dinâmico e muito veloz. Ou de grande intensidade, para usar um termo hoje bastante em voga. O que contrastava enormemente com o futebol mais lento, cadenciado e que privilegiava o individualismo do virtuose comumente adotado então, especialmente no Rio.

Como se não bastasse o pacote de novidades, Solich ainda tinha outra arma, que ganhou várias partidas para o time num tempo em que as substituições de jogadores eram proibidas em jogos oficiais: sua astúcia como estrategista, que lhe valeu o apelido de Feiticeiro. Não foram poucas as ocasiões em que o técnico mudou totalmente o panorama da equipe e surpreendeu os rivais simplesmente mudando jogadores de posição e de função. Às vezes, um ponta podia virar centroavante, um centroavante virar meia-armador e um meia-armador virar ponta para conduzir o Flamengo a viradas eletrizantes.

4. A campanha

Para chegar ao tri, o Flamengo precisou disputar nada menos que 84 partidas. Somou 62 vitórias, 11 empates e 11 derrotas (sete delas na acidentada campanha do terceiro título). Marcou 228 gols e sofreu 95. Teve o melhor ataque da competição em 1953 e 1955, bem como a melhor defesa em 1954. O que explica em parte números tão hiperbólicos é a própria fórmula do Campeonato Carioca, que curiosamente vigorou apenas naqueles três anos: os 12 times (Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, America, Bangu, Olaria, Madureira, São Cristóvão, Bonsucesso, Portuguesa e Canto do Rio) jogavam uma primeira etapa em pontos corridos, em turno e returno. Ao final das 22 rodadas, o líder se classificava para a decisão do campeonato e os seis melhores colocados disputavam um turno extra, em jogos só de ida, que apontaria o outro finalista.

Nos dois primeiros anos, no entanto, não houve necessidade de final, já que o Flamengo cumpriu campanha impecável e venceu tanto a etapa em pontos corridos quanto o terceiro turno. Outro ponto a ser destacado é que foi em meio a essas duas campanhas, aliás, que o clube estabeleceu seu recorde histórico de invencibilidade no Campeonato Carioca: entre a vitória sobre o Canto do Rio por 1 a 0 em Caio Martins no dia 13 de setembro de 1953 e o triunfo sobre o Botafogo por 3 a 2 no Maracanã em 12 de dezembro de 1954, o Rubro-Negro ficou nada menos que 34 partidas sem ser derrotado no torneio, sendo 28 vitórias e apenas seis empates. Nem mesmo nas sequências posteriores que levaram aos títulos estaduais invictos em 1979, 1996 e 2011 o time atravessou uma série semelhante.

Já em 1955, embora tenha vencido apertado a etapa inicial, o time rubro-negro deu sinais de desgaste, sofreu com desfalques por lesão e acabou ficando para trás no turno extra, mas já tinha garantido vaga na melhor de três decisiva com o America. Por isso, precisou de três partidas a mais em relação às conquistas anteriores.

5. As peças do tabuleiro

Montagem com os principais nomes do elenco e o técnico. Sempre da esquerda para a direita, temos na primeira fileira: Benítez, Evaristo, Tomires, Índio e Servílio; na fileira do meio: Fleitas Solich, Esquerdinha, Pavão, Dequinha e Jadir; na e fileira de baixo: Jordan, Paulinho, Garcia, Rubens e Joel.

Montagem com os principais nomes do elenco e o técnico. Sempre da esquerda para a direita, temos na primeira fileira: Benítez, Evaristo, Tomires, Índio e Servílio; na fileira do meio: Fleitas Solich, Esquerdinha, Pavão, Dequinha e Jadir; e na fileira de baixo: Jordan, Paulinho, Garcia, Rubens e Joel.

Na campanha de 1953, Fleitas Solich manteve um time base que quase não variou a partir da metade do primeiro turno, até para que a equipe assimilasse as várias mudanças no posicionamento e no padrão de jogo. Assim, oito dos 11 titulares atuaram em pelo menos 23 dos 27 jogos. Já nos dois anos seguintes, tanto por motivos táticos, quanto de lesão e até disciplinares, o treinador girou bem mais o elenco.

O dono da camisa 1 durante a maior parte da campanha foi o paraguaio Garcia, de reflexos excepcionais, velho conhecido de Solich da seleção de seu país e parte do elenco rubro-negro desde 1949. Naquele ano, com atuação magistral de Garcia sob as traves e o Feiticeiro no banco, os guaranis chegaram a surpreender a Seleção Brasileira, vencendo por 2 a 1 em São Januário pelo Campeonato Sul-Americano (atual Copa América). Seu principal rival na posição era outro estrangeiro, o argentino Chamorro, contratado no final de 1953 junto ao Independiente Santa Fé colombiano. Os jovens Aníbal e Ari, vindos respectivamente de Olaria e Bonsucesso, também atuaram.

Na defesa, pelo lado direito, o veterano Marinho, ex-Botafogo, começou como titular, mas na segunda temporada deu lugar ao mais jovem e vigoroso Tomires. Na zaga central, o xerife Pavão foi o dono da posição nos três anos. Ao seu lado, na quarta zaga (posição introduzida com a alteração do esquema por Solich), Servílio foi o titular na primeira conquista. Alto, bom no jogo aéreo, mas mais lento, acabou tendo a posição tomada de volta no ano seguinte por Jadir, mais baixo, mas de boa impulsão e mais ágil. Na lateral-esquerda despontava Jordan, que se tornaria o quarto jogador a atuar mais vezes com a camisa rubro-negra (609 partidas). Jogador mais defensivo, que raramente ultrapassava o meio-campo, era no entanto um marcador seguro, discreto e extremamente leal, como viria a atestar Garrincha, com quem travaria grandes embates pelo setor.

No meio, Dequinha era o centromédio, atual volante, cujas características trataremos no próximo tópico. Ele e Rubens, que também merece capítulo a parte, formavam exuberante dupla nos dois primeiros títulos. A partir da terceira temporada, com o ocaso do Doutor Rúbis, o jovem Paulinho ganharia a posição, com outro garoto, Duca, também atuando às vezes, até em partidas decisivas. Na frente, como bem lembra o escritor Ruy Castro em seu livro O Vermelho e o Negro, os jovens torcedores rubro-negros tinham de ter vários reservas para seus times de botão do Flamengo, de modo a acomodar o elenco inteiro, tamanhas eram as possibilidades de escalação do ataque.

O time-base do título de 1953 posa antes da goleada de 4 a 1 sobre o Vasco que valeu a taça antecipada. Em pé: Garcia, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha. (Foto: Esporte Ilustrado)

O time-base do título de 1953 posa antes da goleada de 4 a 1 sobre o Vasco que valeu a taça antecipada. Em pé: Garcia, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Índio, Benítez e Esquerdinha. (Foto: Esporte Ilustrado)

Pela extrema direita jogava Joel, ponta autêntico, rápido, driblador, e que também sabia marcar gols (23 ao todo na campanha) descendo pela diagonal. Na reta final do torneio de 1954, fraturou a perna em um jogo contra o Vasco e foi substituído pelo garoto Paulinho, já citado no parágrafo anterior. Mas no ano seguinte já estava de volta. O próprio Paulinho, por sua vez, podia atuar na ponta direita, na meia direita, no centro do ataque e até na ponta esquerda, numa eventualidade. E também fazia muitos gols: foi o artilheiro não só do time mas do campeonato de 1955, com 23 bolas nas redes adversárias. Já o centroavante titular nas três temporadas foi Índio, atacante raçudo, excelente cabeceador, mas também muito inteligente: jogava muitas vezes sem a bola, saindo da área para tabelar e puxar a marcação, abrindo espaço para a infiltração do paraguaio Benítez, ponta-de-lança de estilo rompedor, ex-Boca Juniors e também conhecido de Solich.

Outra peça extremamente valiosa do elenco, também pela inteligência futebolística fora do comum e pela facilidade de atuar de diversas maneiras em praticamente todas as posições do ataque (embora fosse primordialmente ponta-de-lança) era Evaristo. Podia jogar tanto como homem de área, goleador – é até hoje o maior artilheiro da Seleção Brasileira em uma mesma partida, com cinco gols contra a Colômbia em 1957 – como também mais recuado, como um meia-armador, criando jogadas, abrindo espaços e atraindo a marcação. Tanto que deixaria a Gávea para atuar pelo Barcelona, para fazer na Catalunha o que o argentino Alfredo Di Stéfano executava com perfeição no rival Real Madrid. O que abriu espaço para outro jovem que já vinha despontando na metade do campeonato de 1954 e de quem falaremos mais em outro tópico: o ponta-de-lança Dida.

Por fim, a camisa 11 teve em Esquerdinha seu dono na primeira temporada. Capitão do primeiro título e jogador mais velho do elenco, o ponta acabou perdendo a posição para um jovem lançado por Solich de estilo um pouco menos agressivo, mas também importante taticamente: Zagallo. Além dele, outro garoto, o miúdo Babá (1,54m de altura) costumava ser pinçado dos juvenis.

6. O capitão Dequinha

Dequinha, o capitão rubro-negro, cumprimenta o vascaíno Pinga na hora do cara-ou-coroa no Maracanã.

Dequinha, o capitão rubro-negro, cumprimenta o vascaíno Pinga na hora do cara-ou-coroa no Maracanã.

A imagem de Dequinha entrando em campo, com a bola debaixo do braço, também é emblemática daquele time. Tímido e calado fora de campo, o centromédio potiguar era um líder silencioso dentro das quatro linhas. Ao herdar a braçadeira do veterano Esquerdinha, tornou-se o capitão rubro-negro nos títulos de 1954 e 1955. Embora contasse com toda a combatividade que a posição exigia, também era sutil no trato com a bola. Era um volante clássico, no estilo que consagraria Carlinhos, o Violino (que confessadamente tinha Dequinha como modelo), e mais tarde Andrade.

Dequinha desarmava o adversário sem dar um pontapé e saía jogando, carimbando todas as jogadas de transição da equipe da defesa para o ataque. Distribuía o jogo com precisão milimétrica nos passes e todo o dinamismo pregado pelo técnico Fleitas Solich. E ainda tinha gosto por jogadas de efeito: era um especialista em cobrir os jogadores adversários com chapéus que levantavam a torcida rubro-negra.

Sua excelência na posição o levou à Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, mas lá o técnico Zezé Moreira – também treinador do Fluminense – acabou preterindo não só o centromédio como os outros dois rubro-negros que convocara (o meia Rubens e o centroavante Índio). No lugar de Dequinha, jogou Brandãozinho, da Portuguesa, mais experiente e forte fisicamente, embora sem a mesma exuberância técnica. Mas no Flamengo, o volante era intocável: foi o único jogador a atuar em TODAS as 84 partidas da campanha do tricampeonato.

7. O ídolo Rubens

Em 1954, após a vitória sobre o Vasco, Rubens recebe o abraço do técnico Fleitas Solich em breve momento de trégua na conflituosa relação. (Foto: Esporte Ilustrado)

Em 1954, após a vitória sobre o Vasco, Rubens recebe o abraço do técnico Fleitas Solich em breve momento de trégua na conflituosa relação. (Foto: Esporte Ilustrado)

Na dupla histórica de meio-campo dos times de 1953 e 1954, se Dequinha era a classe a serviço do conjunto, seu colega da meia-direita, o paulista Rubens Josué da Costa, era o artista. Sobre o Doutor Rúbis – apelido que recebeu do personagem humorístico Peladinho, do programa Balança Mas Não Cai, da Rádio Nacional – dizia-se que ele carregava a bola como que presa ao pé direito por um barbante, e que ela a ele obedecia cegamente. Em suas passadas rumo ao gol adversário, exibia um futebol filigranado em meio ao gingado de bamba de morro.

Perito nos dribles curtos, nos passes diferenciados e nas cobranças de falta com curvas improváveis (como a do gol que marcou contra o Vasco na tarde de estreia de Dida, em 1954), o meia hoje pouco lembrado foi o maior ídolo da torcida rubro-negra entre 1951 – ano em que chegou ao clube e logo em sua estreia, também diante dos cruzmaltinos, comandou a quebra do jejum de seis anos sem vitórias sobre o rival – e 1954. Não por acaso, foi capa da primeira edição da histórica revista Manchete Esportiva, criada por Adolfo Bloch. Na foto, vestido de toga e capelo, Rubens matava uma bola no peito, sobre a legenda: “Bacharel de ‘letras’ e ‘salames’ (dribles)“.

A mesma relação de intimidade que tinha com a bola, porém, Rubens também tinha com a bebida e o fumo. E, previsivelmente, acabou caindo em desgraça com Fleitas Solich. Depois de flagrado chegando embriagado e carregado por torcedores ao hotel em que a equipe estava concentrada para um amistoso no Paraná, entrou em atrito com o treinador – que além do horror aos vícios, também não via com bons olhos o jogo individualista do meia – e acabou progressivamente afastado do time, fazendo apenas seis partidas na campanha do terceiro título. Foi o ocaso de um ídolo.

8. A revelação Dida

A cantora rubro-negra Ângela Maria ganha um beijo do atacante Dida na festa de entrega das faixas do tricampeonato.

A cantora rubro-negra Ângela Maria ganha um beijo do atacante Dida na festa de entrega das faixas do tricampeonato.

Embora tenha se tornado praticamente um ícone do tricampeonato, pelos quatro gols que marcou nos 4 a 1 sobre o America na decisão de 1955, Dida não chegou a ser titular em nenhuma das campanhas. O que não diminui, porém, seu impacto ou seu peso naquela conquista. Na verdade, já em seu primeiro jogo pelo time profissional o garoto alagoano impressionou. Era nada menos que um Flamengo x Vasco, pelo turno do campeonato de 1954. Sem poder contar com Benítez, Fleitas Solich puxou Dida dos juvenis. E não só: junto com ele, veio também o ponta-esquerda Babá, que jogaria no lugar de Zagallo. No entendimento correto do treinador, a presença de um ajudaria a tranquilizar e familiarizar o outro. Dida não marcou na vitória por 2 a 1, mas teve atuação monstruosa, merecedora de comentário antológico de Luiz Mendes na Esporte Ilustrado, mesmo tendo de enfrentar o duro zagueiro vascaíno Eli do Amparo. Escreveu o jornalista:

“Depois, já no segundo tempo, a verde ala esquerda formada pelos dois meninos que vieram do norte não teve mais influência de nenhum nervosismo. (…) Apenas Eli continuou caçando Dida, e Dida, como se fosse desconhecedor do nome, do prestígio e até da condição de scratchman (jogador de seleção) do médio do Vasco, prosseguiu a passar por Eli como se Eli não existisse”.

Naquele torneio, no entanto, o garoto de drible abusado, talento na criação de jogadas e vocação de goleador faria apenas mais duas partidas, marcando contra a Portuguesa o primeiro de seus 264 gols pelo clube. Em 1955, já entraria em campo 16 vezes, revezando na posição com Evaristo, e marcando espantosos 15 gols. Quatro deles, como já dissemos, na final histórica diante do America. Dida, aliás, não vinha jogando naquela série final. Sua última partida havia sido contra o Bangu, na segunda rodada do turno extra. Na véspera do terceiro jogo contra os rubros, Fleitas Solich decidira barrar Paulinho, artilheiro do campeonato, em circunstâncias até hoje não muito claras – houve quem falasse em lesão e quem afirmasse que o atacante teria sido flagrado bebendo pelo treinador. Dida entrou no ataque ao lado de Evaristo, deslocado para a função de centroavante, e de Duca, outro ex-companheiro de juvenis, escalado na meia-direita. E o resto é história.

9. O homem da fé: Padre Góes

padre góesA relação do Flamengo com seu santo protetor São Judas Tadeu é outra herança deste tricampeonato, e veio por meio de uma figura que virou lenda no clube. Tudo começou quando, então há nove anos sem conquistar o título carioca, o elenco rubro-negro recebeu na Gávea a visita do Padre Góes, da Paróquia do santo das causas impossíveis, sediada no Cosme Velho. Torcedor do clube, o religioso rezou uma missa e pediu fé, antes de também solicitar aos jogadores que fossem a sua igreja e acendessem uma vela com devoção. Aí, segundo ele, o título viria. “Em nome de São Judas Tadeu, eu garanto que o Flamengo vai ser campeão”, afirmou diante dos atletas.

Os jogadores foram, acenderam uma vela, rezaram, e o título de 1953 veio – o que provocou a ira dos torcedores e dirigentes do Fluminense que também frequentavam a Paróquia, próxima à sede do clube. Os tricolores protestaram contra o “padre rubro-negro”, alegando ser um absurdo envolver o santo em disputas futebolísticas. Padre Góes não se fez de rogado: “Pois agora o Flamengo será bicampeão”, decretou.

Os jogadores do Flamengo na Igreja de São Judas Tadeu, em missa em agradecimento ao bicampeonato 1953/54. Na foto do acervo da Última Hora podem ser vistos, da esquerda para a direita, Evaristo (encoberto), Zagallo, Rubens, Dida, Paulinho, Babá e Servílio.

Os jogadores do Flamengo na Igreja de São Judas Tadeu, em missa em agradecimento ao bicampeonato 1953/54. Na foto do acervo da Última Hora podem ser vistos, da esquerda para a direita, Evaristo (encoberto), Zagallo, Rubens, Dida, Paulinho, Babá e Servílio.

E foi. Para mais revolta dos fieis tricolores, que enviaram um abaixoassinado ao Cardeal Dom Jaime Câmara exigindo “providências” em relação ao padre. Inflexível diante do esperneio, Padre Góes manteve a posição: “Pois agora, em nome de São Judas Tadeu, eu garanto o tricampeonato ao Flamengo”. Fato consumado, o religioso chegou a posar, de batina e tudo, com o time na fotografia oficial e receber sua faixa de tricampeão. E o Flamengo ganhou seu santo de devoção.

10. Um time que virou samba(s)

Wilson Batista (em pé, ao centro), em foto de 1954 (Crédito: Acervo Última Hora)

Wilson Batista (em pé, ao centro), em foto de 1954 (Crédito: Acervo Última Hora)

“Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá
Vai haver mais um baile no Maracanã
O Mais Querido tem Rubens, Dequinha e Pavão
Eu já rezei pra São Jorge
Pro Mengo ser campeão”

Praticamente todo torcedor do Flamengo já ouviu este “Samba Rubro-Negro” – de Wilson Batista, um dos maiores nomes da música popular brasileira de seu tempo (e de todos os tempos) e rubro-negro ferrenho, e Jorge de Castro – em suas várias gravações. A maioria talvez o conheça nas versões atualizadas de João Nogueira (1979) e seu filho Diogo (2007). Na primeira, o Mais Querido tem Zico, Adílio e (Cláudio) Adão. Na segunda, tem Souza, Obina e Juan. Mas a homenagem da letra original, na gravação lançada em 1955, é feita a três ídolos do primeiro tri do Maracanã: o Doutor Rúbis, Dequinha e o zagueiro central Pavão. A canção se tornou emblemática daquele time, mas não foi a única inspirada por aquele Rolo Compressor rubro-negro.

Houve ainda, entre tantas outras, a “Oração de um Rubro-Negro”, composta por Billy Blanco e lançada em interpretação de Gilberto Alves também em 1955. A letra, que também citava três nomes do elenco, trazia uma ironia ao se referir ao vigoroso e viril zagueiro Pavão como “delicado”:

“Deus proteja noite e dia o Mengo
E o conserve campeão
Feche o arco do Garcia
Proteja o nosso Dequinha
E o delicado Pavão

Me perdoe a exigência
Porém, eu sou Flamengo de fato
Prenda o passe da moçada
Para mim não quero nada
Pro Mengo, tricampeonato”

Finalmente, anos depois, no começo de 1979, logo após o título invicto do Campeonato Estadual Especial, o cantor e compositor baiano Moraes Moreira lançou em compacto a marchinha “Vitorioso Flamengo”. Esta dizia em um de seus primeiros versos: “Esse Flamengo de agora faz lembrar aquele do tri”. Moraes, autor da canção e nascido em 1947, certamente se referia a este tri, o de 1953/54/55, que o fez rubro-negro fanático no interior da Bahia, onde nasceu e foi criado. E é interessante notar que, se aquele Flamengo de 1979, com Zico, Junior, Adílio e outros craques eternos da história do clube e que dali a dois anos chegaria ao topo do mundo, virou depois a grande referência, o parâmetro de grande time do Flamengo, lá naquele fim dos anos 70 era o time do segundo tri o que servia de modelo. Os ídolos da era de ouro anterior (Dida, Rubens, Dequinha, Joel, Evaristo etc) é que inspiravam os novos craques (Zico, Junior, Adilio etc).

Epílogo: o legado de um tricampeão

O time rubro-negro no álbum Ídolos do Futebol Brasileiro, Editora Vecchi, 1954.

O time rubro-negro no álbum Ídolos do Futebol Brasileiro, Editora Vecchi, 1954.

O tricampeonato rubro-negro de 1953/54/55 foi o primeiro de um clube na Era Maracanã. Por três anos e meio, o Flamengo reinou em um futebol carioca repleto de craques históricos. Basta citar os grandes nomes que figuravam nos rivais para se entender o peso daquelas conquistas. O Vasco tinha Barbosa, Paulinho de Almeida, Bellini, Sabará, Ademir de Menezes, Walter Marciano, Vavá e Pinga. O Fluminense contava com Castilho, Veludo, Pinheiro, Bigode, Telê e Didi. O Botafogo, por sua vez, tinha Garrincha, Nilton Santos, Danilo Alvim, Vinícius, Dino da Costa, Paulinho e Quarentinha. O America, vice em 1954 e 1955, alinhava Pompeia, Edson, Canário, João Carlos, Romeiro, Alarcón e o centroavante Leônidas “da Selva”. E o Bangu exibia Zizinho, Ernani, Zózimo, Calazans e Décio Esteves.

Neste contexto, Fleitas Solich colocou o Flamengo na vanguarda tática do futebol brasileiro. Além de lançar o esquema que seria posteriormente utilizado por Vicente Feola na Seleção campeã mundial na Suécia, o estilo de jogo rubro-negro já era sinônimo de futebol atualizado. Tanto que, em 1956, quando o Brasil treinado por Flávio Costa excursionou pela Europa, entre altos e baixos, o jornalista Milton Pinheiro, escreveu para a Última Hora, após a derrota por 4 a 2 do time canarinho para a Inglaterra em Wembley: “São lições que não se dispensam e que não devem ser esquecidas. (…) Os europeus jogam o futebol que vimos o Flamengo praticar. Jôgo rápido, objetivo e sem ‘carnaval’. A mudança terá que ser radical entre nós”.

Além disso, há outro dado, que não tem a ver necessariamente com o futebol, mas bastante com identidade num contexto social, e é bastante simbólico quando se analisa o elenco rubro-negro: a expressiva presença de atletas nordestinos (sem falar no paraense Esquerdinha, nortista). Praticamente todos os estados da região – que ouvia os jogos do Flamengo pelas ondas potentes da Rádio Nacional – estavam representados no plantel. Tomires, Dida e Zagallo eram alagoanos; Dequinha era potiguar; Babá, cearense; Duca, pernambucano; e Índio, paraibano. Todos estes titulares em algum momento. Possivelmente este grande contingente, aliado à imagem de “nordestinos que venceram na capital”, especialmente numa época de migração maciça para o Rio de Janeiro, foi também um fator substancial para a formação da grande torcida rubro-negra na região.

Por fim, vale lembrar que o neste período o clube viu surgir vários ídolos e alguns dos maiores jogadores de sua história. Em 1982, na enquete da revista Placar que apontou o Flamengo de todos os tempos (até ali), Garcia, Dequinha e Joel integraram a seleção final. Mesmo fora do time, Dida foi bem votado, enquanto Jadir, Rubens e Zagallo também foram lembrados. Quando a publicação repetiu a enquete, em 1994, Garcia perdeu a “titularidade” para Raul, mas Dequinha e Joel se mantiveram firmes. Além deles, Dida chegou perto, mas acabou novamente ficando de fora, por um voto. E mais tricampeões foram citados: Pavão, Jadir, Jordan, Rubens, Evaristo, Esquerdinha e Zagallo. Já o livro Os Dez Mais do Flamengo, do jornalista Roberto Sander, publicado em 2008, inclui nada menos que quatro jogadores daquela equipe: Dequinha, Rubens, Evaristo e Dida, também escolhidos por um júri. Além deles, Garcia e Joel foram outros lembrados.

flamengo 1955 - faixas

Adeus, Gaúcho, o comandante da artilharia aérea rubro-negra nos anos 90

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Gaúcho

“Oh, que beleza! Mais um golaço do Gaúcho de cabeça!”. Naquele início dos anos 90, bola aérea no ataque rubro-negro era gol quase sempre certo, graças em grande parte ao centroavante Luís Carlos Tóffoli, o Gaúcho, falecido nesta quinta-feira aos 52 anos, em São Paulo. Artilheiro irreverente, imbatível no jogo aéreo pela excelente impulsão e posicionamento perfeito, mas também raçudo, brigador e de chute forte, foi ídolo incondicional da torcida rubro-negra, que vibrava quando ele balançava as redes e se divertia com suas provocações aos rivais e comemorações inspiradas.

O INÍCIO

O jovem Gaúcho, aos 18 anos, no Fla em 1982.

O jovem Gaúcho, aos 18 anos, no Fla em 1982.

Muitos não sabem, mas Gaúcho – nascido em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, em 7 de março de 1964 – defendeu o Flamengo ainda nas categorias de base, descoberto no Goiânia pelo olheiro rubro-negro Gilson Aguiar, o Mineiro, e trazido para a Gávea em maio de 1982. Chegou como zagueiro, mas logo foi passado para o ataque, fazendo a função de ponta-direita e, posteriormente, centroavante. Nos juniores, formou uma linha atacante com Bebeto, Gilmar Popoca e o atacante Vinícius. Em agosto daquele ano, chegou a figurar numa reportagem da revista Placar sobre a busca pelo “novo Zico” nas categorias inferiores do clube. Além dele, apareciam na matéria os meias Gilmar Popoca, Élder, Wallace (filho de Silva, o Batuta, ídolo do Fla nos anos 60) e Adílson Heleno, o ponta Zinho, além dos atacantes Afrânio e China, que sumiriam na poeira.

Um pouco antes, em 6 de junho de 1982, havia feito sua estreia entre os profissionais, substituindo Lico numa vitória de 2 a 0 sobre a Desportiva, num amistoso em Cariacica. E apenas em outubro de 1984 voltaria a ter chance no time de cima, substituindo Edmar num empate em 1 a 1 com o Olaria na Rua Bariri pela Taça Rio. Assim, com pouco espaço no elenco, no começo de 1985 acabou envolvido em uma troca com o XV de Piracicaba, que levou o atacante e outras três promessas da base do Fla, além de cerca de Cr$ 65 milhões, para o interior paulista em troca do semidesconhecido lateral Carlúcio, que notoriamente não vingou na Gávea.

Depois de rodar por vários clubes brasileiros e até pelo Yomiuri (depois Verdy Kawasaki) num Japão pré-Zico, Gaúcho esteve para entrar para a história do Fla como carrasco. Em outubro de 1988, era o camisa 9 do Palmeiras num duelo contra o Rubro-Negro no Maracanã pelo segundo turno do Campeonato Brasileiro. Durante a partida, teve que ir para o gol substituindo Zetti, que havia fraturado a perna. Empatado em 1 a 1 nos 90 minutos, o jogo foi para os pênaltis, como previa o regulamento. E Gaúcho defendeu as cobranças de Aldair e Zinho, dando a vitória aos paulistas.

O MUNDO DÁ VOLTAS

gaúchoMas os caminhos da bola trataram de prover a devida reparação a essa história, e com folga. Preterido no Alviverde, quase foi parar no Fluminense, mas acabou acertando com o Flamengo, por empréstimo de um ano no valor de US$ 100 mil, em janeiro de 1990. Curiosamente, para o primeiro Fla irremediavelmente sem Zico, aposentado no fim do ano anterior. A estreia – ou melhor, reestreia – veio em 11 de fevereiro, contra a Cabofriense na Gávea. O Fla venceu por 3 a 1 e Gaúcho marcou o segundo gol. “Levando-se em conta o mau condicionamento físico, até que jogou bem, marcando um gol e sempre aparecendo na área”, avaliou o Jornal do Brasil. E depois do primeiro, desembestou a fazer gols, 14 ao todo naquele Estadual (para se ter uma ideia, os goleadores do campeão Botafogo foram o atacante Donizete e o lateral Paulo Roberto, com cinco cada). Se a campanha rubro-negra esteve bem longe de ser comemorada, na artilharia não houve discussão, graças também às grandes tabelinhas na área com o conterrâneo Renato Gaúcho, de quem se tornou grande amigo até o fim da vida.

Os primeiros canecos vestindo a camisa rubro-negra vieram em agosto, bem longe do Rio e do Brasil: no dia 6, o Fla retornou a Tóquio, o sagrado palco do título mundial interclubes, e levantou a Copa Sharp, arrasando o bom time espanhol da Real Sociedad por 7 a 0. Gaúcho fez três, Renato outros dois, Bujica e Bobô completaram a goleada. Já no dia 12, o time faturou a Copa Marlboro no piso sintético do Giants Stadium, em Nova Jersey (EUA), vencendo o Alianza Lima peruano por 1 a 0, gol do centroavante. Mais tarde, naquele primeiro ano como titular do Flamengo, o goleador contribuiria com cinco gols para a campanha do primeiro título da Copa do Brasil na história do clube, o que lhe valeria também a artilharia do torneio. Ao todo, na temporada, o camisa 9 balançou as redes expressivas 38 vezes.

O camisa 9 encara a defesa da Real Sociedad em Tóquio.

O camisa 9 encara a defesa da Real Sociedad em Tóquio.

1991, O ANO DA CONSAGRAÇÃO

Contratado em definitivo no fim de dezembro, Gaúcho não reeditaria em 1991, entretanto, a dupla com Renato, negociado com o Botafogo no começo daquele ano após extensas tratativas. Seria agora a principal figura do ataque rubro-negro, rodeado pelos talentosos garotos campeões da Copa São Paulo no ano anterior e que se juntariam ao elenco ao longo do ano – os apelidados Gaúcho’s Boys. Se pelo Brasileiro atuaria apenas dez vezes, marcando quatro gols, o desempenho na Libertadores foi melhor. Balançou as redes seis vezes: uma contra o Corinthians no Pacaembu (2 a 0 Fla), duas contra o Nacional uruguaio no Maracanã (4 a 0 Fla), três na vitória contra o Deportivo Táchira na Venezuela pelas oitavas de final (3 a 2 Fla), mais uma no jogo de volta no Maracanã (5 a 0 Fla) e outra na vitória de 2 a 1 sobre o Boca Juniors no Rio, pelas quartas de final.

O título continental não veio, com a eliminação diante dos xeneizes com derrota na Bombonera, numa partida com arbitragem caseira do uruguaio Ernesto Filippi (marcou pênalti discutível contra o Fla logo no início, inverteu faltas, invalidou um gol de Marquinhos e expulsou Wilson Gottardo e o próprio Gaúcho por reclamação – o pacote completo). Mas o centroavante saiu por cima, artilheiro da competição com seus oito gols. Curiosamente, logo depois teria passagem relâmpago pelo próprio Boca, emprestado pelo Flamengo para disputar apenas os dois jogos da decisão do Campeonato Argentino, o qual o clube azul e amarelo perderia nos pênaltis para o Newell’s Old Boys.

Retornando ao Fla, daria prosseguimento a sua grande temporada pelo segundo semestre, com o título da edição inaugural da Copa Rio – na qual marcou um dos gols na decisão contra o Americano (3 a 0 Fla) – e a consagração definitiva no Estadual. Agora dirigido pelo mestre Carlinhos, o Violino, o centroavante fez grande dupla de frente com o garoto Paulo Nunes, além de ser permanentemente municiado com ótimos lançamentos de Junior, Marcelinho, Marquinhos, Djalminha e Nélio, e sobretudo os cruzamentos na medida dos laterais Charles Guerreiro e Piá.

o artilheiro cabeçaArtilheiro fanfarrão e falastrão, Gaúcho era do estilo que gostava de antecipar seus feitos: em setembro de 1991, o Flamengo vinha de um jejum de oito partidas sem vencer o Botafogo pelo Campeonato Estadual. “Pode ter certeza de que isso acaba no domingo”, anunciou. Dito e feito. O camisa 9 marcou o gol da vitória por 2 a 1, em jogo pela Taça Guanabara. Também costumava batizar seus tentos: na Taça Rio daquele ano marcou contra o São Cristóvão o “gol asa-delta”, dias depois de saltar da rampa da Pedra Bonita, em São Conrado, Zona Sul carioca. E foi um dos primeiros a lançar mão das coreografias – como o trenzinho e o “aí eu vou pra galera”, uma referência ao personagem Seu Boneco, do humorístico Escolinha do Professor Raimundo – para comemorar os gols, que marcariam o futebol brasileiro a partir daquela década.

Como reza a cartilha do goleador folclórico, também não dispensava uma provocação pelos jornais. Ou, quando confrontado, respondia em campo. Ainda em setembro daquele ano, num jogo contra o Vasco, não poupou ironia e língua afiada para criticar a violência do meia Geovani. Quando Nélio marcou o segundo gol da vitória rubro-negra por 2 a 1, aos 25 minutos do segundo tempo, o centroavante pegou a bola, correu e entregou nas mãos do armador cruzmaltino. “Quis mostrar que nós estávamos ali para jogar futebol, o que o Geovani não queria, e ainda mandei dois beijinhos para ele como forma de comemoração. Ele ficou o tempo inteiro provocando, dando tapas fora dos lances e fazendo faltas sempre muito violentas”, criticou, antes de arrematar, de sola: “Daquele tamanho não pode ficar fazendo muita gracinha. Pensa que é alguma coisa porque jogou fora do Brasil? Pra mim, foi passear. E ainda voltou para perder mais uma”, espinafrou.

gaúcho - vasco 1991Na reta final daquele Estadual, enciumado com o destaque dado a Gaúcho, o centroavante botafoguense Chicão resolveu alfinetar, chamando o rubro-negro de “cavalo paraguaio”, enquanto se comparava a um “puro sangue inglês”, que “larga depois para chegar na frente” na corrida dos goleadores. A resposta não tardou: Gaúcho marcaria o gol da vitória (1 a 0) sobre o Botafogo no jogo extra que decidiu a Taça Rio, num tirambaço da entrada da área que alijou os alvinegros da disputa pelo tri Carioca (foi o gol “beijinho, beijinho, tchau, tchau”, como definiu o centroavante em alusão ao bordão da apresentadora Xuxa). E como se não bastasse, terminou novamente na liderança da tabela de artilheiros, com 17 gols – três a mais que sua própria marca do ano anterior e quatro à frente do botafoguense. Antes daquela partida, aliás, já havia sacado outra pérola do repertório de frases. Perguntado se o Flamengo temia o rápido atacante botafoguense Valdeir, apelidado The Flash, Gaúcho cunhou um apelido para si e seu jogo aéreo letal: “Se eles têm The Flash, nós temos The Flyer (o voador)”.

ENFIM O TÍTULO BRASILEIRO

Poucos goleadores estiveram tão inspirados quanto o centroavante rubro-negro naquele ano de 1991. Terminou a temporada como artilheiro da Taça Libertadores, da Supercopa e do Campeonato Estadual (com um gol na vitória por 4 a 2 sobre o Fluminense na decisão), além de novamente ser o principal goleador rubro-negro, com 35 gols. A forma excepcional continuou pelo começo de 1992: nas cinco primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, disputado no primeiro semestre, o centroavante balançou as redes quatro vezes, duas delas em um jogaço no Maracanã contra o poderoso São Paulo de Telê Santana, atual campeão brasileiro e em vias de conquistar a Taça Libertadores. No entanto, depois do início arrasador vieram a má fase técnica e uma distensão na coxa esquerda que o tirou de ação por quase dois meses. Das 12 partidas do Fla no Brasileiro entre o fim de fevereiro e o de maio, ele disputou apenas quatro, passando em branco em todas. Chegou a desperdiçar um pênalti na derrota de 0 a 1 para o Bragantino no Maracanã.

Tudo isso foi devidamente deixado para trás na reta final da primeira fase, com uma grande atuação contra o Goiás no Maracanã, pela penúltima rodada, em 24 de maio: dois gols na vitória por 3 a 1, crucial para manter as chances de classificação rubro-negras para as semifinais. Nesta próxima fase, o camisa 9 marcou apenas uma vez, na vitória de 3 a 1 sobre o Santos, na última rodada. Mas foi fundamental: além de ter forçado o segundo gol do Flamengo – marcado contra, de cabeça, pelo volante Bernardo -, o goleador selou a classificação rubro-negra, que andara ameaçada, marcando o terceiro, no fim do jogo.

A decisão contra o Botafogo, favorito pela campanha que havia feito até ali e contando com a simpatia da crônica esportiva pelo estilo ofensivo, foi histórica. Até porque o Flamengo se lembrou de que estava diante de um recente freguês de caderno: agora já não perdia para o rival da Estrela Solitária há seis jogos (que chegariam a oito após a final). E Gaúcho reencontraria o velho parceiro Renato, um dos principais símbolos da boa campanha alvinegra, com quem resolveu fazer uma aposta antes da primeira partida: quem perdesse o jogo pagaria um churrasco ao vencedor.

Em campo, o Flamengo deitou e rolou. Destruiu o Botafogo ainda no primeiro tempo com gols de Junior, Nélio e Gaúcho – em lance típico, antecipando-se ao goleiro Ricardo Cruz com uma cabeçada certeira, após cruzamento preciso de Piá – em pouco menos de 40 minutos. No dia seguinte, o pagamento da aposta virou matéria no Globo Esporte e polêmica das grossas nos jornais, com a torcida botafoguense furiosa, exigindo a demissão de Renato – no que foi atendida. No jogo da volta, o Fla chegou a abrir 2 a 0, deixando o adversário empatar no fim (graças a um pênalti duvidoso de Fabinho em Valdeir, apontado por José Roberto Wright). Mas nada tirou da Gávea a segunda conquista nacional de Gaúcho pelo clube.

O OCASO DO GOLEADOR

Infelizmente a maior conquista de Gaúcho no Flamengo foi também seu último grande momento com as cores rubro-negras. No opaco Campeonato Carioca de 1992, disputado sem Maracanã, em reparos após a tragédia que matou torcedores antes da decisão do Brasileiro, o centroavante entrou em campo apenas 15 vezes, marcando só quatro gols – todos na Taça Guanabara. Para 1993, teria de volta o velho companheiro Renato, trazido pelo Fla do Cruzeiro, mas outro reforço seria o também centroavante Nílson, ex-Grêmio, Inter, Portuguesa e Corinthians. Com o clube brigando em nada menos que três frentes apenas naquele primeiro semestre (Estadual, Copa do Brasil e Libertadores ao mesmo tempo), havia a necessidade de revezamento do elenco – embora se aventasse até a possibilidade de o time, ainda dirigido por Carlinhos naquele começo de ano, entrar com dois homens de área.

Mas Gaúcho fez apenas 10 gols (sete pelo Carioca, um pela Copa do Brasil e dois pela Libertadores) nos 28 jogos em que participou (em oito deles vindo do banco). Balançou a rede vestindo rubro-negro pela última vez no dia 10 de maio, na vitória por 3 a 1 sobre o Bonsucesso, em Moça Bonita, pela Taça Rio. Em junho, fora dos planos do treinador Evaristo de Macedo – já então o terceiro do clube naquele ano hiperbólico em números e vazio em títulos – acabou negociado com o pequeno Lecce, recém-promovido à Série A italiana, que vivia seu auge técnico e financeiro na época. Mas o centroavante pouco fez por lá. Depois voltou ao Brasil e rodou por vários outros clubes, inclusive o rival Fluminense, até pendurar as chuteiras em 1996, aos 32 anos.

Depois de quase 20 anos vivendo como criador de gado no Mato Grosso, Gaúcho reapareceu no Rio em 2014. Matou a saudade da sede da Gávea, reviu velhos companheiros e ganhou homenagem do clube por seu aniversário antes de uma partida contra o Nova Iguaçu, pelo Carioca. Voltou a sentir o afeto da torcida rubro-negra e se emocionou – e a torcida se comoveu junto, revivendo os grandes saltos e voos do camisa 9 para balançar as redes dos adversários 98 vezes nas exatas 200 partidas disputadas pelo artilheiro com a camisa do Fla. Como ele mesmo se definiu em 1991, “a área é minha casa. Botou a bola lá, eu meto gol”. Agora, seu lugar passa a ser a eternidade dentro dos corações rubro-negros. Vai em paz, goleador.

Gaúcho e Charles Guerreiro erguem a taça do Brasileiro de 1992.

Gaúcho e Charles Guerreiro, dois símbolos de raça daquele Flamengo, erguem a taça do Brasileiro de 1992.

Sob chuva e sem gols, o primeiro Fla-Flu no Pacaembu, há 74 anos

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Manchete do Jornal dos Sports de 11 de março de 1942 anunciando o Fla-Flu "paulistano".

Manchete do Jornal dos Sports de 11 de março de 1942 anunciando o Fla-Flu “paulistano”, com destaque para os rubro-negros Zizinho e Pirillo.

E cá estamos nós novamente falando de Fla-Flu. O motivo desta vez é a realização do próximo clássico – dia 20 de março pela Taça Guanabara – no tradicional palco paulistano do Pacaembu. O fato, entretanto, não é novidade: em 12 de março de 1942 (ou seja, completando 74 anos amanhã), o duelo mais famoso do futebol carioca foi disputado no estádio, então com menos de dois anos de inaugurado, em partida válida pelo Torneio Quinela de Ouro, que reunia as três principais forças da capital bandeirante – São Paulo, Corinthians e Palestra Itália, atual Palmeiras – e a dupla carioca, hegemônica no futebol da Guanabara naquele período. Foi a primeira vez em que rubro-negros e tricolores se enfrentaram fora da cidade do Rio de Janeiro.

O jogo estava marcado originalmente para a quarta-feira, 11 de março, mas um dilúvio na cidade de São Paulo provocou seu adiamento para a noite seguinte. Não adiantou muito, já que a chuva persistiu e alagou o gramado em vários pontos. Às 21h30 da quinta, a bola iria (tentar) rolar. Havia grande expectativa da torcida paulista, já que os dois clubes traziam vários de seus astros. Pelo lado do Flamengo – mesmo sem Leônidas, em litígio com o clube – havia Domingos da Guia, Zizinho, Jayme de Almeida, Pirillo, Biguá, Perácio, Vevé, entre outros. Da parte tricolor, vieram o goleiro Batatais, o zagueiro Machado, o ponta Carreiro, além de nada menos que cinco argentinos (entre eles o zagueiro Renganeschi, futuro técnico do Fla campeão carioca em 1965).

Porém, a forte chuva afastou o público do estádio: apenas cerca de sete mil espectadores passaram pelas bilheterias do Pacaembu, que mesmo assim registrou renda um tanto expressiva, mais de 30 contos de réis (segundo a revista Esporte Ilustrado, os cartolas paulistas não permitiram novo adiamento, temendo “marmelada” entre os rivais cariocas caso a partida fosse transferida para o fim do torneio). Antes do início do jogo, a diretoria do São Paulo homenageou os dois clubes com uma placa comemorativa do primeiro clássico carioca realizado na capital paulista.

Igualmente prejudicada pela chuva que encharcou o gramado, deixando-o cheio de poças d’água, a partida não teve bom nível técnico (a mesma Esporte Ilustrado apelidou o clássico de “Fla-Flu Aquático”). Mostrando mais conjunto, o Fla atacou mais no primeiro tempo e o rival teve certo domínio no segundo, mas na análise do jornal paulistano Folha da Manhã, “em geral, o Flamengo foi superior a seu adversário e merecia ter vencido”. Pirillo e Vevé perderam boas chances na etapa inicial e, se o duelo terminou sem gols, o placar final de escanteios foi amplamente favorável aos rubro-negros: 9 a 0. Na segunda parte, a partida – apitada pelo paulista Carlos de Oliveira Monteiro, o Tijolo – ficou mais “pegada”, culminando na expulsão de Pirillo e do centromédio tricolor Spinelli – cuja rivalidade dentro de campo, já velha conhecida do futebol carioca, também foi levada a São Paulo.

O Flamengo cumpriu boa campanha no torneio – ao qual a imprensa da época também se referia como “Rio-São Paulo” – terminando invicto também diante dos clubes paulistas: venceu o São Paulo por 2 a 1 no dia 18; empatou em 1 a 1 com o Corinthians no sábado, 21; e voltou a empatar, dessa vez por 2 a 2, com o Palestra Itália no dia 25. O título, no entanto, acabou com o time do Parque São Jorge, que bateu os palestrinos por 4 a 1 na última partida. O Tricolor carioca, ao contrário dos rubro-negros, não foi bem e terminou na lanterna da competição, com apenas dois pontos.

O bom desempenho no pentagonal credenciou o Fla a despontar como forte candidato ao título do Rio, o qual acabaria conquistando e dando início ao primeiro tri carioca de sua história. E o Pacaembu ainda viria a ser palco de outras grandes exibições rubro-negras em solo paulistano.

FLAMENGO 0 x 0 FLUMINENSE

Pacaembu (São Paulo), quinta-feira, 12 de março de 1942.
Torneio Quinela de Ouro (também chamado na época de “Rio-São Paulo”).
Renda: 30:810$600 (trinta contos, oitocentos e dez mil e seiscentos réis).
Árbitro: Carlos de Oliveira Monteiro, o “Tijolo”.
Expulsões: Pirillo (FLA) e Spinelli (FLU), aos 20 minutos do segundo tempo.

Flamengo: Martinho; Domingos da Guia e Newton Canegal; Biguá, Volante e Jayme de Almeida; Pirombá, Zizinho (Nandinho), Pirillo, Perácio e Vevé. Técnico: Flávio Costa.

Fluminense: Batatais; Machado e Renganeschi; Bioró, Spinelli e Amaury; Cussati, Magnones (Helmar), Russo (Norival), Juan Carlos e Carreiro. Técnico: Ondino Viera.

Foi até covardia! Em 1976, Zico faz história no Fla-Flu das trocas

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Zico se prepara para estufar as redes tricolores e abrir a goleada.

Zico se prepara para estufar as redes tricolores e abrir a goleada.

“Jogador por jogador é uma covardia. O Fluminense esmaga. O ataque do Flamengo só tem Zico”, avalia um torcedor após o alto-falante do Maracanã anunciar as escalações. “Dá até medo ouvir isso”, diz outro, rubro-negro, no mesmo instante, em outro ponto do estádio. De fato, o Tricolor ostenta um elenco estelar nessa tarde de domingo, 7 de março de 1976. Mesmo desfalcado de Rivelino, com febre, é franco favorito para o clássico. Do outro lado, embora invicto há 16 jogos e tendo enfrentado em amistosos equipes como São Paulo, Corinthians, Internacional e Grêmio (duas vezes), o Rubro-Negro é considerado tecnicamente inferior, ainda que despontem alguns jovens bons de bola. A expectativa é de uma grande exibição da “Máquina” das Laranjeiras, com o time da Gávea servindo de sparring. Em tese.

Há no entanto um jogador no elenco rubro-negro disposto não só a equilibrar a balança do favoritismo como também chamar para si o protagonismo do clássico. É Zico, 23 anos completados na quarta-feira anterior, 3 de março. Credenciais para isso não lhe faltam: vencedor da Bola de Ouro da revista Placar como melhor jogador do Campeonato Brasileiro de 1974; artilheiro do Campeonato Carioca de 1975, com expressivos 30 gols (marca que não era alcançada no certame do Rio desde 1949); 1975 - zico-reidorioconvocado pelo técnico Oswaldo Brandão, estreia enfim na Seleção Brasileira em fevereiro de 1976 de maneira brilhante: marcando o gol da vitória nos triunfos sobre o Uruguai em Montevidéu e a Argentina em Buenos Aires, em partidas pela Copa do Atlântico. Vira “el fenómeno” para os vizinhos. E aqui no Brasil, para o cronista tricolor Nelson Rodrigues em sua coluna no jornal O Globo, vira “o melhor jogador do mundo”.

Após dois meses e meio fechado para reparos, o velho Estádio Mário Filho reabre com um Fla-Flu repleto de novidades. Ao contrário dos últimos anos, aquele início de temporada é bastante movimentado: o Fluminense, presidido pelo histriônico jurista Francisco Horta, promove várias trocas de jogadores entre quatro dos principais clubes cariocas (o America foi sondado em algumas negociações, mas acabou não participando). Ainda em 19 de dezembro de 1975, após um jantar de Horta com o presidente rubro-negro Hélio Maurício, é anunciada a troca três-por-três entre os dois clubes, na qual os tricolores levam ampla vantagem técnica. O goleiro Renato, o lateral Rodrigues Neto e o atacante Doval (os dois primeiros com passagem pela Seleção e o último, ídolo da torcida do Fla) tomam o rumo das Laranjeiras, enquanto o goleiro Roberto, o lateral Toninho e o ponta-esquerda Zé Roberto seguem para a Gávea.

Mais tarde, a troca envolve tricolores e alvinegros: o Flu cede o ponta Mário Sérgio, o atacante Manfrini e paga mais Cr$ 500 mil ao Botafogo pelo também ponta Dirceu. E por fim, a negociação com o Vasco leva para São Januário o lateral-esquerdo Marco Antônio, o volante Zé Mário e o zagueiro Abel (este por empréstimo de um ano com preço do passe fixado) em troca do beque central Miguel, além de Cr$ 1 milhão em dinheiro. Além das trocas, o Tricolor traz de volta, depois de 12 anos, o lateral-direito Carlos Alberto Torres, revelado pelo clube e contratado a princípio para atuar na zaga. Os reforços vão se juntar à base do ano anterior, que conta com astros de primeira grandeza como Rivelino e Paulo César Caju, o veterano arqueiro Félix, o ponta “Búfalo” Gil e bons jovens como o zagueiro Edinho e os meias Carlos Alberto Pintinho, Cléber e Erivelto.

Observado por Vanderlei, Paulinho e Tadeu, o técnico gaúcho Carlos Froner comanda treino na Gávea em fevereiro de 1976.

Observado por Vanderlei, Paulinho e Tadeu, o técnico gaúcho Carlos Froner comanda treino na Gávea em fevereiro de 1976.

O Fla-Flu, marcado para 7 de março, Dia do Cronista Esportivo, vale a Taça Nelson Rodrigues e também é bastante comentado. Doval, jogando pela primeira vez contra o clube que o fez ídolo no Rio de Janeiro, promete “pelo menos dois gols”. Seria a vingança do atacante após um desentendimento com o técnico rubro-negro, o gaúcho Carlos Froner – ainda que o argentino se recuse a tocar no nome do treinador. Do outro lado está o agora rubro-negro Toninho, lateral de potência física invejável, muito bom no apoio pelas pontas até a linha de fundo, mas a quem o técnico tricolor Didi insistia teimosamente em fazer com que atuasse fechando pelo meio no apoio, o que matava sua característica de fôlego e explosão. Na semifinal do Brasileiro do ano anterior, Toninho atuara – mal – fazendo a função que o treinador queria e acabaria culpado por ele da derrota e da eliminação diante do Internacional. Para Didi, Toninho tinha “bloqueio mental”.

O mundo dá voltas, e naquele 7 de março Didi é o demissionário técnico do Fluminense, que já anunciou outro ex-craque, Jair Rosa Pinto, para o posto. O velho Jajá de Barra Mansa assiste ao jogo das cabines do Maracanã. Além dele, outros quase 88 mil torcedores, animados com aquele aperitivo de luxo para a temporada, comparecem ao Maior do Mundo. O Tricolor leva a campo, orgulhoso, os três ex-rubro-negros que levou na troca: Renato no gol, Rodrigues Neto na lateral direita (o ex-juvenil Carlinhos ocupa o lado esquerdo) e Doval no comando do ataque. Já o técnico rubro-negro Carlos Froner, como que para evidenciar a desvantagem sofrida na negociação, escala apenas Toninho entre os titulares. Roberto fica no banco, na reserva do prata-da-casa Cantarele, e Zé Roberto, voltando de lesão, nem é relacionado.

Mas não demora muito e a suposta inferioridade técnica do Flamengo é plenamente superada com organização tática, defesa bem postada, muita luta e a atuação deslumbrante de seu camisa 10, comandando as ações. Aos 14 minutos, Paulinho desce pela direita, centra, Renato não segura, e a bola – que procura o craque – pousa aos pés de Zico para o chute forte do garoto de Quintino, estufando a rede e abrindo o placar. 1 a 0, assim termina o primeiro tempo, placar modesto diante do banho de bola rubro-negro.

zico 1976 - primeiro gol

Após o intervalo, logo no início surge a chance do empate tricolor quando Merica toca a bola com a mão dentro da área. Pênalti apontado pelo árbitro Aírton Vieira de Morais, o Sansão. Carlos Alberto Torres bate e iguala o placar. Mas o 1 a 1 é ilusório. Até que vem uma falta para o Fla na intermediária tricolor aos 20 minutos. Barreira armada, empurra daqui, catimba dali e Zico, responsável pela cobrança, apenas olha. Dá dois passos. E a bola sobrevoa as cabeças tricolores, faz uma curva inesperada e indescritível e vai morrer bem no ângulo de Renato. 2 a 1.

Desorganizado, o Fluminense vai todo à frente, deixando apenas três jogadores na retaguarda. No buraco entre o setor defensivo e o meio-campo tricolor, Zico e Geraldo deitam e rolam, trocando passes, lances de efeito e abrindo as jogadas pelas pontas (por onde descem com liberdade não só Paulinho e Luís Paulo, como também os laterais Toninho e Junior). Rendido pelas tramas do ataque rubro-negro, Carlos Alberto Torres comete pênalti no 10 rubro-negro aos 22, mas Sansão deixa passar. Não faz mal. Três minutos depois, Caio Cambalhota, o substituto de Paulinho na ponta direita, avança pelo setor, tenta o passe para Zico, a bola estoura na coxa do Capita no meio do caminho, mas sobra à feição do Galinho, que dispara um petardo. 3 a 1.

zico 1976 - terceiro gol

E tinha mais. Aos 35, o Fla troca passes. Bola de pé em pé, passando por quase todos jogadores. Na entrada da área, chega aos pés de Geraldo. E com um sutil e magistral toque de calcanhar, o Assoviador deixa Zico na cara do gol. É caixa. 4 a 1. O Flamengo então passa a administrar o resultado, mas o Galinho dá bronca e quer jogo. No fim, quase faz mais um. Mas de qualquer maneira, já está na história. Com a sacolada desse 7 de março de 1976, o jogador torna-se o primeiro – e até hoje único – jogador a marcar quatro vezes num Fla-Flu na Era Maracanã. E ainda iguala o recorde histórico do clássico, empatando com os quatro marcados por Pirillo em junho de 1945 e pelo tricolor Simões em janeiro de 1949. Após o jogo, nos vestiários, o Galinho e os jogadores do Fla recebem a visita do cantor rubro-negro Jorge Ben, que mostra a canção que acabara de compor: “É falta na entrada da área / Adivinha quem vai bater? / É o camisa 10 da Gávea”…

zicovardiaNo dia seguinte, o Jornal dos Sports resume a atuação do craque numa manchete até hoje lembrada na primeira página: “Mengo tocou o Rolo, a galera cantou: – Enguiçou a Máquina, Doutor Horta? QUE ZICOVARDIA, PÔ!”.

Ao longo daquele ano, o time do Fluminense vai se ajeitar e conquistar o bicampeonato carioca – sem derrotar o Flamengo nenhuma vez, é bom que se diga, a exemplo do ano anterior – antes de cair nas semifinais do Brasileiro nos pênaltis diante do Corinthians em pleno Maracanã. Mas será um grande time de fôlego curto, e já em 1977, embora mantenha muitas de suas estrelas, estará em franca decadência.

Ao contrário do Flamengo, que logo a seguir iniciará o período mais vitorioso de sua história, levantando todos os títulos que a paparicada Máquina Tricolor não chegou nem perto de conquistar. Ao contrário de Toninho, o do “bloqueio mental”, que se destacará como um lateral-ponta na Gávea, disputará a Copa do Mundo de 1978 pelo Brasil, será convocado para uma Seleção do Mundo que enfrenta a Argentina em Buenos Aires em junho de 1979 e levantará o título brasileiro com o Fla no ano seguinte. E ao contrário de Zico, que naquele 7 de março de 1976 deu início a uma longa série de humilhações impostas ao clube das Laranjeiras. Zico em Fla-Flu era até covardia.

FLAMENGO 4 X 1 FLUMINENSE

Maracanã (Rio de Janeiro), domingo, 7 de março de 1976
Taça Nelson Rodrigues (amistoso)
Público pagante: 87.529 – Renda: Cr$ 1.576.143
Árbitro: Aírton Vieira de Morais
Cartão amarelo: Paulo César Caju

Gols: Zico aos 14 (1-0) do primeiro tempo. Carlos Alberto Torres, de pênalti, aos 8 (1-1), Zico aos 20 (2-1), 25 (3-1) e 35 (4-1) do segundo tempo.

Flamengo: Cantarele; Toninho (Vanderlei), Rondinelli, Jaime e Junior; Merica, Geraldo e Zico; Paulinho (Caio), Luisinho Lemos (Tadeu) e Luís Paulo. Técnico: Carlos Froner.

Fluminense: Renato; Rodrigues Neto, Carlos Alberto Torres, Edinho e Carlinhos; Carlos Alberto Pintinho, Cléber e Erivelto; Gil, Doval e Paulo César Caju. Técnico: Didi.